sexta-feira, 30 de agosto de 2013

 
HUMILDADE E GRATUIDADE POR AMOR ENGRANDECEM O CRISTÃO DIANTE DE DEUS

 
XXII Domingo Do Tempo Comum “C”
01 de Setembro de 2013
 

Texto de Leitura: Lc 14,1. 7-14
(Eclo 3,19-21.30-31; Hb 12,18-19.22-24)


1 Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. 7 Jesus notou como os convidados escolhiam os primeiros lugares. Então contou-lhes uma parábola: 8 'Quando tu fores convidado para uma festa de casamento, não ocupes o primeiro lugar. Pode ser que tenha sido convidado alguém mais importante do que tu, 9 e o dono da casa, que convidou os dois, venha te dizer: 'Dá o lugar a ele'. Então tu ficarás envergonhado e irás ocupar o último lugar. 10 Mas, quando tu fores convidado, vai sentar-te no último lugar. Assim, quando chegar quem te convidou, te dirá: 'Amigo, vem mais para cima'. E isto vai ser uma honra para ti diante de todos os convidados. 11 Porque quem se eleva, será humilhado e quem se humilha, será elevado.' 12 E disse também a quem o tinha convidado: 'Quando tu deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua recompensa. 13 Pelo contrário, quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. 14 Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos.'

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Continuamos a acompanhar Jesus no seu caminho para Jerusalém, sua ultima viagem para Jerusalém, pois lá ele será crucificado, morto e ressuscitado. Jesus continua com suas últimas lições/instruções dadas aos seus discípulos no seu Caminho para Jerusalém. Trata-se das lições do caminho (Lc 9,51-19,58). A intenção de Jesus ao dar tais lições é preparar os discípulos para a futura missão na Sua ausência física nesta terra. E estas lições servem também como instrução catequética-catecumenal para todos os cristãos de todos os tempos e épocas. Por ser tratarem de lições importantes Lucas não tem pressa de relatar a chegada de Jesus em Jerusalém.         


As lições que Lc nos apresenta através da passagem do evangelho deste dia são a humildade (vv. 7-11) e a gratuidade baseada sobre o amor desinteressado (vv.12-14). O que une estas lições é o tema do Reino considerado como banquete eterno. Humildade e gratuidade baseada sobre o amor desinteressado são fundamentais para participar do banquete do Reino.
   

Para falar destes temas/lições Lc parte de uma refeição preparada por um fariseu para Jesus como seu convidado especial. No evangelho de Lucas os fariseus estão bastante próximos de Jesus em comparação com outros dois sinóticos (Mt e Mc). Lc nos relata que Jesus é convidado três vezes para uma refeição na casa dos fariseus (cf. Lc 7,36-50; 11,37-53; 14,7-14).


No mundo semita o banquete ou a refeição é o espaço do encontro fraterno, onde os convivas partilham do mesmo pão/ alimento (companheiro). E o pão/alimento é fruto dos processos do trabalho humano e é distribuído a cada membro da família para sua subsistência. A refeição é o espaço onde se manifestam e estabelecem laços de comunhão, de proximidade, de familiaridade e de fraternidade. Em qualquer povo, o primeiro gesto de hospitalidade e de fraternidade é o convite para a mesma mesa, a partilha daquele alimento que transforma estranhos em amigos. Sob o aspecto físico, a refeição é indispensável para a sobrevivência; no aspecto social, ela sela uma boa relação, uma aliança. Todas as alianças no mundo semita sempre se finalizam com uma refeição.
      

A partir da refeição ou do banquete humano Jesus entra no tema do Reino, que ele vai antecipar através da instituição da Eucaristia. E o Reino é o banquete eterno, e por isso, é um espaço de fraternidade, de comunhão, de partilha e de serviço por amor. Por esta razão, do Reino são excluídas qualquer atitude de superioridade, de orgulho/arrogância/prepotência, de ambição, de domínio sobre os demais e outras atitudes semelhantes. Para poder participar do banquete do Reino cada um deve fazer-se pequeno, humilde, simples e sem nenhuma pretensão de ser considerado melhor, mais justo/santo ou mais importante do que os outros. O próprio Jesus serve de exemplo para todos, quando, na véspera da sua morte, lavou os pés dos discípulos (cf. Jo 13,1-17).
    

Aprofundemos um pouco mais nossa reflexão sobre alguns pontos da passagem do evangelho deste dia.


Lição Sobre a Humildade
     

Conforme o costume de tempo mais antigo, os lugares não são ocupados pelos convidados por ordem de idade, mas segundo a dignidade e o prestígio (talvez não haja nenhuma diferença com o tempo atual). Cada qual escolhe o lugar que julga poder ocupar pela ordem de importância (cf. Lc 11,43;20,46;Mt 23,6;Mc 12,38). Jesus observa como os convidados disputam os primeiros lugares.
   

A observação é o motivo para Jesus falar da “conduta à mesa” (vv.8-11) Na verdade, os escribas conhecem uma norma de prudência da época: “Mantém-te distante, dois ou três assentos, de teu lugar (que te convém) e espera até que te seja dito: Sobe mais ! Sobe mais !, em vez de que te seja dito: Desce mais! Desce mais !” (Levítico Rabbah I.5). Para os escribas essas palavras não são apenas uma regra de prudência para não passar vergonha, mas prescrevem um procedimento que é fruto da mentalidade moral deles. O livro dos Provérbios também fala do mesmo tom: “Não te faças pretensioso diante do rei, não te ponhas no lugar dos grandes. É melhor que te digam: ‘Sobe aqui!’ do que seres humilhado diante de um personagem” (Pr 25,6-7).  Jesus não está dando uma porção de conselhos humanos; está ensinando os homens a serem genuinamente humildes. O homem verdadeiramente humilde acabará ficando onde deve estar e que receberá a honra que lhe é devida. O caminho à verdadeira exaltação é a humildade (v.11).
     

A humildade, que constitui o alicerce de outras virtudes, é uma virtude tão importante que Jesus sempre aproveita qualquer circunstância para pô-la em destaque. A humildade é o comportamento que atrai a simpatia dos homens e as bênçãos de Deus: “Filho, na medida em que fores grande, deverás praticar a humildade, e assim, encontrarás graça diante do Senhor... pois é aos humildes que Ele revela seus mistérios e... é glorificado pelos humildes.” (Eclo 3,20s).
    

A humildade não é a virtude do inferior em relação ao superior, mas ao contrário: é a virtude do superior em relação aos inferiores. A humildade é a virtude do superior que se abaixa e tem respeito pelos que se encontram em condição de inferioridade. Por esse motivo, a humildade é eminentemente virtude de Deus no seu respeito, atenção, zelo pelas suas criaturas especialmente pelos homens. E gesto supremo da humildade de Deus é a encarnação: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). Em Jesus Cristo, então, toma forma a humildade de Deus. Por isso, Cristo é Deus feito humildade, que vive em condição de humildade, que ama a humildade, que aprecia e exalta os pobres e os humildes. E a humildade é o fundamento sobre o qual Cristo construiu a salvação dos homens e a via que Ele indicou aos que querem entrar no Reino do Céu.
      

Por isso, a humildade em seu grau mais perfeito, não está em ser pequeno, nem sentir-se pequeno, mas em fazer-se pequeno, não por qualquer exigência ou utilidade pessoal, mas por amor, para engrandecer os outros. Assim foi a humildade de Jesus Cristo. De fato, como sabemos, Deus não é pequeno, mas faz-se pequeno por amor só para nos engrandecer e salvar. Porque, na verdade, Deus na posição em que se encontra, não pode elevar-se, pois nada existe acima d’Ele. Se Deus sai de si mesmo, isto só poderá ser abaixar-se e tornar-se pequeno; em outras palavras, só poderá ser humildade. E o homem, como nós sabemos também, não pode cair mais para o nível mais baixo porque ele está no chão. Ele é necessariamente humilde: do latin, humus-humilis que quer dizer chão, pó. E só pode ser elevado para o nível de filho de Deus pela graça da encarnação. Assim ele se torna pó vivente porque Deus sopra nele a vida e a dignidade de filho de Deus (cf. Gn 2,7). Por isso, tudo que somos, nós recebemos de Deus, é um presente d’Ele. É d’Ele que procedem a vida, a força, a inteligência, o bom temperamento que temos. Nada nos pertence. E de nada podemos nos vangloriar.


A humildade, que constitui o alicerce de outras virtudes, é uma virtude tão importante que Jesus sempre aproveita qualquer circunstância para pô-la em destaque. A encarnação de Deus em Jesus Cristo é um mistério da humildade na sua própria essência. A humildade de Jesus, Deus feito homem, nos enobrece e nos oferece a incomparável dignidade de filhos de Deus. Todo o drama da redenção é o caminho vitorioso da humildade magnânima de Jesus que nos convida e nos torna aptos para o Seu seguimento. A humildade é o fundamento sobre o qual Cristo construiu a salvação dos homens e o caminho que Ele indica aos que querem entrar no Reino do Céu. A arrogância ou a prepotência e o complexo de superioridade não encontram porta para entrar no céu e acabam ficando fora dele (cf. Lc 13,27-28).


A “conduta à mesa” que Jesus propõe certamente não é apenas uma prudente regra de boas maneiras nem somente uma comum exortação à modéstia, mas é uma narração parabólica que aponta para o segundo plano da escolha ávida dos primeiros lugares. Expressa uma verdade que diz respeito ao Reino de Deus: Quem quiser entrar no Reino de Deus deve ser pequeno (veja a reflexão domingo anterior), deve fazer-se pequeno, como foi dito acima; e não deve ter falsas pretensões. Faz entrar no Reino de Deus o pequeno que não se julga digno dos divinos: “Deus revela seu mistério aos pequenos” (Eclo 3,20). Ser pequeno é a primeira condição para alguém entrar no Reino de Deus (Lc 6,20).


Lição Sobre a Generosidade


“Quando tu deres um almoço ou um jantar, não convides teus amigos, nem teus irmãos, nem teus parentes, nem teus vizinhos ricos. Pois estes poderiam também convidar-te e isto já seria a tua recompensa. Pelo contrário, quando deres uma festa, convida os pobres, os aleijados, os coxos, os cegos. Então tu serás feliz! Porque eles não te podem retribuir. Tu receberás a recompensa na ressurreição dos justos”.


Para ser humilde e andar na verdade de nossa própria condição, precisamos ser pobres de espírito diante de Deus, isto é, vazios de nós mesmos para podermos ser plenos de Deus, sabendo que tudo em nossa vida é graça e dom, efeito da misericórdia e do amor que Deus nos tem. Conseqüência disto, quem é humilde, não tem medo de ser generoso, pois é capaz de receber, não só de Deus, mas também dos outros. Temos que aprender a receber e não só dar, em todos os sentidos, não só no seu pequeno segmento material; e de receber para poder repartir. Porém, repartirá não para chamar a atenção para si, e sim, porque agradecido, gosta de tornar seus irmãos partícipes dos dons que recebeu.
      

Por isso, humilde é aquele que, tendo consciência das próprias qualidades, se coloca a serviço de todos. E, na verdade, a pessoa humilde é que estabelece relações que trazem a felicidade, que acabam com o egoísmo, com a competição, com a ostentação, e fazem reinar no mundo as atitudes de intercâmbio generoso dos dons de Deus.
    

Humildade, portanto, não é mesquinhez nem timidez, mas pelo contrário, o primeiro passo da magnanimidade ( do latin: alma,ae + magnus,a,um =alma grande), e da generosidade.


Por isso, Jesus faz uma proposta estranha para nós: quando deres uma festa, não convides os amigos ou quem pode retribuir a gentileza, mas convides os pobres, os que não têm onde cair mortos, os que não têm o que oferecer em troca. Dificilmente seria necessário indicar que Jesus não está enfatizando que não há generosidade em dar para pessoas que retribuirão. A festa de que Jesus fala é a partilha do que há de bom na vida, pois a partilha é a alma do projeto de Deus. Ele nos convida a uma atitude de gratuidade ou generosidade, uma atitude que é o exato contrário do cálculo interesseiro de quem vive se perguntando: “Quanto é que eu levo nisso ? Que vantagem isso me dá ? Será que tem retorno em fazer isso ?”
    

A generosidade é um sinal de gratidão e de liberdade interior. Tudo o que nós somos, tudo o que podemos e temos é precioso e libertador, se o reconhecermos e apreciarmos como um dom do amor de Deus. Se percebermos e apreciarmos realmente que o esplendor daquilo que temos e daquilo que possuímos vem de Deus, o Doador de todos os bens, então não nos agarremos às nossas riquezas e capacidades, nem as utilizaremos para nos ensoberbecermos, apoiando-nos em falsas seguranças, mas procuraremos ser cada vez mais generosos e livres, quer dando, quer recebendo.
      

Ser generoso significa dar-se a si próprio por amor de Deus e do próximo, graças à intima liberdade que possuímos. Esta virtude é libertadora para ambas as partes: para o generoso e para o que, com pleno respeito pela sua liberdade, é favorecido. O generoso é livre na medida em que não procura o seu próprio proveito mas o daqueles a quem favorece. Acreditamos que todos nós já fizemos alguma coisa por alguém por pura generosidade e sabemos a alegria que isso traz ao nosso coração. Quem de nós, ao prestar gratuitamente um favor ou uma ajuda, já não ouviu a frase: “Deus lhe pague; Deus lhe abençoe ?”. A alegria que brota da generosidade de um doador nobre é um dos mais preciosos e permanentes dons.
     

A generosidade com que servimos e socorremos os outros, nas suas necessidades, é um aferidor da nossa liberdade em relação a Deus. Sem generosidade, nem sequer pode existir a liberdade como virtude.


Para o generoso, todos os seus bens, todas as suas capacidades e dons se transformam num tesouro que se acumula no céu e que, entretanto, vai aliviando e tornando felizes os outros. E o próprio Jesus anuncia que tudo que aqui gratuitamente fazemos, nos será devolvido, certamente purificado e ampliado por Deus, na vida eterna(v.14). Nossa fé alimenta essa esperança. Porém, não é difícil ver que há também recompensas imediatas nesta vida: uma vida mais tranqüila com segurança para todos, protegidos no meio dos irmãos. Para ser feliz é necessário fazer algo de bom pelos outros, gratuitamente, sem esperar uma troca. E para ser infeliz, basta ser egoísta ou ser avaro. O avaro é o protótipo dos sem- coração e dos de espírito mesquinho. O avaro é a pessoa mais pobre que existe.


Será que há ainda alguém, na nossa comunidade, que por ser mais inteligente e mais preparado quer dominar sobre os outros? Será que há alguém, também, que tenta esconder as próprias qualidades para não ser chamado a servir? Humilde é aquele que, tendo consciência das próprias qualidades, se coloca a serviço de todos. A humildade e a generosidade são comportamento que atrai a simpatia dos homens e as bênçãos de Deus.
Para Relembrar
 
Mês de Setembro é dedicado à Palavra de Deus. É o mês da Bíblia. O maior desejo de Jesus é dar e comunicar a Palavra de Deus para que seja ouvida: “Felizes aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11,28;cf. Mt 7,24-29). O segredo da felicidade, segundo Jesus, consiste certamente na escuta e na vivência da Palavra de Deus. A riqueza, o valor nutritivo da escuta da Palavra de Deus, é uma escuta que faz tremer, que compromete porque nos diz respeito e nos esclarece. Não é uma escuta passiva. É descobrir o mistério de nós mesmos na escuta e na leitura da Palavra de Alguém, maior que nós, que, tendo criado nosso coração, nos revela os segredos. A capacidade de escutar é o primeiro caminho para entender aquilo que o outro diz e para entendermos quem somos.
 
Cada Palavra de Deus, cada passagem da Bíblia confronta o homem com uma nova maneira de pensar e de viver; leva-o a adquirir um novo olhar, a enxergar em outras direções diferentes daquela que havia escolhido. A Palavra de Deus nos apresenta uma visão mais profunda da realidade e nos ajuda a descobrir a mão de Deus que atua no esplendor da criação, na beleza da vida humana e nas comunidades que lutam pela justiça, pela paz e pela fraternidade. A Palavra de Deus nos permite olharmos nossa realidade e nossas esperanças com olhos novos, enquanto que a realidade nos fornece novas lentes para ler e interpretar a Bíblia. Na escuta e na prática da Palavra de Deus, o olhar e o entendimento se modificarão e abandonaremos “nossa sabedoriapara acolher a sabedoria de Deus.
 
 
É preciso que cada um dedique alguns minutos por dia, especialmente durante este mês, para ler e meditar a Palavra de Deus na Bíblia.
 
 
Quando lês a Bíblia, Deus te fala; quando rezas, tu falas a Deus” (Santo Agostinho).
 
P. Vitus Gustama,svd

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