sábado, 21 de abril de 2018

24/04/2018
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CONHECER E ESCUTAR O BOM PASTOR
Terça-Feira da IV Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 11,19-26
Naqueles dias, 19 aqueles que se haviam espalhado por causa da perseguição que se seguiu à morte de Estêvão chegaram à Fenícia, à ilha de Chipre e à cidade de Antioquia, embora não pregassem a Palavra a ninguém que não fosse judeu. 20 Contudo, alguns deles, habitantes de Chipre e da cidade de Cirene, chegaram a Antioquia e começaram a pregar também aos gregos, anunciando-lhes a Boa Nova do Senhor Jesus. 21 E a mão do Senhor estava com eles. Muitas pessoas acreditaram no Evangelho e se converteram ao Senhor. 22 A notícia chegou aos ouvidos da Igreja que estava em Jerusalém. Então enviaram Barnabé até Antioquia. 23 Quando Barnabé chegou e viu a graça que Deus havia concedido, ficou muito alegre e exortou a todos para que permanecessem fiéis ao Senhor, com firmeza de coração. 24 É que ele era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé. E uma grande multidão aderiu ao Senhor. 25 Então Barnabé partiu para Tarso, à procura de Saulo. 26 Tendo encontrado Saulo, levou-o a Antioquia. Passaram um ano inteiro trabalhando juntos naquela Igreja, e instruíram uma numerosa multidão. Em Antioquia os discípulos foram, pela primeira vez, chamados com o nome de cristãos.


Evangelho: Jo 10,22-30
22 Celebrava-se, em Jerusalém, a festa da Dedicação do Templo. Era inverno. 23 Jesus passeava pelo Templo, no pórtico de Salomão. 24 Os judeus rodeavam-no e disseram: 'Até quando nos deixarás em dúvida? Se tu és o Messias, dize-nos abertamente.' 25 Jesus respondeu: 'Já vo-lo disse, mas vós não acreditais. As obras que eu faço em nome do meu Pai dão testemunho de mim; 26 vós, porém, não acreditais, porque não sois das minhas ovelhas. 27 As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem. 28 Eu dou-lhes a vida eterna e elas jamais se perderão. E ninguém vai arrancá-las de minha mão. 29 Meu Pai, que me deu estas ovelhas, é maior que todos, e ninguém pode arrebatá-las da mão do Pai. 30 Eu e o Pai somos um.'
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Aqueles que se haviam espalhado por causa da perseguição que se seguiu à morte de Estêvão chegaram à Fenícia, à ilha de Chipre e à cidade de Antioquia”, assim o autor dos Atos dos Apostolos nos relatou que lemos na Primeira Leitura.


A fundação da Igreja em Antioquia, capital de Síria e então, em pleno país pagão é uma etapa principal na expansão da Igreja. Antioquia não era somente uma verdadeira metrópole pela sua importância econômica, mas também pelo aspecto cultural e religioso. Por essa razão Antioquia figurava em terceiro lugar entre as principais urbes do império romano depois de Roma e Alexandria. O Espirito Santo empurra os apóstolos até os centros vitais, os centros de grande influencia do mundo, então. O encontro da mensagem cristã com Antioquia significava, por isso, uma fase notável da difusão da Palavra de Deus pelo mundo.


A Igreja primitiva encontra seu caminho deixando-se guiar pelos acontecimentos, e pelo Espírito Santo. Perseguidos em Jerusalémm expulsos de sua terra natal, fundam novas comunidades onde se encontram dispersos. Certamente os perseguidores não buscavam conseguir esse efeito quando mataram Estêvão e outros cristãos. O Espirito Santo converte os persegudos em arautos da Boa Nova.


O autor dos Atos quer nos afirmar que apesar das perseguições e outros tipos de dificuldade, o Senhor jamais abandona sua Igreja e nenhum poder do mundo conseguirá derrubar a Igreja do Senhor (Cf. Mt 16,18). Por isso, eu preciso ter confiança na Igreja do Senhor apesar de alguns membros experimentarem suas fraquezas. E como os apóstolos eu preciso me deixar guair pelo Espirito Santo para que ele possa me levar para o lugar onde a Palavra de Deus precisa ser proclamada. E a graça do Espirito Santo não admite demora. Além disso, nossa comunidade continua necessitando pessoas como Barnabé que sabem ver o bem alí onde está e se alegram por ele. Deveríamos ser, como Barnabé, conciliadores e não divisores na comunidade.


Com o Salmo Responsorial (Sl 86/87) que é um canto a Jerusalém terrena, figura da Igreja, cantamos a maravilhosa propagação da Boa Nova de Cristo e de sua Igreja: “O Senhor ama a cidade que fundou no Monte santo; ama as portas de Sião mais que as casas de Jacó. Dizem coisas gloriosas da Cidade do Senhor. Lembro o Egito e Babilônia entre os meus veneradores. Na Filistéia ou em Tiro ou no país da Etiópia, este ou aquele ali nasceu. De Sião, porém, se diz: ´Nasceu nela todo homem; Deus é sua segurança´. Deus anota no seu livro, onde inscreve os povos todos: ´Foi ali que estes nasceram´. E por isso todos juntos a cantar se alegrarão; e, dançando, exclamarão: ´Estão em ti as nossas fontes! ´”.


Nós, o novo povo de Deus, devemos trabalhar constantemente para que a Igreja de Cristo seja constantemente fortalecida como o Reino de Deus entre nós. O Senhor nos escolheu como seu povo. Isto não só tem que nos encher de um orgulho sagrado, mas deve nos comprometer a proclamarmos o Nome de nosso Deus a todos os povos, para que todos possam fazer parte da Igreja e, com uma vida sincera e cheia de amor vamos fazendo realidade o Reino de Deus entre nós.


No Evangelho de hojem a auto-revelação de Jesus chega a maior profundidade na festa da Dedicação do Templo. Ele não somente é a porta e o Bom Pastor; não somente mostra ser o Enviado de Deus pelas obras que faz. Sua relação com o Pai, com Deus é de uma misteriosa identificação: “Eu e o Pai somos um”. Jesus vai manifestando progressivamente o mistério de sua pessoas: o “Eu Sou”. Nele e através dele encontramos a vida eterna, uma vida cheio de sentido.


O que se pede de nós é a fé em Jesus Cristo. O texto do Evangelho de hoje expressa nossa fé através dos verbos usados sucessivamente: escutar, conhecer, crer, seguir. Se alguém se perder, será porque ele quer, porque Jesus que se apresenta como o Bom Pastor conhece suas ovelhas e as defende e dá a vida por eles e não quer que nenhuma ovelha se perca. O Evangelho de hoje, portanto, nos convida a renovarmos nossa fé e nosso seguimento de Jesus. Temos que fazer nossa a atitude que Pedro expressou belamente: “Senhor, a quem iremos? Tens palavras de vida eterna e nós cremos e reconhecemos que és o Santo de Deus” (Jo 6,68-69).


Na Eucaristia escutamos sempre a voz do Bom Pastor. Fazemos caso de sua Palavra, nós nos alimentamos com seu Corpo e Sangue. Na verdade, este é um momento privilegiado em que Cristo é Pastor e nós, sua comunidade. E isso deveria se prolongar ao longo da jornada: seguindo seus passos, vivendo em união com ele, imitando seu estilo de vida.


Martírio de Estêvão Resulta Na Expansão da Igreja e na Fundação de Novas Comunidades Cristãs


Aqueles que se haviam espalhado por causa da perseguição que se seguiu à morte de Estêvão chegaram à Fenícia, à ilha de Chipre e à cidade de Antioquia.... Em Antioquia os discípulos foram, pela primeira vez, chamados com o nome de cristãos”. É a citação de uma parte do texto da Primeira Leitura.


Na Primeira Leitura fala-se da fundação da Igreja de Antioquia da Síria, uma das maiores cidades do império nessa época. A fundação da Igreja de Antioquia, capital de Síria é uma etapa principal na expansão da Igreja. Esta expansão se deve à dispersão dos cristãos (judeu-cristãos e pagãos convertidos) depois da morte de Estêvão de maneira trágica (foi apedrejado até a morte). Perseguidos em Jerusalém, expulsos de sua terra natal, esses cristãos perseguidos fundam comunidades novas lá onde se encontram dispersos. Os perseguidores não conseguem bloquear a expansão da Igreja. O sangue do mártir Estevão se torna semente para a expansão e o crescimento da Igreja.


Antioquia se transforma no ponto mais importante de vivência e de difusão do cristianismo. Sinal disso é a denominação de “cristãos” que nasceu nessa cidade (Antioquia). Isto demonstra o reconhecimento da presença e de sua influência nessa cidade. Com o nascimento da nova Igreja (nova Comunidade cristã), o centro de gravidade se desloca de Jerusalém para Antioquia, pois a partir de Antioquia é que partirão as missões dirigidas à evangelização do mundo grego-pagão.


Através do relato da expansão da Igreja, o autor dos Atos (Lucas) quer nos dizer que a fundação da Igreja de Antioquia está dentro do plano de Deus. De fato, a potência do Senhor é que faz a missão prosperar: “A mão do Senhor estava com eles. Muitas pessoas acreditaram no Evangelho e se converteram ao Senhor”. Os missionários para Antioquia estão abertos à ação divina e a ação divina se opera através deles. O resultado desta ação conjunta (divina-humana) é o número notável dos convertidos.


Quando não contarmos com o Senhor no nosso trabalho missionário e apenas contarmos com nossa capacidade técnica e organizacional nada prosperará. Se der certo, tudo será atribuído ao autor do trabalho que resulta no orgulho. Mas se não der certo, serão procurados os culpados, menos a fraqueza e a incapacidade do chefe do trabalho missionário.


Barnabé, Homem Conduzido Pelo Espirito de Deus


A notícia chegou aos ouvidos da Igreja que estava em Jerusalém. Então enviaram Barnabé até Antioquia. Ele era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé”.


É interessante observar este detalhe. Os cristãos não se contentam com a fundação de novas Igrejas locais. Eles cuidam de incorporá-las à unidade da Igreja única: “Creio na Igreja, Una, Santa, Católica e Apostólica”. São criados laços entre uma e outra comunidade. Por esta razão Barnabé, membro da comunidade de Jerusalém é enviado para a comunidade de Antioquia. Através do ato de enviar Barnabé para Antioquia Lucas quer nos mostrar que nenhuma comunidade pode se tornar um gueto, um círculo cerrado, um clube só reservado somente a alguns membros. Na linguagem de hoje fala-se da paróquia como uma rede de comunidades. Quando se fala de “rede” é porque há interligação ou interconexão.


Barnabé foi escolhido como enviado de Jerusalém para Antioquia. O próprio texto nos dá razão desta escolha: “Ele era um homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé”.


Barnabé é o apelido que os apóstolos deram a um levita natural de Chipre. Seu nome judeu é José. Mas Lucas interpretou seu nome apostólico como “filho da consolação” para sugerir algo do seu caráter (At 4,36). Segundo Livro dos Atos dos Apóstolos, Barnabé era uma pessoa boa, generosa (At 4,32-37) e calorosa, que ofertou abundantemente seu tempo, seus bens e seus talentos para a causa de Cristo, tanto em casa como nos lugares distantes. Era um homem de oração, que buscava a direção do Espirito Santo para tomar decisões. Ele encorajava seus companheiros de trabalho no ministério cristão e era um amigo sempre disposto a dar uma segunda chance a quem precisasse (At 15,36-39). Barnabé é mencionado 29 vezes em Atos e cinco vezes nas Cartas de Paulo. Ele é um grande exemplo para qualquer cristão.


Escutar A Voz Do Verdadeiro Pastor     


O texto diz: “As minhas ovelhas escutam a minha voz...” (v.27). Sempre ouvimos, mas será que escutamos? Escutar é uma coisa mais séria, requer uma certa dose de interesse, de preocupação, de atenção. Há que parar-se para detectar o que ouvimos, para clarificá-lo, para assimilá-lo e para respondê-lo. Escutar é um exercício humano para certa categoria. Na vida em geral, muitas vezes acontece que ouvimos, mas não escutamos. Tantas tragédias poderiam ser evitadas se soubéssemos escutar e viver os bons conselhos e orientações. Tantas fatalidades na vida de tantos cristãos poderiam ser afastadas, se vivessem de acordo com os ensinamentos de Cristo.


A escuta é uma palavra-chave que caracteriza toda a tradição do povo hebraico. Escutar é um dos mandamentos na Bíblia: “Escutai, ó Israel” (cf. Dt 6,4; Mc 12,29). Ouvir profundamente significa escutar as palavras, os pensamentos, a tonalidade dos sentimentos, o significado pessoal até mesmo o significado que subjaz às intenções conscientes, até os gritos enterrados muito baixo da superfície do interlocutor. O povo eleito é formado pela escuta da Palavra de Deus. E a maior das tragédias na Bíblia é causada pela falta da escuta da Palavra de Deus. Quando nos abrirmos para o discurso divino, aprenderemos que nós somos escuta, dom e que nos realizamos na gratuidade.


“Minhas ovelhas escutam a minha voz”. Esta é nossa tarefa essencial e permanente. Devemos fechar nossos ouvidos a outras vozes, a outras mensagens para tê-los abertos à Palavra do Senhor, pois só Ele tem palavras de vida eterna (cf. Jo 6,68), somente Ele é a verdade (Jo 14,6), somente Ele é a Luz (Jo 8,12).


A “voz” de Jesus Cristo ressoa toda vez que alguém viver e anunciar a nova humanidade onde todos se sentem irmãos; toda vez que alguém pregar e dar testemunho da justiça, da liberdade, da verdade, do amor, da paz, da fraternidade universal; toda vez que alguém nos fizer descobrir o verdadeiro sentido da vida. Seguidor de Cristo é aquele que reconhece sua voz nos profetas de hoje.


Nós vivemos no meio do mundo de muitas vozes. Ouvimos muitos apelos e vozes e nunca faltam mensagens enganosas. Para não cair na armadilha é necessário ter o discernimento e apurar os ouvidos para escutar melhor a voz do verdadeiro Pastor que é Jesus Cristo. Somente Cristo é o pastor que não nos decepciona. É ele quem dá sentido à nossa vida. É preciso ler, escutar meditar a Palavra de Deus frequentemente para poder identificar a voz do Pastor no meio da multidão de vozes que também querem chamar a nossa atenção.


A Certeza De Sermos Conhecidos E Amados Por Deus


“Eu conheço as minhas ovelhas” (v.27). “Conhecer” biblicamente não se refere a um mero conhecimento intelectual. Conhecer na bíblia ultrapassa o saber intelectual e abstrato. O verbo “conhecer” no vocabulário bíblico e na língua hebraica implica o amar, o desejar o bem da pessoa, o sentir afeto por ela. Isto quer dizer que somente se pode chegar a conhecer uma pessoa no âmbito da relação intima e pessoal. O verbo “conhecer” exprime muito mais a relação de amor. Quando Jesus diz que conhece as suas ovelhas, isto quer dizer que tem para com todos nós uma relação de amor profundo. O mesmo amor que o une ao Pai, Jesus exprime também para com as suas ovelhas, todos nós: um amor fiel, eterno, indestrutível. Deus me ama com os meus ideais e minhas decepções, com os meus sacrifícios e alegrias, com os meus sucessos e fracassos.


“Eu conheço as minhas ovelhas”. Esta frase é uma mensagem de ternura. Ternura é amor respeitoso, delicado, concreto, atento e alegre; é amor sensível, aberto à reciprocidade, não ávido nem ganancioso nem pretensioso nem possessivo, mas forte na sua fraqueza, eficaz e vitorioso, desarmado e desarmante. Eu não sou anônimo para Deus. Ele conhece minhas vitórias e derrotas, minhas decepções e minhas alegrias, minhas preocupações e minhas felicidades. Apesar das minhas fraquezas ele me ama. O amor do Senhor me capacita para me levantar novamente e continuar minhas lutas pela vida vivida da sua dignidade.


Na nossa vida facilmente desvalorizamos a dimensão afetiva. Dedicamos muito mais atenção à dimensão do fazer, do produzir, do ter, esquecendo-nos das outras dimensões ligadas às afetivas. Isto pode acontecer dentro de família, pois cada um acaba correndo atrás de seus compromissos, de sua carreira, descuidando de cultivar os relacionamentos afetivos entre as pessoas.


Seguir Jesus, Nosso Bom Pastor


“E elas me seguem”, diz Jesus. A fé consiste em seguir Jesus por amor, vivendo como Ele viveu (cf.1Jo 2,6). Nosso cristianismo não pode consistir somente em cumprimento de umas normas. Não há fé cristã sem uma relação interior, pessoal e livre com Jesus. O nosso caminhar atrás das pegadas do Bom Pastor é paz, sossego, segurança, gozo inefável e glorioso. A fé é o seguimento: “Eles me seguem”. É preciso deixar Jesus na frente para que não fiquemos perdidos neste mundo, pois o nosso destino é a Casa do Pai onde se encontra Jesus. No seguimento nunca é tarde para retificar, corrigir e melhorar nossa vida cristã.


Jesus continua a ser o Bom Pastor no mundo inteiro, para todos os seres humanos. Mas todos nós, cristãos, por nosso testemunho, participamos do pastoreio universal de Jesus Cristo. Ao mesmo tempo em que somos conduzidos, ouvindo a sua voz, sendo ovelhas, devemos exercer também a missão de pastores, conduzindo os outros até as fontes da vida: Cristo.


“Não basta apenas falar de Jesus, é preciso obras, é necessária a vivência dos valores evangélicos, o amor precisa ser concretizado. Mas acima de tudo, é necessária a consciência de que somos participantes da divina missão de salvação dos homens e que quem realiza esta obra não somos nós, mas sim o próprio Deus, é ele quem pastoreia através de nós. Somos na verdade canais de graça para que os homens ouçam a voz de Jesus, sintam-se integrantes do seu rebanho e o sigam rumo à vida eterna” (Comentário do site da CNBB).
P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 20 de abril de 2018

23/04/2018
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JESUS É A PORTA PELA QUAL ENTRAREMOS NA ETERNIDADE
Segunda-Feira da IV Semana da Páscoa


Primeira Leitura: At 11,1-18
Naqueles dias, 1os apóstolos e os irmãos, que viviam na Judeia, souberam que também os pagãos haviam acolhido a Palavra de Deus. 2Quando Pedro subiu a Jerusalém, os fiéis de origem judaica começaram a discutir com ele, dizendo: 3“Tu entraste na casa de pagãos e comeste com eles!” 4Então, Pedro começou a contar-lhes, ponto por ponto, o que havia acontecido: 5“Eu estava na cidade de Jope e, ao fazer oração, entrei em êxtase e tive a seguinte visão: Vi uma coisa parecida com uma grande toalha que, sustentada pelas quatro pontas, descia do céu e chegava até junto de mim. 6Olhei atentamente e vi dentro dela quadrúpedes da terra, animais selvagens, répteis e aves do céu. 7Depois ouvi uma voz que me dizia: Levanta-te, Pedro, mata e come’. 8Eu respondi: ‘De modo nenhum, Senhor! Porque jamais entrou coisa profana e impura na minha boca’. 9A voz me disse pela segunda vez: ‘Não chames impuro o que Deus purificou’. 10Isso repetiu-se por três vezes. Depois a coisa foi novamente levantada para o céu. 11Nesse momento, três homens se apresentaram na casa em que nos encontrávamos. Tinham sido enviados de Cesaréia à minha procura. 12O Espírito me disse que eu fosse com eles sem hesitar. Os seis irmãos que estão aqui me acompanharam e nós entramos na casa daquele homem. 13Então ele nos contou que tinha visto um anjo apresentar-se em sua casa e dizer: ‘Manda alguém a Jope para chamar Simão, conhecido como Pedro. 14Ele te falará de acontecimentos que trazem a salvação para ti e para toda a tua família’. 15Logo que comecei a falar, o Espírito Santo desceu sobre eles, da mesma forma que desceu sobre nós no princípio. 16Então eu me lembrei do que o Senhor havia dito: ‘João batizou com água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo’. 17Deus concedeu a eles o mesmo dom que deu a nós que acreditamos no Senhor Jesus Cristo. Quem seria eu para me opor à ação de Deus?” 18Ao ouvirem isso, os fiéis de origem judaica se acalmaram e glorificaram a Deus, dizendo: “Também aos pagãos Deus concedeu a conversão que leva para a vida!”


Evangelho: Jo 10,1-10
Naquele tempo, disse Jesus: 1“Em verdade, em verdade vos digo, quem não entra no redil das ovelhas pela porta, mas sobe por outro lugar, é ladrão e assaltante. 2Quem entra pela porta é o pastor das ovelhas. 3A esse o porteiro abre, e as ovelhas escutam a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora. 4E, depois de fazer sair todas as que são suas, caminha à sua frente, e as ovelhas o seguem, porque conhecem a sua voz. 5Mas não seguem um estranho, antes fogem dele, porque não conhecem a voz dos estranhos”. 6Jesus contou-lhes esta parábola, mas eles não entenderam o que ele queria dizer. 7Então Jesus continuou: “Em verdade, em verdade vos digo, eu sou a porta das ovelhas. 8Todos aqueles que vieram antes de mim são ladrões e assaltantes, mas as ovelhas não os escutaram. 9Eu sou a porta. Quem entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e encontrará pastagem. 10O ladrão só vem para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância”.
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O Batismo do centurião Córnélio, que lemos na Primeira Leitura, é o núcleo dos Atos dos Apóstolos, um momento decisivo no qual o Espirito de Deus empurra sua Igreja para a missão, obrigando, por assim dizer, os apóstolos a irem resolutamente aos gentios: “Os apóstolos e os irmãos, que viviam na Judeia, souberam que também os pagãos haviam acolhido a Palavra de Deus”. A intervenção milagrosa de Deus faz Pedro decidir entrar em casa dos gentios e comer com eles, apesar de todo peso de seu passado e de seu ambiente. O que se pede a Pedro é que supere sua própria tradição, e, sobretudo, que não se imponha aos que não são de sua etnia/cultura. É abertura de espirito. É o Espirito de Deus que empurra o cristão à missão, pois Deus ama a todos.


Segundo oo Atos dos Apóstolos, muitos “pagãos” de distintas etnias e nações pediam ser batizados, pois tinham fé e aceitavam a Palavra de Deus. Diante de Deus todos os homens são iguais. Todos são chamados por Deus para a salvação. Todo povo, toda cultura, toda etnia poderá entrar na Igreja e ter fé no Senhor Ressuscitado, sem negar suas riquezas culturais nas quais podem-se encontrar “sementes do Verbo” (Cf. Ad Gentes n.11b do Concílio Vaticano II), com uma só condição para todos: não querer impor aos demais sua própria cultura. É o universalismo e a unidade que respeita as diversidades. É a comunhão profunda no essencial, deixando para cada um sua liberdade no secundário.


Será que tenho abertura para o Espirito de Deus que me empurra para a missão? Será que tenho capacidade de discernir sobre o que é essencial e o que é secundário na vida e na missão como cristão? Será que sou capaz de enxergar as “sementes do Verbo” em cada povo, cultura, etnia, nação, crença, religião e assim por diante?


Converter-se a Deus é abrir-se à vida. Com o Salmo Responsorial (Sl 41/42) cantamos e enfatizamos nosso caráter de alegres peregrinos em direção ao que é Luz, Verdade e Vida: “Assim como a corça suspira pelas águas correntes, suspira igualmente minh’alma por vós, ó meu Deus! A minh’alma tem sede de Deus, e deseja o Deus vivo. Quando terei a alegria de ver a face de Deus? Enviai vossa luz, vossa verdade: elas serão o meu guia; que me levem ao vosso Monte santo, até a vossa morada! Então irei aos altares do Senhor, Deus da minha alegria. Vosso louvor cantarei, ao som da harpa, meu Senhor e meu Deus!”.


Para comunicar Sua alegria aos homens, Deus precisa de outros homens como canais e testemunhas da única alegria verdadeira que é a graça e o amor de Deus por nós. Deixemos Deus tocar nosso coração para que sejamos canais da alegria do Senhor para os demais homens, especialmente para os mais necessitados. Que cada um de nós possa chegar a dizer um dia: “Deus da minha alegria; meu Senhor e meu Deus!”.  ”Senhor, enviai vossa luz, vossa verdade: elas serão o meu guia”.


Eu sou a Porta”. O evangelho de hoje faz parte do discurso de Jesus sobre o Bom Pastor. O Bom Pastor dá a vida por suas ovelhas. Diante dos maus pastores, Jesus se apresenta a si mesmo como o Pastor legítimo que conhece cada um de suas ovelhas e caminha diante delas. Ele nos ensina a intimidade entre o Pai e o Filho e entre o Filho e seus seguidores, suas ovelhas. Seguidamente aparece uma imagem: Jesus é a porta do aprisco, a única via de acesso ao Pai. Ele é o Bom Pastor que dá a vida por sua ovelhas, mas também, tem o poder para entregar sua vida e recuperá-la. Há neste evangelho uma alusão à Paixão e Ressurreição do Senhor.


Se Jesus nos afirma que conhece suas ovelhas que suas ovelhas O conhecem, eu me pergunto: Será que eu conheço realmente Jesus, Meu Bom Pastor? O que é na verdade que conheço de Jesus? A triste realidade de muitos irmãos batizados é que não conhecem Jesus porque não leem nem meditam nem conhecem a Sagrada Escritura. “Desconhecer a Sagrada Escritura é desconhecer Jesus” é uma das famosas frases de São Jerônimo. Ao conhecer Jesus, qualquer um vai dizer com o Salmo Responsorial de hoje que Jesus é “Deus da minha alegria”.


Estendamos nossa reflexão sobre alguns pontos das leituras de hoje!


A Salvação De Deus É Para Todos Os Convertidos


Lucas, o autor dos Atos dos Apóstolos, dá muita importância ao episódio do pagão convertido, Cornélio, em seu livro. Para este assunto Lucas dedica os capítulos 10 e 11 dos Atos. Hoje lemos, como Primeira Leitura da missa, At 11,1-18, em que Pedro é obrigado a explicar todo o episódio, pois a comunidade de Jerusalém questiona sobre o comportamento de Pedro em deixar os pagãos se tornarem cristãos.


Nestes textos (At 10 e 11) se fala de um assunto muito importante para Lucas: admitir ou não admitir os pagãos à fé, e com que condição? A conversão de Cornélio (era pagão) e sua família à fé cristã é o protótipo para outros casos, como foi o episódio do eunuco Etíope convertido com o diácono Filipe. 


A exegese descobre neste relato duas tradições distintas referindo-se a dois problemas diferentes. Uma tradição admite a entrada dos pagãos na Igreja (At 10,1-18; 18,26; 11,1.11-18). Outra tradição, que se preocupa mais com a pureza ritual, trata das relações entre cristãos circuncidados (judeu-cristãos) cristãos incurcindados (At 10,10-16; 11,2-10). As perspectivas das duas tradições permanecem bastante autônomas.


Vemos o processo de mudança que se dá em Pedro. Por sua formação judaica, Pedro não podia admitir tão facilmente a abertura universal da Igreja ao mundo pagão simbolizada na visão da toalha e os alimentos que não se podiam comer: “De modo nenhum, Senhor! Porque jamais entrou coisa profana e impura na minha boca!”, reagiu Pedro. Recordamos a recusa de Pedro quando Jesus estava para lavar seus pés (Jo 13,6-11). Agora chegou a mudança. O argumento que convence Pedro, logo a comunidade também é que Deus tomou a iniciativa: “Não chames impuro o que Deus purificou” (referente às comidas). “João batizou com água, mas vós sereis batizados no Espírito Santo. Deus concedeu a eles o mesmo dom que deu a nós que acreditamos no Senhor Jesus Cristo. Quem seria eu para me opor à ação de Deus?”, argumentou Pedro diante da comunidade judeu-cristã em Jerusalém (desta vez referido à admissão dos pagãos). O Espirito Santo vai guiando Pedro para a universalidade da fé cristã. Já que os Apóstolos não se decidiam, foi o próprio Espirito Santo que batizou a família de Cornélio, com o “novo Pentecostes” que agora sucede na casa de um pagão.


Outra dado admirável merece ser notado é que Pedro, autoridade máxima aceita a interpelação crítica de alguns membros da comunidade de Jerusalém. Pedro não se precipita em tomar decisão. Ele dá explicações oportunas para a comunidade. E a comunidade as aceita, reconhecendo que “Também aos pagãos Deus concedeu a conversão que leva para a vida!”.


A lição da abertura da comunidade apostólica, superando as dificuldades que surgiam por sua formação anterior, é sempre atual para a Igreja. Isto supõe que a Igreja em geral e cada membro da Igreja em particular sejam dóceis aos sinais com que o Espirito Santo nos quer conduzir para as fronteiras sempre além do habitual. A razão é simples, mas profunda: Deus quer salvar todos os seres humanos. Da parte de Deus há abertura permanente. A porta da salvação é aberta para quem decidir entrar. Ser pagão não é questão pertencer ou não pertencer a uma crença. Ser pagão é questão de modo de viver fraternalmente. Quando vir no rosto do outro meu próprio rosto e no seu coração, o meu próprio coração, logo pertenço a Deus mesmo que eu não faça parte de uma crença ou religião (leia Mt 25,31-46).


Aprendemos também de Pedro e da comunidade de Jerusalém que o diálogo sincero resolve um momento de tensão causada pelos conflitos, que poderia se tornar muito grave. A palavra “conflito” provem do latim “conflictu” significa, “choque; embate; luta”. O conflito é uma situação que envolve um problema, uma dificuldade e pode resultar posteriormente em confrontos, geralmente entre duas partes ou mais, cujos interesses, valores e pensamentos observam posições absolutamente diferentes e opostas. Mas através de um diálogo sincero haverá o encontro em vez de confronto. Em cada diálogo há encontro. Mas em cada confronto há guerra. Numa guerra ninguém sai vitorioso, pois de dois lados há vítimas que não são poucos. Em tudo é preciso ficarmos dóceis ao Espirito Santo para que tudo seja resolvido na paz do Senhor.


Fica para nós pergunta: será que somos dóceis aos sinais com que o Espirito Santo nos quer conduzir para além do habitual de acordo com o plano missionário e universal de Deus? Será que somos vítimas de ataduras de nossa formação anterior, como Pedro no seu caminho inicial para a abertura da Igreja para o mundo pagão? Será que praticamos discriminações que são contrárias ao amor universal de Deus e à vontade ecumênica de Seu Espirito? Como resolvemos os conflitos e as tensões inevitáveis que surgem numa comunidade ou simplesmente na comunidade da qual fazemos parte? Sabemos dialogar ou só queremos impor?


Jesus É a Porta Para Entrar Na Vida Eterna


O discurso de Jesus sobre a porta das ovelhas e o Bom Pastor se apresenta como continuação lógica da perícope imediatamente anterior, sobre o cego de nascença (Jo 9) que termina com a acusação de cegueira dirigida (por Jesus) aos fariseus. Para Jesus os fariseus são os guias cegos e falsos pastores para o povo. Em contrapartida, Jesus se apresenta como o Bom Pastor.


O texto do evangelho de hoje é o início do discurso de Jesus sobre o Bom Pastor. Na passagem do evangelho deste dia, Jesus se identifica explicitamente com a porta das ovelhas: “Em verdade, em verdade eu vos digo, eu sou a porta das ovelhas” (v.7).


Na época todos os rebanhos do mesmo pastor ficavam no mesmo curral. E o pastor procurava deitar-se na entrada desse curral por onde os rebanhos entravam e saíam, tornando-se assim a própria porta do curral (redil). O pastor é quem levava os rebanhos para as pastagens e trazia de volta para o redil (curral). Isto nos indica a função do pastor sobre os rebanhos como guia, protetor e guarda dos mesmos.


Eu sou a Porta”, diz Jesus. A porta sugere a ideia da passagem, do limiar entre o conhecido e o desconhecido, o aquém e o além, a luz e as trevas, a privação e o tesouro. Ela se abre para um mistério; ao mesmo tempo leva psicologicamente para a ação: uma porta sempre convida a ultrapassá-la para sair através dela ou para se proteger dentro dela. Neste sentido, a porta significa como barreira/segurança e proteção (observe bem as portas das casas do mundo moderno: fortes com um intuito de dificultar a entrada de ladrões/assaltantes). Era na porta da cidade que recebiam os que chegavam e se despediam, os que partiam. Por isso, a porta era o símbolo de acolhimento ou carinho.


Quando Jesus declara que é a porta das ovelhas, evidentemente esta expressão tem significado funcional enquanto indica a missão salvífica de Cristo, a mediação universal para a vida e para a revelação divina. Jesus, ao proclamar-se a porta das ovelhas, apresenta-se como o lugar no qual encontra a vida e a salvação. Em Jo 10,9 Jesus esclarece que para sermos salvos e termos a vida em abundância devemos passar pela porta, que é a sua pessoa divina; o escopo da sua vinda ao mundo é o dom da vida e salvação plena (v.10). “Eu sou a porta”, Jesus está nos dizendo que somente por ele entramos na cidade de Deus, e somente nele encontramos o abrigo, a segurança e a proteção (cf. Mt 11,28). Ele nos acolhe cada vez que recorrermos a ele: “... quem vem a mim eu não o rejeitarei” (Jo 6,37).


Mas não podemos ficar presos neste sentimento de segurança e de consolo. Temos que nos esforçar para que possamos conhecer o Senhor Jesus e seus caminhos, pois este conhecimento nos leva ao autoconhecimento. Ao conhecer o Senhor e seus caminhos, nós saberemos quem somos nós e quais são caminhos pelos quais temos que passar e seguir. Para conhecer Jesus e seus caminhos nós, como bons rebanhos, precisamos estar sempre com ele: através da oração sem cessar e da meditação da Palavra de Deus para captarmos melhor os sinais da presença de Deus na nossa vida e ao nosso redor.


Essa doutrina cristológica contém mensagem de importância excepcional para nossa vida de fé e nossa missão de guia ou pastores. Jesus Cristo é o mediador perfeito em sentido descendente e ascendente; na direção vertical e horizontal. O Pai comunica a revelação de sua vida de amor ao homem por meio de seu Filho (cf. Jo 1,17s); a salvação é dada ao homem somente por meio do Filho unigênito (Jo 3,14ss); a vida divina foi trazida ao mundo por meio de Jesus (Jo 14,6). E o homem pode subir até Deus unicamente por meio do seu Filho, que é a vida (Jo 14,2-6); a vida de comunhão com o Pai só é possível através de Jesus Cristo.


Um outro aspecto do discurso é o de ternura ou afetividade: “...as ovelhas escutam a sua voz porque conhecem a sua voz; ele chama as ovelhas pelo nome e as conduz para fora” (vv.3-4). Jesus se apresenta numa atitude de ternura com as ovelhas. Ternura é amor respeitoso, delicado, concreto, atento e alegre. Ela é amor sensível, aberto à reciprocidade, não ávido nem ganancioso, nem pretensioso ou possessivo, mas forte na sua fraqueza, eficaz e vitorioso, desarmado e desarmante.  Na nossa vida facilmente desvalorizamos a dimensão afetiva. Dedicamos muito mais atenção à dimensão do fazer, do produzir, do ter, esquecendo-nos das outras dimensões ligadas às afetivas. Isto pode acontecer dentro de família, pois cada um acaba correndo atrás de seus compromissos, descuidando de cultivar os relacionamentos afetivos entre as pessoas. Podemos imaginar as consequências negativas mais tarde.
 
P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 18 de abril de 2018


Domingo,22/04/2018
Resultado de imagem para “Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas.
JESUS É O BOM PASTOR E DEVEMOS SER BOAS OVELHAS
IV Domingo Da Páscoa Ano “B”


Primeira Leitura: At 4,8-12
Naqueles dias, 8Pedro, cheio do Espírito Santo, disse: “Chefes do povo e anciãos: 9hoje estamos sendo interrogados por termos feito o bem a um enfermo e pelo modo como foi curado. 10Ficai, pois, sabendo todos vós e todo o povo de Israel: é pelo nome de Jesus Cristo, de Nazaré, — aquele que vós crucificastes e que Deus ressuscitou dos mortos — que este homem está curado, diante de vós. 11Jesus é a pedra que vós, os construtores, desprezastes, e que se tornou a pedra angular. 12Em nenhum outro há salvação, pois não existe debaixo do céu outro nome dado aos homens, pelo qual possamos ser salvos”.


Segunda Leitura: 1Jo 3,1-2
Caríssimos: 1Vede que grande presente de amor o Pai nos deu: de sermos chamados filhos de Deus! E nós o somos! Se o mundo não nos conhece, é porque não conheceu o Pai. 2Caríssimos, desde já somos filhos de Deus, mas nem sequer se manifestou o que seremos! Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como ele é.


Evangelho Jo 10,11-18
Naquele tempo, disse Jesus: 11“Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas. 12O mercenário, que não é pastor e não é dono das ovelhas, vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e foge, e o lobo as ataca e dispersa. 13Pois ele é apenas um mercenário que não se importa com as ovelhas. 14Eu sou o bom pastor. Conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem, 15assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou minha vida pelas ovelhas. 16Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor. 17É por isso que meu Pai me ama, porque dou a minha vida, para depois recebê-la novamente. 18Ninguém tira a minha vida, eu a dou por mim mesmo; tenho poder de entregá-la e tenho poder de recebê-la novamente; esta é a ordem que recebi de meu Pai”.
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O quarto domingo da Páscoa é conhecido como “o Domingo do Bom Pastor”, porque em cada um dos três anos do ciclo litúrgico é lida uma passagem do capítulo 10 do Evangelho de João, no qual é desenvolvido o tema do “Bom Pastor”.


No evangelho de João, a palavra “pastor” faz parte do vocabulário da auto-revelação do Messias; ela é precedida da afirmação “egó eimí”, “Eu sou”. Em Jo, sete vezes, Jesus toma a palavra para se autoproclamar:


      6,35: Eu sou o pão da vida;
      8,12: Eu sou a luz do mundo;
      10,7: Eu sou a porta;
      10,11: Eu sou o bom pastor;
      11,25: Eu sou a ressurreição e a vida;
      14,6: Eu sou o caminho, a verdade e a vida;
      15,1: Eu sou a videira verdadeira.


O pastor de Jo 10 assume o comportamento do guia: conduzir para fora, levar para fora, caminhar adiante (Jo 10,4) e os aspectos de providência e salvação: quem entra pela porta, que é Jesus (Jo 10,9) será salvo, pois ele veio para que as suas ovelhas “tenham a vida em abundância” (Jo 10,10).


Como o pano de fundo de Jo 10 é necessário ler dois textos do AT: Ez 34,1ss e Jr 23,1ss (leia também o Sl 23(22) sobre o bom Pastor. Nestes textos fala-se da denúncia profética contra os maus pastores (dirigentes). Os maus pastores são denunciados por estarem mais preocupados em se alimentar do que em fornecer alimento para as ovelhas confiadas ao seu cuidado; preocupados mais em cuidar da própria vida do que ad vida do rebanho. Em vez de tomar conta das ovelhas, eles se omitiram, e sacrificavam as mais gordas para se deliciar da sua carne e se vestir com sua lã. Os maus pastores estão preocupados com o seu conforto, com o seu bem estar, em salvar a situação pessoal e familiar, e deixam o restante se perder. Os maus pastores se preocupam em usar do poder para o proveito próprio.


Esses pastores se esquecem de que eles não são donos das ovelhas; são apenas “funcionários” de Deus, pois as ovelhas são de Deus (compare Jo 21,15-17: Jesus confia a Pedro a tarefa de apascentar as ovelhas de Jesus: apascenta as minhas ovelhas). Por isso, o profeta Ezequiel repete expressivamente o possessivo “minhas ovelhas” no capítulo 34 do seu livro. Evita-se, assim, a tendência de querer se considerar o dono das ovelhas, o dono da comunidade, o dono da paróquia etc. Quem se considera dono da comunidade ou da paróquia ou qualquer cargo, tem dificuldade de dialogar com os outros para resolver os problemas do rebanho. O dono das ovelhas é o próprio Deus. A Igreja é de Jesus Cristo. Se nos esquecermos disto, nos tornaremos novos tiranos e ditadores. E as ovelhas se tornarão vítimas ou serão sacrificadas em nome do poder destruidor do seu líder.


E os pastores de hoje (sacerdotes/padres, religiosos, pastores, líderes de comunidades), são melhores ou são piores do que os antigos pastores? Será que temos interesse por “ovelhas gordas” mais do que por “ovelhas magras” na comunidade? Seja gorda ou marga, a ovelha é de Deus.  E Deus quer que as apascentemos de igual maneira. Quanto mais magra for uma ovelha, mais atenção deverá ser prestada a ela.


Além de ler os textos acima citados, para entender a mensagem de Jo 10,1-18 é necessário situar o texto dentro do contexto de Jo cap. 7-10 num contexto de confronto entre Jesus e os judeus. Ele é o “Eu sou”. A vinda de Jesus para o meio dos homens os força a definir-se. Diante da afirmação “Eu sou”, uns rejeitam Jesus, outros o aceitam. Daí começam as controvérsias.  Jesus se torna, assim, sinal de contradição. Contradição que o leva à Paixão.


E o discurso de Jesus sobre a porta das ovelhas e o Bom Pastor (Jo 10) se apresenta como continuação lógica da perícope imediatamente anterior, sobre o cego de nascença (Jo 9). Se lemos Jo 9,41 e o começo do sermão sobre o Bom Pastor (Jo 10,1) percebemos que não há nenhuma separação cronológica nem mudança de cenário. O homem que voltou a enxergar por obra de Jesus foi expulso da sinagoga e excomungado por causa de sua fé em Jesus Messias. Apesar disto, o cego iluminado encontrou o Bom Pastor e partir de então ele não viverá como ovelha desgarrada.


O uso metafórico do substantivo “pastor” (poimén em grego) aparece pelo menos 14 vezes no NT (Mt 9,36;25,32;26,31;Mc 6,34;14,27;Jo 10,2.11.12.14.16;Ef 4,11;Hb 13,20;1Pd 2,25). Lucas nunca usa o termo “pastor” em sentido figurado, mas só em sentido próprio (cf. Lc 2,8.15.20). Também na parábola da ovelha perdida (Lc 15,4-6) ele não chama o protagonista de “poimén”, “pastor”, como o faz Mt, mas simplesmente de ánthropos, “homem”.


No evangelho de João, a palavra “pastor” faz parte do vocabulário da auto-revelação do Messias; ela é precedida da afirmação “egó eimí”, “Eu sou” (Em Jo, sete vezes, Jesus toma a palavra para se autoproclamar: 6,35: Eu sou o pão da vida; 8,12: Eu sou a luz do mundo; 10,7: Eu sou a porta; 10,11: Eu sou o bom pastor; 11,25: Eu sou a ressurreição e a vida; 14,6: Eu sou o caminho, a verdade e a vida; 15,1: Eu sou a videira verdadeira).


O pastor de Jo 10 assume o comportamento do guia: conduzir para fora, levar para fora, caminhar adiante (v.4) e os aspectos de providência e salvação: quem entra pela porta, que é Jesus(v.9) será salvo, pois ele veio para que as suas ovelhas “tenham a vida em abundância” (v.10). O bom pastor arrisca ou expor a vida frente a um perigo que ameaça outrem.


Essa doutrina cristológica contém mensagem de importância excepcional para nossa vida de fé e nossa missão de guia ou pastores. Jesus Cristo é o mediador perfeito em sentido descendente e ascendente; na direção vertical e horizontal. O Pai comunica a revelação de sua vida de amor ao homem por meio de seu Filho (cf. Jo 1,17s); a salvação é dada ao homem somente por meio do Filho unigênito (Jo 3,14ss); a vida divina foi trazida ao mundo por meio de Jesus(Jo 14,6). E o homem pode subir até Deus unicamente por meio do seu Filho, que é a vida (Jo 14,2-6); a vida de comunhão com o Pai só é possível através de Jesus Cristo. Enfim, o homem pode exercer função pastoril e salvífica somente se comungar com eles por meio de Cristo, a única porta do redil de Deus (Jo 10,7ss).


A mensagem desta doutrina é dirigida tanto para todos os cristãos em geral como, particularmente, para os que exercem função de guia no seio da comunidade. Para ser instrumento de vida e salvação para os irmãos e irmãs, é necessário estar em contato íntimo e vital com aquele que é a salvação personificada: o Senhor Jesus. Para a função pastoral ser exercida com fruto, torna-se indispensável uma comunhão profunda com Cristo, o pastor supremo do rebanho de Deus; exige-se amor forte e concreto à sua pessoa.


Alguns pontos importantes do texto para a nossa reflexão:


1. Jesus É O Meu Bom Pastor


No evangelho Jesus diz: “Eu sou o Bom Pastor” (v.11). Temos três elementos para se explicar: “Eu sou”, “bom” e “pastor”.


O “Eu sou” é a expressão máxima da liderança que dá a vida. E “Eu sou” é carregado de sentido teológico, porque o “Eu sou” é uma abreviatura do nome de Deus/Javé: “Eu sou Aquele que sou” (Êx 3, 14). Jesus se coloca em pé de igualdade com Deus. Quem é este Deus? No êxodo ele tirou o povo hebreu do curral do Egito, conduziu-o no deserto e introduziu-o para a Terra prometida. Ao dizer “Eu sou o Bom Pastor”, Jesus, de fato, faz o que o Pai sempre fez. Jesus é a presença viva do Deus que conduz cada um de nós para fora de tudo o que nos oprime e que diminui e lesa a vida. Jesus tira as pessoas de todos os tipos de exclusão.


“Eu sou o bom pastor”. Em grego usa-se o termo “kalós” (Egó eimi o poimèn o kalos) que em si significa “belo”, mas se traduz com o termo “bom” em português. “Kalós” pode significar também alguma coisa excelente, excepcional; ou pode significar a qualidade de uma coisa ou de uma pessoa que corresponde plenamente à sua função ou a adequação à finalidade de objetos, situações, pessoas e ações (cf. Mt 13,8;7,17s;Jo 2,10;10,32;1Pd 4,10;2Tm 2,3 etc.). Jesus que se dedica total e exclusivamente às ovelhas pode ser chamado o “bom” pastor por excelência. A figura do pastor no AT é o símbolo da dedicação, do cuidado e do amor desinteressado. O pastor é aquele que está plenamente desperto, vigilante, prevenido, pronto, atento e aplicado. É uma pessoa devotada, no sentido próprio: vive com e para seu rebanho. Essa imagem é muitas vezes aplicada a Javé (cf. Is 40,11; Sl 23,1;80,2) para exprimir o amor de Deus na eleição e direção de seu povo, Israel.


Jesus aplica a si mesmo a imagem do bom pastor, porque ele sabe muito bem que existem maus pastores. Eles são chamados no Evangelho de hoje com palavras muito fortes: mercenários, ladrões e assaltantes. Ou seja, alguém que se serve do povo para manter seus interesses e privilégios, deixando o povo morrer. Usa-se também outro termo “lobo”. O lobo representa um perigo mortal para as ovelhas ou adversário. Biblicamente “lobo” representa pessoas maléficas (cf. Hab 1,8; Ez 22,27;Sf 3,3). Não é por acaso que temos um dito “Homo homini lupus est”, o homem é (capaz de ser) um lobo para outro homem. O profeta Isaías até sonhou com o tempo ideal em que “o lobo habitará com o cordeiro” (Is 11,6;65,25). Temos, então, aqui uma oposição entre bom pastor e mau pastor.


Para quem tem um coração de mercenário, o mais importante é ater-se às condições mínimas estipulados em contrato. Quem tem o coração de verdadeiro pastor não fica fazendo contas: aonde chegam os meus direitos, onde terminam as minhas obrigações. Ele segue uma única lei: o amor. Aquele que não ama, nunca vai entender Jesus e seu amor louco que aceitou morrer na cruz para resgatar a humanidade.


Como sabemos que todo pastor tem direitos sobre o rebanho: veste-se com a lã das ovelhas e alimenta-se com a carne e o leite delas. O rebanho sustenta a vida do pastor. Jesus é um pastor diferente. Ele é o Bom Pastor porque ele é, literalmente, não retém nada para si; ele não exige nada das ovelhas. Pelo contrário, ele dá a vida por elas (10,11).


Para o Evangelho de João, então, pastor é o lutador que, ao preço da própria vida, enfrenta todos os que colocam em perigo o seu rebanho. Jesus é o bom pastor porque se despoja até da própria vida para proteger e defender as ovelhas. Por isso, a qualificação “bom” aqui não tem qualquer valor sentimental: não significa doce, suave que não causa mal algum a ninguém. O “bom” aqui significa o verdadeiro, o autêntico, o corajoso, lutador. Jesus é o Bom Pastor porque o seu amor é tão imenso para conosco que está disposto a sacrificar a sua própria vida.


Jesus nos convida, por isso, a imitá-lo na solidariedade sem fronteiras com os seus irmãos, em particular com os mais explorados e fracos, sem defesa nenhuma. Essa solidariedade pode ir até a entrega da própria vida: oferenda feita voluntariamente, com plena liberdade; um compromisso por amor e não por obrigação formal. Nisto consiste a imitação de Jesus, o Bom Pastor... Ser pastor não é uma profissão, mas é uma opção de vida. Todos somos pastores dos nossos irmãos; temos uma responsabilidade frente a eles que devemos assumir livremente. Não podemos, contudo, ser pastores para os outros, se tivermos ainda a mentalidade de assalariados.


2. Jesus Me Conhece


Jesus diz também: “Eu conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem” (v.14b). O verbo “conhecer” (ginósko em grego) deve ser entendido no contexto semita. Para um semita “conhecer” não é apenas uma atividade intelectual, mas tem toda uma conotação existencial de união profunda. O verbo “conhecer” em Jo envolve toda a vida religiosa, moral e social do indivíduo que aceita a mensagem de Deus e pauta por ela todo o modo de viver.  O verbo “conhecer” envolve o ver, o ouvir, o perceber, o experimentar. No AT, o homem é objeto do conhecimento divino. Deus sabe o meu nome: “Eis que te gravei nas palmas da minha mão...”(Is 49,16). Deus nunca pode olhar sua mão sem ver o meu nome.. E meu nome quer dizer: Eu mesmo. Santo Agostinho diz: Um amigo é alguém que tudo sabe a teu respeito e, apesar disso, gosta de ti”. Mas o homem também conhece a Deus. Conhecer Deus significa ter com ele uma relação pessoal, religiosa e ética: buscá-lo(Sl 9,11;36,11), temê-lo(1Rs 8,43;Is 11,2),crer nele(Is 43,10, apegar-se a Deus que liberta e salva(Sl 91,14).


Jesus Cristo conhece pessoalmente cada um de nós, suas ovelhas. Ele não conhece como massa de pessoas. Ele conhece cada um em sua integridade. E devemos estar conscientes disso. Quando rezamos devemos sempre ter consciência de que Jesus me conhece na minha integridade, no meu ser, na minha especificidade, na minha estrutura, que eu sou irrepetível, eu sou insubstituível como pessoa e não como função (pois os outros podem fazer o melhor do que aquilo que fiz na minha função. Na minha função sou substituível, na minha existência como pessoa, eu sou insubstituível: não existe outra pessoa igual a mim). Jesus me ama com os meus ideais e minhas decepções, com os meus sacrifícios e alegrias e com os meus sucessos e fracassos. O próprio Senhor Deus é a razão de ser mais profunda de minha existência. Se Deus me ama devo também me aceitar a mim mesmo. O Senhor me conhece verdadeiramente, tal como realmente sou, sem aplicar rótulos e categorias. Por isso, ele é a única garantia de que eu posso ser eu mesmo. Essa consciência da origem divina torna-me justamente mais precioso e mais seguro. Nessa dependência reside uma profunda paz que o mundo nunca pode dar.


No meio da multidão das grandes cidades, e até mesmo dentro de nossas imensas igrejas cheias de gente, muitas vezes a pessoa se sente sozinha, cercada por desconhecidos que não sabem o seu nome, que não se interessam por seus problemas. Conhecer e ser conhecido é um conforto emocional do qual muita gente está precisando.


Jesus diz que conhece as suas ovelhas e é por elas conhecido. Uma comunidade que anuncia e continua a missão de Jesus não poderia ser um amontoado de gente que não se conhece, onde um não conta com o outro, onde cada um vai fazer sua oração como se estivesse sempre sozinho na igreja.


As primeiras comunidades cristãs eram espaço de intimidade e intercâmbio fraterno. Não estaria bem na hora de criar esse clima nas nossas impessoais comunidades urbanas? (Na hora de dar a paz, sai um pouco do seu lugar para cumprimentar o outro e perguntar o nome dele. Decorar um nome por domingo é uma forma para criar uma comunidade de nomes e não de números).
  1. Jesus É O Meu Bom Pastor Porque Se Preocupa Também Com Outras Ovelhas.
              
    Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil: também a elas devo conduzir; elas escutarão a minha voz, e haverá um só rebanho e um só pastor”(v.16), diz Jesus.  Isto quer dizer que o amor de Cristo não tem limite e não faz distinções. Judeus e pagãos são co-envolvidos no mesmo amor. O amor de Jesus é universal. Ele quer salvar todos. Os pagãos desprezados por bom número de judeus eram chamados a incorporar-se ao “rebanho” de Jesus. Quando ele diz que um dia haverá um só rebanho e um só pastor, Jesus não está querendo uniformizar todos: no pensar, no dizer, no fazer ou no rezar. Quando olhamos uma realidade a partir de nosso ponto de vista devemos estar conscientes de que não estamos em outros pontos de vista ao mesmo tempo. Isto nos permite deixar alguém ver de outro ângulo sobre a mesma realidade. Afinal, cada ponto de vista é vista de um ponto. Por isso, posso estar certo e posso também estar errado. A diversidade é sempre uma riqueza. Não é errado sermos diferentes, errado é sermos divididos, é errado estarmos uns contra os outros. Temos de aplicar na nossa vida um dito conhecido: “Nas coisas essenciais unidade, nas coisas acidentais liberdade, e em tudo caridade”.
     
    4.Preciso Viver Despreocupado, Pois O Senhor É Meu Pastor
              
    Devemos observar a vida dos rebanhos de ovelhas com seu pastor. Os rebanhos não têm pressa, nem agitação ou preocupação. Eles sabem que o seu pastor está ali para cuidar deles. E, por isso, são livres para fruir a verde pastagem. Jubilosos e despreocupados, os rebanhos não calculam: onde iremos amanhã, se as chuvas serão suficientes para fornecerem pastagem no ano seguinte. Eles não se preocupam, porque há quem cuide deles. Eles vivem o dia-a-dia, o hora-a-hora. E isso é felicidade.
              
    O Salmo 23(22) diz: “O Senhor é meu Pastor”. Emmanuel Kant chegou a dizer que o Salmo 23(22) lhe deu mais consolo que todos os livros que havia lido. Se eu ao menos acreditar nisso, a minha vida se transformará. A minha ansiedade desaparecerá, os meus complexos se dissolverão e a paz voltará aos meus nervos perturbados. Viver o dia-a-dia, o hora-a-hora, porque o Senhor está presente. Se acreditar de fato nele, serei livre para me movimentar, para respirar, para viver. Livre para fruir a vida. Cada momento é precioso porque não é maculado pelas preocupações com o próximo momento. O Senhor, meu Pastor, sabe e isso me basta. É a felicidade sob a graça. É a bênção de crer na Providência. É a bênção de viver na obediência ao Bom Pastor. É a bênção de seguir a prontidão do Espírito Santo pelos caminhos da vida. O Senhor é meu pastor; nada me faltará. Crer em Deus é admitir que ele vela sobre nós como um pastor.
              
    Se nós somos ovelhas do bom Pastor Jesus, Deus faz de nossa vida uma bênção para muitas pessoas. Se somos realmente seus, então devemos amá-lo com o amor divino. Se somos realmente ovelhas do bom Pastor Jesus, então devemos ouvir somente sua voz. Quem conhece Jesus, a voz de Jesus para ele é inconfundível.
               
    Portanto, vamos lançar alguma perguntas para nós mesmos: Acredito realmente que o Senhor é o meu Pastor? Posso afirmar, a partir da minha vida, que sou bom. Será que eu tenho sempre tendência de fugir da minha responsabilidade? Em outras palavras: tenho mentalidade de assalariado?
     
    O bom pastor faz o que fez Deus Pai, aproximar-se, por compaixão, por misericórdia, da carne do seu Filho, é isto que significa ser um bom pastor. O grande pastor, o Pai, ensinou-nos como ser bons pastores: abaixou-se, esvaziou-se, esvaziou-se de si mesmo, aniquilou-se, assumiu a condição de servo. Pensemos no bom Pastor, pensemos em Jesus que vê, chama, fala, toca e cura; pensemos no Pai que se faz carne no seu Filho, por compaixão. Este é o caminho do bom pastor, o pastor que hoje vemos aqui, neste trecho do Evangelho: é uma graça para o povo de Deus ter bons pastores, pastores como Jesus, que não se envergonham de tocar a carne ferida, pois sabem que sobre isso — não só eles, inclusive todos nós — seremos julgados: tinha fome, estava preso, estava doente... Não nos esqueçamos: o bom pastor faz-se sempre próximo das pessoas, sempre, como Deus nosso Pai se aproximou de nós, em Jesus Cristo feito carne” (Papa Francisco: Meditações Matutinas Na Santa Missa Celebrada Na Capela Da Casa Santa Marta, Segunda-feira, 30 de outubro de 2017)
    P. Vitus Gustama,svd