terça-feira, 17 de outubro de 2017

19/10/2017
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SER VERDADEIRO CRISTÃO É SER JUSTO E PURO DE CORAÇÃO E QUE ANUNCIA E DENUNCIA
Quinta-Feira da XXVIII Semana Comum


Primeira Leitura: Rm 3,21-30
Irmãos, 21 agora, sem depender do regime da Lei, a justiça de Deus se manifestou, atestada pela Lei e pelos Profetas; 22 justiça de Deus essa, que se realiza mediante a fé em Jesus Cristo, para todos os que têm a fé. Pois diante desta justiça não há distinção: 23 todos pecaram e estão privados da glória de Deus, 24 e a justificação se dá gratuitamente, por sua graça, em virtude da redenção realizada em Jesus Cristo. 25 Deus destinou Jesus Cristo a ser, por seu próprio sangue, instrumento de expiação mediante a realidade da fé. Assim Deus mostrou sua justiça em ter deixado sem castigo os pecados cometidos outrora, 26 no tempo de sua tolerância. Assim ainda ele demonstra sua justiça no tempo presente, para ser ele mesmo justo, e tornar justo aquele que vive a partir da fé em Jesus. 27 Onde estaria, então, o direito de alguém se gloriar? — Foi excluído. Por qual lei? Pela lei das obras? — Absolutamente não, mas, sim, pela lei da fé. 28 Com efeito, julgamos que o homem é justificado pela fé, sem a prática da Lei judaica. 29 Acaso Deus é só dos judeus? Não é também Deus dos pagãos? Sim, é também Deus dos pagãos. 30 Pois Deus é um só.


Evangelho: Lc 11,47-54
Naquele tempo, disse o Senhor: 47Ai de vós, porque construís os túmulos dos profetas; no entanto, foram vossos pais que os mataram. 48 Com isso, vós sois testemunhas e aprovais as obras de vossos pais, pois eles mataram os profetas e vós construís os túmulos. 49 É por isso que a sabedoria de Deus afirmou: Eu lhes enviarei profetas e apóstolos, e eles matarão e perseguirão alguns deles, 50 a fim de que se peçam contas a esta geração do sangue de todos os profetas, derramado desde a criação do mundo, 51 desde o sangue de Abel até o sangue de Zacarias, que foi morto entre o altar e o santuário. Sim, eu vos digo: serão pedidas contas disso a esta geração. 52 Ai de vós, mestres da Lei, porque tomastes a chave da ciência. Vós mesmos não entrastes, e ainda impedistes os que queriam entrar”. 53 Quando Jesus saiu daí, os mestres da Lei e os fariseus começaram a tratá-lo mal, e a provocá-lo sobre muitos pontos. 54 Armavam ciladas, para pegá-lo de surpresa, por qualquer palavra que saísse de sua boca.
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Deus é Justo Para Todos


Diante da justiça de Deus não há distinção: todos pecaram e estão privados da glória de Deus, e a justificação se dá gratuitamente, por sua graça, em virtude da redenção realizada em Jesus Cristo”.


Esta é a tese que São Paulo vai repetindo na sua Carta aos Romanos, e o mesmo tema podemos encontrar na Carta aos Gálatas. Para ele, todos nós somos pecadores e somos salvos gratuitamente por Deus em Jesus Cristo: “todos pecaram e estão privados da glória de Deus, e a justificação se dá gratuitamente, por sua graça, em virtude da redenção realizada em Jesus Cristo”. Para São Paulo não há como o homem se salva com os próprios recursos. O homem que somente confiar nos próprios recursos sem contar com Deus, um dia conhecerá a amargura de uma queda. Para ser salvo e se manter na graça, o homem precisa da intervenção prodigiosa do Deus Pai de Jesus Cristo.


Todos pecaram e estão privados da glória de Deus, e a justificação se dá gratuitamente, por sua graça, em virtude da redenção realizada em Jesus Cristo”. Também nós devemos nos sentir perdoados por Deus, salvos gratuitamente por Ele em Jesus Cristo morto e ressuscitado por nós. Não creiamos que tenhamos direito à salvação por nossas “obras meritórias”. A salvação não se compra a base de boas obras. Esta boas obras temos que fazê-las, mas não são as que nos salvam a modo de paga. Tanto “judeus como gregos’, os que pertencem ao povo israelita como os que não, todos nós estamos em dívida com Deus e temos que agrader-Lhe por que nos salvou ao enviar Jesus como Redentor para nos resgatar do domínio do pecado. São Paulo na outra carta escreveu: “Pela graça de Deus, sou o que sou, e a graça que ele me deu não tem sido inútil” (1Cor 15,10ª). “A justificação é um dom de Deus. Mas não nos é concedida sem nossa colaboração. Nossa é a vontade; sua é a graça. A justiça de Deus existe sem nós, mas nos é aplicada sem nós”, dizia Santo Agostinho (Serm. 169, 11,13). A força salvadora de Deus se tornou realidade em Jesus Cristo morto e ressuscitado.


Aparece no texto de hoje a palavra “justiça”, “justo”, “justificação”, “justificado”.


O conceito de justiça constitui uma das peças mais básicas e, ao mesmo tempo, mais complexas da linguagem moral. Porque com ele, sempre nos referimos ao nosso relacionamento com os outros, seja indivíduos, grupos e até mesmo a ordem social em geral. Na linguagem comum, o termo justiça traz consigo a intuição de que "as pessoas devem receber o tratamento que merecem" e, nesse sentido, a definição conhecida ainda conserva seu vigor: "Dê a cada um aquilo que é dele próprio". Ao reter sem razão o que é do outro, se comete a injustiça.


A idéia bíblica de justiça ou de retidão geralmente expressa conformidade com todas as áreas da vida de Deus: lei, governo, aliança, lealdade, integridade ética ou ações amáveis. Quando os homens aderem à vontade de Deus como expressa em Sua Lei, eles são considerados justos ou retos. Jesus ensinou que aqueles que conformam suas vidas aos seus ensinamentos também são justos, retos.


São Paulo mostra em seus escritos que a justiça está relacionada ao eixo do evento da salvação, isto é, à Morte e Ressurreição de Cristo. Ele observa que a justiça não é apenas um atributo que se aplica a Deus, mas é um fator importante que faz o homem como deveria ser em referência a Deus e outros homens.


Praticar a justiça é ser imparcial em tudo o que você faz. É ver com seus próprios olhos e não julgar algo pelo que os outros lhe dizem. A justiça significa que a pessoa recebe o que merece. Todos devem receber o que é legítimo para eles. É justo que as pessoas recebam uma punição quando fizeram o que não é justo. Também é certo que nos recompensamos quando agimos bem. Ser justo é defender seus direitos e os dos outros. Ser justo é investigar a verdade por si mesmo, aceitando o que os outros dizem apenas como uma opinião individual. Investigue os fatos com seus próprios olhos.  Quando você é justo, você age sem preconceitos, vendo cada um como a pessoa que é. Você é justo quando não toma decisões sobre os outros com base na sua etnia, nacionalidade, religião ou sexo, ou porque são ricos ou pobres e sim na base da justiça e do amor. “Diante da justiça de Deus não há distinção”, escreveu São Paulo no texto da Primeira Leitura de hoje. Quando você é justo, você admite seus próprios erros e aceita as consequências. Quando você é justo, você se defende quando é verdade e defende os outros quando eles estão certos. Quando se pratica a justiça na se faz fofocas nem críticas de costas.


É Preciso Purificarmos Nosso Coração De Todo Tipo de Podridão Para Voltar a ser justos


Continuamos a acompanhar as Lições do Caminho dadas por Jesus durante sua última viagem para Jerusalém (Lc 9,51-19,28), pois nessa cidade Ele será crucificado, morto e glorificado.


E a passagem do evangelho de hoje nos apresenta a ultima parte do conjunto de acusações de Jesus (Lc 11,37-54) contra os dirigentes oficiais judeus, os fariseus e os escribas porque eles invertem o valor das coisas. Eles vivem uma vida dupla. São denunciados pela incoerência de sua vida. As palavras de Jesus têm um tom de denúncia e por isso, trata-se de a voz de um profeta.


Nesta ultima parte encontramos os mais terríveis acusações, pois a religião dos fariseus não só camufla a morte espiritual, mas também mostra uma oposição radical aos verdadeiros porta-vozes de Deus, pois esses profetas foram assassinados. Não se pode considerar verdadeira uma religião, uma crença que usa de violência contra aos demais seres humanos. Cada verdadeira religião, cada verdadeira Igreja, cada crença verdadeira deve transformar seus adeptos em irmãos e irmãs da humanidade. Cada verdadeira religião, cada verdadeira Igreja deve manter sua função profética contra qualquer injustiça social, contra qualquer desigualdade, contra qualquer violência e assim por diante. A denúncia de Jesus, apesar de conter toda verdade, provoca o ódio feroz nos seus adversários e o próprio Jesus será vítima da própria denúncia. “Os que discutem mais que defendem a verdade, utilizam mais as desculpas que os argumentos, não se preocupam com a verdade, mas com seu próprio triunfo”, dizia Santo Agostinho (Epist. 238,2).


Mas a verdade vencerá, e o tempo vai mostrar toda a verdade. Dia virá, indeterminado, porém seguro, em que Deus pedirá contas da consciência que destruímos, da pobreza que geramos e das vidas que prejudicamos, do sangue de todos os profetas que derramamos, de todos os inocentes, sacrificados aos interesses humanos em virtude da inteligência mal empregada e da defesa de uma lei supostamente sagrada. O sagrado é o próprio ser humano, pois ele é o templo de Deus (cf. 1Cor 3,16-17; cf. Mt 25,40.45).


Ai de vós, porque construís os túmulos dos profetas; no entanto, foram vossos pais que os mataram. Com isso, vós sois testemunhas e aprovais as obras de vossos pais, pois eles mataram os profetas e vós construís os túmulos. (...) Sim, eu vos digo: serão pedidas contas disso a esta geração” (Lc 11, 47-48. 51b).


Os escribas crêem honrar os profetas assassinados fazendo-lhes esplêndidos sepulcros. Ou seja, os fariseus estão dispostos a honrar os profetas mortos, mas não fazem caso para os profetas vivos. Eles tratam os profetas de seu tempo igual ao tratamento que os seus antepassados faziam contra os verdadeiros profetas. Em outras palavras, na realidade, eles seguem o mesmo caminho (eles vão matar Jesus). Eles matarão Jesus em nome de sua interpretação sobre a lei. Possuidores da chave da ciência eles fecham o caminho da salvação aos que confiam neles e os seguem como guias. Eles preferem seus próprios caminhos ao caminho de Deus.


Ao denunciar a perseguição e a morte dos profetas antigos, Jesus denuncia antecipadamente a injustiça praticada contra Ele, no futuro próximo, exatamente, por aqueles que buscam agradar a Deus e cultivam uma suposta santidade. Isto nos mostra que a recitação de um credo e a prática do culto sem o compromisso de uma conduta coerente eticamente é um ópio que adormece a própria consciência. É um grande alerta a todos que se dizem religiosos ou fieis para que a prática religiosa não seja mais importante do que o próprio Deus e o próximo.


Que falta que os profetas nos fazem! E o Evangelho insiste: os profetas foram perseguidos, acusados e derramaram seu sangue, foram assassinados (Lc 11,49). O mundo precisa verdadeiramente dos homens e das mulheres que profetizam, isto é, que anunciam o bem e denunciam o mal e tudo que é desumano. Em um lugar e em um tempo em que carece o transcendente, o divino; em um tempo onde tantos filhos de Deus, os inocentes estão maltratados e crucificados pela fome, pela exploração, pela injustiça, pela desesperança, em um lugar onde a verdade é silenciada e distorcida, somente as vozes proféticas podem dizer algo transparente, crível capaz de chegar até o coração de cada pessoa para transformá-lo em um coração sincero, em um coração de irmão. Se nos faltarem os profetas, o testemunho cristão será opaco, sua voz será inexpressiva, suas atividades serão infecundas e frustrantes. São Paulo nos adverte: “Não extingais o Espírito; não desprezeis as profecias. Discerni tudo e ficai com o que é bom. Guardai-vos de toda espécie de mal” (1Ts 5,19-22). Necessitamos de profetas dentro da própria Igreja e fora dela da mesma forma.


Ai de vós, mestres da Lei, porque tomastes a chave da ciência. Vós mesmos não entrastes, e ainda impedistes os que queriam entrar”.


Os escribas dominam as Sagradas Escrituras. Possuidores da chave da ciência, os escribas fecharam a salvação aos que põem neles sua confiança e os seguem como guias. Eles preferem os próprios caminhos ao caminho de Deus. Mas não basta compreender a Palavra de Deus. É preciso abrir toda essa riqueza para que seja desfrutada por todos. Deus nos confiou a riqueza de Seu amor, de Sua vida, de Seu perdão, de Sua salvação não para que escondamos e sim para que todos conheçam toda essa riqueza a fim de que sua vida tenham sentido apesar de tudo, como a perseguição. Não basta construir templos. É necessário viver o Evangelho. É necessário que a salvação seja parte de nossa própria vida de cada dia. A fé nos move para que mudemos nossos critérios de acordo com a Palavra de Deus a fim de que sejamos sinais do amor de Deus para os demais.


Nós nos reunimos em torno de Cristo na celebração de Seu mistério pascal para assumirmos nossa própria responsabilidade. Quem somente participa (= assistir) da missa sem nenhuma capacidade de produzir fruto, se faz responsável, não somente, da morte de Jesus, mas também do mal que continua dominando muitos ambientes de nosso mundo.


Não basta construir templos, casas de assistência social, fundar clubes ou associações de ajuda solidária. É necessário viver o Evangelho. É necessário confessar Jesus Cristo. Na sua primeira homilia, logo depois de sua eleição, o Papa Francisco disse: “Podemos caminhar o que quisermos, podemos edificar um monte de coisas, mas se não confessarmos Jesus Cristo, está errado. Tornar-nos-emos uma ONG sócio-caritativa, mas não a Igreja, Esposa do Senhor... Quando não se confessa Jesus Cristo, faz-me pensar nesta frase de Léon Bloy: ‘Quem não reza ao Senhor, reza ao diabo’. Quando não confessa Jesus Cristo, confessa o mundanismo do diabo, o mundanismo do demônio”. A Igreja de Cristo não pode ficar na somente promoção social como uma filantropia. Mas é necessário fazer que a salvação faça parte de nossa própria vida para que possamos levá-la também aos demais.


P. Vitus Gustama,svd





sexta-feira, 13 de outubro de 2017

18/10/2017
 

LUCAS EVANGELISTA
18 de Outubro

Primeira Leitura: 2Tm 4,10-17b
Caríssimo:10 Porque Demas preferiu amar este mundo e me abandonou. Foi para Tessalônica. Crescente partiu para a Galácia e Tito para a Dalmácia. 11 Somente Lucas está comigo. Procura a Marcos e traze-o contigo, porque poderá me ajudar no ministério. 12 Enviei Tíquico a Éfeso. 13 Quando vieres, traze a minha capa que deixei na casa de Carpo em Trôade, e também os livros, principalmente os pergaminhos.14 Alexandre, o fundidor, me tem dado provas de grande malvadeza. O Senhor lhe retribuirá de acordo com as suas obras. 15 Também tu, toma cuidado com ele, porque fez violenta oposição às nossas pregações. 16 Em minha primeira defesa, ninguém esteve a meu lado. Todos me abandonaram. Que Deus não leve isso na devida conta.17 Mas o Senhor veio me ajudar e me deu forças para que, por meio de mim, se realizasse plenamente a pregação e todos os não judeus a ouvissem.

Evangelho: Lc 10,1-9
Naquele tempo, 1 o Senhor escolheu outros setenta e dois discípulos e os enviou dois a dois, na sua frente, a toda cidade e lugar aonde ele próprio devia ir. 2 E dizia-lhes: “A messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. Por isso, pedi ao dono da messe que mande trabalhadores para a colheita. 3 Eis que vos envio como cordeiros para o meio de lobos. 4 Não leveis bolsa, nem sacola, nem sandálias, e não cumprimenteis ninguém pelo caminho! 5 Em qualquer casa em que entrardes, dizei primeiro: ‘A paz esteja nesta casa!’ 6 Se ali morar um amigo da paz, a vossa paz repousará sobre ele; se não, ela voltará para vós. 7 Permanecei naquela mesma casa, comei e bebei do que tiverem, porque o trabalhador merece o seu salário. Não passeis de casa em casa. 8 Quando entrardes numa cidade e fordes bem recebidos, comei do que vos servirem, 9 curai os doentes que nela houver e dizei ao povo: ‘o Reino de Deus está próximo de vós’”
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I. Evangelista Lucas

Não temos autobiografia do evangelista Lucas. Mas através de suas duas obras (o evangelho de Lucas e os Atos dos Apóstolos) podemos saber e conhecer quem é Lucas. Aqui coloquei apenas algumas pinceladas sobre o perfil do evangelista Lucas. Tudo fica aberto para qualquer acréscimo.

Lucas é um homem culto. O seu grego é um dos mais apurados do Novo Testamento. É um escritor de bom gosto. Em vez de usar palavra “prostituta” ele usa a expressão “mulher pecadora”.

É um homem da cidade. Nas suas obras ele fala constantemente de cidades (40 vezes. Hoje em dia mais de dois terços da população mundial moram nas cidades, o que exige a coragem de ousar novos caminhos na nova evangelização).

Ele tem certa visão universal. Em vez de usar a expressão “o mar da Galiléia”, ele usa a expressão “o lago da Galileia” (o lago da Galileia tem 13 km por 8 km de tamanho).

É um homem muito sensível para a questão social: ele ataca as desigualdades entre os ricos e os pobres, defende a dignidade da mulher (mulher era inferior em tudo), se preocupa com o faminto, com o pobre, com aquele que chora.

Ele é um homem de extrema bondade e compaixão em relação aos fracassados na vida em todos os sentidos. Podemos encontrar tudo isso, como exemplo, a parábola do filho pródigo que é uma das grandes peças da literatura universal e uma das mais conhecidas parábolas jamais contados, quase que é um evangelho dentro do evangelho. Ele crê que o fracasso não deva vencer o homem; deve-se dar sempre um salto por cima de todos os fracassos e “começar” sempre confiando na misericórdia de Deus sem limites (“começar” é o termo que Lucas usa). Para Lucas, a misericórdia é o critério supremo da vida cristã. A misericórdia supera ou vence o próprio juízo de Deus.

Lucas é um homem extremamente ecumênico. Na sua orientação ecumênica ele envolve os próprios judeus. Ele mostra para com os judeus a mais profunda simpatia e preocupação. Ele tem uma profunda clareza sobre a salvação trazida por Jesus. A salvação é para todos, sem fronteiras nem preconceitos.

Lucas é chamado de “o evangelista da oração”. O evangelho de Lucas é o único que inicia (Lc 1,8-10) e termina (Lc 24,53) seu evangelho com o tema da oração. Neste evangelho, Jesus orou em cada decisão importante e em todo momento decisivo de sua vida. Ele orou no batismo (3,21), antes de escolher os discípulos (6,12), em Cesaréia de Filipe na profissão da fé de Pedro (9,8), no monte Tabor na transfiguração (9,28s), no Jardim de Getsêmani (22,39-46), na cruz (23,34.46)e ensinou aos discípulos o Pai-Nosso (11,1ss). Neste evangelho podemos encontrar as orações mais conhecidas e citadas pela Igreja: o Magnificat (1,46-56); o Benedictus (1,67-79); o Glória (2,14); o Nunc Dimittis (2,29-32). Além disso, Lucas ainda coloca três parábolas sobre oração (11,5-13;18,1-8;18,9-13). A oração é a expressão mais viva da fé. Quem tem fé precisa orar e quem ora porque tem fé. A oração é também o lugar da revelação. Deus se manifesta quando alguém está em sintonia com Deus e com a realidade. Na oração verdadeira Deus se revela. Por isso, empobrecer a oração significa empobrecer toda a teologia. No seguimento de Jesus, a oração sustenta a caminhada do cristão. Na medida em que ele reza verdadeiramente, a sua vida se transforma. A vida e a oração se tornam uma unidade. Quem reza desligando-se da realidade é uma alienação, é uma fuga. Um verdadeiro cristão reza aquilo que ele vive e vive aquilo que ele reza. Por isso, quem sabe viver bem sabe também rezar bem e quem sabe rezar bem também sabe viver bem.

O evangelho de Lucas é o evangelho de alegria. O verbo “alegrar-se” ocorre 7 vezes em Lucas e nunca nos demais evangelhos. O substantivo “alegria” ocorre 12 vezes em Lucas, e 16 vezes nos três outros evangelhos (1,14.44.47.58;2,10;10,17.20.21;15,8-10.11-36;19,6.37;24,52-53. A alegria é o fruto de uma oração profunda. A alegria é a característica do cristão verdadeiro que vive na esperança, na expectativa e na certeza da ressurreição; que vive na certeza de uma vitória sobre o fracasso. A alegria é em Lucas um mandamento de Jesus: “Alegrai-vos porque vossos nomes estão inscritos nos céus” (Lc 10,20). A tristeza e o desânimo são um sinal da ausência de uma verdadeira esperança cristã que no fundo provém de uma falta de fé.

O evangelho de Lucas é o evangelho do Espírito. Lucas - Atos (dos Apóstolos) seria “um verdadeiro tratado de pneumatologia” (ciência sobre o Espírito Santo), segundo Lina Boff. Lucas divide a história da salvação em três etapas: 1). O tempo de Israel; 2). O tempo de Jesus; 3). O tempo da Igreja. E como fio condutor destes três tempos ou etapas é o Espírito Santo. O Espírito Santo é que conduz e guia todos estes tempos. O Espírito Santo funda a missão de Jesus e funda a missão da Igreja. O Espírito Santo é o ponto de união entre o Antigo testamento e o Novo Testamento. O Espírito Santo está no início e no decurso do ministério de Jesus. Ele está no início e na caminhada da Igreja: as comunidades são fruto e manifestação do Espírito Santo. O Espírito Santo é dinamismo, abertura para o novo, dom e compromisso, força que leva a enfrentar o novo e o desconhecido.

Símbolo do Evangelho de Lucas é TOURO- Refere-se ao ofício de Zacarias. Como sacerdote Zacarias oferecia sacrifícios. Jesus vem suprimir esses sacrifícios de animais (Cf. Hb 9,11-14).

II. Mensagem do Evangelho do Dia

O texto do evangelho de hoje nos relata que Jesus envia 70 (e dois) discípulos para a missão. Com o número setenta (e dois) Lucas quer nos dizer que a missão não é apenas exercida por um pequeno grupo de pessoas, mas todos os que  seguem a Jesus têm a mesma missão de continuar a obra de Jesus. Todos os cristãos tem a mesma missão. Missão significa que alguém é enviado. Jesus envia todos os cristão ao mundo para serem testemunhas de tudo o que Jesus fez e disse, especialmente de sua morte e ressurreição. Infelizmente, porém, fizemos e fazemos da Igreja, muitas vezes, não uma estrutura aberta a serviço do mundo, mas uma arca da salvação. Pensamos em nós mesmos como o povo escolhido, separado do resto, salvo do mundo malvado. Se o cristianismo é simplesmente um caminho de vida para nós, ficamos felizes por viver e deixar de viver: tolerantes e conciliadores. Se, porém, pensarmos em nós como sal ou fermento, então buscaremos não apenas estar presentes mas também transformar.

Os setenta (e dois) são enviados como cordeiros entre os lobos. O lobo é o símbolo da violência e da arrogância, símbolo da vontade de dominar e de corromper os outros. O cordeiro simboliza a mansidão, a fraqueza, a fragilidade. O cordeiro   só consegue se salvar da agressão do lobo se o pastor intervém na sua defesa. Os discípulos não podem contar com a força, o poder e a violência. Devem estar sempre desarmados. Para isso, é necessário que os discípulos estejam vigilantes para que eles não sejam conduzidos a cumprir as ações dos lobos como o abuso de poder, as agressões, as violências etc.  Além disso, eles devem estar conscientes de que a calúnia, a perseguições e até a morte são o resultado de quem trabalha na messe do Senhor porque diante dos poderosos deste mundo que se preocupam com o próprio poder, os discípulos precisam falar da justiça, da vida, do bem e do plano de Deus a respeito do universo e do destino do homem. Aparentemente o uso da força dá resultados, mas sempre se trata de resultados efêmeros. Jesus salvou o mundo, comportando-se como cordeiro, não como lobo.

Os setenta (e dois) discípulos são enviados na pobreza por um bem superior. Quando se fala da pobreza sublinha-se principalmente a pobreza do ser. Esta pobreza nos faz vinculados essencial e existencialmente a um outro ser, no caso, a Deus. Esta pobreza é a raiz e causa de toda e qualquer outra pobreza, especialmente a pobreza voluntária. Aceitar a pobreza voluntária significa viver sem segurança. Aceitar a pobreza é um verdadeiro desprendimento, uma espécie de morte.

Outras recomendações:

Primeiro, Deus quer que mudem as relações entre os seres humanos; que todos se vejam como iguais e se tratem como irmãos. Por isso, eles têm que viver como uma família, sem competições e sem ambições. O Reino não é tarefa para gente solitária. Por isso, Jesus envia os 70 (e dois) de dois em dois para que se ajudem, se confrontem e se complementem. Quando se compartilhar o que se tem, haverá sobra. Esta é a experiência do grupo de Jesus e daqueles que querem ser discípulos de Jesus.

Segundo, o Reino de Deus que eles anunciarão vai vencer o mal e a morte, porque o Reino de Deus vai ter a última palavra e não o mal. Por isso, o mal não tem futuro. Deus quer que todos tenham vida (Jo 10,10). Por isso, todos têm que optar pela vida e não pela morte eterna, e pelo bem e não pelo mal.

Terceiro, todos devem pôr toda sua confiança no Pai celeste, mas nos meios humanos. Isso é condição fundamental para quem quer colaborar com o Reino de Deus. É a pobreza no espírito. Essa pobreza no espírito lhes dará liberdade e será um testemunho maior do que mil palavras de que o Reino não se impõe pela força e sim que se oferece como amor e por isso, livre de todo poder. E devem aprender a reconstruir as relações de confiança formando uma comunidade de irmãos como o próprio Deus quer. Devemos abandonar nossos egoísmos, deixar a auto-suficiência e nos entregar nas mãos de Deus para que o Reino de Deus aconteça aqui e agora.

O fundamental que os discípulos devem ter em conta é que eles estão trabalhando na construção do Reino de Deus e não por seu próprio reino. Se cada um se preocupar em construir o próprio reino, haverá guerra permanente e disputa permanente, pois cada um quer defender o próprio reino e não o Reino de Deus. Quem tem consciência de que trabalha pelo Reino de Deus, também acredita na providência divina.

O envio dos 70 (e dois) tem, então, como horizonte fundamental o Reino de Deus. Este constitui o conteúdo de toda pregação cristã e o horizonte que jamais devemos perder de vista quando referimos à ação da Igreja no mundo. A Igreja existe em função do Reino. A Igreja existe a serviço do Reino de Deus. A Igreja não é o Reino de Deus.

A missão serve tanto para formar missionários como para despertar os que são visitados para serem também missionários. Todos são enviados para fazer missão.

É bom cada um perguntar-se: “O que é que tenho contribuído na missão do Reino de Deus? O que é que tenho feito até agora na evangelização? Qual é o lugar da Palavra de Deus na minha vida? Será que faço parte daqueles que criticam muito, mas nada colaboram?”.
P. Vitus Gustama,svd
17/10/2017
 

A HIPOCRISIA  E DIGNIDADE HUMANAE
QUEM VIVE NA VERDADE E NA DIGNIDADE AFASTA  A HIPOCRISIA
Terça-Feira Da XXVIII Semana Comum

Primeira Leitura: Rm 1,16-25
Irmãos: 16 Eu não me envergonho do Evangelho, que é um poder divino para a salvação dos que creem, dos judeus primeiro, e depois dos pagãos. 17 Porque nele se manifesta a justiça de Deus, pela fé e para a fé, como está escrito: O justo viverá da fé! 18 Realmente, a ira de Deus se revela do alto do céu contra qualquer impiedade e injustiça dos homens, homens que com sua injustiça oprimem a verdade. 19 Porque tudo o que se pode conhecer de Deus é manifesto para eles: Deus o manifestou a eles. 20 Desde a própria criação do mundo, a inteligência pode perceber as perfeições invisíveis de Deus, seu poder eterno e sua natureza divina, através de suas obras. Por isso é que para eles não há desculpas. 21 Porque, mesmo conhecendo a Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças, mas se perderam em seus raciocínios falsos, e o seu coração insensato mergulhou na escuridão. 22 Pretenderam ser sábios e tornaram-se estúpidos! 23 Substituíram a glória do Deus imortal por imagens que representavam homens mortais, aves, quadrúpedes e répteis. 24 Por isso, Deus os entregou à imundície pelos desejos de seus corações, de modo que aviltaram eles mesmos seus próprios corpos.25 Eles confundiram o verdadeiro Deus com seres falsos, prestaram culto e adoração às criaturas em lugar do Criador, o qual é bendito para sempre! Amém!

Evangelho: Lc 11,37-41
Naquele tempo, 37 enquanto Jesus falava, um fariseu convidou-o para jantar com ele. Jesus entrou e pôs-se à mesa. 38 O fariseu ficou admirado ao ver que Jesus não tivesse lavado as mãos antes da refeição. 39 O Senhor disse ao fariseu: “Vós, fariseus, limpais o copo e o prato por fora, mas o vosso interior está cheio de roubos e maldades. 40 Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior? 41 Antes, dai esmola do que vós possuís e tudo ficará puro para vós”.
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O Deus, Criador Do Universo Quer Salvar Todos Os Homens

“Eu não me envergonho do Evangelho, que é um poder divino para a salvação dos que creem, dos judeus primeiro, e depois dos pagãos. Porque nele se manifesta a justiça de Deus, pela fé e para a fé, como está escrito: O justo viverá da fé!”, escreveu São Paulo ao Romanos no texto da Primeira Leitura.

O tema central que São Paulo desenvolve em toda a Carta é que a salvação de Deus nos alcança com o pleno poder em Jesus Cristo. E esta salvação não é destinada apenas para os judeus, mas também para os “gregos”, ou seja, para os pagãos. O Evangelho “é um poder divino para a salvação dos que creem, dos judeus primeiro, e depois dos pagãos”. É Boa Notícia para os que crêem em virtude de sua fé porque “o justo viverá da fé!”.

São Paulo define o Evangelho de Jesus, não tanto como uma série de verdades ou de normas morais ou de memórias históricas, e sim como “um poder divino para a salvação dos que creem”. É força, hoje e aqui, e não uma recordação do passado. Deus está presente aqui e agora a partir da vivência da fé. Quem está com Ele, está com força para seguir adiante com Ele. É uma força que foi capaz de tirar São Paulo de sua convicção judaica e farisaica de antes e o converteu em apóstolo incansável do Senhor. São Paulo nos ensina a necessidade de fazermos uma revisão de todos os nossos supostos fundamentos. A frase citada acima é revelação de uma experiência de vida em Deus que nos cubra de felicidade ainda que estejamos no meio das adversidades e turbulências.

Por outra parte, São Paulo nos relembra que há a debilidade humana em que de um lado, há o amor imenso e a grandeza de Deus que se reflete na criação, e do outro lado, há o pecado cometido pelo homem que incapacita o homem de enxergar a presença de Deus. Hoje São Paulo descreve a falha dos pagãos que deveriam ter chegado a conhecer Deus e aceitá-Lo, porque na mesma criação do mundo há mais que suficientes sinais de Seu poder e Sua divindade: “Desde a própria criação do mundo, a inteligência pode perceber as perfeições invisíveis de Deus, seu poder eterno e sua natureza divina, através de suas obras. De fato, crer também é questão de inteligência. A inteligência percebe a perfeição da criação capaz de levar o homem a reconhecer o Criador que cria tudo na perfeição. Basta olhar para a imensidade do universo e a pequenez do homem, como um pontinho dentro dessa imensidade, para o próprio homem, na sua inteligência, engrandecer e glorificar o Criador.  Por isso, São Paulo chama os “grego” (pagãos) com a seguinte expressão: “Pretenderam ser sábios e tornaram-se estúpidos (néscios)!”.

Com efeito, a criação é uma das portas para chegar a Deus e para conhecer o Criador de todas as coisas. Se o homem contemplar profundamente sobre a imensidade do universo, nele não haverá mais lugar para a prepotência, para as preocupações exageradas e para todos os tipos de ganância, pois o homem é apenas um pontinho dentro do imenso universo. Ao contrário, ao contemplar o universo, o homem fará o louvor e o agradecimento ao Criador do universo, como rezou os salmista: “Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes: Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles? Entretanto, vós o fizestes quase igual aos anjos, de glória e honra o coroastes” (Sl 8,4-6). Essa contemplação faz o homem voltar a ser justo, isto é, aquele que vive de acordo com os mandamentos do Senhor e “o justo viverá da fé!”.

Se São Paulo chama os gregos (pagãos) de “estúpidos” por não chegar a conhecer Deus apesar de ter sinais suficientes, quanto mais diria aos judeus que tiveram a revelação do AT, e sobretudo, para os cristãos que têm a grande sorte de conhecer a verdade plena de Jesus, que os amou até o fim (Jo 13,1), que ouvem sua Palavra e comungam Seu Corpo. Os cristãos teriam suficiente força para levar adiante a Boa Nova com muita alegria e testemunhar o amor de Cristo.

Não somos nós os pagãos que São Paulo chama de “néscios” (estúpidos)?

É Preciso Manter o Coração Limpo e Não Apenas o Corpo Limpo

O texto do evangelho de hoje nos apresenta a questão sobre a purificação (ato de se tornar puro). E os fariseus davam máxima importância ao cumprimento dos preceitos e ritos da purificação.  Sem relação direta com a moralidade, a pureza assegura a aptidão legal para alguém poder participar do culto (cf. Lv 11-16). A pureza cultual inclui a limpeza física. Antes de comer, por exemplo, os comensais devem lavar as mãos (cf. Mc 7,2). Este rito faz parte da limpeza física para se afastar do que é sórdido ou das imundícies (cf. Dt 23,13ss). A maior parte das impurezas são apagadas pela ablução do corpo ou das vestes (cf. Ex 19,10; Lv 17,15s), ou por sacrifícios expiatórios (cf. Lv 12,6s).

A partir desse conceito (sobre a pureza) vem a pergunta: quem é puro perante Deus? Para os fariseus , os puros são aqueles que guardam os preceitos de purificação cultual; aqueles que limpam a parte externa dos pratos e dos cálices.

Vós fariseus, limpais o copo e o prato por fora, mas o vosso interior está cheio de roubos e maldades”, assim Jesus disse aos fariseus. Os fariseus se importam com o exterior e não com o interior da pessoa. Eles se descuidam da pureza da consciência. Trata-se de uma vida na aparência, de uma vida incoerente. A maneira de viver assim é conhecida como hipocrisia. Os fariseus são chamados de insensatos por Jesus.

Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior?”. Deus importância para a pureza ética que Jesus prega para todos. Quando a consciência estiver livre da injustiça e de qualquer atitude imoral, então o homem ou a mulher fica puro diante de Deus. Todo mandamento de Deus se refere à relação ética e ao amor fraterno. A partir da vida ética e da convivência fraterna é que se joga e se julga a fidelidade daquele que se diz crente.

É importante ter a pureza do coração para podermos ver Deus em suas obras e para ver o outro como irmão, irmã, filhos e filhas de Deus. Uma coisa que não nos ajuda a crescermos na santidade e na fraternidade é maximizar o que não é importante e minimizar o que é importante. Hoje em dia, como no tempo de Jesus, muitos dão muita importância para a exterioridade. Das coisas verdadeiramente importantes, edificantes e dignificantes dependerá nossa vida moral.

Antes, dai esmola do que vós possuís e tudo ficará puro para vós”. Para Jesus a pureza interior é adquirida ou alcançada através da esmola e das obras de caridade. O coração se torna puro através da vivencia fraterna que inclui a ajuda aos necessitados. O amor fraterno torna puro o coração humano. o coração é puro quando o amor fraterno é vivido. Como diz São Paulo aos romanos: “A caridade é o pleno cumprimento da lei” (Rm 13,10). Por isso, Santo Agostinho dizia: “Ama e faze o que quiseres” (In epist. Ad Gal. 57,6,1). A glória da vida consiste em amar, perdoar, dar, servir e assim por diante.

A maneira de viver dos fariseus que se preocupam apenas com o exterior é uma maneira de viver como hipócrita. A palavra hipócrita designava no mundo grego antigo o ator que, com uma máscara e um disfarce, assumia uma personalidade alheia. O ator representa um papel, não o que ele é inteiramente. É apresentação sem representação. Fingia diante do público ser outra pessoa freqüentemente sem nada a ver com a sua própria personalidade, porque trabalhava para a platéia. Ele não vivia sua própria identidade.

Todo hipócrita é exibicionista. Na verdade, um exibicionista é uma pessoa de personalidade superficial, fútil e sem sólidos ideais. Ele vive mendigando louvores e os procura de todas as maneiras. Ele se preocupa mais em ostentar do que em ser alguma coisa. Sua preocupação é colocar-se em evidência, ser notado, elogiado. Tudo o que ele faz é na perspectiva de algum louvor. Ele considera bons ou maus os seus atos não por estarem de acordo ou não com as normas éticas, mas por serem capazes ou não de atrair a atenção e despertar admiração.

Segundo o Evangelho de hoje hipócrita é aquele que vive na aparência e longe da verdade. É aparentar ser bom, sem sê-lo. É uma incoerência de vida. É uma duplicidade, um fingimento. Ele extremamente se apresenta como um homem religioso, alguém que faz questão de proferir palestras bonitas sobre o amor, sobre a paz, sobre o respeito para com os outros, quando ninguém o viver assim. É aquele que vive de etiqueta, mas continua pagando dívidas sem fim.

A hipocrisia, que tenta esconder atrás da fachada limpa a podridão interior, não convém ao cristão que é chamado a viver e proclamar publicamente a palavra recebida de Jesus. O Senhor quer que tenhamos diante d’Ele e diante dos outros uma única vida, sem disfarces e mentiras, pois n’Ele mesmo encontramos a plenitude da unidade de vida, a mais profunda união entre as palavras e as obras. A verdade é sempre um reflexo de Deus e deve ser tratada com muito respeito. Ao buscar sempre a verdade, fugindo da duplicidade ou da hipocrisia, o cristão se torna uma pessoa honrada e respeitada. A falta de veracidade que se manifesta na mentira ou na hipocrisia ou na falta de unidade de vida, revela uma discórdia interior. Por isso, o Senhor diz no Sermão da Montanha: “Seja o vosso Sim, sim e o vosso Não, não. O que passa disso vem do Maligno” (Mt 5,37).

A dignidade da pessoa humana não consiste em parecer bom, mas em ser bom. O verniz encobre o mal, mas não o suprime. O hipócrita não percebe que tudo que vem de fora não atinge o seu interior e que essa satisfação proveniente da aprovação dos outros é efêmera, superficial e inútil.

Se deixarmos crescer o medo de ser nós mesmos, acabaremos não sabendo quem nós somos. Nunca seremos autenticamente nós enquanto estivermos subordinados à opinião e às expectativas dos outros. A nossa riqueza consiste em que sejamos nós mesmos e não em que nos pareçamos com os outros ou com o que os outros esperam de nós. Os homens verdadeiros e autênticos podem ser aplaudidos ou condenados, amados ou odiados, mas sempre despertam nossa admiração.

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 12 de outubro de 2017



16/10/2017

SER CRISTÃO É SER SINAL DO AMOR MISERICORDIOSO DE DEUS NESTE MUNDO
Segunda-Feira Da XXVIII Semana Comum

Primeira Leitura: Rm 1,1-7
1 Eu Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo e escolhido para anunciar o Evangelho de Deus, 2 que ele tinha prometido por seus profetas nas Santas Escrituras.3 Este Evangelho se refere ao seu Filho, descendente de Davi quanto à carne, 4 Jesus Cristo nosso Senhor, que segundo o Espírito Santo foi constituído Filho de Deus, com pleno poder pela sua ressurreição dentre os mortos. 5 Por seu intermédio nós recebemos a graça e o encargo do apostolado, para submeter todos os povos pagãos à fé para glória de seu nome. 6 Entre eles estais também vós que fostes chamados por Jesus Cristo.7 A todos vós que morais em Roma, bem-amados de Deus e santos pelo seu chamamento, que fostes chamados para pertencer a Jesus Cristo, a graça e a paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.

Evangelho: Lc 11,29-33
Naquele tempo, 29 quando as multidões se reuniram em grande quantidade, Jesus começou a dizer: “Esta geração é uma geração má. Ela busca um sinal, mas nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal de Jonas. 30 Com efeito, assim como Jonas foi um sinal para os ninivitas, assim também será o Filho do Homem para esta geração. 31 no dia do julgamento, a rainha do Sul se levantará juntamente com os homens desta geração, e os condenará. Porque ela veio de uma terra distante para ouvir a sabedoria do Salomão. E aqui está quem é maior do que Salomão. 32 No dia do julgamento, os ninivitas se levantarão juntamente com esta geração e a condenarão. Porque eles se converteram quando ouviram a pregação de Jonas. E aqui está quem é maior do que Jonas”.
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Ser Servo e Apóstolo De Cristo

“Eu Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo e escolhido para anunciar o Evangelho de Deus,  que ele tinha prometido por seus profetas nas Santas Escrituras”, escreveu São Paulo aos romanos que lemos na Primeira Leitura.

Durante quatro semanas meditaremos, com toda a Igreja, uma das mais importantes Cartas de São Paulo: a Epístola aos Romanos. Esta Carta foi escrita entre o ano 57 e 58 depois de Cristo.

Roma era para São Paulo um ponto de referência importante. Ele havia pregado o Evangelho no Mediterrâneo oriental e agora queria chegar até as terras de Espanha, no Ocidente (cf. Rm 15,28). Mas, sobretudo, ele estava fascinado pela ideia de ir a Roma, a capital do império, metrópole muito mais importante do que Corinto ou Antioquia ou Éfeso (Cf. Rm 1,9ss). Para São Paulo, Roma não é tanto a capital de um grande império quanto um lugar conhecido pela fé de seus cristãos, um lugar onde Deus mostrou seu amor fazendo que chegue o anúncio de Seu Filho. Mais fosrte que os exércitos que engrandecem e mantém o império, o Evangelho é “força de Deus”para salvação de todo que crê. E possui esta força porque Cristo, a partir de sua ressurreição, exerce em toda a terra seu poder de Filho de Deus e envia o Espírito Santo.

Esta força foi necessário para arrancar Paulo do sistema fechado dos fariseus que o fazia incapaz de crer numa salvação mais alta, e convertido em apóstolo consagrado em corpo e alma ao anúncio do Evangelho.

A introdução à Carta aos romanos é a mais solene das cartas paulinas. Nela contem o eco do anúncio salvífico dos primeiros momentos (o Kerigma). Nesta introdução São Paulo sublinha a origem de sua missão como apóstolo: “Eu Paulo, servo de Jesus Cristo, chamado para ser apóstolo e escolhido para anunciar o Evangelho de Deus,  que ele tinha prometido por seus profetas nas Santas Escrituras”. Toda a existência de São Paulo foi marcada pelo desígnio de Deus.

Nesta introdução São Paulo se apresenta como “servo” e “Apóstolo”. Servo é aquele que serve prontamente o outro sem esperar nada em troca. É servir por servir pelo bem do outro, como uma mãe que serve todo mundo em casa sem esperar nada de recompensa. Ela faz tudo de melhor maneira para que todos possam viver bem. Ser servo de Cristo é aquele que não se cansa de servir a Cristo nos irmãos levando a eles a mensagem da esperança, de amor, de fraternidade, de paz e assim por diante. Um cristão que não serve ao outro não serve como cristão. O poder do cristão consiste no serviço pelo bem da humanidade e não no cargo que ele ocupa. O cristão fará isto, se no seu coração morar o amor puro. O amor transforma tudo em obra prima. Quem pratica o bem está em plena comunhão com Deus de amor.

Nesta introdução São Paulo também se apresenta como “apóstolo”, pondo-se assim ao mesmo nível dos demais apóstolos, figuras capitais da Igreja. São Paulo é Apóstolo porque foi chamado por Deus a sê-lo pela graça de Deus: “... chamado para ser apóstolo e escolhido para anunciar o Evangelho de Deus”. Como apostolo, a missão de São Paulo é “anunciar o Evangelho”, isto é, levar a mensagem da esperança, a Boa Nova para os outros.

No Evangelho, os apóstolos são as testemunhas de Jesus Cristo ressuscitado, os que testemunham que Jesus de Nazaré é o Messias anunciado, o Filho de Deus que foi morto pelos pecadores e ressuscitado por Deus. Pelo sentido grego da palavra, o apóstolo é um enviado, um emissário, um delegado para cumprir uma missão oficial (Mt 10,2; Mc 6,30; Jo 13,16). Em sentido estrito e evangélico, apóstolo”é o portador da mensagem cristã. Logo qualquer cristão é o apóstolo de Cristo, isto é, aquele que leva a Boa Nova de Jesus Cristo para os outros (Mc 16,15). Cada cristão deve ser pessoa de esperança, e jamais deixará qualquer pessoa ou qualquer ideologia tirar a esperança de sua vida, pois sua esperança não é algo, e sim é Alguém: Jesus Cristo. Em Cristo e com Ele o cristão tem seu futuro garantido. Alguém pode tirar a vida do cristão (matar), mas jamais poderá separá-lo de Cristo (cf. Rm 8,35-39).

Ser Cristão É Ser Sinal Do Amor Misericordioso De Deus No Mundo

Os judeus pedem a Jesus um sinal para demonstrar que Ele é verdadeiramente o Messias. Ao pedir um sinal a Jesus, eles renovam a tentação do deserto. Eles exigem que Jesus proporcione uma prova palpável ou experimental na ordem das coisas materiais. Por isso, Jesus usa a expressãoesta geração é uma geração má”. Esta expressão recorda a geração do deserto que tentou Deus (cf. Ex 15,22-16,36). Exigir sinal ou prova que sirva para autorizar Jesus e sua chamada à conversão manifesta claramente uma indisposição para mudar de vida. A raiz desta equivocada exigência de um sinal é o egoísmo, um coração impuro, que unicamente espera de Deus o êxito pessoal, a ajuda necessária para absolutizar o próprio eu. Esta forma de religiosidade representa a recusa fundamental da conversão. Quantas vezes nós somos escravos do sinal de êxito!

Nenhum sinal lhe será dado, a não ser o sinal de Jonas”, diz Jesus. Jonas era um desconhecido para os ninivitas (Nínive era a capital do reino assírio). Ao chegar nessa capital Jonas conclamou o povo para a conversão. Apesar de Jonas ser estrangeiro, desconhecido e sem qualquer credencial para a missão profética, mas por causa do poder divino de suas palavras, o povo acreditou e se converteu.

E aqui está quem é maior do que Jonas”, Jesus acrescenta. Jesus é maior porque Ele é a própria Palavra de Deus (Jo 1,1) que se tornou carne (Jo 1,14). Jesus tem as palavras da vida eterna (Jo 6,68). Jesus é maior porque Ele é a ressurreição e a vida (Jo 11,25; cf. o 14,6). Se Jesus é a vida de nossa vida, será ridículo pedir a Ele outro sinal, pois a nossa vida fala por si de Jesus através do qual tudo foi criado (Jo 1,3-4). O próprio Jesus, a pessoa de Jesus, em sua palavra e em sua inteira personalidade, é sinal para todas as gerações.

O outro maior sinal que Deus nos dá é a sua misericórdia. Jesus se aproxima dos pobres, dos marginalizados e dos pecadores. Em Jesus eles encontram o Deus misericordioso. Não existe maior milagre do que reconstruir interiormente um ser humano. Quem não tem olhos para a misericórdia, continuará a pedir a Jesus milagres que o fazem acreditar. Diante deste tipo de pessoa Deus permanecerá calado. A misericórdia tem sempre a grande atração de fazer-nos semelhantes a Deus e de sermos sinais de seu amor para este mundo.

É preciso que o homem supere o espaço das coisas físicas, do tangível para poder se situar no ambiente divino a fim de poder ser redimido. Ao superar esse espaço o homem pode alcançar a certeza própria das realidades mais profundas e eficazes: as realidades do Espírito. Este caminho se chama que consiste em saber se superar e abandonar.

A exigência de uma demonstração física, de um sinal que elimine qualquer dúvida, no fundo, esconde a recusa da e do amor, pois o amor, na sua essência, é um ato de , um ato de entrega de si mesmo, poisDeus é amor” (1Jo 4,8.16). Atrás dessa exigência se esconde a miopia de um coração demasiado centrado na busca do poder físico, da possessão, do ter, poder que tem sua característica histórica, pois tem seu inicio e seu fim.

Como os ninivitas, precisamos fazer o jejum para ter maior abertura a Deus. Fazer jejum significa saber renunciar a algo e dá-lo aos demais; é saber controlar nossas apetências; é saber nos defender com liberdade interior das contínuas urgências do mundo de consumismo. Jejuar é purificador. Jejuar não seria privar-se de tudo e sim usar moderação em tudo, isto é, ser sóbrios. Jejum supõe um grande domínio de si, de disciplina de olhos, de mente e da imaginação. A falta de sobriedade é uma das causas pelas quais se obscurecem e se debilitam as melhores iniciativas e decisões de um cristão. A sobriedade é certamente uma garantia da capacidade de orar e de apreciar o Espírito Santo. Com a renúncia às coisas Cristo nos chama à alegria, a uma alegria profunda, nascida da paz da alma.  Precisamos rezar sem cessar para estar em sintonia com a vontade de Deus e a abertura para o próximo. Precisamos fazer caridade, dividindo aquilo que temos com aqueles que não têm nada para sobreviver. E que Deus nos conceda a graça de ter um coração renovado em Cristo, de tal forma que sejamos um sinal de seu amor para todos e possamos, assim, ser linguagem crível do Senhor, não somente com nossas palavras, mas com uma vida integra moldada aos ensinamentos de Cristo.

P. Vitus Gustama,svd