sexta-feira, 30 de setembro de 2011

CHAMADOS POR AMOR DIVINO À CONVERSÃO PERMANENTE

Sexta-feira, 30 de Setembro de 2011

Texto de Leitura: Lc 10,13-16


As cidades à beira do lago de Tiberíades (Corozaim/Corazim, Betsaida e Cafarnaum) tiveram mais ocasiões de ouvir Jesus e de presenciar os milagres operados por ele. Os milagres de Jesus são sinais que anunciam a chegada do Reino de Deus.  Os milagres são a assinatura de Deus sobre Sua existência. E a resposta do ser humano deve ser a conversão e a fé. No entanto, ninguém se converteu nessas três cidades. Continuavam a viver na injustiça e na arrogância. A soberba humana construiu uma sociedade injusta que se resiste a aceitar a mensagem libertadora de Deus.

Jesus não agüentou mais a dureza do coração dos habitantes dessas cidades, e por isso, pronunciou as maldiçoes. O que tem por trás dessas maldições é o convite de Jesus para a conversão. Converter-se significa deixar de praticar a injustiça e começar uma vida baseada na justiça. A verdadeira conversão deve mudar a qualidade das relações humanas. Não pratiquemos a justiça para que sejamos perfeitos, mas para que nosso irmão, nosso próximo não seja tratado injustamente. Não procuremos protestar contra as injustiças sociais, se ignorarmos nossas injustiças pessoais.

Às vezes a Palavra de Jesus é ameaçadora, porque a vida humana não é um “jogo”; é algo muito sério onde há lugar para o juízo de Deus: nossa vida cotidiana é uma correspondência a Deus ou é uma recusa a Deus. Em todo momento nossos atos são uma escolha pró ou contra Deus. Infelizmente nem sempre pensamos nisso. Em todo momento Deus quer algo de nós. E em todo momento podemos saber qual é a vontade de Deus sobre nós. Quando pensarmos realmente em Deus em todo momento, e não só em algum momento de nossa vida, poderemos viver com Ele em correspondência à Sua vontade.

As maldições pronunciadas por Jesus no evangelho de hoje são as terríveis advertências para os que se gloriam de ser cristãos, mas não vivem os ensinamentos de Jesus. Basta substituir os nomes das cidades amaldiçoadas por seu nome e ouvir estas palavras atentamente, creio que, logo você terá a vontade de fazer o sinal da cruz e se benzer. E você diria: “Deus me livre!”.

Hoje temos que avaliar nossa atitude diante do Reino de Deus. Também fomos eleitos pela graça de Deus. Não temos mérito algum para ser escolhidos. Porém temos que responder a este chamado de Deus com altura e com responsabilidade. É uma exigência e temos que cumpri-la. Não percamos o tempo nem as oportunidades que nos oferece a vida para que a soberania de Deus se torne uma realidade nos corações das pessoas. Quanto mais abundantes são as graças recebidas, tanto mais há que fazê-las frutificar. Não basta estender a mão para receber os dons de Deus. É necessário nos esforçarmos por viver conforme os dons recebidos para não nos tornarmos um terreno estéril neste mundo.

Em nossa vida Deus continua fazendo milagres e continua falando em nosso coração, mas às vezes nossa resposta é a indiferença e continuamos com o coração endurecido como as pessoas de Corazim, Betsaida e Cafarnaum. Pode ser que Jesus no juízo final nos recuse porque nosso coração esteve sempre endurecido por nosso egoísmo e por nossa falta de amor (cf. Mt 7,21-23). Pior ainda, cremos que já temos solução, nos cremos salvos e convertidos definitivamente. A conversão é uma carreira inacabada. É um trabalho silencioso de cada dia.

O Reino de Deus certamente começa em nós pela nossa conversão aos valores do Reino de Deus tais como à verdade, à veracidade, à honestidade, à justiça, à paz, à fraternidade, ao respeito pela vida e dignidade dos outros e assim por diante. No coração de cada cristão deve germinar a semente dos valores do Reino de Deus, porque do coração humano brota tudo o que é bom e mau que vemos no mundo. Temos que lutar contra a armadilha do velho egoísmo que quer perpetuar o desamor e a falta de respeito pela dignidade dos outros. Viver em estado permanente de conversão é a lei de crescimento.

P. Vitus Gustama,svd

“Quem não reconhece seus pecados ata-os às costas como uma mochila e põe em evidência os pecados dos outros. Não por diligência, mas por inveja. Acusando o próximo, procura esquecer a si mesmo” (Santo Agostinho. In ps. 100,3).

“A simulação de uma virtude é sacrilégio duplo: une à malícia a falsidade” (Santo Agostinho. In ps. 63,12).

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

ARCANJOS: MIGUEL, GABRIEL E RAFAEL

Quinta-feira, 29 de Setembro de 2011

Texto de Leitura: Jo 1, 47-51

No evangelho lido neste dia Jesus descreve Natanael como modelo de israelita: “Eis um verdadeiro israelita, em quem não há fraude” (Jo 1,47). Natanael representa precisamente Israel eleito que conservou a fidelidade a Deus. E Jesus renova a eleição.

“Antes que Filipe te chamasse, eu te vi quando estavas de baixo da figueira”, disse Jesus a Natanael. A menção da figueira alude ao Livro do profeta Oseías 9,10: “Encontrei Israel como cachos de uvas no deserto; vi os vossos pais como os primeiros frutos da figueira”.

Natanael reage com entusiasmo e diz a Jesus: “Rabi, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel”. Natanael chama Jesus de “Rabi”, isto é, Mestre fiel à tradição e “Rei”, interpretado como rei de Israel, o Ungido, o prometido sucessor de Davi (Sl 2,26s; 2Sam 7,14; Sl 89,4s.27) que restaurará a grandeza do povo.

Diante da reação de Natanael Jesus disse aos discípulos: “Em verdade, em verdade vos digo: vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem” (Jo 1,51). A obra do Messias não se limita à eleição de Israel (figueira). Jesus faz a primeira declaração sobre si mesmo e alude à visão de Jacó em Betel (Gn 28,11-27) fazendo uma promessa (“vereis”): a comunicação permanente com Deus em Jesus (“o céu aberto”). A promessa se realizará na cruz na qual a glória ou o amor brilhará (cf. Jo 19,34).

Em verdade, em verdade vos digo: vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do Homem”, disse Jesus (Jo 1,51). Neste dia celebramos a festa dos Arcanjos: Miguel, Gabriel e Rafael.

Na Bíblia se evita apresentar Deus atuando em forma direta na história, pois isto ameaçaria a transcendência de Deus. Por isso, aparece um anjo (=mensageiro) que na verdade é Deus mesmo que atua na história. E a história não é somente o que se vê e se toca. Há uma dimensão transcendente, oculta e invisível da história. A revelação é um desocultamento dessa realidade, que é o fundamento de nossa esperança. Os anjos (mensageiros) são os que nos recordam e os que nos fazem visível essa dimensão transcendente. Por isso, o mundo dos anjos não é outro mundo e sim a dimensão transcendente de nossa história. Crer nos anjos significa crer na presença transcendente de Deus na história. Atrás de cada pessoa e de cada sucesso libertador há sempre um anjo, isto é, há sempre uma realidade divina transcendente.

Os Arcanjos: Miguel, Gabriel e Rafael são símbolos dessa comunicação entre Deus e os homens, um Deus que em Jesus infunde força (Gabriel significa Deus é forte), cura (Rafael significa Deus cura) e se mostra totalmente diferente (Miguel significa quem como Deus?), como Pai de todos.

1. São Miguel (hebraico “mikael” significa “Quem é como Deus?”).
        
Na bíblia ele é mencionado somente em Dn, em Epístola de Judas (Jd 9) e em Apocalipse. No AT o nome encontra-se apenas em Dn 10,13.21;12,1 onde Miguel é chamado “um dos primeiros príncipes” e “o grande príncipe” representante e defensor de Israel. Miguel é concebido como um espírito celeste que vela pelos judeus. Em Ap 12,7 Miguel é o chefe dos Anjos na batalha contra o Dragão e seus anjos. Na liturgia cristã, Miguel é o protetor da Igreja e o Anjo que acompanha as almas dos mortos ao céu.
        
Miguel sempre foi considerado como o Anjo que luta por nós. Ele derrota o Dragão. É corajoso lutador de Deus. Por isso, Miguel não é nenhum anjo bonitinho, e sim um Anjo de muita força. E esta força de Deus envia a cada pessoa para que não seja vencida pelos poderes deste mundo. Ao nosso lado está um anjo que luta por nós. Ele nos defende quando pessoas lutam contra nós.

2. Gabriel (hebraico “gabriel” significa “homem de Deus” ou “Deus é forte”).
        
“Gabriel” é nome próprio de um anjo, não arcanjo. Só na literatura posterior é chamado arcanjo. No AT ele aparece pela primeira vez em Dn, explicando a Daniel a visão do carneiro e do bode (Dn 8,16-26), e o sentido dos setenta anos de Jr 25,11;29,10 (Dn 9,21-27). No NT Gabriel aparece a Zacarias, anunciando-lhe o nascimento de João Batista (Lc 1,11-20). Ele chama-se a si mesmo Gabriel, que está diante da face de Deus (cf. Tb 12,15). Ele é quem leva a Boa Nova a Maria (Lc 1,26-38). A figura de Gabriel é a de embaixador de Deus.
        
Como aconteceu com Daniel, Gabriel nos interpreta as nossas visões. Ele nos faz compreender o que já intuímos em nosso coração. Mas precisamos compreender também o que Deus deseja operar em nós. Gabriel nos faz compreender o que Deus realiza em nós.

3. Rafael (hebraico “refael” significa “Deus cura/curou”)
        
Segundo o livro de Tobias (Tb 12,15) Rafael é um dos sete anjos ou arcanjos que estão diante do Senhor. Ele desempenha papel importante na história de Tobias. Rafael é o companheiro de viagem (Tb 5-6), aquele que cura (Tb 6; 11,1-15), aquele que expulsa demônios (Tb 6,15-17;8,1-13). É um dos sete anjos que oferecem as orações do povo de Deus e são admitidos na presença do Senhor (Tb 12,15). Peçamos a ele que cure nossas doenças e males que fazem ninhos em nosso coração.
        
Rafael não é somente o Anjo que cura as feridas nossas ou aquele que expulsa os demônios ou o companheiro, mas também é o Anjo que possibilita as relações sadias. Através de Rafael Tobias torna-se capaz de amar sua mulher sem ser morto por ela. E aprende a amar seu pai sem ser determinado por ele.
        
Tudo isso quer nos dizer que Deus está sempre ao nosso lado. Ele é providente para quem se abre a ele. Deus nunca abandona os seus nesta terra (Mt 28,20) desde que sejamos fiéis a Ele eternamente. E somos chamados a ser “anjos” para os outros, isto é, ser mensageiros de Deus que leva somente coisas boas (evangelizar).

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

SEGUIR JESUS INCONDICIONALMENTE PARA ALCANÇAR A LIBERDADE

Quarta-feira, 28 de Setembro de 2011

Texto de Leitura: Lc 9,57-62

Continuamos a acompanhar o caminho de Jesus para Jerusalém e a aprender suas lições do Caminho.

No evangelho deste dia Jesus põe outras três exigências. O primeiro diálogo sugere que o discípulo deve despojar-se das preocupações materiais exageradamente: para o discípulo, o Reino tem de ser infinitamente mais importante do que as comodidades e o bem-estar material. O segundo diálogo sugere que o discípulo deve despegar-se dos deveres e obrigações que, apesar da sua relativa importância impedem uma resposta imediata e radical ao Reino. O terceiro diálogo sugere que o discípulo deve despegar-se de tudo para fazer do Reino a sua prioridade fundamental. Em outras palavras, seguir Jesus exige disponibilidade, radicalidade de entrega e coerência. Quem quiser seguir Jesus, não pode deter-se a pensar nas vantagens ou desvantagens materiais que isso lhe traz, nem nos interesses que deixou para trás, nem nas pessoas a quem tem de dizer adeus.

Muitas vezes temos tentação de estar dispostos a seguir a Jesus apenas durante umas horas de nossa vida, ou em uns aspectos de nossa vida. Muitas vezes temos tentação de colocar condições a Jesus para segui-Lo, apresentando supostamente boas desculpas, como narra o evangelho de hoje: “Deixa-me primeiro ir enterrar meu pai” ou “Deixa-me primeiro despedir-me dos meus familiares”.  O que dizemos parece sensato, mas na verdade é um modo de não aceitar a radicalidade da exigência que nos arrancaria de nossa mediocridade. Não se pode perder o tempo em enterrar tantos mortos que estão dentro de nós mesmos e que nos aprisionam sutilmente: valores mundanos, práticas religiosas sem compromisso e assim por diante. Tudo isto tem que morrer em nós para que possa surgir o espírito de liberdade e de vida nova. Jesus não anula o que tem de bom e de verdadeiro no nosso passado ou do nosso passado, mas nos exige que aprendamos a olhar a vida a partir de um critério absoluto.

“Segue-me” é o convite de Jesus hoje para cada um de nós. Vamos nos fazendo cristãos na medida em que nos atrevermos a seguir a Jesus. Vamos nos abrindo ao Espírito de Jesus para viver como ele viveu e passar por onde ele passou.  O cristão não é somente aquele que evita o mal e sim aquele que luta contra o mal e a injustiça como fez Jesus. O cristão não é somente aquele que faz o bem e sim aquele que luta por um mundo melhor adotando a postura de Jesus e tomando suas mesmas opções. “Segue-me” é o convite de Jesus para caminhar, para avançar e não para ficar parado e paralisado. Pessoas que tem coragem de caminhar são pessoas que fazem a diferença. “Pessoas que fazem diferença não desistem antes de começar, não dão moradia ao desânimo. Pessoas que fazem a diferença sabem que os problemas são relativos, transformam fracassos em aprendizados. Pessoas que fazem a diferença não se deixam amedrontar, alimentam sonhos possíveis. Pessoas que fazem a diferença começam cada dia com convicção, confiam que a vitória é dos persistentes no amor” (Canísio Mayer). “Não é porque certas coisas são difíceis que nós não ousamos; é justamente porque não ousamos que tais coisas são difíceis”, dizia Sêneca.

P. Vitus Gustama,svd
gvitus@hotmail.com

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

CAMINHAR COM JESUS PARA A GLÓRIA

Terça-feira, 27 de Setembro de 2011

Texto de Leitura: Lc 9, 51-56
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“Quanto mais nos esvaziarmos de nós mesmos, tanto mais Deus nos vai encher” (São Vicente de Paula [1581-1660]. Festa: 27 de setembro).

“Os que vão à guerra, levam armas. As nossas armas serão a humildade, a mansidão e a condescendência” (Idem).
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O texto do evangelho de hoje fala do caminho de Jesus para Jerusalém: “Ele tomou a firme decisão de partir para Jerusalém...”. Em Jerusalém Jesus será morto e de Jerusalém sairá o novo movimento de evangelização para o mundo inteiro (cf. Lc 24,47-48; At 1,8) que chegou até nós hoje.

Todos os três evangelhos: Mt, Mc e Lucas falam desta viagem. Mas somente Lucas usa esta viagem de Jesus com o motivo catequético básico, de que a vida de Jesus foi também um longo caminhar para uma meta: “As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. O “caminhar” de Jesus é um êxodo permanente até chegar à glória. Ele luta até chegar à meta: até à glória. Durante esse caminho Jesus foi instruindo a comunidade de discípulos de acordo com o Seu próprio caminhar. Os discípulos de todos os tempos encontram, então aqui, a regra perene de sua atuação cristã. Neste texto encontramos maneira sobre como os cristãos devem se comportar e viver como seguidores de Cristo. Trata-se de uma “caminhada” interior, isto é, a caminhada que parte do que somos até o esvaziamento completo de nós e até a vivência na plenitude da vontade de Deus que é a salvação ou glorificação de nossa vida em Deus.

O fundo do relato do texto do Evangelho lido neste dia é a inimizade e o ódio entre samaritanos e judeus originalmente de tipo racial; depois de tipo político e religioso. O caminho habitual da Galiléia para Jerusalém passa por Samaria. Um grupo galileu de discípulos vai adiante para preparar a hospedagem para Jesus em Samaria. Mas os samaritanos não aceitam a presença de Jesus em Samaria, pois ele está a caminho para Jerusalém. Os samaritanos interpretam o caminho para o Templo de Jerusalém como infra-valorização do templo Garizim construído sobre um monte onde os samaritanos fazem suas atividades religiosas e não em Jerusalém (em 129 a. C João Hircano o destruiu). Por essa recusa os discípulos disseram a Jesus: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para destruí-los?”. Esta frase nos lembra do episódio entre o profeta Elias, defensor do monoteísmo, contra os mensageiros do rei Ocozias que consultava outros deuses sobre como curar suas feridas. Por isso o profeta Elias pediu o fogo do céu e o fogo caiu sobre esses mensageiros e morreram todos (cf. 2Rs 1,1-18).

Diante da proposta dos discípulos Jesus enfatiza que qualquer discípulo, qualquer cristão não pode se mover por sentimentos de vingança, de violência, de desafronta, de intolerância ou de intransigência. Quem é tolerante não vê a diferença e a alteridade como ameaça, e sim como estímulo para se aproximar e aprender do outro numa atitude de diálogo.

O radicalismo de nossas atitudes, muitas vezes, é uma expressão de nossa pouca bondade. Com esta pouca bondade tomamos atitudes que violentam a história de Deus com os homens. A violência sempre gera um processo desumanizador que perverte radicalmente as relações entre os homens, introduz na história novas injustiças e impede o caminho para a reconciliação.

O fogo que Cristo traz do céu não é aquele que queima e elimina as pessoas, e sim aquele que ilumina e purifica o mundo de suas impurezas. É o fogo do Espírito Santo. É o fogo de amor. O único fogo que nós cristão podemos usar é o fogo de amar aos demais até o fim como fez Jesus. Jesus nos libertou para sermos livres, como diz São Paulo (Gl 5,1). Liberdade em Cristo é para amar mais e melhor. Amar a Deus e ao irmão é condição para ser livre. A liberdade daquele que ama a Deus e ao irmão é a identificação total com a vontade de Deus, com o bem e com a verdade.

Por isso, o caminho que Jesus propõe para quem quiser segui-lo não é um caminho de “massas”, mas um caminho de “discípulos”: implica uma adesão incondicional ao “Reino”, à sua dinâmica, à sua lógica. Implica uma adoção do espírito de Jesus que é o espírito de amor.

P. Vitus Gustama,svd
gvitus@hotmail.com
PODER E AUTORIDADE, SECTARISMO E BONDADE

Segunda-feira, 26 de Setembro de 2011

O texto da Leitura: Lc 9,46-50

Entre Poder e Autoridade
  
Na primeira parte do evangelho lido neste dia o evangelista Lucas nos relatou que entre os discípulos houve uma discussão sobre quem era maior ou quem tinha mais poder. Em outras palavras, eles tinham ambição de ter o poder na mão. Isso significa que até então eles ainda não captaram o essencial da mensagem de Jesus.

Quem tem o poder geralmente impõe aos outros suas decisões, muitas vezes através dos meios injustos como opressão, repreensão, tortura, ameaça, execução etc.. O poder não respeita a liberdade humana, por isso ele não faz que os homens se tornem bons.  O poder obriga e impõe o silêncio. Quem tem poder geralmente não se preocupa com a ética e com a humanidade. Aquele que tem poder sempre tem tendência de manipular as pessoas e dirigi-las para seus próprios objetivos e sua necessidade de poder.

O contrário do poder é a autoridade. A autoridade está ligada ao crescimento. A palavra “autoridade” vem do latim “augere”, que quer dizer “crescer”. Exercer a autoridade significa sentir-se realmente responsável pelos outros e por seu crescimento sabendo que eles são pessoas que tem um coração, nas quais existe o Espírito de Deus (cf. 1Cor 3,16-17) e que são chamadas a crescer na liberdade da verdade e do amor. Na linguagem bíblica, a autoridade é uma rocha que dá apoio. É o pastor que conduz o gado para o bom pasto (cf. Sl 23 sobre o bom pastor; cf. Jo 10). Os membros da comunidade são essencialmente o rebanho de Jesus: “Apascenta as minhas ovelhas” (cf. Jo 21,15-17). Os membros de uma comunidade logo sentem quando os responsáveis (autoridade) os amam e querem ajudá-los a crescer e não quando estão presentes apenas para administrar, impor sua lei e sua própria visão. A autoridade é o autêntico serviço para a comunidade. A crise de liderança geralmente surge da crise da autoridade.

Entre Sectarismo-Monopólio e Abertura Ao Espírito Divino

A segunda parte do Evangelho de hoje nos relata que o discípulo João se queixa por ter visto alguém “expulsando demônios” em nome de Jesus, mas esse alguém não pertence ao grupo dos discípulos. A reação de João é imediata: proibir que se faça o bem, pois não é membro da comunidade dos seguidores de Cristo. Com essa proibição os discípulos mostram seu comportamento incompatível com o Reino de Deus: arrogância, sectarismo, intransigência, intolerância, ciúmes, mesquinhez, pretensão de monopolizar Jesus e a sua proposta.
          
Diante desse comportamento dos discípulos Jesus disse-lhes: “Não o proibais, pois quem não está contra vós está a vosso favor”. Com esta exortação Jesus quer que os discípulos superem o sectarismo na prática do bem.  A comunidade cristã deve ser colaboradora na prática do bem e acolher todas as pessoas que praticam o bem independentemente de pertencer ou não à Igreja.

O Espírito de Deus é livre e atua onde quer e como quer. Ele não está limitado por fronteiras, nem por regras, nem por interesses pessoais, nem por privilégios de grupo. Nenhuma Igreja ou religião ou grupo tem o monopólio do Espírito Santo, nenhuma instituição consegue controlá-lo nem prendê-lo. O Espírito não é privilégio dos membros da hierarquia; mas está bem vivo e bem presente em todos aqueles que abrem o coração aos dons de Deus e que aceitam comprometer-se com Jesus e o seu projeto de vida. Somos convidados a abandonar atitudes como o fanatismo, a intolerância, a intransigência, preconceitos, etc, pois elas fazem fechar os olhos e o coração diante da manifestação do amor de Deus em tantas pessoas de boa vontade mesmo que se digam não acreditar em Deus, mas Deus acredita nelas por causa do bem que elas praticam. Não temos que sentir-nos ciumentos se Deus quer agir no mundo através de pessoas que não pertencem à nossa Igreja.

Os cristãos são chamados a constituir uma comunidade sem arrogância, sem ciúmes, sem presunção de posse exclusiva do bem e da verdade, pois estes sentimentos e atitudes são incompatíveis com a opção pelo Reino: “Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes” (1Pd 5,5b;Pr 3,34).

P. Vitus Gustama,svd

gvitus@hotmail.com

sábado, 24 de setembro de 2011

O DIZER E O FAZER NO SEGUIMENTO COMO CRISTÃO

Reflexão Para XXVI Domingo Do Ano Litúrgico A

Texto de Leitura: Mt 21,28-32

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“Faze o que deves fazer. E faze-o bem. Esta é a única norma para alcançar a perfeição” (Santo Agostinho. In ps. 34, 2,16)

“Se não podes fazer todo o bem que tu queres, isso não é motivo para que te negues a fazer tudo o que podes” (Santo Agostinho. Epist. 166,1)
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Depois de instruir a seus discípulos sobre seu destino e sobre as exigências do seguimento (Mt 16,21-20,34), Jesus entra em Jerusalém, centro do poder político, econômico, religioso, judiciário e ideológico do povo de Deus, representado pelo Sinédrio, o Supremo Tribunal dos judeus, responsável pela morte de Jesus. Jesus se confronta com essas lideranças e, uma após outra, vai desmascarando-as, mostrando seu descompromisso com o bem comum. De acusado (Mt 21,23) Jesus passa ao ataque através de parábolas contadas para essas lideranças (Mt 21,28-22,14).

A parábola dos dois filhos tem uma função similar à parábola do filho pródigo de Lucas (Lc 15,11-32) embora cada evangelista a desenvolva diversamente. A mesma parábola também é o eco do Sermão da Montanha que enfatiza o fazer do que o dizer (Mt 7,21-23; cf. Mt 12,50;23,3-4).
          
O evangelista Mateus começa a parábola com a seguinte pergunta: “Que vós parece?” (v.28a). Esta pergunta é típica de Mateus (cf. Mt 17,25; 18,12;22,17; 26,66). A pergunta não é mais dirigida aos discípulos, mas aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos do povo, os mesmos interlocutores da unidade anterior (cf. Mt 21,23-27). A pergunta obriga os ouvintes a comprometerem-se e a tomarem posição. A resposta à pergunta torna-se um julgamento para os próprios ouvintes. E no fim da parábola, mais uma vez, os mesmos interlocutores são obrigados a escolher “qual dos dois fez a vontade do pai?” (v.31). A resposta dada a estas perguntas pelos ouvintes será sua salvação ou seu juízo.
          
A parábola coloca os dois filhos em contraste. Contrasta a maneira como se dirigem ao pai: o primeiro (filho mais velho) de forma mal educada e grosseira e rebelde para os padrões comportamentais daquele tempo: “Não quero ir”; o segundo de forma delicada e polida, não sabe dizer “não”, mas desmente tudo na prática: “Eu irei, senhor”. Mas não foi. Contrasta a atitude que tomaram: um foi e o outro não foi. E, de modo especial, contrasta a contradição entre a palavra e a ação dos dois. O primeiro filho peca por falta de boa educação. Ele não admite conversa ou diálogo. Mas ele vai trabalhar. O segundo, apesar de sua boa educação, apesar de seu “sim” verbal, não vai trabalhar. O pai se agrada com o “não” arrependido do filho mais velho, e não com o “sim” gentil, mas mentiroso do filho mais jovem.
          
Os ouvintes de Jesus não tiveram dificuldade de dar uma resposta exata à pergunta de Jesus: “Qual dos dois fez a vontade do pai?”. Sem hesitarem os ouvintes responderam: o primeiro filho, isto é, aquele que falou que não iria, mas de fato foi e fez o que o pai pedia. Mas ao dar a resposta os próprios ouvintes foram colocados contra a parede e se auto-condenaram.
          
A mensagem, portanto, é muito clara. Entre palavra e ação, a primazia é dada á ação. Entre intenção e ação, a primazia é dada à ação. O homem se salva não pelas palavras, intenções, palavras estéreis e descompromissadas, mas por fatos concretos e precisos. Um bom exemplo é o melhor conselho.
         
O critério do agir é tão fundamental que a primeira denúncia que se fez dos escribas e fariseus é que o agir deles era fictício: eles agiam apenas de modo aparente, faziam de conta que agiram, mas na realidade não agiram. Desse modo eles pecaram contra os seus próprios princípios.
          
Quando nós não somos fiéis à nossa palavra deixa de respeitarmos a nós mesmos e conseqüentemente aos outros e a verdade não está em nós, não somos fiéis a nós mesmos, e também aos outros. Deste jeito estamos mentindo para nós mesmos e para os outros. A mentira é a defesa fácil dos fracos, que não são capazes de assumir a responsabilidade de seus atos. Triste é que o mentiroso não somente se condena a si próprio a vergonhosas contradições, mas também priva os demais do direito que têm à verdade, semeando desconfiança entre as pessoas. Basta alguém contar uma mentira e ele será forçado a contar outras para sustentá-la, pois cada mentira requer que outras mentiras a apóiem.
         
O fazer ou o agir é tão importante que Jesus Cristo pede aos discípulos o seguimento. Seguir a Jesus é agir com ele e como ele, acompanhá-lo no seu agir. Jesus chama os discípulos convidando-os a segui-Lo (Mt 4,19-22; 8,22; 9,9; 16,24; 19,21.27).
         
Então, o que importa não é aquele que se comporta bem que se salva, e sim quem cumpre a vontade de Deus. O que conta diante de Deus não são as aparências, nem as boas intenções ou palavras, mas a PRÁTICA. Deus olha para o que de fato fazemos, não importa o que pensamos ou dizemos. Em Deus o homem vale pelo que faz e não pelo que fala. Neste sentido, o que importa não é a conversão externa, e sim a atitude interior. E aquele que honra a Deus, não é aquele que observa uns ritos exteriores, mas sim aquele que põe em prática a vontade de Deus. Por isso, devemos ficar sempre atentos para que a nossa prática religiosa ou nossos ritos exteriores, não seja mais importante que nosso Deus e nosso próximo.
                     
Numa ocasião o Papa Paulo VI disse: “O grande pecado da moderna cristandade é o vazio entre a fé e as obras. É o pecado de ser ilógico, inconsciente e infiel”. O maior escândalo de nossos tempos é a separação da religião da vida. Reza-se, mas não se vive o que se reza. Canta-se mas não se vive o que se canta. Recebe-se a Eucaristia, mas não se vive a comunhão fraterna. Dobra-se os joelhos diante do sacrário, mas despreza-se o irmão, o corpo vivo e imagem de Cristo (cf. 1Cor 3,16-17).
           
O Evangelho de Mateus enfatiza muito a questão do AGIR. O critério definitivo para Jesus é o agir. A regra decisiva do discernimento é a distinção entre o falar e o agir. Por isso, os verdadeiros discípulos são os que agem conforme a Palavra de Deus, os que praticam a vontade de Deus. Ao contrário, os falsos discípulos são aqueles que falam palavras bonitas, mas não fazem nada. Por isso, Jesus diz, no sermão do monte: “Nem todo aquele que me diz ‘Senhor, Senhor’ entrará no Reino dos Céus, mas sim aquele que pratica a vontade do meu Pai” (Mt 7,21). Da mesma maneira, o verdadeiro profeta se reconhece pelos frutos (Mt 7,16-20).
          
A parábola dos dois filhos é um convite para fazermos o sério exame de consciência sobre o nosso agir diário. As nossas palavras nunca podem ultrapassar o nosso agir para não sermos chamados de cristãos descompromissados ou cristãos de fachada. Se não nos convertermos continuamente, o mundo vai repetir as palavras de Mahatma Gandhi: “Eu aceito o vosso Cristo, mas não aceito o vosso cristianismo”.

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

QUEM É JESUS PARA MIM EM TODOS OS MOMENTOS DA MINHA VIDA?

Sexta-feira, 23 de Setembro de 2011

Texto de Leitura: Lc 9,18-22

“Para ser um bom orador é necessário ser um bom orante” (Santo Agostinho. De doc. christ. 4,15,32)

O evangelista Lucas volta ao tema do evangelho do dia anterior sobre a identidade de Jesus (cf. Lc 9,7-9). No texto do evangelho do dia anterior o interessado por saber quem era Jesus foi Herodes Antipas, filho do rei Herodes, o Grande. No texto do evangelho de hoje é o próprio Jesus quem dirige a pergunta a seus discípulos. Quem é Jesus para as pessoas em geral e quem é Jesus para os próprios discípulos?

A resposta do povo é múltipla: Elias, João Batista, um profeta que ressuscitou. Segundo os discípulos Jesus é o Messias. “Messias” é palavra hebraica que é em grego “Christos” que significa “Ungido”. Jesus é o Ungido de Deus, ou seja, Aquele sobre quem Deus derramou seu Espírito, ungindo-o com Sua força para que leve a cabo uma missão.

Mas que tipo de Messias Jesus é? Estamos aqui no centro da fé: crer em um Messias que será crucificado. A cruz de Jesus não é um incidente e sim uma conseqüência. A presença de Deus se manifesta no caminho da cruz, isto é, na entrega de si mesmo, na recusa de toda imposição, no amor que aceita ser contradito e aparentemente derrotado: “É necessário o Filho do Homem sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, ser morto e, no terceiro dia, ressuscitar”.

Mas a cruz de Jesus é saborosa, pois trata-se de uma vida vivida até o fim por amor aos homens (cf. Jo 3,16). Por isso, na sua cruz vemos com clareza o amor de Deus por cada um de nós. Deus encarnado é capaz de tudo, até o impossível, pois cada um tem um valor incalculável diante de Deus. Por você e por mim Deus se encarnou em Jesus e por amor a nós todos aceitou ser crucificado (cf. Mt 8,17; Jo 3,16). O caminho do amor é o caminho que nos leva à salvação. Por este caminho não há outro caminho para chegar até Deus que é  Amor por excelência (1Jo 4,8.16).

O amor transforma tudo. Com amor levamos a carga sem carga, pois o amor torna tudo leve. O amor faz doce e saboroso o que é amargo. O amor nobre de Jesus nos impulsiona a desejar sempre o mais perfeito e a fazer o bem para todos. O amor não é detido por qualquer coisa deste mundo. O amor quer ser livre. Não há nada que seja mais doce, mais forte, mais alto, mais alegre, mais humano e mais divino do que o amor, pois o amor nasce de Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). O amor sempre vela, e dormindo não se dorme; fatigado, não se cansa; angustiado, não se angustia; espantado, não se espanta; é forte até na sua fraqueza.

A pergunta de Jesus é repetida para nós em todos os momentos: “Quem é Jesus para nós?”. Não se trata de uma pergunta supérflua. É claro que “sabemos” já quem é Jesus. Não somente cremos em Jesus como o Filho de Deus e Salvador da humanidade, mas queremos segui-Lo com fidelidade na vida de cada dia. Mas temos que refrescar ou renovar com freqüência esta convicção, pensando se realmente nossa vida está orientada para Ele, se nossas opções de cada dia estão de acordo com seus critérios. Quem é Jesus para mim agora, nesta etapa concreta da vida que estou vivendo? Não podemos responder a esta pergunta com palavras magistrais nascidas do estudo. Nossa resposta deve ser muito simples, nascida da vida de cada dia com o próprio Senhor.

O segundo ponto que Lucas quer nos transmitir através do texto do evangelho de hoje é a importância da oração. Lucas nos mostra Cristo em oração toda vez que ele toma uma decisão importante ou quando se compromete em uma etapa de sua missão (Lc 3,21; 6,12; 9,29; 11,1; 22,31-39). Lucas é o único evangelista que menciona a oração de Cristo antes de obter a profissão de fé nos seus e de anunciar-lhes sua Paixão. Assim cabe pensar, como em cada uma das demais circunstâncias mencionadas por Lucas, que Jesus reza pelo cumprimento de sua missão cujos contornos ele não vê mais que na obscuridade. Através da oração vemos a realidade de sua humanidade.

Se a oração de Jesus demonstra a realidade de sua humanidade, não deixa de ser um sinal de sua divindade. Que Jesus pode reunir em sua oração a profundidade de sua pessoa, onde se estabelece sua vocação como o Ungido de Deus, é o indício de que dispõe do Espírito do Pai. Com feito, a oração não é um discurso que se dirige a Deus como um objeto. Tem Deus por sujeito que conhece a profundidade de nosso ser. Não podemos alcançar esta profundidade sem a ajuda do Santo Espírito (cf. Rm 8,26-27). Do ponto de vista humano podemos dizer que somente aquele que reza profundamente é que reconhece os próprios limites e fraquezas, pois diante de Deus tudo fica iluminado. A história de nossa oração é a história de nossa vida, pois na oração contamos para Deus tudo o que acontece na nossa vida embora Ele saiba de tudo. Erraremos o caminho se pararmos de orar, pois Deus é a Luz de nossa vida (Jo 8,12).


P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

 JESUS QUE NOS INTERPELA

Quinta-feira, 22 de Setembro de 2011

Texto de Leitura: Lc 9, 7-9

Curiosamente, a pergunta de Herodes sobre Jesus surge entre o relato da missão dos Doze e o da multiplicação dos pães. Herodes se pergunta: “Eu degolei João. Quem é, pois, este, de quem ouço tais coisas? E procurava ocasião de vê-lo”.

A pergunta de Herodes tem outra profundidade, efetivamente, coincide com a pergunta de todos os que se sentem interpelados pela pessoa e pelo modo de viver de Jesus e pelo testemunho dos discípulos. Herodes estava cheio de curiosidades porque no meio do povo se falava muito de Jesus, se contava mil coisas sobre Ele, dos seus lábios saiam palavras com poder e autoridade, se contavam fatos extraordinários como os milagres realizados por Ele. Herodes que estava no poder queria ver esse individuo tão “exótico” numa Galiléia tão provinciana. Uma das maneiras de falar de Deus e com Deus é a “voz de nossa consciência”. Herodes não tinha a consciência tranqüila: uma voz do fundo de si mesmo lhe recordava seu pecado, sua maldade. Por isso, fica inquieto.

A sabedoria popular diz que há curiosidades maldosas, tais como as de Herodes,... quando permitem abusar de um poder ou de um interesse que elas atribuíram injustamente; quando alimentam o escândalo que elas mesmas exploram ou inventaram. Herodes queria ver Jesus para colocá-lo em sua Corte.

Mas se há curiosidades maldosas, precisamos estar conscientes de que a curiosidade também é o primeiro passo para o encontro e para a fé. O assombro, a surpresa, a provocação são o pórtico que nos introduz no descobrimento dos labirintos da casa e que nos inicia no mistério de uma morada. Curiosidade é sinônimo de descobrimento; é tensão até um objeto entrevisto ou desejado. 

Herodes sentiu curiosidade de querer ver Jesus, mesmo com intenções maldosas. Será que nós, chamados de cristãos, ainda sentimos curiosidade por Jesus? Será que já descobrimos esse Jesus na sua profundidade? Será que conhecemos realmente esse Jesus? Será que somente confessamos em Jesus nas definições sem alma e reconhecê-lo nos dogmas frios e secos? Será que paramos de ter curiosidade sobre a pessoa e o modo de viver de Jesus a fim de purificar nossa vida já que somos chamados de cristãos?

A fé é curiosidade permanente, isto é, assombro que compromete a arriscar-se na aventura, num encontro entrevisto, e em conseqüência, desejado. A fé é curiosidade, de forma que a dúvida lhe é indispensável, pois a dúvida é o estado de equilíbrio entre afirmação e negação. Por isso, somente na coragem de fazer uma aventura cheia de riscos é que chegaremos à resposta desejada para afirmar ou negar nossa dúvida. A incerteza e a incompreensão pertencem ao terreno de nossa fé como o oco que espera ser preenchido, como a espera que aguarda o encontro, como a fome que se alimenta com o que pode satisfazê-la.

A pergunta continua fica no ar para cada cristão: “Será que você ainda tem curiosidade de Jesus? Que curiosidade você tem de Jesus?”. Tenho medo de que quando a curiosidade sobre Jesus morrer, morrerá também nossa fé.



P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 20 de setembro de 2011

SEGUIR A JESUS É SER SEU DISCÍPULO

Quarta-feira, 21 de Setembro de 2011

Texto de Leitura: Mt 9,9-13

Depois da cura do paralítico Jesus se encontra com Mateus, cobrador de impostos e o chama para segui-lo: “Segue-me!”. Trata-se de um homem que o povo detesta, pois um colaborador do governo romano na cobrança de impostos. Os publicanos se enriquecem, especialmente, a custo dos pobres. Por isso, é uma profissão odiada.

Mas Jesus chama Mateus para segui-lo: “Segue-me” (Mt 9,9). E ele o segue (Mt 9,9). Ele diz a mesma coisa para Simão e André (Mt 4,19) e para Tiago e João (Mt 4,21). O termo “seguir” (akoloutheo, em grego) aparece 90 vezes no NT, das quais 11 vezes se encontram fora dos Evangelhos (em Atos, 4 vezes; em Ap, 6 vezes; e o resto em 1Cor 10,4). Nos evangelhos este termo se refere ao seguimento de Jesus (no total 73 vezes).
          
O verbo “seguir”, em sentido próprio, significa “ir atrás de alguém”; e no sentido figurado significa “ser discípulo”, “ir em seguimento de alguém”. Seguir significa andar, avançar, ver mais, aprender mais. Quem andar, quem caminhar vai encontrar muita coisa no caminho. Quem fica parado e paralisado vê menos.
          
Seguir a Jesus significa romper todo o passado, abandonar tudo (cf. Mt 4,18-22;9,9s;19,21;Lc 9,61;Mc 10,28), submetendo-se com fé e obediência à salvação oferecida em Cristo. Seguir também tem sentido de imitação. Neste sentido seguir significa unir-se com Jesus numa comunhão de vida e de destino; é modelar-se segundo o exemplo de Jesus (cf. Jo 13,15.34;15,12;1Ts 1,6;1Cor 11,1;Ef 5,2;1Jo 2,6 etc.). Assim, seguir a Jesus não é apenas aderir a um ensinamento moral e espiritual, mas compartilhar sua sorte. Por isso, Jesus exige o desapego total: renunciar às riquezas e à segurança, deixar os familiares (Mt 8,19-22;10,37;19,16-22), sem esperar o retorno (troca ou retribuição). Ao exigir de seus discípulos um tal sacrifício, Jesus se revela como Deus, única garantia, e revela integralmente até que ponto vão as exigências de Deus. Pode ser que seja até o sacrifício da cruz e até se sentir abandonado pelos outros, como Jesus sentiu (Mt 26,56).
          
A partir deste sentido, somos convidados a refletir sobre o nosso seguimento de Cristo. Até que ponto estamos dentro deste padrão? Em outras palavras, o que significa para nós hoje seguir a Jesus? Para responder esta pergunta, devemos responder outra pergunta: quem é Jesus a quem seguimos?
          
Seguir a Jesus é viver a sua vida. E a vida de Jesus foi marcada particularmente por amor ao Pai e aos homens, especialmente aos mais necessitados. Seu relacionamento profundo com o Pai se traduz na prática da solidariedade com os marginalizados e pecadores. Seguir a Jesus é viver segundo o seu projeto. Ele quer que as relações humanas e sociais se baseiem sobre a justiça, o amor, a fraternidade e o perdão. Tudo isso se tornará realidade, se o homem se descobrir como filho de um Pai amoroso. Seguir a Jesus é estar pronto para viver o seu destino. Viver segundo o projeto de Jesus leva o seguidor a viver o martírio. O martírio é o preço a pagar pela fidelidade à causa jamais traída. Quem se propõe a seguir a Jesus deve estar pronto também para viver a bem-aventurança das perseguições (Mt 5,10s).

Ao ouvir a chamada do Senhor Mateus prontamente aceitou o convite. Não só a prontidão para seguir a Jesus, mas a prontidão para limpar seu coração de toda a maldade praticada, pois ele era um cobrador de impostos e por isso, era um ladrão diplomado, pecador público, ladrão do bem comum. Ele deixa seu coração livre e limpo para que o Senhor possa usá-lo para o bem do seu Reino. O fruto maior de sua conversão para nós hoje é o evangelho que ele escreveu sobre a vida de Jesus: O evangelho de Mateus. Através do seu evangelho conhecemos o Jesus em quem acreditamos, como Emanuel, Deus Conosco (Mt 1,23; 18,20; 28,20).

Hoje é o dia mais adequado para recordar nosso particular “segue-me”. É o dia em que celebramos uma festa por nosso nome, pois Deus nos chama pelo nome. Diante de Deus cada um tem nome e Deus chama cada um pelo nome (cf. Is 43,1; Jo 10,3). É o dia adequado para recordar a maneira que Deus chamou cada um de nós. O seguimento é a expressão prática da fé/adesão. Mas temos que estar conscientes de que esse chamamento é permanente. Quem não tem tempo para ouvir Deus permanentemente, vai ouvir somente desgraças dos outros e do mundo. Quem não presta para Deus, não presta para os outros. Mas quem presta para os outros é porque no seu coração mora Deus, mesmo que ele não tenha nenhuma religião. Temos que confessar que o que determina a nossa salvação não é aquilo que rezamos, pois pode acontecer que fazemos apenas monólogos nas nossas orações. A oração feita é um compromisso assumido para viver de acordo com o Espírito de Deus. O que determina nossa salvação é o nosso comportamento diário, nossa maneira de viver e de conviver de acordo com o bem praticado (cf. Mt 25,31-46).


P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

SER MEMBRO DA FAMÍLIA DE JESUS


 
Terça-feira, 20 de Setembro de 2011

Texto de Leitura: Lc 8,19-21

“Minha mãe e meus irmãos são aqueles, que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”.

A comunidade com Jesus está no ouvir e no tornar realidade a Palavra de Deus. Maria é a mãe de Jesus por causa do seu “sim” total e absoluto, dado um dia à Palavra de Deus. “Faça-se em mim segundo a Tua Palavra” (Lc 1,37), disse Maria, a mãe de Jesus na anunciação. Maria guarda cada Palavra e a medita em seu coração (Lc 2,19). Ela leva a Palavra a Isabel, e seu anúncio é tão rico que transborda em um cântico chamado “Magnificat” (Lc 1,46-55). Maria é o coração bom que retém a Palavra de Deus e produz fruto com constância. Maria foi um “sim” à Luz e deu a luz a Luz do mundo. Por isso, o texto do evangelho deste dia é um grande elogio de Jesus a Maria, sua mãe que entregou totalmente sua vida e sua vontade a Deus para o bem de todos. Maria escuta a Palavra de Deus, medita-a e vive de acordo com esta Palavra.
        
Para escutar bem precisamos criar o silêncio dentro de nós e ao nosso redor. O silêncio cria ressonância à Palavra. Para escutar bem é necessário que estejamos vazios de nós mesmos: “Estar vazio de toda criatura é estar cheio de Deus. E estar cheio de toda criatura é estar vazio de Deus” (Meister Eckhart). O silêncio é um vazio em que a plenitude se torna presente. O silêncio nos ajuda a calarmos em nós a fantasia, o nosso rancor, o nosso ódio, o nosso medo, a nossa angústia, a nossa indiferença, o nosso mau humor, a nossa inveja, o nosso orgulho, ou o nosso ser em geral, e a limparmos da alma tudo quanto nos possa perturbar para ouvir a verdade de Quem é maior que nós: Deus.
        
Cada um de nós é vítima da agressão externa de hordas de palavras, de sons, de clamores, que ensurdecem o nosso dia e até mesmo, às vezes, a nossa própria noite. Somos agredidos e envolvidos pelo multilóquio mundano que, com mil futilidades, nos distrai e nos dispersa. Só depois do amor ao silêncio é que despertará a nossa capacidade de escuta.
    
Quando compreendemos a Palavra de Deus como um chamado urgente para ser escutada é que conseguimos perceber melhor o que está em jogo na nossa vida. É a Palavra de Deus que nos mostra o que fazer e como fazer.

Uma comunidade somente pode ser chamada de a Igreja de Cristo, se cada um de seus membros souber viver de acordo com a Palavra de Deus. O povo eleito foi formado não por decreto, mas pela escuta e pela obediência à Palavra de Deus. A Igreja de Cristo é edificada pela Palavra de Deus. Esta é a alma da Igreja e a Igreja é seu fruto. Da Palavra de Deus brota sempre Igreja viva. Somos cristãos não por decreto, mas pela convicção e pela opção. Ser cristão significa viver no mistério de amor que Deus nos comunicou através de Jesus, Deus encarnado, como nova possibilidade de existência. A partir desse amor de Deus que nos é oferecido nós devemos ser ponte de amor para os outros. Os irmãos e as irmãs se reconhecem mutuamente pela mesma prática do amor fraterno, pela disposição a viver reconciliados e a trabalhar juntos pela causa de Jesus.

Além desse amor mútuo, outra característica da comunidade de Jesus é o serviço mútuo. Quando um começar a servir o outro na comunidade, todo tipo de rivalidade desaparece. Mas quando cada um começar a se considerar como o mais importante do que os outros, a disputa e a briga vão começar a acontecer na própria comunidade e a comunidade perderá sua força para dar testemunho. Se cada membro deixar de cuidar do outro membro da comunidade, a comunidade vai formar uma comunidade de traidores, como Judas que traiu o próprio Mestre. E as palavras de Mahatma Gandhi vão ter que soar novamente nos nossos ouvidos: “Aceito vosso Cristo, mas não aceito vosso cristianismo”.

Se o Senhor nos diz hoje: “Minha mãe e meus irmãos são aqueles, que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática”, cada um de nós precisa se perguntar: “Será que sou mãe, irmã ou irmão de Jesus? Será que posso me dizer que sou um dos membros da comunidade de Jesus?”. Que Deus nos conceda, por intercessão de Maria, nossa Mãe. A graça de viver de acordo com a Palavra de Deus para que possamos, pela misericórdia divina, alcançar os bens eternos.

P. Vitus Gustama,svd

domingo, 18 de setembro de 2011


SER LUZ PARA OS DEMAIS

Segunda-feira, 19 de Setembro de 2011

Texto de Leitura: Lc 8,16-18

No sábado passado refletimos sobre a parábola da semente que é a Palavra de Deus que é capaz de produzir frutos abundantes se soubermos escutá-la com um coração nobre e generoso.

Os breves ensinamentos de Jesus no texto do evangelho de hoje são continuação do ensinamento no sábado passado. “Ninguém acende uma lâmpada para cobri-la com uma vasilha ou colocá-la debaixo da cama; ao contrário, coloca-a no candeeiro, a fim de que todos os que entram vejam a luz”, assim Jesus nos diz hoje. Jesus quer que sejamos luz que ilumine os demais. No Sermão da Montanha Jesus define nosso ser como sal e como luz: “Vós sois o sal da terra. Vós sois a luz do mundo” (Mt 5,13-14). Trata-se de uma presença indispensável para os demais. Um cozinheiro pode colocar todos os tipos de tempero na comida, mas basta o sal estar ausente, o resto fica sem sabor. Basta colocar o sal na comida, mesmo que não tenha outros temperos, a comida fica saborosa. O sal com outros temperos faz com que a comida fique mais saborosa ainda. Alguém pode querer andar para qualquer lugar, mas sem a luz nada poderá acontecer. Se cada cristão tiver consciência de sua importância neste mundo, ele não perderá tempo para iluminar a vida dos outros e para dar sabor à vida dos demais. Sua vida é para os demais.

Mas o cristão precisa ser, primeiro, iluminado pela Luz divina que é o próprio Cristo (Jo 8,12) para que possa ser reflexo dessa Luz para os outros. Ao contemplar Cristo, Luz do mundo, o cristão se torna um reflexo de Cristo para os demais. O que o cristão recebe de Deus é para a edificação dos demais. Ele não pode viver só para si: “Ninguém acende uma lâmpada para cobri-la com uma vasilha ou colocá-la debaixo da cama”. Ele precisa ter consciência de sua missão como luz para os demais: “... ao contrário, coloca-a (luz) no candeeiro, a fim de que todos os que entram vejam a luz”. O cristão deve fazer-se publico, mostrando seu rosto como cristão para iluminar as pessoas ao seu redor. Se temos uma certa tendência de privatizar a fé, Jesus nos convida a darmos testemunho diante dos demais publicamente de acordo com a vocação de cada um de nós na sociedade: político, médico, artista, esportista, professor e assim por diante. Sua presença em qualquer lugar deve ser como a presença da luz: iluminar.

Se o cristão não viver de acordo com sua essência como sal da terra e luz do mundo vai se cumprir nele o que Jesus diz hoje: “A quem tem alguma coisa, será dado ainda mais; e àquele que não tem, será tirado até mesmo o que ele pensa ter”. Os dons que não se fazem frutificar se perdem. Os músculos que não se fazem atuar se atrofiam. E a fé se apaga aos poucos quando não se coloca em prática.

Sendo luz do mundo e sal da terra, o cristão se tornará um amigo que sabe animar e dizer uma palavra orientadora para as pessoas ao seu redor. No dia de nosso Batismo acendemos uma vela no Círio pascal que é o símbolo de Cristo. É um gesto que nos recorda nosso compromisso, como batizados, de dar testemunho dessa luz diante das pessoas que conosco convivem ou trabalham. Somos Igreja missionária para evangelizar.

 P. Vitus Gustama,svd