sábado, 18 de junho de 2011

ESTILO TRINITÁRIO DE CONVIVÊNCIA

O que podemos aprender da comunhão da Santíssima Trindade?

1. Viver na Solidariedade
          
A solidariedade é uma atitude trinitária. A palavraSolidariedade” do latimsolidus”. “Solidus” designava uma moeda de ouro sólida, consolidada, não variável. Daí derivam os termos soldo, soldado, soldar, consolidar, solidez e, a partir do século XIX, solidário e solidariedade. A palavra latinaSolidus” significa, então, maciço, consistente porque seus elementos estão bem unidos. Solidariedade, por isso, significa relação pela qual as partes de um todo são interdependentes consistentemente. 
          
Por isso, solidariedade não é uma assistência. A solidariedade é participação na vida dos outros. A chave da solidariedade é participação. A participação é o que distingue a simples ajuda humanitária, assistencial que vem de fora. Através da assistência damos uma parte de nossos bens; na solidariedade compartimos nossas próprias vidas, inclusive nossos bens. Através da assistência trabalhamos pelos pobres e necessitados; pela solidariedade trabalhamos com os pobres  e necessitados pelo bem comum de ambos. A assistência tende a criar dependência; a solidariedade liberta. A solidariedade é uma participação amorosa e humilde da vida dos demais compartindo com eles nossa vida. Para isso, tenho que estar consciente de que eu faço parte inseparável da humanidade. A dor de um é a minha dor. A alegria do outro é a minha alegria também. Ninguém pode ter inveja pela felicidade alheia. O exemplo da solidariedade e o amor fraterno é os quatro homens carregando um paralítico para que Jesus o cure. Sem os quatro, o paralítico jamais chegaria até Jesus(cf. Mc 2,1-12). O segundo exemplo é o bom Samaritano(Lc 10,30-37) que fala do amor fraterno. Quando se trata do amor fraterno não se discute quem é meu próximo. O amor fraterno não tem fronteiras. Basta alguém estar numa necessidade, uma pessoa que tem amor no coração não vai perguntar quem é esta pessoa necessitada? Simplesmente ele vai dizer: “Ele é meu irmão. Preciso ajudá-lo”. Alguém me é próximo pelo apelo que me faz. A  aplicação do amor é universal, pois o amor é o nome próprio de Deus(cf. 1Jo 4,8.16; veja também a encíclica Sollicitudo rei socialis de João Paulo II nos: 38-39 sobre o exercício da solidariedade).

2. Viver a liberdade e na liberdade
          
Sabemos muito bem de que a história humana está cheio de guerras, violências, de luta pelo poder. Em tudo isto, os mais fortes oprimem e exploram os mais fracos. Consequentemente, quem tem maisliberdade” é o dominador. Mas ele é livre à custa dos mais fracos. E o dominado vive sem a liberdade.
          
Na relação trinitária nãodominador nem dominado, pois os componentes vivem na plena comunhão. Por isso, a verdadeira liberdade é a liberdade vivida como comunhão a exemplo da Santíssima Trindade. A liberdade vivida como dominação destrói a comunidade. A liberdade vivida como comunhão tem capacidade de curar as feridas causadas pela lógica liberdade- dominação.

3. Viver uma vida participativa e igualitária
          
Na Santíssima Trindade há participação plena ou perfeita. Ou não há trinitarização sem participação. Nenhuma das pessoas da Santíssima Trindade atua sozinha. As três Pessoas participam, cada uma de acordo com seu modo próprio. Todas as ações de Deus são ações do Pai, do Filho e do Espírito Santo.
        
Todos nós temos a experiência de ser indivíduos que não se confundem com nada nem com ninguém, irrepetíveis. Nossa própria intimidade nos faz sermos diversos, inconfundíveis. Mas, por outro lado, sentimos uma irresistível tendência ao amor, à amizade, a nos relacionarmos com os outros. Sentimos necessidade dos demais para nos tornarmos nós mesmos. Somos diversos, mas sentimos a chamada a viver em comunhão. Fomos criados para compartilhar, para nos complementar uns aos outros. Nada podemos fazer sozinhos, tudo se explica e se realiza pela comunicação e pela colaboração. Não podemos viver nem um dia de nossa existência sem a ajuda dos demais.
        
É necessário que estejamos conscientes disso para intuir algo da vida trinitária presente no mais profundo da criação. Na raiz de sua existência existe a herança de uma realidade trinitária: viver em comunhão com os demais como iguais. Deus nos criou semelhantes a ele (Gn 1,26) e quer que sejamos, por nossa opção livre, fiéis a essa semelhança. A Trindade é a raiz, a fonte e a meta de nossa fraternidade humana. Manifestamos nossa na Trindade através do amor, da comunicação, da fecundidade, do diálogo, da partilha, da igualdade e da fraternidade. O homem que vive como filho de Deus e irmão de todos os homens mostra que encontrou a razão de sua vida e experimentou a vida trinitária e guiado pela Santíssima Trindade.
          
Por isso, viver a vida a exemplo da vida participativa da Santíssima Trindade significa levar em conta o outro em todas as circunstâncias, colocar-se do seu lado como iguais. Consequentemente, não há uma vida trinitária quando a desigualdade continuar a dominar uma comunidade ou sem verdadeira participação nos deveres e nos direitos.


4. Viver o diálogo e no diálogo amoroso
          
Para um cristão verdadeiro teologicamente e praticamente o fundamento último do diálogo é e deve ser trinitário. A Santíssima Trindade é o eterno diálogo no amor; ou vivem em amoroso diálogo. Quando os cristão deixarem-se modelar pela Santíssima Trindade, eles serão capazes de estabelecer um diálogo construtivo porque basear-se-á sempre no amor. E no diálogo o escutar é mais importante do que falar. Para aprendermos a calar para escutar, precisamos ser modelados pela vida trinitária.
          
A partir destes pensamentos e outros pensamentos que ainda não se encontram nesta reflexão podemos concluir que precisamos aprender ainda mais e mais do mistério da Santíssima Trindade. Há tanto e tanto riqueza espiritual na Santíssima Trindade na qual e da qual precisamos tirar e aprender para viver uma vida mais cristã. Posso dizer que para viver uma vida cristã solidamente, precisamos viver uma vida trinitária.
        
Portanto, celebrar a solenidade da Santíssima Trindade é celebrar um Deus que é comunidade, mas, sobretudo, celebrá-lo na Igreja-Comunidade, com uma celebração que inclui o compromisso de fazer comunidade no mundo e fazer do mundo uma comunidade.

Vitus Gustama, SVD

Veja meu livro: UM PASSO ADIANTE COM CRISTO Reflexão no. 20

Nenhum comentário: