sexta-feira, 8 de novembro de 2013

CHAMADOS A VIVER COMO TEMPLO DE DEUS
 
FESTA DA DEDICAÇÃO DA BASÍLICA DO LATRÃO
 
09 de Novembro

 
Texto de Leitura: Jo 2,13-25

13 Estava próxima a Páscoa dos judeus e Jesus subiu a Jerusalém. 14 No Templo, encontrou os vendedores de bois, ovelhas e pombas e os cambistas que estavam aí sentados. 15 Fez então um chicote de cordas e expulsou todos do Templo, junto com as ovelhas e os bois; espalhou as moedas e derrubou as mesas dos cambistas. 16 E disse aos que vendiam pombas: “Tirai isto daqui! Não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio!” 17 Seus discípulos lembraram-se, mais tarde, que a Escritura diz: “O zelo por tua casa me consumirá”. 18 Então os judeus perguntaram a Jesus: “Que sinal nos mostras para agir assim?” 19 Ele respondeu: “Destruí este Templo, e em três dias o levantarei”. 20 Os Judeus disseram: “Quarenta e seis anos foram precisos para a construção deste santuário e tu o levantarás em três dias?” 21 Mas Jesus estava falando do Templo do seu corpo. 22 Quando Jesus ressuscitou, os discípulos lembraram-se do que ele tinha dito e acreditaram na Escritura e na palavra dele.
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Uma Pequena História Da Festa


       
Latrão era um palácio, propriedade romana da família dos Laterani. Nos inícios do século IV pertencia a Fausta, esposa do imperador Constantino, que fez a doação desse patrimônio à Igreja. Constantino mandou construir no lugar do palácio (por volta de 324) uma suntuosa basílica em honra a Cristo Redentor que se tornou a catedral de Roma e a primeira basílica patriarcal. No início do século X, sob a gestão do papa Sérgio III (904-911), ela foi consagrada adicionalmente a São João Batista e a São João Evangelista, e desde então é conhecida pelo nome de basílica “São João de Latrão”. Segundo a inscrição, o Papa Clemente XII (1730-1740), conhecido como um papa promotor das artes e das ciências, mandou afixar que essa basílica é a “mãe e cabeça de todas as igrejas da Urbe e do Orbe” (“Mater et Magistra omnium Ecclesiarum”, e “cardo totius urbis et orbis”).
   

Nessa basílica realizaram-se os cinco concílios ecumênicos: Concílio de Latrão I, o nono concílio (1123); Concílio de Latrão II, o décimo concílio (1139); Concílio de Latrão III, o décimo primeiro concílio (1179); Concílio de Latrão IV, o décimo segundo concílio (1215); e o Concílio de Latrão V, o décimo oitavo concílio (1512-1517).
   

A basílica lateranense ocupa lugar único e preponderante entre as basílicas romanas. Nessa basílica os papam haviam residido durante quase mil anos (do tempo de Constantino até o exílio de Avinhão). Depois da morte do papa Bento XI (1303-1304), o conclave se realizou em Perúgia. O Colégio Cardinalício dividira-se em duas facções: a francesa e a italiana. O conclave teve 11 meses de duração. Finalmente foi eleito o candidato dos franceses, Clemente V (1305-1314). Com essa eleição iniciava-se o exílio dos papas em Avinhão, a partir de 1309, que duraria 70 anos. A partir de 1309 o papa passou a residir em Avinhão. Somente a partir do Papa Gregório XI (1370-1378: francês) começou o retorno para Roma. Gregório XI deixou Avinhão, acompanhado de 13 cardeais, em 13 de setembro de 1376, ingressando solenemente em Roma

·       A partir de Clemente V começou a dominação francesa. Foram eleitos os papas franceses sucessivamente: João XXII (1316-1334), sucessor de Clemente V; Bento XII (1334-1342); Clemente VI (1342-1352); Inocêncio VI (1352-1362); Urbano V (1362-1370). Este papa decidiu o regresso a Roma, porque também Santa Brígida da Suécia, inclusive Santa Catarina de Siena, solicitara que o fizesse. Mas por causa da pressão dos cardeais franceses esse regresso não teve sucesso, embora esse papa chegasse a entrar em Roma, mas voltou novamente para Avinhão; Gregório XI ((1370-1378). Com Gregório XI morreu o último papa francês a ocupar a cátedra de Pedro.

A festa da consagração da Basílica do Latrão que celebramos hoje deve nos levar a revivermos e a pensarmos na unidade de toda a Igreja como Cristo sempre quer: “Que eles sejam um”, assim ele rezou antes de sua morte (cf. Jo 17). A palavra “igreja” em si significa “assembléia”, “comunidade”. Se a comunidade não existe, os corações se fecham e morrem. Mas a unidade não significa a uniformidade, pois negaria o dom de cada um e empobreceria a convivência. Por isso, Santo Agostinho dizia: No essencial unidade, na dúvida liberdade, mas em tudo a caridade”. Certamente a autenticidade da comunhão e da comunidade se manifesta no esforço constante de amar seus irmãos e irmãs, com enorme fidelidade, sem julgar nem condenar.

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O texto do evangelho de hoje é lido em função da festa mencionada.  Esse texto se encontra na primeira parte do quarto Evangelho que costuma ser chamada de “Livro dos Sinais” (Jo 2,1-12,50). Chama-se assim porque referem-se aos sete sinais realizados por Jesus (Jo 2,1-11;4,46b-54;5,1-9;6,1-15;6,16-21;9,1-41;11,1-44). Estes sinais são reunidos por evangelista do quarto Evangelho na seção que vai de Jo 2 até Jo 12.
     

No quarto Evangelho, como já sabemos, não se fala de milagre (dynamis), fala-se de sinal (semeion). No quarto evangelho usa-se o termo “sinal”. Chama-se de “sinal” porque o espectador/ leitor é obrigado a mergulhar no mistério do sinal para captar seu significado. Os sinais são ações simbólicas que impulsionam o espectador/ leitor a buscar, muito além do episódio concreto, uma realidade mais profunda até a qual aponta o relato narrado. O sinal leva por si ao conhecimento de realidade superior.
     

O relato da “purificação do Templo” (X. Léon-Dufour não aceita o uso desta expressão no quarto Evangelho, pois segundo ele, a expressão “purificação do Templo” se usa nos sinóticos e não no quarto Evangelho) ou “substituição do Templo” (Johan Konings usa o termo “suplantar” em vez de “substituir”) se encontra também nos evangelhos sinóticos (cf. Mc 11,15-19;Mt 21,10-17;Lc 19,45-48). Mas o quarto evangelho tem suas próprias acentuações. Os sinóticos colocam este episódio na última semana da atividade de Jesus. O quarto Evangelho o coloca logo no início da vida pública de Jesus. Para o quarto evangelho este episódio é um gesto programático (compare Lc 4,16-30) que, como tal, deve figurar ao princípio da atividade de Jesus.


O episódio é introduzido mediante a afirmação sobre a proximidade da festa judaica da páscoa. Esta forma de mencionar a festa principal dos judeus indica distância e separação entre o objetivo da festa e a prática atual dos judeus, na época. A páscoa era uma festa de libertação. Ela evocava o passo da escravidão à libertação (cf. Ex 12,17;13,10). Em tempos de opressão, o pensamento da libertação se acentuava mais. Ao desviar-se do próprio objetivo da festa (não é mais uma festa de libertação), surgia inevitavelmente a idéia de uma nova libertação. E este era o caso em tempos de Jesus. Além disto, o templo, que é o símbolo e a síntese do sistema religioso, a partir de agora será “substituído” ou suplantado pela presença de Jesus. Não é por acaso que este episódio se coloca logo depois do primeiro sinal (Jo 2,1-11) que simboliza as núpcias de Deus com sua comunidade no tempo final. E desde início de sua atividade Jesus é o “lugar santíssimo” de Deus.

 
O que tem por trás do gesto de Jesus?
     

Em primeiro lugar, a Páscoa que era uma festa familiar e festa de libertação se transforma numa festa da maior exploração. Os peregrinos que vêm de longe não podem trazer consigo os animais para ser sacrificados. Eles compram os animais no próprio Templo. E os donos dos animais são os latifundiários pertencentes à elite religiosa. A Páscoa para eles é o momento de lucro, pois eles aumentam o preço dos animais exageradamente. E os peregrinos não têm outra opção a não ser comprar esses animais apesar do preço alto. A Páscoa não é mais um momento de celebrar e de reviver a libertação, mas se torna uma festa de exploração. As elites religiosas exploram o povo por meio do culto. O “deus” do Templo, para estas elites religiosas, é o dinheiro. A religião se transforma num instrumento que acoberta a injustiça e exploração. Por isso já não é mais “a casa de meu Pai”, e sim um mercado. Como se vive a religião hoje em dia?

      
Em segundo lugar, quem pode comprar os animais maiores (como boi, ovelhas) são os ricos. Surge aqui outra mentalidade. O sacrifício se torna como que uma moeda pela qual compra-se de Deus a salvação. A salvação não mais depende de dois lados simultaneamente(de Deus que oferece e do homem que corresponde), mas somente do homem que a compra. Isto quer dizer que quem não for capaz de comprar a salvação, ficará fora dela. E os pobres e miseráveis?
  

O que nos chama atenção, no quarto Evangelho, é o fato de Jesus se dirigir somente aos vendedores de pombas. Para eles é que Jesus diz: “Tirai tudo isto daqui; não façais da casa de meu Pai uma casa de comércio” (v.16). Porque a pomba era o animal sacrificado nos holocaustos (cf. Lv 1,14-17) e nos sacrifícios (Lv 12,8;15,14.29) oferecidos especialmente pelos pobres, por meio dos sacerdotes, para reconciliar-se com Deus e para purificar-se (Lv 5,7;14,22.30-31; cf. Lc 2,44). Os vendedores de pombas são os que, por dinheiro, oferecem aos pobres a reconciliação com Deus, e representam os sacerdotes do Templo que fazem comércio com a graça de Deus. Em outras palavras, a hierarquia sacerdotal explora especificamente os pobres, oferecendo-lhes por dinheiro para ganhar favores ou benefícios de Deus. Eles apresentam Deus como um comerciante, pois convertem a casa de Deus num mercado.


Jesus expulsa os vendedores do Templo. Ele quer limpar o templo de todo tipo de exploração e de injustiça. A limpeza do templo é um gesto de profundo simbolismo. O homem deve limpar sempre a morada de Deus que é ele mesmo de todo tipo de “sujeira” através de uma conversão contínua todos os dias de sua vida. O culto verdadeiro consiste na mais profunda união do homem ao divino, na mais pura e incondicional entrega à vontade de Deus. O culto do cristão é um culto de Espírito (Jo 4,23). O templo não santifica o nosso culto, e sim nosso amor fraterno santifica nosso culto e a comunidade. Deus habita no próprio ser humano, e não em edifícios (2Cor 6,16). Cada cristão é ele próprio templo de Deus enquanto membro do Corpo de Cristo (1Cor 3,16; 6,19). E as pedras vivas deste edifício espiritual são os que pertencem ao novo povo de Deus. Devemos amar os nossos semelhantes porque são nossos irmãos; e devemos reverenciá-los, pois são filhos de Deus e devemos respeitá-los, pois são templo de Deus. Assim quem desrespeita o ser humano está desrespeitando o próprio Deus e toda a pessoa humana, chamada a ser templo de Deus (1Cor 3,16-17; 6,19).
 

O evangelho deste domingo, por isso, nos traz de volta a consciência de sermos templo de Deus e de respeitar novamente, como Deus sempre quer, aos outros como habitação de Deus. Além disto, este evangelho nos leva ao arrependimento de tudo que cometemos em relação à dignidade humana desrespeitada, que se expressou através de violência moral- verbal e física, difamação etc. E este arrependimento deve ser tornar em conversão sem fim, pois o homem velho dentro de nós sempre tenta nos levar ao passado pecador.

P. Vitus Gustama,svd

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