quinta-feira, 14 de julho de 2011

SER HUMILDE E MANSO

Texto de leitura: Mt 11,28-30



 Vinde a mim todos vós que estais cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos, e eu vos darei descanso. Tomai sobre vós o meu jugo... Pois o meu jugo é suave e o meu fardo é leve”.

De que fardo Jesus fala neste texto? Quem são os “cansados e fatigados” neste texto? Trata-se aqui da opressão moral e religiosa, provocada pelo formalismo de uma religião estéril e de um moralismo legalista. Os “cansados e fatigados sob o peso dos vossos fardos” aqui são os pobres e famintos, ignorantes e pequeninos, os míseros e os doentes. O legalismo é sufocante, uma moral sem alegria. Assim, a religião fica longe de ser motivo de liberdade e alegria, pois ela é reduzida a uma carga pesada. O ser humano se torna animal, pois a quem se impõe “jugo” e “carga”, se não aos animais?
          
Pelo contrário, o cristianismo e a moral cristã não são uma imposição. A lei de Cristo é amor (Jo 13,34-35;15,12),  libertação; é lei de liberdade, lei do Espírito que dá vida, lei de relação filial com Deus, nosso e amigo da vida. Ao lado de Cristo, todas as fadigas se tornam amáveis e tudo o que poderia ser mais custoso no cumprimento da vontade de Deus se suaviza. Quem se aproxima de Jesus, encontrará repouso para suas aflições. Jesus veio, certamente, para libertar o ser humano de todo tipo de escravidão, mostrando-se manso e humilde de coração e recusando-se a multiplicar normas religiosas. Jesus reduziu tudo ao essencial: amor e misericórdia. A religião torna-se, assim, prazerosa por respeitar a liberdade e por ser humanizadora. “Onde só o amor serve e não a necessidade, a escravidão se torna liberdade, dizia Santo Agostinho (In ps. 99,8).
          
Para tudo isso se tornar possível, há uma chave principal: o amor, tanto como um dom recebido de Deus, pois ele nos amou primeiro (1Jo 4,19), como uma responsabilidade, como Cristo que se dá a si mesmo a Deus e aos irmãos. Quem ama não sente a lei de Cristo como uma obrigação pesada. Pela experiência sabemos que quando se ama de verdade muitas coisas se tornam fáceis e suportáveis que seriam difíceis e até insuportáveis sem o amor. Ir para Jesus é descarregar o fardo aos seus pés, olhá-lo nos olhos, renunciando às nossas pequenas idéias sobre a questão e preferindo seu pensamento ao nosso.

“...aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração...”(v.29).  Quem é humilde? Quem é manso?

Ser humilde não é ser tímido; não é aquele que fica no cantinho por medo de se comunicar com os outros ou por medo da multidão e assim por diante. Muito menos é aquele que simula a humildade, pois “Simular humildade é a maior das soberbas”, dizia Santo Agostinho (De sanc. virg. 43,44). O orgulho é como o mau hálito, todos percebem, exceto quem dele padece. O humilde é aquele que tem noção da própria capacidade e da própria fraqueza e limitações e está aberto totalmente a Deus e para qualquer crescimento no bem.

A palavra “humildade” deriva do latim: “humilis”, que por sua vez, deriva de “humus” que significa “chão”, “terra”. Humildade é aquele que se acha bem consubstanciado com a terra. É aquele que tem os pés bem firmes no chão. É aquele que pisa firme, com segurança e confiança em si mesmo. A partir da humildade não se despreza, nem se teme ninguém. O “húmus” é a parte nutritiva da terra que possibilita o crescimento de uma planta. Da mesma maneira, a humildade é refúgio e alimento do ser. A humildade possibilita crescimento para quem a tem. É na humildade  e da humildade que germinam nossos autênticos valores. Só a partir da humildade é possível trilhar a infinita e misteriosa caminhada do conhecimento de si mesmo e de se crescimento. O humilde reverencia o sagrado, pois ele se reconhece “terra”, “pó”, mas é “pó” vivente por causa do hálito que é soprado nele pelo Criador (cf. Gn 2,7; Jo 20,22).

 “Aprendei de mim por que sou manso de coração”, convida-nos o Senhor. O manso é a pessoa boa nas relações com os outros. Jesus se proclama o Mestre “manso e humilde de coração”, pois ele é totalmente aberto a Deus e bom com os outros ao ponto de compartilhar de sua existência. Por isso, a palavra A “mansidão” é fruto do Espírito (Gl 5,23) e é sinal da presença da sabedoria do alto (Tg 3,13.17). A mansidão é a virtude a ser invocada e conquistada por quem pretende seguir fielmente a Jesus manso.

 Todos nós sabemos como é fácil combater a ira com a ira, a cólera com a cólera, a raiva com a raiva. A mansidão, pelo contrário, rompe esse círculo vicioso, cumprindo aquilo que é justo diante de Deus. A mansidão é a força que resiste e domina a ira. A mansidão é a virtude que modera a ira e conserva a caridade. Quem a possui é amável, prestativo e paciente. Até os pecadores e os ateus mais endurecidos não resistem diante de quem tem a virtude de mansidão. A um coração manso e humilde como o de Cristo, os homens se abrem. Por isso, a mansidão não é característica dos fracos; pelo contrário, ela exige uma grande fortaleza de espírito. Aquele que é dócil a Deus, é manso para com os outros. A mansidão é a arma dos fortes. A mansidão sabe esperar o momento oportuno e matiza os juízos e impede que falemos ou comentemos precipitadamente os acontecimentos e as pessoas e impede que usemos palavras ferinas. Da falta dessa virtude provêm as explosões de mau humor, irritação, frieza, impaciência, violência e ódio entre as pessoas que vão corroendo gradativamente amor. Não há vida que seja tão vazia do que uma vida sem amor, pois “Deus é Amor” (1Jo 4,8.16).“Não basta o trabalho sem a piedade; não basta a ciência sem a caridade; não basta a inteligência sem a humildade; não basta o estudo sem a graça”, dizia São Boaventura.

O problema grave que temos não é o cansaço produzido pela fatiga e sim o desgaste ocasionado pela falta de motivações na vida. A grande enfermidade de nosso tempo é este “cansaço existencial” que muitas vezes conduz a pessoa à depressão. Mas não podemos nos esquecer que temos um amigo: Jesus Cristo, que nos convida a irmos ao seu encontro para que tenhamos novamente uma vida cheia de força, amor e ânimo para seguir adiante.
       
Jesus nos convida a assumirmos uma nova forma de viver a vida, longe de legalismo inútil e sufocante. A ética de Jesus se resume em um incondicional amor ao próximo como fruto de uma experiência de Deus como Pai. Quem ama não sente a lei de Cristo como uma obrigação pesada. Quem ama, a oração se torna prazerosa.
          
“... aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração, e vós encontrareis descanso” (Mt 11,29). O modo de viver de Jesus e o de tratar ao povo com compaixão e misericórdia nos indica claramente que Jesus é a revelação suprema da mansidão de Deus (cf. Is 42,1-4). Por isso, Jesus é a fonte da nossa mansidão: “...aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração...”(v.29).

Imitar Jesus na sua mansidão é o remédio contra as nossas irritações, impaciências e falta de cordialidade e de compreensão. Esse espírito sereno e acolhedor somente alcançaremos, se procurarmos permanecer em Jesus, revelação e fonte da mansidão, como ele sempre está com o Pai.

Rio de Janeiro, 14 de julho de 2011
Vitus Gustama, SVD
Não odeias aos cegos mesmo que ames a luz. Da mesma forma, deves amar a paz sem odiar os que fazem a guerra (Santo Agostinho. Serm. 357,1).