quarta-feira, 10 de agosto de 2011

VIVER NO PARADOXO PARA VIVER UMA VIDA FECUNDA

Quarta-Feira, 10 de agosto de 2011

Festa de São Lourenço

Texto de Leitura: Jo 12, 24-26

Ser cristão, a partir do texto do evangelho lido neste dia, é aprender a viver no paradoxo. Paradoxo significa pensamento ou argumento que contraria os princípios básicos e gerais que costumam orientar o pensamento humano, porém, nele, contém verdade e sabedoria de viver. Trata-se de um raciocínio aparentemente contraditório, porém contém nele uma sabedoria que nos faz crescer em todos os sentidos. Viver no paradoxo é a lei da vida.

Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto. Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna”. É o verdadeiro paradoxo.

Segundo Jesus, não se produz vida sem dar a própria. Um grão de trigo que morre e cai na terra produz muitos outros grãos de trigo. Este é o paradoxo. Não se pode viver sem aprender a morrer. Esta morte é a culminação de um processo de doação de si mesmo: “Quem se apega à sua vida vai perdê-la”. É o paradoxo! Não se pode receber vida sem doá-la para o bem do próximo. Não se pode receber o perdão divino sem dar nosso perdão ao próximo: “Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”, assim rezamos no Pai-Nosso. É o paradoxo! Para ser feliz é preciso fazer o outro feliz. Para ser amado e ser amoroso é preciso amar e ser amoroso para com o outro. Amar é dar-se em abundância até desaparecer, se for necessário. A fecundidade não depende da transmissão de uma doutrina e sim da transmissão e da vivencia do amor fraterno. “Quem não ama permanece na morte. (...) Aquele que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor”, diz-nos São João (1Jo 3,14b; 4,8).

Em verdade, em verdade vos digo: Se o grão de trigo que cai na terra não morre, ele continua só um grão de trigo; mas se morre, então produz muito fruto. Este é o primeiro paradoxo apresentado por Jesus no evangelho de hoje.

Na metáfora do grão de trigo que morre na terra, a morte é a condição para que se libere toda a energia vital que a semente contém, e a vida ali encerrada se manifeste plenamente. Com esta metáfora Jesus afirma que o homem tem muitas potencialidades e que somente o dom total de si libera essas potencialidades para que exerçam toda sua eficácia. O fruto começa paradoxalmente no mesmo grão que morre porque se não cair na terra não dá vida, não frutifica, é infecundo. A morte da qual fala Jesus não é um acontecimento isolado e sim é a culminação de um processo de doação da própria vida.

Por isso, dar a própria vida é condição para a fecundidade, é a suprema medida do amor. Para Jesus essa entrega da própria vida para o bem de todos não é uma perda para o homem; não significa frustrar a própria vida e sim uma vida fecunda. Aquele que sabe fazer o outro viver bem tem uma vida cheia de alegria. É uma vida feliz e fecunda. Quando deixarmos de crescer, ficaremos envelhecidos antes do tempo. Enquanto estivermos abertos para o crescimento, permaneceremos jovens, e jovens fecundos. O medo de crescer é o medo de tomar conta de si próprio.

“Quem se apega à sua vida, perde-a; mas quem faz pouca conta de sua vida neste mundo conservá-la-á para a vida eterna”. É a segunda afirmação paradoxal de Jesus no evangelho de hoje.

Não se pode produzir vida (dar frutos) sem dar a própria vida (morrer). A vida é fruto do amor e não brotará vida, se o amor não for pleno, se não chegar a ser um dom total. Amar é dar tudo, entregar tudo sem guardar nada para si, até desaparecer, se for necessário, como individuo ou como comunidade. Jesus vai se entregar pelos demais. Ele é solidário com os necessitados e por eles aceita a morte, mas logo prevê já o fruto: “Dou minha vida para retomá-la” (Jo 10,17).

“Quem se apega à sua vida, perde-a”

O temor de perder a vida e o tempo é o grande obstáculo para o compromisso pelos demais, porque o amor à própria vida pode levar alguém a praticar as injustiças e a ficar em silêncio diante de uma realidade que necessite de sua colaboração. O silêncio dos bons diante da maldade faz com que a maldade avance. Mas aquele que oferece sua vida pelos demais, ama verdadeiramente, se esquece do próprio interesse e segurança, luta pela vida, pela dignidade em meio de uma sociedade onde reina a morte.

Como Jesus, muitos homens e mulheres de ontem e de hoje para dar vida deram sua própria vida porque estavam convencidos de que o fruto supõe uma morte, e a entrega exige uma fé na fecundidade do amor.

Um desses homens é São Lourenço cuja festa é celebrada neste dia (10 de agosto). Lourenço era o primeiro dos sete diáconos da Igreja de Roma em 258. Valeriano perseguia os membros da hierarquia eclesiástica: bispos, presbítero, diáconos. Lourenço era o principal dos sete diáconos encarregados de socorrer os pobres e de administrar os bens temporais da Igreja. Lourenço era chamado até “diácono do Papa”. O Estado, na pessoa de Valeriano, cobiçava os bens temporais da Igreja. “É rica, sim, a Igreja, não o nego. Ninguém no mundo é mais rico que ela. O próprio imperador não tem tanta riqueza como a Igreja tem. Não recuso a entregar-lhe esses bens. deixe-me um prazo para unir e inventariar esses bens tão copiosos e preciosos”. Lourenço chamou e reunir todos os pobres e os doentes e os levou para o imperador e disse: “Eis os tesouros da Igreja que nunca diminuem e podem ser encontrados em toda parte!”. Por essa razão, o diácono Lourenço foi martirizado em 10 de agosto de 258.

Que tenhamos a caridade de são Lourenço para com tantos pobres e doentes que necessitam de nossa ajuda, seja nosso tempo para dar um pouco de nossa atenção, seja nossa ajuda material. “Não é louvável no pobre sua pobreza, mas sua humildade; nem condenável no rico sua riqueza, mas seu orgulho. Sejam ricos ou pobres, Deus dá sua graça aos humildes. Desapropria-te de ti mesmo e lança-te nos braços de Deus” (Santo Agostinho).


Vitus Gustama, SVD

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