quarta-feira, 8 de junho de 2011

ESTAR NO MUNDO SEM SER DO "MUNDO"

Jo 17,1-11

Estamos ainda no discurso de despedida de Jesus dos seus discípulos no Evangelho de João (Jo 13-17). Nos grandes textos de despedida na Bíblia (cf. Dt 32-33; At 20,17-35), o herói termina seus discurso por uma prece, hino ou bênção. O evangelho de João segue esse modelo. Neste sentido Jo 17 é considerado como ponto alto do discurso da despedida de Jesus neste evangelho.

Na sua oração que concluiu seu discurso, Jesus interpreta sua morte como passo para a vida, seu aparente fracasso como verdadeiro êxito. Jesus manifesta em sua oração uma confiança inquebrantável no Pai e um amor entranhável para seus discípulos, e uma esperança que sabe se sobrepor e ninguém pode dominá-Lo. Jesus é livre e libertador. Somente quem é livre pode libertar os outros. Quem foge é porque não está livre.

A oração é sempre uma práxis de libertação, porque orar é recorrer ao Pai sem esquecer-se dos homens, nossos irmãos; orar é abrir-se ao Outro e conseqüentemente, a qualquer outro; orar é libertar-se do egoísmo para o amor. Quem entra em oração está em comunhão com Deus. quem ora, acredita e quem acredita, precisa orar. Depois da ascensão de Jesus ao céu, a pequena comunidade de seus discípulos se reúne em oração (cf. Lc 24,50-53). A Igreja aprende na oração o caminho da liberdade e é uma das expressões da liberdade.

Na sua oração Jesus roga, primeiramente por si mesmo, para que se realize plenamente a missão que lhe foi confiada (vv. 1-5). Por seis vezes Jesus repete a palavraPai” na oração. Neste sentido, a palavraPai” é um nome que qualifica Deus como origem, da qual tudo provem como dom, amor e proteção. Jesus se sente inteiramente Filho e quer continuar vivendo esses momentos transcendentais de sua vida a partir de seu ser de Filho. Por isso, diante de sua morte iminente Jesus está completamente tranqüilo, pois ele sabe de sua vitoria sobre o mundo (cf. Jo 16,33). Com esta oração Jesus nos ensina que o caminho da glorificação é a obediência aos mandamentos de Deus que se resumem na vivência do amor fraterno. Na cruz o amor de Deus por nós aparece em toda sua plenitude, seu esplendor e sua força vitoriosa. o amor justifica a cruz. Por isso, não é o poder que há no mundo e que normalmente se transforma em opressão e domínio de uns homens sobre outros e sim o poder-serviço (Jo 13,12-17) que surge do amor e se manifesta em obras em favor dos homens, o poder que brota do coração e cria comunidade de irmãos. O amor sempre resulta na formação de uma comunidade de irmãos. Sem amor não haverá comunidade.

Nesta oração Jesus pede: “A vida eterna é esta: que eles te conheçam a ti, o único Deus verdadeiro, e àquele que tu enviaste, Jesus Cristo”. Aqui na se trata de um conhecimento intelectual e sim experiencial, imediato, pessoal e vital; um conhecimento que pode ser adquirido na intimidade do amor; um conhecimento que é vida. Neste sentido, conhecer Deus, plenitude de vida para sempre, se identifica com a vida eterna. Deus é o verdadeiro presente e futuro do homem, pois nãonada no mundo que possa encher e preencher seu coração. Conhecer Jesus significa imitar seu modo de viver, tê-lo como único modelo a seguir. Nesse seguimento, encarnado na vida diária, vamos conhecendo o único Deus: na completa entrega a Ele, demonstrada no serviço-amor aos que nos rodeiam.
           
Não te peço que os tire do mundo, mas que os guarde do maligno. Eles não são do mundo, como eu não sou do mundo. Consagra-os na verdade; a tua Palavra é verdade” (Jo 17,15-17).

Quando Jesus Cristo pede ao Pai que consagre seus discípulos na verdade, ele quer dizer com isso que “sejam santificados no plano da realidade absoluta”, isto é, que eles alcancem o nível da santidade de Deus que são colocados por Cristo no mesmo plano de Deus.

E o mundo, entendido como criação, é algo bom e bendito por Deus (cf. Gn 1,1ss). É o cenário da realização humana. O mundo é o único cenário onde cada ser humano decide sua salvação ou sua perdição. No entanto, o mundo pode ser dominado pelas forças do mal, e então, se converte em terreno onde se pratica o egoísmo e exploração da vida alheia e por isso, onde se encontram muitas pessoas sem coração. Neste tipo de mundo é que os cristãos se encontram. E neste terreno é que os cristãos devem se tornar o sal da terra e a luz do mundo. Cada cristão é enviado para relembrar todos que somos concidadãos dos santos e membros da família de Deus, como diz São Paulo aos efésios: “Vós sois concidadãos dos santos e membros da família de Deus, edificados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas, tendo por pedra angular o próprio Cristo Jesus” (Ef 2,19-20).

A tarefa de cada cristão e dos cristãos em geral é instaurar um modelo alternativo da convivência humana. Os cristãos estão no mundo não para marginalizar-se dele e sim para dar testemunho de um caminho de salvação. Este testemunho se verifica em sua opção pelo Deus da vida. Para isso, os cristãos necessitam ser preservados das forças negativas do egoísmo e da exploração dos demais em função do próprio interesse. Estar preservado das forças do Maligno é impedir que a consciência do cristão seja contaminada pelo poder do egoísmo. Onde há o egoísmo, não há o amor. O onde não há o amor, também nãoDeus, poisDeus é amor” (1Jo 4,8.16). Por isso, onde não há o amor, também não há a salvação.

Hoje o Senhor nos reúne em torna d’Ele para participarmos de sua Vida e de seu Espírito. Através de sua oração O Senhor nos quer fraternalmente unidos pelo amor que procede dele. O Senhor nos quer não somente fraternalmente unidos. Ele quer também que trabalhemos constantemente pela unidade, de tal forma que o amor, que procede dele e que habita em nosso coração, nos faça autênticos construtores de unidade e não de divisão. Ele nos ama e quer que sejamos um rebanho sob um Pastor, Jesus Cristo. Santificados pela Palavra de Deus somos enviados ao mundo para santificá-lo e não para destruí-lo.


Rio de Janeiro, 07 de junho de 2011
Vitus Gustama, SVD
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