sábado, 19 de maio de 2012

ASCENSÃO DO SENHOR


Domingo, 20 de Maio de 2012

Texto: Mc 16,15-20

 Naquele tempo, Jesus se manifestou aos onze discípulos, 15e disse-lhes: “Ide pelo mundo inteiro e anunciai o Evangelho a toda criatura! 16Quem crer e for batizado será salvo. Quem não crer será condenado. 17Os sinais que acompanharão aqueles que crerem serão estes: expulsarão demônios em meu nome, falarão novas línguas; 18se pegarem em serpentes ou beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal algum; quando impuserem as mãos sobre doentes, eles ficarão curados”. 19Depois de falar com os discípulos, o Senhor Jesus foi levado ao céu, e sentou-se à direita de Deus. 20Os discípulos então saíram e pregaram por toda parte. O Senhor os ajudava e confirmava sua palavra por meio dos sinais que a acompanhavam.
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Mc 16,9-20, onde se encontra o nosso texto, é conhecido como um “longo final” (final mais longo). O termo “longo final” é usado para distingui-lo do “final breve” (Mc 16,8). A exegese moderna reconhece a canonicidade deste texto, mas nega sua autenticidade como sendo de Mc. Uma maioria absoluta dos biblistas, para não dizer todos, concorda que Mc 16,9-20 não faz parte do Evangelho de Mc. O Evangelho de Mc termina em Mc 16,8 (temos, então, duas conclusões em Mc: 16,8 e 16,9-20). Os vv.9-20 não se encontram nos códigos mais importantes do NT, como Sinaítico e Vaticano, nem em outros escritos ou manuscritos antigos. Além disto, o estilo desta parte é totalmente diferente do resto do Evangelho de Mc. Mc 16,9-20 foi acrescentado por um anônimo (identificado como o presbítero Aristião) entre o fim do século I e o início do século II. Como em outros evangelhos apresentam-se várias aparições de Jesus e não se encontram em Mc, o autor anônimo desta parte preencheu esta lacuna com esse “longo final”. Mas as aparições acrescentadas ficam no ar porque não há nenhuma indicação de lugar. Por exemplo: Onde e como Jesus apareceu a Maria Madalena fica totalmente obscuro. Assim em outras aparições contidas nesse acréscimo. Como resultado disto, o leitor tem dificuldade em pintar o que se relatou nesse acréscimo.

Esse acréscimo não contém nada de novidade. Ao contrário, ele é formado de pequenos fragmentos encontrados em outros evangelhos e Atos dos Apóstolos. Basta fazer comparação entre os seguintes textos: Mc 16,9-10 – Jo 20,11-18 (Aparição a Maria Madalena); Mc 16,12-13 – Lc 24,13-35 (Aparição a dois discípulos no caminho);  Mc 16,14 – Lc 24,36-43 (Aparição aos Onze durante a ceia);  Mc 16,15-17 – Mt 28,19-20 (Ordem para proclamar a Boa Nova); Mc 16,17-18 – At 28,3-6 (Sinais ligados com fé);  Mc 16,19 – At 1,9-11 (Ascensão de Jesus); Mc 16,20 – At 14,31 (Proclamação confirmada por sinais).

Algumas mensagens deste texto

A partir de Mc 16,9-20 podemos tirar algumas mensagens sobre os deveres da Igreja. Quando se fala da Igreja fala-se de todos os cristãos.

1). A Igreja tem uma tarefa/dever de pregar.

Pregar é o dever da Igreja. Isto quer dizer que é o dever de cada cristão. Cada cristão tem dever de transmitir a Boa Nova de Jesus para todos os que nunca a ouviram ou ouviram muito pouco. O dever do cristão é ser o mensageiro de Jesus. Conforme o Evangelho de hoje, a primeira tarefa de cada cristão é a de pregar/propagar a Palavra de Deus, principalmente para aqueles que ainda não a escutaram/ viveram. Cada cristão é, então, o mensageiro de Cristo neste mundo. E cada cristão tem que usar todos os meios ao seu alcance para propagar a Palavra de Deus: homilia, catequese, meios de comunicação, literatura, arte, festas e convivência. Mas é o anúncio respeitoso, sem impor, mas convidando; sem ameaçar, mas ofertando a salvação que liberta.

A tarefa não é nem será fácil, pois anunciar a Palavra de Deus significa também escutar os problemas e os questionamentos daqueles para os quais nos dirigimos. Estes nos questionam e fazem nascer incertezas nos portadores do Evangelho. Mas importa fazê-lo não como se fôssemos donos da verdade, mas com humildade e sem temor aos “grandes” deste mundo. A isso hoje nos chama a festa da Ascensão.

2). A Igreja tem uma tarefa/dever/missão de “curar”.

A Bíblia é o Livro da Vida. Ela ensina a viver com plena saúde em todos os níveis (biológico, psíquico, social e espiritual) em contato permanente com o autor e fonte da vida que está na raiz do nosso ser, em harmonia com todos os seres humanos e em sintonia com toda a criação.  O Plano de Deus é que todos vivam e sejam felizes (cf. Sl 103,3;Jo 10,10).

Há dois aspectos dominantes da atividade de Jesus narrados nos evangelhos: a pregação da Boa Nova e a cura dos doentes (Mt 9,35). Jesus ordenou aos seus discípulos que fizessem o que ele fazia sem nunca separar da atividade evangelizadora a caridade que tem sua expressão privilegiada na cura ou no cuidado dos doentes (cf. Lc 9,1-2; Mt 10,1). Ao mandar os discípulos à missão, Jesus os recorda os dois aspectos da evangelização: “Proclamai que o Reino dos Céus está próximo. Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça dai” (Mt 10,7-8). A Igreja apostólica tomou a sério a ordem de unir a cura dos doentes à pregação que pode-se ler no livro dos Atos. As curas dos doentes, tanto nos evangelhos como nos Atos, eram tão freqüentes e claras, que os próprios adversários não podiam negar sua evidência. Cuidar dos doentes faz parte da missão da Igreja. A Igreja não trabalha para salvar “almas” e sim para salvar o homem na sua integridade. A palavra “salvar” vem do latim “salus” que inclui a saúde. No AT, através do profeta Ezequiel, Deus repreende severamente os pastores por não terem cuidado dos que sofrem: “Não restaurastes o vigor das ovelhas abatidas, não curastes a que está doente, não tratastes a ferida da que sofreu fratura, não reconduzistes a desgarrada, não buscastes a perdida; antes, dominais sobre elas com dureza e violência” (Ez 34,4).

A Igreja deve se preocupar com o homem na sua integridade. O cristão não pode limitar sua preocupação só na salvação da alma, mas do homem todo: corpo e alma. São Tiago diz: “Meus irmãos, de que serve para alguém alegar que tem fé, se não tem obras ?... Suponhamos que um irmão ou irmã andam seminus, sem o sustento diário, e um de vós lhes diz: ide em paz, aquecidos e saciados; mas não lhes dá as necessidades corporais, de que serve ? Igualmente a fé que não vem acompanhada de obras:  está totalmente morta”(Tg 2,14-17). Não adianta consolar um faminto com conversa vazia, é preciso dar-lhe uma ajuda concreta: não sendo assim, como pode falar da fé ou da Palavra de Deus. Quem se deixa conduzir com docilidade por seus estímulos, embora não esteja consciente dessa realidade, enveredou pelo caminho da fé, acredita mais do que aquele que, em altas vozes, professa todos os dogmas, mas não toma a decisão de adaptar a sua vida ao Evangelho.

3. A Igreja tem uma fonte de força/poder.

Não precisamos pegar o texto literalmente. Não precisamos pensar que o cristão tem literalmente o poder para levantar cobras venenosas e beber veneno sem causar nenhum mal. Mas atrás desta linguagem pitoresca está a convicção de que o cristão é cercado ou está cheio de força de Cristo para enfrentar qualquer dificuldade nesta vida que os outros não possuem.

4. A Igreja é nunca deixada sozinha para realizar sua tarefa neste mundo.

Cristo trabalha com a Igreja, dentro dela e através dela. O Senhor da Igreja continua estando na Igreja e continua sendo o Senhor de poder. Por isso, o cristão nunca é um lutador solitário. Cristo sempre trabalha com ele, nele e através dele. O Senhor da Igreja que é Cristo, continua estando na Igreja e continua com o seu poder. Ele pode, de fato, fazer-se presente a cada homem, em cada ponto da Terra e da história. Ele é contemporâneo de todos os homens e de todas as gerações.

A ascensão do Senhor supõe a saída dos seguidores que vão cumprir a sua missão; tarefa que vai levá-los a confrontar novas realidades históricas, a provar a sua fé ante a resistência.

A festa da Ascensão nos dá a oportunidade de reacender cada dia com nova luz a maior das certezas de nossa vida: Jesus está vivo e está conosco todos os dias com seu poder (Mt 28,20). Todo aquele que tem essa esperança não se deixa ficar olhando para o céu, como fizeram os apóstolos naquele dia, mas ao contrário, traduz esta esperança em empenho e testemunho.

A celebração da Ascensão do Senhor urge-nos a passar da comodidade (comodismo) dos bons sentimentos à realidade dos fatos, mesmo chegando a complicar nossa vida por amor de Cristo e dos irmãos mais necessitados. Somente assim cumpriremos como discípulos de Jesus a tarefa de tornar real em nosso mundo Cristo, nossa esperança e salvação.

P. Vitus Gustama,svd

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