quarta-feira, 1 de junho de 2011

COMUNIDADE: NO CAMINHO DA COMUNIDADE

Amar é estar no outro sem perder a própria identidade. O amor nos chama a formarmos uma comunhão na fraternidade.

O ser humano é um ser vincular. O vínculo é a medula de sua existência. Para tornar-nos aptos, competentes, necessitamos, imprescindívelmente, de colaboração e de ajuda dos outros. O vínculo nos leva a termos o sentimento de pertença. Através da vivência desse sentimento de pertença aprendemos a receber algo de bom dos outros e a dar aos outros o que temos de bom. O perigo, hoje em dia, é esquecer-se desta consciência de pertença e acreditar que somente sou eu o centro de tudo e que os outros devem viver para mim e girar em torno de mim. Conseqüentemente, nós nos convencemos de que sejamos melhores que os outros. É preciso fazer desaparecer essa forma de egoísmo destruidor para que renasça o amor que nos ensina a receber e a dar.

Viver na comunidade é aprender a viver e a conviver na vulnerabilidade, pois a comunidade é o lugar em que são revelados os limites, os medos e o egoísmo de cada um. Na convivência descobrimos nossa pobreza e nossas fraquezas, nossos bloqueios, nossos ciúmes, nossas raivas e nossa vontade de destruir a comunidade através dos comentários maldosos, da rivalidade, da divisão. A convivência é, também, a dura revelação dos monstros ocultos dentro de nós mesmos. Naturalmente, é difícil assumir essas descobertas.  Imediatamente tentamos afastar esses monstro ou tentar escondê-los novamente, procurando nos comportar como bonzinhos pela aparência. Convivendo com os outros o tempo todo, compreendemos o quanto somos incapazes de amar, de unir, de rebanhar. Se formos incapazes de amar, de unir, de rebanhar, o que restará de bom em nós? Apenas o desespero, a angústia e a necessidade de destruir o outro.
         
Mas, ao mesmo tempo, a comunidade é o lugar em que a força do eu egoísta se revela e é chamada a morrer para que todos se transformem em um coração e uma alma e em fonte de vida. Em todos nós há uma ferida profunda de amor, um apelo para sermos levados ao Senhor, fonte de cura e de vida. Estamos feridos de alguma forma, mas somos amados por Deus que é Amor (1Jo 4,8.16), por isso, podemos crescer e nos tornar amados e fonte de vida para os outros.

Não podemos nos esquecer do fundamento de nossa comunhão. O que distingue uma comunidade cristã de um grupo de amigos ou profissionais é que o nosso laço vem de Deus. Foi Deus quem nos chamou e nos escolheu e nos uniu numa aliança de amor e numa solicitude mútua. Por isso, todos na comunidade são chamados a partilhar seus dons e receber os dos outros e a descobrir a altura e a profundidade da sabedoria, da beleza e do amor de nosso Deus. Todos são chamados a trabalhar pela glória de Deus. Quando não se procura a glória de Deus e sim a própria glória, a rivalidade e a competição se instalam, suscitando a inveja na comunidade. E a inveja, por sua vez, gera o ódio e a guerra.

Se cada membro estiver consciente de que o nosso laço vem de Deus, ele se abrirá à experiência do amor de Deus presente na comunidade e no coração de cada membro. Se cada membro se abrir a essa experiência de amor, a comunidade se tornará um lugar de encontro com Deus. Ou segundo Martin Buber como “o lugar da teofania”: “Nós esperamos uma teofania, da qual apenas conhecemos o lugar, e esse lugar se chama comunidade”.

A experiência do amor de Deus nos leva a amarmos cada um como ele é, e não a comunidade no sentido abstrato. Dietrich Bonhoeffer dizia: “O que ama a comunidade, a destrói; o que ama os irmãos, a constrói”. A comunidade nunca pode ter primazia sobre as pessoas. A beleza e a unidade da comunidade vêm do brilho de cada pessoa, da luz e do amor que há nelas e da maneira como se amam. A comunidade é organizada para proporcionar a transformação e o crescimento das pessoas. Sua finalidade é a pessoa, o amor e a comunhão com Deus. Quando uma comunidade é apenas um lugar de trabalho, ela está ameaçada, pois as pessoas se preocupam com o trabalho e não com as pessoas e seu crescimento.
Vitus Gustama, SVD

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