sábado, 13 de outubro de 2012

DEUS É O BEM MAIOR:
PREÇO DO SEGUIMENTO

 
XXVIII DOMINGO COMUM DO ANO B
Domingo, 14 de Outubro de 2012

 
Leitura: Sb 7,7-11; Hb 4,12-13; Mc 10,17-30


"Se a avidez pelos bens terrenos enche meu coração, onde Deus encontra lugar?"
(Paulo Hoesl)
 
As leituras deste domingo nos convidam a refletirmos sobre as escolhas que devemos fazer no presente ou nesta vida, pois elas vão direcionar nossa vida e nos levam para algum destino. Em outras palavras a minha escolha agora é o meu futuro. O futuro desejado determina minhas escolhas no presente, ou vice-versa.
 
Por isso, é importante saber daquilo que estou procurando nesta vida. Se eu não souber o que estou procurando ou o que eu estou querendo que sentido à minha vida, também não saberei como devo viver e que tipo de futuro terei. Por isso, não basta viver. É preciso saber para que viver? Não basta buscar apenas subsistir. É preciso buscar objetivos que dêem sentido à vida tanto na sua duração aqui neste mundo como depois de seu fim nesta terra. Sentido é o que nos torna capazes de viver e de ser felizes inclusive em situações não favoráveis.
 
Para isso, precisamos de uma luz que nos devolva a vontade de viver e afastar o medo de crescer cada dia. Cada dia somos chamados a crescer, pois somos aquilo que somos e aquilo que nos falta: “ uma coisa te falta”, diz Jesus ao homem rico no Evangelho(Mc 10,21). Por mais que tentemos dar o melhor de nós, sempre falta alguma coisa na nossa vida. Precisamente aquilo que nos falta é que nos estimula a melhorar cada dia nosso modo de viver e de conviver. Nesta busca, precisamos da sabedoria divina para poder fazer escolhas que nos levem a um futuro desejado. Quem tem um porquê para viver, encontrará o como deve viver e quais são escolhas que devem ser feitas.
 
Na primeira leitura, um "sábio" de Israel nos apresenta um hino sobre sabedoria. O "Livro de Sabedoria" é o mais recente de todos os livros do Antigo Testamento. Ele apareceu durante o séc. I a.C.. O seu autor, um judeu de língua grega, provavelmente nasceu e foi educado na Diáspora (fora de Israel). O autor se encontra no meio da cultura grega que se sente superior a outras culturas. A cultura grega(helenista) tenta convencer os judeus a abandonarem a sua , a "modernizar-se" e a abrir-se aos brilhantes valores da cultura helenista(grega). É neste ambiente que o autor do Livro da Sabedoria decide defender os valores da e da cultura do seu Povo.

 
O autor quer convidar seus compatriotas a redescobrirem a que receberam dos pais, e também quer alertar a todos sobre o perigo da idolatria. Por isso, o autor pretende deixar este ensinamento fundamental: somente Deus garante a verdadeira "sabedoria" e a verdadeira felicidade. E o verdadeiro "sábio" é aquele que escolhe escutar as propostas de Deus, aceitar os seus desafios, e seguir os caminhos que ele indica. A sabedoria simplesmente significa a capacidade de fazer as escolhas corretas, de tomar as decisões certas, de escolher os valores verdadeiros que conduzem o homem à sua realização, e à sua felicidade. O autor está consciente de que a "sabedoria" vem de Deus e é um dom que Deus oferece a todos os homens que tiverem o coração disponível para acolhê-la. A sabedoria é um tipo de "luz" que indica caminhos e que permite discernir as opções corretas a tomar. É ela que permite ao homem gozar os bens terrenos com maturidade e equilíbrio, sem obsessão e sem cobiça, colocando-os nos seu devido lugar e não deixando que sejam eles a conduzir a vida do homem e a ditar as suas opções.
 
Escolher a "sabedoria", por isso, não significa prescindir de outros valores mais materiais e efêmeros, ou nos fecharmos ao mundo e renunciarmos definitivamente às coisas belas que o mundo nos pode oferecer. Mas viver na sabedoria de Deus significa darmos prioridade àquilo que é realmente importante e que nos assegura, não momentos efêmeros, mas momentos eternos de felicidade e de vida plena, pois os valores efêmeros não servem para encher completamente a nossa vida de significado e não nos garantem a vida verdadeira. Têm o seu lugar na nossa existência; mas não podem crescer de tal forma que ocupem todo o espaço livre no nosso coração e na nossa vida.  Os valores efêmeros não são maus, por si próprios; mas não podemos deixar que eles tomem conta da nossa vida, condicionem todas as nossas opções, nos escravizem de tal modo que nos levem a esquecer outros valores mais importantes e mais duradouros. Se absolutizarmos os valores efêmeros, construiremos freqüentemente esquemas de egoísmo, de violência, de inimizade, de exploração, de corrupção e de ódio, que desumanizam e magoam aqueles que caminham ao nosso lado.
 
Se é um dom, é preciso, portanto, termos os ouvidos atentos para escutar e o coração disponível para acolher a "sabedoria" que Deus quer oferecer a todos os homens. Mas, sem dúvida, ela não chega a quem se situa diante de Deus numa atitude de orgulho e de auto-suficiência; ela não atinge quem se fecha em si próprio e constrói uma vida à margem de Deus; ela não encontra lugar no coração e na vida de quem ignora Deus, os seus desafios, as suas propostas. O "sábio" é aquele que, reconhecendo a sua finitude e debilidade, se coloca nas mãos de Deus, escuta as suas propostas, aceita os seus desafios, e segue os caminhos que ele indica. Uma vez acolhida no coração do homem, ela o transforma, renova-o, ajuda-o a discernir o bem e o mal e a fazer as opções corretas, e indica-lhe o caminho certo para chegar à vida plena e definitiva, poisa Palavra de Deus é viva, eficaz e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes... Ela julga os pensamentos e as intenções do coração. E nãocriatura que possa ocultar-se diante dela. Tudo está nu e descoberto aos seus olhos, e é a ela que devemos prestar contas”(Hb 4,12-13). A Palavra de Deus ajuda-nos a discernir o bem e o mal e a fazer as opções corretas. Ela ressoa no nosso coração, confronta-nos com as nossas infidelidades, critica os nossos falsos valores, denuncia os nossos esquemas de egoísmo e de comodismo, mostra-nos o sem sentido das nossas opções erradas, grita-nos que é preciso corrigir o nosso rumo/direção, desperta a nossa consciência, indica-nos o caminho para Deus. É preciso que a Palavra de Deus esteja no centro da nossa experiência de e da nossa caminhada existencial, pois é ela que nos questiona, que nos transforma, que nos indica caminhos, que nos permite discernir a vontade de Deus.
O oposto da sabedoria divina se encontra na opção feita por uma pessoa rica no evangelho de hoje que se fecha diante da proposta de Deus, porque não aceita o convite de Jesus para que ele escolha o caminho de partilha, de solidariedade, de doação, de amor, pois segundo Jesus, somente por esse caminho é que o homem se realiza plenamente e encontra a vida eterna. O homem de que se fala nesta cena, é um piedoso observante da Lei; mas não tem coragem para renunciar às suas seguranças humanas e aos bens terrenos que lhe escravizam o coração. Esse homem procura conservar o que possui. E todo conservador não tem futuro porque procura conservar o que é caduco, finito e que perece. Não se pode conservar o que acaba.
 
A história do homem rico que não está preparado para viver no amor, na partilha, na entrega da própria vida aos irmãos, serve a Jesus para dar uma exortação para todos: "É mais fácil passar um camelo pelo fundo de uma agulha, do que um rico entrar no Reino de Deus”. Jesus não condena a riqueza, mas a ansiedade de acumular fortunas de forma gananciosa. O ideal do cristão não é a pobreza nem a fome nem a nudez, mas a divisão fraterna dos bens que Deus pôs à disposição de todos. Pecado não é ficar rico, mas ficar rico por si, deixando os outros sem nada para sua sobrevivência. O alerta de Jesus sobre os perigos da riqueza não é somente para os ricos de fato, mas para todos quantos queiram ser seus discípulos e herdar a vida eterna. O dinheiro é o deus que tem seu altar em cada coração humano. Seria ingênuo negá-lo. É um ensinamento para todos, pois todos temos “alma de rico”, incluindo os pobres que são cobiçosos, avarentos e apegados ao pouco que possuem. Em todos os níveis sociais se busca a riqueza material, freqüentemente com espírito de cobiça, e se põe nele a confiança mais que em Deus.

 
“O que preciso fazer para herdar a vida eterna” é uma questão que inquieta todos os que acreditam em Deus. A vida eterna é sempre um dom gratuito de Deus, fruto da sua bondade, da sua misericórdia, do seu amor pelo homem; no entanto, é um dom que o homem aceita, acolhe e com o qual se compromete. A vida eterna é uma realidade que deve marcar cada passo da nossa existência terrena e que atingirá a plenitude na outra vida, no céu. Nós, cristãos, sabemos que os bens deste mundo, embora nos proporcionem bem estar e segurança, não nos oferecem a vida eterna; essa vida eterna que buscamos ansiosamente está no caminho de amor, de serviço, de dom da vida que Cristo nos ensinou a percorrer. O cristão não é um pobre coitado condenado a passar ao lado da felicidade; mas é uma pessoa que renuncia a certas propostas falíveis e parciais de felicidade, pois sabe que a vida plena está em viver de acordo com os valores eternos propostos por Jesus. Sem dúvida, as nossas opções cristãs são criticadas, incompreendidas, e apresentadas como realidades incompreensíveis e ultrapassadas por aqueles que representam a ideologia dominante, que fazem a opinião pública. Precisamos, todavia, estar conscientes de que a perseguição e a incompreensão são realidades inevitáveis, que não podem desviar-nos das opções que fizemos. A vida eterna, a felicidade não está no ter e sim no ser. E para ser é indispensável a liberdade interior. E a liberdade interior se manifesta na doação, na partilha, na solidariedade, na compaixão. Enfim, no amor vivido na convivência com os demais. Por este caminho felicidade.

P. Vitus Gustama,svd

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