sábado, 1 de outubro de 2011

UM DEUS QUE NOS AMA INCONDCIONALMENTE

Reflexão Para XXVII Domingo Do Ano Litúrgico A
(02/10/2011)

Texto de Leitura: Mt 21,33-43
          
O trecho do evangelho de hoje pertence ao complexo literário de Mt 21,28-22,14 e é a segunda das três parábolas aqui reunidas e ligadas entre si pela semelhança temática: a culpa e o destino do povo eleito.
          
A parábola dos vinhateiros homicidas constitui um compêndio ou síntese de toda a história da salvação de Deus para o homem, desde a Aliança do Sinai até a fundação da Igreja por Jesus como novo Povo de Deus, passando pelos profetas e pela pessoa de Cristo que anunciou o Reino de Deus e foi constituído como pedra angular de todo plano salvador de Deus mediante seu mistério pascal de morte e ressurreição.
          
Os profetas comparavam Israel a uma vinha que pertencia a Deus (cf. Is 5,1-7). Na parábola, o dono da vinha é Deus. Os vinhateiros representam os maus líderes (religiosos) cuja responsabilidade é a de cultivar a fé do povo. Os servos enviados eram todos os mensageiros (profetas) que Deus enviava a Israel para que se convertesse. O filho do dono representou Jesus Cristo. A rejeição e a matança recordam a maneira com que os responsáveis tratavam estes mensageiros de Deus (cf. 2Cr 24,20-22;36,15-16).
          
Ao contar a parábola dos vinhateiros homicidas, Jesus quer preanunciar seu fim trágico representado pelo filho assassinado nesta parábola. Jesus não é um dos profetas, mas o Filho de Deus enviado ao mundo (Jo 3,16) e Jesus tem a plena consciência disso. A sua missão é o gesto salvífico extremo e decidido do Pai. Através da parábola Jesus quer também enfatizar a terrível responsabilidade dos incrédulos que o mataram, embora na cruz Jesus rezasse por todos eles: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34).
          
Mas a morte de Jesus não é o fim de tudo. De fato, ele ressuscitou. O fim trágico prepara um lugar para a celebração da glória do ressuscitado. A Igreja cristã primitiva, como a Igreja cristã em todos os tempos e lugares, encontrou, como encontra, nesta parábola um motivo para confessar a sua fé no Senhor Jesus que triunfou sobre a morte e por isso, ele oferece à Igreja uma esperança certa que é ele mesmo. A nossa vida, a partir de Jesus ressuscitado, tem futuro. O mundo, por isso, deve saber que não estamos condenados a um fim sem sentido.
                     
Para tirar outras mensagens, podemos ler esta parábola de duas maneiras: a primeira, a partir de Deus e a segunda, a partir do homem.

1. Quem é Deus nesta parábola? (a parábola a partir de Deus)   
          
O dono da vinha é figura de Deus. O fato de Deus ter mandado continuamente os profetas de ontem e de hoje para despertar o homem, só há uma explicação: a misericórdia. A misericórdia não é simplesmente amor: é um amor que não conhece limites, barreiras, obstáculos, fronteiras: é um amor que sabe amar também a quem se tornou  indigno do amor. Enquanto amor diz somente doação, misericórdia diz superdoação. O misericordioso não doa algo somente ao pobre, mas também a quem é indigno de ser presenteado. A misericórdia é um especial poder do amor, que prevalece sobre o ódio, a infidelidade, a deslealdade, a ingratidão. “A misericórdia”, como diz João Paulo II, “tem a forma interior do amor, que no Novo Testamento é chamado ágape. Esse amor é capaz de curvar-se ante o filho pródigo, ante a miséria humana e, sobretudo, ante a miséria moral, ante o pecado. A misericórdia se manifesta em seu aspecto verdadeiro e próprio quando valoriza, promove e explicita o bem em todas as formas de mal existente no mundo e no homem” (Dives in misericordia, no.6). Fomos criados por um gesto misericordioso, fomos feitos por mãos misericordiosas, e fomos idealizados por uma mente misericordiosa. Foi Deus. A misericórdia sempre vai além da justiça (cf. Dives in misericórdia no. 5).
          
O amor de Deus pelo homem é um amor essencialmente misericordioso, pois é dado a alguém que se tornou indigno, pela soberba, pela desobediência, pela ingratidão, pelos pecados, pela maldade, pela rebelião. E Deus ama o homem a ponto de fazer-se homem em Jesus Cristo: ele veio para o nosso meio, viveu como nós e ofereceu sua vida por nós (cf. Jo 1,14). Assim ele revela esse traço de Deus misericordioso.
          
Jesus Cristo é, de certa forma, o ato através do qual Deus vem definitivamente ao nosso encontro amando-nos, perdoando-nos, afirmando-nos, libertando-nos das nossas misérias e dos nossos pecados, e dando-nos possibilidades novas, para que nossa amizade com ele não seja mais interrompida. Nesse gesto extremo do seu amor evidenciam-se duas verdades: a grande consideração de Deus pelo homem. Deus leva a sério o homem. Deus sempre está do lado do homem e contra o mal; e o amor infinito que ele derrama sobre o homem. Este amor misericordioso de Deus sempre persegue o homem na sua aventura espiritual, nas suas fugas de Deus, nas suas rebeldias, na sua perversa ingratidão e na sua profunda miséria. Até o salmista fica maravilhado ao dizer: “... quem é o homem para te lembrares dele? Quem é o homem para com ele te preocupares?”( cf. Sl 8).
          
O Deus revelado por Jesus Cristo nesta parábola não responde com violência à violência. Ele sempre espera algo do homem, não considera o homem definitivamente endurecido. Ele tem paciência para com o homem até o ultimo segundo de sua vida neste mundo (cf. Lc 23,42-43).
          
A paciência é justamente a prática da compaixão e da misericórdia, porque pela paciência, podemos viver na plenitude do tempo e convidar os outros a compartilhá-la conosco. A paciência abre nosso coração para os pequeninos e nos torna conscientes de que os seus primeiros anos de vida são tão importantes aos olhos misericordiosos de Deus como os últimos anos de vida dos adultos. Ela nos faz perceber que não é a extensão da vida da pessoa o que importa, mas a sua plenitude. A paciência nos torna amáveis, solícitos, dóceis e afáveis, como Deus misericordioso e paciente e sempre agradecidos pela abundância dos dons de Deus.
          
Deus nos amou primeiro. E somente por isso é que podemos amá-lo em retorno (cf. 1Jo 4,19). E o amor espera o amor em retorno. O sentido de ser amado é amar como resposta (cf. Jo 13,34-35; 15,12). Somos eleitos não por nossos méritos e sim porque Deus nos ama. E o amor de Deus deve ser respondido. Se não, seremos comparados a uma vinha que não produz frutos e conseqüentemente os galhos secos são jogados ao fogo para ser queimados (cf. Jo 15,6).

2. Quem é o homem nesta parábola? (a parábola a partir do homem)
          
A parábola nos revela que no homem existe um instinto de perversidade, de violência e da hostilidade. Seria ingênuo e perigoso negá-lo. Os vinhateiros que agarraram, espancaram, apedrejaram e mataram os empregados são revelação da hostilidade que, muitas vezes, faz ninho dentro do nosso coração.
          
Deus misericordioso e compassivo e paciente revelado nesta parábola nos convida a vestirmos uma atitude da não-violência e da não-vingança. O homem no que tem de espiritual é não-violento, pois a não-violência é uma qualidade de coração. No momento em que ele se torna consciente do espírito interior, não pode permanecer nele a violência. O ódio que se opõe ao ódio consegue apenas aumentar a profundeza do ódio e da violência. O homem só pode fazer cessar a violência no momento em que ele voltar a ser filho (a) de Deus de misericórdia, pois o fato decisivo é sempre a graça de Deus (cf. 1Cor 15,10). No domínio da não-violência e da não-vingança, pela graça de Deus, todo pensamento verdadeiro é levado em conta e toda voz verdadeira tem seu valor pleno. E o primeiro princípio da ação não-violenta é o da não-cooperação com tudo que é humilhante.
           
A meta da vida humana é a união plena com o seu Criador. Este é o máximo que o homem pode ou possa alcançar. Mas para alcançar este máximo, o homem deve ter ou fazer o mínimo  e este mínimo está ao seu alcance. O mínimo que o homem possa  e pode fazer é o que São Paulo diz na segunda Leitura: ser verdadeiro, ser honesto, ser justo, ser puro, ser amável, ser de boa fama, ser virtuoso, ser grato que é capaz de louvar(cf. Fl 4,8). Sem este mínimo, como se alcança o máximo? Deus pede aquilo que o homem pode fazer. Se o homem não quer fazer aquilo que ele pode fazer, o máximo(a união plena com o Criador) fica cada vez mais distante.
          
E no fim desta parábola Jesus, citando o Salmo 118,22-23, diz: “A pedra que os construtores rejeitaram, torna-se a pedra angular”.
          
Muitas vezes, como os dirigentes de Israel na época, pretendemos construir nosso edifício de vida prescindindo da pedra angular que é Jesus Cristo. Ao prescindirmos da pedra angular, nossa vida não vai chegar a um final feliz e glorioso. Porque O Senhor Jesus Cristo é a nossa pedra angular que sustenta e suporta toda a nossa vida até o final feliz na comunhão eterna com o Deus de misericórdia.
          
Os dirigentes compreenderam o sentido da parábola e a denúncia que Jesus fez deles, mas isso longe de fazê-los refletir e parar para mergulhar na verdade da denúncia; pelo contrário, a denúncia os incita a usar violência. A verdade nunca é o critério de sua ação, mas eles fizeram tudo em função da sua própria segurança.
           
Não estamos livres deste modo de agir. Muitas vezes, em função de nossa própria segurança, deixando de lado a verdade, pisamos sobre os outros até os eliminamos de nosso relacionamento ou até de nossa vida. E o pior é matar alguém em nome da religião ou falar mal de alguém ou atacar o outro em nome da Sagrada Escritura ou em nome de qualquer outro pressuposto direito. Se Deus se revela como “Eu Sou Aquele que é” (Ex 3,14), ou o Deus da vida, como é que ele poderia concordar com a violência? Um Deus que concordasse com a violência, mesmo tendo um fundamento sobre alguma Escritura que se denominasse “sagrada” para seus adeptos, esse não deveria ser verdadeiro Deus.
          
O dono da vinha que é figura de Deus espera de cada um de nós frutos e ele espera frutos bons de nossa vida até o último segundo de nossa vida. Não importa se muitos ou poucos, mas que a nossa vida produza fruto. Por isso, a fé, a oração e o culto que temos devem transformar-se em frutos para não frustrar o Senhor quando vier ao nosso encontro. Ser cristão praticante não deve ser motivo de orgulho que pode se transformar em arrogância e superioridade, mas de fértil responsabilidade cristã. Para isso, nós, como ramos, devemos permanecer em Jesus que é a videira para que possamos produzir frutos permanentemente em qualquer estação desta vida.
          
Pergunte-se se cada um tem produzido frutos pela glória de Deus e pelo bem de nosso semelhante. E ofereça estes frutos ao Senhor em cada celebração da qual participa. Só assim é que a nossa eucaristia tem sentido, pois celebramos a vida. 

P. Vitus Gustama,svd




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