quarta-feira, 31 de agosto de 2011

PODER TRANSFROMADOR DA PALAVRA DE DEUS

Quinta-feira, 01 de setembro de 2011

Texto de Leitura: Lc 5,1-11

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“Deus precisou de apenas uma palavra para criar-nos, mas de seu sangue para redimir-nos. Se às vezes te sentes frustrado por tuas misérias, recorda quanto custaste” (Santo Agostinho. Serm. 36,8).
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É narrada no evangelho de hoje a história da pesca milagrosa, ressaltando o papel de Jesus e o dos pescadores. Pedro que é especialista na pescaria se torna um pescador frustrado pelo insucesso da noite inteira. Por isso, quando Jesus lhe disse: “Avança para águas mais profundas e lança redes para a pesca” (v.4) veio aquela resposta de desconfiança da parte de Pedro: “Mestre, nós trabalhamos a noite inteira e nada pescamos”(v.5). Aqui podemos também citar muitas das nossas situações de cada dia: cansei-me muito, gastei muita energia e tempo, empenhei-me a fundo, rezei muito e não aconteceu nada. É aquela sensação de derrotismo, de desânimo, de desespero. Dá vontade de desistir de tudo, de fugir, de abandonar tudo.
          
Eis o momento delicado no qual Pedro põe em jogo a própria pessoa, a própria vida e o próprio futuro. Ele e seus companheiros haviam trabalhado a noite inteira sem conseguir apanhar um só peixe e agora, em pleno dia, Jesus manda-lhes que lancem as redes para a pesca. Eles conhecem Jesus, mas como Mestre. Por isso, apesar de todas as objeções que um profissional poderia levantar contra ela, a palavra de Jesus tem mais força para Simão do que sua longa experiência de pescador. Pedro tenta superar a própria desconfiança.

A palavra de Deus é poderosa, mas é preciso que seja posta em prática para que desenvolva sua força. E Pedro cumpre a palavra de Jesus imediatamente: “Na tua palavra lançarei a rede”(v.5). Notemos quanto há de profundo neste “na tua palavra” porque é a expressão que, na Bíblia, especialmente nos Salmos, designa a atitude do homem diante de Deus. “Confio na Tua Palavra, é Tua Palavra que me dá vida, Senhor; Tu me afligiste. Tu permitiste tantos sofrimentos na minha vida, mas na Tua Palavra confio”. Certamente, na força da Palavra de Deus, os apóstolos encontram a vida ali onde tudo parecia morto; messe abundante onde tudo parecia vazio; abertura onde tudo parecia fechado.
          
Aqui Pedro sai dos cálculos e se atira, confiando na Palavra do Senhor. De fato, à fé, à obediência incondicional de Simão Pedro segue-se o milagre, a manifestação do poder da Palavra criadora de Deus. O poder da Palavra de Deus manifestada em Jesus domina toda esta cena. Toda força, todo poder vem de Deus. Nesta perspectiva devemos situar-nos para compreender o que segue. Mas antes disso, vamos tirar alguma lição.
          
Jesus nunca permite o aborrecimento pelo insucesso no nosso trabalho. Não cabe a cada um de nós calcular o último resultado. Cada um deve trabalhar, empenhar-se todo, confiando unicamente na Palavra do Senhor. Empenhar-se significa dar tudo, experimentar tudo, estudar, corrigir, mudar e recomeçar. A eficácia de nossa ação está na obediência à Palavra de Deus. Se agirmos em nome próprio, nossos esforços serão estéreis. A Palavra de Deus é a semente que tem em si uma força criadora, uma potência enorme. Então, por que ainda duvidamos dela? Por que não levamos a sério a Palavra de Deus? Por que não a lemos? Com Deus podemos pescar onde parece que não há peixe, podemos plantar justiça ou amor onde outros dizem que não adianta tentar; podemos levar fraternidade onde parece que a competição é a única lei que funciona.
          
Vendo a pesca milagrosa, Pedro descobre a manifestação do poder de Deus em Jesus e se lança aos pés dele, dizendo: “Afasta-te de mim, Senhor, pois sou um pecador” (v.8). Ele não chama mais Jesus de “Mestre”, mas de “Senhor”. O poder de Jesus faz sobressair a pecaminosidade de Pedro: Pedro não estava entre os maiores pecadores, mas também ele era um homem que, colocado diante do poder, da santidade de Deus, sentia que muitas coisas de sua vida não funcionavam. Com clarividência instantânea, Pedro percebe a distância entre seu pecado e a santidade de Deus, entre sua pequenez e sua fragilidade e a grandeza e poder de Deus. Pedro sente com uma clareza insuportável que não há lugar para ele, pecador, na presença do Deus santo. Esta experiência da sua indignidade diante da manifestação de Deus é o que causa em Pedro e em seus companheiros o “tremendo espanto” de que nos fala o texto.
          
Enquanto vivemos no meio dos outros homens, fracos e frágeis como nós, não nos damos conta do nosso pecado, de nossa fragilidade, de nossas fraquezas; aliás, comparando-nos com os que estão ao nosso lado, podemos até pensar que sejamos justos, honestos, sinceros, caridosos, misericordiosos e irrepreensíveis. Mas ao entrarmos em contato com Deus, as coisas mudam: constatamos de forma dramática a nossa pobreza, a nossa indignidade, a nossa miséria. Só quem fica perto de uma luz percebe a sujeira da própria roupa. Esta experiência é vivida por todos aqueles que entram em contato com a Palavra de Deus, aquela palavra que é “viva e eficaz, mais penetrante do que uma espada de dois gumes” (Hb 4,12). É a experiência vivida por Paulo, quando toma consciência da própria indignidade de pregador do Evangelho: “Nós carregamos este tesouro em vasos de barro” (2Cor 4,7).
                      
A palavra de Deus se manifesta em Jesus Cristo como uma palavra que pacifica, que infunde ânimo, que dá segurança; como uma palavra que escolhe, que chama, que fortalece e que transforma a existência daquele que é chamado. A palavra de Jesus vai superar a distância: “Não temas!” São mesmas palavras que ecoam nas manifestações de Deus no AT (cf. Gn 15,1;21,17;26,24;28,13;Jz 6,23;1Sm 4,20).
          
Às palavras de pacificação, de segurança e de coragem, seguem-se as da promessa- missão: “Doravante serás pescador de homens”. A palavra de Jesus tem esse poder de fazer começar uma história nova na vida de um homem.
          
A nova missão de Pedro e de seus companheiros será a de “salvar vidas”: entrar mar adentro para tirar os homens das águas profundas, do abismo da morte; “pegar vivos ou para a vida” os homens, assim como eles mesmos foram colhidos- escolhidos. A resposta de Pedro e de seus companheiros às palavras de Jesus foi a disponibilidade absoluta, a da obediência incondicional: “...e deixando tudo, eles o seguiram”(v.11). A renúncia, o “deixar tudo”, é uma conseqüência, e não uma condição prévia, do chamamento de Jesus. A vocação é a vocação para uma missão.
          
Devemos, por acaso, desistir? Devemos recusar o convite do Senhor para ser pescadores de homens, para espalhar a Palavra do Senhor? Temos convicção de que a única força que possuímos é a da Palavra de Deus que nos foi confiada? Não nos sentimos, por vezes, inclinados a confiar em outras forças?

P. Vitus Gustama,svd

“A Palavra de Deus nos ensina a não temer, mesmo que tenhamos medo, e a temer mesmo quando não temos medo. Temamos, pois, para não temer” (Santo Agostinho. Serm. 65, 1,1).

terça-feira, 30 de agosto de 2011

SER OCASIÃO DE SALVAÇÃO PARA O PRÓXIMO

Quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Texto de Leitura: Lc 4,38-44

Depois de sair da Sinagoga, em Nazaré, Jesus e alguns discípulos foram para a casa de Simão Pedro. Jesus saiu de um lugar oficial (sinagoga é lugar de oração, de ensino e de catequese para os judeus) para um ambiente familiar: casa. Em casa todos tem seu espaço e cada um é chamado pelo nome e não pelo título, se é um doutor, deputado, presidente e assim por diante. Em casa um se preocupa com o outro. Basta um membro sofrer, todos sofrerão. Basta um membro ter sucesso, todos experimentarão a felicidade. Ninguém fica feliz sozinho como também ninguém sofre sozinho. Nossa vida é cercada por outras vidas. Oxalá possamos viver a espiritualidade familiar também fora de nossa família, como Jesus nos diz hoje: Eu devo anunciar a Boa Nova do Reino de Deus também a outras cidades, porque para isso é que eu fui enviado” (Lc 4,43). O cristão existe para os outros. Nisto consiste o sentido de sua vida de cristão.

Na casa de Pedro se encontra sua sogra com febre. Naquela época, a febre era causada pelo demônio. Com um gesto familiar, Jesus se aproximou da mulher, tocou-a e a ajudou a se levantar e a febre desapareceu. A sogra de Pedro começou a servir a todos imediatamente.

A febre representa tudo que nos impede de servirmos aos outros. Cada um pode descobrir que tipo de “febre” que o impede de servir aos outros, “febre” que faz a vida perder seu sentido (ficar deitado todo tempo). O que é que me faz viver uma “vida deitada”, isto é, sem ação, sem ânimo, sem perspectivas. Eu preciso convidar Jesus para entrar na minha casa onde estou “deitado” para que ele se aproxime de mim, me toque e me ajude a me levantar. A palavra “levantar-se” no Novo Testamento, em outros contextos, também significa ressuscitar. Eu preciso me levantar de uma vida estéril (deitar) para uma vida fecunda (servir). Para isso, eu preciso segurar a mão de Jesus, mão que me potencia, mão que me levanta, mão que me cura e liberta, mão que me torna uma mão que ajuda os outros.

Um outro detalhe que chama nossa atenção no evangelho deste dia é que Jesus não deixava os demônios falarem e os expulsou (Lc 4,41). Nesta marca comum nos antigos exorcismos se descobre que é preciso lutar contra o mal sem deter-se em discutir suas pretensões.

Todos nós sabemos que o mal pode vestir-se de uma aparência boa, enganando os que procuram escutar suas “orações” ou “pedidos”. Jesus não ficou parado nisto. Jesus sabe que tudo que destrói o homem é perverso e se esforça para vencê-lo.

Outro detalhe que chama bastante nossa atenção é que diante da obra de Jesus surge uma reação bastante egoísta entre as pessoas: querem monopolizar o aspecto mais extenso da atividade de Jesus e utilizá-lo como um simples curandeiro.

Podemos ter a tentação ou a tendência para este tipo de relacionamento com Jesus no sentido de que nós aceitamos Jesus simplesmente na medida em que ele nos ajuda a resolver nossos problemas para garantir tranqüilidade psicológica ou uma ordem na família, ou uma garantia na vida financeira. Santo Agostinho nos relembra que a razão de nossa existência neste mundo é a vida eterna. Temos que viver e conviver dentro desta dimensão. Conseqüentemente eu sou uma ocasião de salvação para o próximo e o próximo é uma ocasião de salvação para mim. Jesus nos salva na medida em que cada um se torna uma ocasião de salvação para o outro (cf. Mt 25,40.45; veja também Lc 22,31-32). Estando conscientes disso entenderemos que Jesus é muito maior do que um fazedor de milagres. Ele é a nossa Salvação (cf. Jo 6,68-69). Que Jesus Cristo é nosso Salvador é uma das afirmações mais sólidas e repetidas do Novo Testamento. É a primeira noticia do céu à terra através do anjo falando a uns pastores: “Hoje, na cidade de Davi, nasceu para vós um Salvador que é o Cristo Senhor” (Lc 2,11). A salvação alcança o que foi criado, pessoas humanas em umas condições concretas. Anunciar a salvação é anunciar a vida em todas as suas dimensões, inclusive em algo tão relativo como a saúde (a palavra “salus” [salvar/salvação] exige previamente uma cura. Para um cego, depois da recuperação de vista, Jesus disse: “Tua fé te salvou” [Mc 10,52]).

A resposta de Jesus, para a tentação de monopólio, é clara: “Eu devo anunciar a Boa Nova do Reino de Deus também a outras cidades, porque para isso é que eu fui enviado” (Lc 4,43). Sua exigência se traduz em um dom que fica aberto para todos os que O esperam. Certamente o Evangelho é um presente que enriquece a existência, porém um presente que não se pode encerrar e sim um presente que nos abre sem cessar para os outros.


P. Vitus Gustama,svd
       
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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

FALAR E VIVER COM AUTORIDADE

Terça-feira, 30 de agosto de 2011

Texto de Leitura: Lc 4,31-37
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“Todo aquele que, ocupando uma posição de autoridade, aproveita para divertir-se, para aumentar seu patrimônio, ou para conseguir lucros pessoais, não é um servidor dos demais, mas um escravo de si mesmo” (Santo Agostinho. Serm. 46,2)
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As pessoas ficavam admiradas com o seu ensinamento, porque Jesus falava com autoridade” (Lc 4,32). “Ao louvar o que é bom nos demais, fazemo-nos melhores a nós mesmos” (Santo Agostinho. In ps. 144,1).

Estamos nos primeiros dias da pregação publica de Jesus segundo o evangelho de Lucas. Todos os evangelhos sinóticos (Mt, Mc, Lc) colocaram em destaque a autoridade extraordinária, o prestigio que emanava da pessoa e da palavra de Jesus (Mt 7,29; Mc 1,22; Lc 4,32). Naquela época tinha bastante “escolas”, grupos de escribas ou de letrados que faziam comentários sobre a Sagrada Escritura. Agora Jesus faz seus próprios comentários que totalmente são novos (sem nenhuma influência de alguma escola). Do fundo de si mesmo surgem pensamentos magistrais revestidos de autoridade que causa a admiração no povo. O evangelista Marcos registrou a admiração do povo diante do ensinamento de Jesus com as seguintes palavras: “Estavam espantados com o seu ensinamento, pois ele os ensinava como quem tem autoridade e não como escribas” (Mc 1,22). No seu ensinamento, Jesus não se apóia nas tradições de escolas rabínicas, pois Ele é enviado de Deus, o Filho de Deus em quem repousa o Espírito de Deus (Mc 1,9-11). Jesus apela diretamente para a consciência de seus interlocutores.

A autoridade de Jesus não está a serviço de uma instituição, mas está a serviço do ser humano para que este reconheça sua própria dignidade, seu valor e sua vocação à vida comunitária de irmãos. A nova forma de Jesus ensinar “com autoridade” apela para valores e atitudes fundamentais do ser humano: apela à capacidade de convivência como irmãos do mesmo Pai do céu, apela ao reconhecimento respeitoso e tolerante do outro, apela ao desenvolvimento da auto-estima como condições para uma autêntica libertação da situação de marginalização em que vive a grande maioria. Onde não houver um mútuo respeito, não haverá espaço para a mútua admiração. O Pai que está no céu nos faz irmãos aqui na terra. Ao aceitar o Espírito de Deus o homem se liberta de suas escravidões e se torna irmão do outro.

Por isso, o episódio do homem possuído por um espírito impuro, mais do que para demonstrar autoridade de Jesus sobre as forças do mal, quer mostrar como Jesus integra ao seio da comunidade aquele que era excluído e recusado como muitos outros em nome de um poder que desumaniza ou em nome de uma instituição desumanizante.

Se você quer saber quanta autoridade tem, não se pergunte a quantos você submete, mas a quantos você ajudou a crescer. O medo que os outros têm de você não mede sua autoridade, mas seu poder autoritário. A autoridade põe respeito, o autoritarismo põe medo nas pessoas. Quando alguém acredita que a força de sua autoridade está em seu poder e não em seu amor, ele desautoriza a si mesmo como pessoa. Se ou quando alguém precisa apelar para a força e para o poder para ser autoritário é porque como pessoa já não tem mais autoridade. Os títulos e os cargos podem até confirmar a autoridade que cada um tem, mas não lhe dão a que não tem.
       
Jesus fala como quem tem autoridade. Há palavras ou ações que nos aproximam de Jesus. Quais são estas palavras? Sempre que pronunciarmos uma palavra viva, aquela que não é fingida, aquela que sabe detectar em cada momento aquilo do qual o outro está necessitando, aquela palavra que faz o outro melhorar e crescer, aquela que não semeia a discórdia, a palavra que humaniza, estaremos falando com autoridade. Sempre que pronunciarmos uma palavra compassiva, aquela que consola nos momentos de dificuldade, a palavra que anima quem está desesperado, a palavra sincera de querer ajudar, estaremos falando com autoridade. Sempre que pronunciarmos uma palavra solidária, aquela que coloca as coisas no seu devido lugar, aquela que sai do coração para aliviar a dor do outro, aquela que serena, estaremos falando com autoridade. Sempre que pronunciarmos uma palavra de esperança que diz que nem tudo está perdido, que o melhor está para vir porque Deus está conosco (Mt 28,20) e que “para Deus nada é impossível” (Lc 1,37), estaremos falando com autoridade.
       
É bom cada um de nós fazer um exame de consciência para saber se fala com autoridade como Jesus ou não? É bom cada um se perguntar se está próximo de Jesus no modo de viver e de tratar os demais ou não? Hoje em dia precisamos muito mais das pessoas com autoridade e carisma do que das pessoas com o poder.

P. Vitus Gustama,svd
MARTÍRIO DE SÃO JOÃO BATISTA
                               
Segunda-feira, 29 de agosto de 2011
         
Texto de Leitura: Mc 6,17-29
       
São João Batista é o único santo de quem a Igreja comemora o nascimento e a morte, pois ele é o Precursor do Senhor. No dia 24 de Junho, a Igreja celebra o seu nascimento e no dia 29 de agosto comera o dia de sua morte como mártir, por ordem de Herodes.

No texto do evangelho lido na festa do martírio de João Batista se encontram três personagens principais: Herodes Antipas, Herodíades (e sua filha) e João Batista.

Herodes Antipas era o filho de Herodes chamado o Grande, aquele perseguidor de Jesus menino que havia mandado degolar os inocentes (Mt 2,13-23). Herodes Antipas reinava, como tetrarca, na Galiléia e em Perea desde a morte de seu pai. Ele é descrito como um homem rico e poderoso. Abusa da riqueza e do poder e é arrogante. Ele se entrega totalmente aos prazeres. Enganado por uma bailarina e por sua vingativa mãe, Herodíades, ele se converteu em um assassino de um inocente, João Batista.

Herodíades é descrita como uma assassina sem compaixão. Injustamente se tornou esposa de Herodes Antipas. Herodíades era a mulher de Filipe, irmão de Herodes. Herodes tomou Herodíades por esposa que era proibido pela Lei (Ex 20,17; Lv 18,16;20,21). João Batista não era parcial com os poderosos e denunciou essa injustiça. A mais sensível a essa denúncia é Herodíades, a adúltera. Para Herodíades a denúncia de João Batista feriu seu orgulho e sua soberba. Ela não quer saber da verdade na denúncia de João Batista. Por isso, ela se propõe a acabar com a vida de João Batista. O ódio e a vingança levam essa mulher a procurar todos os meios, utilizando até a própria filha, para eliminar João Batista do seu mundo. Herodíades quer tirar a vida de João, mas há um obstáculo a seu intento: o temor que Herodes sente por João, porque João Batista é considerado como um homem justo, de conduta agradável a Deus e santo ou consagrado por Deus, profeta.
        
O dia oportuno é a ocasião propícia para que Herodíades cumpra seu desígnio de matar João Batista. Celebra-se a vida de Herodes, o poder absoluto e com ele a celebram os representantes de todos os possuidores do poder.
        
Aparece outra personagem, a filha de Herodíades, sem nome, que se define por sua mãe. Sem nome significa não tem personalidade própria. Por isso, ela representa o povo sem vontade própria (o povo submisso) e a mãe representa a classe dirigente ou classe dominante. A moça não tem vontade própria; mostrando sua total dependência, vai perguntar à mãe o que quer que a filha faça. Herodes faz promessa à filha de Herodíades: “Pede-me o que quiseres e eu to darei. Eu te darei qualquer coisa que me pedires, ainda que seja a metade do meu reino”. Mas quem decide é a mãe, que busca só seu próprio interesse: eliminar João (quer a cabeça de João Batista). A maldade só pode produzir a maldade. Mas a maldade não é capaz de enterrar a bondade. O sangue de um mártir é a semente para a Igreja.
        
Marcos sublinha a imaturidade da jovem: entra logo, a toda pressa, sem criticar nem julgar a decisão da mãe nem considerar se era ou não favorável para ela: ela é a escrava de sua mãe.
        
No poder civil há um resto da humanidade; Herodes estimava João Batista e sabe que o que pedem não é só uma injustiça, mas também um desprezo a Deus; mas um rei não pode ficar em má situação, perderia seu prestígio. Herodes Antipas, o covarde, mandou tirar, então, a cabeça de João Batista em nome da vaidade. Um vaidoso é uma pessoa frívola, presunçosa e incoerente. Sem juízo e sem bom senso, ele vive só para aparecer e ser admirado. Na prática, o prazer de um vaidoso não consiste em possuir méritos, mas em saber que os outros o elogiam.

Da atitude de Herodes Antipas percebemos que no poder civil, muitas vezes, para não dizer sempre, os interesses do poder estão acima do humano. O evangelho nos relata que da parte dos convidados, não há nenhuma reação: tudo é permitido ao rei, dono da vida de seus súditos. Herodes mandou tirar a cabeça de João Batista. E a jovem dá a cabeça de João Batista à mãe, e ela mesma fica sem nada.
        
De Herodes podemos tirar muitas outras lições. Em primeiro lugar, nunca façamos promessas quando formos dominados por uma grande emoção. Sejamos cautelosos, prudentes, sóbrios em tudo. Quem não se controla no lícito está em perigo de sucumbir diante do ilícito. Por isso, o sóbrio se abstém da saciedade para não cair na embriaguez”, dizia Santo Agostinho (De ut. Jej. 5,6).  Herodes Antipas tem medo ao mesmo tempo ama João Batista: odeia a mensagem de João Batista, mas incapaz de se livrar da admiração por ele. Mas em nome da vaidade e do poder, Herodes não quer saber da verdade. Herodes não entende que aquele que conhece a verdade e vive de acordo com a verdade é um homem mais livre do mundo (cf. Jo 8,32). Herodes é também um homem que age por impulsos. Dele aprendemos que saibamos pensar antes de falar e de agir. Muitos acham que falar o que pensar seja uma virtude. Mas na verdade a verdadeira virtude é pensar bastante antes de falar. Se o mundo vive reagindo, o cristão deve viver refletindo.

O caso de Herodes e Herodíades é um caso típico de como um pecado leva a cometer outro pecado. Herodes e Herodíades começaram sendo adúlteros e terminaram sendo assassinos. O pecado de adultério levou os dois ao crime, ao assassinato de um santo, de um inocente, de um João Batista. Herodes e Herodíades calaram a santa boca que recordava o dever; calaram a boca do pregador da virtude. Mas a boca que recorda o dever pode ser tirada, mas não o próprio dever tatuado em cada coração. A boca que prega a virtude pode ser calada, mas não a virtude que habita em cada coração que sempre grita diante da desonestidade.

Com o seu exemplo cheio de fortaleza, João Batista nos ensina a cumprir, apesar de todos os obstáculos, a missão de viver de acordo com a justiça, a verdade, a retidão. É viver a função profética de anunciar o bem e de denunciar o mal e a maldade na convivência. Cada um recebeu de Deus essa missão profética através do sacramento do Batismo. João Batista foi um verdadeiro mártir, pois foi morto por cumprir seu dever de viver de acordo com a retidão e a verdade.

Façamos uma pausa e consideremos quantas vezes na história, antes ou depois de João Batista, aconteceu o mesmo fato: que quem denuncia a mentira e defende a verdade, que quem condena o pecado e proclama a virtude, que quem fustiga a injustiça e prega a dignidade humana é a vítima ou o objeto de zombaria e é condenado diante do tribunal do ímpio, mas é glorificado e coroado diante do tribunal de Cristo (cf. Mt 7,21-23; 25,31-46).

P. Vitus Gustama,svd 

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sábado, 27 de agosto de 2011

NOVO COMEÇO COM JESUS

Reflexão Para o XXII Domingo Do Ano Litúrgico A

Domingo, 28 de agosto de 2011

Texto de Leitura: Mt 16,21-27
          
É preciso ler os versículos anteriores do texto do evangelho deste dia para perceber sua continuação ou sua seqüência (cf. Mt 16,13-20). Nos versículos anteriores Pedro professou sua fé em Jesus dizendo: “Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16). Mas não basta proferir a fórmula certa sobre a identidade de Jesus. Importa compreendê-la dentro do espírito do próprio Jesus. Pedro, sob o influxo da revelação do Pai acertou a identidade de Jesus, mas a compreendeu a seu modo e nisso foi corrigido com palavras duríssimas por Jesus logo que Jesus falou do anúncio de sua paixão (Mt 16,22-23). Jesus quer que os discípulos façam o mesmo caminho de Jesus. Por isso, Jesus convida os seus discípulos a segui-Lo pelo mesmo caminho, apresenta-lhes as condições para segui-Lo (Mt 16,24), os motivos das condições em forma de ditos paradoxais (Mt 16,25-26) e termina com o anúncio da vinda escatológica do Filho do Homem para julgar os homens, onde os discípulos são convidados a entrar na glória futura (Mt 16,27).

1. Anúncio da Paixão, reação de Pedro e repreensão de Jesus (vv.21-23)
          
Nos evangelhos sinóticos encontram-se cinco vezes o anúncio da paixão de Jesus: três em forma bastante desenvolvida (Mc 8,31-33 e par.; Mc 9,30-32 e par.; Mc 10,32-34 e par.) e dois outros são mais breves: um coloca no fim do relato da transfiguração (Mc 9,9;Mt 17,9), e outro encontra-se no episódio de Getsêmani (Mc 14,41;Mt 26,45).
           
O Evangelho de hoje começa com estas palavras: “Desde então, Jesus começou a mostrar a seus discípulos...”(v.21). Aparentemente esta frase não tem nenhuma importância para nós, por isso não nos chama a atenção. O evangelista Mateus repete novamente o que disse em Mt 4,17 (para o início da missão na Galiléia). Ele quer enfatizar o novo começo na vida e no destino de Jesus a partir de Cesaréia de Filipe onde Pedro professou sua fé em Jesus (Mt 16,13-30) e com este novo começo Jesus pretende abrir os olhos dos discípulos para a nova caminhada. Por isso, ele usa o verbo “mostrar” para indicar a intenção de revelar um desígnio escondido do plano de Deus (cf. Ap 1,1). Trata-se do acontecimento da revelação última e definitiva.
          
Optar por um novo começo significa deixar espaço ocupado até então, um espaço, por ser conhecido, dá segurança e partir rumo ao desconhecido, ao inseguro com muita fé porque Deus nos chama, como Ele chamou Abraão a sair da própria segurança, da própria pátria rumo para a terra estrangeira/desconhecida apostando totalmente em Deus (cf. Gn 12,1ss). Não é fácil ouvir o chamado de Deus. Nossa insegurança, nossa hesitação e nossa grande afirmação fazem com que percamos a confiança em nossa voz íntima e fujamos de nós mesmos. Mas sabemos que Deus nos fala através da nossa voz íntima e que somente encontraremos alegria e paz se a seguirmos. Na verdade, o nosso espírito está disposto a obedecer, mas a nossa carne é fraca (cf. Mt 26,41).
          
Concretamente, para Jesus o novo começo, a nova virada significa ir a Jerusalém ao encontro dos seus adversários, enumerados em três poderes que formavam o Sinédrio no tempo de Jesus: os anciãos, que são grandes latifundiários, representam o poder econômico; os sumos sacerdotes, que são de aristocracia sacerdotal, representam o poder religioso e os escribas que representam o poder intelectual (v.21). O poder econômico, o poder religioso e o poder intelectual opõem-se a Jesus, e estão decididos a eliminá-lo. E Jesus, ao enfrentar a rejeição, a condenação, o sofrimento e a morte, permanece fiel ao projeto salvífico de Deus. Uma vez disse “sim” a Deus, não mudou jamais para um “não”.
          
A virada ou o novo começo na vida de Jesus “desde então” exige também uma virada, um novo começo, uma nova conversão dos seus seguidores, todos nós.
          
Mas Pedro, que acabou de professar sua fé em Jesus como “Messias, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16), ainda segue o esquema de pensar deste mundo que dá mais valor ao poder, ao dinheiro,  à honra e pompa do que à simplicidade, à verdade, à retidão e à humildade. Ele quer este tipo de Deus. Por isso, da boca de Pedro saíram estas palavras: “Deus não permita tal coisa, Senhor. Que isso nunca te aconteça!” (v.22).

A veemente recusa de Pedro nos revela duas coisas: Por um lado, revela o amor de Pedro ao Mestre. Ele não quer ver seu Mestre sofrer. Mas nem sempre nossa boa intenção está de acordo com a objetividade. Até, às vezes, a boa intenção pode atrapalhar. Por outro lado, revela, ao mesmo tempo, que Pedro não havia compreendido ainda em profundidade a pessoa e a missão de Jesus; que ainda não havia chegado ao fundo do mistério de Cristo que o amor que se dá ao Pai e aos homens deve ser até o extremo, até as últimas conseqüências, até a morte na cruz. A sua fé na messianidade de Jesus é ainda uma fé tradicional, que associa o Messias ao poder e à glória e em nenhum momento ao sofrimento e à morte. As esperanças messiânicas tradicionalmente eram de caráter de glória e de poder. Esperava-se um Messias totalmente político e triunfalista, instaurador da nação. Para Jesus a fé dos discípulos tem de ser purificada e aprofundada até se tornar uma fé que reconheça em Jesus o Messias na forma do Servo sofredor.
          
Até aqui podemos tirar a seguinte lição: Se formos sinceros, deveremos reconhecer que, no fundo, pensamos e reagimos da mesma maneira que Pedro, de maneira tipicamente conformista: conforme os valores e critérios do mundo e não segundo as palavras e as práticas de Jesus. Muitas vezes estamos anestesiados com os hábitos. Por isso, não admitimos a entrada de uma novidade na nossa área de hábitos, embora esta novidade pode nos fazer crescer na maturidade. É bom ter sucesso, como desejou Pedro e como todos desejam. Mas nada pode desviar um cristão da fidelidade ao Evangelho, mesmo que para isso alguns interesses ou prestígio tenham que ser contrariados. O maior prestígio de um cristão é trilhar fielmente o caminho traçado por Jesus Cristo. No entanto, como Pedro, nós podemos professar nossa fé em Cristo Jesus, mas muitas vezes imediatamente depois disso negá-la com o nosso comportamento, opondo-nos com todas as forças e todos os meios, inclusive os da invocação do nome de Deus em vão. Para São Paulo, estas reações são as reações do homem carnal, do homem velho (cf. Rm 7,14ss;8,5ss).
          
Diante da veemente recusa de Pedro, Jesus o corrigiu com palavras duríssimas: “Sai da minha frente! Para trás Satanás!” (v.23). A resposta de Jesus é uma resposta indignada porque o que está em jogo é algo de uma importância e de uma gravidade suprema para ele. Quanto maior for perigo, maior também se tornará a bronca/repreensão. Aqui Jesus usa as mesmas palavras que usou para responder à terceira tentação do Satanás no início do seu ministério (Mt 4,10). Agora no fim do seu ministério vem Pedro desempenhando o papel próprio de Satanás ao tentar desviar Jesus de sua missão. Nisso Pedro é a encarnação do Adversário (Satanás). Opor-se à vontade de Deus e, em última análise, ser agente de satanás, é fazer o jogo de Satanás. Por isso, Jesus dá a Pedro a mesma resposta que dera ao Tentador no deserto.
          
Jesus indica a Pedro que ele é apenas um seguidor. Por isso, seu lugar não é na frente, mas detrás de Jesus, no seguimento de Jesus. A palavra “seguir” já indica o lugar atrás de quem é guia ou mestre. A pretensão de Pedro de se colocar na frente é desmarcada por Jesus. E esta pretensão é considerada como um jogo do adversário (satanás). Com isso, Pedro se torna pedra de tropeço no caminho de Jesus. Por isso, essas palavras servem como convite para Pedro para que ele volte a ocupar o lugar do discípulo, a trilhar os passos marcados por Jesus. Porque ficar na frente de Jesus significa obstaculizar o caminho de Jesus. Por trás das palavras de Jesus está o texto de Is 55,8: “Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, e vossos caminhos não são os meus caminhos”.
         
Vamos nos perguntar e vamos verificar nossa consciência: quantas vezes desempenhamos o papel de Satanás na nossa vida, como por exemplo: levar  alguém a fazer algo que não é certo do ponto de vista cristão ou a levantar o falso testemunho etc. Em segundo lugar, para estarmos bem com Deus e com os outros, devemos saber o nosso lugar. Qual é o meu lugar? “Quando Jesus passar eu quero estar no meu lugar”, assim cantamos muitas vezes nas nossas celebrações. Se eu não ocupar o meu lugar e não reconhecer o lugar do outro, acabarei criando a desordem na convivência. “A paz de todas as coisas é a tranqüilidade da ordem. A ordem é a correta disposição das coisas semelhantes e das coisas diferentes, em virtude da qual cada uma delas ocupa o lugar que lhe é o próprio”, dizia Santo Agostinho (De civ. Dei. 19, 13,1).
          
Pedro e cada um de nós temos de nos converter sempre de novo, dar uma virada e um novo começo para que o caminho de nossa vida seja o de Deus e não o nosso, assim encontraremos a nossa felicidade e paz. Temos que mudar sempre do nosso modo de pensar (metanoia) para que os nossos pensamentos não sejam os nossos, mas os de Deus. Só assim enxergaremos bem o nosso caminho e resolveremos melhor os nossos problemas. Enfim, no silêncio de nossas orações e reflexões, temos que buscar sempre de novo qual é a vontade de Deus em nossas vidas e praticá-la. Se nos chamamos de cristãos, devemos então, imitar a vida de Jesus. A vida de Jesus foi nutrida da vontade de Deus. Ele disse: “Meu alimento é fazer a vontade daquele que me enviou e cumprir a sua obra” (Jo 4,32).
          
Se perseverarmos no amor de Jesus, no seu seguimento, nas suas exigências, passo a passo e dia a dia, acabaremos compreendendo o mistério de sua pessoa e de sua missão e acabaremos também descobrindo e compreendendo a nossa verdadeira identidade. E quem opta por seguir a Jesus encontra um centro para sua vida fora de si mesmo.  Não gira mais em torno do próprio “Eu”, dos gostos individuais e dos próprios interesses e das vantagens pessoais. Mas o centro de sua vida está doravante na vontade de Deus manifestada para ele na pessoa e na missão de Jesus Cristo. Assim é que podemos entender as exigências de Jesus de negar a si mesmo, de tomar a cruz e de segui-Lo. Quando Deus se torna centro, o cristão se torna bom e correto consigo mesmo e com os outros. Será que Jesus é o centro de nossa vida ou ainda giramos em torno de nós mesmos?

2. As condições do seguimento de Jesus
          
As exigências do seguimento de Jesus são repetidas seis vezes com variantes maiores e menores nos quatro evangelhos (Mt 16,24ss;Mc 8,34ss;Lc 9,23s;Jo 12,24ss;Lc 14,27;Mt 10,38s). Essa repetição nos indica a importância dada pela Igreja dos apóstolos a essas exigências.
          
Ao apresentar aos discípulos as condições do seguimento, Jesus não impõe, mas propõe: “Se alguém quer...” O seguimento não é uma imposição. Todos têm a liberdade de aceitar ou de recusar. Mas quem quer seguir verdadeiramente a Jesus, tem que assumir as exigências postas por ele. Tudo tem que ser tomado na base da liberdade, da obediência da fé e por amor.
          
A primeira condição é a renúncia: “Se alguém quer me seguir, renuncie a si mesmo...”(v.24a). Renunciar a si mesmo não significa uma resignação cansada diante da vida nem uma “entrega dos pontos” nem por falta de opções. Antes de tudo significa a libertação da própria liberdade dos egoísmos a que estava atada e que agora se entrega inteiramente a Deus. O seguidor é chamado a colocar o próprio eu no centro do interesse. O centro de sua vida está doravante na vontade de Deus, manifestada para ele na pessoa e na missão de Jesus Cristo. E esta entrega tem de ser livre para poder ser feita na alegria, no entusiasmo e na generosidade. O seguidor é chamado à renúncia, a arriscar a própria vida, porque só assim poderá, como Cristo, chegar à glória que é a meta de todo caminho da cruz. Mas toda renúncia deve ter como base o amor. O sacrifício, a renúncia de si mesmo que não seja animado pelo amor, que não seja uma manifestação de amor, uma expressão de doação de si mesmo, que não leve à comunhão com os outros é apenas uma tortura auto-infligida. A renúncia que Jesus pede não é uma ação negativa. Ele pede amor, doação de si mesmo. Tudo tem que ser feito por amor. Sem o amor, viveremos uma vida dupla. E este tipo de vida, não traz a alegria verdadeira nem para si nem para os outros.
          
A segunda condição é o “carregar a sua cruz” (v.24b). “Carregar a cruz” é uma expressão que os primeiros cristãos utilizaram muito para expressar sua união com Jesus na sua morte e ressurreição. É uma expressão relacionada ao mistério pascal de Jesus Cristo. Jesus pede ao seguidor o esvaziamento total de si mesmo, até a morte física, se for preciso. Quem não tiver esta disponibilidade, ainda não é verdadeiramente seguidor de Cristo. Todo aquele que quer seguir a Jesus incondicionalmente deve estar pronto para percorrer todos os passos da Paixão, pois o “mundo” tenta  crucificar e eliminar os seguidores de Cristo por todos os meios, como aconteceu com Jesus.
          
Depois dessas condições, Jesus mostra os motivos em forma de ditos paradoxais.
          
Em primeiro lugar Jesus afirma que quem busca egoisticamente, a todo custo, usando quaisquer meios, aproveitar, gozar e conservar a própria vida, acaba desperdiçando-a e perdendo-a (v.25).Querer guardar para si a própria vida é o caminho mais seguro para perdê-la. Pelo contrário, quem vive em função do serviço desinteressado aos outros na bondade e no amor, ele acaba encontrando a vida na sua plenitude, acaba ganhando a vida eterna. A vida só se encontra, doando-a. O próprio Jesus é o exemplo desta doação. Ele se doou até o fim a Deus e aos homens. O homem muitas vezes somente dá um pouco de sua vida. O verdadeiro cristão se doa tudo por amor.
          
No v. 26 Jesus repete o paradoxo anterior: “De fato, que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? O que poderá alguém dar em troca de sua vida?” Possuir os bens deste mundo não seria um mal em si mesmo, mas torna-se o maior dos males quando, por causa de tais posses, o cristão é impedido de seguir a Cristo. Jesus, certamente, rejeitou o “mundo inteiro” que o Tentador lhe oferecera, pois o preço da oferta era a idolatria (Mt 4,8s). “Desapeguemos o coração de todas as criaturas. Quem está agarrado a alguma coisa da terra, ainda que mínima, nunca poderá voar e unir-se todo a Deus” (S. Afonso de Ligório). Ainda que alguém ganhasse o mundo inteiro(riqueza, glória, poder), a vida é efêmera. Na ótica da fé, todas as riquezas do mundo são insignificantes quando o que está em jogo é a vida em plenitude (eterna) que Jesus oferece aos que o seguem.
          
O fundamento último da nossa opção pelo seguimento incondicional de Cristo é a certeza, dada pela fé, de que o Filho do Homem virá um dia na sua glória (v.27). Ele terá a última palavra sobre o homem. Essa palavra será uma palavra de graça para quem segue a Jesus incondicionalmente. O juízo final torna-se, então, a medida para avaliar a existência histórica e ao mesmo tempo a bússola que orienta a vida do cristão nas escolhas justas e sensatas nesta vida.

P. Vitus Gustama,svd


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sexta-feira, 26 de agosto de 2011

PROCURAR E VIVER AQUILO QUE É ESSENCIAL

Sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Texto de Leitura: Mt 25,1-13

Buscas a Deus na Igreja, ou buscas a ti mesmo?” (Santo Agostinho. Serm. 137,9)

Os capítulos 24-25 de Mt constituem o quinto e o último discurso de Jesus neste Evangelho. Este quinto discurso é conhecido como o “Discurso escatológico” (discurso apocalíptico). Mt elabora notavelmente o discurso escatológico de Mc (Mc 13) e o amplia com uma série de parábolas e com uma impressionante descrição do julgamento final (Mt 25,31-46), cuja principal intenção é orientar os cristãos sobre como preparar a vinda do Senhor.
                      
A linguagem destes capítulos pode provocar temor. Mas, na verdade, trata-se de uma linguagem apocalíptica que era relativamente freqüente entre alguns grupos judeus e cristãos. Chama-se de linguagem apocalíptica porque tem como objetivo manifestar uma revelação escondida (apocalypsis). Em muitas ocasiões esta revelação é dirigida a grupos ou comunidades que vivem uma situação de perseguição, com a intenção de animá-los e encorajá-los em suas lutas e tribulações. Por isso, não há motivo nenhum de alguém ver nestes textos uma ameaça e sim, uma mensagem de esperança.

A parábola no texto do evangelho deste dia fala das dez virgens. Se olharmos do ponto de vista da prudência, pois a parábola trata das cinco virgens prudentes (phronimoi) e outras cinco insensatas (morai), esta parábola nos faz lembrar também da conclusão do Sermão da Montanha que compara um homem néscio a um homem prudente (Mt 7,24-27). Na literatura sapiencial o prudente é aquele que age de acordo com as exigências de Deus; o insensato, ao contrário, age conforme sua própria cabeça (cf. Ecl 2,12-17). Da conclusão do Sermão da Montanha sabemos que um que é néscio construiu a casa sobre a areia e o outro que é prudente sobre a rocha. A casa do néscio desmoronou, pois sem nenhuma base sólida, enquanto a do outro fica firme diante da tempestade, pois foi construída sobre a rocha.

Na parábola das dez virgens encontra-se novamente o contraste entre prudente e néscio. Sabemos que a prudência determina o que é necessário escolher e o que é necessário evitar.  Ela separa a ação do impulso, o essencial do secundário. “A prudência é um amor que escolhe com sagacidade”, dizia Santo Agostinho.

As cinco virgens levam o azeite suficiente, pensando na chegada atrasada do noivo, enquanto que as outras cinco não pensam nisso. Como é importante estar preparado, tanto para as surpresas agradáveis como para as desagradáveis na vida. Mas muitas vezes somos pegos de surpresa. O azeite é a Palavra de Deus vivida no dia a dia que se resume no amor. Diz Santo Agostinho: “Coisa grande, verdadeiramente muito grande significa o azeite (óleo). Só pode ser amor”.

Nesta parábola lemos que as cinco virgens insensatas gritam: “Senhor! Senhor! Abre-nos a porta!” (v.11). Mas a porta continua fechada. Quem vive segundo a Palavra de Deus tem a chave na mão para abrir a porta (do céu). As palavras da profissão “Senhor, Senhor” só salvam quem as professa, se viver de acordo com essa profissão. Chamamos e professamos Deus de Senhor porque queremos que ele assenhore nossa vida, e guie nossos atos e decisões, que ele seja o centro de nossa vida, que a vontade dele prevaleça na nossa vida, pois tudo que Deus quer é só salvar. Quem de nós não quer ser salvo? 
                      
As cinco virgens prudentes estão de prontidão e prestam atenção às coisas essenciais. Enquanto que as cinco insensatas pensam em tudo, menos naquilo que é essencial, ou, de fato, tem importância. Há pessoas que perdem o rumo por causa das coisas efêmeras e não se lembram dos valores autênticos como caridade, justiça, paz, verdade, retidão, honestidade, reconciliação etc. pelos quais vale a pena comprometer-se. O homem é tão ocupado com as mil coisas que não deixam mais do que efêmeras satisfações que se esgotam logo que se produzem. Um sábio diz que há esquecimento por falta de memória, mas há esquecimento por falta de amor. Esquecemos Deus não por falta de memória, mas por falta de amor para com ele. “Quando lhe convém, o homem esquece que é cristão” (Santo Agostinho. In ps. 21, 2,5)
          
O que nos chama a nossa atenção é o aparente egoísmo e aparente falta de solidariedade das cinco virgens prudentes que não dividiram seu azeite para as insensatas. E a aparente falta de amor do noivo que não abriu a porta para as cinco insensatas também chama a nossa atenção. A parábola quer destacar uma responsabilidade pessoal que não é substituível por ninguém diante de Deus no fim dos tempos. Ninguém pode prestar contas em nome de outra pessoa diante de Deus nesse momento. Cada um é único diante do Deus único. As qualidades interiores, as qualidades do espírito que temos ou não as temos, não podem ser emprestadas ou repartidas diante da seriedade do momento. É insubstituível o compromisso pessoal da vigilância.
          
O juízo particular é tema que desperta não só responsabilidade, mas também esperança e otimismo. Deus não empurra ninguém para o céu ou para o inferno. É a própria pessoa quem decide sobre isso durante sua vida. Não é uma sentença divina que vai declarar a pessoa culpada ou inocente, e sim é o modo de vida da pessoa que vai condicionando sua opção por Deus. “Nunca esqueças: a única razão para ser cristão é a vida eterna” (Santo Agostinho. De civ. Dei 5,25). “Põe na terra as coisas terrenas, mas teu coração, no céu” (Santo Agostinho. In Joan. 18,6).

Pe. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

SEJAMOS VIGILANTES

Quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Texto de Leitura: Mt 24,42-51

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Não enganes a ti mesmo. Gostes ou não, não és mais que um convidado, um transeunte, um peregrino neste mundo. Podes, pois, adoçar teu caminho; porém, por mais que queiras, não poderás converter-te em residente (Santo Agostinho. In ps. 120,14)

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“Ficai atentos! Porque não sabeis em que dia virá o Senhor”. Esta é a mensagem que a Palavra de Deus dirige a cada um de nós hoje. “Ficai atentos! Estejais vigilantes!”.

Velar ou vigiar, em sentido estrito, significa renunciar ao sono da noite para terminar um trabalho urgente e importante ou para não ser surpreendido pelo inimigo. Em um sentido mais simbólico significa lutar contra a negligência para estar sempre em estado de disponibilidade. É viver uma vida atenta à voz do Senhor e vigilante diante dos sinais da realidade.

Vigiar significa não distrair-se, não adormecer-se. Vigiar faz parte inseparável da própria atenção. O cristão não pode ser alienado. Ser vigilante faz parte do discipulado. Quem é vigilante nota com facilidade o que está acontecendo ao redor. A vigilância é a atitude própria do amor que vela. O amor mantém o coração alerta e a disponibilidade para ajudar. No meio de uma sociedade que parece muito contente com os valores que tem, o cristão é convidado a viver na esperança vigilante. Vigiar significa ter o olhar posto nos “bens de cima”. Vigiar é viver despertos, em tensão, mas não com angústia e sim com seriedade. O cristão precisa se esforçar por buscar sempre as “coisas do alto”, os valores que o edificam e salvam, como a fraternidade, o amor, a solidariedade, o projeto de Deus, entre “as coisas de baixo”, como egoísmo, ganância, exploração, arrogância, ódio e assim por diante. Em outras palavras, nós cristãos temos que ser protagonistas não somente da espera do Reino, mas também de sua construção desde agora neste mundo.

A vigilância perseverante nos leva a ser considerados bem-aventurados pelo Senhor quando vier: “Feliz o empregados cujo senhor o encontrar agindo assim quando voltar” (Mt 24,46). Será que o Senhor vai me considerar bem-aventurado quando ele chegar? É a pergunta que nos faz vigilantes e nos faz revermos nossas atitudes. Estou suficientemente atento e disponível para escutar os sinais, através dos quais Deus me apresenta as suas propostas?.

A vigilância, para um cristão, não é opcional. O futuro de cada homem é imprevisível. A imprevisibilidade do futuro reclama vigilância. O homem prudente, sensato não considera a atitude vigilante como algo simplesmente possível, uma entre outras muitas opções. A vigilância é a melhor opção. Vigiar para ser capazes de dominar os acontecimentos, no lugar de ser dominados por eles. Vigiar para não perder jamais a paz. Vigiar para descobrir a escritura de Deus nas páginas da história. Vigiar para saber descobrir a ação do Espírito no nosso interior. Vigiar para manter íntegras a fé, a esperança e a caridade. A vigilância não é um opcional e sim uma necessidade vital. Vigiar é viver como o lavrador que semeia e está sempre pensando em ter boa colheita, e como o desportista que, desde o primeiro esforço, sonha em chegar primeiro à meta.

Um cristão não pode ser nem estar alienado. Ele deve estar em alerta constante, sempre pronto para a ação, e preparado para servir dia e noite. Servir para o cristão não é opcional, é lei constitutiva da vida cristã. O Senhor voltará com toda segurança no nosso encontro derradeiro. O discípulo não pode ficar adormecido. Ele deve permanecer alerta, sempre em tensão e em atenção. Somente assim ele assegurará a comunhão com o Senhor no gozo e no amor.

É sábio quem vive na vigilância permanente e sabe olhar para o futuro. Não é porque não saiba gozar da vida presente e cumprir suas tarefas de hoje e sim porque sabe que é peregrino nesta vida e o importante é assegurar-se sua continuidade na vida eterna. É viver com uma meta e uma esperança. Por isso, o trabalho neste mundo para o cristão é um compromisso pessoal para transformar-se a si mesmo e para transformar o mundo em que vive.
     
A fé é sempre um êxodo, uma saída, o começo de um caminho até o futuro de Deus que nos traz a salvação. Quem crê está sempre de passo, vive como um estrangeiro, como um nômade. Assim viveu Abraão, inclusive na terra que Deus lhe havia prometido (Gn 17,8; 20,1; 21,23; 24,37). A “terra prometida” é o símbolo da cidade futura, da cidade que Deus constrói para os que a buscam e põem nela toda sua esperança. No campo aberto pela promessa de Deus, o homem de fé se arrisca investindo toda sua vida e gera nova vida sobre sua debilidade ou fraqueza.

O cristianismo não está preocupado pela futurologia que se sustenta nas possibilidades humanas, nas previsões e tendências atuais para prever o futuro, e sim radicalmente pelo futuro que provem da promessa de Deus. Para Deus promessa significa certeza: “As minhas Palavras não passarão”, disse Jesus (Mc 13,31). Para Jesus o depois se inicia como algo já presente no agora. Isto que dizer que já agora temos que viver como viveremos depois, como rezamos no Pai-Nosso: “assim na terra como no céu”.

P. Vitus Gustama,svd