sábado, 22 de outubro de 2011

AMOR: A VERDADEIRA VIDA SE RESUME NO AMOR


Reflexão Para XXX Domingo Do Ano Litúrgico A

(23/10/2011)


Texto de Leitura: Mt 22,34-40

          
O evangelho deste domingo fala do maior mandamento: o amor. Este texto podemos encontrar nos evangelhos sinóticos, mas com o contexto diferente (Mc 12,28-34;Lc 10,25-28). Em Mc, este texto é uma conversa amistosa de caráter escolástico entre um mestre da Lei e Jesus. Por isso, sem nenhuma polêmica. O mestre da Lei até recebe o elogio de Jesus, pois ele concorda que o maior mandamento é o amor: “Não estás longe do Reino de Deus” (Mc 12,34). Em Lc, o mesmo texto serve de introdução à parábola do bom samaritano. Em Lc, não é Jesus quem enuncia o maior mandamento, mas um doutor da lei. Jesus concorda e manda que o doutor da lei  faça a mesma coisa(amar) para poder viver: “Fazei isto e viverás!” (Lc 10,28). Enquanto que em Mt, este mandamento se encontra dentro de uma polêmica violenta entre Jesus e os líderes do povo em Jerusalém (veja Mt 22,15-21). Neste contexto Jesus proclama o mandamento do amor aos que o odeiam, pois eles estão procurando uma maneira para condená-lo (Mt 22,15.34-35; 5,43-44).

          
Antecipamos logo a situação da Igreja de Mateus que tem por trás deste texto. Havia confronto entre um judaísmo dominado por mestres da lei e os fariseus. Para eles todos os mandamentos tinham a mesma importância. A atenção destes dirigia-se não para os conteúdos da lei, e sim sua característica formal de imposição. A lei por lei era o princípio. Enquanto que para a comunidade de Mateus o duplo mandamento do amor a Deus e ao próximo era cláusula fundamental da aliança entre Deus e seu novo povo. A característica fundamental do novo povo de Deus, isto é, da comunidade cristã mateana é o amor a Deus e ao próximo. Os mandamentos de amor servem de centro da lei, dando à Bíblia e aos ensinamentos de Jesus uma ordem e um impulso que distinguem a comunidade mateana de outros movimentos e comunidades judaicas. A ênfase nos mandamentos de amor, misericórdia e justiça serve para dar à comunidade mateana sua orientação interna e também para identificá-la em contraste com outros grupos.

          
Como já sabemos nos textos anteriores, Jesus desfez a armadilha dos fariseus em relação ao imposto (Mt 22,15-22) e respondeu à pergunta dos saduceus sobre a ressurreição dos mortos (Mt 22,23-33). Depois desta derrota, os fariseus voltam a reunir-se para colocar novamente Jesus numa armadilha (cf. Mt 22,15). Este confronto culminará na paixão de Jesus (Mt 26,4.27,1).Agora interrogam Jesus sobre o maior mandamento: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei?” (v.36).

          
Os rabinos do tempo de Jesus, estudando a Bíblia, tinham chegado a compor uma lista dos mandamentos nela contidos. Ensinavam que o conjunto dos preceitos era de 613. Desses, 365 (como os dias do ano) eram proibições e 248 (como membros do corpo) eram ações a serem cumpridas.

        
Os guias religiosos de Israel ensinavam que todos esses mandamentos tinham a mesma importância e eram igualmente obrigatórios; discutia-se, porém, qual fosse o primeiro e o maior de todos. A opinião mais comum era que o preceito do Sábado valia mais do que todos os outros juntos. Contou-se que de tanto mandamento até um pagão se apresentou a um famoso rabino chamado Hillel (que viveu poucos anos antes de Cristo) e lhe disse, ironicamente: “Se conseguires ensinar-me toda a lei enquanto permaneço ereto num pé só, converter-me-ei”.

       
Por isso, um dos fariseus perguntou a Jesus, para experimentá-lo: “Mestre, qual é o maior mandamento da Lei  ?”  E na sua resposta, unindo dois textos do AT (Dt 6,5 e Lv 19,18), Jesus disse que o amor  era maior de todos cuja direção são três: amar Deus, a si mesmo e ao próximo (Mt 22,37.39). Notemos bem: os fariseus perguntavam sobre leis, isto é, deveres, obrigações. Jesus chama para um confronto não com numerosas prescrições, normas, proibições e preceitos, mesmo de origem divina, mas com uma exigência global do amor. A resposta de Jesus, por isso, fala de amor. Como todos nós sabemos, amor nunca é sentido como obrigação, mas como impulso que vem de dentro da pessoa, e a sua expressão exterior jamais é vista como dever ou obrigação, e sim como satisfação e prazer.

        
Perguntamos: por que amor é o maior ou primeiro de todos os mandamentos?

       
São João responde: por que “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Esta frase perpassa, carregada de mistério e de promessa toda nossa história. Por pouca sensibilidade que se tenha, se compreende que nela se toca o coração mesmo do cristianismo. Onde existe o amor, está o cristianismo, embora se trate de ateísmo; onde não existe amor, não existe cristianismo, embora exista o sacrifício ou a eucaristia. Por isso, Santo Agostinho dizia: “Se, por conseguinte, não há tempo para perscrutar todas as páginas sagradas, para deslindar todos os véus da linguagem, para penetrar todos os segredos das Escrituras, então, abraça a caridade, da qual tudo depende”.  “Deus é amor” é a frase nuclear e irradiante. Ela sozinha já seria capaz de manter a esperança no mundo, pois pressentimos que nela está a chave de tudo.

       
Se Deus é amor e se Deus é a origem, intuímos que o amor seja, portanto, a essência da realidade, a última palavra da compreensão, o critério definitivo do juízo. Compreendê-lo e vivê-lo será justamente alcançar o mistério do universo, encontrar a chave do sentido da vida, chegar à fonte da vida que é Deus.  Santo Agostinho dizia: “Qual o valor desta virtude(amor/caridade)? É a alma das Sagradas Letras, a força da profecia, a vida dos sacramentos, o fundamento da ciência, o fruto da fé, a riqueza do pobre, a vida dos moribundos”. Unicamente na direção do amor é que poderemos caminhar em direção ao centro da vida: o resto equivale a se perder.

      
Amor! Eis a mensagem central do cristianismo. Ser  o mandamento primeiro significa que é ele que dá sentido a todo o resto. Por isso, basta eliminar o amor da vida e o mundo virará um cemitério. E quando acaba o amor, formamos uma imagem estática do outro e ficamos no passado do outro apesar do outro ter-se mudado. E sem o amor, julgamos e nos atemos a preconceitos mútuos. Isto é a morte. O amor nos liberta de tais imagens e mantém o futuro aberto aos outros. Nutrimos esperança pelo outro, por isso esperamos do outro. Isto é a vida.  O amor é a origem da realidade, motivo da salvação, meio da comunhão, fonte da atividade e critério da vida. Basta cada um de nós deixar-se levar pelo amor, a vida ou o cristianismo se apresentará com outro aspecto, com outro estilo e viver com outro calor, com muita espontaneidade e alegria. Por isso, no mundo  humano, como também no mundo animal, o crescimento não é possível sem amor, como dizia Teilhard de Chardin: “ O amor é a mais universal, a mais formidável e a mais misteriosa das energias cósmicas. Socialmente, fingimos ignorá-lo na ciência, nos negócios e nas assembléias, ao passo que sub-repticiamente ele está em toda parte” . O amor faz crescer. O amor tranqüiliza. O amor dá segurança. Por isso, aquele que não é amado, fecha-se em si mesmo como uma prisão sem portas, sem outra saída e se torna uma pessoa egoísta. Sabemos que o egoísmo devora o que o outro tem. O amor, ao contrário, oferece ao outro o que lhe falta.  Quando amamos e nos sentimos amados, recordamos que jamais estamos sozinhos em nossas lutas e conseguiremos sobreviver até às circunstâncias mais atribuladas. Quanto mais o amor tiver recebido sadiamente, tanto mais poderá alguém dá-lo O amor que ele dá faz o eco ao amor recebido.

    
Amor é a auto-comunicação do bem. Ele é a capacidade, inerente ao bem, de sair de si mesmo, de transferir para outro ser, de participar do outro ser e de entregar-se por um outro ser. Aquele que ama está totalmente no outro, conservando plenamente sua identidade. O amor não pode realizar-se na esfera de um sujeito isolado.

 
Por ser muito essencial na vida dos homens, Jesus pede para amar a Deus em primeiro lugar com coração, mente e alma. Isto quer dizer: amar com toda interioridade do homem e com o aspecto racional dessa interioridade e com alma que é a força vital. Com tudo isto, o homem deve orientar-se para Deus, pois o amor não é mero sentimento, mas direção de vida. Se Jesus nos pede isto, é porque precisamente no amor o homem encontra a verdadeira realização de si mesmo e faz uma autêntica experiência de Deus.

    
Mas não basta só amar a Deus, pois o homem cairia na mais ilusória das ilusões; faria experiência de um deus sem vulto e sem coração; estaria adorando um ídolo feito por mãos humanas.

 
Justamente para impedir essa distorção é que Jesus diz no Evangelho que o maior mandamento não é só o de amar a Deus, mas também o próximo como a ti mesmo. Jesus quer que nos elevemos até Deus, mas sem deixar esta terra; propõe-nos um amor sem limites a Deus, porém apresenta-nos o homem como passagem obrigatória e normal desse amor.

        
“O segundo é semelhante a esse: ‘Amarás ao teu próximo como a ti mesmo’”, diz Jesus (Mt 22,39). O homem tem  que saber amar-se a si mesmo, pois não se pode compartir ou partilhar aquilo que não se tem. Santo Agostinho dizia: “Se não sabes amar-te a ti mesmo, tampouco saberás amar aos demais de verdade”. O amor ao semelhante emana, se nutre do manancial que procede do amor que sente um por si mesmo. Amarmo-nos a nós mesmos é ver-nos como pessoas. É aprender os valores que constituem nosso ser. É iluminar os dons e talentos para nos elevar ao topo mais alto de nossa existência.

      
Se a base da caridade é o amor a si mesmo, devemos aceitar também que a base do amor a si mesmo é a caridade. O amor nunca é imanente, mas sempre flui e se expande fora de si,  transcende. O amor que transcende até o bem do próximo é caridade. Esta qualidade de transcender é essencial no e do amor. Se não transcender, se não fluir de si, o amor não será  amor. O bem ao próximo é o modo em que transcende o amor a si mesmo. A caridade constitui-se em fundamento e sentido do amor a si mesmo. Amor a si mesmo e amor ao próximo se retroalimentam.

      
Na vida real, há quem ame pouco o próximo (o homem) por receio de ofender a Deus. E há quem ame pouco a Deus por receio de excluir o próximo (o homem), como se fosse impossível ser, ao mesmo tempo, amigos de Deus e dos homens. Mas quem deseja realmente fazer experiência de Deus, busca- O com todo o coração, entendimento e alma e deixar-se busca por Ele, acaba por encontrá-lo em todo lugar: nas coisas e nos acontecimentos, nas pessoas e na história. O amor a Deus e ao homem (próximo) se tornam só porque animados por um único e profundo amor.

        
Jesus coloca o amor a Deus e o amor ao próximo como a si mesmo em relação com toda a revelação bíblica da vontade de Deus. Por isso, ele conclui: “Toda a Lei e os profetas dependem desses dois mandamentos” (v.40). No amor gira toda a revelação bíblica. E Jesus é o revelador definitivo e perfeito da vontade de Deus (Mt 5,17). A vontade de Deus gira em torno do amor total a Deus e do amor ao próximo cuja medida é o amor a se mesmo.

     
Kahlil Gibran escreveu: “Quando um de vós ama, que não diga: ‘Deus está no meu coração’, mas que diga antes: ‘eu estou no coração de Deus’”. Porque, diz São João: “Nós amamos, porque Deus nos amou primeiro” (1Jo 4,19).

   
Portanto, que cada um se pergunte: “Será que posso afirmar que amo a Deus e ao próximo como eu me amo? De que maneira eu  me amo. O que é que eu amo no amor”?


P. Vitus Gustama,svd

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