quinta-feira, 12 de setembro de 2013

 
CAMINHO DA VIDA SUPERA O CAMINHO DA MORTE

 
Terça-feira da XXIV Semana Comum
17 de Setembro de 2013
 
Texto de Leitura: Lc 7,11-17

Naquele tempo, 11 Jesus dirigiu-se a uma cidade chamada Naim. Com ele iam seus discípulos e uma grande multidão. 12 Quando chegou à porta da cidade, eis que levavam um defunto, filho único; e sua mãe era viúva. Grande multidão da cidade a acompanhava. 13 Ao vê-la, o Senhor sentiu compaixão para com ela e lhe disse: “Não chores!” 14 Aproximou-se, tocou o caixão, e os que o carregavam pararam. Então, Jesus disse: “Jovem, eu te ordeno, levanta-te!” 15 O que estava morto sentou-se e começou a falar. E Jesus o entregou à sua mãe. 16 Todos ficaram com muito medo e glorificavam a Deus, dizendo: “Um grande profeta apareceu entre nós e Deus veio visitar o seu povo”. 17 E a notícia do fato espalhou-se pela Judeia inteira e por toda a redondeza.

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O relato da “ressurreição” do filho da viúva de Naim se encontra apenas no evangelho de Lucas. E Lucas se inspirou nas narrativas de milagres dos profetas Elias e Eliseu (1Rs 17,17-24; 2Rs 4,17-22.32-37). Ao introduzir este relato Lucas quer justificar aquilo que Jesus dirá mais adiante, no v.22, como resposta para a pergunta de João Batista: “Os cegos vêem..., os surdos ouvem..., os mostos ressuscitam (Lc 7,22).


Lucas nos relatou que a viúva de Naim perdeu seu filho único. Ao relatar desta maneira, Lucas quer enfatizar a intensidade dramática da situação da viúva (viúva e sem filho), de um lado, e quer mostrar o poder de Deus que torna possível o que é impossível para o ser humano (cf. Lc 1,37; 18,27), do outro lado. Perder filho único, como aconteceu com a viúva de Naim, significava perder todas as condições para continuar vivendo. O filho era o que lhe restava, pois a vida da viúva dependia diretamente da vida do filho, que era o herdeiro legítimo de tudo que o pai morto deixou. Mas Jesus, Deus-Conosco, devolveu a alegria de viver da viúva ao restituir a vida de seu único filho.


Tragédia, problemas e dificuldades não têm hora para chegar à nossa vida. E quando chegam não pedem licença, mas adentram nosso espaço e interrompem nossos sonhos, nossa tranqüilidade, nossas alegrias e nossos ideais. E o mais interessante é que vivemos informados diariamente sobre tantas tragédias que ocorrem pelo mundo e achamos que sejamos invulneráveis ou isentos de tudo isto. Mas quando somos atingidos pela tragédia, pelos problemas e dificuldades ou pelas provações, nos vem à mente esta pergunta: “Onde está você, Deus? O Senhor não está vendo o que está acontecendo na minha vida?”. E quantas vezes nos sentimos solitários, como quem querendo uma explicação diante de nossos problemas, mesmo que seja apenas uma pequena luz, mesmo sendo do tamanho e de uma força de um fósforo.


Diante da interrogação sobre a existência de Deus por causa de nossos problemas, precisamos estar conscientes de que Deus é bondoso de mais para ter ímpetos de crueldade; é sábio demais para errar; é verdadeiro demais para enganar; é amoroso demais para se vingar e é profundo demais para se explicar. Diante dos problemas, dificuldades, angústias e provações, saibamos que não há Deus maior como o nosso Deus revelado por Jesus Cristo, que é amor (1Jo 4,8.16), soberano, e Criador de todas as coisas e que com toda certeza tem o melhor para nós, mesmo que sua resposta seja um sonoro NÃO para nossa vida ou nosso modo de viver (cf. 2Cor 11,23-31;12,7-10), ou mesmo que tenhamos que esperar um pouco mais a sua resposta, pois Deus pode tardar, mas jamais falha. Por causa deste Deus que jamais falha é que nos tornamos fiéis, perseverantes e pacientes em tudo. “Senhor, eu espero em ti o dia todo por causa da tua bondade”, recorda-nos o salmista (Sl 25[24],5b). Confiamos no Senhor por causa da firmeza de Sua Palavra, da peculiaridade de Sua Verdade, da permanência de sua eternidade e de seu amor eterno por nós.


No relato do evangelho deste dia Jesus se aproxima da realidade da morte do filho da viúva de Naim pessoalmente. Ninguém estava pedindo a Jesus que interviesse. A iniciativa dele é gratuita em todos os sentidos. Ele é itinerante conosco. Ele vai ao encontro do povo onde este está, embora este nem sempre perceba Sua presença. Ele tem um olhar penetrante, capaz de perceber a realidade para poder oferecer uma solução adequada. Ele olha com benevolência e ternura. Ele deixa que a realidade dolorida entre dentro dele, que o contagie: “O Senhor sentiu a compaixão para com a viúva e lhe disse: ‘Não chores! ’”.


“Não chores!”, diz Jesus à viúva. Palavras consolam, mas desde que estejam dentro do processo da compaixão-misericórdia. Palavras descompromissadas não causam efeito benévolo algum. Exigem ser respaldadas pelo testemunho e pela prática da solidariedade. Não devemos dizer uma palavra a mais além daquilo que fazemos. Por isso, baseado na sua compaixão, o Senhor chama o jovem morto de volta para a vida para a alegria da viúva enlutada: “Jovem, eu te ordeno, levanta-te!”. Por esta ordem o jovem voltou a viver: “Sentou-se e começou a falar”. A palavra é autoridade para levantar “defuntos” quando é carregada por alguém que vive realmente uma espiritualidade da compaixão-misericórdia. Ressuscitar mortos é reunir pessoas que se amam. O filho vivo para a viúva significava não apenas um pedaço de sua vida, mas também um amparo legal, o sustento e o consolo de sua viuvez.


Há dois caminhos que o evangelho nos apresenta, mas que se cruzam. De um lado é o caminho da cidade que se dirige para o cemitério, para enterrar o jovem, filho único de uma viúva. De outro lado, é uma comunidade nova construída por Jesus onde se encontram os discípulos. É o caminho da vida.  Ao cruzar-se com o caminho de Jesus, o caminho da cidade muda de direção e de destino porque prontamente, ele ouve e obedece à Palavra de Jesus. Conseqüentemente, em vez de ir para o cemitério que é o caminho dos mortos, a cidade volta para o caminho da vida, pois Jesus é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (J 14,6).


Que caminho seguimos: o da cidade que se dirige ao cemitério para enterrar os nossos jovens ou o da vida apresentada por Jesus?


Precisamos nos deixar visitar pelo Senhor, autor da vida, para que o nosso peregrinar seja um caminho de esperança e não um cortejo de morte. Deus, em quem acreditamos, não é uma ameaça ou um concorrente, mas uma potência de amor que nos constrói e nos chama à vida. Encontrar-se com Jesus é encontrar-se com a verdadeira vida cheia de alegria e esperança.

P.Vitus Gustama,svd

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