sexta-feira, 8 de novembro de 2013


FÉ NO DEUS DA VIDA

 

XXXII DOMINGO DO TEMPO COMUM “C”
10 de Novembro de 2013

Texto de Leitura: Lc 20,27-38

(2Mc 7,1-14; Sl 16 [17],1.5-6.8b.15; 2 Ts 2,16-3,5)



Naquele tempo, 27 aproximaram-se de Jesus alguns saduceus, que negam a ressurreição, 28 e lhe perguntaram: “Mestre, Moisés deixou-nos escrito: se alguém tiver um irmão casado e este morrer sem filhos, deve casar-se com a viúva a fim de garantir a descendência para o seu irmão. 29 Ora, havia sete irmãos. O primeiro casou e morreu, sem deixar filhos. 30 Também o segundo 31 e o terceiro se casaram com a viúva. E assim os sete: todos morreram sem deixar filhos. 32 Por fim, morreu também a mulher. 33 Na ressurreição, ela será esposa de quem? Todos os sete estiveram casados com ela”. 34 Jesus respondeu aos saduceus: “Nesta vida, os homens e as mulheres casam-se, 35 mas os que forem julgados dignos da ressurreição dos mortos e de participar da vida futura, nem eles se casam nem elas se dão em casamento; 36 e já não poderão morrer, pois serão iguais aos anjos, serão filhos de Deus, porque ressuscitaram. 37 Que os mortos ressuscitam, Moisés também o indicou na passagem da sarça, quando chama o Senhor de ‘o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’. 38 Deus não é Deus dos mortos, mas dos vivos, pois todos vivem para ele”.
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Estamos ainda acompanhando Jesus indo para Jerusalém. Durante esse caminho Jesus vai nos dando seus últimos e importantes ensinamentos para todos os cristãos (Lc 9,51-19,28). Desta vez ele nos fala do Deus da vida. Consequentemente a vida não termina com a morte. O ponto de partida para falar deste tema o evangelho apresenta a questão sobre se existe a vida após a morte.


O tema da ressurreição dos mortos (vida depois da morte) opõe os fariseus aos saduceus. Os fariseus defendem a fé na ressurreição dos mortos. Enquanto que os saduceus não acreditam na ressurreição por uma coisa muito prática como lemos no Evangelho deste domingo.
  

Mas quem são os saduceus?
  

Os saduceus são uma das três seitas judaicas descritas por Josefo, o historiador judeu do século I d.C (as outras são fariseus e essênios). Esse grupo é formado por grandes proprietários de terras/latifundiários (anciãos), pelos membros da elite sacerdotal e pelos grandes comerciantes. Eles controlam a administração da justiça no Tribunal Supremo (Sinédrio). Habitualmente o sumo sacerdote, a figura mais poderosa no Templo é escolhido de famílias pertencentes a este grupo. Eles também são colaboracionistas com os romanos para manter sua posição de privilégio. Por isso, eles são ricos e poderosos. Eles são “classe separada”, e são bem organizados. Por isso, ninguém pode entrar neste grupo.  Em matéria de religião eles são conservadores. Eles admitem apenas a Lei de Moisés/Tora (Pentateuco). Como na Torá não se fala claramente da ressurreição dos mortos e da “outra vida”, eles não acreditam nela. Para eles, tudo termina com a morte: não há ressurreição dos mortos e nem recompensa na vida futura. Não há salvação além da terrena. Neste mundo, salve-se quem puder, porque é o homem e apenas o homem quem causa a própria salvação e felicidade ou desgraça e não- salvação. Por isso, eles são hedonistas: interessa-lhes principalmente acumular riquezas e desfrutá-las o mais possível nesta curta vida terrena (Lc 12,15-21). Moralmente, eles são relaxados.
      

Os saduceus perguntam sobre a existência da vida depois da vida neste mundo. Justamente uma das questões que mais preocupam a pessoa humana é a vida e a vida após a morte. Toda pessoa tem o desejo natural de saber o que acontecerá consigo após a morte. Diante do que não conhece, o ser humano sente medo. A vida após a morte é a condição para a plenitude da felicidade procurada pelo homem. O contrário disso é o desespero, a auto-suficiência, que termina na fatalidade ou no absurdo da morte ou a busca de soluções em filosofia da reencarnação.
     

As leituras deste Domingo nos anunciam claramente a vida futura (1ª leitura e Evangelho) que já tem o início neste mundo na prática do amor a Deus no próximo e perseverança em Jesus Cristo (2ª leitura). Acreditar em Jesus que se traduz na vivência do amor fraterno significa não parar de existir.


Na leitura dos Macabeus (2Mc 7,1-14) aparece pela primeira vez no Antigo Testamento a fé clara na Ressurreição dos mortos (vida depois da morte). Nunca no Antigo Testamento foram feitas afirmações tão claras desta verdade. Os sete irmãos têm a coragem de renunciar a tudo porque têm certeza de que Deus lhes concederá uma vida eterna. Ao rei severo e feroz eles dizem: “Tu, ó malvado, nos tira desta vida presente. Mas o Rei do Universo nos ressuscitará para uma vida eterna, a nós que morremos por suas leis... Para ti, porém, ó rei, não haverá ressurreição para a vida!” (2Mc 7,14). Eles não têm medo do rei muito perverso, Antíoco, que queria obrigá-los a abandonar a fé em Deus dos vivos. É um verdadeiro testemunho digno de ser imitado por nós todos.
   

Jesus, depois de responder a pergunta dos fariseus sobre a legalidade de pagamento de tributo a César (Lc 20,20-26), agora é desafiado pelos saduceus, que aparecem aqui em Lucas esta única vez (embora estejam freqüentemente presentes em Atos: At 4,1-2;5,17;23,7-8). Negando a ressurreição, os saduceus enfrentam Jesus com uma pergunta a partir de uma história, um tanto grotesca, fundada numa teologia mal-enfocada: como fica a mulher que se casou sete vezes com homens diferentes, de quem ela será na ressurreição? Supõe-se, erroneamente, que a ressurreição seja a continuação pura e simples da vida terrena. Ao questionar Jesus, os saduceus têm a intenção de ridicularizar os fariseus (partido rival), cuja fé na ressurreição dos mortos é conhecida. Os saduceus queriam também conhecer a posição de Jesus.
   

No tempo do Deuteronômio, morrer sem descendente era uma calamidade porque a herança ficava perdida. Por isso, o irmão de um falecido casava-se com a viúva para gerar um filho e assegurar a herança (lei de cunhado. Cf. Dt 25,5ss).
     

Jesus responde, estabelecendo uma distinção entre “este mundo” e o “outro”. Na sua explicação Jesus diz que as relações humanas estarão livres de alguns embaraços que complicam a vida. Segundo Jesus, é vão e insensato imaginar que o mundo futuro tenha as mesmas características deste mundo. Por isso, Jesus usa uma expressão “... eles são semelhantes aos anjos...” (v.36) para sublinhar a impossibilidade de descrever o modo de vida que pertence ao mistério de Deus. A comunhão com o Pai celeste torna-se penhor de vida eterna. A morte dá início, neste caso, a uma explosão de vida.
     

O segundo erro cometido por saduceus consiste em considerar Deus como Senhor dos mortos e não como Senhor dos vivos.  Jesus desmoraliza os saduceus dizendo que eles não conhecem as Escrituras. E cita um texto fundamental do Êxodo (Êx 3,16) para mostrar que a ressurreição existe: “Deus falou a Moisés: ‘Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó’”.  Por isso, Jesus faz uma fórmula que todos nós já decoramos: “O nosso Deus é o Deus dos vivos e não dos mortos.” No entanto, trata-se de uma simples fórmula, que por si é letra morta, também nos lábios de tantos cristãos. Mas Deus não é letra morta. Deus vive e quer a vida porque é a VIDA (cf. Jo 12,25; 14,6; Jo 6,48-51.58).


Para todo o mundo perceber a vida de Deus e como prova que Deus quer a vida e é a Vida, Ele irrompe a história de maneira toda especial, inédita, típica: Deus ressuscitou Jesus Cristo. O poder de Deus é maior que as forças destrutivas presentes na história e na natureza. A partir do momento em que ressuscita Jesus Cristo, Deus mostra a todos que essa morte não é o último passo do ser humano. Que Deus tem a ultima palavra para a vida do homem e Sua Palavra não se submete à caducidade. A morte não tem palavra final para o ser humano. Pelo fato de Deus ter ressuscitado Jesus Cristo, podemos ter certeza de que esse mesmo Deus em quem acreditamos firmemente, apesar de nossas fraquezas e pecados, e de nossos medos, nos ressuscitará também. Adorar o Deus da vida é acreditar que ele tem poder de preservar a vida, mesmo que isso supere a precisão e compreensão humanas. E sendo o Deus da vida, Ele não criou ninguém para a morte, mas para a aliança definitiva com Ele.
     

Na sua carta, São Paulo tem toda argumentação que se baseia nessa fé na Ressurreição. Ele não cansa de repetir: “Deus que ressuscitou o Senhor Jesus, também ressuscitará a todos nós, pelo Seu poder” (1Cor 6,14; cfr. Rm 4,17;8,11; cf. também 1Cor 15,1ss). E isso nós devemos ter em mente, de maneira muita clara. Ele fala da Ressurreição. Nessa ressurreição Deus se revela como o Deus da vida, o Deus que “faz os mortos viverem e chama à existência aquilo que não existe” (Rm 4,17). Em outra carta, Paulo diz firmemente: “Se Cristo não ressuscitasse, seria vã a nossa pregação e também seria vã a vossa fé” (2Cor 15,14). A partir da ressurreição do Senhor, não vivemos mais para morrer e sim morremos para viver. A vida não pertence mais à morte e sim a morte pertence à vida.
     

Se o nosso Deus é o Deus dos vivos, sem dúvida nenhuma, Ele nos chama a lutar em todas as frentes que promovem a vida. Crer no Deus dos vivos implica defender a vida, especialmente a dos fracos e indefesos e leva a comprometer-se com aqueles que vêem o seu direito à vida permanentemente violentado. Quem acredita que Jesus Cristo ressuscitou interessa-se pela vida em abundância também aqui na terra. Aquele que defende e protege a vida vai encontrar, com certeza, o Deus da vida. Unidos a Jesus ressuscitado participaremos de sua vida pois Ele é a Ressurreição e a Vida (Jo 11,25).


A fé na ressurreição é o fundamento da esperança. Cremos e por isso, esperamos. E a esperança é o horizonte da fé. Esperamos e por isso, cremos. A atitude do cristão se baseia no próprio testemunho de Deus. Deus mesmo se comunica e nos fala: “O Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,14). É o Deus vivo e pessoal. Nele todos estão vivos. Nossa meta final é o Senhor.


Deste fundamento, a fé cristã tem importantes funções. Ela liberta o homem do medo, da auto-suficiência, do poder destruidor da ignorância de Deus, do medo da morte. A fé no Deus dos vivos tem força em si mesma para vencer o medo da morte; tem luz para iluminar a obscuridade da vida e da morte; tem coragem para superar o medo que nos paralisa; cura as feridas dos fracassos na luta para mudar este mundo e convertê-lo em reino de Deus. Nossa fé é fé no Deus vivo e ressuscitador. Não podemos cair na tentação do finito e do imediato. A fé cristã é confiança no Deus que faz possível o que parece impossível (cf. Lc 1,37; 18,27; Mt 17,20b; 19,26), que ressuscita os mortos; que cumpre suas promessas, às vezes, por caminhos desconhecidos por nós.
    

Portanto, nem precisamos temer as noites do sofrimento e da injustiça, da traição e do desespero, das lágrimas e da morte. Porque a ressurreição é a vitória do amor sobre o ódio, da verdade sobre a mentira, da vida sobre a morte. E tudo isto é tão certo como é certo que depois da noite virá o dia. A ressurreição de Cristo é o mais extraordinário anúncio do cristianismo, fundamento de nossa luta, de nossa fé e de nossa esperança.
    

O senhor nos chamou para fortalecer sua união conosco mediante a Eucaristia que celebramos e da qual participamos. O Senhor é nosso e nós somos do Senhor. Ao receber a Eucaristia não somente recebemos um pedaço do pão consagrado, mas recebemos o próprio Cristo que é a Vida de nossa vida e que vem fazer-se um conosco. Jesus nos dá sua vida para que tenhamos vida (cf. Jo 10,10). Assim nós devemos dar a vida por nossos irmãos para que todos nós participemos dos dons de amor, de vida e de salvação que o Senhor nos oferece. Deus nos quer tão santos como Ele é santo (cf. Mt 5,45). Nós ficaremos perto da santidade de Deus, se soubermos amar os outros sem medida (amor ágape). Não podemos passar a vida cometendo atropelos ou destruindo a vida dos outros. Deus nos chama para que sejamos consolação para os tristes, socorro para os pobres, força para os debilitados, esperança para os desesperados, luz para os que vivem na escuridão e salvação para os pecadores.


Por tudo isso, ao voltarmos à nossa casa e à nossa vida, vamos viver com mais esperança e ânimo porque Deus da vida é o Deus conosco. A vida é de Deus e Deus está nela. Ninguém vai conseguir tirar da sua memória esta verdade. Se o mal avançar, a nossa fé no Deus da vida deve permanecer intacta porque Ele sempre tem a última palavra. A Fe é caminhada na direção de Deus. Pecaremos se pararmos de acreditar neste Deus da Vida. “Ter medo de amar é ter medo da vida, os que temem a vida já estão em boa parte mortos” (Bertrand Russel).

P. Vitus Gustama,svd