quinta-feira, 22 de agosto de 2013

 
ESFORÇAR-SE PARA ENTRAR PELA PORTA ESTREITA


XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM “C”
25 de Agosto de 2013
 
Texto de Leitura: Lc 13,22-30

Naquele tempo, 22 Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo o caminho para Jerusalém. 23 Alguém lhe perguntou: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” Jesus respondeu: 24 “Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita. Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão. 25 Uma vez que o dono da casa se levantar e fechar a porta, vós, do lado de fora, começareis a bater, dizendo: ‘Senhor, abre-nos a porta!’ Ele responderá: ‘Não sei de onde sois’. 26 Então começareis a dizer: ‘Nós comemos e bebemos diante de ti, e tu ensinaste em nossas praças!’ 27 Ele, porém, responderá: “Não sei de onde sois. Afastai-vos de mim, todos vós, que praticais a injustiça!’ 28 Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac e Jacó, junto com todos os profetas no Reino de Deus, e vós, porém, sendo lançados fora. 29 Virão homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus. 30 E assim há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos”.
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O texto faz parte duma grande seção que fala da viagem de Jesus rumo a Jerusalém. Lucas, neste texto (v.22), menciona novamente a “viagem a Jerusalém”. A narração da viagem é mais um estratagema literário, referindo todos os acontecimentos à cruz e à ressurreição, do que uma descrição geográfica. A peregrinação de Jesus consiste numa vida de abandono à vontade de Deus que serve de exemplo tanto a seus seguidores como, particularmente, aos apóstolos. Quem quiser ser glorificado com Jesus, deve estar decidido a escolhê-lo como Mestre e a segui-lo à risca como discípulo.
  

Segundo o v.22 Jesus está a caminho. A impressão transmitida por Lucas é que Jesus continua viajando em direção a Jerusalém sem pressa, e com muitas paradas para ensinar tanto nas cidades grandes como nas aldeias pequenas. Sua viagem a Jerusalém é viagem missionária, sua peregrinação é atividade e sua atividade consiste em ensinar (Lc 4,15.31;5,3.17;6,6;13,10;19,47;20,1.21;21,37;23,5). O que Jesus vive e ensina em sua peregrinação mostra aos discípulos o caminho para a ressurreição pessoal e para a salvação.
     

Nessa viagem um anônimo (alguém) faz uma pergunta a Jesus: “Senhor, são poucos os que se salvarão ?” (v.23). O interlocutor trata a Jesus de Senhor, pois ele considera Jesus eminente autoridade em questões sobre a salvação futura. A Jesus foram dirigidas também outras perguntas mais ou menos semelhantes (cf. Lc 18,18;17,20;At 1,6).
  

A doutrina dos fariseus que vigorava no tempo de Jesus dizia: “Todo o povo de Israel terá parte no mundo futuro”(Sanhedrin 10,1). Outros pensavam de maneira mais pessimista que somente para poucos o mundo do futuro trará alívio (para os praticantes), sendo que para muitos(não praticantes), tormentos. Ambos concordam que o acesso à salvação passa necessariamente pela questão da raça. Historicamente, não podemos esquecer de que até o Papa Bonifácio VIII, contemporâneo de Dante, no início do século XIV, envolvido em uma luta pelo poder com Filipe IV da França, afirmou e professou de forma incondicional que, assim como havia sido com a arca de Noé, também “fora da única Igreja...Igreja Católica, não existe salvação nem remissão dos pecados” (Extra Ecclesiam nulla salus. A frase é atribuída a São Cipriano). Bonifácio estava usando o poder espiritual do papado para afirmar sua autoridade “divina” sobre reis e príncipes. Ele pensava mais nas implicações políticas do que nos aspectos teológicos de seu pronunciamento.
    

Jesus não responde diretamente à pergunta, pois se ele responder afirmativamente, cria certezas enganosas; se responder negativamente provoca o desânimo. Ele se recusa a exercer o papel de visionário; não veio para revelar números ou datas secretas, como fazem em nossos dias os membros de algumas seitas. Em vez de responder “quantos se salvarão” ele fala do “modo” como se salvar, um apelo urgente ao empenho: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não conseguirão”(v.24). A uma pergunta formulada abstratamente, a resposta é apelo existencial, no presente: é agora que se decide a salvação. O convite de Jesus impõe uma decisão que não deve ser tarde demais. Os que se esforçam agora, entram. “Esforçai-vos”(agonizesthi/agonizomai, de onde deriva a palavra “agonia”) é uma palavra que denota ação feita de todo o coração. É um termo técnico para competir nos jogos, e dele obtemos nossa palavra “agonizar”. Não se trata, por isso, de nenhum esforço desanimado. O caminho que conduz ao céu passa por uma luta intensa. Sobre esse empenho na luta São Paulo escreve: “Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado, como o reconheceste numa bela profissão de fé diante de muitas testemunhas”(1Tm 6,12). E acrescenta, em outra passagem, que serve como estímulo para nossas lutas diárias: “Combati o bom combate, terminei a minha carreira, guardei a fé. Desde já me está reservada a coroa da justiça, que me dará o Senhor, justo Juiz, naquele Dia; e não somente a mim, mas a todos os que tiverem esperado com amor a sua Aparição” (2Tm 4,7-8).
      

A porta é estreita porque não há salvação sem esforço e sacrifício depois que o pecado se instalou no mundo. Não é Deus que estreita a porta, é o clima de pecado presente nas relações humanas que vai exigir escolhas nem sempre fáceis no caminho da salvação. A condição para poder entrar é uma só: tornar-se pequeno: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum, vós entrareis no Reino dos Céus. Aquele, portanto, que se tornar pequenino como esta criança, esse é o maior no Reino dos céus”(Mt 18,3-4).  Se a porta é estreita, então, os de “grande estatura” e os de “porte maior”(“gordo”) não passam. Podem tentar de todos os modos para entrar, a porta continua sendo estreita. É preciso fazer “dieta” ou “regime” para diminuir o tamanho para se poder entrar. Não podemos ser discípulos de Jesus se não renunciarmos a ser grandes, poderosos, dominadores, arrogantes, prepotentes, se não nos tornarmos pequenos. Pequeno é aquele que se sente extraviado, humilde e só pode apelar à misericórdia de Deus. Quem não assumir a atitude interior do pequeno, sejam quais forem as suas práticas religiosas, orações, catequese, sermões, até milagres (Mt 7,22), não conseguirá entrar.
       

Mas existe a possibilidade de não entrar, conforme as palavras de Jesus (vv.25-29). Os que não entram não são os que não sabem onde fica a porta. Pelo contrário, é um grupo que acha que tem direitos a mais porque pensa que é íntimo do dono da casa. Observe bem o diálogo entre o dono da casa (Senhor) e os que imploram diante da porta fechada. Em sua defesa, eles tentarão fazer valer os sinais que o evangelho propunha como “sinais do Reino”: comer e beber na presença de Jesus: “Nós comíamos e bebíamos em tua presença, e tu ensinaste em nossas praças” (v.26). A sua linguagem os trai, porque aqui dizem a verdade: eles não comeram e beberam com Jesus, mas diante dele. Eles, com efeito, se situavam de fora em relação à prática de Jesus de comer com os pecadores e com os coletores de impostos. Tudo isso quer nos dizer que não há pessoas recomendadas junto a Deus, nem privilegiados que possam se gabar diante dele com base em sua pertença étnica, cultural ou religiosa, nesse caso ao povo judeu (v.28).A salvação não se circunscreve a uma raça ou uma cultura. Não basta uma simples aproximação física de Jesus (vv.26-27). A única condição para ser reconhecido pelo Senhor, para fazer parte da comunhão salvífica é praticarmos a justiça (cf. Sl 6,9); é nos colocarmos atrás dos passos do Senhor.
     

Todos estão convidados a seguir o caminho de Jesus. Deus chama a todos à salvação. É a graça dele que nos chama. Diante desse chamado, todos, seja quem for, devem converter-se, pois ninguém é digno da santidade de Deus nem de seu grande amor. Ninguém pode se considerar dispensado de lhe prestar ouvido (especialmente para nós, religiosos e cleros que lemos ou escutamos “bastante” a Palavra de Deus até nos considerarmos sabidos ou sábios da Palavra de Deus, por isso não encontramos mais a novidade da Palavra. Assim a Palavra de Deus não é mais uma Boa Nova) e de transformar sua vida conforme a exigência de Sua Palavra. Não existe um número determinado de eleitos. Não existem direitos adquiridos, privilégios. O que existe é um chamado universal à conversão. E este vale também para os que já vêm rotulados como bons cristãos. Quem não retoma diariamente o trabalho de responder a Palavra de Deus com uma autêntica conversão, gritará em vão. Para não cair em armadilhas humanas da fragilidade e das tendências da natureza humana é necessário questionar como andam as nossas opções de cada dia. A que ou a quem se entrega o nosso coração?
       

Temos uma necessidade constante de nos revermos até que ponto nossas ações e nossos atos estão informados de uma sinceridade de vida, de uma coerência de atitudes, de um esforço de revisão constante de tomadas de posição pelo Reino ? Conversamos com Deus antes de tomarmos uma decisão? Dalai Lama diz: “Quando agimos para satisfazer nossos desejos imediatos sem levar em conta os interesses dos outros, solapamos a possibilidade de uma felicidade duradoura”. E satisfazer nossos desejos imediatos é como “a felicidade que obtemos ao comer uma boa refeição que só dura até a próxima vez em que sentimos fome. Como observou um antigo escritor indiano: ‘Satisfazer nossos sentidos e beber água salgada são coisas semelhantes: quanto mais as fazemos, mais crescem nossos desejos e nossa sede’ ”(leia o livro dele: Uma Ética Para o Novo Milênio. Editora Sextante. Encontra-se também na Vozes. Vale a pena ler esse livro).
       

Como no Evangelho há gente que pode se perguntar angustiada: Então, depois de assistir fielmente todos domingos à missa, contribuir generosamente na coleta, confessar regularmente, comungar com freqüência ou diariamente, me salvarei ou me condenarei ? Interrogar-se pela salvação e desejar a vida eterna é conseqüência lógica de nossa fé na vida eterna, que é também o objeto de nossa esperança. Tudo isto é bom, contanto que não se incorra na atitude mercantil de querer “comprar” a Deus o direito à salvação. Esta depende antes da concordância do conjunto de nossa vida com a doutrina central do Evangelho: Amar a Deus e ao próximo. Por isso, “a porta estreita” de Jesus não é moralismo intransigente, mas significa a responsabilidade e a lucidez daqueles que se esforçam por ser fieis a Deus e aos princípios evangélicos: solidariedade, fraternidade, caridade, e serviço ao irmão diante do egoísmo, da agressividade e da violência da sociedade; controle e domínio do consumismo diante da idolatria do dinheiro e dos bens materiais; enfim, assimilação do programa de Jesus que ele expôs em seu Evangelho.
 

A dor desesperada de todos os que foram chamados a fazer parte do Reino, mas ficam de fora por causa de sua apatia e falsa consciência, exprime-se nas palavras: “Choro e ranger de dentes (v.28;cf. Mt 13,42.50;22,13;25,30).
      

A sentença no v. 30 conclui essa passagem com a oposição primeiros/últimos, em substituição à oposição dentro/fora(v.25), acrescentando o tema da inversão das situações, notado desde o Magnificat como inerente à questão da salvação enquanto intervenção dAquele que tem o poder soberano de julgar. Através do último versículo (v.30) percebemos que haverá muitas surpresas na porta do céu, para quem se considera juiz dos outros. Deus vê além dos rótulos e aparências, conhece os corações. Reconhece como seus os pequenos, os generosos, os solidários, os compassivos... não aqueles que andam orgulhosos de suas virtudes e de sua intimidade com Deus sem ter de fato atitudes de irmão e vida a serviço dos valores do Reino

P. Vitus Gustama,svd

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