sábado, 10 de novembro de 2012

AS VIÚVAS QUE NOS ENSINARAM A SERMOS VERDADEIROS CRENTES


XXXII DOMINGO DO ANO B
Domingo, 11 de Novembro de 2012
 
Textos: 1Rs 17,10-16; Mc 12, 38 – 44
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É melhor ter Deus na alma do que ouro no cofre
 
(Santo Agostinho)


Duas mulheres ocupam as leituras deste dia. Duas mulheres que não tem nada em comum com as mulheres que ocupam os jornais e as revistas. Duas mulheres que chegaram até o coração de Deus como uma flecha. Duas mulheres que atravessaram o tempo para chegar até nós e nos golpearam com seu exemplo esplêndido.


Duas mulheres dão cor às leituras deste dia. Uma confiou na palavra do profeta Elias e aconteceu o milagre de não faltar nem pão nem azeite em sua vida e em sua família. A dessa mulher e o dom do pouco que tem, mas que é oferecido generosamente ao profeta Elias, produzem o milagre: a viúva e seu filho encontraram o alimento diário apesar da grande seca. Elias é o profeta de Deus e sua Palavra se cumpre. Esta atitude heróica será recordada por Jesus em Lc 4,25-26: “No tempo do profeta Elias, quando não choveu durante três anos e seis meses e uma grande fome atingiu toda a região, havia muitas viúvas em Israel. No entanto, a nenhuma delas foi enviado o profeta Elias, senão a uma viúva em Sarepta, na Sidônia”.  Isto quer dizer que A Palavra de Deus se cumpre naqueles que confiam nele. Como diz o Salmo: “O Senhor é fiel para sempre” (Sl 145,7).


A outra viúva (do evangelho) entregou suas duas únicas moedas para sobreviver e recebeu o elogio do Senhor: “Em verdade vos digo: esta viúva pobre deu mais do que todos os outros que depositaram no cofre. Pois todos eles deram do que tinham de sobra, ao passo que ela, da sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha para viver”. 


São duas histórias preciosas e estimulantes com uma clara lição para todos s: para conseguir que o coração de Deus seja tocado não faz falta ser importante, nem saber muito, nem serletrado”. Para chegar ao coração de Deus faz falta crer em suas promessas sem reservas, esperar confiadamente no milagre que Ele fará para que não se acabe nunca a esperança, a ilusão, a inquietude, essa farinha especial e esse azeite sobrenatural que são necessários para caminhar pela vida cristã, ainda que, às vezes, nos sintamos nesse caminho tão angustiados e sós como deveriam sentir-se em seu momento essas duas viúvas da Escritura que hoje contemplamos com tanto carinho.


Essas duas mulheres são modelo de crentes. São pessoas abertas a Deus: que confiam nEle incondicionalmente. Pouca coisa que elas têm, mas não se agarram zelosamente ao pouco que tem. Não dão os restos e sim daquilo que necessitam para viver. Deus quer que não Lhe demos o que nos sobra e ainda de maneira exibicionista como se quiséssemos demonstrar nossa generosidade que, na verdade, não existe. O primeiro mandamento que vale para todos é “Amarás ao Senhor, teu Deus, com todo o teu coração”. De igual maneira, o segundo é “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” e não algo de sobra. Essas duas mulheres viviam esses mandamentos sem nenhuma dificuldade.


Essas duas mulheres sabem confiar. Confiar é compartilhar. Se existe confiança, necessariamente se traduz em fatos. O que confia compartilha, dá o que tem e se dá a si mesmo. A confiança em Deus é motor de nossa vida, de nossas relações, de nossa caridade e solidariedade.


Essas duas mulheres são duas “pobres” no sentido bíblico dos pobres de Deus (“anawim”); os que Jesus proclama bem-aventurados. Elas põem em Deus sua total esperança.


De modo especial, a viúva do evangelho deste dia, seguramente, nos dá uma definição correta de , de consagração e de abnegação. Ela entende perfeitamente que “na de pão vive o homem”, e deu tudo seu pão. Não foi um gesto suicida de desespero. Ela se pôs sem medida nas mãos de Deus. A viúva deu de sua indigência, em oposição aos ricos que dão de seu poder e de seus privilégios. Neste aspecto contradiz o provérbio segundo o qual ninguém dá o que não tem; essa mulher, ao contrário, somente possui o que deu. O verdadeiro sacrifício agradável a Deus não consiste em dar o que temos, e sim em dar nossa própria vida.


O evangelista Marcos, julgando com suas palavras, termina a narração utilizando uma palavra em grego “BIOS” que tem dois significados: vida e meios de subsistência. Ao dizer que a pobre viúva “ofereceu tudo que possuía para VIVERisto é para sua subsistência Marcos quer nos dizer que também ela deu toda sua vida, porque das duas moedas dependia, na verdade, sua vida inteira. Com sua esmola, a viúva converteu sua pobreza em autentico sacrifício e imolação. Como se ela derramasse sua vida sobre o altar ou como se queimasse sua vida como incenso na presença de Deus. Quem dá daquilo que sobra, não dá a vida. Quem dá de sua própria indigência, daquilo que necessita para viver, dá algo de sua vida. E tudo ela faz sem ser notada, em segredo. Esse ato somente é descoberto pelo olhar de Cristo que além das aparências, penetra no interior.


A oferta da viúva é o cumprimento do primeiro mandamento: “Amarás a Deus de todo o teu coração, de toda a tua força e de toda a tua alma”. A viúva deixa a preocupação da vida nas mãos de Deus. Ela faz uma escolha clara entre Deus e riqueza. Esta opção é possível porque confiar em Deus e amar os irmãos é mais importante do que todas as questões de dinheiro. É o critério fundamental para a vida dos discípulos de Jesus, de todos os cristãos. É chegar a viver livre no Reino de Deus. A viúva não pede nem espera nenhum milagre, nem se contenta com recitar o primeiro mandamento e sim que o vive e pratica.


Podemos até fazer esta pergunta: “O que pode mover um homem a dar sua vida a Deus?”. Parece-me que somente há uma resposta: sentir-se profundamente querido e amado por Deus. A viúva não podia dar graças a Deus pelos bens materiais dos quais poderia desfrutar, mas apesar disso, algo em seu interior lhe fazia sentir-se querida e devedora. Ela pertence ao grupo de pessoas anônimas que guardam nelas a essência da humanidade e a irradiam, ainda que muitos as julguem como pessoas inúteis e desnecessárias. São, sim, a força ou a energia do mundo ou da humanidade. Nelas se encarna Deus.


A Eucaristia da qual participamos é a expressão de confiança em Deus. A Eucaristia é a mesa dos pobres, dos que confiam plenamente no Senhor, em seu dom, em seu alimento, em sua Palavra. É a mesa dos pecadores, conscientes de sê-lo e por isso, abertos à conversão. A Eucaristia é a mesa dos que se oferecem a Deus com a oferenda de Jesus Cristo. O importante não é dar muito ou pouco, e sim dar-se a si mesmo. Jesus é aquele quetudo e se dá a si mesmo. Entregou-se a si mesmo pelos homens e renova sua total entrega em cada Eucaristia. Por isso, todos os que participam da Eucaristia devem ser pessoas eucarísticas, isto é, devem ser pessoas que sabem ser devedoras, e por isso, sabem ser solidárias, compassivas. Somente assim o mundo poderá dizer que realmente somos seguidores de Cristo, Pão da Vida, pois comprovamos com nossa maneira de viver. É morrer e ressuscitar com Cristo, é dar a vida para ganhá-la, é entregar-se totalmente a Deus, nosso Pai, para receber dele a verdadeira vida. O lugar do encontro com Deus passa através do coração pobre, totalmente disponível e aberto a Deus. A Eucaristia é a celebração desta disponibilidade. Na sua ausência, o culto se tornará vazio.

Vitus Gustama, SVD

 

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