terça-feira, 30 de abril de 2013

SER CRISTÃO SIGNIFICA SER MÁRTIR DE CRISTO
 
Sábado da V Semana da Páscoa
04 de Maio de 2013

Texto de Leitura: Jo 15,18-21

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 18“Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim. 19Se fôsseis do mundo, o mundo gostaria daquilo que lhe pertence. Mas, porque não sois do mundo, porque eu vos escolhi e apartei do mundo, o mundo por isso vos odeia.  20Lembrai-vos daquilo que eu vos disse: ‘O servo não é maior que seu senhor’. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós. Se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. 21Tudo isto eles farão contra vós por causa do meu nome, porque não conhecem aquele que me enviou”.

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Continuamos ainda a acompanhar o discurso de despedida de Jesus dos seus discípulos (Jo 13-17).


O evangelho de hoje descreve a situação precária da comunidade cristã no mundo, principalmente nos finais do século I e nos começos do século II. É uma situação que se caracteriza pela recusa e até pela perseguição abertas. A resistência à revelação não cessou na cruz de Jesus. A mesma resistência agora é dirigida contra a comunidade cristã que mantém os ensinamentos de Jesus Cristo. “Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós”, alerta Jesus aos seus. Na época em que João escreveu seu evangelho muitos morreram como mártires.


No evangelho deste dia, Jesus contrapõe o amor do Pai com o ódio do mundo manifestado pela perseguição. “Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim”. Ódio é paixão ou sentimento que leva a fazer ou a desejar mal para o próximo. É uma paixão provocada pela vista do mal e que se traduz por um sentimento de aversão. O mundo é caracterizado pelo ódio. A comunidade cristã é caracterizada pelo amor fraterno: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,35).


Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim”. Os cristãos estão bem advertidos. Não têm porque se estranham de ser recusados ou odiados. Nada de estranho! A Igreja é o Corpo de Cristo. Por isso, tem que sofrer inevitavelmente os ataques do homem mundano que se crê deus de si mesmo e que não pode renunciar a ser ele o autor de sua própria salvação. Este tipo de homem sempre buscará acusações contra a Igreja, pelos mesmos motivos que as buscou contra Jesus. Para o mundo a fé em Deus é irracional e atrasada; o perdão aos inimigos é uma debilidade; a oração e o amor a Deus são atitudes ineficazes. Por isso e por tantos outros motivos a Igreja de Cristo é perseguida. Mas a perseguição é um meio de união com Cristo; é correr a mesma sorte que Jesus.


Para São João, habitualmente, especialmente no contexto do evangelho deste dia, o mundo significa “o mundo pecador”, “o mundo que recusa Deus”. O processo de Jesus não terminou enquanto a Igreja estiver no mundo. Por isso, o mundo neste sentido é sinônimo de todo um sistema ideológico, político e social que aliena o ser humano e o converte num escravo; designa a todo sistema injusto. Mas o seguimento de Jesus, a amizade com ele leva os cristãos a romperem com a mentalidade alienada que o mundo impõe.


Mas a ruptura com o mundo não é fácil. Pelo contrário, resulta num conflito em extrema deprimente e perigoso, porque o mundo, como mentalidade alienadora, não permite a mínima dissensão ou oposição. Por isso, enquanto a Igreja existir sobre a face da terra, vão continuar a existir também mártires. Mas o sangue do mártir é a semente para a Igreja. Não dá para a verdadeira Igreja de Cristo parar de sofrer. A Igreja de Jesus continua com sua função profética de anunciar e de denunciar que resulta na perseguição e no martírio. Viver de acordo com os ensinamentos de Cristo significa ser sinal de contradição (cf. Lc 2,34-35).


Os cristãos devem lutar incansavelmente por superar, em sua própria pessoa e na comunidade, a mentalidade que o mundo lhes impõe. A vida de um cristão é uma luta permanente contra o mal. Qualquer cristão verdadeiro sofrerá por manter sua opção pelos valores do Reino tais como amor, justiça, honestidade, verdade, igualdade, fraternidade e assim por diante.


O que o cristão deve continuar a fazer é testemunhar o amor fraterno. O amor fraterno é o selo de autenticidade de cada cristão (cf. Jo 13,35). Somente o amor vivido na fraternidade salva, pois “Deus é Amor” (1Jo 4, 8.16).


O perigo que temos é a assimilação insensível da hierarquia de valores do mundo em vez da hierarquia de valores que Jesus Cristo ensinou. Por isso, há perseguição contra a Igreja que é fruto da incoerência da própria Igreja com seus próprios ensinamentos éticos e morais recebidos de Jesus Cristo. Se a Igreja estiver de mãos dadas com o mundo é porque a Igreja deixa de viver de acordo com sua função profética de anunciar e de denunciar. Em outras palavras, a Igreja é perseguida porque não está vivendo os valores cristãos que ela própria prega. Neste sentido, este tipo de perseguição serve para que a Igreja volte a ser como antes: uma comunidade cristã que vive os valores éticos e morais antes de pregá-los. Mas há outro tipo de perseguição que se deriva do choque do evangelho com muitos dos critérios que hoje são vigentes. Esta segunda perseguição é um claro sinal da autenticidade da Igreja. Se os cristãos forem perseguidos por estar vivendo os valores éticos e morais e os demais valores evangélicos, estarão recebendo, na verdade, um grande aplauso apesar do sofrimento. Que bom que alguém me critica por praticar o bem.


Ao participar da Eucaristia sabemos que aceitamos as exigências do Evangelho, de tal forma que, daqui em diante, temos que viver totalmente comprometidos com Jesus Cristo. Comungar o Corpo do Senhor significa viver como Ele viveu. Comungar o Corpo do Senhor significa assumir o estilo de vida que ele viveu. Sem isto, a Eucaristia e a comunhão carecerão de sentido.

P. Vitus Gustama,svd

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