sábado, 24 de novembro de 2012

JESUS É O REI DA VERDADE
SOLENIDADE DE CRISTO, REI DO UNIVERSO

 

Cristo:

Pregou o amor, e foi gratuitamente odiado;

Pregou a verdade, e foi abertamente rechaçado;

Pregou o perdão, e foi falsamente acusado;

Pregou a justiça, e foi injustamente condenado;

Pregou a liberdade, e foi violentamente aprisionado;

Pregou a igualdade, e foi grotescamente zombado;

Pregou a bondade, e foi cruelmente torturado;

Pregou a vida, e O mataram;

... e disse: ‘O discípulo não está acima do Mestre’ (Mt 10,24)”.

(René Juan Trossero)


XXXIV DOMINGO DO ANO B

Texto: Jo 18,33b-37

 Naquele tempo, 33bPilatos chamou Jesus e perguntou-lhe: “Tu és o rei dos judeus?” 34Jesus respondeu: “Estás dizendo isto por ti mesmo, ou outros te disseram isto de mim?” 35Pilatos falou: “Por acaso sou judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim. Que fizeste?” 36Jesus respondeu: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui”. 37Pilatos disse a Jesus: “Então tu és rei?”  Jesus respondeu: “Tu o dizes: eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”.
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A festa de Jesus Cristo, Rei do universo, foi instituída por Pio XI em 11 de Dezembro de 1925. O motivo anterior para a introdução da festa nesse ano foi a celebração do 16º centenário do Primeiro Concílio de Nicéia, que proclamou a igualdade de natureza entre Jesus e o Pai, base do reconhecimento de sua realeza. Sobre o sentido da festa o Papa explica na encíclica Quas Primas: “Os males invadem a terra porque a maioria dos homens se afasta de Jesus Cristo e de sua Lei santíssima. Não resplandecerá uma esperança certa de paz verdadeira entre os homens e povos enquanto os indivíduos e as nações negarem e recusarem o império de nosso Salvador. Estamos convencidos de que nãomeio mais eficaz para restabelecer e vigorizar a paz que procurar a restauração do reinado de Jesus Cristo. O reinado de Cristo se opõe unicamente ao reino de Satanás e à potestade das trevas. Por isso, ele exige não somente que os homens sejam desapegados das coisas e das riquezas terrenas, não somente que tenham fome e sede de justiça, mas também que se neguem a si mesmos e tomem sua cruz... Enquanto os homens e as nações, afastados de Deus, correm o risco de cair na sua ruína e na morte por causa da chama de ódios e das lutas fratricidas, a”. Igreja de Deus jamais deixa de oferecer aos homens o sustento espiritual, engendra e forma novas gerações de santos e santas para Cristo”.


Através do evangelho deste dia, João nos apresenta Jesus como Verdade no sentido da realidade autêntica e sem brechas. O diálogo com Pilatos evoca as possíveis falsas interpretações do Rei e do Reino. A autoridade de Jesus e seu messianismo se identificam com sua pessoa e não com umsistema”; qualquer outra autoridade e qualquer outro messianismo não são Verdade, e por isso, não interessam a Jesus. 

A realeza de Jesus não lhe vem de uma eleição popular nem de uma sucessão dinástica, e sim de sua condição de Filho de Deus, feito homem e salvador dos homens. Por isso, Ele é “Evangelho”, Boa Notícia dada aos homens, verdade revelada aos homens sobre Deus, Pai que ama, e sobre os mesmos homens, chamados a ser, no Espírito, filhos no Filho. Nós somos reis na medida em que somos filhos de Deus e portadores do evangelho, da verdade.

Cristo não reinou a partir do privilégio nem a partir dos postos influentes. Cristo reinou no serviço, na entrega e na humanidade, no compromisso com os necessitados e com os desgraçados, com os pecadores e as mulheres da vida, com os que estavam marginalizados na sociedade então: cegos, leprosos, viúvas e assim por diante. O Reino de Deus é um serviço divino ao homem. Por isso, não é fácil crer em um Cristo que compromete e muda a existência do homem, em um Cristo exigente que pede fidelidade aos valores permanentes do Evangelho. É mais fácil aclamar a Cristo Rei no Domingo de Ramos, em uma procissão, em um momento de euforia espiritual. É mais fácil fazer um Reino de Deus a nosso gosto e medida. Cristo foi e é Rei por ser testemunha da verdade e do amor sem limites; enquanto que nossa vida está carregada de mentiras, falsidades, fingimentos e desamores.

O projeto de Jesus que é o projeto de Deus é baseado na verdade que, no evangelho de João, coincide com a vida. É verdade aquele que favorece, transmite e defende para o homem a vida em plenitude. É verdade o amor que se expressa mediante a entrega da própria vida para que a vida dos homens possa ser realmente vida. Por isso, O Reino de Deus não tem estruturas de poder nem necessita de alianças com os poderosos nem entra na política de blocos ou de defesa ou de cooperação econômica. Tudo isto é o próprio deste mundo. O Reino de Deus é um Reino de servidores, não de ministros, que literalmente significa o mesmo embora as práticas não mostrem isto. Jesus é Rei porque é o primeiro servidor que presta o maior serviço: dar a vida inclusive por seus inimigos (cf. Lc 23,34; Mt 5,43-48). O orgulho e a glória do cristão nascem ao da cruz, no serviço humilde à comunidade. Somos um reino de sacerdotes porque todos nós somos chamados a nos oferecer totalmente a Deus pela libertação de nossos irmãos.

Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade”, diz Jesus. Na filosofia a verdade se define como conformidade da inteligência com seu objeto (Adaequatio intellectus ad rem), ou, ontologicamente como conformidade da coisa com a inteligência (Adaequatio rei ad intellectum). Por isso, há a verdade lógica que é uma propriedade da inteligência que conhece, e há também a verdade ontológica que é uma propriedade das coisas: a propriedade pela qual as coisas são conforme a seu tipo ideal (alétheia, termo grego que define a verdade como revelação do ente).

Biblicamente (cf. Jo 1,14;14,6), a verdade significa lealdade, fidelidade, coerência e firmeza no pacto, na amizade, no amor. Ela significa a experiência do encontro com Deus, e por isso, envolve o ser humano todo em sua inteligência, vontade, ação e sentimento. A verdade envolve, então, todo o comportamento vivencial do homem e todo o mistério de Deus no seu relacionamento com as criaturas. É o contrário da mentira que é a incredulidade, a recusa de Jesus, a pretensão de ter Deus sem passar pelo caminho que é Jesus, uma vez que ele se dá a conhecer, que Jesus desmascarou em Jo 8, e que se manifesta nas intenções homicidas (cf. Jo 5,18ss; 8,37.40;18,31).

A missão de Jesus e a missão dos cristãos, dos seguidores de Jesus é essencialmente a de dar testemunho, a de ser testemunha da verdade porque a verdade se impõe por sua própria evidência, e não pela força nem com violência nem com enganos publicitários ou armadilhas propagandísticas e sim por sua própria força, por seu atrativo, por sua capacidade convocatória. Nós, cristãos, não somos agentes comerciais de um bom produto queque colocar seja o que for.

Somos nada mais do que testemunhas da verdade, e por isso, não possuímos verdade porque a verdade é inapropriável, é universal, é de todos e para todos. Não é uma possessão e sim uma tarefa de cada dia. Daí está nossa missão em fazê-la chegar, em facilitar seu caminho, em ajudar os homens a buscá-la e a encontrá-la. Somos testemunhas de verdade. Como tais devemos estar sempre não do lado de ninguém e sim do lado da verdade. “Se você ama a verdade, você respeitará até o ponto de vista do adversário se a verdade estiver com ele”, dizia Mahatma Gandhi. Por isso, temos que viver e atuar como testemunhas da verdade para que os outros vejam, creiam e para que descubram também os demais. Assim se constrói o Reino de Deus. Assim Jesus exerce sua realeza. Não pela força e sim pelo convite à liberdade; não com violência e sim com amor, não com enganos e slogans publicitários e sim com verdade; não com injustiças e sim com justiça; não com a guerra e briga e sim com a paz; não como os homens e sim com o estilo de Deus que atua tão humanamente que muitos chegam acreditar que não atua por ser tão humana sua atuação.

Crer em Jesus que é a Verdade de nossa vida (Jo 14,6) significa que o bem é mais poderoso do que o mal; é crer que, no fim, o bem e a verdade haverão de triunfar sobre o mal e a mentira. Quem pensa que o mal terá a última palavra ou que o bem e o mal têm as mesmas possibilidades, é um ateu.

Ser cristão é ser testemunha da verdade mediante a entrega da própria vida que Deus é amor e quer, que através da vivência do amor, os homens, todos os homens vivam e vivam livres e felizes. A verdade pode ser enterrada por qualquer pessoa, mas ela ressuscita. Mas se a mentira for enterrada, ela não ressuscita, pois nela não habita o futuro e por isso, não vale a pena investir nela.

Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade”, diz Jesus. Esta frase deve ser lema para cada cristão se quiser fazer parte do Reino de Jesus Cristo.

P. Vitus Gustama,svd

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