sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

IMACULADA CONCEIÇÃO DE MARIA


Domingo, 08 de Dezembro de 2013 


Textos de Leitura:
Gn 3,9-15.20;
Ef 1,3-6.11-12;
Lc 1,26-38
                     
Naquele tempo, 26o anjo Gabriel foi enviado por Deus a uma cidade da Galileia, chamada Nazaré, 27a uma virgem, prometida em casamento a um homem chamado José. Ele era descendente de Davi e o nome da Virgem era Maria. 28 O anjo entrou onde ela estava e disse: “Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo!” 29 Maria ficou perturbada com estas palavras e começou a pensar qual seria o significado da saudação.
30 O anjo, então, disse-lhe: “Não tenhas medo, Maria, porque encontraste graça diante de Deus. 31 Eis que conceberás e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. 32 Ele será grande, será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi. 33 Ele reinará para sempre sobre os descendentes de Jacó, e o seu reino não terá fim”.  34 Maria perguntou ao anjo: “Como acontecerá isso, se eu não conheço homem algum?” 35 O anjo respondeu: “O Espírito virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com sua sombra. Por isso, o menino que vai nascer será chamado Santo, Filho de Deus. 36 Também Isabel, tua parenta, concebeu um filho na velhice. Este é o sexto mês daquela que era considerada estéril, 37 porque para Deus nada é impossível”. 38 Maria, então, disse: “Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!”   E o anjo retirou-se.
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Na primeira metade do século VIII, a Igreja bizantina (no Oriente) celebrava a concepção de Santa Ana, mãe da Theotokos (= Mãe de Deus, Nossa Senhora). Em suas origens, esta festa celebrava o anúncio do Anjo a Ana e Joaquim que, depois de anos de esterilidade, gerariam Maria, segundo a narração do proto-evangelho de São Tiago, um evangelho apócrifo (“apócrifo” é palavra grega, “apocryphos” que significa escondido, secreto, oculto. Foram assim chamados os livros que não eram usados oficialmente na liturgia e no ensino. Alguns são contemporâneos dos escritos bíblicos e outros pouco posteriores) que surgiu no século II (cf. Protoevangelho de São Tiago IV,1-2). Até aqui a festa não encontrou polêmicas teológicas porque não se tratava da “imaculadaconcepção.
          
O duro polêmico começou quando esta festa passou dos mosteiros do sul da Itália, no século IX, à Irlanda e à Inglaterra. Aqui, no século XI, a festa começou a fixar-se no dia 8 de dezembro por ter relação ao dia 8 de setembro (a festa da natividade da Nossa Senhora) e recebeu o nome a “Conceição da Santa Virgem Maria”. E no século XII (cerca de 1119) começou com clareza o conceito da festa quando o prior de Westminster, Osberto de Clara, falou da santificação de Maria desde o início de sua criação e concepção no útero materno, pela graça de Deus, que a santificou em sua própria concepçãosem contágio de pecado”.
 
 
Por estímulo de alguns teólogos, um deles é o beneditino Eadmer (+ 1134) que é considerado o primeiro teólogo da imaculada conceição, a festa se difundiu na França, apesar das divergências de opiniões. Em 1263, a ordem franciscana adotou a festa, e teólogos franciscanos como o beato Ramon Llul e João Duns Scotu defenderam em Paris o privilégio da Imaculada.  Muitas ordens religiosas (com exceção dos dominicanos) adotaram a festa.

 
E em 1477, Sisto IV(1471-1484), franciscano, introduziu a festa em Roma e afirmou (não como dogma) com clareza a preservação de Maria em sua concepção de todo contágio de pecado original.

 
A partir do dia 8 de dezembro de 1854 Pio IX(1846-1878) proclamou como dogma a conceição imaculada de Maria, na Bula Ineffabilis Deus, onde ele afirmou: “...Virgem Maria por graça e privilégio de Deus todo- poderoso, em vista dos méritos de Cristo Jesus, Salvador do gênero humano, foi preservada imune de toda mancha da culpa original no primeiro instante de sua concepção”.  E o Concílio Vaticano II recorda este dogma na Constituição dogmática Lumen Gentium capítulo VIII no.53.59:
  • Efetivamente, a Virgem Maria, que na anunciação do Anjo recebeu o Verbo no coração e no seio, e deu ao mundo a Vida, é reconhecida e honrada como verdadeira Mãe de Deus Redentor. Remida dum modo mais sublime, em atenção aos méritos de seu Filho, e unida a Ele por um vínculo estreito e indissolúvel, foi enriquecida com a excelsa missão e dignidade de Mãe de Deus Filho; é, por isso, filha predilecta do Pai e templo do Espírito Santo, e, por este insigne dom da graça, leva vantagem á todas as demais criaturas do céu e da terra. Está, porém, associada, na descendência de Adão, a todos os homens necessitados de salvação; melhor, «é verdadeiramente Mãe dos membros (de Cristo)..., porque cooperou com o seu amor para que na Igreja nascessem os fiéis, membros daquela cabeça». É, por esta razão, saudada como membro eminente e inteiramente singular da Igreja, seu tipo e exemplar perfeitíssimo na fé e na caridade; e a Igreja católica, ensinada pelo Espírito Santo, consagra-lhe, como a mãe amantíssima, filial afeto de piedade (LG n. 53).
  •  Tendo sido do agrado de Deus não manifestar solenemente o mistério da salvação humana antes que viesse o Espírito prometido por Cristo, vemos que, antes do dia de Pentecostes, os Apóstolos «perseveravam unânimemente em oração, com as mulheres, Maria Mãe de Jesus e Seus irmãos» (At. 1,14), implorando Maria, com as suas orações, o dom daquele Espírito, que já sobre si descera na anunciação. Finalmente, a Virgem Imaculada, preservada imune de toda a mancha da culpa original, terminado o curso da vida terrena, foi elevada ao céu em corpo e alma e exaltada por Deus como rainha, para assim se conformar mais plenamente com seu Filho, Senhor dos senhores (cfr. Apoc. 19,16) e vencedor do pecado e da morte (LG 59)

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Este Segundo Domingo do Advento coincide com a celebração da Solenidade de Maria Imaculada. O mistério de Maria Santíssima consiste em que Maria harmoniza pequenez e grandeza em seu ser e personalidade de mulher. Ela é a serva do Senhor que quer fazer unicamente a vontade de Deus (cf. Lc 1,38) e é eleita para ser Mãe de Deus (cf. Lc 1,30-33).

 
Maria é uma filha de Eva como todas as mulheres do mundo. Tem corpo de mulher, psicologia de mulher, sentimentos de mulher, modos de ser e de atuar próprios da condição feminina. Na Galileia do século I d.C nada distingue Maria das demais mulheres judias: seus rasgos físicos, condições socioeconômicas, prescrições legais discriminatórias e assim por diante. Mas nessa personalidade concreta de mulher judia se encerra um mistério da grandeza, real e invisível ao mesmo tempo. A concepção imaculada de Maria ou sua maternidade divina seriam proclamadas como dogma de alguns ou muitos séculos mais tarde, mas Maria viveu a experiência real das mesmas em sua existência terrena, inteiramente judaica.

Maria não esperava ser Mãe do Messias. No ambiente religioso do seu tempo, ela compartilhava com todos os judeus a crença e a espera do Messias que libertaria Israel de seus inimigos. Além disso, que o Messias viria de Nazaré era impossível, do ponto de vista humano (cf. Jo 1,46). Nada em seus pais, em seu ambiente, no correr de sua existência que serviria de indício para tão grande e nobre vocação de ser Mãe do Senhor. Mas um dia, tudo isso foi verdade.

 
Maria é irmã e mãe nossa. Enquanto irmã, Maria é igual a todos os cristãos: filha adotiva de Deus por meio de Jesus Cristo, eleita para ser herdeira do Reino de Deus (cf. Ef 1,5) chamada a dar glória a Deus como todos os que põem sua esperança em Cristo Jesus (cf. Ef 1,3-6.11-12). Sua grandeza radica em que harmoniza em sua vida simultaneamente o ser nossa irmã com o ser nossa mãe, convertendo-se, assim, em guia e modelo do caminho de nossa salvação. Maria “cooperou de modo singular, com a sua , esperança e ardente caridade, na obra do Salvador, para restaurar nas almas a vida sobrenatural. É por esta razão nossa mãe na ordem da graça” (LG n. 61).

A imaculada conceição é o começo de um mundo novo animado pelo Espírito: é plenitude de amor, superávit da realidade cristã, nostalgia do paraíso perdido e que foi encontrado novamente em Maria. Em Maria a Igreja encontra sua utopia, sua imagem mais santa depois de Cristo.
 
Maria era uma mulher simples do povo, uma moça pobre, nova e logo esposa de um humilde trabalhador. Mas Deus se compadeceu pelos humildes e escolheu Maria como mãe do Messias. E ela, a partir de sua simplicidade, soube dizerSim” a Deus. O “Sim” de Maria à vontade de Deus é também o “sim” de milhares e milhares de pessoas que ao longo dos séculos tinham em Deus, pessoas que não viam nada claro, que passavam por dificuldades, mas acreditaram em Deus e disseram como Maria: “Faça-se em mim segundo a Tua Palavra”. Em Maria toda a humanidade ficou abençoada. Por isso, podemos olhar para Maria como modelo de e motivo de esperança e alegria.


Por isso, Maria Imaculada é sinal de Deus para nós. Um sinal é como um fulgor que antecipa a luz, como uma flor que antecipa a primavera, como uma premonição. O diálogo entre o anjo do Senhor com Maria é um sinal escolhido por Deus para nos assegurar que Deus não nos abandonará nunca, que não nos deixará a mercê das forças inimigas, que com Sua ajuda, o pequeno pode superar o grande e o débil pode superar o forte. É um sinal, e é um anúncio de vitória, que a salvação do homem está decidida, que a perfeição do homem é possível, que o paraíso não é utopia para quem se entrega a Deus como Maria.


As grandes promessas de Deus passam pela mulher chamada Maria. Por isso, ela faz possível a esperança. Quando o homem sofre crises de morte, aparece uma mulher em estado da graça, como anúncio e promessa.


O compromisso da vida cristã é deixar-se fecundar pelo Espírito de Deus, como Maria, escutando a Palavra de Deus que vem por meio de mensageiros, tendo em conta nossa situação e nossas forças, mas respondendo a Deus com confiança e interesse. O cristão deve deixar-se encarnar pela Palavra de Deus.


Através da cena da anunciação do Senhor a Maria o evangelista Lucas nos mostra um Deus revolucionário e libertador. A manifestação de Deus, nesta cena, não acontece no Templo, lugar considerado sagrado, como aconteceu com o anúncio do nascimento de João Batista (cf. Lc 1,5-25) e sim num lugar desconhecido: Nazaré. Deus é que faz um lugar importante. Nazaré é um lugar jamais mencionado no AT. Esse Deus não se manifestou a um sacerdote no templo durante o culto, como aconteceu com Zacarias, e sim no cotidiano a uma pessoa simples, pequena, a uma mulher: Maria. Na opção de Deus Maria se torna uma privilegiada.


A Virgem Maria, da perspectiva do evangelista Lucas é uma mulher que aceita a proposta revolucionária de que Deus possa nascer de seu ventre virgem, de seu corpo jovem, de seu coração feminino. A mulher, naqueles tempos, não tinha acesso à Palavra escrita da Tora ou dos profetas. Na época tinha um dito: “É melhor queimar a Bíblia do que entregá-la nas mãos de uma mulher”. Agora Maria, uma mulher, tem em seu ventre materno a própria Palavra de Deus feita carne: o Emanuel, Deus-Conosco, Jesus Cristo.


A mulher, que não podia conversar com outro homem que não fosse seu marido, agora dialoga com sua consciência e toma decisão de ser a Mãe do Senhor. A mulher que vivia dependente de uma estrutura familiar rígida, agora escolhe e opta por ficar grávida milagrosamente. A mulher que tinha um acesso restringido ao culto, agora dialoga diretamente, cara a cara, com Deus. A mulher que devia cuidar de sua imagem de moralidade, sua virgindade até o matrimonio, agora decide enfrentar a sociedade de seu tempo e o mais importante: quem decide é ela.


Por isso, não podemos imaginar que Maria seja uma mulher passiva, imóvel e submissa. Ela é corajosa, valente e revolucionária: Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!”. Ela se compromete a partir de sua própria liberdade e libertação com a libertação de Deus. Ela é revolucionária com o Deus revolucionário. Quem tem sua força em Deus, quem acredita incondicionalmente em Deus tem força suficiente até mais do que suficiente para encarar tudo na vida porque ele sabe que a palavra final é a Palavra de Deus e não a do homem. Quem é devoto de Maria deve ser uma pessoa valente, corajosa e revolucionária como Maria. Para Deus e com Deus tudo é possível.


A partir da cena da anunciação nãoque buscar Deus no ar, nas idéias, nos sonhos. Maria o encontra no seu ventre, no seu coração. O Deus que está no coração de Maria transforma seu corpo em instrumento para fazer Deus visível aos homens. Sua maternidade aproxima Deus ao ser humano para compartilhar a experiência de salvação. Para cada um de nós Maria quer mostrar que é possível ser instrumento para fazer visível Deus aos outros. Para cada cristão trata-se de uma missão a ser cumprida neste mundo: fazer Deus visível através de nossa vida e de nosso modo de viver. “Vós sois a carta de Cristo”, relembra-nos São Paulo.


Além disso, na cena de anunciação Maria se considera a Serva do Senhor: Eis aqui a serva do Senhor; faça-se em mim segundo a tua palavra!” (Lc 1,38.48). Serva é aquela que está totalmente à disposição do seu senhor. Maria se submete totalmente à sabedoria divina. Ela segue o ritmo de Deus, segundo seu projeto de amor. Por isso, Maria é a mulher crente, a melhor discípula de Jesus, a primeira cristã. O “sim” de Maria à Palavra de Deus expressa seu total compromisso, sua absoluta confiança no amor e no poder de Deus e pendura toda sua vida na Palavra de Deus, porque ela acredita que Deus nunca falha. Maria está totalmente vazia de si mesma e de toda sombra de egoísmo, para deixar Deus encher totalmente seu coração, o quesentido à sua vida. É uma que se traduz em doação completa de si mesma ao Pai (Lc 1,38). Por estar totalmente cheia de Deus, ela se torna um bem para a humanidade. Para sermos instrumentos de Deus para a humanidade é preciso que estejamos vazios de nós mesmos para que a graça de Deus possa nos inundar por inteiro.


Maria é a primeira cristã por causa do seu sim a Deus para que possa nascer para a humanidade Jesus Cristo, nosso Salvador. Não era nenhuma princesa nem nenhuma patroa na sociedade do seu tempo. Era uma mulher simples do povo, uma moça pobre. Mas Deus se compadece dos humildes e dos simples. Para Deus tudo é simples, e para o simples tudo é divino. A simplicidade atrai a bênção de Deus e a simpatia humana. O simples, o humilde é o terreno fértil onde a graça de Deus encontra seu lugar e através do qual Deus fala para o mundo.


De certa forma, podemos dizer que com o sim de Maria à vontade de Deus, a Igreja começou. A Virgem Maria, no momento de sua eleição radical e no momento de seu sim a Deus foi início e imagem da Igreja. Quando ela aceitou o anúncio do anjo, da parte de Deus, pode-se dizer que começou a Igreja: a humanidade, nela representada, começou a dizer sim à salvação que Deus lhe ofereceu. Nela e através dela a humanidade foi abençoada. Podemos olhar, por isso, para Maria como modelo de e motivo de esperança e de alegria permanentemente.


P. Vitus Gustama,svd

Um comentário:

Viagem disse...

Mui lindo. Obrigada pela bela reflexão. Julia