segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A ORAÇÃO É UMA MANEIRA DE ESTAR NA VIGILÂNCIA PERMANENTEMENTE

 

Sábado, 01 de Dezembro de 2012

Texto de Leitura: Lc 21,34-36

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34Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; 35pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra. 36 Portanto, ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar a tudo o que deve acontecer e para ficardes de pé diante do Filho do Homem”.

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Estamos na ultima parte do discurso escatológico ou apocalíptico de Jesus na versão de Lucas. Desta vez, somos alertados sobre a importância da vigilância e da oração no seguimento de Jesus Cristo.

Ficai atentos e orai a todo momento, a fim de terdes força para escapar a tudo o que deve acontecer e para ficardes de pé diante do Filho do Homem”, assim Jesus nos alerta.

No contexto do discurso, colocado imediatamente antes dos relatos da Paixão e da ressurreição do Senhor, esta exortação designa com claridade a Paixão do Filho do Homem durante a qual os discípulos se encontrarão em uma situação complicada. Consciente da situação complicada, com esta exortação Jesus quer animar seus discípulos para que sejam firmes em tudo, pois atrás do mistério da cruz está a ressurreição. Ao contemplar o mistério da Cruz na sua profundidade acabaremos enxergando o mistério da ressurreição, mistério que nos fortalece para superar tudo na nossa caminhada.

Mas o evangelista Lucas também pensa nos seus leitores de hoje e de amanhã. Encontrados ou situados no mistério da existência, com seus altos e baixos, não sentirão a tentação de abandonar tudo? Daí a importância da vigilância e da oração na vida de qualquer seguidor do Senhor.

Viver Orando

“Quando o Espírito fixa a sua morada no coração do homem, este não pode parar de rezar... e a sua alma exala espontaneamente o perfume de oração(Santo Isaac da Síria).

Rezamos “a fim de terdes força para escapar a tudo o que deve acontecer e para ficardes de pé diante do Filho do Homem”. A oração é a força sem limites para encarar a realidade, pois a encaramos com Deus, e se encararmos tudo com Deus, será cumprido aquilo que São Paulo escreveu: “Se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou seu próprio Filho, mas que por todos nós o entregou, como não nos dará também com ele todas as coisas?” (Rm 8,31-32). Aquele que aprende a ficar de joelho diante de Deus em uma atitude de oração e adoração, ele ficará de pé firmemente diante da vida e de seus acontecimentos. Se pararmos de rezar, erraremos o caminho, pois rezar significa estar em comunhão com Deus. “Tuas orações são a seta que o mantém na raia” (Santo Agostinho: Serm. 22,5).

Na verdadeira oração encontramos Deus, Fonte do ser e do existir, e ao encontrar a Fonte de nosso ser, acabamos encontrando nosso próximo, objeto do amor de Deus (cf. Jo 3,16). Por isso, não pedimos a Deus que governe nossa vida através de milagres, e sim Lhe pedimos o milagre de amar até o fim (cf. Jo 13,1), pois somente o amor capaz de transformar o mundo porque “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). O amor fraterno nos identifica como verdadeiros seguidores de Jesus Cristo (cf. Jo 13,35). Por isso, se nossa oração nos afasta dos homens, ainda não nos encontramos com o Deus dos homens, mas com sua fantasia. Sempre que rezamos de verdade, a nossa oração é eficaz porque nós nos modificamos. Não rezamos para convencer Deus que faça o que queremos e sim para conseguir nos aproximar de tudo que Deus espera de nós. Dizia Santo Agostinho: “É injusto desejar qualquer coisa do Senhor e não desejar a Ele mesmo. Pode, por acaso, a doação ser preferida ao doador?” (In ps.76,2).


Viver Vigiando e Atento

Ficai atentos! Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra”.

 
A ultima recomendação de Jesus no seu discurso escatológico na versão de Lucas, o ultimo conselho do ano litúrgico é este: “Ficai atentos!” ou “Estejais vigilantes”.

 
Ser vigilante não é uma opção para um cristão, e sim faz parte do seu ser como seguidor do Senhor. Estar atento é a verdadeira espiritualidade cristã, pois o centro é sempre o outro e o Outro. A atenção nos leva a nos aproximarmos do outro para estar com ele ou para ajudá-lo na sua necessidade. A vigilância nos capacita a detectarmos tudo que possa desviar nossa atenção de nossa meta de estar em comunhão plena com o Senhor, fonte de nosso ser. Somente os vigilantes são capazes de se afastar do mal.

 
Além disso, a vigilância e a oração têm o seguinte objetivo: “para ficardes de pé diante do Filho do Homem”.  Estar de pé diante de Cristo é estar em vigilância e em atitude de oração na nossa passagem neste mundo cumprindo nossa missão como seguidores de Jesus Cristo. O verdadeiro cristão não se preocupa se a vinda gloriosa de Jesus está próxima ou ainda está distante, pois ele tem um compromisso com o presente de levar até o fim uma grande tarefa de evangelização, isto é, em levar o que é bom e digno para os outros.

 
O contrário da vigilância é a gula, a embriaguez e as preocupações da vida:Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra”.

 
Na época de Jesus, o alcoolismo, o afã de riqueza, a prostituição e os jogos de azar eram as grandes distrações. O povo judeu era muito zeloso de suas leis religiosas. Posteriormente as comunidades primitivas tiveram que definir parâmetros muito claros diante dos vícios que propagavam as culturas greco-romanas centradas no culto ao poder e ao prazer. 

 
O evangelho de hoje põe na boca de Jesus um conjunto de advertências acima mencionadas que tratam de resistir diante dos vícios que ameaçavam a integridade da comunidade. Não se trata de uma pregação moralista e sim um chamado para uma atitude ética consciente e responsável. O ser humano não pode ser livre se ainda permanece atado aos vícios que a cultura lhe impõe. O cristão não pode ficar atento à presença do Senhor se estiver dominado pelo vício. Ao contrário, o cristão precisa estar livre e estar atento diante da realidade para dar uma resposta adequada e eficaz. Por esta razão, o cristão precisa cultivar uma atitude orante que lhe permite estar atento diante da realidade e descobrir os sinais dos tempos.

 
Em cada Eucaristia se concentram três direções para resumir tudo que foi falado até agora, no discurso escatológico de Jesus, através das palavras de São Paulo: “Todas as vezes que comeis desse pão e bebeis desse cálice (momento privilegiado do “hoje”) anunciais a morte do Senhor (o “ontem” da Páscoa), até que ele venha (o “amanhã da manifestação do Senhor)” (1Cor 11,26). Por isso aclamamos no momento central da missa: “Anunciamos, Senhor, a vossa morte, proclamamos a vossa ressurreição, vinde Senhor Jesus”.

 
Com este texto terminamos o Tempo Comum para entrar a partir deste domingo no Tempo do Advento e do Natal. Bom Advento para cada um em particular e para todos nós. Na época de Natal é bom relermos as palavras do Senhor hoje:Tomai cuidado para que vossos corações não fiquem insensíveis por causa da gula, da embriaguez e das preocupações da vida, e esse dia não caia de repente sobre vós; pois esse dia cairá como uma armadilha sobre todos os habitantes de toda a terra”.
 

P. Vitus Gustama,svd
A FIRMEZA E A SOLIDEZ DA PALAVRA DE DEUS

 
Sexta-feira, 30 de Novembro de 2012

Texto de Leitura: Lc 21,29-33

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29 Jesus contou-lhes uma parábola: “Olhai a figueira e todas as árvores. 30Quando vedes que elas estão dando brotos, logo sabeis que o verão está perto. 31Vós também, quando virdes acontecer essas coisas, ficai sabendo que o Reino de Deus está perto. 32Em verdade, eu vos digo: tudo isso vai acontecer antes que passe esta geração. 33O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar.

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Continuamos a acompanhar o discurso escatológico ou apocalíptico de Jesus na versão do evangelho de Lucas (Lc 21,5-38). Jesus acabou de anunciar, no texto do evangelho do dia anterior, sobre o fim de Jerusalém e simbolicamente sobre o fim do mundo, e a parusia (segunda vinda do Senhor). O que para muita gente aparece como uma destruição e um juízo terríveis, para os que vivem de acordo com a Palavra de Deus, pelo contrário, deve aparecer como o começo da verdadeira salvação: “Quando virdes acontecer essas coisas, ficai sabendo que o Reino de Deus está perto... O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar”. Para o cristão, cada acontecimento da história é considerado como uma etapa que o aproxima da redenção ou do Reino de Deus.

Jesus toma uma comparação da vida do campo para que os ouvintes entendam a dinâmica dos tempos futuros ou dos novos tempos. “Olhai a figueira e todas as árvores. Quando vedes que elas estão dando brotos, logo sabeis que o verão está perto”. No lugar em que existem quatro estações, esta imagem é bastante formosa e convidativa para uma contemplação. Uma árvore em um verão! Depois do inverno vem o verão!

Quando vedes que as árvores estão dando brotos...”. É o momento do surgimento de uma vida nova. As folhas velhas vão caindo para dar lugar aos novos brotos. Uma árvore cresce dessa maneira! Cada dia que se despede é o momento da lua e demais estrelas brilharem na escuridão da noite. Cada noite que se despede é o aparecimento do novo dia, da luz que brilha com uma maior intensidade. Em cada novo dia nascem novas oportunidades, novo ânimo, nova página da vida para escrever. Sobre esta nova página posso construir minha vida e salvação. Sobre esta nova página da vida posso conhecer mais e viver melhor; escutar e estudar mais para compreender melhor; compreender mais para ponderar melhor; comprometer-me mais para omitir-me menos; refletir mais para reagir menos; para amar mais e buscar-me menos; para representar mais e menos apresentar: é uma passagem da apresentação para a representação, do fingimento para a transparência.

Perante o discurso de Jesus sobre o fim do mundo ou de uma história precisamos adotar duas atitudes. A primeira atitude é a esperança. Quem tem fé deve ter esperança e quem tem a esperança é porque tem muita fé. A esperança nos faz caminharmos em cada momento um passo adiante, pois ela está sempre na nossa frente nos chamando. A segunda atitude é a confiança. É a certeza de que Deus não pode fracassar, que as palavras divinas são sólidas, não são frágeis nem caducas, pois são palavras da vida eterna (cf. Jo 6,69), e por isso, “O céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não hão de passar”, disse-nos Senhor (Lc 21,33).

Além disso, Jesus nos convida a termos o discernimento em qualquer momento ou em qualquer estação da vida: “Quando vedes que as árvores estão dando brotos, logo sabeis que o verão está perto” (Lc 21,30). Falar em discernimento significa reconhecer a necessidade de que todos nós temos que compreender bem o sentido da vida, os rumos a ser tomados e os desafios a ser enfrentados. A vida, que se apresenta com todos os seus enigmas cobra de cada um de nós uma postura interior de busca e de abertura espiritual, que se for conforme com a verdade, se torna motivo de alegria e de realização. O discernimento pede capacidade de silêncio. Jesus quer nos dizer: “Olhai e sabereis”.

Permaneçamos vigilantes! Em poucos dias começaremos o tempo do Advento na preparação da festa da primeira vinda do Senhor na história (cf. Jo 1,14). Mas estejamos atentos para a vinda do Senhor em cada momento de nossa vida ou de nossa história. Depois da primeira vinda do Senhor na crane, cada momento de nossa vida se transformou em “Kairós”, um tempo de graça e de encontro com o Deus que nos salva: “... ficai sabendo que o Reino de Deus está perto”.

P. Vitus Gustama,svd
ESTEJAMOS VIGILANTES PERMANENTEMENTE
 
 
 

Quinta-feira, 29 de Novembro de 2012

Texto de Leitura: Lc 21,20-28
 
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20“Quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, ficai sabendo que a sua destruição está próxima. 21Então, os que estiverem na Judeia, devem fugir para as montanhas; os que estiverem no meio da cidade, devem afastar-se; os que estiverem no campo, não entrem na cidade. 22Pois esses dias são de vingança, para que se cumpra tudo o que dizem as Escrituras. 23Infelizes das mulheres grávidas e daquelas que estiverem amamentando naqueles dias, pois haverá uma grande calamidade na terra e ira contra este povo. 24Serão mortos pela espada e levados presos para todas as nações, e Jerusalém será pisada pelos infiéis, até que o tempo dos pagãos se complete. 25Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas. Na terra, as nações ficarão angustiadas, com pavor do barulho do mar e das ondas. 26Os homens vão desmaiar de medo, só em pensar no que vai acontecer ao mundo, porque as forças do céu serão abaladas. 27Então eles verão o Filho do Homem, vindo numa nuvem com grande poder e glória. 28Quando estas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima”.

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Estamos ainda no discurso escatológico (sobre o fim) ou apocalíptico (porque quer revelar algo além do acontecimento) na versão de Lucas. Desta vez o evangelista Lucas nos descreve a destruição da cidade de Jerusalém e o Templo e suas tremendas conseqüências. A destruição de Jerusalém (e o Templo de Jerusalém) aconteceu em 70 d.C. “Quando virdes Jerusalém cercada de exércitos...”. A palavra “cercada” aqui literalmente significa “acampamentos”. Os acampamentos que cercam Jerusalém são os de Tito, comandante das legiões romanas, enviadas para sufocar e acabar com a rebelião judaica. O perigo é muito grande porque se trata de um período designado como “dias de vingança” (Lc 21,22. Alude ao Os 9,7). Essa guerra catastrófica termina com a destruição da cidade e do Templo de Jerusalém em 70 d.C. Segundo alguns especialistas, muitos cristãos realmente conseguiram fugir da cidade quando as tropas romanas se aproximaram de Jerusalém.


Segundo os exegetas o evangelho de Lucas foi escrito depois dos anos 70. Isto significa que a destruição de Jerusalém já tinha acontecido. Lucas considera a destruição de Jerusalém como o fim de uma etapa da historia da salvação e por isso, não é o sinal da chegada do momento final (escatologia).


Lucas aproveita o acontecimento da destruição de Jerusalém para falar da vinda do Filho do Homem no fim dos tempos (parusia) a fim de que todos vivam vigilantes e preparados, pois a segunda vinda do Senhor (parusia) é certa, mas o momento é incerto (ninguém conhece o momento da chegada). É preciso viver o momento presente com uma visão do futuro. O próprio futuro está no presente. Nossa vida se move no presente entre uma história (passado) e um projeto (futuro). Aprendemos das lições do passado com otimismo e desejo de superação. Mas, sobretudo, aprendemos a viver intensamente o presente, o único instante que temos em nossas mãos para construir. Não podemos perder o presente lamentando-nos pelos erros do passado e muito menos ainda, temendo o que pode chegar a ser no futuro. O melhor caminho para afrontar o futuro é aproveitar o momento presente: “No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: Eu venci o mundo!”, diz-nos Jesus (Jo 16,33b).


Por isso, a finalidade desse discurso não é para descrever os acontecimentos que precederão o fim e sim para encorajar os cristãos a viverem de acordo com os ensinamentos de Cristo apesar das dificuldades, provações e perseguições. “É pela perseverança que mantereis vossas vidas” , lembra-nos o Senhor (Lc 21,29b).  

Outras mensagens do texto do evangelho lido e meditado neste dia:

Um Alerta para Estar Despojado

“Ai daquelas mulheres que estiverem grávidas e que estiverem amamentando naqueles dias” (Lc 21,23), clama o Senhor ao contemplar o fim do mundo.

Esta exclamação significa muito mais do que uma simples compaixão humana por aquelas mulheres desamparadas. Para o Senhor que contempla e adverte, elas se tornam imagem e tipo daqueles que para os quais o fim do mundo ou o fim de uma história vai surpreender no preciso instante em que não se sentirão livres para poder seguir a voz do Senhor e sair ao encontra da eternidade feliz. Seus pés não são fortalecidos para seguir o caminho da cruz que termina na ressurreição. Pesa sobre seus ombros a carga do falso reino deste mundo. Seus braços abraçam as alegrias caducas de um mundo condenado a perecer. Não conhecem a linguagem dos sinais celestes. São escravos das próprias paixões que os fazem amarrados e cegos diante da eternidade.

Vale a pena cada um se perguntar: “O que é que me pesa no encontro derradeiro com o Senhor no fim da minha história? E o que é que me amarra que dificulta minha caminhada ao encontro do Senhor no fim da minha vida?”. Quem carrega coisas caducas acaba dificultando o próprio vôo até Deus. É preciso ter as “asas” livres do Senhor para voar com liberdade.


Uma Mensagem de Consolo e de Esperança

Quando essas coisas começarem a acontecer, levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima” (Lc 21,28).

O anúncio de Jesus sobre o fim do mundo ou sobre o fim da história de cada um de nós não é um anúncio que quer entristecer e sim animar: “… levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima”. Todos nós somos convidados a ter confiança na vitória de Cristo Jesus: “O Filho do Homem vem numa nuvem com poder e glória” (Lc 21,27). Seja no momento de nossa morte, que não é final e sim início de uma nova maneira de existir, muito mais plena. Seja no momento do final da história, basta estar com Cristo e permanecer nele, ele virá não na humildade e pobreza de Belém e sim na glória e majestade, sinal de sua vitória sobre a morte. Ele já atravessou na sua Páscoa a fronteira da morte e inaugurou para si e para nós a nova existência, os novos céus e a nova terra.


A glória de Jesus se irradia através de todos os portadores da paz e da bondade, através de todos os homens e mulheres que trabalham para construir uma sociedade mais justa e honesta, que põem seus talentos e potencialidades a serviço dos marginalizados e desamparados. É a outra História que se escreve dia após dia, não com letras de molde nem com slogans televisivas, mas com atos de serviço. É a história de salvação. É a história com Deus. É a historia que humaniza. E por isso, é a história que diviniza o humano.
 
Precisamos fazer este tipo de história para que o Senhor possa vir na sua glória ao nosso encontro. Neste dia ouviremos o Senhor nos dizer: “… levantai-vos e erguei a cabeça, porque a vossa libertação está próxima!” (Lc 21,28). Que Deus nos conceda a graça de passar nossa vida fazendo sempre o bem para todos, e que isso façamos não por simples filantropia e sim porque amamos nosso próximo, nosso semelhante e imagem viva de Deus como o Senhor nos amou. “No entardecer de nossa vida seremos julgados sobre o amor” (São João da Cruz).

Nossa vida se move no presente entre uma história (passado) e um projeto (futuro). Aprendemos das lições do passado como otimismo e desejo de superação. Mas, sobretudo, aprendemos a viver intensamente o presente, o único instante que temos em nossas mãos para construir. Não podemos perder o presente lamentando-nos pelos erros do passado e muito menos ainda, temendo o que pode chegar a ser no futuro. O melhor caminho para afrontar o futuro é aproveitar o momento presente: “No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: Eu venci o mundo!”, diz-nos Jesus (Jo 16,33b).


P. Vitus Gustama,svd
SEJAMOS PERSEVERANTES TESTEMUNHAS DO BEM  ATÉ O FIM
 

Quarta-feira, 28 de Novembro de 2012


Texto: Lc 21,12-19


Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 12“Antes que estas coisas aconteçam, sereis presos e perseguidos; sereis entregues às sinagogas e postos na prisão; sereis levados diante de reis e governadores por causa do meu nome. 13Esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé. 14Fazei o firme propósito de não planejar com antecedência a própria defesa; 15porque eu vos darei palavras tão acertadas, que nenhum dos inimigos vos poderá resistir ou rebater. 16Sereis entregues até mesmo pelos próprios pais, irmãos, parentes e amigos. E eles matarão alguns de vós. 17Todos vos odiarão por causa do meu nome. 18Mas vós não perdereis um só fio de cabelo da vossa cabeça. 19É permanecendo firmes que ireis ganhar a vida!”
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Estamos ainda no discurso escatológico ou apocalíptico na versão de Lucas. Não podemos nos esquecer que o evangelho de Lucas foi escrito depois da destruição de Jerusalém que aconteceu em 70 d. C na guerra dos judeus contra Roma em 66-70 d.C. O fim de Jerusalém é, para Lucas, uma prefiguração do fim. As perseguições eram fatos e não se tratava de uma previsão.

Segundo Jesus, cada dificuldade ou perseguição deve se tornar uma oportunidade de dar testemunho dele: “Mas isto será para vós uma ocasião de dar testemunho de mim” (v.13).

Por incrível que pareça a perseguição é o momento oportuno para o cristão porque é uma ocasião de anunciar a Boa Nova, de dar testemunho sobre o bem maior; é uma oportunidade de evangelização. Para São Paulo, por exemplo, foram úteis todas as perseguições para evangelizar: eram meio paradoxal de dirigir-se às mais altas autoridades na época (cf. At 26,1; 18,12; 24,1; 25,1). Na Carta aos Filipenses, São Paulo escreveu: “Meus irmãos, quero fazer-vos saber que os acontecimentos que me envolvem estão redundando em maior proveito do Evangelho” (Fl 1,12).

“Antes que estas coisas aconteçam, sereis presos e perseguidos; sereis entregues às sinagogas e postos na prisão; sereis levados diante de reis e governadores por causa do meu nome. Esta será a ocasião em que testemunhareis a vossa fé”, disse Jesus.

A palavra “testemunhar/testemunho/testemunha” é uma das palavras preferidas por Lucas, especialmente nos Atos dos Apóstolos (aparece 13 vezes em Atos). Na parte central dos grandes discursos que dão ritmo a Atos, Pedro repete: “Nós somos testemunhas” (cf. At 2,32;3,15;10,41). Ser testemunha era a identidade dos discípulos de Jesus. O anúncio da palavra de Deus e o testemunho de vida são palavras-chaves e inseparáveis na obra de Lucas, de modo especial na segunda obra (Atos dos Apóstolos). Testemunhar significa provar com a própria vida aquilo que se fala, se professa e no que se acredita, assumindo todas as conseqüências.

Mas não se trata de testemunhar uma idéia, de um conjunto de verdades. O conteúdo do anúncio não é teoria nem sistema, mas é o próprio Jesus Cristo Ressuscitado. Por isso, o anúncio pode ser feito por todos e para todos, porque não pressupõe nem culturas nem diplomas. Sendo o próprio Jesus Cristo, é suficiente tê-Lo encontrado como aquele que dá sentido a toda a vida. Para anunciar Jesus Cristo Ressuscitado não se requerem qualidades específicas, mas uma fidelidade. Testemunhar Jesus é provar com a própria vida que é ele o sentido profundo de nossa vida e da vida do mundo; que Jesus é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,16); que Jesus é a ressurreição e a vida (Jo 11,25); que Jesus é a Luz do mundo (Jo 8,12); que Jesus é o Pão da vida para o mundo (cf. Jo 6,22-71).

Para Jesus o testemunho tem que chegar até o fim, até as ultimas conseqüências a fim de ganhar a verdadeira vida, a vida em plenitude, a vida eternamente com Deus. A salvação para cada um de nós e para melhorar o mundo, a família, o trabalho, depende da perseverança no caminho da justiça, do amor e da fraternidade. Por isso, Jesus disse: “Todos vos odiarão por causa do meu nome. Mas vós não perdereis um só fio de cabelo da vossa cabeça. É pela perseverança que mantereis vossas vidas” (Lc 21,19).

“Todos vos odiarão por causa do meu nome. Mas vós não perdereis um só fio de cabelo da vossa cabeça”. Ser odiado pelo bem praticado, pela verdade testemunhada, pela justiça vivida, pelo amor fraterno adotado na convivência, pela honestidade em qualquer negócio, pela retidão no comportamento, pela transparência no olhar é, paradoxalmente, um grande aplauso e é um dos maiores elogios que um ser humano possa ter sobre a face da terra.

“É pela perseverança que mantereis vossas vidas”, Jesus acrescentou.  Perseverar significa a capacidade de resistir diante de cada dificuldade. A capacidade de resistir, entendida como perseverança, remete para os nossos valores vividos firmemente, remete para as nossas forças interiores e para as nossas firmes decisões. Como disse o filósofo romano, Epicteto (55 d.C-135 d.C. Um dos seus discípulos era Marco Aurélio): “Cada dificuldade na vida nos oferece uma oportunidade para nos voltarmos para dentro de nós mesmos e recorrermos aos nossos recursos interiores escondidos ou mesmo desconhecidos. As provações que suportamos podem e devem revelar-nos quais são as nossas forças. As pessoas prudentes enxergam além do incidente em si e procuram criar o hábito de utilizá-lo da maneira mais saudável. Você possui forças que provavelmente desconhece. Encontre a que necessita nesse momento. Use-a (cf. A Arte de Viver).

A capacidade de resistir precisa haurir a confiança em Deus, confiança que tem que ser sempre renovada na oração. Como cristãos rezamos sem cessar, pedindo a graça da perseverança final. Estamos, todavia, conscientes de que isto leva consigo a disponibilidade para nos converter, porque estamos conscientes de que a nossa fidelidade é continuamente posta à prova e de que está exposta a contínuas tentações. Podemos ser tentados tanto do exterior (escândalo) como do interior (tentação). É precisamente no momento da tentação que entra em ação a capacidade de resistir. Lembre-se de que o nosso velho Adão está sempre à espreita ou continua a nos observar ocultamente.

A espera faz com que cada cristão seja capaz de desistir em momentos de provação e de luta contra os sintomas do cansaço humano. Não devemos ignorar que nos finais do século primeiro, a cristandade primitiva teve que operar uma difícil mudança ao passar de uma espera próxima para uma espera constante do Senhor. Só a força muito profunda da sua fé lhe permitiu manter tão grande disponibilidade para essa mudança, expressando assim a sua capacidade de resistir.

Aquele que estiver aberto à capacidade de resistir e rezar com perseverança para alcançar o ideal de estar com Cristo eternamente, poderá dizer com o Apóstolo Paulo: “Tudo posso n’Aquele que  me dá força”(Fl 4,13).

Lucas convida, assim, a comunidade cristã a trilhar o caminho da fidelidade e da coragem, o caminho que o próprio Senhor trilhou, mesmo diante da repressão violenta das estruturas do poder, sinagogas, e reis, e mesmo perante a morte violenta (Lc 21,12). Se Jesus Cristo venceu a morte, o maior inimigo da humanidade, o cristão não tem mais nenhuma razão de ter medo. Se o mal avançar, a confiança em Deus deve avançar também porque Deus sempre terá a última palavra e não o mundo. O que importa para uma comunidade cristã é a vivacidade de esperança. É a esperança que arranca o homem de uma existência sem futuro e sem expectativas. A tristeza e o desânimo são um sinal da ausência de uma verdadeira esperança cristã que no fundo provém de uma falta de fé.
  
P. Vitus Gustama,svd


TUDO SERÁ DESTRUÍDO, MAS A PALAVRA DE DEUS PERMANECE

                                                                   


Terça-feira, 28 de Novembro de 2012

Texto: Lc 21,5-11

Naquele tempo, 5algumas pessoas comentavam a respeito do Templo que era enfeitado com belas pedras e com ofertas votivas. Jesus disse: 6“Vós admirais estas coisas? Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra. Tudo será destruído”. 7Mas eles perguntaram: “Mestre, quando acontecerá isto? E qual vai ser o sinal de que estas coisas estão para acontecer?” 8Jesus respondeu: “Cuidado para não serdes enganados, porque muitos virão em meu nome, dizendo: ‘Sou eu!’ E ainda: ‘O tempo está próximo’. Não sigais essa gente! 9Quando ouvirdes falar de guerras e revoluções, não fiqueis apavorados. É preciso que estas coisas aconteçam primeiro, mas não será logo o fim”. 10E Jesus continuou: “Um povo se levantará contra outro povo, um país atacará outro país. 11Haverá grandes terremotos, fomes e pestes em muitos lugares; acontecerão coisas pavorosas e grandes sinais serão vistos no céu”.

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A partir de hoje até o sábado lemos o “discurso escatológico” de Jesus: fala-se dos acontecimentos futuros e os acontecimentos relacionados ao fim do mundo. É coerente porque estamos na ultima semana do Ano litúrgico “B” durante o qual refletimos o evangelho de Marcos. A partir do domingo que vem (I Domingo do Advento) começaremos a entrar no Ano litúrgico “C” durante o qual meditaremos sobre o evangelho de Lucas. O Ano Novo liturgicamente começa no primeiro Domingo do Advento e não no primeiro dia do mês de Janeiro (Ano Novo civil).

Como os dois outros evangelhos sinóticos (Mt 24-25;Mc 13), também o evangelho de Lucas encerra a atividade de Jesus em Jerusalém (Lc19,29-21,38), antes de sua prisão, com o discurso sobre o fim ou discurso escatológico (Lc 21,5-38). Em seu lugar atual na tradição sinótica esse discurso é considerado como um discurso de despedida de Jesus que deixa à sua comunidade os últimos conselhos e advertências. Para Lucas a destruição de Jerusalém era um fato e as perseguições à comunidade primitiva uma realidade. Tanto Mateus como Lucas inspiram seu discurso escatológico do evangelho de Marcos capítulo 13.

No texto do evangelho deste dia, o evangelista Lucas nos relatou que alguns discípulos de Jesus comentaram sobre a beleza do Templo pela qualidade da pedra (mármores) e das doações dos fiéis.

Nos tempos de Jesus, o Templo era recém-edificado. Sua construção começou 19 anos (dezenove anos) antes de Cristo. O Templo de Jerusalém era considerado uma das sete maravilhas do mundo antigo. Seus mármores, seu ouro e toda a ornamentação eram admirados pelos peregrinos.

Diante da admiração dos discípulos Jesus pronuncia algo profético: “Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra”.  Nesse mesmo lugar foi construído o Templo por Salomão até o ano 1.000 a.C e destruído por Nabuconosor em 586 a.C. Logo em seguida foi construído outro Templo por Zorobabel em 516 a.C. O Templo contemporâneo de Jesus foi destruído por Tito em 70 d.C e foi construído novamente em 687 por Mesquita de Omar no mesmo local.

Quando Jesus afirmou: “Tudo será destruído”, algumas pessoas perguntaram sobre o quando desse acontecimento: “Mestre, quando acontecerá isto? E qual vai ser o sinal de que estas coisas estão para acontecer?”. A maioria dos movimentos judeus populares na época de Jesus acreditava que o mundo se aproximava para seu fim. Para eles era iminente uma inevitável catástrofe universal. Todos viviam agitados.

Jesus estava por dentro dessa situação de inquietude e a aproveitou para fazer uma chamada especial. Para Jesus, o importante não era a data em que o mundo haveria de sucumbir. Para ele o importante era a finalidade deste mundo: “Para que estamos aqui neste mundo? O que podemos e devemos fazer? O que quer Deus de nós? Qual é o destino da humanidade e de cada um dos homens?”. Para Jesus o tempo presente e o futuro se abriam como esperança: era o tempo definitivo da salvação com sua presença. Para isso era preciso ter uma mudança de mentalidade para ter uma mudança na maneira de viver. Em cada momento cada homem é chamado a transformar o mundo de morte em um mundo de vida.

Dias virão em que não ficará pedra sobre pedra”. É o símbolo da fragilidade, da caducidade das mais esplêndidas obras humanas.  Precisamos refletir sobre a grande fragilidade de todas as coisas, sobre “minha” fragilidade, sobre a brevidade da beleza e da vida na história. Todos têm olhar para a verdade desta realidade, pois tudo será destruído. Mas São Paulo nos consola: “Sabemos que, se a nossa morada terrestre, esta tenda, for destruída, teremos no céu um edifício, obra de Deus, morada eterna, não feita por mãos humanas” (2Cor 5,1). O próprio Jesus nos promete: “Na casa de meu Pai há muitas moradas... vou preparar-vos um lugar e quando vos for preparado um lugar, virei novamente e vos levarei comigo a fim de que onde eu estiver, estejais vós também” (Jo 14,2-3).

Se tudo for destruído, então, somos chamados a estar vigilantes. Somos chamados a viver com sabedoria, com prudência, com fraternidade, com justiça, com verdade, com caridade, com compaixão, com amor, com fé e esperança que são valores que permanecem e que nos salvam. Quando tudo for destruído, estes valores permanecerão. A beleza sólida destes valores permanecerá, mesmo quando tudo o mais estiver reduzido a escombros.

Cada cristão, como templo de Deus (cf. 1Cor 3,16-17), adornado com as belas pedras das virtudes cristãs, pode e deve perseverar no bem, resistindo às diversas provações e tentações. Nós cristãos temos um dever de ler os sinais dos tempos e de fazer um verdadeiro discernimento do bem e do mal, do verdadeiro e do falso, para não nos deixar enganar pelos falsos profetas e afastar do seguimento de Jesus Cristo, o único Salvador. Concretamente, devemos viver cada dia sob o influxo do Espírito de Deus, deixando-nos guiar pelos Seus dons, irradiando os Seus frutos, exercendo os Seus carismas, vivendo as bem-aventuranças.

Portanto, cada dia nós temos que voltar a começar tudo de novo com Deus, pois cada dia é o tempo de salvação, se estivermos conscientes da provisoriedade da vida humana na história. Fazer a história com Deus é fazer a história de salvação. Por isso, tudo terminará feliz.

P. Vitus Gustama,svd





domingo, 25 de novembro de 2012


VIÚVA QUE CONFIA NA PROVIDÊNCIA DIVINA


Segunda-feira, 26 de Novembro de 2012

Texto: Lc 21,1-4


Naquele tempo, 1Jesus ergueu os olhos e viu pessoas ricas depositando ofertas no tesouro do Templo. 2Viu também uma pobre viúva que depositou duas pequenas moedas. 3Diante disso, ele disse: “Em verdade vos digo que essa pobre viúva ofertou mais do que todos. 4Pois todos eles depositaram, como oferta feita a Deus, aquilo que lhes sobrava. Mas a viúva, na sua pobreza, ofertou tudo quanto tinha para viver”.               ***********

 
No AT as viúvas fazem parte da classe dos pobres, mas são especialmente queridas aos olhos de Deus que as protege com sua lei (Is 10,2; Dt 26, 12-12; Eclo 35,17-19; Sl 94,6-10). No NT, especialmente nos escritos de Lucas (Evangelho de Lucas e Atos dos Apóstolos) aparecem também as viúvas como objeto de especial afeto por parte de Jesus (Lc 7,11-15; 18,3-5; 20,47; 21,2-4).

O evangelho fala da oferta dos ricos, mas o foco é a oferta de uma viúva pobre. A antítese ricos-pobres aparece freqüentemente no evangelho de Lucas e nos discursos escatológicos de Jesus. E segue o mesmo procedimento das bem-aventuranças onde a oposição entre ricos e pobres (Lc 6,20-24) serve para anunciar a iminência do Reino e a mudança das situações abusivas. Não se trata de fazer a apologia ou a crítica de uma situação social existente e sim para sublinhar a transformação que a chegada do Reino de Deus causa nas testruturas humanas.

O evangelho nos relata que a viúva entrega sua indigência em oposição aos ricos que entregam seu poder e seus privilégios. A viúva contradiz ao provérbio que diz: “Somente se dá aquilo que se tem”. Ao contrário, a viúva somente possui o que deu. Não importa a quantidade que damos e sim o amor com que damos.

Ao entregar tudo para Deus o que ele tinha, a viúva quer nos ensinar a termos em Deus em qualquer situação, pois Deus é maior de tudo. Essa viúva tem muita na providência de Deus e por isso, ela não tem medo de entregar tudo nas mãos de Deus. “A é uma posse antecipada do que se espera, um meio de demonstrar as realidades que não se vêem” (Hebreus 11,1).

A nos aproxima do conhecimento de Deus embora não seja total, pois nosso cérebro é muito pequeno para entender tudo de Deus ou sobre Deus na sua totalidade. em Deus nos faz participarmos na vida de Deus e nos faz entendermos o sentido da vida e dos acontecimentos da vida, pois a é uma luz que ilumina nossa existência. A verdadeira em Deus é capaz de vencer as influências nefastas do mundo, pois quem se mantém na profissão da verdadeira vive no mundo de Deus. Por isso, quem tem tem coração sereno e cheio de paz.

A nos move a fazermos somente o bem durante a vida, como Jesus que passou a vida fazendo o bem (At 10,38). Se quisermos mostrar para os outros que temos em Deus, precisamos mostrar o bem e a bondade que praticamos (mas sem vaidade).

A ausência desta suscita a angústia e o pavor em nós. Quando confiamos apenas nas nossas forças, quando contamos apenas com as nossas capacidades, com aquilo que possuímos, mais cedo ou tarde ficaremos desiludidos.

Além disso, ao entregar tudo para Deus o que tinha, a viúva nos ensina a não ficarmos apegados às coisas. Porque, neste mundo, durante nossa passagem, não temos poder para possuir. Temos apenas o direito de usar as coisas criadas por Deus. Quando terminarmos nossa vida nesta terra nada nós levaremos. Tudo que é deste mundo vai ficar neste mundo.

Quem tem o apego às coisas perde a liberdade, pois as coisas começam a mandar nele. Podemos possuir as coisas terrenas, mas não podemos ser possuídos por elas para não perdermos nossa liberdade de filhos e filhas de Deus. Desapego é o caminho de libertação.

Ser de Deus e acreditar em Deus é servir e dar, não aquilo que sobra e sim a si mesmo. Nisto daremos de coração e Deus nosso coração: ”Em verdade vos digo, esta pobre viúva deu mais do que todos os outros que ofereceram esmolas. Todos deram do que tinham de sobra, enquanto ela, na sua pobreza, ofereceu tudo aquilo que possuía para viver”.

P. Vitus Gustama,svd






sábado, 24 de novembro de 2012

JESUS É O REI DA VERDADE
SOLENIDADE DE CRISTO, REI DO UNIVERSO

 

Cristo:

Pregou o amor, e foi gratuitamente odiado;

Pregou a verdade, e foi abertamente rechaçado;

Pregou o perdão, e foi falsamente acusado;

Pregou a justiça, e foi injustamente condenado;

Pregou a liberdade, e foi violentamente aprisionado;

Pregou a igualdade, e foi grotescamente zombado;

Pregou a bondade, e foi cruelmente torturado;

Pregou a vida, e O mataram;

... e disse: ‘O discípulo não está acima do Mestre’ (Mt 10,24)”.

(René Juan Trossero)


XXXIV DOMINGO DO ANO B

Texto: Jo 18,33b-37

 Naquele tempo, 33bPilatos chamou Jesus e perguntou-lhe: “Tu és o rei dos judeus?” 34Jesus respondeu: “Estás dizendo isto por ti mesmo, ou outros te disseram isto de mim?” 35Pilatos falou: “Por acaso sou judeu? O teu povo e os sumos sacerdotes te entregaram a mim. Que fizeste?” 36Jesus respondeu: “O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas lutariam para que eu não fosse entregue aos judeus. Mas o meu reino não é daqui”. 37Pilatos disse a Jesus: “Então tu és rei?”  Jesus respondeu: “Tu o dizes: eu sou rei. Eu nasci e vim ao mundo para isto: para dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz”.
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A festa de Jesus Cristo, Rei do universo, foi instituída por Pio XI em 11 de Dezembro de 1925. O motivo anterior para a introdução da festa nesse ano foi a celebração do 16º centenário do Primeiro Concílio de Nicéia, que proclamou a igualdade de natureza entre Jesus e o Pai, base do reconhecimento de sua realeza. Sobre o sentido da festa o Papa explica na encíclica Quas Primas: “Os males invadem a terra porque a maioria dos homens se afasta de Jesus Cristo e de sua Lei santíssima. Não resplandecerá uma esperança certa de paz verdadeira entre os homens e povos enquanto os indivíduos e as nações negarem e recusarem o império de nosso Salvador. Estamos convencidos de que nãomeio mais eficaz para restabelecer e vigorizar a paz que procurar a restauração do reinado de Jesus Cristo. O reinado de Cristo se opõe unicamente ao reino de Satanás e à potestade das trevas. Por isso, ele exige não somente que os homens sejam desapegados das coisas e das riquezas terrenas, não somente que tenham fome e sede de justiça, mas também que se neguem a si mesmos e tomem sua cruz... Enquanto os homens e as nações, afastados de Deus, correm o risco de cair na sua ruína e na morte por causa da chama de ódios e das lutas fratricidas, a”. Igreja de Deus jamais deixa de oferecer aos homens o sustento espiritual, engendra e forma novas gerações de santos e santas para Cristo”.


Através do evangelho deste dia, João nos apresenta Jesus como Verdade no sentido da realidade autêntica e sem brechas. O diálogo com Pilatos evoca as possíveis falsas interpretações do Rei e do Reino. A autoridade de Jesus e seu messianismo se identificam com sua pessoa e não com umsistema”; qualquer outra autoridade e qualquer outro messianismo não são Verdade, e por isso, não interessam a Jesus. 

A realeza de Jesus não lhe vem de uma eleição popular nem de uma sucessão dinástica, e sim de sua condição de Filho de Deus, feito homem e salvador dos homens. Por isso, Ele é “Evangelho”, Boa Notícia dada aos homens, verdade revelada aos homens sobre Deus, Pai que ama, e sobre os mesmos homens, chamados a ser, no Espírito, filhos no Filho. Nós somos reis na medida em que somos filhos de Deus e portadores do evangelho, da verdade.

Cristo não reinou a partir do privilégio nem a partir dos postos influentes. Cristo reinou no serviço, na entrega e na humanidade, no compromisso com os necessitados e com os desgraçados, com os pecadores e as mulheres da vida, com os que estavam marginalizados na sociedade então: cegos, leprosos, viúvas e assim por diante. O Reino de Deus é um serviço divino ao homem. Por isso, não é fácil crer em um Cristo que compromete e muda a existência do homem, em um Cristo exigente que pede fidelidade aos valores permanentes do Evangelho. É mais fácil aclamar a Cristo Rei no Domingo de Ramos, em uma procissão, em um momento de euforia espiritual. É mais fácil fazer um Reino de Deus a nosso gosto e medida. Cristo foi e é Rei por ser testemunha da verdade e do amor sem limites; enquanto que nossa vida está carregada de mentiras, falsidades, fingimentos e desamores.

O projeto de Jesus que é o projeto de Deus é baseado na verdade que, no evangelho de João, coincide com a vida. É verdade aquele que favorece, transmite e defende para o homem a vida em plenitude. É verdade o amor que se expressa mediante a entrega da própria vida para que a vida dos homens possa ser realmente vida. Por isso, O Reino de Deus não tem estruturas de poder nem necessita de alianças com os poderosos nem entra na política de blocos ou de defesa ou de cooperação econômica. Tudo isto é o próprio deste mundo. O Reino de Deus é um Reino de servidores, não de ministros, que literalmente significa o mesmo embora as práticas não mostrem isto. Jesus é Rei porque é o primeiro servidor que presta o maior serviço: dar a vida inclusive por seus inimigos (cf. Lc 23,34; Mt 5,43-48). O orgulho e a glória do cristão nascem ao da cruz, no serviço humilde à comunidade. Somos um reino de sacerdotes porque todos nós somos chamados a nos oferecer totalmente a Deus pela libertação de nossos irmãos.

Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade”, diz Jesus. Na filosofia a verdade se define como conformidade da inteligência com seu objeto (Adaequatio intellectus ad rem), ou, ontologicamente como conformidade da coisa com a inteligência (Adaequatio rei ad intellectum). Por isso, há a verdade lógica que é uma propriedade da inteligência que conhece, e há também a verdade ontológica que é uma propriedade das coisas: a propriedade pela qual as coisas são conforme a seu tipo ideal (alétheia, termo grego que define a verdade como revelação do ente).

Biblicamente (cf. Jo 1,14;14,6), a verdade significa lealdade, fidelidade, coerência e firmeza no pacto, na amizade, no amor. Ela significa a experiência do encontro com Deus, e por isso, envolve o ser humano todo em sua inteligência, vontade, ação e sentimento. A verdade envolve, então, todo o comportamento vivencial do homem e todo o mistério de Deus no seu relacionamento com as criaturas. É o contrário da mentira que é a incredulidade, a recusa de Jesus, a pretensão de ter Deus sem passar pelo caminho que é Jesus, uma vez que ele se dá a conhecer, que Jesus desmascarou em Jo 8, e que se manifesta nas intenções homicidas (cf. Jo 5,18ss; 8,37.40;18,31).

A missão de Jesus e a missão dos cristãos, dos seguidores de Jesus é essencialmente a de dar testemunho, a de ser testemunha da verdade porque a verdade se impõe por sua própria evidência, e não pela força nem com violência nem com enganos publicitários ou armadilhas propagandísticas e sim por sua própria força, por seu atrativo, por sua capacidade convocatória. Nós, cristãos, não somos agentes comerciais de um bom produto queque colocar seja o que for.

Somos nada mais do que testemunhas da verdade, e por isso, não possuímos verdade porque a verdade é inapropriável, é universal, é de todos e para todos. Não é uma possessão e sim uma tarefa de cada dia. Daí está nossa missão em fazê-la chegar, em facilitar seu caminho, em ajudar os homens a buscá-la e a encontrá-la. Somos testemunhas de verdade. Como tais devemos estar sempre não do lado de ninguém e sim do lado da verdade. “Se você ama a verdade, você respeitará até o ponto de vista do adversário se a verdade estiver com ele”, dizia Mahatma Gandhi. Por isso, temos que viver e atuar como testemunhas da verdade para que os outros vejam, creiam e para que descubram também os demais. Assim se constrói o Reino de Deus. Assim Jesus exerce sua realeza. Não pela força e sim pelo convite à liberdade; não com violência e sim com amor, não com enganos e slogans publicitários e sim com verdade; não com injustiças e sim com justiça; não com a guerra e briga e sim com a paz; não como os homens e sim com o estilo de Deus que atua tão humanamente que muitos chegam acreditar que não atua por ser tão humana sua atuação.

Crer em Jesus que é a Verdade de nossa vida (Jo 14,6) significa que o bem é mais poderoso do que o mal; é crer que, no fim, o bem e a verdade haverão de triunfar sobre o mal e a mentira. Quem pensa que o mal terá a última palavra ou que o bem e o mal têm as mesmas possibilidades, é um ateu.

Ser cristão é ser testemunha da verdade mediante a entrega da própria vida que Deus é amor e quer, que através da vivência do amor, os homens, todos os homens vivam e vivam livres e felizes. A verdade pode ser enterrada por qualquer pessoa, mas ela ressuscita. Mas se a mentira for enterrada, ela não ressuscita, pois nela não habita o futuro e por isso, não vale a pena investir nela.

Eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade”, diz Jesus. Esta frase deve ser lema para cada cristão se quiser fazer parte do Reino de Jesus Cristo.

P. Vitus Gustama,svd