quinta-feira, 21 de setembro de 2017

23/09/2017
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SER CRISTÃO É SER TERRA FÉRTIL PARA A SEMENTE DA PALAVRA DIVINA
Sábado da XXIV Semana Comum


Primeira Leitura: 1Tm 6,13-16
Caríssimo, 13 diante de Deus, que dá a vida a todas as coisas, e de Cristo Jesus, que deu o bom testemunho da verdade perante Pôncio Pilatos, eu te ordeno: 14 guarda o teu mandato íntegro e sem mancha até a manifestação gloriosa de nosso Senhor Jesus Cristo. 15 Esta manifestação será feita no tempo oportuno pelo bendito e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores, 16 o único que possui a imortalidade e que habita numa luz inacessível, que nenhum homem viu, nem pode ver. A ele, honra e poder eterno. Amém.


Evangelho: Lc 8,4-15
Naquele tempo, 4 reuniu-se uma grande multidão, e de todas as cidades iam ter com Jesus. Então ele contou esta parábola: 5 “O semeador saiu para semear a sua semente. Enquanto semeava, uma parte caiu à beira do caminho; foi pisada e os pássaros do céu a comeram. 6 Outra parte caiu sobre pedras; brotou e secou, porque não havia umidade. 7 Outra parte caiu no meio de espinhos; os espinhos cresceram juntos, e a sufocaram. 8 Outra parte caiu em terra boa; brotou e deu fruto, cem por um”. Dizendo isso, Jesus exclamou: “Quem tem ouvidos para ouvir ouça”. 9 Os discípulos lhe perguntaram o significado dessa parábola. 10 Jesus respondeu: “A vós foi dado conhecer os mistérios do Reino de Deus. Mas aos outros, só por meio de parábolas, para que olhando não vejam, e ouvindo não compreendam. 11ª parábola quer dizer o seguinte: A semente é a Palavra de Deus. 12 Os que estão à beira do caminho são aqueles que ouviram, mas, depois, vem o diabo e tira a Palavra do coração deles, para que não acreditem e não se salvem. 13 Os que estão sobre a pedra são aqueles que, ouvindo, acolhem a Palavra com alegria. Mas eles não têm raiz: por um momento acreditam; mas na hora da tentação voltam atrás. 14 Aquilo que caiu entre os espinhos são os que ouvem, mas, com o passar do tempo são sufocados pelas preocupações, pela riqueza e pelos prazeres da vida, e não chegam a amadurecer. 15 E o que caiu em terra boa são aqueles que, ouvindo com um coração bom e generoso, conservam a Palavra, e dão fruto na perseverança”.
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Estar Com A Verdade e Proteger a Vida É Estar Com Deus Em Jesus Cristo


Diante de Deus, que dá a vida a todas as coisas, e de Cristo Jesus, que deu o bom testemunho da verdade perante Pôncio Pilatos, eu te ordeno: guarda o teu mandato íntegro e sem mancha até a manifestação gloriosa de nosso Senhor Jesus Cristo”, é uma das frases na conclusão da Primeira Carta de São Paulo sua primeira Carta ao Timóteo.


Hoje concluímos a leitura da Primeira Carta ao Timóteo com uma “doxologia”, louvor final com o tom escatológico, pois o olhar é dirigido para a última vinda do Senhor.


Nesta “doxologia” São Paulo, em primeiro lugar, reconhece que estamos sempre “diante de Deus, que dá a vida a todas as coisas”. As criaturas vivas tem a origem de sua vida em Deus, pois o próprio Deus é que dá vida “a todas as coisas”. O Deus que Jesus dá a conhecer é um Deus doador de vida e que deseja que as pessoas voltem a nascer de dentro com novos valores de vida e de justiça. Santo Agostinho nos dá o seguinte conselho: “Confia em Deus; Ele sempre dá o que promete. Sabe o que promete, porque é a verdade. Pode prometer porque é onipotente. Dispõe de tudo porque é a própria vida. Oferece todas as garantias porque é eterno” (In ps. 35,13).


Quando estivermos conscientes de que estamos sempre diante de Deus que dá a vida a todas as coisas, viveremos numa profunda paz e na alegria exultante. Consequentemente, estaremos longe de todo tipo de desespero e de desesperança. De fato, estaou sempre diante de uma Presença misteriosa que me dá a vida, que me anima. Qual será nossa resposta? É o louvor. É o agradecimento. É a esperança na luta de cada dia por aquilo que protege a vida.


Também somos seguidores “de Cristo Jesus, que deu o bom testemunho da verdade perante Pôncio Pilatos”. Nossa modesta profeissão de fé tem como exemplo a que Jesus professou diante de Pilatos e daqueles que o julgam: “Meu reino não é deste mundo...No entanto sou Rei. Para isso eu nasci e para isso eu vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18,36-37). Toda busca da verdade, toda reta busca doutrinal ou moral é uma busca de Jesus. Toda vez que eu cumprir meu dever com retidão de vida, toda vez que afirmar a verdade e defendê-la, eu estrei diante de Jesus. Nisto serei testemunha da verdade. Se eu fizer assim, de alguma forma, estou pronto para acolher Jesus na sua segunda vinda para este mundo.


Passar a Vida Fazendo ou Produzindo o Bem


A Parábola da semente, que cai em terras férteis, áridas, entre espinhos, à beira do caminho, na verdade, não precisa de muito comentário, pois é conhecida por todos e por todos é valorizada como expressão daquilo que deve ser nossa resposta à graça de Deus, à Palavra de Deus, à fé, dando frutos de boas obras. O próprio Jesus deu a explicação sobre o sentido da parábola.


Acreditamos firmemente que a Palavra de Deus é poderosa, tem força interior e força transformadora para a vida de qualquer ser humano. Por causa dessa Palavra poderosa muitos se tornaram santos e mártires; muitos se dedicaram sua vida para o bem dos necessitados; muitos se tornaram voluntários e missionários além da fronteira. Porém, seu fruto depende também de nós, porque Deus respeita nossa liberdade, não atua violentando vontades e queimando etapas. Acolher a Palavra de Deus com um coração nobre e generoso e perseverar na sua meditação e em sua obediência resulta na transformação total da vida de quem a acolhe. Por isso, essa parábola somente requer uma leitura meditativa de nossa parte.


A Palavra de Deus é poderosa, tem força interior. Mas seus fruto depende também de nós, porque Deus respeita nossa liberdade. Deus jamais atua violentando vontades e queimando etapas. Acolher a Palavra com um coração nobre e generoso e perseverar em sua meditação e em sua obediência (pôr em prática) é o que Jesus espera de cada um de nós.


Façamos, então, as seguintes perguntas:


- Será que sou caminho trilhado por todo tipo de tentações, coração que pisoteia nobres sentimentos de amor, de justiça, de paz, de solidariedade, de oblação pelos demais?


- Será que sou uma vida complicada e amarga, indiferente, egoísta, que não retém sentimentos de piedade, compaixão e altruísmo?


- Será que sou uma pessoa enredada ou entrelaçada na mata brava cheia de ervas nocivas e espinhosas que não quer abrir mão dos interesses mesquinhos que me tornam sem liberdade e leveza na minha convivência com os demais?


- Quanto tenho na minha alma de “terra fecunda”, com fome de Deus, sede de justiça e de retidão, de respeito mútuo, de espírito de serviço para o bem de todos?


Façamos frutificar a semente da verdade e do amor e teremos uma vida cheia de felicidade e faremos os outros felizes e anteciparemos a vida eterna já aqui na terra, pois a felicidade é o projeto de Jesus para todos nós (cf. Mt 5,1-12); Jo 10,10). Que nosso coração seja uma terra fecunda regada pelo Espírito de Deus para purificá-lo de todos os males que nele fazem seu ninho. Assim seremos úteis para Deus porque somos úteis para os outros.


Cada Palavra de Deus que lemos e escutamos todos os dias é uma semente plantada por Deus no coração de cada um de nós. E Deus espera os frutos dessa semente. Os frutos dependem de tipo de coração que cada um tem: pode ser um coração duro como pedra que nele não pode esperar nada de bom; pode ser um coração cheio de espinhos que fere e machuca os demais; pode ser um coração como estrada onde nada se cresce, pois os pés e outros veículos pisam sobre ele permanentemente; mas pode ser um coração fértil que dele só saem coisas boas para o bem de todos. Afinal, que tipo de coração você tem?


Vamos fazer mais perguntas. Quando eu escuto na Eucaristia a Palavra de Deus, ou seja, quando o Semeador, Cristo, semeia Sua Palavra em mim (no campo da minha vida), posso dizer que ela cai em bom terreno na minha vida? O que é que a Palavra de Deus que escuto me interpela? Qual apelo de Deus para mim através de Sua Palavra?  A Palavra de Deus que eu escuto e medito produz alguma mudança na minha vida e convivência?


Tal como a chuva e a neve caem do céu e para lá na voltam sem ter regado a terra, sem a ter fecundado... assim acontece à Minha Palavra que Minha boca profere: não volta sem ter produzido seu efeito...”, diz o Senhor Deus (Is 55,10-11).


Deus espera de nós um coração bom e bem disposto capaz de dar fruto permanente. Deus não quer que sejamos terrenos estéreis. Deus que sejamos comprometidos totalmente com Seu Evangelho apesar das perseguições e críticas e manifestemos que a Palavra de Deus posta na vida é a única capaz de nos salvar e de dar-lhe um novo rumo à história. A Palavra de Deus na produz fruto de um modo violento. O Senhor que de nós pessoas capazes de se deixar guiar pelo Seu Santo Espírito, santificar por Sua Palavra de tal modo que sejamos construtores de um mundo que dia após dia vai se renovando no amor, na verdade, na justiça, na solidariedade, na misericórdia. Se nossa fé nos leva a um verdadeiro compromisso com o Reino de Deus que Jesus nos anunciou, devemos nos converter em semeadores de Sua Palavra em todos os ambientes em que se desenvolve nossa vida. nós que cremos em Cristo não podemos passar a vida sentados e queixando-nos porque nosso mundo se vai deteriorando e piorando cada vez mais. Temos que fazer nossa a Palavra de Deus. quando a Palavra de Deus se tornar carne e sangue em nós, seremos bons semeadores e haverá muito frutos. As palavra movem, mas o exemplo arrasta as pessoas para se tornarem sócios do bem. Deus não condena quem não pode fazer o que quer, mas quem não quer fazer o que pode” (Santo Agostinho: Serm. 54,2). Mas “A Palavra de Deus se converte em teu inimigo quando tu és amigo da perversidade” (Santo Agostinho: In ps. 35,1).


P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 19 de setembro de 2017

22/09/2017
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HOMENS E MULHERES SÃO CHAMADOS A SER EVANGELIZADORES
Sexta-Feira da XXIV Semana Comum


Primeira Leitura: 1Tm 6,2c-12
Caríssimo, 2c ensina e recomenda estas coisas. 3 Quem ensina doutrinas estranhas e discorda das palavras salutares de nosso Senhor Jesus Cristo e da doutrina conforme à piedade, 4 é um obcecado pelo orgulho, um ignorante que morbidamente se compraz em questões e discussões de palavras. Daí é que nascem invejas, contendas, insultos, suspeitas, 5 porfias de homens com mente corrompida e privados da verdade que fazem da piedade assunto de lucro. 6 Sem dúvida, grande fonte de lucro é a piedade, mas quando acompanhada do espírito de desprendimento. 7 Porque nada trouxemos ao mundo como tampouco nada poderemos levar. 8 Tendo alimento e vestuário, fiquemos satisfeitos. 9 Os que desejam enriquecer caem em tentação e armadilhas, em muitos desejos loucos e perniciosos que afundam os homens na perdição e na ruína, 10 porque a raiz de todos os males é a cobiça do dinheiro. Por se terem deixado levar por ela, muitos se extraviaram da fé e se atormentam a si mesmos com muitos sofrimentos. 11 Tu que és um homem de Deus, foge das coisas perversas, procura a justiça, a piedade, a fé, o amor, a firmeza, a mansidão. 12 Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado e pela qual fizeste tua nobre profissão de fé diante de muitas testemunhas.


Evangelho: Lc 8,1-3
Naquele tempo: 1 Jesus andava por cidades e povoados, pregando e anunciando a Boa Nova do Reino de Deus. Os doze iam com ele; 2 e também algumas mulheres que haviam sido curadas de maus espíritos e doenças: Maria, chamada Madalena, da qual tinham saído sete demônios; 3Joana, mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes; Susana, e várias outras mulheres que ajudavam a Jesus e aos discípulos com os bens que possuíam.
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Viver Conforme a Doutrina De Cristo Transmitida Pela Igreja É Uma Maneira De Combater As Falsas Doutrinas


Quem ensina doutrinas estranhas e discorda das palavras salutares de nosso Senhor Jesus Cristo e da doutrina conforme à piedade, é um obcecado pelo orgulho, um ignorante que morbidamente se compraz em questões e discussões de palavras. Daí é que nascem invejas, contendas, insultos, suspeitas, porfias de homens com mente corrompida e privados da verdade que fazem da piedade assunto de lucro”, adverte São Paulo para Timóteo.


Entre as preocupações do responsável de uma comunidade está também a defesa contra os falsos mestros que ensinam doutrinas falsas que provocam divisões na comunidade.


Por isso, ao final de sua Carta, São Paulo, novamente, adverte a Timóteo sobre o extravio dos falsos mestres (1Tm 6,3-10). E pede a Timóteo para que permaneça firme na fé, viva sem mancha e sirva fielmente (1Tm 6,11-16).


Pela terceira vez o Apóstolo Paulo fala contra os falsos mestres (cf. 1Tm 1,3-20; 4,1-11), pois eles representam uma série de ameaças para a comunidade cristã, para uma sã doutrina transmitida pelo próprio Senhor Jesus Cristo. São Paulo quer relembrar Timóteo que a doutrina da Igreja não é diferente da doutrina do Senhor, porque Este, uma vez em Sua glória, permanece com sua Igreja todos os dias até o fim do mundo (cf. Mt 28,20). O Senhor enviou o Espirito Santo à Igreja para que ela ensinasse e recordasse o que o Senhor tinha dito (cf. Jo 14,26). Separar-se da doutrina de Cristo, separar-se da doutrina da Igreja conduz sempre o cristão ao erro e à doutrina falsa. Somente a fé inquebrantável na Palavra do Senhor, tal como ensina a Igreja, somente a firmeza nela, podem preservar os membros da Igreja do extravio e do erro.


Nossa época se caracteriza por uma confusão extraordinária de opiniões. Tem-se a impressão de que não existe a “verdade”. Quase se pode afirmar uma coisa e seu contrário. Os maiores valores, os princípios mais sagrados, a fé, o amor, a esperança são discutidos. Vivemos no meio de intoxicações de todos os tipos. Portanto, é preciso que os cristãos se atenham mais e mais à Palavra de Deus que nos salva e nos leva à eternidade.


Dentro da falsa doutrina, um dos temas que São Paulo ataca com dureza é sobre os que consideram a religião como uma fonte da ganância e consequentemente, buscam riquezas e criam necessidades absurdas e nocivas. Para são Paulo “a raiz de todos os males é a cobiça do dinheiro”. Quantas vezes São Paulo fala do perigo da avareza! A atitude de Timóteo deve ser dar exemplo com sua vida pessoal: praticar a justiça, o amor, a paciência, combate o bom combate da fé.


São Paulo apresenta ao Timóteo algumas características dos mestres falsos: dominados pelo orgulho e inveja, gostam de discussões mórbidas e de demonstrar a sabedoria, mas longe da humanidade e privados da verdade; têm uma mente corrompida; aproveitam-se da piedade para se lucrar. O mestre falso é “um doente à procura de controvérsias e discussões de palavras”.


A “enfermidade” de que fala São Paulo é certamente a enfermidade de nossa época e de nossa Igreja contemporânea: rivalidades, conflitos de grupos, divisões entre as pastorais e assim por diante.


A pior condenação do “desvio doutrinal”, da “contra verdade” é, segundo São Paulo, que o homem que o profere é um arrogante, cheio de si mesmo e que não sabe de nada. Creio que ninguém quer ser amigo de um arrogante, pois a própria arrogância não admite a verdade.


Será que este tipo de “mestres” se encontram nas nossas comunidades? Como podemos combatê-los? Será que entre os líderes de nossas comunidades há alguns destes “mestres falsos”?


Viver o Presente Em Função Da Vida Eterna


Nada trouxemos ao mundo como tampouco nada poderemos levar. Foge das coisas perversas, procura a justiça, a piedade, a fé, o amor, a firmeza, a mansidão... Conquista a vida eterna, para a qual foste chamado”, são as sábias palavras de São Paulo dirigidas ao Timóteo. Trata-se também de uma resposta sábia de São Paulo para os gananciosos deste mundo.


Partindo do tema sobre as falsas doutrinas e a ganância pelo dinheiro como a raiz de todos os males, São Paulo nos dá um pequeno tratado sobre uma vida digna:
  • Primeiro, contentar-se com o que se tem no momento. É um princípio básico da sabedoria.
  • Segundo, não trouxemos nada para este mundo e nada poderemos levar deste mundo quando terminar nossa caminhada neste mundo. O cofre não acompanha o caixão.
  • Terceiro, a felicidade é coisa fácil para os que sabem viver modestamente: “Tendo alimento e vestuário, fiquemos satisfeitos”, escreveu São Paulo.
  • Quarto, os que querem enriquecer-se, cairão no laço de uma serie de cobiças e de desejos absurdos e terminarão no sofrimento. “Por se terem deixado levar pela ganância, muitos se extraviaram da fé e se atormentam a si mesmos com muitos sofrimentos”, escreveu São Paulo.
     
    Foge das coisas perversas, procura a justiça, a piedade, a fé, o amor, a firmeza, a mansidão... Conquista a vida eterna, para a qual foste chamado”. Portanto, o que se pede é o despojamento total dos bens materiais. Podemos tê-los, mas eles não podem nos possuir. Despojar-se das coisas materiais é para partilhá-las com os que não têm nada (amor). Partilhar é um ato que prolonga a generosidade de Deus- Criador que criou tudo de graça para o bem do ser humano (nada trouxemos e nada levaremos). E também é um alerta para ninguém colocar o ouro e a parta acima de Quem os criou (esforçar-se para consquistar a vida eterna). Isso seria uma idolatria, e a idolatria tem pés de barro.Não te inquietes, quando um homem fica rico e aumenta a opulência de sua casa; pois ao morrer não levará nada consigo, nem seu prestígio poderá acompanhá-lo” nos relembra o Salmo Responsorial de hoje (Sl 48).
     
    Homens e Mulheres São Chamados a Ser Evangelizadores
     
    Jesus andava por cidades e povoados, pregando e anunciando a Boa Nova do Reino de Deus. Os doze iam com ele; e também algumas mulheres...”.
     
    No texto do evangelho deste dia, evangelista Lucas afirma que, com os Doze, havia um grupo de mulheres que seguiam a Jesus. O evangelista Lucas é o único que menciona os nomes das mulheres que acompanhavam Jesus ao longo de suas viagens. Essas mulheres são um bom símbolo das incontáveis mulheres que ao longo dos séculos deram na Igreja testemunho de uma fé rica e generosa: religiosas, leigas, missioneiras, catequistas, ministras extraordinárias da comunhão eucarística, as celebrantes, as mulheres testemunhas qualificadas para o matrimônio,  mães de família, enfermeiras, doutoras, mestras e assim por diante, que ajudaram Jesus em vida e que colaboraram eficazmente na missão da Igreja, cada uma a partir de sua situação, entregando seu tempo, seu trabalho e também sua ajuda econômica. Temos que agradecer a Deus pelo empenho de tantas mulheres na missão evangelizadora. O papel das mulheres na Igreja de Jesus hoje em dia já um fato incontestável.
     
    Lucas é designado como “o Evangelho das mulheres”. Ele dá atenção e valoriza a mulher, precisamente por ela ser como “menor”, “pobre”. Por não ser valorizado a mulher fazia parte dos “pequenos” e marginalizados. Entre os quatro evangelistas, Lucas é aquele que mais dignifica, valoriza, enaltece e exalta o papel da mulher.
     
    Para Deus Eu Tenho Nome e Sou Chamado Pelo Nome
     
    Maria Madalena, Joana e Suzana! São nomes das mulheres, segundo o texto do evangelho deste dia, que também acompanhavam Jesus no seu trabalho de levar a Boa Nova para todos, especialmente para os excluídos da sociedade. Uma é casada, Joana, a mulher de Cuza, alto funcionário de Herodes. Outra é uma mulher renascida à vida nova graças à intervenção de Jesus que a resgatou da morte (libertada de sete demônios, segundo o evangelho), Maria Madalena. E a terceira, Suzana, é uma discípula da qual somente sabemos seu nome, mas que estava lá.
     
    Maria Madalena, Joana e Suzana! Para o evangelista Lucas é muito importante mencionar seus nomes. Ter nome é ter dignidade, é ser gente! Ter nome é ser alguém e não ser número. É ser pessoa. Ter nome é ter personalidade. Chamar alguém e ser chamado pelo nome é sinal de intimidade. Entre dois amigos os títulos ficam de lado; cada um é chamado pelo nome. Em casa cada um tem seu nome e é chamado pelo nome e não pelo titulo. Para Deus eu tenho nome e Deus me chama pelo nome: “Eu te chamo pelo nome, és meu” (Is 43,1). E que meu nome está gravado na palma da mão de Deus e por isso, Ele jamais me esquecerá: “Pode uma mulher esquecer-se daquele que amamenta? Não tem ternura pelo fruto de suas entranhas? E mesmo que ela o esquecesse, eu não te esquecerei nunca. Eis que estás gravado na palma de minhas mãos” (Is 49,15-16). Deus nunca pode olhar Sua mão sem ver o meu nome. E meu nome quer dizer EU mesmo. Sou feliz por eu ser o que sou para Deus. Para sociedade em geral posso não ter nome, mas para Deus eu tenho nome. Eu sou uma pessoa e não um número para Deus. Quantas vezes saia dos lábios de Jesus os seguintes nomes: Maria Madalena, Joana, Suzana. Jesus as chamava pelo nome.
     
    Diante de Deus Todos São Iguais
     
    Maria Madalena, Joana e Suzana são seguidoras de Jesus junto com os doze Apóstolos. Esta frase tinha um grande peso para a sociedade da época de Jesus.
     
    Na Palestina a estrutura social era patriarcal. Ou na linguagem mais popular: uma sociedade machista. O pai era o único que tinha direito de dispor, dar ordens, castigar, pronunciar as orações, oferecer os sacrifícios. A mulher era considerada em tudo inferior ao homem. Ela pertence completamente ao seu “dono”: ao pai, se for solteira; ao marido, se for casada; ao cunhado solteiro, se for viúva sem filhos (Dt 25,5-10).
            
    No Templo e na sinagoga homens e mulheres ficavam rigorosamente separados: as mulheres sempre em lugares inferiores, secundários. O culto na sinagoga era celebrado apenas caso houvesse ao menos 10 homens. As mulheres não contavam, por mais numerosas que fossem.
           
    A mulher não podia atuar como testemunha num tribunal, nem como testemunha de acusação. Apoiando-se em Gn 18,11-15, consideravam que seu testemunho carecia de valor por causa de sua inclinação à mentira. Os rabinos da época excluíam as mulheres do circulo de seus discípulos.
     
    Jesus se levanta contra esse sistema sociorreligioso, dominante e opressivo para a mulher. Com sua atuação concreta, Jesus dá à mulher o seu devido lugar na vida social e religiosa. Para sua época essa atitude era considerada revolucionária e audaciosa! O que tem por trás da atitude de Jesus é o amor. E o amor é capaz de fazer até o impossível (cf. Jo 3,16). Tendo acompanhado Jesus desde o começo de seu ministério público, como os Doze, as mulheres discípulas eram iguais aos homens para o anúncio da Boa Nova (cf. Jo 4,28-29). Para Jesus, a mulher tem a mesma dignidade, categoria e direitos que o homem. Por isso, Jesus admite em sua comunidade homens judeus e mulheres judias com os mesmos direitos de aprender, de ser discípulos-discípulas, seguidores-seguidoras de Jesus pelo Reinado de Deus. As exigências e responsabilidades do seguimento são iguais para todos, homens e mulheres. A tradição nos relata que as primeiras aparições do Ressuscitado foram feitas para as mulheres (Lc 24,10) e precisamente às que Lucas anota no texto do evangelho deste dia.
     
    Que belo é ver como desde as origens apostólicas, Jesus conta com as mulheres em plano de igualdade. Não faz plano machista do seguimento. Cria uma comunidade mista.
     
    As mulheres não são meras assistentes dos homens e sim autênticas protagonistas da vida e missão da Igreja. Atuar de outra maneira é infidelidade ao Senhor que desde o princípio contou com elas. Elas serviam, punham seus bens ao serviço de Jesus e sua missão.
     
    A Palavra de Deus de hoje quer nos enfatizar que todos, mulheres e homens, são chamados de igual maneira a proclamar a Boa Notícia. O Reino de Deus é uma Boa Notícia. No meio da superabundância de notícias ruins, o cristão e a cristã, a exemplo de Cristo, devem pregar a Boa Notícia. Martin Luther King dizia que o grande problema não é o avanço da maldade ou do mal, mas o silêncio dos bons. Em certo sentido, ficar calado pode ser até uma manifestação da prudência. Mas se ficar calado diante da maldade pode significar a cumplicidade.
     
    Homens e mulheres são chamados a colaborar na evangelização a partir de seu próprio talento e de outras contribuições como as três mulheres citadas no evangelho deste dia. Assim um completa o outro para uma perfeita evangelização. Victor Hugo escreveu que o homem e a mulher se complementam para edificar a dignidade de um ser humano. Evangelizar significa dignificar a vida humana. Deveríamos ser mais abertos em nossa ideia teológica e social da Igreja. A Igreja do Senhor é de todas as pessoas de boa vontade para levar adiante a causa de Jesus: homens e mulheres, jovens e adultos, crianças e adolescentes. Não só de uma etnia, mas pluralista. Todos os cristãos temos algo em comum: fé e ação evangelizadora. “Todo aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe” (Mt 12,49-50).

     P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

21/09/2017
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SEGUIR A JESUS PARA SER SEU DISCÍPULO-MISSIONÁRIO
FESTA DE SÃO MATEUS, APÓSTOLO E EVANGELISTA



21 de Setembro


Leitura - Ef 4,1-7.11-13
Irmãos: 1 Eu, prisioneiro no Senhor, vos exorto a caminhardes de acordo com a vocação que recebestes: 2 Com toda a humildade e mansidão, suportai-vos uns aos outros com paciência, no amor. 3 Aplicai-vos a guardar a unidade do espírito pelo vínculo da paz. 4 Há um só Corpo e um só Espírito, como também é uma só a esperança à qual fostes chamados. 5Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo, 6um só Deus e Pai de todos, que reina sobre todos, age por meio de todos e permanece em todos. 7Cada um de nós recebeu a graça na medida em que Cristo lha deu. 11E foi ele quem instituiu alguns como apóstolos, outros como profetas, outros ainda como evangelistas, outros, enfim, como pastores e mestres. 12Assim, ele capacitou os santos para o ministério, para edificar o corpo de Cristo, 13até que cheguemos todos juntos à unidade da fé e do conheci mento do Filho de Deus, ao estado do homem perfeito e à estatura de Cristo em sua plenitude.


Evangelho: Mt 9,9-13
Naquele tempo: 9 Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado na coletoria de impostos, e disse-lhe: 'Segue-me!' Ele se levantou e seguiu a Jesus. 10 Enquanto Jesus estava à mesa, em casa de Mateus, vieram muitos cobradores de impostos e pecadores e sentaram-se à mesa com Jesus e seus discípulos. 11 Alguns fariseus viram isso e perguntaram aos discípulos: 'Por que vosso mestre come com os cobradores de impostos e pecadores?' 12 Jesus ouviu a pergunta e respondeu: 'Aqueles que têm saúde nóo precisam de médico, mas sim os doentes. 13 Aprendei, pois, o que significa: `Quero misericórdia e não sacrifício'. De fato, eu não vim para chamar os justos, mas os pecadores'.
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No dia 21 de setembro celebramos a festa de São Mateus, Apóstolo e Evangelista. O seu nome hebraico significa "dom de Deus. A tradição da Igreja antiga concorda na atribuição a Mateus da autoria do primeiro Evangelho. Isto acontece já a partir de Papias (+140 d.C), Bispo de Hierápoles na Frígia por volta do ano 130. Ele escreveu: "Mateus reuniu as palavras (do Senhor) em língua hebraica, e cada um as interpretou como podia" (em Eusébio de Cesareia, Hist. eccl. III, 39, 16). Como Apóstolo Mateus está sempre presente nos elencos dos Doze escolhidos por Jesus para serem apóstolos (cf. Mt 10, 3; Mc 3, 18; Lc 6, 15; At 1, 13).


Mateus desempenhava a profissão de publicano (cobrador de impostos) e por isso era considerado pecador público (publicano), excluído da convivência. Mas tudo mudou quando Jesus o chamou: "Segue-me!". Não há nada que seja mais salvador para um pecador do que ouvir a chamada de Deus para viver novamente o caminho da felicidade e de salvação. Mateus experimentou isso. E Mateus respondeu prontamente ao chamado: ele se levantou e seguiu a Jesus. De cobrador de impostos tornou-se imediatamente discípulo de Cristo. De "último" passou a ser "primeiro", graças à lógica de Deus que amou a todos de igual maneira! A base da chamada de Deus é amor, e o amor desconhece a discriminação. Nisto percebemos que os planos humanos são totalmente diferentes do plano de Deus: "Os meus projetos não são os vossos projetos e os vossos caminhos não são os meus caminhos", diz o Senhor (Is 55, 8). Se dependesse dos planos humanos (especialmente dos fariseus e escribas) Mateus, como um publicano, jamais poderia ser discípulo do Senhor. O encontro de Jesus com Mateus, o publicano, foi um escândalo para os escribas e fariseus que andavam espiando os passos de Jesus para colocá-Lo contra o povo. Mas o Senhor chama a quem Ele quiser para estar com Ele a fim de ser seu discípulo/Apóstolo. E Mateus, que sem dúvida nenhuma, havia visto e ouvido Jesus pregando em várias ocasiões, se decidiu a abandonar seu posto de trabalho de publicano para seguir, definitivamente, a Jesus até a morte. Desde então, a casa de Mateus em Cafarnaum foi escolhida por Jesus para descansar de suas excursões apostólicas na Galileia.


Mateus é um cristão de origem judaica. Seu conhecimento do Antigo Testamento (AT), suas citações literais do AT (ao todo 44), suas alusões ao AT (cerca de 130), seus hebraísmos ou aramaísmos (cerca de 329) mostram claramente que se trata de um judeu convertido ao cristianismo. Mateus escreveu seu evangelho em língua grega entre anos 80-85 depois de Cristo, provavelmente em Antioquia da Síria, uma das mais importantes cidades do Império romano (500.000 habitantes), cidade conhecida por suas escolas, a cidade que, após a destruição de Jerusalém, se tornou a mãe das igrejas e centro de expansão do Cristianismo. Foi ali que, pela primeira vez, os discípulos de Jesus foram designados como “cristãos” (cf. At 11,26. E foi de Antioquia que Paulo e seus companheiros empreenderam as três viagens missionárias (cf. At 13,1-3). Destinatários do seu evangelho são cristãos convertidos do judaísmo e cristãos convertidos do gentilismo (paganismo). Isso indica que a comunidade destinatária é mista. O evangelho de Mateus possui 28 capítulos com um total de 1.068 versículos e 18.278 palavras.


O Evangelho de Mateus ocupa o primeiro lugar na sequência atual dos livros do Novo Testamento, porque o evangelho de Mateus foi o Evangelho mais lido, mais comentado, mais rezado e mais divulgado nos dois primeiros séculos do Cristianismo. Mateus é o evangelho preferido da Igreja dos primórdios. “De todos os escritos do Novo Testamento, o Evangelho de Mateus foi o que exerceu a influência mais generalizada e profunda na literatura cristã que vai até as últimas décadas do século II” (E. Masseax). Prova disto é o uso de Mateus feito pela Didaquê, o primeiro catecismo cristão escrito entre os anos 90-100 depois de Cristo: o Pai-Nosso que ali encontramos se baseia sobre Mt 6,9-13 (e não sobre Lc 11,2-4); os seis primeiros capítulos de Didaquê são profundamente influenciados pelo Sermão da Montanha (Mt 5,1-7,29). Prova desta mesma influência são os numerosos comentários que surgiram sobre Mateus nos primeiros séculos: Hipólito de Roma (+235 d.C); Orígenes (+254 d.C); Santo Ambrósio (+397 d.C), São Jerônimo (+420 d.C); Santo Agostinho (+ 430 d.C) e assim por diante. Somente a partir do século III, o Evangelho de Lucas começou a ser aceito por todas as comunidades. Dai porque as festas da Ascensão e Pentecostes (que constam apenas em Lucas) apareceram pelo ano 350 d.C.
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O texto do evangelho lido na festa de São Mateus nos relatou que depois da cura do paralítico Jesus se encontrou com Mateus, cobrador de impostos e o chamou para segui-lo: “Segue-me!”. Trata-se de um homem que o povo detesta, pois é um colaborador do governo romano na cobrança de impostos. Os publicanos se enriquecem, especialmente, a custo dos pobres. Por isso, é uma profissão odiada.


Qualquer pessoa pode perguntar-se: “Como pode Deus estar presente em certos ambientes, como o de Mateus, especialmente tão repugnantes, maus ou perversos, em certas situações injustas como a vida vivida pelo publicano Mateus?”. Deus se encontra ali para curar, para salvar: “Quero misericórdia e não sacrifício”. Todo o Evangelho, quando se trata de Deus, nos urge que saibamos ultrapassar a noção de justiça e descobrir a Misericórdia infinita de Deus pelos pecadores. Deus não se cansa de perdoar e de se encontrar com os pecadores, os perdidos da vida para salvá-los, pois Jesus, o Deus-Conosco, veio para chamar e salvar os pecadores.


Como Jesus transformou os pescadores de peixes em pescadores de homens, assim também transformou um cobrador de impostos, um pecador público num “escriba do Reino de Deus”, num discípulos e mais ainda, num apóstolo.  Quem entra na esfera de Jesus deixa de ser como antes. Por isso, é preciso definir a que seguimos e a quem seguimos na vida para antecipar qual resultado final deste seguimento?


Jesus chama Mateus para segui-lo: “Segue-me” (Mt 9,9). E ele o segue (Mt 9,9). Ele diz a mesma coisa para Simão e André (Mt 4,19) e para Tiago e João (Mt 4,21). O termo “seguir” (akoloutheo, em grego) aparece 90 vezes no NT, das quais 11 vezes se encontram fora dos Evangelhos (em Atos, 4 vezes; em Ap, 6 vezes; e o resto em 1Cor 10,4). Nos evangelhos este termo se refere ao seguimento de Jesus (no total 73 vezes).


O verbo “seguir”, em sentido próprio, significa “ir atrás de alguém”; e no sentido figurado significa “ser discípulo”, “ir em seguimento de alguém”. Seguir significa andar, avançar, ver mais, aprender mais. Quem andar, quem caminhar vai encontrar muita coisa no caminho. Quem fica parado e paralisado vê menos.


Seguir a Jesus significa romper todo o passado, abandonar tudo (cf. Mt 4,18-22;9,9s;19,21; Lc 9,61; Mc 10,28), submetendo-se com fé e obediência à salvação oferecida em Cristo. Seguir também tem sentido de imitação. Neste sentido seguir significa unir-se com Jesus numa comunhão de vida e de destino; é modelar-se segundo o exemplo de Jesus (cf. Jo 13,15.34;15,12;1Ts 1,6;1Cor 11,1;Ef 5,2;1Jo 2,6 etc.). Assim, seguir a Jesus não é apenas aderir a um ensinamento moral e espiritual, mas compartilhar sua sorte. Por isso, Jesus exige o desapego total: renunciar às riquezas e à segurança, deixar os familiares (Mt 8,19-22;10,37;19,16-22), sem esperar o retorno (troca ou retribuição). Ao exigir de seus discípulos um tal sacrifício, Jesus se revela como Deus, única garantia, e revela integralmente até que ponto vão as exigências de Deus. Pode ser que seja até o sacrifício da cruz e até se sentir abandonado pelos outros, como Jesus sentiu (Mt 26,56).


A partir deste sentido, somos convidados a refletir sobre o nosso seguimento de Cristo. Até que ponto nós estamos dentro deste padrão? Em outras palavras, o que significa para nós hoje seguir a Jesus? Para responder esta pergunta, devemos responder outra pergunta: quem é Jesus a quem seguimos?  


Seguir a Jesus é viver a sua vida. E a vida de Jesus foi marcada particularmente por amor ao Pai e aos homens, especialmente aos mais necessitados. Seu relacionamento profundo com o Pai se traduz na prática da solidariedade com os marginalizados e pecadores. Seguir a Jesus é viver segundo o seu projeto. Ele quer que as relações humanas e sociais se baseiem sobre a justiça, o amor, a fraternidade e o perdão. Tudo isso se tornará realidade, se o homem se descobrir como filho de um Pai amoroso. Seguir a Jesus é estar pronto para viver o Seu destino. Viver segundo o projeto de Jesus leva o seguidor a viver o martírio. O martírio é o preço a pagar pela fidelidade à causa jamais traída. Quem se propõe a seguir a Jesus deve estar pronto também para viver a bem-aventurança das perseguições (Mt 5,10s).


Ao ouvir a chamada do Senhor Mateus prontamente aceitou o convite. Não só a prontidão para seguir a Jesus, mas a prontidão para limpar seu coração de toda a maldade praticada, pois ele era um cobrador de impostos e por isso, era um ladrão diplomado, pecador público, ladrão do bem comum. Ele deixa seu coração livre e limpo para que o Senhor possa usá-lo para o bem do seu Reino. O fruto maior de sua conversão para nós hoje é o evangelho que ele escreveu sobre a vida de Jesus: O evangelho de Mateus. Através do seu evangelho conhecemos o Jesus em quem acreditamos, como Emanuel, Deus Conosco (Mt 1,23; 18,20; 28,20).


Hoje é o dia mais adequado para recordar nosso particular “segue-me”. É o dia em que celebramos uma festa por nosso nome, pois Deus nos chama pelo nome. Diante de Deus cada um tem nome e Deus chama cada um pelo nome (cf. Is 43,1; Jo 10,3). É o dia adequado para recordar a maneira que Deus chamou cada um de nós. O seguimento é a expressão prática da fé/adesão. Mas temos que estar conscientes de que esse chamamento é permanente. Quem não tem tempo para ouvir Deus permanentemente, vai ouvir somente desgraças dos outros e do mundo. Quem não presta para Deus, não presta para os outros. Mas quem presta para os outros é porque no seu coração mora Deus, mesmo que ele não tenha nenhuma religião. Temos que confessar que o que determina a nossa salvação não é aquilo que rezamos, pois pode acontecer que façamos apenas monólogos nas nossas orações. A oração feita é um compromisso assumido para viver de acordo com o Espírito de Deus. Ninguém crê impunemente. O que determina nossa salvação é o nosso comportamento diário, nossa maneira de viver e de conviver de acordo com o bem praticado (cf. Mt 25,31-46).


P. Vitus Gustama,svd

20/09/2017
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VIVER NA SABEDORIA DE DEUS
Quarta-Feira da XXIV Semana Comum


Primeira Leitura: 1Tm 3,14-16
Caríssimo, 14 escrevo com a esperança de ir ver-te em breve. 15 Se tardar, porém, quero que saibas como proceder na casa de Deus, que é a Igreja de Deus vivo, coluna e fundamento da verdade. 16 Não pode haver dúvida de que é grande o mistério da piedade: Ele foi manifestado na carne, foi justificado no espírito, contemplado pelos anjos, pregado às nações, acreditado no mundo, exaltado na glória!


Evangelho: Lc 7,31-35
Naquele tempo, disse Jesus: 31 “Com quem hei de comparar os homens desta geração? Com quem eles se parecem? 32 São como crianças que se sentam nas praças, e se dirigem aos colegas, dizendo: ‘Tocamos flauta para vós e não dançastes; fizemos lamentações e não chorastes!’ 33 Pois veio João Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e vós dissestes: ‘Ele está com um demônio!’ 34 Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e vós dizeis: ‘Ele é um comilão e beberrão, amigo dos publicanos e dos pecadores!’ 35 Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos”.
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O Deus Da Vida Habita Na Comunidade e É o Senhor Da Comunidade


Quero que saibas como proceder na casa de Deus, que é a Igreja de Deus vivo, coluna e fundamento da verdade. Não pode haver dúvida de que é grande o mistério da piedade: Ele foi manifestado na carne, foi justificado no espírito, contemplado pelos anjos, pregado às nações, acreditado no mundo, exaltado na glória!”, escreveu São Paulo a Timóteo no texto que lemos na Primeira Leitura.


Mesmo que tenha a intenção de visitar Timóteo em Éfeso, São Paulo não perde oportunidade de dar alguns conselhos a Timóteo, responsável por aquela comunidade, a respeito da comunidade e de Cristo.


No texto de hoje há dois pontos teológicos que São Paulo quer destacar: a comunidade (Igreja) e o mistério de Cristo.


A comunidade (Igreja) é “templo de Deus”, “assembleia de Deus vivo” e “coluna e base da verdade”. O próprio Deus, que possui a plenitude da vida e tem o poder de dar a vida, habita na comunidade dos que creem:Quero que saibas como proceder na casa de Deus, que é a Igreja de Deus vivo, coluna e fundamento da verdade”. A Igreja/Comunidade é o lugar onde o Deus da vida habita. E os membros da Igreja/Comunidade têm a missão de proteger e respeitar a vida em todas as suas instâncias, pois em cada vida Deus está. Deus não está longe dos cristãos e sim está com eles, “Pois onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (Mt 18,20). Esta revelação divina é uma grande alegria e um consolo sem tamanho para nossas lutas de cada dia. Não somos solitários nas nossas lutas, pois Deus está sempre conosco (cf. Mt 28,20). Ao mesmo tempo, esta revelação é um guia nosso de cada dia para endireitar nosso comportamento e nossas escolhas, pois como cristãos “Se estamos vivos, é para o Senhor que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Portanto, vivos ou mortos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,8). O Deus santíssimo que habita na Comunidade (Igreja) não tolerará que sua casa seja profanada e destruída: “Não sabeis que sois um templo de Deus e que o Espirito de Deus habita em vós? Se alguém destrói o templo de Deus, Deus o destruirá. Pois o templo de Deus é santo e esse templo sois vós” (1Cor 3,16-17; cf. 1Cor 6,19).


Em outras palavras, a comunidade é sagrada; é assembleia de Deus e não nossa; é a despositária da verdade e dos melhores dons de Deus. Os ministros, que de alguma forma exercem algum encargo, não são donos da graça nem da Palavra de Deus nem da comunidade e sim seus servidores. A missão dos responsáveis é apascentar as ovelhas do Senhor: “Apascenta as MINHAS ovelhas” (Jo 21,17). Todos pertencem ao Senhor. Jesus Cristo é o Senhor das ovelhas.


O outro ponto teológico que São Paulo quer destacar no texto de hoje é Cristo. Cristo é que dá sentido à evangelização e à vida da comunidade: “É grande o mistério da piedade: Ele foi manifestado na carne, foi justificado no espírito, contemplado pelos anjos, pregado às nações, acreditado no mundo, exaltado na glória!”. É como um credo breve ou um hino que abarca o caminho salvador de Jesus Cristo desde Sua encarnação até sua glorificação (ressurreição).


Precedido de uma breve fórmula na citação, o fragmento celebra o “grande mistério da piedade”, isto é, o plano da revelação salvífica de Deus levado a cabo por Jesus Cristo. E este breve hino ou pequeno credo está construído mediante três breves estrofes articuladas em estilos contrapostos e binários: carne-espírito; anjos-nações; mundo-glória. A vida inteira de Jesus, o mistério da piedade é contemplada em suas diversas frases, mas pondo em destaque a dimensão gloriosa e universal.


O eco deste texto é uma doxologia que encerra a série de exortações dirigidas ao responsável da comunidade (Cf. 1Tm 6,13-16). No marco desta visão teológica e cristológica se coloca o retrato do pastor ideal (reponsável ideal da comunidade). O centro da Carta ocupa a série de instruções para a eleição dos responsáveis de guiar a comunidade. São indicadas dezesseis qualidades: seis negativas e dez positivas, através das quais se define a figura ideal do responsável da Comunidade/Igreja (Cf. 1Tm 3,1-7). O que impressiona nesta lista de dotes é o destaque que se dá à maturidade humana e espiritual, definida não somente pelo autocontrole e pela moderação, segundo um modelo grego-helenistico, e sim pela capacidade de estabelecer relações justas.


Analogicamente, também nas qualidades requeridas para os candidatos ao diaconato, homens e mulheres, é posto o acento sobre o equilíbrio humano e espiritual (cf. 1Tm 3,8-13; Tt 1,6). Também a regra para os presbíteros obedece a este critério da maturidade humana e espiritual (1Tm 5,17-25). Por isso, é recomendado ao responsável delegado pelo Apóstolo que proceda a um cuidadoso discernimento na eleição dos candidatos antes de “impor-lhes as mãos” (1Tm 5,22), pois através deste gesto ritual, que apela à tradição bíblica, transmite-se não somente o encargo de guiar, mas também que se obtem o dom espiritual correspondente (carisma).


Em resume, pode-se dizer que o autor da Carta, baseando-se numa sólida tradição, propõe um modelo de Igreja em que se vivem as relações justas definidas pela caridade fraterna. Neste marco se coloca o testemunho crível da verdade cristã diante do ambiente externo.


Será que na escolha dos candidatos para o presbítero, dos coordenadores das comunidades e das pastorais em nossas paróquias ou comunidades há o acento sobre a maturidade humana e espiritual?


Viver Na Sabedoria É Viver De Acordo Com o Desígnios De Deus


Com quem hei de comparar os homens desta geração?”, começa Jesus seu ensinamento no texto do evangelho deste dia. Sabemos que o termo ou a expressão “essa geração” na boca de Jesus é o resultado de um juízo. A expressão “essa geração” tem um tom de condenação na boca de Jesus. É uma alusão à geração do povo eleito que atravessava o deserto de Sinai que duvidava da presença de Deus apesar das evidências de Sua providência (cf. Sl 96; Dt 32, 5.20).


“Veio João Batista, que não comia pão nem bebia vinho, e vós dissestes: ‘Ele está com um demônio!’ Veio o Filho do Homem, que come e bebe, e vós dizeis: ‘Ele é um comilão e beberrão, amigo dos publicanos e dos pecadores!’”.


Jesus foi criticado e censurado porque mostrou sua solidariedade com os pecadores e os marginalizados da sociedade. Comer juntos significava nivelar as relações. Jesus come com os pobres e pecadores porque eles tem a mesma dignidade. Não pode haver a diferença onde há a mesma substância. Somos todos seres humanos. A única diferença entre nós é a função ou papel que cada um desempenha na sociedade. Jesus se aproxima dos pobres e pecadores, pois Ele veio para trazer a salvação para todos (cf. Lc 4,14-21). Ele veio por amor à humanidade. O amor une o ateu e o religioso, aproxima o rico do pobre, cria ponte entre o idoso e o jovem, une o céu e a terra, e leva alguém para o céu, pois Deus é amor (cf. 1Jo 4,8.16). “Cada qual sabe amar a seu modo; o modo, pouco importa; o essencial é que saiba amar” (Machado de Assis). Em conseqüência desse amor, Jesus não mudou de comportamento apesar das criticas e das maledicências dos seus adversários. Jesus tem objetivo claro: quer salvar todos os homens. Por isso, Jesus viveu em função de Seu objetivo e não em função das criticas. Em Jesus se revelou a sabedoria de Deus que é sempre solidária com a humanidade carente de salvação.


É uma atitude muito diferente da dos fariseus que mantinham distância das categorias sociais consideradas impuras para não ficarem contaminados. Esta atitude mostra a arrogância religiosa dos fariseus. Trata-se de uma atitude desrespeitosa para com os outros e conseqüentemente para Deus, pois Deus está nos pequenos (cf. Mt 25,40.45; 1Cor 3,16-17). A prática do culto sem o compromisso de uma conduta coerente engana os outros e é um ópio que adormece a própria consciência. Qualquer prática religiosa não pode ser mais importante do que o próprio Deus e do que o próprio ser humano a quem Deus amou tanto (cf. Jo 3,16). Um Deus banalizado torna absoluto o que é relativo e o homem se engana buscando o absoluto onde ele não está. O mais próximo do absoluto está em você mesmo e em seus irmãos. O próximo é a passagem obrigatória para chegar até Deus.


Os pobres, os excluídos e os pecadores não tinham nenhuma dificuldade para ouvir a Palavra de Deus a eles dirigida. Com a ajuda da Palavra de Deus eles reconstruíam sua própria dignidade. Faltava-lhes, até então, alguém que pudesse dirigir a palavra de esperança para eles. Jesus era para eles o Salvador. Jesus era Aquele que eles esperavam.


A pregação de Jesus é bastante alegre. Na sua alegre pregação ele coloca a penitência e a exigência divina. Ele come e bebe normalmente. Anuncia o Reino de Deus como um banquete. Um quinto do evangelho de Lucas fala de comida ou de banquete para enfatizar que no Reino de Deus há somente a fraternidade, pois todos são filhos e filhas do mesmo Pai, e há somente a alegria, pois é uma festa que não tem fim.


Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos”, conclui Jesus no seu ensinamento. A sabedoria da qual se fala aqui não se trata de ciência, mas trata-se daquilo que corresponde ao desígnio salvador de Deus a respeito do homem e do mundo (cf. Jo 3,16). E esse desígnio se realiza nas pessoas que têm a docilidade ao Espírito de Deus. E essa docilidade se encontra nos simples, nos pequenos, nos despretensiosos. Por isso, Jesus volta aqui a usar uma idéia mais cara: “os pequenos”, “os filhos”. Os pequenos possuem muito mais sabedoria do que os que se dizem entendidos, como os escribas, pois os pequenos vivem na simplicidade (cf. Mt 11,25-28). A simplicidade é um valor alto para Jesus e para a humanidade. Por causa do valor tão alto da simplicidade Jesus chegou a fazer uma oração de agradecimento: “Eu Te louvo, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste essas coisas aos sábios e entendidos, e a revelaste aos pequeninos” (Lc 10,21).  Todos os simples são verdadeiros amigos de Jesus e amigos dos outros. O simples atrai a simpatia dos outros e as bênçãos de Deus.


Mas a sabedoria foi justificada por todos os seus filhos”, disse-nos Jesus.  Aprendemos o saber com os mestres, cursos, livros... A sabedoria, aprendemos com a vida cotidiana. Cada dia de nossa vida é uma página de nossa vida. Em cada página de nossa vida aprendemos algo para a construção de nossa vida e convivência. É preciso fazer leitura de nossa vida de cada dia para tirar alguma lição para nossa sabedoria. Mas temos muita consciência de que “O que sabemos é uma gota; o que ignoramos é um oceano” (Isaac Newton). “A parte que ignoramos é muito maior que tudo quanto sabemos” (Platão). Porém, “O início da sabedoria é a admissão da própria ignorância. Todo o meu saber consiste em saber que nada sei” (Sócrates).


Para Nossa reflexão:
  • Se Jesus é o amigo da simplicidade, será que você é um cristão simples ou um cristão falso e vaidoso que simula as virtudes que não existem? “A soberba gera a divisão. A caridade, a comunhão” (Santo Agostinho). Santo Agostinho nos faz a seguinte pergunta: “O nome cristão traz em si a conotação de justiça, bondade, integridade, paciência, castidade, prudência, amabilidade, inocência e piedade. Como tu podes explicar a apropriação de tal nome se tua conduta mostra tão poucas dessas muitas virtudes?”.
  • Jesus é chamado também de “amigo dos pecadores”, pois ele se aproxima deles para salvá-los e devolver sua dignidade de filhos de Deus. Que atitude nós temos em relação àqueles que erraram ou cometeram algum pecado na vida: afastá-los ou nos aproximar deles, a exemplo de Cristo?
  • A pregação de Jesus é alegre, pois fala da fraternidade, do banquete onde as relações se nivelam. Que tipo de pregadores nós somos: da alegria ou da desgraça?
  • Com quem hei de comparar os homens desta geração? Com quem eles se parecem?”, perguntou Jesus retoricamente. De que geração somos, ou pertencemos a qual geração? Qual será nossa resposta se fizermos a mesma pergunta para a geração da qual fazemos parte?

    P.Vitus Gustama,svd