sábado, 13 de agosto de 2011

A FÉ CHAMA TODOS PARA A COMUNHÃO FRATERNA

Reflexão para XX Domingo do Ano Litúrgico A

14 de agosto de 2011

Texto de Leitura: Mt 15,21-28

Através do episódio do evangelho de hoje Mateus dá um passo importante para frente, pois a cena não tem lugar em Israel e sim no território estrangeiro: na região de Tiro e Sidônia. Em termos de sociologia religiosa judaica isto significa que a cena se desenvolve no território pagão. Toma corpo assim o que Mateus tinha insinuado quando, ao apresentar a atividade de Jesus, citava o texto de Isaias que fala da Galiléia dos pagãos (Mt 4,15). Os pagãos estão agora aqui, representados pela mulher Cananéia que vivia na atual e atormentado Líbano. É chamada de “cananéia”. Este termo é bastante negativo para um judeu por quanto encarna tudo o que é de sedutor e perigoso para a fé javista.

O texto está cheio de surpresas. A primeira surpresa: uma estrangeira dá a Jesus o título tipicamente judeu: “Filho de Davi” e “Senhor”. A mulher proclama Jesus como “Filho de Davi”, isto é, como Messias prometido a Israel. Com este titulo Mateus introduziu a ascendência de Jesus na genealogia (Mt 1,1). Além desse titulo, a mulher vê em Jesus o Salvador e O proclama “Senhor”.  Somente quem tem fé pode invocar a Jesus como “Senhor”.

Seja quem for este Messias, tão falado pelos judeus (“Filho de Davi”), ela reconhece humildemente que Deus é capaz de operar nele e através dele. Ela não se considera nada, a não ser uma mulher com o coração cheio de dor por sua filha atormentada, e com a alma iluminada pela esperança tão certa, porque Deus nunca abandonará os que O procuram com simplicidade e sinceridade. Com toda a grandeza ela se entrega a Cristo que é o Senhor, o Salvador. Ela está necessitada; o Senhor e somente o Senhor pode ajudá-la.

A segunda surpresa é o silêncio de Jesus diante do grito da mulher, primeiro, e sua resposta, depois, para a demanda dos discípulos (Mt 15,23): “Eu fui enviado somente para as ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mt 15,24). Esta resposta é repetição do mandato de Jesus aos Doze, no discurso sobre a missão, ao dizer-lhes: “Não deveis ir aos territórios dos pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos! Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel!” (Mt 10,5-6). O aparente silêncio de Deus diante de nossos problemas não significa Sua ausência e Sua insensibilidade. Pode ser que nesses momentos sejamos purificados de tudo para que possamos gritar com mais fé apesar dos obstáculos, a exemplo da mulher cananéia.

A terceira surpresa é a apresentação da mulher no v. 25 com o gesto típico judeu de adoração a Deus, gesto característico no evangelho de Mateus para expressar a atitude crente diante de Jesus (considerar Jesus como Deus ao usar o verbo “prostrar-se”): “A mulher, aproximando-se, prostrou-se diante de Jesus e começou a implorar...”. E pediu: “Senhor, ajuda-me!”. Ela já é uma só coisa com sua filha. Ela se identifica totalmente com a dor e o tormento de sua filha. É uma verdadeira mãe! Para ela, sua filha é ela mesma: “Senhor, socorre-me!”, em vez de dizer “Senhor, socorre minha filha”.

A quarta surpresa é a resposta de Jesus à mulher: “Não fica bem tirar o pão dos filhos para jogá-lo aos cachorrinhos” (Mt 15,26). Jesus faz seu o termo depreciativo “cachorro/cachorrinho” que os judeus aplicavam aos pagãos/ estrangeiros. O rabino Eliezer dizia: “Quem come com um idólatra é como quem come com um cachorro”. É difícil encontrar em qualquer dos quatro evangelhos uma imagem de Jesus tão judaica como a que nos oferece Mateus neste texto. Será que ele aceita este termo ou está fazendo alguma ironia? Escutamos a frase fora do território judeu onde Jesus se encontra. É a frase que traz um questionamento sobre a tradição judaica. A lógica da encarnação está aqui levada ao máximo de identificação com a história concreta do povo.

A quinta e a ultima surpresa é a reação da mulher pagã que não aspira a suplantar, mas simplesmente a participar: “É verdade, Senhor; mas os cachorrinhos também comem as migalhas que caem da mesa de seus donos” (Mt 15,27).

Essa mulher não desiste nem é amedrontada. Seu amor de mãe espera contra toda esperança porque sabe captar nas palavras de Jesus uma nota de bondade. Jesus não a trata com o apelido “cachorro” e sim com um apelido mais suave: “cachorrinhos”. Ela quer dizer: “Deixa que me alimente do que cai da mesa onde está o pai com os filhos; faz que também eu seja parte da família!”. E a mulher Cananéia, que não é membro do Povo de Deus, encarna o ideal do que deve ser um membro do Povo de Deus.

Todo este conjunto de surpresas no texto de Mateus tem uma função de preparar e de ressaltar a frase final de Jesus: “Ó mulher, grande é tua fé!”. É a frase que o leitor de Mateus pressentia e esperava. A frase que ratifica a queda do muro de separação entre judeus e pagãos. Um mundo religioso fechado em si mesmo fica aqui superado e derrubado para dar lugar a outro mundo de todos e para todos. São Paulo expressa muito bem esse pensamento ao escrever: “Não há distinção entre judeu e grego, porque todos têm um mesmo Senhor, rico para com todos os que o invocam, porque todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (Rm 10,12-13; Jl 3,5).

Vale a pena fixar-se na capacidade de admiração de Jesus diante da fé dos pagãos. Jesus não duvida em afirmar: “Em ninguém em Israel encontrei tanta fé” (Mt 8,10). Fé, aqui, é confiança, é abertura à sua pessoa e a seu poder. E esta fé, que se dirige a Jesus, tem seu motor e extrai sua força da própria necessidade: a situação da filha “endemoninhada” (Mt 15,22), o empregado que “está em cama paralitico e sofre muito” (Mt 8,6). Desde nossas situações vitais é que vamos a Jesus e confiamos nele, como a cananéia. Aprendamos a nos admirar da fé dos que estão fora da Igreja, da gente simples. E aprendamos a confiar nos movimentos sinceros de nosso coração.

Ó mulher, grande é tua fé!”. Esta frase rompe os esquemas religiosos até agora vigentes no Povo de Deus. A partir daqui já não tem sentido falar do Povo de Deus num sentido limitado de etnia ou nação; já não há “cachorrinhos” nem amos, judeus nem gregos, servos nem livres, varões nem mulheres (cf. Rm 10,12; Gl 3,28). Nacionalidade, condição social e sexo ficam eliminados como fatores determinantes de pertença ao Povo de Deus. A própria escolha da mulher como protagonista do relato é um fato em si mesmo significativo. Se alguém não tinha voz no interior do Povo de Deus, eram precisamente as mulheres. Escolhendo uma mulher, primeiro; estrangeira, depois; e cananéia por ultimo, Mateus acaba com todos os esquemas até então vigentes. A partir de agora o que determina a pertença ao Povo de Deus é a fé em Jesus, a adesão à sua Pessoa. Não esqueçamos nunca, no contexto de Mateus, que esta fé significa a relativização da Lei e da Tradição, importantes e necessárias, por suposto, mas nunca prioritárias nem com valor de absolutos. Esquecer esta relativização tem o risco, entre outros, de reduzir a fé em Jesus a um pietismo pessoal.

Deus é tão grande que se não se partilhar não se tem. Deus é tão grande que ninguém, absolutamente ninguém, pode possuí-Lo em exclusividade. Quando se crê ter Deus só para si próprio, é que não se tem nada de Deus. Se pensarmos que os outros têm menos Deus que nós, é porque não sabemos quem é Deus. Aprender a descobrir o verdadeiro Deus que ama a todos, pois Ele é amor (1Jo 4,8.16), e que é o Pai de todos (Mt 5,43-48; 6,7-15) é uma verdadeira arte apaixonante. Deus é e está tão próximo, tão perto como todas as coisas que tocamos diariamente (cf. Mt 28,20). Aprender a descobrir este Deus, apesar de ser uma arte diária, é um exercício difícil, mas imprescindível, e que pode chegar a ser apaixonante, porque Deus tem uma “colossal imaginação” para se disfarçar (cf. Mt 18,5; 10,40-42; 25,40.45).

Muitas pessoas estão fora da Igreja porque ainda não sabemos acolhê-las, porque lhe exigimos uma mudança de cultura, de atitude diante da vida que nem mesmo Cristo pediu isso dos seus parceiros de diálogo.

Com freqüência, os homens têm bastante religião para se sentir inimigos dos que tem outra religião ou não a tem. Muito poucas vezes tem a religião necessária para se amar mutuamente.

“O crer que creia em Deus me prejudicou mais que a blasfêmia” (Hugueinin).  Este é o problema de muitos crentes: se sentem tão “seguros em suas seguranças” que não buscam, não se deixam surpreender por Deus; tudo está medido e controlado: as práticas, o que está bem e o que está mal, o que há de “pagar”, o que se pode dizer e o que não se pode dizer, o que é permitido e o que é proibido.

“Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim: minha filha está cruelmente atormentada por um demônio!”. É uma oração de petição que sai de uma fé profunda em que Deus pode fazer o que se pede e de uma confiança ilimitada no Deus misericordioso que fará alguma coisa para resolver o problema existente. A fé é o distintivo essencial do cristão, além do amor (cf. Jo 13,35). É uma fé que recebe o que quer, porque o que quer é a vontade de Deus. Esta mulher não desiste diante dos obstáculos. Ela está na linha que Jesus ensinou anteriormente: “pedi..., buscai..., chamai/batei a porta...,” (Mt 7,7-8). São estes três aspectos (pedir, buscar, bater a porta) que definem substancialmente o homem. Daí a necessidade de “lutar” com Deus no terreno de uma oração perseverante. A Cananéia obteve o que pedia porque se manteve nessa atitude de essencial pobreza. Por causa de sua perseverança, cumpre-se nela a Palavra de Deus: “recebereis..., achareis/encontrareis..., a porta será aberta...,” (Mt 7,7-8). Pedindo as migalhas que caem da mesa, logo a mulher se encontrou sentada à mesa”, comentou Santo Agostinho. Três aspectos que definem Deus: receber, encontrar e a porta será aberta. Deus e o homem estão postos frente a frente e cada um faz o que lhe é próprio: o homem com sua pobreza do essencial e Deus com a abundância de sua graça e benção para o homem aberto diante da providência divina.

Os milagres do evangelho são intervenção de um poder sobre-humano na história dos homens. Como conseqüência dos milagres, as multidões admiravam aquele poder e reconheciam a presença de Deus entre os homens. A admiração é também uma conseqüência da leitura do evangelho deste dia.

Mas somos convidados a fazer outra leitura um pouco mais autentica e profunda. Para ter este tipo de leitura é preciso fazer as seguintes perguntas: O que significa esta intervenção de Deus em nossa história? Que ensinamento que tem por trás dos milagres? Qual preocupação que Jesus tinha e qual ensinamento que Jesus queria dar ao operar os milagres?

Deus não pretende provocar infantilmente uma admiração e sim quer mostrar seu amor. Deus não pretende demonstrar que é um Criador poderoso e sim um Pai amoroso e misericordioso. Por ser Pai, Deus quer estar próximo de cada pessoa e de suas necessidades. Ele quer consolar e salvar. Mais que a admiração intenta provocar a confiança e o amor. Por isso, suas intervenções preferentemente têm lugar em contatos pessoais. Um caso é o da mulher Cananéia. É uma mãe pagã que pede a ajuda de Jesus em favor de sua filha. Na verdade ela é uma pessoa cheia de fé que se dirige a Jesus no convencimento de que Ele é o Enviado de um Deus que é Pai para todos. A oração dessa mulher foi atendida.

Jesus, ao elogiar a fé da mulher e curar sua filha, quer nos mostrar que para ele a fé tem uma força superior a qualquer delineamento ou prejuízo: a fé salva sempre. Ali onde há a fé, Jesus atua. E fé, aqui, significa convencimento de que Jesus é a Vida e o Caminho (cf. Jo 14,6) e confiança nele. Hoje somos convidados a examinar se nossa fé é verdadeira e firme, se temos Jesus presente em nossa vida, se confiamos nele em qualquer situação de nossa vida. Ao mesmo tempo somos convidados a examinar possíveis desvios: confiar demasiadamente em outras coisas (seja nossos bens materiais, sejam nossas “boas obras” etc.) ou se negamos o direito que o outro tem para expressar sua fé de modo distinto ao nosso.

Esta fé é que Jesus busca em cada um de nós. A mulher cananéia nos assinala o caminho para esta fé: a absoluta confiança em Jesus Cristo. É uma confiança que não necessita de nenhuma condição prévia; é uma fé que vai além do que pedimos para chegar à Pessoa de Jesus Cristo que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).

Este dia nos oferece a oportunidade de renovar nossa vida de fé e de oração. O mundo agitado que vivemos muitas vezes não nos deixa espaço para recolher nossa alma e para agradecer e louvar a Deus, nosso Criador e Pai amoroso.

Vitus Gustama, SVD

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