sexta-feira, 3 de maio de 2013

VI DOMINGO DA PÁSCOA

 
PARA SER HABITADO PELA SANTÍSSIMA TRINDADE É PRECISO AMAR

Domingo, 05 de Maio de 2013
Texto: Jo 14,23-29

 
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 23“Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada. 24 Quem não me ama, não guarda a minha palavra. E a palavra que escutais não é minha, mas do Pai que me enviou. 25 Isso é o que vos disse enquanto estava convosco. 26 Mas o Defensor, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito. 27 Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração. 28 Ouvistes o que eu vos disse: ‘Vou, mas voltarei a vós’. Se me amásseis, ficaríeis alegres porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu. 29 Disse-vos isso, agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós acrediteis”.

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Jo 14 pertence ao grande discurso de despedida de Jesus (13,31-17,26). O contexto do Jo 14 é a Última Ceia.


 1. Nova Morada De Deus: Coração Que Ama
  

No v.22, Judas (que não é Judas Iscariotes) fez a seguinte pergunta a Jesus: “Senhor, por que te manifestas a nós e não ao mundo?” Em outras palavras, ele queria dizer: Por que tais privilégios não são concedidos a todos?


Como acontece várias vezes no evangelho de João, aqui Jesus não se preocupa em responder diretamente à pergunta de Judas. Em vez disso, ele declara através dos seguintes versículos as condições necessárias para que o Pai esteja presente no discípulo: o amor a Jesus que se manifesta na observância de sua palavra: “Se alguém me ama, guardará minha palavra e o meu Pai o amará e a ele viremos e nele estabeleceremos nossa morada” (v.23).


“Guardar a sua palavra” é praticar o exemplo de amor que Jesus deixou (cf. 5º Domingo da Páscoa). Por isso, o teste mais adequado para verificar a realidade do amor a Cristo é a obediência, a observância concreta dos mandamentos que se resumem no mandamento do amor fraterno.
  

Além disso, o amor é o lugar da manifestação de Deus trino (nele estabeleceremos nossa morada). A afirmação de Jesus é, na verdade, um convite ao progresso interior que nos torna semelhantes a Deus pela fidelidade à palavra, e faz reconhecer, nesta fidelidade, a morada das pessoas divinas. A partir do momento em que alguém amar, ele será a nova morada de Deus. Se em Jo 14,3 Jesus disse que iria preparar para os fiéis uma morada no céu, agora no texto do evangelho de hoje fica claro que a morada do Pai e de Jesus no meio de nós começa aqui e agora, na medida em que observamos o mandamento de Jesus: mandamento do amor fraterno (Jo 13,34-35; 15,12).


Se no passado Deus se manifestava em lugares e fenômenos naturais, agora fica muito claro que as pessoas que amam como Jesus são manifestação da presença de Deus. Assim, a separação entre o homem e Deus é superada, e a busca do Pai, tema essencial do Discurso é satisfeita pelo próprio Pai. O nosso Deus não é o Deus distante, mas aquele que se aproxima do homem e vive com ele, formando uma comunidade com os homens, objeto do seu amor. Buscar a Deus não exige ir encontrá-lo fora de si mesmo, mas deixar-se encontrar e amar por ele. A “morada” de Deus está em nós mesmos/entre nós, se estamos/estivermos unidos a Jesus e ao Pai na fidelidade e na prática do mandamento do amor. A resposta ao amor a Jesus se expressa no amor aos outros homens (guardar minha palavra). E o Pai e Jesus respondem à fidelidade do discípulo dando-lhe a experiência de sua companhia e seu contato pessoal. Toda vez que alguém, ao escutar a mensagem do amor, a repete para si mesmo e a põe em prática, insere-se na família de Deus e passa a ser, com Jesus, uma manifestação de Deus ao mundo.


A comunidade cristã e o “mundo”, então, distinguem-se entre si pela presença ou ausência do amor. O amor torna-se a razão de diferença entre os discípulos e o mundo. Sem amor, o homem continua carnal, incapaz da autêntica experiência de Deus.


O fim ultimo de toda a Economia divina é a entrada das criaturas na unidade perfeita da Santíssima Trindade. Mas desde já somos chamados a ser habitados pela Santíssima Trindade: ‘Se alguém me ama, diz o Senhor, guardará a minha palavra, e meu Pai o amará e viremos a ele, e faremos nele a nossa orada’[Jo 14,23]” (Catecismo da Igreja Católica no. 260).


2. Paráclito e sua função


Essas coisas vos tenho dito estando entre vós. Mas o Paráclito, O Espírito Santo          que o Pai enviará em meu nome, vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que vos disse”.


No evangelho de João, o Espírito Santo tem uma importância excepcional. Somente neste evangelho ele é chamado de Paráclito com o significado amplíssimo de ajudante, assistente, sustentador, protetor, advogado, procurador e sobretudo como animador e iluminador no processo da fé (parákleton, em grego, literalmente significa “aquele que é chamado para perto de ou para indicar aquele que vem assistir o acusado: o advogado).
     

No v.26, dois verbos expressam a função atribuída ao Paráclito: ensinar e fazer recordar. Na Bíblia, o verbo “ensinar” (didáskein) tem o sentido de interpretar autenticamente a Escritura e de atualizá-la para o presente e o futuro. O ensinamento do Espírito consiste em reavivar nos discípulos a lembrança das palavras de Jesus no sentido de introduzir os discípulos na verdade plena (Jo 16,13).
   

Essa revelação será ensinada pelo Paráclito a partir do interior das consciências, como o indica a expressão “ele vos fará recordar”. Na linguagem bíblica, “recordar” implica não apenas a lembrança de um fato anterior, mas uma tomada de consciência de sua significação.


Ao conceder aos discípulos a recordação das palavras de Jesus, o Espírito não se limita, portanto, a lembrar um conteúdo a uma memória enfraquecida; ele os leva a aprender o seu sentido, até então obscuro, e permitir que eles as interpretem em profundidade à luz pascal. O papel interpretativo do Espírito, todo ele relativo à mensagem do Filho, faz da comunidade cristã o lugar em sua revelação é recebida sempre de novo e atualizada de maneira criativa na existência dos fiéis. Isso quer dizer que a Palavra de Jesus permanecerá viva no curso do tempo.


·       «Ninguém pode dizer "Jesus é o Senhor" a não ser pela ação do Espírito Santo» (1Cor 12, 3). «Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: "Abbá! Pai!'» (Gl 4, 6). Este conhecimento da fé só é possível no Espírito Santo. Para estar em contacto com Cristo, é preciso primeiro ter sido tocado pelo Espírito Santo. É Ele que nos precede e suscita em nós a fé” (Catecismo Da Igreja Católica no. 683).


3. A paz de Cristo
   

Ao se despedir de seus discípulos, Jesus lhes dá a sua paz: “Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz; não vo-la dou como o faz o mundo. Que o vosso coração não se perturbe nem se intimide” (v.27).
    

Paz (shalom) é a saudação habitual entre os judeus com uma grande densidade de significado, pois este termo não significa apenas a ausência de conflitos ou a tranqüilidade da alma, mas também a saúde, a prosperidade, a felicidade em plenitude.
    

Ao se despedir dos discípulos, Jesus não lhes deseja a paz, mas ele lhes dá a paz: “Eu vos deixo a paz”, e insiste: “Eu vos dou a minha paz”. Que tipo de paz que Jesus oferece? Não se trata de um simples augúrio de paz, mas de um verdadeiro dom. A paz é um dom, vem do alto: não surge da decisão do homem. Por isso, não pode reduzir-se ao nível de sentimento. Trata-se de uma palavra que salva, que vai à raiz, lá onde está a origem da verdadeira paz (a origem do mal). A paz de Jesus tem como efeito banir/expulsar do coração dos discípulos todo e qualquer resquício/resíduo de perturbação ou de temor que leva ao imobilismo. Possuindo o dom da paz de Jesus, eles devem manter-se imperturbáveis, sem se deixar intimidar diante das dificuldades. Assim pensada, a paz de Jesus consiste numa força divina que não deixa os discípulos rompam a comunhão com Jesus. É Jesus mesmo, presente na vida dos discípulos, sustentando-lhe a caminhada, sempre disposto a seguir adiante com alegria, rumo à casa do Pai, apesar das adversidades que deverão enfrentar. Dizendo “vai em paz”, Jesus cura a hemorroíssa (Lc 8,48) e perdoa os pecados à pecadora (Lc 7,50). A paz de Jesus nasce da vitória sobre o pecado e suas conseqüências. A paz de Jesus funda-se no amor fraterno e na justiça. A paz de Jesus, por isso, rejeita toda espécie de idolatria que coloca criatura no lugar de Deus e submete o ser humano a um regime de opressão. João enfatiza que Jesus é o mediador da paz; é neste sentido que Jesus a qualifica de “minha”. Os verbos estão no presente, sublinhando, assim, a realidade atual e a duração indefinida do dom. O Filho dispõe a paz que, segundo a Bíblia, só Deus pode conceder. A paz caracteriza os tempos messiânicos (Sl 72,7). O Messias tem por nome “o Príncipe da Paz”(Is 9,5s). A aliança escatológica é uma “aliança de paz” (Is 66,12). Todo o NT se mostra herdeiro dessa tradição para acentuar a reconciliação com Deus(At 10,36;Rm 5,1;Ef 2,14-17;Cl 1,20 etc.).
       

“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo”. Em que consiste a paz do mundo?
   

A paz que o mundo oferece prescinde de Deus e se funda num projeto contrário ao dele. Aí, se encontram a injustiça, a concentração de bens à custa da exploração alheia, o desrespeito pelo ser humano. É o império do egoísmo que idolatra pessoas e coisas, e transforma os indivíduos em seus escravos. Por isso, é uma paz que conduz à morte eterna.
    

Quando o homem esquece o seu destino eterno e o horizonte de sua vida se limita à existência terrena, contenta-se com uma paz fictícia, com uma tranqüilidade exterior. Jesus qualifica este tipo de paz como a paz que o mundo dá. Recuperar a paz perdida é uma das melhores manifestações de nossa caridade para com os que estão à nossa volta.

 
P. Vitus Gustama,svd

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