sábado, 10 de setembro de 2011

PERDOADO PARA PERDOAR

Reflexão Para XXIV Domingo Do Ano Litúrgico A
                                                     
Domingo, 11 de Setembro de 2011
Texto de Leitura: Mt 18,21-35
          
O Evangelho deste Domingo é a segunda parte do Sermão sobre a Igreja (Mt 18). Só para lembrar, coloquei novamente aqui o núcleo desse Sermão.

O capítulo 18 de Mt é o quarto dos cinco discursos de Jesus neste evangelho e este discurso é conhecido como  “discurso eclesiológico”(discurso sobre a Igreja) ou  “discurso comunitário”. Este capítulo foi escrito para responder aos problemas internos das comunidades cristãs: Quem é o primeiro na comunidade? O que fazer se acontecem escândalos na comunidade? E se um cristão se perder ou se afastar da comunidade, o que fazer? Como corrigir um irmão que erra? Quando é que uma oração pode ser chamada de comunitária e partilhada? E quantas vezes se deve perdoar?
          
O Evangelho deste Domingo é a segunda parte do Sermão sobre a Igreja que fala da importância do perdão mútuo (No Domingo anterior sobre a Correção Fraterna que é a primeira parte do Sermão).

Um dos maiores desafios para quem vive em comunidade ou em qualquer tipo de convivência, como também na comunidade de Mt, é o perdão. A sobrevivência de qualquer comunidade humana ou de qualquer convivência depende da capacidade que seus membros têm de perdoar. Sem isto, não há comunidade ou convivência que possa subsistir por muito tempo. O perdão refaz as pontes, encurta as distâncias e desarma os espíritos. Quando a pessoa não perdoar, ela se torna refém do próprio ódio ou rancor, e conseqüentemente perde a liberdade. O perdão é que possibilita a própria existência e a continuação da comunidade ou de uma convivência. Sem perdão não existe vida fraterna, vida conjugal, vida familiar, vida religiosa ou vida comunitária.

E de modo especial, devemos estar sempre conscientes de que a comunidade cristã (ou qualquer convivência humana) é constituída de homens ao mesmo tempo santos e pecadores e que só continuam vivos porque Deus renuncia à vingança. O saudoso Cardeal François X. N. Van Thuan na sua pregação durante o retiro no Vaticano dizia que o primeiro defeito de Jesus é que ele não tem boa memória. “A memória de Jesus não é igual à minha; ele não só perdoa, e perdoa a todos, mas esquece até mesmo que perdoou”, disse o Cardeal (do livro: Testemunhas da Esperança. Ed. Cidade Nova). Se Deus respondesse às ofensas humanas, às nossas ofensas, eliminando o pecador, sem dúvida nenhuma, uma boa parte da humanidade deveria desaparecer ou simplesmente a humanidade desapareceria, pois São João nos recorda com as seguintes palavras: Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e não há verdade em nós. Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados, e nos purificar de toda a injustiça. Se dissermos que não pecamos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (1Jo 1,8-10).

Por que nós, seres humanos pecadores temos tanta dificuldade de perdoar, enquanto Deus que é santo tem facilidade de perdoar? Será que não chegamos nem um pouco à santidade de Deus a qual todos nós somos chamados? (cf. Mt 5,48). Isto nos leva a perguntar ou questionar sobre a autenticidade de nossa vida espiritual. Os exercícios da vida espiritual: as orações, as leituras e as meditações sobre a Palavra de Deus, as missas celebradas ou participadas, têm transformado nossa convivência para uma convivência mais fraterna?
           
Na primeira parte do Evangelho deste domingo fala-se da pergunta de Pedro sobre quantas vezes deve perdoar (v.21). A segunda parte é a resposta de Jesus a essa pergunta que se segue com uma parábola (vv.22-34). E termina com a conclusão da parábola (v.35) que fala da correspondência entre o perdão dado e o perdão recebido.
          
Os judeus diziam que o máximo de vezes a perdoar era quatro. E quem perdoava sete vezes já era considerado santo. Pedro é generoso porque ele eleva o número para sete, pensando chegar ao ideal de Jesus.
          
Mas qualquer que seja o motivo que leva Pedro a fazer sua pergunta ou a elevar o número quatro para o sete, uma coisa é certa: ele quer como os judeus na época, que Jesus confirme a existência de um limite no exercício da caridade cristã, especialmente no perdão. É confortador saber quando e onde se pode, com tranqüila consciência, ignorar injunções da caridade cristã, pois é mais interessante saber quando cessam do que onde começam tais obrigações. Parece, de fato, mais que justo que em certo momento possamos dizer: “Basta ! Afinal somos homens ! Não agüento mais!“ Isto nos indica que nós queremos ser o eco do nosso ambiente ou queremos repetir o pensamento de Pedro. Jesus, porém, nos diz que devemos ser o eco daquilo que Deus fez por nós.  O perdão é o espaço que nos damos para nos deixar crescer e transformar. É abrir o futuro para nós mesmos e para o nosso semelhante. E ninguém é homem pelo fato de poder “explodir”, mas pelo fato de poder desenvolver em si e transmitir aos outros aquilo que Deus nos deu. Assim o perdão não é apenas uma exigência moral, mas o testemunho visível da reconciliação de Deus operando em cada um de nós. Por que a lei do perdão é vinculante, e não facultativa: é como um contrato firmado com o sangue de Cristo. Depende de mim ratificá-lo, derramando sobre os meus semelhantes aquilo que Deus me deu. Por isso, quando alguém perdoa o semelhante, na verdade, ele está agindo em conformidade com Deus que concede prodigamente o seu perdão ao ser humano.
           
Se Pedro pergunta se só até sete vezes perdoa, Jesus enfatiza o perdão sem limite: 70 vezes sete (v.22). Na verdade é uma alusão a Gn 4,24 (cântico de Lamec): “ Se a vingança de Caim valia por sete, a de Lamec valerá por setenta e sete”.  Os LXX traduziram mal o texto hebraico, mudando 77 por setenta vezes sete. O perdão deve estender-se até onde chegou a dor ou o desejo de vingança. Em outras palavras, o perdão deve ser proporcional à dor que sentimos causada por nosso semelhante ou ao desejo de vingança que temos contra quem nos fez mal. Este é o perdão de coração como diz o Evangelho de hoje.
           
Só é capaz de agir assim quem tem o coração repleto da misericórdia de Deus. Pois o modelo inspirador da ação cristã é a misericórdia.
        
A parábola do devedor implacável serve de conclusão do perdão sem limite de Deus para quem peca ou para todos nós, pecadores. O interesse de Jesus em contar esta parábola é destacar um fato: a enorme distância que existe entre o coração de Deus e o coração humano. Na parábola tudo parece desproporcional. A dívida do empregado nesta parábola é a de dez mil talentos (= cem milhões de denários). Cem mil era o maior número com que se contava e o talento era a maior unidade monetária em todo Oriente Médio. Este número (dez mil talentos), na época de Jesus, correspondia a duzentos mil anos de trabalho de um operário; operário nenhum no mundo jamais teve tanto dinheiro. Este número tem uma finalidade de mostrar a imensidão da misericórdia de Deus. Porque para Deus não há nenhum pecado que Ele não perdoe e não há pecado algum que seja maior do que o Seu amor. E Deus quer os seus filhos (as) perdoem como ele sempre os perdoe.
         
Em contraste com a bondade inesgotável de Deus, há ao invés, a mesquinhez do coração do homem, que não sabe perdoar as menores ofensas. Isto se mostra através da crueldade do devedor perdoado para com seu semelhante. Ele não quer saber do seu semelhante que tem apenas pequena dívida e manda prendê-lo até que pague essa pequena dívida. Isto quer dizer que ele foi embora feliz sem nenhuma transformação no seu coração. Ao saber da crueldade desse empregado miserável, na sua indignação o rei manda prendê-lo para ser torturado até que pague toda a sua dívida(v.34).
          
Jesus conclui a parábola dizendo: “É assim que o meu Pai que está nos céus fará convosco, se cada um não perdoar de coração ao seu irmão”(v.35 cf. Mt 6,15). Muitas pessoas não percebem que, cada vez que insistem em não perdoar, em guardar ira, ódio e rancor no coração, estão indo para o túmulo mais cedo. “O ódio é uma coisa morta. Quem de vocês quer ser uma tumba?”(Kahlil Gibran). Se não somos capazes de perdoar, tampouco podemos receber o perdão, pois o perdão recebido é o perdão dado. Além disso, se não perdoarmos como Deus nos perdoou, estamos deixando que a amargura, o ódio, rancor e raiva se instalem em nós de maneira a envenenar nossa vida e esses sentimentos podem destruir nossa vida, uma comunidade inteira e  uma família toda.
          
O ensinamento da parábola, portanto, é claro: os cristãos são filhos de Deus, por isso devem ter um coração grande como o de Deus. Porque quando o amor é grande qualquer defeito torna-se menor, já que o amor tudo pode. Mas os erros são grandes quando o amor é pequeno.
          
Por isso, perdoar não é uma atitude para gente fraca. A vingança é que o prazer do ofendido e o ódio rancoroso é o único refúgio do mais fraco. Quando se odeia alguém, o que se quer, no fundo, é que ele sofra e até se fica satisfeito com seus sofrimentos. O difícil, o que demonstra fortaleza, magnanimidade de espírito, maturidade humana e cristã não é vingar-se, mas perdoar e romper a espiral da violência pelo amor sincero e reconciliador. Por isso, uma das experiências mais sublimes é a experiência de perdoar e ser perdoado.
          
A falta da compaixão para com o semelhante, a dificuldade de perdoar o semelhante nos revela a nós mesmos que existe em nós um instinto de perversidade e nos faz descobrir um eu hostil, atraído pelo mal. Isto quer dizer que existe violência em nosso coração e seria ingênuo e perigoso negá-lo. Perdoar, neste sentido, significa abandonar os desejos sutis de vingança, é renunciar a fazer justiça em causa própria.
          
Quem perdoa e é perdoado hoje, sempre tem possibilidade de voltar a pecar amanha, porque nossa fidelidade a Deus pode não ser definitiva. No entanto, sempre que nos convertermos e voltarmos arrependidos, nós encontraremos um Pai bondoso e misericordioso para nos acolher e perdoar. A simples consciência da imensidade do perdão recebido de Deus deveria ser suficiente para motivar cada um de nós a perdoar. Ao contrário, a insensibilidade em relação ao dom recebido de Deus torna impossível a concessão de perdão ao semelhante.
                   
Vamos refletir um pouco sobre as palavras de J. F. Kennedy: “Perdoe seus inimigos, mas não esqueça seus nomes”. É isto que se chama perdão? Ao perdoar, não nos esquecemos; lembramos de maneira diferente, pois tudo que se tenta esquecer, não há cura. Quem não tem memória, não tem história. Apagar parte de nossa memória é apagar parte de nossa identidade como pessoas e de nossa história. Lembramo-nos agora de uma maneira que não transmite rancor nem ressentimento pelo que foi feito. Lembramo-nos agora a partir da perspectiva de Deus, por assim dizer, por causa da graça da reconciliação. A lembrança agora é construtiva. O perdão torna-se, assim, o caminho de libertação. O passado não é capaz mais de nos prender, pois a nossa lembrança se torna construtiva.

Deixemos hoje as seguintes interrogações que podem complementar a interrogação de Pedro:

1). Eu em relação aos outros no perdão:

Quantas vezes eu tenho que perdoar os outros? O que é que eu tenho que perdoar nos outros? Eu devo colocar o limite para o perdão que eu devo dar aos outros?

2). Os outros em relação a mim no perdão:

Quantas vezes os outros devem me perdoar? O que devem me perdoar? Os outros devem colocar o limite para o perdão que eles devem me dar?


P. Vitus Gustama,svd

Um comentário:

A.L disse...

Maravilhosa reflexão.Obrigada.