quarta-feira, 4 de abril de 2012

SEXTA-FEIRA SANTA


Gostaríamos de falar de dois temas nesta Sexta-feira Santa. Primeiro, os sofrimentos de Jesus à luz dos evangelhos. A partir deste tema cada um pode verificar a própria experiência em relação aos sofrimentos. Quem sabe no fim sairá da boca este tipo de frase: “Eu também passei por esse sofrimento, mas Jesus sofreu muito mais do que eu”. Segundo, se falará um pouco sobre a teologia da cruz. Neste tema queremos saber por que Jesus foi crucificado? Será que é necessário falar ainda da cruz enquanto Jesus já ressuscitou ? Qual lição podemos tirar deste tema?


1.  Os sofrimentos de Jesus à luz dos evangelhos

Como qualquer ser humano, conseqüência da encarnação, Jesus sente na própria carne todas as dimensões do sofrimento humano. Ele é participante de todos os sofrimentos humanos(cf. Salvifici Doloris de João Paulo II). Sua vida inteira está marcada pelo sofrimento, e todo sofrimento vai apontando para frente, para o seu triunfo final.

Mas para poder falar com profundidade de Jesus como figura de homem sofredor é preciso destacar a atitude da alegria de Jesus. Pois somente tem real capacidade de sofrer muito quem tem a capacidade de gozar profundamente. A presença de uma coisa ou de uma palavra supõe a existência da outra. Não pode se falar da liberdade quando não existe a prisão; não se pode discutir sobre a paz quando não aconteceu a guerra. A saúde existe porque existe a doença. O rico existe por causa da existência do pobre. A fome faz alguém valorizar o pão. A presença da briga faz alguém falar de reconciliação ou de perdão, assim por diante. Tudo isto chama-se o paradoxo da vida. E isso se cumpre em Jesus de maneira privilegiada. Nele se enquadra a imagem de Isaías do Servo sofredor precisamente porque também lhe cai a imagem de libertador, de irmão, de amigo, de semeador da esperança e de consolação e de alegria na existência humana. Jesus é o homem das dores e ao mesmo tempo o libertador de toda dor.

Nosso mundo não sabe combater a dor a não ser com anestesia. Retira da dor sua profundidade humana. Luta contra lucidez na dor. Talvez por causa disso hoje as pessoas sofram menos, mas são menos sensíveis, pois estão adormecidas, cheias de uma morfina ambiental que seca seus corações. Por isso, compreendemos menos a dor e ela nos parece tão absurda e intolerável.

Para Jesus não há necessidade de anestesiar diante da dor a profundidade da consciência humana, pois o nível mais alto de experiência dessa profundidade é a bondosa paternidade de Deus. No mais profundo do nosso ser podemos sentir Deus como Pai querido(Abba).

Jesus sofre a partir de sua experiência de Deus e a partir dessa mesma experiência encontra razões para um extremo otimismo. A alegria de Jesus parte de uma experiência prazerosa de Deus que lhe abre  a capacidade de um compromisso com os sofredores e pecadores. Dessa experiência nasce seu sorriso para o publicano, o pagão ou a prostituta. Ele sabe ver em cada pessoa, apesar das aparências contrárias, o que tem do Pai: suas semelhanças com Deus e o amor que Deus lhe tem. Por isso, Jesus tem sua alegria profunda e extrema.

Jesus participou do sofrimento humano desde o seu nascimento onde ele conheceu a fundo o que eram as provações dos pobres. Compartilhou o doloroso nascimento dos mais pobres do mundo. Ele sofreu a dor dos emigrantes por causa da perseguição de Herodes que viu em Jesus uma ameaça e perigo para seus privilégios. Compartilhou a vida simples e as privações do povo em Nazaré. Sofreu medos, dúvidas e tentações como qualquer ser humano. O libertador do medo soube também o que é o medo(Mt 26,37-39). No entanto, tendo sentido o mesmo medo que nós diante do compromisso, ele não se deixou abater e nem deu jamais um passo para trás. Sempre se manteve fiel à vontade do Pai(Jo 12,27). Ele sofreu a dor de desprezo: os escribas não acreditavam nele porque era um homem sem estudos(Jo 7,15), vindo de uma região má fama(Jo1,46;7,41.52),nem o povo em geral(Lc 4,22-29). Seus próprios parentes o tomaram como louco(Mc 3,21). O povo gritou para pedir a sua morte(Mt 27,16-21). Na cruz sentiu os insultos das pessoas que passavam(Lc 23,35), dos soldados(Lc 23,36-37) e ainda de um dos que foram crucificados junto dele(Lc 23,39). Com razão, no prólogo do seu evangelho, João comentou: “Veio para o que era seu e os seus não o receberam”(Jo 1,11). Sentiu o peso do desânimo e o cansaço pastoral(Lc 9,41; Mc 4,40; Jo 14,9;Mt 23,37-38). Chegou a lamentar-se de que nenhum profeta é bem recebido em sua própria pátria(Mc 6,4). Sofreu calúnias e perseguições: foi acusado como mentiroso(Mt 27,63); como enganador do povo(Jo 7,47); como grande pecador(Jo 9,24), blasfemo(Jo 10,33), que fazia milagre em nome do diabo(Lc 11,15). Sentiu a tensão psicológica de ser vigiado e procurado para ser preso(Jo 7,30-32.44-46;10,39;11,57). Sentiu a solidão(Jo 6,67;Mt 26,40.56) e a traição(Jo 13,18.21; Mt 24,14-16; Jo16,31-32). E sofreu a mais cruel das mortes: ele morreu tragicamente sozinho, traído até pelos seus.

A dor de Jesus não se encerra jamais sobre si mesmo, ao contrário, está totalmente aberta ao próximo. Por isso, o profeta Isaías citado por Mateus, resumiu: “Ele tomou as nossas enfermidades e carregou as nossas doenças”(Mt 8,17). Tão profundamente sentiu a dor humana, que dedicou sua vida para servir a todos, para aliviar suas penas e para ensinar-lhes o caminho da superação e da irmandade(Lc 4,18-19). Sua existência esteve totalmente orientada no sentido de aliviar a dor alheia. Serve a Deus servindo a seu próximo. Não fechava seu coração para ninguém. Ele fazia cada um ver o amor de Deus que Deus lhe tinha e seu próprio valor humano. Enquanto outros encontram razões para condenar, ele as encontra para salvar.

Depois de mergulharmos nos dados bíblicos acima mencionados chegamos à conclusão de que Deus não quer o sofrimento humano. Nem tem como tarefa distribuir prêmios e castigos. Ele é o Pai de todos e quer a felicidade e a realização plena de todo homem e mulher.

Mas por que sofremos, então ? Simplesmente porque essa é condição do ser humano. A vida humana terrena é por si mesma pequena, fraca e frágil. A morte e a dor são companheiras naturais de nossa própria estrutura. O sofrimento chega a todos nós. Não lhe podemos escapar. A lista é familiar: doença, angústia mental, velhice, solidão, dor, desilusões, crueldade, a perda de alguém que se ama, sem dúvida, problema de todos os dias, mas experiências penosas que podem consumir a nossa energia e roubar-nos a alegria de viver. É fácil tornar-nos amargos e infelizes. Não tentamos compreender e a dor é então pior.  As energias desta vida obedecem à lei biológica: elas vão se desgastando progressivamente, ate se consumirem totalmente. Tudo isso não tem nada a ver com nossos valores eternos de semelhança de Deus.

Mas embora a dor em si seja inevitável, durante esta vida muitas dores e muitas mortes podem ser evitadas. Deus não aceita a sociedade na qual uns homens desprezam e atropelam outros. As cruzes que os homens levantam para seus irmãos são abomináveis aos olhos de Deus. É preciso denunciá-las e lutar contra elas, pois Deus as detesta. Por isso, vamos falar um pouco da teologia da cruz.


2. A cruz de Jesus: uma rebeldia contra o sofrimento

A crucificação como pena era muito difundida na antigüidade. Aparece sob várias formas entre numerosos povos do mundo antigo. Para os gregos, ela era e permaneceu uma punição política e militar. Para os persas era imposto basicamente a altos oficiais e comandantes, bem como a rebeldes. Para os romanos, ela era aplicada sobretudo às classes inferiores: escravos, criminosos violentos e elementos refratários em províncias em rebelião. As três penas romanas supremas eram a cruz, o fogo e os animais.  Pela execução publicamente a crucificação representava a mais profunda humilhação.

Popularmente, a cruz, com freqüência, tem sido tomado apenas como símbolo da dor humana. Às vezes se tem usado para induzir os homens a não se rebelarem, mas sim a negociar com a dor; tem sido motivo para justificar o sofrimento e ainda como pretexto para certas formas de repressão. Com esta concepção, a cruz foi afastada grosseiramente de sua referência a Jesus. Quem procura Cristo sem a cruz acaba encontrando a cruz sem o Cristo. Mas quem procura o Cristo com a consciência de encontrar a cruz como conseqüência desta opção, encontrará Cristo ressuscitado e com Cristo ele encontrará a páscoa.

A teologia atual insiste em que o NT foi elaborado com a base na experiência pascal: o Crucificado está vivo. Tudo se esclarece a partir da luz da ressurreição. Nunca poderemos olhar para a cruz sem nos lembrarmos da ressurreição. Sexta-Feira Santa não tem qualquer significado sem o Domingo da Páscoa. A morte e a vida estavam entrelaçadas em conflito no Calvário. A vida ganhou, porque o amor era mais forte que a morte. Somente a partir dessa perspectiva se pensa, se corrige e se assume o símbolo da cruz. A redenção é antes de tudo uma vitória. Cristo é o vencedor da morte. Ele não veio para glorificar a dor, mas sim para dar um fim a seu reinado.

A vida é uma mistura de alegria, felicidade e esperança, e também de tristeza, mágoa e dor. Cada um de nós carrega sempre esse pequeno fardo. Mas quando nos damos conta do amor que Nosso Senhor tem por nós, quando compreendemos que a sua vida nos revelou o amor que Deus tem por nós, então temos de ficar cheios de esperança, de alegria e de paz. Por isso, sei que a resposta se encontra olhando para Cristo crucificado. Madre Teresa de Calcutá disse: “Se olhamos para a Cruz de Jesus sabemos muito bem como ele nos amou. Quando olhamos para a Eucaristia, sabemos muito bem como ele nos ama”.

Em alguns ambientes tem-se insistido mais em falar exclusivamente da ressurreição. Eles pretendem tirar da cruz o seu aspecto escuro. Falam de ressurreição sem mencionar a crucificação. Assim, acabam se esquecendo do presente trágico da exploração, da injustiça e da dor reinantes em qualquer lugar. Não se pode esquecer de que Jesus morreu porque o ser humano não tolera a defesa do pobre, nem o desvelamento da hipocrisia, nem a denúncia da injustiça, nem a ruptura das convenções e privilégios sociais e religiosos. Jesus ao optar pelos desprezados e deserdados, está acusando quem fundamenta sua prosperidade ou sua superioridade no desprezo e na exploração dos demais. A desumanidade do homem para com o seu semelhante através da história produziu pobreza, fome, sofrimento e morte. Entendida desse modo, a imagem do Crucificado já não é a provação do sofrimento, mas sim a rebeldia contra ele. Tudo isso, se olhamos a partir da perspectiva humana.

Da perspectiva de Deus, a cruz é a revelação do Deus de amor. Ela revela o amor apaixonado de Deus pelos homens. Deus não era outra coisa senão amor. Por isso, o calvário é a revelação de seu amor num mundo de males e sofrimentos. O amor torna apto ao sofrimento e a capacidade de sofrimento se consuma na entrega e na imolação. Na cruz Deus passa diante da humanidade a prova do amor, para que depois possamos também acreditar em seu poder, o poder triunfante de sua ressurreição. Assim, a ressurreição de Jesus pode se transformar para os que sofrem em uma bandeira de esperança. Sem a ressurreição, o amor não seria verdadeiramente poderoso; mas sem a cruz, o poder não seria amor. Da união do amor e do poder divinos surge nossa redenção.

3. Nossas cruzes e a nossa cruz existencial sob a cruz de Cristo: um chamado à conversão contínua

Todos nós carregamos alguma cruz na nossa vida. Há cruzes de todos os tipos. Há cruzes em todos os caminhos. Para encará-la cada um tem seu próprio modo. Para alguns, a cruz pode ser vivida como tribulação, para os outros ela pode ser vivida como libertação. Há cruzes com Cristo, mas há também cruzes sem Cristo. Cada cruz, então, tem uma história e cada história tem uma cruz. A cruz sem Cristo é a cruz-condenação. É a cruz de quem deseja ser um deus. É a cruz que não tem finalidade em si mesmo. É a cruz sem fé, sem amor, sem sentido da vida, sem renúncia por amor. É a cruz de quem deseja viver numa liberdade sem responsabilidade. Jesus Cristo, que foi crucificado, transformou a cruz de castigo em bênção.

A mãe de Jesus acompanhava o filho Jesus que estava carregando a cruz silenciosamente. A cruz do filho é a cruz da mãe. Ela também carrega esta cruz silenciosamente. A ressurreição do filho é a ressurreição da mãe. Na Mãe de Jesus podemos ver tantas mães do mundo. Sem dúvida, muitas mães carregam silenciosamente a cruz ao saber que seu filho se droga ou se perde no mundo da criminalidade. Crucificadas, essas mães acompanham a cruz de seu(s) filho(s) com o amor incondicional como a Mãe de Jesus que se encontrou ao pé da cruz com o amor incondicional.

Todos nós somos convidados a refletir tais situações e outros tipos de cruz sob a cruz de Jesus ressuscitado que transformou a cruz em momento de transfiguração cujo ápice é a sua ressurreição. A partir de Cristo e somente com Cristo podemos sofrer, mas nunca sofreremos em vão. Sem Cristo é que sofreremos em vão. Este tipo de sofrimento tortura e angustia e não liberta.

Além das cruzes que encontramos na vida, ou por nossa própria culpa ou como conseqüência de uma opção pelos valores cristãos, carregamos também a cruz existencial. Gostaríamos de viver eternamente nesta terra, e livres de qualquer contratempo, por um lado, mas os nossos limites como criaturas não nos deixam sermos o que gostaríamos de ser, por outro lado. Temos desejo infinito por vida ou pela vida, mas somos obrigados a aceitar um fato brutal de que temos que morrer. A vida em si, em sua estrutura, hospeda a morte. Jesus, o homem verdadeiro e o Deus verdadeiro, participou da estrutura humana. Ele morreu não somente porque os homens O mataram, mas também porque ele é o homem que morreu como todos nós morremos. Mas para que esta estrutura de uma criatura limitada se torne em uma transfiguração, precisamos ser despojados como Cristo para que o Deus da vida, o Absoluto, o Eterno, o Infinito possa hospedar na nossa estrutura mortal para transformá-la em uma estrutura imortal. Somente com isto teremos outra concepção sobre a morte: morrer não é mais um fim de tudo(acabou tudo), e sim uma peregrinação para a fonte da vida, para o Deus vivo que nos espera. Esta consciência e a fé nesta certeza nos leva a dizermos que o homem nunca morre e sim uma criatura que nasce duas vezes: nasce quando deixa o seio materno para entrar num mundo maior onde ele se junta com outros companheiros de viagem rumo para o outro nascimento que é a entrada na vida eterna.

Cristo carregou uma cruz mas nunca foi cruz para os outros nem colocou cruzes nos caminhos dos outros. Quando contrariarmos a vontade de Deus por causa do pecado que faz ninho dentro de nós, nos tornaremos cruzes para os outros e colocaremos cruzes em seus caminhos. Quando os outros contrariarem a vontade de Deus, tornarão-se cruzes para nós e colocarão cruzes em nossos caminhos. Assim, os outros são cruzes para nós e nós somos cruzes para os outros. Cristo quer que não sejamos cruzes para ninguém mas imitadores de seu amor apaixonado.

Por isso, pregar a cruz a partir de Cristo significa ter consciência do pecado que faz ninho no nosso coração que causa tantas cruzes na própria vida de quem o comete e na vida dos outros com quem convive. A presença do pecado como uma força destruidora cria muitas cruzes na convivência humana, pois nunca somente vivemos, mas sempre convivemos. Cada ato nosso, seja positivo ou negativo, sempre tem conseqüência direto ou indiretamente para a vida dos outros. Esta consciência de ser nosso coração a hospedagem também do pecado, nos leva a um ato de acabar com as muitas cruzes que criamos através do trabalho contínuo de arrancar o ninho do pecado dentro de nós através da conversão contínua. Não podemos esquecer que a cruz de Jesus é uma revolta contra a dignidade humana violada, contra aquilo que deveria ter evitado para não criar tantos sofrimentos na própria vida e na vida alheia. Pregar a cruz de Cristo significa convocar as pessoas para um amor e para um perdão incondicionais, para a capacidade de não permitir que o ódio e suas múltiplas manifestações reinem o coração humano onde Deus deposita seus segredos. Sem esta atitude não haverá a paz e a ressurreição; não haverá a passagem do homem velho para o homem novo criado para o céu. Que sejamos uma ressurreição e não a cruz para os outros. Que sejamos solução e não problema para os outros.

P. Vitus Gustama,svd

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