terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

24/02/2018
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CAMINHAR COM JESUS É APRENDER A AMAR E PERDOAR ATÉ OS INIMIGOS
Sábado da I Semana da Quaresma

Primeira Leitura: Dt 26,16-19
Moisés dirigiu a palavra ao povo de Israel e lhe disse: 16 “Hoje, o Senhor teu Deus te manda cumprir esses preceitos e decretos. Guarda-os e observa-os com todo o teu coração e com toda a tua alma. 17 Tu escolheste hoje o Senhor para ser o teu Deus, para seguires os seus caminhos, e guardares seus preceitos, mandamentos e decretos, e para obedecerdes à sua voz. 18 E o Senhor te escolheu, hoje, para que sejas para ele um povo particular, como te prometeu, a fim de observares todos os seus mandamentos. 19 Assim ele te fará ilustre entre todas as nações que criou, e te tornará superior em honra e glória, a fim de que sejas o povo santo do Senhor teu Deus, como ele disse”.


Evangelho: Mt 5,43-48
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 43 Vós ouvistes o que foi dito: 'Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo!' 44 Eu, porém, vos digo: Amai os vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem! 45 Assim, vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos céus, porque ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre justos e injustos. 46 Porque, se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Os cobradores de impostos não fazem a mesma coisa? 47 E se saudais somente os vossos irmãos, o que fazeis de extraordinário? Os pagãos não fazem a mesma coisa? 48 Portanto, sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito.'
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Viver Cristãmente É Caminhar Na Direção Do Bem e Da Salvação


Tu escolheste hoje o Senhor para ser o teu Deus, para seguires os seus caminhos, e guardares seus preceitos, mandamentos e decretos, e para obedecerdes à sua voz. E o Senhor te escolheu, hoje, para que sejas para ele um povo particular, como te prometeu, a fim de observares todos os seus mandamentos”.


O antigo semita é nômada. Caminho, via e sendas desempenham um papel essencial em sua existência. Como a coisa muito normal utiliza este mesmo vocabulário para falar da vida moral e religiosa e tal uso se manteve na língua hebraica.


Caminho, em sentido figurado, tem na Bíblia várias acepções. Fala-se de dois caminhos: o caminho da vida e o da morte que Deus põe diante do homem (Jr 21,8); o caminho bom (1Sam 12,13) e o caminho mau (Jr 18,11); o caminho dos justos e o dos pecadores (Sl 1,6). Os caminhos de Deus são distintos dos caminhos dos homens (Is 55,8-9). Os caminhos de Deus conduzem à paz (Is 59,6; Lc 1,79) e à vida (Mt 7,14). Os caminhos dos homens, ao contrário, levam à morte (Pr 14,12) e à perdição (Mt 7,13). Os caminhos de Deus são Sua própria vontade, as normas de conduta sempre retas, verdadeiras e justas (Ap 15,3). A missão fundamental de Jesus Cristo foi ensinar para o homem estes caminhos de Deus (Mt 22,16). O próprio Jesus é o Caminho, a Verdade e a Vida (Jo 14,6). Nos Atos dos Apóstolos, o conjunto dos ensinamentos cristãos é chamado caminho, o caminho do Senhor (At 9,2; 18,25-26; 19,9.23; 22,4; 24,14-22).


A ideia do caminho descreve muito bem nossa vida. Moisés falou sobre isso para seu povo. Na Quaresma nos é recordado ou lembrado de maneira mais explicita que nós cristãos temos um caminho próprio, um estilo de vida que nos traça a Palavra revelada por Deus. A Palavra de Deus nos direciona para a vida em plenitude. Basta ler e meditá-la diariamente, especialmente durante a Quaresma, para que possamos caminhar bem na vida. Temos que nos comportar como o povo da Aliança: continuar a seguir somente Deus e Sua Palavra, palavras que têm vida eterna (Jo 6,68). Deus, por sua parte, nos promete ser nosso Deus, ajudar-nos, fazer de nós o “o povo consagrado”, eleito que dá testemunho de sua salvação em meio do mundo. Deus e Sua Palavra são o único caminho que leva à salvação, à felicidade, à Páscoa definitiva. Deus nos é sempre fiel. Por nossa vez, devemos ser fieis a Ele e cumprir Sua vontade “com todo o coração e com toda a alma”.


A segunda ideia que a Primeira Leitura quer enfatizar é a aliança bilateral: “Tu escolheste hoje o Senhor para ser o teu Deus... E o Senhor te escolheu, hoje, para que sejas para ele um povo particular”.


Esta passagem recorda o conteúdo da aliança e sublinha seu caráter espiritual. A aliança é uma realidade sempre atual. O Deuteronômio insistiu fortemente sobre o valor da atualidade (usa-se a palavra “HOJE” nos vv.16-18; cf. Dt 5,3; 6,10-13). Não se trata, pois, de viver dentro de uma economia antiga. O passado não serve mais que para definir melhor o presente e as maravilhas passadas não cessam de renovar-se na atualidade. Em cada um dos fieis volta a ativar-se o drama do deserto com seus benefícios e suas murmurações, suas bênçãos e suas alternativas. A cada um lhe corresponde, portanto, escolher entre o amor procedente de Deus e a tentação do esquecido (Cf. Dt 6,12). A vida feliz e a glória (v.19) são a recompensa prometida por Deus para aqueles que Lhe servem e Lhe obedecem (cf. v.16).


Para sublinhar o caráter religioso desta aliança, o autor se refere à noção de contrato bilateral, única capaz de sublinhar o compromisso mútuo de duas liberdades (vv.17-18). Com efeito, a lei não é uma simples nomenclatura de preceitos impostos ao homem e sim que compromete muito mais uma atitude religiosa: “Eu serei teu Deus” (v.17) e “tu serás meu próprio povo” (v.18-19).


Será que continuamos a adorar a Deus, nosso Pai que Jesus nos revelou ou adoramos outros deuses que nos dão prazeres mundanos, mas que perderemos nossa salvação? Neste sentido, para os cristãos, a Eucaristia tem um significado: chama cada um dos participantes a viver os acontecimentos da vida de Jesus em atualização de Jesus Cristo que é memorial: “Fazei isto em minha memória!”. Jesus foi fiel até a morte à vontade de Deus para salvar os homens da escravidão do pecado.


Para Estar No Caminho Do Senhor É Preciso a Aprender a Perdoar e Reconciliar-se


O Evangelho de hoje nos põe diante de um exemplo muito concreto deste estilo de vida que Deus quer de nós. Jesus nos apresenta seu programa como estilo de vida cristã: amar inclusive nossos inimigos. É o programa árduo. Mas a Páscoa a que nos preparamos é a celebração de um Cristo Jesus que se entregou totalmente pelos demais. Ele morreu perdoando todos os que O crucificaram.


Ser seguidores do Senhor Jesus é assumir seu estilo de vida. O modelo deste estilo de vida é o próprio Jesus, Deus-Conosco e o próprio Pai do céu que “faz nascer o sol para os bons e maus e faz cair a chuva para os justos e injustos”, pois Deus é o Pai de todos.


O texto do evangelho lido neste dia faz parte do Sermão da Montanha (Mt 5-7). Estamos na seção chamada de antíteses (Mt 5,21-48) conhecidas pelo uso da seguinte expressão: “Ouvistes... Porém eu vos digo...”.


Jesus continua analisando a lei antiga (“Ouvistes...”) e dá uma nova ênfase (“Porém eu vos digo...). Ele sabe que o único que pode salvar o ser humano é entender que se não se tem o perdão como ponto de partida, jamais se poderá alcançar uma convivência digna entre os seres humanos. Daqui sua grande preocupação pela busca desses valores que o Pai quer para a humanidade, valores que farão que o ser humano se aproxime da mesma perfeição de Deus (cf. Mt 5,48). Para aprender a amar verdadeiramente, o cristão tem que aprender a perdoar, pois perdão é a expressão máxima do amor. Perdão é o último testamento de Jesus Cristo da cruz para todos os cristão (cf. Lc 23,34). 


A palavra “perdão” provém do latim “per”: intensificação e “donare”: doar, dar. Assim o perdão é um ato de doação, tanto para aquele que o recebe como para aquele que o brinda. Ambos se enriquecem com o benefício da paz; ambos se libertam do cárcere que os aprisiona. Por isso, o perdão é seguir avançando; é amparo e encontro. O perdão revela a graça. O ato de perdoar é um ato da misericórdia de Deus que apaga os pecados (Am 7; Ex 32,12.14; Jr 26,19; Ez 36,29.33). Perdoar é estar com Deus que perdoa sem medida. Perdoar é estar do lado de Deus.


Quando a comunidade cristã primitiva chegou a compreender que Jesus queria a criação de uma sociedade universal, unida através do amor fraterno, foi capaz de romper todos os distanciamentos que histórica e culturalmente separavam os seres humanos. Para os discípulos nãolugar para distinções (cf. At 10,34). Eles que sofrem as perseguições (Mt 5,10-12) não podem deixar-se dominar pelo ódio. Segundo Jesus no lugar do ódio, o desejo do bem (amor, oração) deve ocupar o coração do cristão. Para isso o cristão tem que estar bem unido a Cristo. Sua força para perdoar está em Jesus Cristo que perdoa até os que O crucificaram: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Aqui Jesus intercede pelos inimigos apesar da maldade que os inimigos lhe causaram. Jesus não nega a culpa cometida pelos inimigos, mas busca uma solução não violenta. “Jesus viveria e morreria em vão, se não conseguisse nos ensinar a ordenarmos a nossa vida pela eterna lei do amor” (Mahatma Gandhi: GANDHI E A NÃO VIOLÊNCIA, p.50 Vozes, 1967).


Amai vossos inimigos, fazei bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos maltratam e perseguem. Deste modo sereis os filhos de vosso Pai do céu, pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos”.


Como é difícil amar os que destruíram ou acabaram com nossa vida ou nossa família, e ainda rezar por eles!? No nosso inconsciente, como seres humanos, sempre resta algum sentimento vingativo. Trata-se de um sentimento com o intuito de acabar com a vida dos que nos fizeram algum mal, mas, infelizmente, resulta em acabar com a nossa própria vida por causa do mesmo sentimento: “O ódio que se opõe ao ódio consegue apenas aumentar a superfície e também a profundeza do ódio” (Mahatma Gandhi). Repito: O ódio é igual a beber o veneno e espera-se que o outro morra. Mas aquele que bebe o veneno é que morre. Daí lança-se a pergunta: vale a pena seguir o mesmo caminho (violência, vingança)? Não se trata de acariciar a cabeça de quem pratica a violência. Trata-se de procurar alguma alternativa. Nisto percebemos que ser cristão é o grande desafio diariamente. Todo dia devemos renovar o nosso ser de cristãos ao contemplar permanentemente Jesus Cristo, o amor misericordioso de Deus feito homem.


As sociedades humanas ao longo da história foram construídas a partir do princípio de interesses de grupos determinados que excluam todos aqueles que são vistos como ameaça à existência própria de ditos grupos. A comunidade cristã se encontra também a cada passo com pessoas que ameaçam sua existência. O inimigo está no horizonte de sua existência e frequentemente, esse inimigo pode ser qualificado de perseguidor. No entanto, para ela Jesus propõe uma nova lei que é a culminação de todas as contraposições mencionadas previamente. O “mandamento de amar” a todos deve converter-se em marca distintiva da comunidade de seguidores de Cristo, capaz de expressar sua originalidade na história humana, pois eles são filhos de Deus no Filho Jesus Cristo.  Ser filhos de Deus”, segundo Jesus, significa parecer-se a Ele ou com Ele no modo de fazer e de viver.


Por isso, as palavras de Jesus hoje são, na verdade, reveladoras: fazei o bem e orai. A fraternidade universal é a consequência de outra realidade essencial: a paternidade universal de Deus. O amor sem fronteiras que Deus nos pede é o que Ele mesmo vive,pois ele faz nascer o sol tanto sobre os maus como sobre os bons, e faz chover sobre os justos e sobre os injustos”. Deus ama a todos os homens. Ama até aos que não O amam. Ele derrama seus benefícios, seu sol formoso e sua chuva sobre todos. Assim Jesus nos diz que quando deixamos de amar alguém significa que recusamos alguém que Deus ama. Aquele que consideramos como nosso inimigo é amado por Deus. Nosso ou meu inimigo é um filho de Deus. Não se trata de um formoso ideal humanista. Deus é a única referência. Amar aqui significa querer o bem do outro independente daquilo que o outro faz contra mim. Para fazer isso é preciso ter muita maturidade cristã e espiritual.


Amar as pessoas que nos amam, que se parecem a nós, é natural. Mas Deus nos pede mais. Deus nos pede que ampliemos nosso coração muito além do círculo de nossos amigos, de nossos parentes, de nosso âmbito. Isto será possível somente na medida em que todos os seres humanos chegarem a se amar e a se perdoar por ter consciência de que todos são os filhos e filhas do mesmo Pai celeste como rezamos diariamente o Pai Nosso (Mt 6,9-15). Se todos são filhos e filhas do Pai celeste, então, maltratar um ser humano é maltratar o Pai do céu, pois Deus também está no próximo (cf. Mt 25,40.45) e o próximo, como eu, é templo do Espírito Santo (cf. 1Cor 3,16-17).


"Sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito", assim Jesus concluiu. A perfeição é o horizonte de nossa existência. Como horizonte ela não é alcançável, mas serve como guia para nossa existência diária. “O fraco jamais perdoa: o perdão é uma das características do forte”. (Mahatma Gandhi).


Para pensar: As três coisas mais difíceis do mundo são: guardar um segredo, perdoar uma ofensa e aproveitar o tempo.” (Benjamin Franklin).
P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

23/02/2018
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CRER NO DEUS DA MISERICÓRDIA E DA COMPAIXÃO QUE QUER VIDA PARA TODOS, INCLUSIVE PARA OS PECADORES
Sexta-Feira Da I Semana Da Quaresma


Primeira Leitura: Ez 18,21-28
Assim fala o Senhor: 21 “Se o ímpio se arrepender de todos os pecados cometidos, e guardar todas as minhas leis, e praticar o direito e a justiça, viverá com certeza e não morrerá. 22 Nenhum dos pecados que cometeu será lembrado contra ele. Viverá por causa da justiça que praticou. 23 Será que tenho prazer na morte do ímpio? — oráculo do Senhor Deus. Não desejo, antes, que mude de conduta e viva? 24 Mas, se o justo desviar de sua justiça e praticar o mal, imitando todas as práticas detestáveis feitas pelo ímpio, poderá fazer isso e viver? Da justiça que ele praticou, nada mais será lembrado. Por causa da infidelidade e do pecado que cometeu, por causa disso morrerá. 25 Mas vós andais dizendo: ‘A conduta do Senhor não é correta’. Ouvi, vós da casa de Israel: É a minha conduta que não é correta, ou antes é a vossa conduta que não é correta? 26 Quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre. 27 Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida. 28 Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá; não morrerá”.


Evangelho: Mt 5,20-26
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 20 Se a vossa justiça não for maior que a justiça dos mestres da Lei e dos fariseus, vós não entrareis no Reino dos Céus. 21 Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: 'Não matarás! Quem matar será condenado pelo tribunal'. 22 Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão: 'patife!' será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de 'tolo' será condenado ao fogo do inferno. 23 Portanto, quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar, e ali te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24 deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. então vai apresentar a tua oferta. 25 Procura reconciliar-te com teu adversário, enquanto caminha contigo para o tribunal. Senão o adversário te entregará ao juiz, o juiz te entregará ao oficial de justiça, e tu serás jogado na prisão. 26 Em verdade eu te digo: dali não sairás, enquanto não pagares o último centavo.
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A liturgia da Palavra de Deus neste dia é uma catequese sobre a justiça cristão. Quem é justo diante de Deus? Como podemos ser justificados? Ela também nos apresenta a nova lei, a lei de Cristo ou a nova justiça.


Deus Quer a Vida Para os Homens e Não Sua Perda Eterna


Será que tenho prazer na morte do ímpio? — oráculo do Senhor Deus. Não desejo, antes, que mude de conduta e viva?” (Ez 18,23).


A Primeira Leitura tirada do livro do profeta Ezequiel nos apresenta a ideia bíblica bastante avançada sobre justiça. Para falar sobre justiça Ezequiel fala sobre Deus.


Para o profeta Ezequiel o Deus do AT é também um Deus de amor, um verdadeiro Pai para suas criaturas. Este Deus é a vida. Por ser a Vida, Ele não pode querer o contrário. Para todas as criaturas Ele é um Deus de vida. Consequentemente, Ele quer a vida para suas criaturas e não o castigo: “Será que tenho prazer na morte do ímpio? — oráculo do Senhor Deus. Não desejo, antes, que mude de conduta e viva?” (Ez 18,23; cf. Os 11,8-9). A vida aqui deve ser entendida como a comunicação, o amor, a plenitude, a participação no gozo da verdadeira vida, na graça do Ser que é o próprio Deus. Trata-se da vida em plenitude.


Será que tenho prazer na morte do ímpio?  Não desejo, antes, que mude de conduta e viva?” O profeta Ezequiel nos apresenta a compaixão de Deus. Em Deus há uma paixão; o amor para o homem caído (cf. Jo 3,16). Em Deus há compaixão e misericórdia. Aqui se fundamenta a paixão e compaixão de Jesus (cf. Lc 6,36).


Este Deus de compaixão e de misericórdia há de castigar o pecado de acordo com a verdade, mas por outro lado, Ele não pode destruir a vida, pois seria contra a Si mesmo porque Ele mesmo é a Vida (cf. Jo 14,6; 11,25).


Além de apresentar o Deus da compaixão e da misericórdia, o profeta Ezequiel derruba todo o gênero de coletivismo sobre o pecado.


A teologia tradicional judaica afirmava que o castigo, o sofrimento, dor do presente são consequências do pecado ou de pecados do passado, cometidos por si mesmo que os sofre ou por algum antepassado seu. E a teologia da responsabilidade coletiva que ouvimos dos lábios de Jó, dos dirigentes judeus diante do cego de nascença (cf. Jo 9,2-3) e de tantos pregadores recentes. Os desterrados de Babilônia expressavam esta ideia com a seguinte frase: “Os pais comeram uvas verdes e os dentes dos filhos se embotaram” (Jr 31,29; Ez 18,2).


Sem anular o princípio da responsabilidade coletiva (que liga solidariamente os membros da comunidade entre si e com seus antepassados), o profeta Ezequiel desenvolve o princípio da responsabilidade pessoal, que supõe um avança revolucionário na teologia. Este princípio reza assim: “Eu vos julgarei a cada um conforme o seu procedimento” (Ez 18,30). O homem, cada homem sempre será dono de seu destino, e por isso, poderá escolher entre o bem e o mal, entre a morte e a vida, mas tudo depende dele (cf. Ez 18,5ss). Assim é possível romper a cadeia do passado, já que o Senhor não quer a morte de ninguém. No entanto, para obter a vida não bastam os atos isolados, é necessário uma atitude firme e decidida: “Quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre. Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida. Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá; não morrerá” (Ez 18,26-28).


Em teoria, todos nós estamos de acordo com o princípio de responsabilidade individual, mas a práxis é outra coisa. Por causa do erro de um sacerdote, condenamos todos os sacerdotes; por causa da culpa ou do crime de um membro de um partido ou de uma instituição, ou de uma Igreja ou religião, logo dizemos que tal partido ou tal instituição ou tal Igreja ou religião não vale para nada! Emitimos juízos categóricos e rotundos/redondos contra aquele partido ou aquele grupo ou instituição ou crença ou Igreja.  O profeta Ezequiel nos ensina que devemos nos despojar de uma mentalidade religiosa baseada nos méritos contraídos. Cada coisa deve ser tratada como uma coisa. Ou cada caso é um caso como dizemos frequentemente. Assim também cada pessoa deve ser tratada como uma pessoa. O descobrimento da unicidade da pessoa é o coração da liberdade. Este descobrimento é o fruto da fé em Deus-pessoa ou provem do Deus-pessoa. Este Deus não é instrumento da escravidão. O valor indestrutível da pessoa depende da presença de um Deus pessoal.


Será que tenho prazer na morte do ímpio? — oráculo do Senhor Deus. Não desejo, antes, que mude de conduta e viva?”. Deus não quer a morte do pecador e sim que se converta e viva. Mas há que ter presente a liberdade e responsabilidade, já que a relação com o Deus de amor está muito longe de ser uma pura obediência mecânica ou um fatalismo irreversível. Por sua liberdade interior, o homem pode, em todo momento, converter-se e orientar sua vida tal como ele quer. Não se nega o princípio de solidariedade na culpa, simplesmente o completa. Cada um deve situar-se responsavelmente diante de Deus.


Será que tenho prazer na morte do ímpio? — oráculo do Senhor Deus. Não desejo, antes, que mude de conduta e viva.... Quando um justo se desvia da justiça, pratica o mal e morre, é por causa do mal praticado que ele morre. Quando um ímpio se arrepende da maldade que praticou e observa o direito e a justiça, conserva a própria vida. Arrependendo-se de todos os seus pecados, com certeza viverá; não morrerá”. É o recado de Deus para cada um de nós através da boca do profeta Ezequiel.


Deus nos ama como pessoas; Deus nos chama com um nome pessoal, conhecido unicamente por Ele (cf. Is 43; 49,16) e por aquele que recebe a chamada.


Ser Cristão É Aquele Vai Além Da Lei


O texto do evangelho deste dia faz parte do Sermão da Montanha (Mt 5-7). O cristão deve recordar que já não está no Sinai e sim na Montanha das Bem-aventuranças (Sermão da Montanha); que não é um seguidor de Moises e sim um discípulo de Jesus que deve viver no amor, com amor e por amor.


O texto do evangelho de hoje inicia com a confrontação entre a justiça dos escribas e dos fariseus e a justiça exigida para os cristãos: “Se a vossa justiça não for maior que a dos mestres da lei e dos fariseus, vós não entrareis no reino dos céus” (Mt 5,20). É um princípio ético fundamental de Jesus. Para Jesus não basta ser bom, mas tem que ser melhor. “O bom é inimigo do ótimo”, dizia São João Bosco. A justiça do Reino de Deus é o sinônimo de amor misericordioso, de solidariedade fraterna, de perdão reconciliador, de igualdade respeitosa, de empenho por construir a paz, e a recusa de toda forma de idolatria e de injustiça.


Através desta afirmação que serve de alerta para quem quiser ser cristão, Jesus quer desenvolver o sentido profundo da Lei cristã. Por isso, o olhar se detém primeiramente nos deveres sociais (Mt 5) para passar às obras religiosas (Mt 6).


A primeira das oposições concerne ao ensinamento do quinto mandamento: “Não matarás”. Jesus propõe uma interpretação mais exigente desta disposição que abarca não somente as ações ou os atos culpáveis nessa ordem, mas também a raiz de onde brotam essas ações ou esses atos: o sentimento e a interioridade do ser humano. A proibição do homicídio inclui na nova interpretação de Jesus a proibição de todo sentimento de ira e animosidade, maledicência, insulto, desprezo contra o irmão: “Eu, porém, vos digo: todo aquele que se encoleriza com seu irmão será réu em juízo; quem disser ao seu irmão: 'patife!' será condenado pelo tribunal; quem chamar o irmão de 'tolo' será condenado ao fogo do inferno”. Jesus vai ao fundo do problema. Interioriza a lei: não é apenas o gesto externo que é ruim, a "raiva" já é ruim que pode induzir ao gesto externo. Os insultos verbais, as disputas que envenenam as relações humanas conduzem para a prática do ato violento. Chamar alguém "imbecil" ou "incrédulo" já é culpado de não-amar. Segundo Jesus a ira e as palavras ofensivas contra o irmão são equiparadas ao homicídio. Nas suas palavras Jesus enfatiza que a relação com o irmão adquire uma tal seriedade que com ela se chega a decidir o destino definitivo da pessoa humana diante de Deus: “Quem chamar o irmão de 'tolo' será condenado ao fogo do inferno”.


A violência, sob qualquer forma, mesmo a violência voltada contra si mesmo, nada mais é que uma detestável utilização abusiva da força. Julgar que força e severidade consigo mesmo bastam para mudar é uma visão ineficaz e perigosa, pois aos poucos se vai instaurando uma lógica da violência, que facilita a repetição sistemática dos erros e do sentimento de insatisfação consigo mesmo. Como não atingimos os resultados com que sonhamos, redobramos a violência contra nós mesmos que acaba com a harmonia com os outros. Todas as vezes que o ser humano renunciou ao uso da violência, a humanidade progrediu.


Segundo Jesus o mandamento de “não matar” somente ficará superado no momento em que se pensar num amor universal que leva a amar e a perdoar. Uma sociedade não se torna justa somente por não matar. Somente o amor sem medida, convertido em solidariedade e igualdade de direitos para todos pode formar uma sociedade justa. O que está mandado não é “não matar” e sim “amar”. O pecado não é somente o mal que fazemos e sim o bem que deixamos de fazer (pecado de omissão).


Ser Cristão Reconciliado     


Logo depois que apresentou a nova formulação da antiga lei, Jesus passa a expor sua concretização em forma de um caso para enfatizar até que ponto essa nova lei deve ser observada. Trata-se de uma explicitação que indica a radicalidade de sua aplicação com a ajuda de um exemplo (cf. Mt 5,23-26). O cristão que se aproxima do Senhor da Vida deve reconciliar-se primeiro com o irmão: “Quando tu estiveres levando a tua oferta para o altar, e ali te lembrares que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa a tua oferta ali diante do altar, e vai primeiro reconciliar-te com o teu irmão. então vai apresentar a tua oferta. Se há discórdia entre os homens, a relação com Deus se rompe. Como se Deus quisesse nos dizer: “Antes de ter relações corretas comigo, tenham primeiro entre vocês, homens, essas relações corretas”. Não somente quem ofendeu está obrigado a se reconciliar, mas também quem sofreu uma ofensa. Sublinha-se o caráter urgente deste dever diante do qual perde a importância de ter ou de não ter a razão no conflito. Cada um é chamado à superação de qualquer tipo de divisão comunitária que lhe afete.


Jesus chama os cristãos a fazerem uma passagem urgente: de uma prática religiosa formalista que põe ênfase sobre o cumprimento cultual (cumprir apenas preceitos) para a vivência do amor fraterno. O amor fraterno passa diante do culto. O primeiro de tudo e o mais essencial para cada cristão é o amor, pois “a caridade é a plenitude da lei” (Rm 13,10). Por isso, “Quanto mais tu amas, mais alto tu sobes” (Santo Agostinho).


Para Jesus a reconciliação é tarefa prioritária: a reconciliação está antes de qualquer culto a Deus, está antes que ir à missa, antes que rezar, porque o projeto de Deus sobre a humanidade é nada mais do que criar um mundo de irmãos onde todos podem chamar a Deus de Pai. É uma sociedade nova onde regem as relações humanas próprias do amor mútuo. Uma oferenda é agradável a Deus, se, quem a oferece, não guarda, em seu coração, ódio, nem rancor nem ressentimento contra o próximo. A oferenda a Deus seria inútil, se o coração do oferente fosse contaminado pela inimizade e o seu relacionamento com alguém estivesse rompido. Trata-se de uma exigência radical que escandalizam até os nossos sentimentos humanos.


Se houver discórdia entre os homens, a relação com Deu se rompe. Deus quer nos dizer: “Antes de ter relações corretas comigo, vocês devem tê-las entre vocês”. A caridade fraterna passa adiante do culto. A reconciliação é um princípio essencial de sobrevivência para as pessoas, as famílias, as profissões, as etnias de uma geração em geração.


Portanto, convém reconciliar-se, pôr-se de acordo, antes que chegue o momento do juízo definitivo de Deus. Não se esqueça: “O bom é inimigo do ótimo”. Somos chamados a ser melhores diariamente no amor fraterno para ser dignos do Reino de Deus e para sermos reconhecidos como seguidores de Jesus (Jo 13,35).


Todos nós somos pecadores e devemos ter consciência de pecadores. Ninguém pode olhar para o outro e dizer que o outro é mau. Se tivermos uma boa formação de nossa consciência e se trabalharmos seriamente na nossa sensibilidade, a consciência nos acusará como pecadores. O insensível carece de consciência e nisto consiste a ruína. Somente um santo é que capaz de se reconhecer pecador, pois ele está sempre frente a frente com o Deus santo.


Para viver a vida cristã e a fé cristã temos necessidade de viver da superabundância da misericórdia de Deus. E somente tendo acolhido essa misericórdia infinita do Pai é que poderemos, por nossa vez, perdoar nossos irmãos. Amar é perdoar. Guardar rancor contra alguém é privar-se da bênção divina. De fato, cada pessoa não tem senão um só coração e não saberá parti-lo em dois, sob o risco de vê-lo dilacerar-se e morrer. A unidade do coração repousa sobre essa dupla misericórdia. O nosso mundo morre por falta de misericórdia, pois o mundo está repleto de agressividade e de violência de grau maior de todos os tipos. Não tenhamos medo de denunciar esse drama, inclusive o mesmo drama que tem dentro de nosso coração. Podemos não ter a arma na nossa mão, mas infelizmente guardamos várias balas na boca para ferir o próximo e os dedos para digitar o comentário destrutivo nas redes sociais. A sociedade muda para melhor a partir da mudança do meu coração. Durante Quaresma preciso ser mais humilde (imposição das cinzas na Quarta-Feira de Cinzas), eu preciso rezar mais e falar menos, eu preciso ajudar mais e criticar menos e eu preciso me controlar mais para eu possa ser uma cristão próximo da imagem de Jesus Cristo.
P. Vitus Gustama,svd