terça-feira, 6 de setembro de 2011

FELICIDADE É O PROJETO DE DEUS PARA OS HOMENS

Quarta-feira, 07 de Setembro de 2011

Texto de Leitura: Lc 6,20-26

Ao descer da Montanha onde Jesus escolheu os Doze Apóstolos (Lc 6, 12-19) começa em Lucas o que os autores chamam o “Sermão da Planície” (Lc 6,20-49) que vamos meditar a partir de hoje até o próximo sábado.

O texto do evangelho de hoje, que inicia o Sermão da Planície, nos apresenta as bem-aventuranças como síntese da mensagem cristã, como projeto de felicidade. A felicidade para todos é o projeto de Jesus.  

Exegeticamente, o gênero de bem-aventurança não é novo no Novo Testamento, nem tampouco é exclusivo dos evangelhos. O Antigo Testamento nos apresenta numerosos exemplos de bem-aventuranças. no livro de Salmos encontramos mais de vinte vezes (cf. Sl 40,2; 127,1 etc.). O Apocalipse de São João rima seu texto com sete bem-aventuranças (Ap 1,3; 14,13; 16,15;19,9; 20,6; 22,7; 2214).

Encontramos paralelamente as bem-aventuranças em Mateus e Lucas, mas cada evangelista tem suas particularidades. Em Mateusoito bem-aventuranças (Mt 5,1-12), enquanto que em Lucas, quatro e mais quatro maldições. Mateus insiste na pobrezaespiritual” (os pobres no espírito), isto é, a atitude interior. Lucas, ao contrário, se dirige aos pobres reais, à classe social daqueles que são mais pobres materialmente/fisicamente do que os demais. E esta insistência particular de Lucas é ainda reforçada por: o anúncio de uma mudança total das situações e a oposição entrebem-aventuranças” e “maldiçoes” (“os ais”).

A interpretação das bem-aventurançassegundo Mateus” convida todos os homens, ricos e pobres para o desprendimento espiritual e para a conversão do coração. A interpretação das bem-aventurançassegundo Lucas” convida todos os homens, ricos e pobres, a transformarem as estruturas da sociedade para que haja menos pessoas desfavorecidas. Se todos são filhos e filhas de Deus da misericórdia (Lc 6,36), então todos são irmãos. Se todos são irmãos em Cristo, então todos devem cuidar de todos. Deus, como Pai de todos, não estará contente, se um dos seus filhos não estiver feliz. E ninguém pode estar em plena tranqüilidade diante de Deus, se um irmão estiver passando fome ou alguma necessidade básica para sua vida.

Na versão de Lucas das aventuranças, Jesus chamafelizesoubem-aventuradospara quatro classes de pessoas: os pobres, os que passam fome, os que choram e os que são perseguidos por causa da . E ele dirige seu “ai” para outras quatro classes de pessoas: os ricos, os que estão saciados, os que riem e os que são adulados pelo mundo.

Trata-se, portanto, de quatro antíteses. Como as antíteses que Lucas põe nos lábios de Maria de Nazaré em seu Magnificat: Deus derruba de trono os poderosos e exalta os humildes; saciou de bens os indigentes e despediu os ricos de mãos vazias (cf. Lc 1,52-53). É o desenvolvimento daquilo que Jesus havia anunciado em seu discurso programático em Nazaré: Ele foi enviado para os pobres, os cativos, os cegos e os oprimidos (cf. Lc 4,14-22).

O projeto de Jesus para todos nós é a felicidade. Ele veio para trazer vida em abundância (Jo 10,10). Felizes os pobres; felizes os que agora passam fome; felizes os que choram; felizes os que são odiados por causa do Filho do Homem. Trata-se de situações reais, de circunstâncias concretas e históricas. O advérbioagorareforça mais ainda essa impressão.

Jesus me convida, em primeiro lugar, a olhar para minhas próprias misérias, minhas pobrezas reais, minhas fomes reais, meus prantos reais, os desprezos reais que sofro. Em que sou um miserável? Em que sou um pobre? De que eu tenho fome? Quais são desprezos que eu sofri?

Em segundo lugar, Jesus me convida a olhar ao meu redor para esses mesmos setores de miséria, dos pobres, dos sofredores, dos famintos, dos desprezados. Sou convidado por Jesus para partilhar minha felicidade com os outros, para dividir com o necessitado daquilo que eu tenho, para levar consolação para os que vivem nos prantos, para levar o amor para aqueles que sofrem de desprezo. Se eu fizer tudo isto e mais do que isto, estarei mostrando para os outros que estou no Reino de Deus embora eu ainda esteja neste mundo. Desta maneira, para mim Jesus vai dizer: “O reino de Deus é vosso”, pois ao matar a fome do outro com o que eu tenho, eu sou saciado por Deus. Ao ajudar os outros na sua carência do essencial, não somente aliviamos sua dor. É muito mais do que isso! Queremos mostrar que estamos no Reino de Deus onde nãofome, nãodesprezo, nãopranto, pois todos se preocupam com todos; porque cada um se torna irmão para o outro; porque cada um se torna ocasião de salvação para o outro.

Hoje Jesus convida todos nós, pobres e ricos, a vivermos a verdadeira pobreza evangélica. A verdadeira pobreza evangélica é a pobreza do homem que desapega seu espírito de todas as coisas que tem, remete a Deus toda preocupação pelas coisas temporais e vive neste mundo como peregrino no caminho até a possessão eterna de Deus. A pobreza assim entendida mantém a alma aberta a Deus, em atitude de totalexpectativa”, pois tudo espera de Deus; cria um clima espiritual propício à docilidade interior, à oração e à união com Deus, porque ensina o homem a viver em contínua dependência do Criador. O apego às coisas passageiras fecha o coração do homem diante de Deus e diante de seu próximo. Um coração cheio de coisas terrenas fica cego diante da transcendência. A pobreza evangélica, por sua vez, gera a justiça e a misericórdia, alimenta a esperança, educa para a paz, para o diálogo, para o serviço do próximo, aumenta o amor e dá serenidade e alegria espiritual. Esta é a mensagem revolucionária que nosso Senhor nos trouxe. Se tudo for realizado, bem-aventurados somos todos!

P. Vitus Gustama,svd

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