sexta-feira, 29 de julho de 2011

SER CRISTÃO DA COMPAIXÃO EM AÇÃO


REFLEXÃO PARA O XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM A

31 de julho de 2011

Mt 14,13-21
         
A alimentação da multidão (multiplicação de pães) é o único milagre narrado em todos os quatro evangelhos (Mc 6,32-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-15), e o único narrado duas vezes (em duas versões variantes) em Mc (Mc 8,1-10) e em Mt (Mt 15,29-39). Obviamente o relato da multiplicação tem sua alusão a Ex 16, história do maná no deserto (aqui se diz no lugar deserto) e a 2Rs 4,42-44 (Eliseu alimentou 100 pessoas com 20 pães e ainda sobraram) para dizer que a atividade de Jesus é uma atividade de êxodo, isto é, libertar o povo de todo tipo de escravidão, inclusive da escravidão da fome ensinando os cristãos a partilharem o que se tem. Jesus é um novo Moisés, cuja missão é libertar o seu Povo da escravidão, a fim de conduzi-lo à terra da liberdade e da vida plena. Cada cristão é chamado a exercer a mesma missão.
          
Ao relatar esse episódio Mt segue a tradição de Mc, embora ele omita várias detalhes. Mc (e Lc) situa a cena da primeira multiplicação logo depois do relato da volta dos discípulos de sua missão apostólica (cf. Mc 6,30s; Lc 9,10). Mt coloca a cena logo depois que Jesus recebeu a notícia da morte de João Batista (cf. Mt 14,12). A referência ao rebanho sem pastor (Mc 6,34) não se menciona em Mt (somente em Mt 9,36, mas em outro contexto).
       
Vamos estender nossa meditação sobre algumas de tantas mensagens do texto do evangelho lido neste dia.

1. Retirar-se para o deserto para aprender a despojar-se
         
Quando soube da morte de João Batista, Jesus partiu e foi de barco para um lugar deserto” (Mt 14,13).

       
No seu relato Mt diz que Jesus se retirou para o deserto depois que soube da morte de São João Batista. Evidentemente Jesus se retirou para o deserto para entrar na intimidade com Deus a fim de refletir sobre o acontecimento dentro do plano de Deus. Na oração ele se fortificou. Tanto que quando saiu do barco ele viu a multidão miserável e começou a curar todo mundo, até saciou a fome da multidão.
       
O deserto é o tempo e o espaço do encontro com Deus onde cada cristão aprende a despojar-se das suas seguranças humanas, das suas certezas, da sua auto-suficiência, para viver na liberdade. O deserto como lugar de carência de tudo é o lugar e o tempo onde as pessoas aprendem a partilhar, e por isso é o lugar onde se vive a igualdade, pois cada membro do Povo conta com a solidariedade do resto da comunidade. Por isso, o deserto é o lugar onde nãoegoísmo, injustiça, prepotência. Não é por acaso que Jesus leva seus discípulos para o deserto e é seguido pela multidão. No deserto é que Jesus vai ensinar a viver a vida de partilha, pois onde há partilha as coisas sobram suficientemente. Na ausência da partilha, porque muitos agarram as coisas para si, a grande maioria fica sem nada nem para sua necessidade básica. A partilha é uma maneira de se libertar da escravidão do egoísmo que mata, pois o egoísmo deixa o homem no isolamento e na solidão. A partilha é um caminho que nos leva de volta para o amor motivo pelo qual fomos criados. Ao ensiná-los a partilhar Jesus quer lhes dizer que tudo é um dom de Deus para os homens. E os dons de Deus são para ser partilhados, colocados ao serviço dos irmãos. É deste processo libertadorque conduz do egoísmo ao amorque vai nascer a comunidade do Reino.
          
Somos convidados a retirar-nos diariamente. O principal objetivo de retirar-se é fazer com que, quando avançarmos, avancemos na direção que Deus quer. Retirar-se é essencial para tomarmos as decisões e fazermos as escolhas certas: as que realmente queremos e as que estimulam a vida. Retirar-se pode nos trazer tanto uma resposta quanto uma solução ou podem surgir novas perguntas. Mesmo que não obtenhamos respostas claras para muitas das grandes perguntas da vida, é vital continuar a recordar quais são as nossas perguntas. Perder as perguntas é certamente perder-se no caminho.

2. Viver e Conviver Como Compassivos
         
Ao sair do barco, Jesus viu uma grande multidão. Encheu-se de compaixão por eles...” (Mt 14,14).
       
A multidão faminta do sentido da vida foi atrás de Jesus. Isto significa que essa multidão encontrou em Jesus aquilo que ela estava procurando. Em outras palavras, Jesus tinha algo a oferecer para saciar a fome da multidão. Será que a Igreja tem algo a oferecer que faça a multidão procurá-la? Ou será que ela vive preocupada apenas com os preceitos que a multidão deve cumpri-las? Os cristãos de hoje têm algo a oferecer ao mundo que talvez esteja vivendo o cansaço existencial?
       
Diante da multidão faminta do sentido da vida Jesus se mostrou compassivo. Compaixão é muito mais do que um sentimento. Compadecer-se significa sair de si mesmo levando consigo o que tem, por pouco que seja, para compartilhá-lo com o que não o tem e por isso mesmo sofre. A compaixão é uma atitude primordial de Deus. Por isso, quando se fala da compaixão, não se trata de um vago sentimento de comoção. O verbo usado por Mateus neste Evangelho é muito forte e quer dizer sentir-se perturbado nas entranhas. A compaixão, por isso, nos pede que vamos até onde existem feridas, que entremos em lugares onde existe o sofrimento, que compartilhemos os desânimos, os temores, as angústias dos nossos semelhantes. No Evangelho este verbo é usado exclusivamente em relação a Jesus ou a Deus. Por isso, quem tem compaixão, ele tem algo de Deus dentro de si.
           
Esta profunda compaixão diante das necessidades dos nossos semelhantes é a primeira condição para nos sentirmos motivados para a ação. Quem permanece impassível, quem não alimenta os sentimentos de Cristo, muito dificilmente será induzido a fazer qualquer coisa pelos semelhantes. Por isso, quando der alguma ajuda, elesomente para obedecer a alguma imposição externa, a uma convenção social, e não por uma premente necessidade interior.

3. Temos responsabilidade diante da fome da maioria
         
Despede as multidões para que possam ir aos povoados comprar comida”, diz os discípulos a Jesus (Mt 14,15b). Mas recebem a resposta de Jesus: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mt 14,16).

          
Os discípulos têm pena da multidão que está com fome, por um lado. Mas por outro lado, eles reconhecem a incapacidade de saciá-la com cinco pães apenas. Como resolver o problema? Eles aproximam-se de Jesus não para lhe perguntar que planos tem, mas para oferecer-lhe uma “solução”: “Este lugar é deserto e a hora está adiantada. Despede as multidões, para que possam ir aos povoados comprar comida” (v.15). A solução oferecida pelos discípulos, então, é despedir para comprar. Em outras palavras, cada um tem que prover para si mesmo, por meio de dinheiro. Mas vem a pergunta: “Será que toda esta multidão tem dinheiro?”
          
Comprar e vender (pães) supõem orientar as relações sociais pelas leis da economia, onde impera a concentração de bens e a exploração; supõem submeter-se às leis econômicas que mantém essa multidão na miséria. Sabemos que onde há concentração de bens e alimentos, lá há sempre fome. Neste contexto, quem tem dinheiro, tem direito de comer; quem não o tem, torna-se vítima da fome. O que tem por trás disso é o egoísmo. E as pessoas contaminadas pelo egoísmo acabam virando as costas para o semelhante em dificuldade.
          
A atitude que Jesus tem com a multidão faminta do pão e da palavra contrasta com a sugestão dos discípulos. A “comprar” Jesus opõe “dar” e ”repartir”: “Eles não precisam ir embora. Dai-lhes vós mesmos de comer” (v.16). Jesus ensina-lhes, dessa forma, que eles têm uma responsabilidade diante desse desafio que o mundo dos pobres diariamente grita. Todos os cristãos jamais poderão dizer que não têm nada a ver com a fome, com a miséria, com as necessidades dos mais desfavorecidos. Qualquer irmão necessitado, seja de pão, de alegria, de apoio, ou de esperança, é da responsabilidade de todos os que se declaram cristãos.

4. A Partilha é o Caminho de Multiplicação de Dons Recebidos
         
Só temos aqui cinco pães e dois peixes” (Mt 14,17)
       
Que adianta ter cinco pães e dois peixes para alimentar a fome da multidão?! É muito pouco! Mas Jesus pede que lhe entreguem o pouco que se tem: “Trazei-os aqui!” (Mt 14,18). Precisamos colocar nas mãos de Deus nossos pobres recursos humanos. A lição é bem clara: diante do apelo dos necessitados, os cristãos precisam aprender a partilhar. Para Jesus, o eterno problema da vida não é a falta do pão, e sim as causas que geram a falta do mesmo na mesa da grande maioria. O que se revela mais não é a ausência do pão, e sim a presença do egoísmo, do individualismo, da ganância e da total ausência do amor fraterno. Não agarre aquilo que não vale a pena ser agarrado, pois ao agarrá-lo, perde seu valor. É o agarrar em vão, pois um dia cada um será obrigado a largar tudo. Ao partilhá-lo, ao contrário, ganha seu valor. “Cinco pães e dois peixes” significam totalidade (“sete” é a soma dos 5+2). É na partilha da totalidade do que se tem que se responde à carência dos irmãos. Quem partilha, vence a escravidão do egoísmo. Ao partilhar, em vez de perder, o cristão ganha muito mais. É o paradoxo do Reino de Deus: aquilo que se dá para o bem do próximo é aquilo que se ganha. O amor dado é o amor recebido. O perdão dado é o perdão recebido. A vida oferecida para salvar o outro é a vida recebida, a vida ressuscitada. Compartilhar ou partilhar é multiplicar. Se quisermos ser verdadeiros cristãos capazes de convencer o mundo, devemos aprender a viver este paradoxo. É preciso que cada cristão quebre a lógica egoísta do lucro e substituí-la pela lógica do dom, da partilha, do amor. Sem a partilha, não haverá um mundo mais justo e mais fraterno.
       
Quem possui algo para comer, deixa-se tocar por quem não o tem e abre mão, generosamente, do que lhe pertence para saciar a fome do semelhante. Esta atitude funda-se na pura gratuidade e exclui qualquer desejo de recompensa. Nessa direção é que os cristãos, todos nós, devemos caminhar. Tudo parte do amor ao semelhante cuja penúria ou miséria torna-se um apelo para a solidariedade e a partilha.
          
Se a partilha e a compaixão são a atitude primordial de Deus, portanto repartir o pão significa prolongar a generosidade de Deus- criador: Ele criou tudo por amor e gratuitamente sem nenhum mérito de um ser humano. Por isso, quando se libera a criação ou um ser humano do egoísmo, sobra para cobrir a necessidade de todos. Libertar-se um ser humano do egoísmo significa estar vazio de toda criatura. E “estar vazio de toda criatura é estar cheio de Deus. Ao contrário, estar cheio de toda criatura significa estar vazio de Deus” (Mestre Eckhart).

5. Um banquete da libertação e da dignidade humana prefigura o banquete eterno: o gesto aponta para a Eucaristia
         
Então, Jesus pegou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos para o céu e pronunciou a bênção. Em seguida partiu os pães e os deu aos discípulos” (Mt 14,19). São as palavras que apontam para a Eucaristia (Mt 26,26-29).
          
Jesus pede que as multidões se sentem na grama (Mt 14,19). No primeiro êxodo Deus alimentou Israel no deserto (Ex 16); no êxodo definitivo Jesus vai alimentar a multidão no lugar deserto. Comer sentado ou “recostar-se” para comer era próprio dos homens livres e era a posição adotada para a refeição pascal (“grama verde” só existe durante a primavera, supõe que seja o tempo de Páscoa. Cf. Jo 6,4), em recordação da libertação do Egito. O gesto de sentar indica a tomada de consciência da própria dignidade e liberdade. E Jesus quer que a multidão esteja consciente disso. Jesus veio certamente para devolver ao homem a dignidade perdida para fazê-lo livre de todo tipo de prisão.
          
O que centraliza o acontecimento é o modo como Jesus procede. Ele toma os pães e peixes, ergue os olhos ao céu, pronuncia a bênção, parte os pães e os dá aos discípulos para distribuí-los à multidão (v.19).
       
Os gestos de Jesus prefiguram a futura ceia que Jesus instituirá na Última Ceia (cf. Mt 26,26-29). A nota cronológica “já é tarde” (v.13) retoma literalmente, o começo do relato da Última Ceia (Mt 26,20). A cena prepara a eucaristia, que será a expressão do dom total de Jesus e dos seus. Ao erguer os olhos ao céu Jesus expressa sua confiança que tem no Pai celeste. Jesus vincula o alimento com Deus. Pronunciar uma bênção significa louvar a Deus e dar-lhe graças por esse alimento, reconhecendo que é dom dele aos homens. Isto quer dizer que tudo que o homem tem, o tem por causa da generosidade de Deus. Por isso, a generosidade de Deus deve alcançar todos, sem ser bloqueada pelo egoísmo ou pela ganância.
          
Depois da bênção, Jesus encarrega os discípulos de servir os pães e peixes para a multidão. Jesus não lhes confere um poder, mas lhes confia um serviço. Na comunidade, todos os seguidores de Cristo devem ser servidores e não chefes ou mandantes poderosos. O Espírito que Jesus nos infunde que o seguem leva a dar-se aos outros para comunicar vida (alimento). O serviço prestado transmite a generosidade e o amor de Deus criador e doador de vida. Não somos donos dos dons, mas simplesmente distribuidores ou partilhadores dos mesmos. Aquele que recebeu esse dom não é o seu dono; mas é apenas um administrador a quem Deus confiou determinado dom, para que o pusesse ao serviço dos irmãos com a mesma gratuidade com que o recebeu. Na verdade, sentar-se à mesa com Jesus e receber o pão que Ele oferece (Eucaristia), é assumir uma vida de partilha, de amor, e de serviço. Celebrar a Eucaristia obriga-nos a lutar contra as desigualdades, o egoísmo, os sistemas de exploração, a ganância e assim por diante.

Vitus Gustama, SVD

A VIDA COM JESUS NÃO CONHECE A MORTE

SANTA MARTA

29 de julho de 2011

Texto de leitura: Jo 11,19-27

Deus se faz novo quando nos voltamos para Ele. Nós nos tornamos velhos ao nos afastar d’Ele” (Santo Agostinho. In ps. 39,4)

“Quando te afastas do fogo, o fogo continua aquecendo, mas tu esfrias. Quando te afastas da luz, a luz continua brilhando, mas as sombras te envolvem. O mesmo acontece quando te afastas de Deus” (Santo Agostinho. Serm. 170,11,11)

“Se sentes vontade de fugir de Deus, não tentes esconder-te d’Ele, esconde-te n’Ele” (Santo Agostinho. In epist. Joan. 6,3)


O evangelho, tirado de Jo 11, dedicado à “ressurreição” de Lázaro, nos apresenta o momento em que Marta encontra Jesus que, com seus discípulos, se aproxima da aldeia onde fez poucos dias Lázaro morreu. Ao saber que Jesus chegou, Marta foi ao encontro dele. Maria, que não soube da chegada de Jesus, fica em casa onde se expressa a solidariedade com a morte. “Maria ficou sentada em casa”. Esta expressão significa que a morte de seu irmão, que para ela significa o término de sua vida, a reduz à inatividade.  A idéia da morte como fim paralisa a comunidade e a faz permanecer no ambiente da dor misturada com os que não têm fé em Jesus.

O dialogo entre Jesus e Marta está centrado na idéia da ressurreição dos mortos. “Senhor, se tivesse estado aqui, meu irmão não teria morrido”, disse Marta a Jesus. A frase de Marta mostra sua pena e insinua a reprovação. Ela queria dizer: “O Senhor poderia evitar a morte do meu irmão se viesse logo ao saber que meu irmão estava doente”.

Jesus responde a Marta restituindo-lhe a esperança: a morte de seu irmão não é definitiva. Jesus não veio para prolongar a vida física que o homem possui, suprimindo ou retrasando indefinidamente a morte. Ele veio comunicar a vida que ele mesmo possui: a vida eterna. A vida que ele comunica, ao encontrar-se com a morte, a supera. Isto se chama a ressurreição. Marta imagina uma ressurreição bem distante: “ressuscitará no último dia”. Jesus, ao contrário, se identifica com a ressurreição: “Eu sou a Ressurreição e a vida”. Por isso, não está longe, porque Ele que é a Vida, está presente.

Para que a realidade de vida invencível que é o próprio Jesus possa chegar ao homem, requer-se a adesão a ele, que inclui a aceitação de sua vida e morte como norma da própria vida. Para Jesus a morte física não tem realidade de morte. A morte, de fato, não existe para aquele que acredita e aceita Jesus Cristo. Esta é a fé que Jesus espera de Marta: “Crês nisto?”. E Marta responde com a perfeita profissão de fé cristã: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus que devia vir ao mundo” (Jo 11,27). Mais adiante, na conclusão do seu evangelho são João escreveu: “Estes foram escritos para creiais que Jesus é o Messias, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20,31). Para Marta, Jesus não é o profeta (Jo 6,14), e sim o Messias, o Ungido, o Consagrado por Deus com o Espírito, o Filho de Deus, a presença do Pai entre nós.

Na liturgia de hoje lemos o evangelho no qual Marta é apresentada como uma mulher de especial protagonismo, dando-nos lições de “serviço” e de “confiança em Jesus”, peças importantes na simplicidade de nossa vida diária. Servir e confiar em Jesus são inseparáveis para a vida de quem quer a vida eterna. Eu sirvo porque confio em Jesus. Eu confio em Jesus, por isso, sirvo. Além disso, Marta é amiga de Jesus. Toda verdadeira amizade é um milagre de reciprocidade. Marta é uma mulher acolhedora, que sabe preparar espaço em sua casa para o Salvador e cuidar dos detalhes. Marta é uma mulher sincera que não dissimula.

Será que sabemos dar espaço para o Salvador em nossa casa e em nosso lar para nos tornarmos amigos do Salvador?


Vitus Gustama, SVD


A verdadeira fé é uma espécie de matrimônio entre as palavras e as obras (Santo Agostinho. Serm. 88,12)

quinta-feira, 28 de julho de 2011

VIVER É SELECIONAR E DISCERNIR

Quinta-feira, 28 julho de 2011
Texto de leitura: Mt 13, 47-53

“Faze o que deves fazer. E faze-o bem. Esta é a única norma para alcançar a perfeição” (Santo Agostinho. In ps. 34,2,16)

Amando ao próximo limpas os olhos para ver a Deus” (Santo Agostinho. In Joan. 17,8).

Chamamos de mau a quem faz coisas más, mas não chamamos de bom a quem não faz coisas más e sim a quem faz coisas boas” (Santo Agostinho. De vit. Christ. 10)

Na vida cotidiana sempre selecionamos e escolhemos o que é bom.  Selecionamos boas amizades. Selecionamos algo de bom para comer, para morar, e assim por diante. Vivemos selecionando o que é bom. O bom é sempre o objeto do apetite ou do desejo do homem, qualquer que seja esse objeto. O ruim é, ao contrário, o objeto de ódio ou de aversão do homem. Mas nem tudo o que desejamos é bom, mas tudo o que é bom sempre desejamos. A bondade atrai, pois ela agrada e edifica. A bondade é a própria perfeição possuída por um ser. Por possuir a bondade, um ser que a tem é capaz de dar a outro a perfeição que lhe falta.

Quando Jesus compara o Reino de Deus a uma rede que é lançada sobre todos, mas que só os peixes bons são selecionados, ele está dizendo que se trata de uma coisa seletiva, em que a bondade é que tem valor. A bondade é sinal de amabilidade. Quem ama porque é bom. Quem é bom, ama.  A bondade é algo que em si tem algo divino, pois Deus é a Bondade por excelência. Por isso, a bondade tem uma marca de eternidade. Os maus, ao contrário, vão fazer parte de outro reino, onde as pessoas somente vão odiar-se, segundo Jesus. A expressão: “Chorar e ranger os dentes” mostra bem como é a pessoa que odeia: vive como que rangendo os dentes. Eternamente infeliz. A frustração definitiva do homem (pranto e ranger de dentes) é perder a vida para sempre.

Por isso, a parábola da rede se refere ao julgamento final. A imagem da pesca ilustra a dinâmica do Reino de Deus feita de perdas e ganhos. Uma vez a rede lançada ao mar, a pescaria já não depende da vontade do pescador. Cada lançada de rede é uma surpresa. A seleção será feita somente no final da pescaria, quando os peixes bons são colocados em cestas, enquanto os maus são jogados fora.

A parábola propõe a todos nós a sorte final, para orientar-nos na decisão presente. Os únicos que chegam à vida em plenitude são os que produzem fruto bom nesta vida; são os que em si tem a marca de eternidade como a bondade, o amor, a compaixão, a solidariedade e assim por diante. A sabedoria cristã consiste no discernimento dos verdadeiros valores do Evangelho como amor, partilha, solidariedade, compaixão, perdão, honestidade, justiça, paz etc., e em sua aplicação para as circunstâncias atuais. Há que estabelecer uma escala de valores para que cada cristão possa orientar sua maneira de viver no presente. Os outros valores devem estar subordinados em função dos valores superiores do Reino de Deus.

Mas ao mesmo tempo, esta parábola quer nos recordar que é a competência de Deus na seleção entre os bons e os maus no fim de cada história. Cristão nenhum pode se precipitar em classificar quem vai para o céu e quem não vai para lá, pois sua própria salvação ainda não está garantida. A conversão não é uma carreira acabada. A conversão é diária, pois somos capazes de optar por outros valores em nome de algum interesse não-cristão. Deixemos Deus determinar a qualidade de cada um e não nos arroguemos pelas qualidades que temos, pois tudo de bom em nós tem sua origem no Supremo Bem que é Deus. Tudo de bom em nós deve ser partilhado para com os outros. Somos prolongamento da generosidade do Deus-Criador que criou tudo para o bem da humanidade gratuitamente. Fazemos tudo de bom, porque Deus da bondade faz isso.

Deus tem paciência para esperar os frutos bons de cada um de nós. Primordialmente, somos bons porque tudo o que Deus criou era bom (cf. Gn 1,1ss). Deus aguarda a colheita, não diminuída por prematuras intervenções de escolha. Só então, no fim, haverá a colheita, com base na realidade de ser grão ou joio/cizânia, peixe bom ou mau, de ser caridoso ou egoísta. É uma advertência eficaz, embora tácita: Deus é paciente com todos e deixa aos pecadores, cada um de nós, tempo para amadurecer sua conversão; Deus sabe esperar a livre decisão do homem, cabe a cada um escolher ser bom grão e bom peixe e não peixe imprestável.

Portanto, é prudente premunir-se, pensar enquanto é tempo, decidir-se a fazer o bem, ser útil aos outros, ser peixe bom, ser selecionado por Deus no fim de nossa história.

Vitus Gustama, SVD

quarta-feira, 27 de julho de 2011

VIVER PRODUZINDO FELICIDADE

Quarta-feira, 27 de julho de 2011

Texto de leitura: Mt 13,44-46

O Reino de Deus é como um tesouro escondido, como uma pérola de incalculável valor”, assim Jesus diz no discurso sobre o Reino de Deus em parábolas no texto do evangelho deste dia.   

Lemos no dicionário que tesouro é o conjunto de riquezas de qualquer tipo (p.ex., dinheiro, jóias, pedras e metais preciosos, bens valiosos) guardadas ou escondidas. E pérola é a concreção densa e de coloração levemente prateada, que se forma nas conchas de diversos moluscos, a partir da deposição de material nacarado sobre uma partícula qualquer, como um grão de areia ou um parasita (As pérolas cultivadas são produzidas por ostras). Pérola é um material valioso. Chamamos uma pessoa de sólidas qualidades morais e éticas de pérola ou de tesouro. “Você é minha pérola. Você é meu tesouro”, assim ouvimos alguém falar para o outro.

“Venderam tudo que possuíam para comprar o campo onde o tesouro está escondido e para comprar a pérola preciosa”, assim relatou Mateus no evangelho de hoje.

Aqueles homens venderam tudo tão espontaneamente só para ficar com o tesouro ou a pérola preciosa sem sentir nenhum sacrifício, mas com uma decisão alegre por causa de uma coisa valiosa. Tudo o que é bom, belo, digno, ético, puro sempre nos atrai e pára nossos passos para contemplá-lo. Uma pessoa com sólidas qualidades éticas e morais atrai a simpatia de qualquer pessoa e atrai a bênção de Deus, pois Deus é o supremo Bem. Ninguém resiste diante da bondade, diante de uma boa educação, diante de uma gentileza e assim por diante. Tudo o que é ruim nos afasta e afasta até a bênção do Senhor toda vez que essa bênção se aproximar da pessoa. Tudo o que não é de uma boa educação nos faz ficar longe dele.

É assim também a fé. A fé é um enamoramento de Deus, é uma sedução: “Você me seduziu, Senhor; e eu me deixei seduzir” (Jr 20,7). Tudo o que é divino e que nos salva sempre nos atrai e nos convida a nos aproximarmos dele. A verdadeira fé orienta nossa maneira de viver.

“Venderam tudo que possuíam….”

A vida cristã se apresenta muitas vezes como um constante exercício de renúncia: renunciar aos bens materiais para não ser possuídos por eles a fim de manter-se livre como seguidor de Cristo; renunciar aos prazeres desenfreados da vida, pois quem vive somente em função do prazer é porque não tem prazer de viver, e quem só sabe se satisfazer é incapaz de satisfazer os outros; renunciar às comodidades, pois a vida continua nos empurrando por dentro; renunciar à ambição. Renunciar, renunciar, renunciar............

Não se deve confundir com o que se chama um caminho de perfeição, um método para chegar a ser santo. O projeto de Jesus não é um projeto dirigido unicamente ao individuo e sim orientado para a transformação da maneira de viver de toda a humanidade.

Por isso, quando Jesus apresenta as bem-aventuranças que constituem o núcleo de seu programa não diz àqueles que o escutam que serão mais santos se fizerem tudo que ele fala, e sim que serão felizes. É a felicidade dos homens, de todos os homens e de cada um deles em particular o que preocupa Jesus, porque essa é a principal preocupação do Pai. Por isso, o ideal cristão é a felicidade que é o projeto de Jesus. Conseqüentemente, a felicidade é a razão pela qual um cristão atua: um cristão se comporta como cristão porque tal comportamento é causa de alegria para ele e para seus próximos. Em outras palavras, uma ação é boa se produz felicidade em quem a realiza e contribui à felicidade dos demais.

Vitus Gustama, SVD

terça-feira, 26 de julho de 2011

SER JUSTO PERSEVERANTE

SÃO JOAQUIM E SANTA ANA
Pais de Nossa Senhora
26 de julho de 2011

É inútil procurar na Bíblia os pais de Nossa Senhora. Os quatro evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João) guardam absoluto silêncio sobre os pais de Maria (são chamados canônicos porque formam uma lista oficial dos livros que a Igreja considera como inspirados que servem de norma para a fé e para a prática religiosa. A Bíblia se compõe de 73 livros considerados canônicos: 46 formam o Antigo Testamento e 27 livros formam o Novo Testamento). Nem sequer seus nomes foram transmitidos. Mt (Mt 1,1-17) e Lc (Lc 3,23-38) escreveram sobre a genealogia de Jesus, Maria é citada, mas seus pais não são citados.

Para saber sobre os pais de Maria temos que recorrer aos evangelhos apócrifos, ingênuos relatos pela imaginação fervorosa dos primeiros cristãos para completar com isso os silêncios dos evangelhos canônicos. Dificilmente saber até que ponto esses relatos são verdadeiros. Por isso são chamados de apócrifos, isto é, não é de uso publico (Apócrifo é palavra grega "apócryphos" que significa escondido, secreto, oculto, isto é, não eram usados oficialmente na liturgia e no ensino).

Mas em cada história ou historinha sempre tem alguma lição. Segundo o evangelho apócrifo, os dois, Joaquim e Ana, eram da mesma tribo: Tribo de Judá. Quando tinha 20 anos, Joaquim casou-se com Ana. Durante os 20 anos de matrimônio os dois não geraram nenhum desdente. Não ter descendência, na época, era sinal da maldição de Deus e por isso, era uma vergonha pública. Por outro lado, os dois eram pessoas honradas, temerosas de Deus, generosas em suas ofertas para o Templo.

Um dia, quando Joaquim estava para fazer sua oferta no Templo, um escriba chamado Ruben parou os passos de Joaquim e lhe disse: “Não és digno de apresentar tuas oferendas enquanto não tiver tua descendência”. Aflito e humilhado, Joaquim se retirou ao deserto para orar a fim de que Deus pudesse dar de presente um descendente. Ana, a esposa, também começou a se vestir de saco e cilício para pedir a mesma graça. Ana rezou assim: “Ó Deus de nossos pais! Escutai-me e bendizei-me à maneira que bendissestes o seio de Sara, dando-lhe como filho Isaac”.

A humilde suplica de Ana obteve uma resposta de Deus. Um anjo do Senhor anunciou-lhe que eles teriam descendente. Ao mesmo tempo Joaquim, encontrado no deserto, recebeu a mesma mensagem e imediatamente voltou para sua casa com grande alegria para estar com sua esposa, Ana.

Não importa se você está num lugar bem deserto ou simplesmente em sua casa, se você fizer uma humilde súplica ao Senhor por uma causa nobre, cedo ou tarde, o Senhor vai atender. Tenha paciência porque “o relógio” de Deus é diferente de nosso relógio. Simplesmente vamos nos abandonar nas mãos de Deus mesmo que tenhamos que enfrentar todo tipo de humilhação e dificuldade. Se lutarmos por uma causa nobre, cedo ou tarde o tempo vai nos revelar quem está com razão. No casal Joaquim e Santana, encontramos um grande paradoxo: um casal justo, mas estéril. A esterilidade, de acordo com o costume na época, é uma negação para a condição de ser justo. “Se os dois fossem justos, teriam que ter filhos. Não tendo filhos é porque não são justos”. Essa era a lógica da época. Mas, no fim da história, Deus sempre tem a ultima palavra. Mesmo que tenha sido tarde, o justo casal, Joaquim e Ana, foi premiado por Deus uma filha chamada Maria, Mãe de nosso Salvador, Jesus Cristo.

Segundo o evangelho apócrifo, depois que entregou Maria para Deus no Templo, Ana se afastou silenciosamente e sumiu para sempre. Sua missão terminou. Com esta marca heróica de desprendimento os apócrifos encerraram o capitulo dedicado aos pais da Virgem Maria.

Ana é uma mulher paciente e humilde. Durante 20 anos ela sofreu sem queixa a tremenda humilhação da esterilidade. Mas suas orações são tão suaves e humildes que fazem o Senhor inclinar para ouvi-las. Sua longa provação não endureceu seu coração, pois ela acredita fielmente no poder de Deus.

Ana é uma mulher generosa, pois ela pede para ter descendente e o gozo de dar com alegria sua filha para o Senhor. E sua filha Maria será capaz de entregar-se à vontade de Deus totalmente: “Eis aqui a serva do Senhor. Faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1,38). Ana é uma mulher abnegada, disposta a desprender-se de sua filha para dá-la aos outros.

Pedimos aos pais de Nossa Senhora que todos nós tenhamos o espírito de perseverança no bem que devemos fazer, em ser justo em tudo apesar dos obstáculos encontrados no caminho. Mas a graça de Deus nos potencia para ultrapassar os obstáculos a exemplo do justo casal, Joaquim e Ana.

Vitus Gustama, SVD

segunda-feira, 25 de julho de 2011

SÃO TIAGO MAIOR

SER TESTEMUNHA DA VIDA QUE NÃO ACABA

25 de julho de 2011

Mt 20,20-28

Sempre que celebramos a festa de um apóstolo, fazemos memória do fato fundacional da Igreja. Nossa Igreja é chamada a Igreja apostólica e nossa é a apostólica, que foi transmitida pelos apóstolos. Falar da apostólica significa que nossa , nossa esperança, nossa vida de comunidade tem como base a experiência dos apóstolos que estiveram perto de Jesus e o acompanharam até a morte e testemunharam sua ressurreição. Falar da “ apostólica” significa sentir-se parte de uma longa cadeia de homens e mulheres que em muitos lugares e de muitas maneiras foram atraídos por esse Jesus que os apóstolos conheceram e viveram a mesma experiência que eles viveram e transmitiram aos demais. Falar da apostólica significa que tudo que cremos e vivemos não é algo que foi inventado. A que os apóstolos viveram e que nos foi transmitida é a mesma fé que vivemos hoje.

E os apóstolos são as testemunhas da ressurreição de Jesus Cristo; são testemunhas de que para aquele que aceita Jesus Cristo não conhece a morte, pois ressuscitará como Jesus Cristo ressuscitou. Os apóstolos são proclamadores do triunfo de Jesus sobre a morte, portanto, são os primeiros anunciadores da salvação para todos os homens. E os apóstolos faziam tal proclamação com valentia, sem medo porque era fruto da convicção profunda que produz a verdadeira fé.  Como diz São Paulo: “Sustentados pelo mesmo espírito de fé, conforme o que está escrito: ‘Eu creio e, por isso, falei’, nós também cremos e, por isso, falamos, certos de que aquele que ressuscitou o Senhor Jesus nos ressuscitará também com Jesus e nos colocará ao seu lado” (2Cor 4,13-14). Quando você tem realmente convicção de uma coisa, você jamais se entregará. Você vai lutar até o fim. Assim foi a vida dos apóstolos. A valentia e a ousadia dos apóstolos não se detinham nem sequer diante das ameaças dos poderosos porque estavam com uma grande convicção da ressurreição do Senhor. São Tiago foi o primeiro de todos a pagar com sua própria vida a intrepidez de seu testemunho.

Nós somos encarregados de continuar no mundo esse mesmo testemunho dos apóstolos. Somos chamados e enviados a ser testemunhas da ressurreição. Se nós acreditamos realmente na ressurreição, devemos respeitar a vida, nossa própria e a dignidade da vida dos outros. Quem desrespeita a própria vida e a vida dos outros, nega a ressurreição. Portanto, devemos revisar com seriedade a qualidade de nossa maneira de testemunhar: se nosso testemunho realmente provem de uma convicção interior ou não. A prova disto é a nossa perseverança em tudo a exemplo dos apóstolos.

Por isso, ser cristão, como lição tirada do evangelho deste dia, não pode ser um pretexto para situar-se bem no mundo, para ficar nos primeiros postos ou posições, como pediram os dois irmãos, Tiago e João. Se viver desta maneira, a religião é capaz de cair no perigo de fanatismo e na violência. Ser cristão é seguir Jesus Cristo. Seguir Cristo significa acompanhá-lo em cada momento. É adotar a vida dele na nossa vida e sua missão na nossa missão.

O maior perigo para qualquer cristão, especialmente para aqueles que trabalham na Igreja do Senhor é o mesmo: converter a autoridade em poder e domínio e não em serviço. Quem busca o poder e uma vez no poder será difícil para ele perceber e achar que está errado no seu proceder. "Quando você precisa apelar para a força e para o poder para ser autoritário, é porque como pessoa já não tem mais autoridade. Enquanto você acreditar que a força de sua autoridade está em seu poder, e não em seu amor, você desautoriza a si mesmo como pessoa", escreveu um psicólogo argentino, René Juan Trossero. Um líder temido não é respeitado. Um lider que ama é respeitado.

Quais são nossos esquemas de comportamento? O que é que vemos em nosso mundo, em nossa sociedade, inclusive em nossas comunidades cristãs? Temos que confessar que o que vemos é o afã de poder. Gana ou vontade de ser importante. Lutas para conseguir passar diante dos demais. 

Não é a missão de Cristo na terra situar seus seguidores nos melhores postos (poder) e conceder honras, e sim salvar os homens com um amor que jamais morre mesmo que ele pague com sua vida para isso. Mas não se trata de uma vida perdida, pois a vida dada é vida recebida.

Vitus Gustama,SVD

sábado, 23 de julho de 2011

EM BUSCA DA PÉROLA PRECIOSA

Reflexão para o XVII Domingo do Ano A,
24 de julho de 2011

Mt 13,44-52

          
O Evangelho deste domingo nos traz as três últimas parábolas do discurso de Jesus sobre o Reino dos Céus em parábolas: a dupla parábola do tesouro escondido e da pérola preciosa (Mt 13,44-46), e a parábola da rede de pesca (Mt 13,47-50). E Jesus termina o discurso com uma conclusão (Mt 13,51-52). As três parábolas são próprias de Mt (também se encontram no Evangelho Apócrifo de Tomé). Os três têm exatamente a mesma introdução, que revela seu propósito: manifestar o mistério do Reino de Deus.

1. A Dupla Parábola e Sua Mensagem (Mt 13,44-46)

A experiência do amor de Deus por nós é um dom incalculável
          
As inúmeras guerras, que aconteceram em Palestina, levavam muitas pessoas a enterrar seus tesouros valiosos por motivo de segurança contra os ladrões. Pode acontecer que o proprietário do tesouro morra sem revelar a ninguém o lugar onde foi escondido o tesouro.
          
Os personagens das duas primeiras parábolas (tesouro escondido e pérola preciosa) são respectivamente umhomem” (v.44) e umcomerciante” (vv.45-46). Ambos descobrem um bem extraordinário: um tesouro em um campo, no primeiro caso, e uma pérola, no segundo. O primeiro descobriu, por acaso, o tesouro ao trabalhar em um campo. Para dizer que o descobrimento do Reino de Deus não é devido ao esforço humano, mas à revelação ou ao descobrimento de Jesus, entendido como projeto que leva à plenitude a própria existência. Jesus sai ao nosso encontro. O segundo procura, intencionalmente, a pérola preciosa e a encontrou. Para dizer que é preciso a participação do próprio homem na descoberta do valor do Reino de Deus. O homem deve sair ao encontro de Jesus para ter a experiência com Deus a fim de chegar à própria plenitude como ser humano.
       
Na experiência dos dois personagens o descobrimento de um valor precioso muda a vida de ambos, e os leva para a mesma decisão: “vender tudo o que tinham” e “comprar” o objeto que “encontraram”. E o dito objeto relativiza o resto. Para o homem da primeira parábola representa uma fonte de alegria por ter encontrado um valor incomparável. Para o comerciante significa o abandono de sua profissão porque, com a aquisição da pérola preciosa que ele procurava, deve interromper a cadeia de sua atividade.
       
Assim também é em relação com a vida do homem diante do Reino de Deus. Somente o Reino de Deus, o Reino de amor, descoberto como o supremo valor da existência, coloca o homem na possibilidade de descobrir o sentido dos restantes bens que se possui. A vida em Deus ou ser filhos e filhas de Deus é um valor incalculável, um dom do céu, e quem desfruta dele, por meio da , é um autentico afortunado. A possessão, desta forma, se apresenta como algo relativo. A experiência do amor de Deus relativiza o resto sem desprezar seu valor no seu próprio lugar. A partir deste tesouro que é o Reino de Deus, todo o resto se ordena e adquire o seu valor próprio. Como aquele que encontrou a pérola preciosa foi capaz de colocar todas as demais coisas em uma escala justa de valores, de relativizá-las em relação com a pérola preciosa. E ele o fez com  extrema simplicidade porque, ao ter como pedra de comparação, a pedra preciosa, sabe compreender melhor o valor de todas as demais pedras.  Quem encontrar o valor supremo de sua vida, a experiência de fazer parte da família de Deus em Jesus Cristo não desprezará outros valores, mas coloca-los-á em seu devido lugar. O bem relativo pode ser, mais ou menos, importante para a satisfação das necessidades humanas, porém, deve ser sempre confrontado com o bem supremo que é a experiência do amor de Deus, a experiência de serem filhos e filhas de Deus. Desta forma, as parábolas do tesouro escondido e a pérola preciosa conectam com a primeira bem-aventurança: “Bem-aventurados os pobres em espírito porque deles é o Reino dos céus” (Mt 5,3).

Onde está teu tesouro, estará também teu coração
       
Do ponto de vista de um homem que busca o sentido de sua vida, o tesouro de sua existência ou de sua vida é como uma utopia: não sabe onde está, nem sequer sabe se está em algum lugar ou em nenhum lugar. A busca é um esforço para encontrar algo que não se tem. Quem busca reconhece uma carência de algo. É uma atitude humilde por si mesma.
       
Nesta busca o homem somente conhece a inquietude de seu coração, porqueonde está teu tesouro, ai estará também teu coração” (Mt 6,21). Um homem que ainda não encontrou seu tesouro fica inquieto e busca incessantemente um sentido para sua vida. O coração errático do homem, sua vontade, pode, nestas circunstancias, fixar-se em qualquer coisa e agarrar-se a ela como se tivesse encontrado seu tesouro. Mesmo assim, ele continua inquieto, pois o tesouro do homem não é qualquer coisa. O homem pode ter tudo, mas se carecer o essencial, ele continuará inquieto.
       
A busca do Reino de Deus é compreender uma certa carência essencial em nossa vida, carência que nos impulsiona a sair de nós mesmos e não repousará até que encontremos essa realidade que faz completo nosso ser. Por isso, não é a riqueza, nem o êxito, nem o poder, nem a fama, mas o próprio Deus é o tesouro supremo do homem que o faz completo. Escondido no nosso mundo, coberto pela carne crucificada de Jesus de Nazaré, perdido entre os pobres, identificado com eles, está o tesouro do homem. Jesus é o “lugar de Deus”, e o irmão, o próximo é o “lugar” de encontro com Jesus. O próximo se transforma, então, em ocasião de salvação. Não é nada que o homem pode alcançar por si mesmo e somente para si mesmo, pois ele foi feito por Deus e para Deus na convivência fraterna com os outros. Por isso, Santo Agostinho rezava: “... Senhor, inquieto está o nosso coração, enquanto não repousa em Ti” (Confissões I,1). O homem se encontrará, somente chegará à sua plena realização na medida em que ele buscar e viver e conviver de acordo com o Amor que é Deus (cf. 1Jo 4,8.16).
       
O homem que encontrou o sentido de sua vida em Deus é um homem alegre e dinâmico , como os dois homens na parábola que encontraram seu tesouro. Por este tesouro, ele é capaz de se desprender de tudo, de se despojar de tudo, de compreender a fraqueza do outro, de perdoar, de reconciliar-se com todos, de ser justo e honesto nos seus negócios, de ser correto e coerente no seu modo de ser, pois sua vida é direcionada por este supremo valor. A busca do Reino de Deus modifica nosso esquema de vida e não pode ser levado adiante sem uma absoluta sinceridade de coração. A busca do Reino de Deus é compreender uma certa carência essencial em nossa vida.
        
Nesta parábola, nem o homem que encontrou o tesouro nem aquele que descobriu a pérola sentem falta do que antes possuíam e que venderam. A riqueza do que acharam é de tal ordem que compensa tudo o que tinham. A mesma coisa acontece com os que descobrem ou encontram o seu caminho pessoal para Deus: abandonam tudo e encontram tudo, porque Deus é tudo. Quem, pela mensagem de Cristo, encontra Deus, renuncia jubilosamente a tudo. Tal verdade somente pode ser experimentada pela própria vida. Por isso, eles podem renovar tudo, acabar com a rotina de sua vida e começam a olhar mais longe e mais alto. E quem encontra Cristo expande a alegria e o otimismo para todos.
       
A vocação de seguir Jesus, Deus-conosco que é o nosso supremo tesouro sempre exige renúncia e uma mudança na conduta com alegria. Implica a entrega a Deus daquilo que se tinha reservado para si, e se abandonam os apegos, as fraquezas que se supunham intocáveis e que, no entanto, é preciso destruir para adquirir o tesouro sem preço. Se Jesus nos chama, também ele nos dá as graças necessárias para segui-lo durante a nossa vida.
       
A eucaristia é também um tesouro escondido. Tanto que passa despercebida, inclusive para nós que freqüentamos a missa com assiduidade. Escondida em coisas triviais como pão e vinho está nada menos que todo insondável amor de Deus a todos nós. teremos a experiência do amor de Deus, se nós começarmos por demonstrar amor a nossos irmãos, especialmente aos mais débeis. Se descobrirmos a eucaristia como tesouro, se a apreciarmos, estaremos plenos de alegria e a nossa eucaristia resultará verdadeiramente em festa, em ação de graças.
        
E nós, descobrimos esse tesouro? Desde que descobrimos Cristo, o que mudou na nossa vida, no nosso modo de pensar e de falar, e no nosso relacionamento com os outros e com as coisas? Que renúncias que temos que fazer ainda? “Onde está o teu tesouro, está também o teu coração” (Mt 6,21). Será que por algum bem material, ou alguma posição social abandonamos Cristo, o nosso tesouro incalculável? Muitos são os esforços que fazemos para encontrar o que nos falta: trabalho, dinheiro, prazer, cultura e assim por diante. Hoje podemos nos perguntar se existe o mesmo esforço para encontrar a Verdade no sentido de uma verdadeira visão da vida. Sem dúvida nenhuma, esta é uma das crises mais profundas de nossa cultura: tem-se de tudo, mas carece-se do essencial: uma visão geral do homem no cosmos que lhe permite situar-se como homem.

2. A Parábola Da Rede e O Alerta Sobre Nossa Liberdade Sem Rumo (Mt 13,47-50)     
                                                 
          
Esta parábola praticamente no seu conteúdo repete a parábola do joio no meio do trigo (Mt 13,24-30). As duas parábolas orientam-se para o fim dos tempos, pois as duas tratam do julgamento final.
          
A imagem da pesca ilustra a dinâmica do Reino de Deus feita de perdas e ganhos. Uma vez a rede lançada ao mar, a pescaria não depende da vontade do pescador. Cada lançada de rede é uma surpresa. A seleção será feita somente no final da pescaria, quando os peixes bons são colocados em cestas, enquanto os não comestíveis são jogados fora. Na lista dos animais impuros que os israelitas não tinham direito de comer (Lv 11) está dito que se pode comer tudo o que se move na água e que tenha escamas e barbatanas; os outros animais aquáticos são impuros e portanto proibidos (Lv 11,9-12). Uma parte dos peixes jogados fora deve ter classificado como animais aquáticos proibidos (impuros).
          
A pesca representa a oferta do Reino que se faz a todos. São muitos os que entram nele, mas a chave está no como se vive a vida. No Reino de Deus, como no mundo e na Igreja, é inevitável a presença simultânea de bons e maus. Todos podem ser batizados e nominalmente se chamam cristãos e a todos se oferece o Reino de Deus através do Evangelho e do seguimento de Cristo. É inevitável também a variedade de respostas de uma para outra pessoa. A seleção acontecerá no fim.
          
Jesus diz queassim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são bons. E lançarão os maus na fornalha de fogo. eles vão chorar e ranger os dentes” (vv.49-50). A expressãochoro e ranger de dentes” se repete várias vezes em Mt (8,12;13,42.50;22,13;24,51;25,30) e uma vez apenas em Lc (Lc 13,28). Esta expressão sublinha a frustração definitiva do homem pela perda da vida eternamente. A parábola propõe, então, aos seguidores de Jesus a sorte final, para orientá-los na decisão presente. O paraíso é a certeza para quem responde a chamada de Deus para sua plena realização gradativamente. Com efeito, a não-salvaçao é apenas uma possibilidade para quem opta por ele. O problema não está em Deus, mas está no homem que não sabe lidar com a própria liberdade.
         
Mas Deus tem paciência para salvar. Ele não quer precipitar o julgamento. Ele aguarda a colheita, não diminuída por prematuras intervenções de escolha. então, no fim, haverá a colheita, com base na realidade de ser peixe bom ou mau, de ser trigo ou joio. É uma advertência eficaz, embora tácita: Deus é paciente com todos e deixa a todos tempo para amadurecer sua conversão; Deus sabe esperar a livre decisão do homem. Cabe a cada um escolher ser peixe bom ou peixe não comestível, ser trigo ou joio. No fim, a bondade, o amor, a justiça, a compaixão é que têm valor. Um homem que é livre para amar e para dar a vida é o homem que é livre para ganhá-la. Para ele tudo tem sentido porque sabe onde está seu coração.

Rio de Janeiro, 23 de julho de 2011
Vitus Gustama, SVD