sábado, 24 de setembro de 2011

O DIZER E O FAZER NO SEGUIMENTO COMO CRISTÃO

Reflexão Para XXVI Domingo Do Ano Litúrgico A

Texto de Leitura: Mt 21,28-32

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“Faze o que deves fazer. E faze-o bem. Esta é a única norma para alcançar a perfeição” (Santo Agostinho. In ps. 34, 2,16)

“Se não podes fazer todo o bem que tu queres, isso não é motivo para que te negues a fazer tudo o que podes” (Santo Agostinho. Epist. 166,1)
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Depois de instruir a seus discípulos sobre seu destino e sobre as exigências do seguimento (Mt 16,21-20,34), Jesus entra em Jerusalém, centro do poder político, econômico, religioso, judiciário e ideológico do povo de Deus, representado pelo Sinédrio, o Supremo Tribunal dos judeus, responsável pela morte de Jesus. Jesus se confronta com essas lideranças e, uma após outra, vai desmascarando-as, mostrando seu descompromisso com o bem comum. De acusado (Mt 21,23) Jesus passa ao ataque através de parábolas contadas para essas lideranças (Mt 21,28-22,14).

A parábola dos dois filhos tem uma função similar à parábola do filho pródigo de Lucas (Lc 15,11-32) embora cada evangelista a desenvolva diversamente. A mesma parábola também é o eco do Sermão da Montanha que enfatiza o fazer do que o dizer (Mt 7,21-23; cf. Mt 12,50;23,3-4).
          
O evangelista Mateus começa a parábola com a seguinte pergunta: “Que vós parece?” (v.28a). Esta pergunta é típica de Mateus (cf. Mt 17,25; 18,12;22,17; 26,66). A pergunta não é mais dirigida aos discípulos, mas aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo, os mesmos interlocutores da unidade anterior (cf. Mt 21,23-27). A pergunta obriga os ouvintes a comprometerem-se e a tomarem posição. A resposta à pergunta torna-se um julgamento para os próprios ouvintes. E no fim da parábola, mais uma vez, os mesmos interlocutores são obrigados a escolher “qual dos dois fez a vontade do pai?” (v.31). A resposta dada a estas perguntas pelos ouvintes será sua salvação ou seu juízo.
          
A parábola coloca os dois filhos em contraste. Contrasta a maneira como se dirigem ao pai: o primeiro (filho mais velho) de forma mal educada e grosseira e rebelde para os padrões comportamentais daquele tempo: “Não quero ir”; o segundo de forma delicada e polida, não sabe dizer “não”, mas desmente tudo na prática: “Eu irei, senhor”. Mas não foi. Contrasta a atitude que tomaram: um foi e o outro não foi. E, de modo especial, contrasta a contradição entre a palavra e a ação dos dois. O primeiro filho peca por falta de boa educação. Ele não admite conversa ou diálogo. Mas ele vai trabalhar. O segundo, apesar de sua boa educação, apesar de seu “sim” verbal, não vai trabalhar. O pai se agrada com o “não” arrependido do filho mais velho, e não com o “sim” gentil, mas mentiroso do filho mais jovem.
          
Os ouvintes de Jesus não tiveram dificuldade de dar uma resposta exata à pergunta de Jesus: “Qual dos dois fez a vontade do pai?”. Sem hesitarem os ouvintes responderam: o primeiro filho, isto é, aquele que falou que não iria, mas de fato foi e fez o que o pai pedia. Mas ao dar a resposta os próprios ouvintes foram colocados contra a parede e se auto-condenaram.
          
A mensagem, portanto, é muito clara. Entre palavra e ação, a primazia é dada á ação. Entre intenção e ação, a primazia é dada à ação. O homem se salva não pelas palavras, intenções, palavras estéreis e descompromissadas, mas por fatos concretos e precisos. Um bom exemplo é o melhor conselho.
         
O critério do agir é tão fundamental que a primeira denúncia que se fez dos escribas e fariseus é que o agir deles era fictício: eles agiam apenas de modo aparente, faziam de conta que agiram, mas na realidade não agiram. Desse modo eles pecaram contra os seus próprios princípios.
          
Quando nós não somos fiéis à nossa palavra deixa de respeitarmos a nós mesmos e conseqüentemente aos outros e a verdade não está em nós, não somos fiéis a nós mesmos, e também aos outros. Deste jeito estamos mentindo para nós mesmos e para os outros. A mentira é a defesa fácil dos fracos, que não são capazes de assumir a responsabilidade de seus atos. Triste é que o mentiroso não somente se condena a si próprio a vergonhosas contradições, mas também priva os demais do direito que têm à verdade, semeando desconfiança entre as pessoas. Basta alguém contar uma mentira e ele será forçado a contar outras para sustentá-la, pois cada mentira requer que outras mentiras a apóiem.
         
O fazer ou o agir é tão importante que Jesus Cristo pede aos discípulos o seguimento. Seguir a Jesus é agir com ele e como ele, acompanhá-lo no seu agir. Jesus chama os discípulos convidando-os a segui-Lo (Mt 4,19-22; 8,22; 9,9; 16,24; 19,21.27).
         
Então, o que importa não é aquele que se comporta bem que se salva, e sim quem cumpre a vontade de Deus. O que conta diante de Deus não são as aparências, nem as boas intenções ou palavras, mas a PRÁTICA. Deus olha para o que de fato fazemos, não importa o que pensamos ou dizemos. Em Deus o homem vale pelo que faz e não pelo que fala. Neste sentido, o que importa não é a conversão externa, e sim a atitude interior. E aquele que honra a Deus, não é aquele que observa uns ritos exteriores, mas sim aquele que põe em prática a vontade de Deus. Por isso, devemos ficar sempre atentos para que a nossa prática religiosa ou nossos ritos exteriores, não seja mais importante que nosso Deus e nosso próximo.
                     
Numa ocasião o Papa Paulo VI disse: “O grande pecado da moderna cristandade é o vazio entre a fé e as obras. É o pecado de ser ilógico, inconsciente e infiel”. O maior escândalo de nossos tempos é a separação da religião da vida. Reza-se, mas não se vive o que se reza. Canta-se mas não se vive o que se canta. Recebe-se a Eucaristia, mas não se vive a comunhão fraterna. Dobra-se os joelhos diante do sacrário, mas despreza-se o irmão, o corpo vivo e imagem de Cristo (cf. 1Cor 3,16-17).
           
O Evangelho de Mateus enfatiza muito a questão do AGIR. O critério definitivo para Jesus é o agir. A regra decisiva do discernimento é a distinção entre o falar e o agir. Por isso, os verdadeiros discípulos são os que agem conforme a Palavra de Deus, os que praticam a vontade de Deus. Ao contrário, os falsos discípulos são aqueles que falam palavras bonitas, mas não fazem nada. Por isso, Jesus diz, no sermão do monte: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que pratica a vontade do meu Pai” (Mt 7,21). Da mesma maneira, o verdadeiro profeta se reconhece pelos frutos (Mt 7,16-20).
          
A parábola dos dois filhos é um convite para fazermos o sério exame de consciência sobre o nosso agir diário. As nossas palavras nunca podem ultrapassar o nosso agir para não sermos chamados de cristãos descompromissados ou cristãos de fachada. Se não nos convertermos continuamente, o mundo vai repetir as palavras de Mahatma Gandhi: “Eu aceito o vosso Cristo, mas não aceito o vosso cristianismo”.

P. Vitus Gustama,svd

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