quarta-feira, 4 de setembro de 2013

 
CONDIÇÕES PARA SEGUIR A JESUS


XXIII Domingo Comum “C”
08 de Setembro de 2013
 
Texto de Leitura: Lc 14,25-33

(Sb 9,13-19; FM 9b-10.12-17)


Naquele tempo, 25 grandes multidões acompanhavam Jesus. Voltando-se, ele lhes disse: 26 “Se alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu discípulo. 27 Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser meu discípulo. 28 Com efeito: qual de vós, querendo construir uma torre, não se senta primeiro e calcula os gastos, para ver se tem o suficiente para terminar? Caso contrário, 29 ele vai lançar o alicerce e não será capaz de acabar. E todos os que virem isso começarão a caçoar, dizendo: 30 ‘Este homem começou a construir e não foi capaz de acabar!’ 31 Ou ainda: qual o rei que ao sair para guerrear com outro, não se senta primeiro e examina bem se com dez mil homens poderá enfrentar o outro que marcha contra ele com vinte mil? 32 Se ele vê que não pode, enquanto o outro rei ainda está longe, envia mensageiros para negociar as condições de paz.33 Do mesmo modo, portanto, qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu discípulo!”

____________________

Não procures repouso em nenhum prazer,
pois não foste       criado para o prazer e
sim para a ALEGRIA espiritual.
E, se não conheces a diferença entre prazer e
alegria espiritual, ainda não começaste a viver

(Thomas Merton)
_________________________________________
 


Na vida temos que saber tomar decisões e escolher aquilo que tem mais valor para nossa vida. É preciso abrir mão do valor inferior para ficar com o superior. É saber renunciar ao que agarramos, mas não nos edificou mais, para viver com aquilo que nos faz avançarmos na nossa humanidade rumo aquilo que nos diviniza (salvação). E sabemos que certas decisões na vida representam uma mudança radical e renúncia e não combinam com hábitos anteriores. Nisto é que há dor na escolha. Mas não tem jeito! Ou nós assumimos para valer ou nem dá para começarmos a viver algo novo que nos edifica e dignifica. Renovar é colocar algo novo. Isso supõe que preparemos espaço para o novo. O Evangelho de Lucas que lemos neste domingo aprofunda a idéia da necessidade de fazer opções em nome do seguimento de Jesus que supõe muitas renúncias.
  

Jesus continua a dirigir-se para Jerusalém onde O aguarda a glorificação (Lc 9,51-19,58) e nós acompanhamos essa viagem ouvindo suas ultimas lições e refletindo sobre elas para rever nossa maneira de viver como cristãos se nós estamos dentro dos ensinamentos do Senhor.


Nessa viagem a multidão do povo segue após Jesus. Jesus acalma o entusiasmo da multidão por meio da exigência da renúncia total, porque viver como cristãos/ seguidores de Cristo não é fazer passeata com o Senhor. Ele não precisa de admiradores ou espectadores, mas de seguidores. Diante dos grandes números, das multidões incontáveis, Jesus fica preocupado. Por isso, ele começa a explicar quais são os compromissos para quem escolhe segui-lo como seu discípulo. Enquanto nós temos receio de perder alguns simpatizantes, Jesus se preocupa com o contrário. E quando vemos as nossas igrejas lotadas, sentimo-nos envaidecidos. Jesus, ao contrário, fica preocupado diante da multidão que o seguia: ou eles não entenderam ou Jesus não se expressou bem. Jesus jamais pretende enganar seus seguidores, induzindo-os a assumirem um projeto de vida, sem conhecer-lhe o teor. Ele fala claro para evitar frustrações.
  

No Evangelho de hoje, Jesus apresenta três exigências muito claras e duras para quem quiser segui-Lo e conclui as três com o mesmo áspero refrão: “...não pode ser meu discípulo”. A opção responsável e definitiva por Cristo e pelo seu evangelho é o que especifica o cristão. Ser cristão significa revestir-se de Cristo e ter os mesmos sentimentos, atitudes e ações na vida. Ser cristão é aceitar pela fé e comportamento Jesus Cristo. Fazemos caminho ao andar, mas só se caminharmos com Jesus e os irmãos é que nos tornamos cristãos, pois não encontramos o Senhor senão no próximo (cf. Mt 25,40.45). No cristão verdadeiro nota-se uma visão da vida, do homem, do mundo e dos problemas humanos sob uma luz diferente: é a luz da fé pascal. Nota-se uma estabilidade anímica que vence a mesquinhez e o desespero, uma paz que se sobrepõe às dificuldades e ao desanimo, uma alegria que supera a tristeza e o mau humor, pois ele sabe em quem acredita (2Tm 1,12).


1. A primeira exigência: saber “odiar” (v.26)
 

Jesus emprega aqui uma expressão que traduzida literalmente pode parecer excessivamente forte: “Se alguém vem a mim e não odeia seu próprio pai e mãe, mulher, filhos, irmãos, irmãs e até a própria vida não pode ser meu discípulo”(v.26).


Jesus, sem dúvida, não pretende suprimir/eliminar o quarto mandamento (Lc 18,19-20). Segundo maneira oriental de falar (semitismo), “odiar” significa pôr em segundo lugar algo porque tem aparecido na vida de uma pessoa um valor maior (neste caso, Jesus e sua mensagem) do que o anterior; significa colocar no segundo lugar. Trata-se, então, de relativizar, à luz das exigências de seguir a Jesus, inclusive os amores mais naturais e legítimos. Neste caso, “odiar” significa romper até os laços mais íntimos quando estes constituem um impedimento para o amor e para a salvação. Todos nós sentimos alguma vez a necessidade de nos afastarmos ou até de contrariarmos certos projetos anti-evangélicos, mesmo quando encabeçados por pessoas às quais estamos ligados por laços de amizade ou de parentesco. Estes gestos corajosos, na verdade, são amor verdadeiro; são gestos evangélicos.


Renunciar aos pais, simbolicamente, significa também a capacidade de desprender-se da tradição dos antigos para abraçar o novo que nos salva; libertar-se das amarras da Lei para assumir a misericórdia; libertar-se dos atos de cultos estéreis e equivocados para assumir uma postura de uma fé madura, profética e libertadora. Assumir o caminho do seguimento de Jesus significa relativizar todo o processo formativo anterior para assumir outro.


Sobre saber “odiar”, podemos traduzir na nossa linguagem assim: Quem é seguidor de Jesus não pode contrariar os valores do Evangelho nem que seja para agradar a família. O próprio fato de ser a família uma coisa boa, querida por Deus, mostra a força que Jesus queria dar às exigências do Reino. Nem em nome de algo tão bom podemos ser desonestos, mentirosos, corruptos, injustos. Temos que proteger nossa família dos valores anti-evangélicos para que ela continue sendo uma Igreja doméstica.


2. A segunda exigência: carregar a cruz diariamente (v.27)


Quem não carrega a sua cruz e me segue, não pode ser meu discípulo” (v.27). Esta frase é interpretada, muitas vezes, como um apelo para suportar com paciência as contrariedades, os grandes e pequenos sofrimentos da vida. Outras vezes é entendida como uma exigência de mortificação, de sacrifício (mas, será agradável a Deus a nossa dor? Será que Deus tem prazer de ver um ser humano sofrer? Será que Deus como Pai tem alegria de ver seus filhos sofrer?). A dor é um mal que deve ser afastado de nós mesmos e dos outros. O sofrimento, tampouco, é um valor; pelo contrário, é algo para ser evitado e superado a todo custo.
  

Propriamente falando, não existe uma espiritualidade da cruz, mas apenas a espiritualidade do seguimento de Jesus: durante este seguimento, é inevitável que encontremos perseguições, incompreensões, resistência e o ódio. É a cruz inevitável do discipulado. Se você é honesto, você se torna uma censura viva para quem vive na corrupção. Podemos dizer que a cruz é conseqüência de uma “práxis”, de uma opção, de um valor. Não é buscada em si mesma uma cruz, mas aceita como conseqüência de proclamar e viver a Deus como Absoluto. Por isso, não se busca a cruz, busca-se o Reino de Deus e a sua justiça, como Jesus e, buscando o Reino de Deus, onde e quando impera o anti-reino, o anti-evangélico, encontra-se a cruz. As cruzes na vida de Jesus, cujo ponto alto são a paixão e morte na cruz, foram o resultado trágico e inevitável de ele ter levado a bom termo a missão que o Pai lhe confiara. Jesus aceitou a cruz livremente, por amor ao Pai e por amor aos seres humanos (salvar) razão pela qual Ele veio ao mundo. Foi por causa deste amor apaixonado que a humanidade recobrou para sempre a amizade de Deus, tendo também acesso às alegrias da vida eterna. Carregar a cruz, seguir o caminho de Jesus, é um processo cotidiano de múltiplas decisões e fidelidades para chegar ao que digno para o homem: a salvação.


O par de parábolas que segue, a do construtor e do rei em guerra (vv.28-32), é um convite a refletir e ponderar bem o risco daquele que quer se tornar discípulo. Trata-se de uma decisão carregada de conseqüências. O texto nos convida a refletirmos sobre os custos, as exigências da vida de fé. Se não pensarmos que a fé em Jesus não vai afetar a nossa vida profundamente, mesmo na nossa vida cotidiana, não compreenderemos o que o fato de seguir Jesus pede na realidade. Daí necessidade de calcular os gastos, quer dizer, de medir o que o discípulo significa no Evangelho. Jesus não quer decisões levianas, mal pensadas, de gente carregada só pelo entusiasmo do momento. Não comece para depois não acabar; planeje; aprofunde as decisões para poder assumir o que decidiu.


3. A terceira exigência: a renúncia a si mesmo e a tudo (v.33 cf. Lc 9,23)


 “... qualquer de vós que não renunciar a tudo que possui, não pode ser meu discípulo” (v.33). E em Lc 9,23: “Se alguém quer vir após mim, renuncie a si mesmo...”.


Muitas vezes esse renunciar é entendido como recusa deliberada de tudo que pode alegrar o coração, como se Deus tivesse ciúme das nossas alegrias. Fabricam-se, então, tristes cristãos, que confundiam santidade com amargura, sisudez, mau humor. O verdadeiro santo é alegre e feliz, pois encontrou seu verdadeiro tesouro (Reino de Deus). É possível ser sério com muito bom humor. Quem não sabe rir, ele não é uma pessoa séria. Para que serviria um santo neurótico ou um santo que está sempre de cara triste? É desejável viver os valores do Evangelho com alegria, com cara de gente feliz, curtindo o que é bom na vida. Mas diante das exigências do Reino de Deus, é absolutamente necessário renunciar ao que for atrapalhar. Renunciar não é perder; é trocar um bem por outro, no qual, sincera e equilibradamente, percebemos um valor maior.
   

Jesus nos manda renunciar a tudo que tem. “Tudo que tem”, não só no sentido de bens materiai que se possuem, mas pode significar também inchaço do orgulho, a sede de competição, a busca de interesse, ser oportunista para cada falha, fraqueza ou descuido dos outros para ganhar o máximo possível etc.
     

Além disso, Jesus exige o “renunciar-se a si próprio”. A renúncia que ele pede de nós não é uma ação negativa. Pede amor, doação de si mesmo. Negar-se é dar-se no amor. Fazer isso é seguir a Jesus que fez o mesmo. O ascetismo, sacrifício ou renúncia de si mesmo que não seja animado pelo amor, que não seja uma manifestação de amor, uma expressão de doação de si mesmo, que não leve à comunhão com os outros é apenas tortura auto-infligida A verdadeira renúncia de si mesmo é liberdade e alegria porque é amor. Não é que vá ser livre de dor. Mas essa dor se transformará em alegria, como a dor parto de uma mãe que é recompensada pelo nascimento de um filho (de uma filha). Esse é o paradoxo da cruz de Jesus.
    

Reflitamos também nós um pouco e perguntemo-nos: qual é o verdadeiro motivo que leva, em certas ocasiões, as multidões às igrejas ou às praças? Os que participam com entusiasmo das nossas solenes celebrações, das nossas romarias, estão realmente conscientes dos compromissos que a fé cristã envolve? É muito mais fácil falar e aceitar o Deus que é misericórdia e amor, enquanto o Deus que exige a responsabilidade acompanhada pelas exigências duras é que muita gente começa a recuar. E Deus como é que fica?

P. Vitus Gustama,svd

Nenhum comentário: