domingo, 10 de junho de 2012

XV DOMINGO DO TEMPO COMUM

Domingo 15 de Julho de 2012

Texto: Mc 6,7-13

O relato da missão dos doze é narrado pelos três sinóticos, embora em contexto diferente(cf. Mt 10,1.5-15;Lc 9,1-6). Não vamos fazer análise sobre os três. Meditaremos somente o relato de Mc.

Segundo Mc 3,14-15, o grupo dos Doze foi instituído por Jesus para que o acompanhasse e para enviá-los a pregar, com  poder de expulsar os demônios. Eles tem acompanhado Jesus durante período relativamente longo. Eles têm escutado os ensinamentos de Jesus em parábolas e suas explicações complementares. Têm presenciado seus milagres. Agora eles devem empreender a segunda fase do programa, pregando a conversão e dando a conhecer a oferta divina de salvação. Para isso, eles devem receber algumas instruções concretas de Jesus sobre o que eles devem fazer e como fazer. Estas instruções podem se resumir numa : os enviados que confiam mais em seus próprios meios, em sua própria equipe do que na força da mensagem a comunicar, perderão sua credibilidade.

O texto, então, procura mostrar como deve agir o seguidor de Jesus e o que vai acontecer com ele se sair pelo mundo para pregar o Evangelho. Tudo isto se resume numa idéia: o seguidor deve agir como o Mestre Jesus agiu. O que aconteceu com o Mestre vai acontecer também com o discípulo pois o discípulo não é maior do que o próprio Mestre(Mt 10,24).

No Evangelho de hoje Jesus anuncia alguns pontos fundamentais para o discípulo/seguidor realizar a missão:

Em primeiro lugar, o texto diz que Jesus envia os discípulos dois a dois. Esse modo de agir corresponde à praxe missionária da comunidade primitiva (cf. 1Cor 9,6;At 8,14;15,36-39 etc.). “Dois a dois” indica que a missão é um serviço comunitário e os cristãos devem ajudar-se mutuamente em suas atividades; não é um trabalho de promoção pessoal. O pregador da Boa Nova não pode agir isoladamente, mas em comunidade. No auxílio mútuo da comunidade eles encontrarão forças para superar melhor as dificuldades encontradas na evangelização. “Ir dois a dois” implica também a afirmação da igualdade e exclui a subordinação de um ao outro(cf. Dt 19,15). Isto quer dizer que os cristãos não devem praticar sozinhos a própria religião, não se relacionam somente pessoal e diretamente com Deus; eles são chamados a viver a própria em comunidade. Para formar uma comunidade é preciso contar pelo menos com dois. Segundo o AT o testemunho é válido se apresentado por mais de uma pessoa(cf. Dt 17,6;19,15;Nm 35,30; noa Atos dos Apóstolos encontramos Pedro e João, Paulo e Barnabé). O testemunho da comunidade atrai mais as pessoas para fazer a mesma coisa para o bem da humanidade. Quem vive o Evangelho do Senhor deve estar em sintonia com os irmãos da sua comunidade.

Em segundo lugar, Jesus deu aos doze o poder messiânico de Cristo contra as forças do mal (v.7b), ou seja, a autoridade para libertar as pessoas de tudo aquilo que se aliena, oprime e despersonaliza. Eles são enviados com autoridade sobre os espíritos imundos, para dominá-los e não para dominar ninguém.  O “poder sobre os espíritos maus” indica que a missão de cada cristão é uma prática libertadora e não simplesmente teorias bonitas sobre a religião, sobre Deus que amarram as pessoas dentro de uma instituição, como aconteceu com os fariseus. O cristão tem o poder de tirar esse mal, pois o Senhor Jesus lho deu. São Paulo rogou três vezes ao Senhor que o afastasse de um mal dentro dele. Mas o Senhor lhe respondeu: “Basta-te a minha graça” (cf. 2Cor 12,8-9). Antes de o cristão libertar os outros, ele tem que se libertar do mal dentro dele. Por isso, em cada reflexão que fizermos, vamos descobrir qual o mal que está dentro de nós ou de nossa família ou da comunidade. Com o poder que recebemos do Senhor, conseguiremos tirá-lo do nosso meio. A primeira tarefa de cada cristão consiste em tirar o mal que está no meio das comunidades, no meio da própria família, ou dentro do próprio coração.

Em terceiro lugar, Jesus exige dos doze um modo de vida baseado na pobreza radical, um desprendimento absoluto dos bens materiais(vv.8-9), é uma pobreza voluntária, porque somente assim eles poderiam ser considerados como fidedignos. Jesus enfatiza mais o ser dos discípulos do que o ter. Infelizmente, com certa freqüência, hoje é mais importante o “parecer ser” do que o próprioser”. Aquele que procura somente sua segurança própria e proveitos pessoais em sua missão perderá sua credibilidade diante do mundo e de Deus. O modo de agir de cada cristão quando se está em missão ou em qualquer lugar e tempo é viver desapegado. A riqueza, a confiança no dinheiro representam um perigo muito sério para qualquer um de nós. O dinheiro torna suspeito qualquer testemunho. Jesus não despreza os bens deste mundo, não apresenta a miséria como um ideal de vida, mas alerta para o perigo de nos deixarmos condicionar pela posse de bens materiais. A porta da morte é tão estreita que somente passa aquilo que é a bagagem de amor na condivisão dos bens materiais com os irmãos e irmãs que não têm nada para sua sobrevivência.

Quando se fala da pobreza não se trata da pobreza imposta, a miséria desumana e desumanizante. Este tipo de pobreza é causada pela maldade, a injustiça e a corrupção etc., portanto, fruto de pecado. Mas trata-se da pobreza voluntária, fruto do amor, da liberdade, do reconhecimento da paternidade divina e da fraternidade universal. A pobreza que Deus quer é a condivisão, a comunhão com nossos irmãos e irmãs daquilo que recebemos de Deus. Por isso, a pobreza é, antes de tudo, um ato de renúncia. Viver na pobreza significa estar aberto para a surpresa. Aceitar a pobreza significa viver sem segurança, é um verdadeiro desprendimento, é uma espécie de morte. Aceitar a pobreza voluntária significa aceitar um futuro aberto e cheio de possibilidades desconhecidas. Mas a pobreza voluntária como um ato de renúncia deve nascer de uma idéia, deve ter uma motivação, a realização de uma finalidade: a procura de um bem superior ao bem que se deixa; para abrir-se a Deus, para viver mais intensamente a vida de comunhão com Deus e com os irmãos e irmãs, e receber mais luz, mais força no caminho a percorrer. A pobreza voluntária deve ser um compromisso de no sentido de abertura ao serviço do Reino de Deus e amor ao próximo.

O desapego a tudo não implica somente a renúncia a uma carga pesada de bens materiais, mas também o abandono de preconceitos, de tradições, de idéias retrógradas, às quais muitas vezes estamos amarrados de uma forma emocional e irracional. Referimo-nos ao pesado ônus representado por certos usos, por certos costumes, por certas tradições religiosas embutidas em determinado ambiente histórico e cultural, que muitos, confundem ou equiparam com os valores do Evangelho.

Em quarto lugar, Jesus envia os doze para pregar a mudança de vida(conversão) para si e para os outros(v.12). Para Jesus, a conversão é somente condição para construir a sociedade nova ou Reino de Deus(Mc 1,15). Conversão é mudança radical em que aflições passadas são rejeitadas por um novo compromisso e uma nova identidade. Toda conversão envolve mudança. Opõe-se à manutenção do status quo. A conversão sempre envolve movimento de uma dimensão para outra. E isso envolve a pessoa toda, não apenas seu senso moral, sua capacidade intelectual ou sua vida espiritual. Corpo, mente e alma juntos são afetados pelo ato da conversão, e as conseqüências são sentidas em todos os aspectos da vida da pessoa, inclusive nos campos social e político.

Em quinto lugar, a outra instrução de Jesus prevê uma atitude de bom senso e formação de comunidade: “Quando vocês entrarem numa casa, fiquem até partirem”(v.10). Isto não indica plena estabilidade para os discípulos, mas um local onde, com a sua partida, a comunidade possa continuar a se reunir e dar prosseguimento à Boa Nova do reino. Os cristãos devem ensinar os outros a assumirem o compromisso, a andarem com as próprias pernas. Isto pressupõe a exclusão da dominação e da atitude de patriarcalismo. Por isso, a hospitalidade e a convivência fraterna se tornam ambiente propício para propagar uma ação evangelizadora/libertadora.

Os cristãos que continuam a prática libertadora de Jesus também são advertidos para não serem ingênuos e pensar que tudo ocorrerá em paz porque são arautos de libertação e vida. Justamente por isso encontrarão oposições daqueles que não querem transformações na sociedade. A oposição expressa-se de duas maneiras(v.11): A falta de solidariedade(não vos receber) e o fechamento completo ao diálogo ou à comunicação humana(nem vos escutar). Levantam uma barreira que impede a aproximação entre as pessoas.

Se acontecer isso, segundo Jesus, devem abandonar o lugar e “sacudir a poeira dos pés”, o gesto que os judeus faziam ao saírem de terra pagã. Para os cristãos, este gesto é uma acusação. Isto significa que os verdadeiros pagãos, os que não conhecem o verdadeiro Deus, são os que se opõem à igualdade e à solidariedade humanas. Ser pagão, então, não se define pelas crenças, mas pelo modo de agir; é pagão quem não reflete em sua conduta o amor universal de Deus.

À luz do Evangelho de hoje procuremos nos perguntar: será que somos meros espectadores e admiradores de Jesus ou somos seus seguidores ? O que pode estar tornando menos convidativo e pouco crível a nossa mensagem ? Qual é o testemunho que devemos dar para que os outros acreditem na nossa mensagem ? Será que estamos vivendo a pobreza voluntário que é um dos votos assumidos ou estamos cada vez mais distantes dela? Será que o nosso modo de viver representa realmente o voto de pobreza assumido voluntariamente?

P. Vitus Gustama,svd

Um comentário:

Viagem disse...

Obrigada.
JULIA