terça-feira, 30 de abril de 2013

SER CRISTÃO SIGNIFICA SER MÁRTIR DE CRISTO
 
Sábado da V Semana da Páscoa
04 de Maio de 2013

Texto de Leitura: Jo 15,18-21

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 18“Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim. 19Se fôsseis do mundo, o mundo gostaria daquilo que lhe pertence. Mas, porque não sois do mundo, porque eu vos escolhi e apartei do mundo, o mundo por isso vos odeia.  20Lembrai-vos daquilo que eu vos disse: ‘O servo não é maior que seu senhor’. Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós. Se guardaram a minha palavra, também guardarão a vossa. 21Tudo isto eles farão contra vós por causa do meu nome, porque não conhecem aquele que me enviou”.

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Continuamos ainda a acompanhar o discurso de despedida de Jesus dos seus discípulos (Jo 13-17).


O evangelho de hoje descreve a situação precária da comunidade cristã no mundo, principalmente nos finais do século I e nos começos do século II. É uma situação que se caracteriza pela recusa e até pela perseguição abertas. A resistência à revelação não cessou na cruz de Jesus. A mesma resistência agora é dirigida contra a comunidade cristã que mantém os ensinamentos de Jesus Cristo. “Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós”, alerta Jesus aos seus. Na época em que João escreveu seu evangelho muitos morreram como mártires.


No evangelho deste dia, Jesus contrapõe o amor do Pai com o ódio do mundo manifestado pela perseguição. “Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim”. Ódio é paixão ou sentimento que leva a fazer ou a desejar mal para o próximo. É uma paixão provocada pela vista do mal e que se traduz por um sentimento de aversão. O mundo é caracterizado pelo ódio. A comunidade cristã é caracterizada pelo amor fraterno: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13,35).


Se o mundo vos odeia, sabei que primeiro me odiou a mim”. Os cristãos estão bem advertidos. Não têm porque se estranham de ser recusados ou odiados. Nada de estranho! A Igreja é o Corpo de Cristo. Por isso, tem que sofrer inevitavelmente os ataques do homem mundano que se crê deus de si mesmo e que não pode renunciar a ser ele o autor de sua própria salvação. Este tipo de homem sempre buscará acusações contra a Igreja, pelos mesmos motivos que as buscou contra Jesus. Para o mundo a fé em Deus é irracional e atrasada; o perdão aos inimigos é uma debilidade; a oração e o amor a Deus são atitudes ineficazes. Por isso e por tantos outros motivos a Igreja de Cristo é perseguida. Mas a perseguição é um meio de união com Cristo; é correr a mesma sorte que Jesus.


Para São João, habitualmente, especialmente no contexto do evangelho deste dia, o mundo significa “o mundo pecador”, “o mundo que recusa Deus”. O processo de Jesus não terminou enquanto a Igreja estiver no mundo. Por isso, o mundo neste sentido é sinônimo de todo um sistema ideológico, político e social que aliena o ser humano e o converte num escravo; designa a todo sistema injusto. Mas o seguimento de Jesus, a amizade com ele leva os cristãos a romperem com a mentalidade alienada que o mundo impõe.


Mas a ruptura com o mundo não é fácil. Pelo contrário, resulta num conflito em extrema deprimente e perigoso, porque o mundo, como mentalidade alienadora, não permite a mínima dissensão ou oposição. Por isso, enquanto a Igreja existir sobre a face da terra, vão continuar a existir também mártires. Mas o sangue do mártir é a semente para a Igreja. Não dá para a verdadeira Igreja de Cristo parar de sofrer. A Igreja de Jesus continua com sua função profética de anunciar e de denunciar que resulta na perseguição e no martírio. Viver de acordo com os ensinamentos de Cristo significa ser sinal de contradição (cf. Lc 2,34-35).


Os cristãos devem lutar incansavelmente por superar, em sua própria pessoa e na comunidade, a mentalidade que o mundo lhes impõe. A vida de um cristão é uma luta permanente contra o mal. Qualquer cristão verdadeiro sofrerá por manter sua opção pelos valores do Reino tais como amor, justiça, honestidade, verdade, igualdade, fraternidade e assim por diante.


O que o cristão deve continuar a fazer é testemunhar o amor fraterno. O amor fraterno é o selo de autenticidade de cada cristão (cf. Jo 13,35). Somente o amor vivido na fraternidade salva, pois “Deus é Amor” (1Jo 4, 8.16).


O perigo que temos é a assimilação insensível da hierarquia de valores do mundo em vez da hierarquia de valores que Jesus Cristo ensinou. Por isso, há perseguição contra a Igreja que é fruto da incoerência da própria Igreja com seus próprios ensinamentos éticos e morais recebidos de Jesus Cristo. Se a Igreja estiver de mãos dadas com o mundo é porque a Igreja deixa de viver de acordo com sua função profética de anunciar e de denunciar. Em outras palavras, a Igreja é perseguida porque não está vivendo os valores cristãos que ela própria prega. Neste sentido, este tipo de perseguição serve para que a Igreja volte a ser como antes: uma comunidade cristã que vive os valores éticos e morais antes de pregá-los. Mas há outro tipo de perseguição que se deriva do choque do evangelho com muitos dos critérios que hoje são vigentes. Esta segunda perseguição é um claro sinal da autenticidade da Igreja. Se os cristãos forem perseguidos por estar vivendo os valores éticos e morais e os demais valores evangélicos, estarão recebendo, na verdade, um grande aplauso apesar do sofrimento. Que bom que alguém me critica por praticar o bem.


Ao participar da Eucaristia sabemos que aceitamos as exigências do Evangelho, de tal forma que, daqui em diante, temos que viver totalmente comprometidos com Jesus Cristo. Comungar o Corpo do Senhor significa viver como Ele viveu. Comungar o Corpo do Senhor significa assumir o estilo de vida que ele viveu. Sem isto, a Eucaristia e a comunhão carecerão de sentido.

P. Vitus Gustama,svd
AMAR COMO ESTILO DE VIDA A EXEMPLO DE JESUS  
 

Sexta-feira da V Semana da Páscoa
03 de Maio de 2013
 
SÃO FILIPE E SÃO TIAGO, APÓSTOLOS

Texto: Jo 15,12-17
(evangelho do próprio dia da V semana da Páscoa)

 

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 12“Este é o meu mandamento: amai-vos uns aos outros, assim como eu vos amei. 13Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos. 14Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando. 15Já não vos chamo servos, pois o servo não sabe o que faz o seu Senhor. Eu chamo-vos amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai. 16Não fostes vós que me escolhestes, mas fui eu que vos escolhi e vos designei para irdes e para que produzais fruto e o vosso fruto permaneça. O que, então, pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo concederá. 17Isto é o que vos ordeno: amai-vos uns aos outros”.

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Continuamos ainda no discurso da despedida de Jesus dos seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17). No evangelho de hoje Jesus fala do amor como o maior mandamento para seus seguidores e se apresenta como amigo dos discípulos e de todos os seus seguidores.


Amar como o estilo de vida


“Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”. Este é o mandamento do Senhor! Não se trata de uma lei (nomos), e sim de um estilo de vida (entolé).


Mas que tipo de amor que Jesus recomenda? Que tipo de amor que ele fala como o estilo de vida? Jesus se põe a si mesmo como modelo: Amai-vos uns aos outros como eu vos amei (Jo 15,12). De que maneira Jesus nos amou? O amor de Jesus é gratuito, generoso, universal, incondicional e sem limites. Jesus amou ao longo dos dias e dos anos; amou até a morte e além da morte. Sem limites: até dar tudo, gastar tudo, despojar-se de tudo. O amor de Deus não se deixa condicionar e nem sequer impor limites pelos maus comportamentos do homem: “Deus faz nascer o seu sol igualmente sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos”, diz Jesus no Sermão da Montanha (Mt 5,45).   Ele se entregou pelos demais ao longo de sua vida até o extremo: a morte na cruz: Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos (Jo 15,13). É o amor concreto. É amar não com palavras apenas e sim com obras, com a compreensão, com a ajuda oportuna, com a palavra amável, com a tolerância, com a doação gratuita de si mesmo. O amor autêntico exige sempre o sacrifício e o total esquecimento de si. É amar por amor. São Bernardo afirma: O amor basta por si só e por causa de si. Seu prêmio e seu mérito se identificam com ele mesmo. O amor não requer outro motivo fora de si mesmo. Amo porque amo; amo para amar”. Você vive não quando respira, mas quando ama. Do ponto de vista cristão a capacidade de viver o amor fraterno é o critério de maturidade cristã.


Para nós, cristãos, a atitude de amor aos demais deve ser uma conseqüência prática de nossa comunhão com Cristo na Eucaristia. Porque o Cristo que comungamos na Eucaristia é o Cristo que se entregou por amor pela nossa salvação.


Somos amigos de Jesus


Eu vos chamo amigos”, diz o Senhor. “A amizade é uma predisposição recíproca que torna dois seres igualmente ciosos da felicidade um do outro” (Platão). “A amizade é o conforto indescritível de nos sentirmos seguros com uma pessoa, sem ser preciso pesar o que se pensa, nem medir o que se diz” (George Eliot). “A verdadeira amizade é aquela que nos permite falar ao amigo de todos os seus defeitos e de todas as nossas qualidades” (Millôr Fernandes). Para ser amigo do outro é preciso ser amigo de si mesmo, no sentido de que é preciso colocar em ordem o próprio coração e direcioná-lo para o bem. Um coração bom está sempre do lado do bem. Dizia Cícero que a amizade é “doadora da alegria de viver tanto para os nossos amigos como para nós mesmos”. Por isso, ter ou não ter amigo depende de ser ou não ser amigo de si mesmo. Quem é muito humano para si próprio, será muito humano para o outro. É o ponto de partida para uma amizade.


Eu vos chamo amigos”, diz o Senhor. Jesus chamou seus discípulos de amigos porque partilhou tudo com eles o que ouviu de seu Pai: experiências, conhecimentos e seu amor. Jesus abriu aos discípulos Seu coração. Isto significa que o discípulo, o cristão não é um simples subalterno. O cristão é um amigo pessoal de Jesus Cristo. O amigo não é um simples conhecido ou um sócio e sim alguém com quem se compartilha a intimidade, o mais profundo de nosso ser: “Eu vos chamo amigos, porque vos dei a conhecer tudo o que ouvi de meu Pai” (Jo 15,15b). O amigo sempre está disposto a fazer o que o amigo lhe pedir: “Vós sois meus amigos se fizerdes o que eu vos mando” (Jo 15,14). O amigo demonstra a verdade de seu amor estando disposto a entregar a própria vida se for necessário: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos” (Jo 15,13). O verdadeiro amigo inclui a doação da vida pelo amigo. Para Jesus a noção de amizade é muito profunda. “Amigo é alguém que te conhece a fundo e, apesar disso, te ama” (Hublard). “A amizade é como todos os títulos honoríficos: quanto mais velha, mais preciosa”, dizia Goethe.A amizade duplica as alegrias e divide as tristezas” (Francis Bacon).


Vós sois meus amigos, se fizerdes o que eu vos mando, disse Jesus.  Será que você pode ser considerado como amigo de Jesus? Para ser amigo do outro é preciso ser amigo de si mesmo. Você é amigo de si mesmo?


P. Vitus Gustama,svd


SÃO FILIPE E SÃO TIAGO, APÓSTOLOS

3 de Maio
 

Texto de Leitura: Jo 14,6-14


Naquele tempo, Jesus disse a Tomé: 6“Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim. 7Se vós me conhecêsseis, conheceríeis também o meu Pai. E desde agora o conheceis e o vistes”. 8Disse Filipe: “Senhor, mostra-nos o Pai, isso nos basta!” 9Jesus respondeu: “Há tanto tempo estou convosco, e não me conheces, Filipe? Quem me viu, viu o Pai. Como é que tu dizes: ‘Mostra-nos o Pai’? 10Não acreditas que eu estou no Pai e o Pai está em mim? As palavras que eu vos digo, não as digo por mim mesmo, mas é o Pai que, permanecendo em mim, realiza as suas obras. 11Acreditai-me: eu estou no Pai e o Pai está em mim. Acreditai, ao menos, por causa destas mesmas obras. 12Em verdade, em verdade vos digo, quem acredita em mim fará as obras que eu faço, e fará ainda maiores do que estas. Pois eu vou para o Pai, 13e o que pedirdes em meu nome, eu o realizarei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. 14Se pedirdes algo em meu nome, eu o realizarei”.

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São Tiago, o Menor, chamado assim pela estatura e pela idade, é parente do Senhor segundo a carne (Mt 13,55). Foi o líder da primeira comunidade de Jerusalém (At 12,17). No Concílio de Jerusalém, o primeiro Concílio da Igreja, Tiago propôs que os gentios não fossem sobrecarregados da Lei judaica para serem cristãos (At 15,13-23). A sua proposta foi aceita. O próprio São Paulo o denominou, juntamente com Pedro (Cefas) e João, “colunas da Igreja (Gl 2,9). Judeus e cristãos se inclinavam diante de Tiago pelo amor que tinha à lei e pela sua grande austeridade. Conforme uma tradição (testemunhada por Hegesipo e recolhida por Eusébio) os judeus e os cristãos em Jerusalém chamavam Tiago com o apelativo de “o justo” porque levou uma vida sem mancha e austeridade. Tiago foi o primeiro apostolo a dar a vida pelo Reino de Deus. Foi martirizado no ano 62 d.C..


A ele é atribuída a Carta de São Tiago dirigida às doze Tribos de diáspora (fora de Palestina). Nesta Carta São Tiago exorta a todos a terem a paciência nas provas e nas tentações pela qual conduz qualquer um à perfeição, a terem o amor fraterno sem acepção de pessoas. Ele instrui todos sobre a doutrina da fé e das obras: “A fé sem obras é morta”, diz São Tiago. Ele exorta a todos para que evitem os pecados da língua; ensina a discernir a verdadeira sabedoria da falsa sabedoria (da verdadeira humildade da falsa humildade). Nesta Carta a Igreja encontrou o fundamento do Sacramento da Unção dos Enfermos (na Quinta-Feira Santa o bispo abençoa o óleo para a unção dos enfermos) onde São Tiago escreveu: “Se um de vocês está enfermo, chame o presbítero da Igreja para ungi-lo em nome do Senhor; a oração da fé o salvará...” (Tg 5,14-15). E São Tiago terminou sua Carta com estas palavras: “Meus irmãos, se alguém dentre vós se desviar da verdade e outro o reconduzir, saiba que aquele que reconduz o pecador desencaminhado salvará sua alma da morte e cobrirá uma multidão de pecados” (Tg 5,19).


Filipe era natural de Betsaida de Galiléia, a cidade de André e Pedro, seus amigos (cf. Jo 1,44). Segundo o evangelho de São João Jesus o chamou a ser seu discípulo com estas palavras: “Vem e segue-me”. Filipe respondeu esse convite com generosidade e admiração. Mas Filipe não ficou contente em ser discípulo de Jesus. Ele levou Natanael para se encontrar com Jesus. Ao se encontrar pessoalmente com Jesus, Natanael confessou sua fé em Jesus: “Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o rei de Israel” (Jo 1,49). Filipe apareceu na multiplicação dos pães onde ele se mostrou pessimista em dar comida para uma grande multidão com pouco dinheiro que tinha, sem ter consciência de que ele estava com o Senhor dos milagres (Jo 6, 5-7). Diante dos seus olhos Filipe presenciou a multiplicação dos pães. Filipe apareceu também, em outra ocasião, como mediador daqueles prosélitos (recéns-convertidos) que se encontravam em Jerusalém com motivo da Páscoa e que queriam ver Jesus. Filipe e André se dirigiram ao Senhor para contar o desejo dos gregos em quererem ver o Senhor (Jo 12,20). A última intervenção de Filipe se encontra no evangelho deste dia (Jo 14,6-14). Para ele Jesus dirigiu estas palavras: “Quem me viu, viu o Pai”. Isto significa que conhecer Jesus, escutar suas palavras, viver seus mandamentos equivale a conhecer plenamente Deus, a contemplar seu rosto amoroso reflexo na bondade de Jesus Cristo, em sua misericórdia e amor para os pobres e simples.


Se formos generosos ao chamamento do Senhor que nos sussurra: “Vem e segue-me”, seremos também, como Tiago e Filipe, instrumentos e reflexos do Senhor neste mundo para levar mais pessoas ao encontro do Senhor. Muitos continuam esperando palavras de esperança de cada um de nós. Esperar é crer que algo novo e melhor é possível através de cada um de nós e torcer para que aconteça. O Senhor não quer saber de nossas fraquezas nem de nossos limites. Os outros estão ai. Depende de você que se aproxime ou não para torná-los seus irmãos.


Graças aos apóstolos chegou até nós a mensagem de Deus, a mensagem de salvação, a mensagem que nos garante que temos um futuro vitorioso com Deus. Por nossa vez, nós não devemos deixar morrer na nossa mão a semente da Palavra de Deus. Precisamos passar adiante todo bem que sabemos fazer e que devemos fazer.


P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 29 de abril de 2013

AMOR CRISTÃO É UM AMOR CIRCULANTE

 
 
Quinta-feira da V Semana da Páscoa
02 de Maio de 2013

Texto: Jo 15,9-11

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 9 “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor. 10Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. 11Eu vos disse isto, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena”.
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O texto do evangelho se encontra no discurso da despedida de Jesus dos seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17). Jesus sabe de sua morte iminente e por isso, deu as ultimas recomendações para os seus discípulos.


Hoje Jesus nos disse: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. Isto quer dizer que o amor cristão nasce e começa em Deus. Originalmente é coisa de Deus e não nossa. A iniciativa é de Deus: “Amamos porque Deus nos amou primeiro” (1Jo 4,19). Deus é amor (1Jo 4,8.16), origem e motor do amor. O Filho, Jesus, se origina do Pai num processo de amor que é o Espírito. Este amor em Deus é comunidade, Trindade. E este amor vai se manifestando na criação, na encarnação, na filiação, na amizade, na alegria definitiva do encontro derradeiro. Deus é sempre a origem e o término.


E o sinal mais evidente, a encarnação desse amor é Jesus: “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16). Jesus é a medida do amor de Deus e o exemplo a seguir. Todas as palavras de Jesus, todas as obras de Jesus são manifestação do seu amor por nós todos. Jesus é o amor de Deus feito rosto humano.


E este amor que nasce no Pai e passa por Jesus termina necessariamente nos irmãos. O amor cristão tem dois pólos: Deus e os irmãos (o homem). Quem não ama o irmão, não conhece Deus, não conhece Jesus, não entendeu o que é a fé cristã. Sem amor a Deus e ao irmão, não há fé cristã.


Amor cristão é, então, um amor circulante: o amor que vem do Pai para o Filho, Jesus e de Jesus  para nós e de nós para os irmãos.


Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. É maravilhoso o que Jesus nos diz hoje. Há alguém que me ama com o amor divino: Jesus Cristo. O amor com que Jesus me ama é o mesmo amor com que Ele é amado pelo Pai. Diante de Deus sou amado e sou amado eternamente, porque Aquele que me ama é eterno: “Eu te amei com amor eterno, por isso, conservei para ti o amor”, diz Deus através do profeta Jeremias (Jr 31,3). Posso estar rodeado pelas dificuldades ou problemas, mas eu sei que há alguém que me ama. A certeza desse amor eterno por mim me dá força para lutar e para melhorar minha vida. A certeza desse amor eterno me dá serenidade em tudo. De fato, eu não estou sozinho na minha luta de cada dia, pois há alguém que me ama: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. Na minha oração só posso dizer a Jesus: “Obrigado, Senhor Jesus, porque me ama eternamente”.


Mas a relação com Deus não é algo automático. Por isso, Jesus acrescenta: “Permanecei no meu amor”.  A palavra “permanecer” é uma forma de acreditar em Jesus, de deixar-se penetrar pelo amor de Jesus, de deixar-se envolver pela ternura. É uma entrega total em Jesus para que Ele possa operar totalmente em nós a fim de que possamos ser reflexos do mesmo amor para o mundo ao nosso redor.


“Se guardardes os meus mandamentos, vós permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor”. Este “Se” é inquietante para nós, porque é a responsabilidade de nossa liberdade. Eu sei que Deus me ama, mas será que eu permaneço no amor de Deus? Eu sei que sou filho (a) de Deus, mas será que eu vivo como tal? Eu sei que faço parte da família de Deus, mas será que estou dela? São Paulo nos esclarece sobre este tema ao nos dizer: “Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mutuo, pois quem ama o outro cumpriu a Lei... A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto, a caridade é a plenitude da Lei” (Rm 13,8.10). Tudo isto significa que o amor divino com que eu sou amado deve também transparecer e circular na minha relação com os outros. Nisto mostrarei que eu permaneço no amor divino.


O amor fraterno quando for vivido na sua profundidade leva a pessoa à alegria: “Eu vos disse isso para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena” (Jo 15,11). A verdadeira alegria brota do amor e da fidelidade com que se guardam na vida concreta as leis do amor. Sentiremos essa alegria na medida em que permanecermos no amor a Jesus, guardando os mandamentos de amor, seguindo o estilo de sua vida.
 

 Se vivermos tristes, será que isso acontece por causa da falta de nossa permanência no amor divino? Será que abandonamos o amor na nossa vida, por isso é que ficamos tristes o tempo todo? Será que nosso amor está nem morno nem quente, como diz o livro de Apocalipse (Ap 3,16)?

P. Vitus Gustama,svd
PERMANECER EM CRISTO PARA TER UMA VIDA FRUTÍFERA
Quarta-feira da V Semana da Páscoa
01 de Maio de 2013
 
Texto: Jo 15,1-8

 
Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 1“Eu sou a videira verdadeira, e meu Pai é o agricultor. 2Todo ramo que em mim não dá fruto ele o corta; e todo ramo que dá fruto, ele o limpa, para que dê mais fruto ainda. 3Vós já estais limpos por causa da palavra que eu vos falei. 4Permanecei em mim e eu permanecerei em vós. Como o ramo não pode dar fruto por si mesmo, se não permanecer na videira, assim também vós não podereis dar fruto, se não permanecerdes em mim. 5Eu sou a videira e vós os ramos. Aquele que permanece em mim e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer. 6Quem não permanecer em mim, será lançado fora como um ramo e secará. Tais ramos são recolhidos, lançados no fogo e queimados. 7Se permanecerdes em mim e minhas palavras permanecerem em vós, pedi o que quiserdes e vos será dado. 8Nisto meu Pai é glorificado: que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos.

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O Evangelho deste dia nos situa numa ceia de despedida de Jesus de seus discípulos (Jo 13-17). Por isso, os gestos e as palavras de Jesus, neste contexto, representam as suas últimas indicações e recomendações, os seus últimos “testamento”. Os discípulos recebem essas orientações para poderem continuar no mundo a missão de Jesus. Nasce, assim, a comunidade da Nova Aliança, alicerçada no serviço (cf. Jo 13,1-17) e no amor (cf. Jo 13,33-35), que pratica as obras de Jesus, animada pelo Espírito Santo (cf. Jo 14,15-26).


Minha Vida Tem Sentido e Força Por Causa da Vida Divina Que Circula em Mim


Eu sou a videira e vós, os ramos”, diz Jesus. É uma comparação simples, mas profunda que nos oferece muitas sugestões para a vida cristã. O ramo não vive sem o tronco. O ramo, para viver, precisa receber a seiva do tronco permanentemente, sem a qual morrerá. Nesta metáfora encontramos uma maravilhosa certeza de nossa vida: que estamos enraizados em Alguém que nos dá vida, estabilidade e força: Jesus Cristo. Jesus vem para nos dar vida em abundância (Jo 10,10). Além disso, esta imagem serve para sublinhar a comunicação e circulação de vida divina que existe entre Jesus e aqueles que nele crêem. Trata-se de uma relação que nos liga, na sua dimensão mais profunda, a Jesus. Jesus vive e é para todos os crentes o único autor da vida e o princípio de sua organização. Jesus é a seiva, a raiz e o fundamento da vida do crente.


Eu sou a videira e vós, os ramos”. Entre Jesus e o cristão há uma comunhão de vida. Se assim é, os cristãos se alimentam e crescem com a mesma vida de Jesus Cristo, como os ramos que se alimentam da seiva que vem do tronco.


Estar Unido a Cristo é a Condição Para Ter Uma Vida Frutífera


Aquele que permanece em mim e eu nele, esse produz muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer” (Jo 15,5; cf. Gl 2,20; 5,24;6,14;Fl 1,21;3,8.12;Ef 4,24;Cl 2,6;3,1).


Se nossa vida e seus frutos dependem de Jesus Cristo, isso significa que permanecer unido a Jesus Cristo é uma condição sine qua non. Permanecer em Cristo é a condição e a capacidade de produzir muitos frutos para Deus e para os outros. Jesus é “a verdadeira videira”, de onde brotam os frutos da justiça, do amor, de verdade e da paz; é n’Ele e nas suas propostas que os homens podem encontrar a vida verdadeira.


Jesus Cristo prometeu estar conosco até o fim do mundo (Mt 28,20) se formos fieis a Ele. Jesus Cristo não abandona os que são fieis a Ele.


O Cristão Pertence ao Senhor


Eu sou a videira e vós, os ramos”, diz-nos o Senhor. Tenho que estar consciente de que eu pertenço ao Senhor. Eu sou do Senhor. Eu vivo por causa do Senhor. O cristão não é um ser isolado e não pode ficar isolado dos outros. O cristão pode estar sem os outros, mas pertence ao Senhor e está com o Senhor. O cristão não é solitário e sim solidário. Cada cristão é membro de um corpo – o Corpo místico de Cristo. A sua vocação é seguir Cristo, integrado numa família de irmãos que partilha a mesma fé, percorrendo em conjunto o caminho do amor. A vivência da fé é sempre uma experiência comunitária. É no diálogo e na partilha com os irmãos que a nossa fé nasce, cresce e amadurece, e é na comunidade, unida por laços de amor e de fraternidade, que a nossa vocação se realiza plenamente.


O que pode interromper a nossa união com Cristo e tornar-nos ramos secos e estéreis é quando conduzirmos a nossa vida por caminhos de egoísmo, de isolamento, de ódio, de injustiça, de divisão; quando nos fecharmos em esquemas de auto-suficiência, de comodismo e de instalação.


É Necessária Uma Poda Permanente Para Poder Produzir Bons Frutos


“Todo ramo que dá fruto, ele o limpa, para que dê mais fruto ainda”.


Qualquer vinhateiro não tem medo de cortar alguns ramos ou folhas para que toda a seiva se concentre nuns determinados ramos para que produzam frutos abundantes.


Os ramos não têm vida própria e não podem produzir frutos por si próprios; necessitam da seiva do tronco. Para que não nos tornemos “ramos” secos, temos que ter coragem de cortar o que não presta em nossa vida. A poda é uma atividade positiva: elimina fatores de morte, fazendo que o cristão seja cada vez mais autêntico, mais livre, tenha capacidade maior de entrega e aumente sua eficácia. É um corte purificador e libertador
    

Algumas perguntas para a revisão de nossa vida: Que parte do meu modo de viver que está seca? Que parte da minha maneira de viver e de pensar que precisa ser podada? Como cristão, de que minha vida cristã se alimenta?

P. Vitus Gustama,svd
PAZ: TRANQUILIDADE DA ORDEM
A PAZ QUE CRISTO QUER NOS DAR
 
 

Terça-feira da V Semana da Páscoa
30 de Abril de 2013

Texto da Leitura: Jo 14,27-31ª
 

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 27“Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; mas não a dou como o mundo. Não se perturbe nem se intimide o vosso coração. 28 Ouvistes que eu vos disse: ‘Vou, mas voltarei a vós’. Se me amásseis, ficaríeis alegres porque vou para o Pai, pois o Pai é maior do que eu. 29Disse-vos isto, agora, antes que aconteça, para que, quando acontecer, vós acrediteis. 30Já não falarei muito convosco, pois o chefe deste mundo vem. Ele não tem poder sobre mim, 31amas, para que o mundo reconheça que eu amo o Pai, eu procedo conforme o Pai me ordenou”.

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Ao se despedir de seus discípulos, Jesus lhes dá a sua paz: “Eu vos deixo a paz, eu vos dou a minha paz; não vo-la dou como o faz o mundo. Que o vosso coração não se perturbe nem se intimide” (v.27).


Paz (shalom, em hebraico, ou eirene, em grego) é uma fórmula ancestral e tradicional de saudação e de despedida entre os orientais até o dia de hoje. Os judeus na atualidade se saúdam com “shalom” (paz), ou se perguntam: “mi shelomkha?” (Como está?) que literalmente pode ser traduzido “como está tua paz?”. Ao se despedir se desejam shalom u-berakhah (paz e bênção).


Paz (shalom) que é a saudação habitual entre os judeus tem uma grande densidade de significado, pois este termo não significa apenas a ausência de conflitos ou a tranqüilidade da alma, mas também a saúde, a prosperidade, a felicidade em plenitude. A palavra “Shalom” talvez possa ser traduzida com uma expressão que todos nós desejamos aos outros: “Tudo de bom”. “All the best” para os da língua inglesa. Desejar a paz significa desejar tudo de bom para o próximo.
    

Ao se despedir dos discípulos, Jesus não lhes deseja a paz, mas ele lhes a paz: “Eu vos deixo a paz”, e insiste: “Eu vos dou a minha paz”.


Que tipo de paz que Jesus quer oferecer aos discípulos e a todos nós? Não se trata de um simples augúrio de paz, mas de um verdadeiro dom. A paz é um dom, vem do alto: não surge da decisão do homem. Por isso, não pode reduzir-se ao nível de sentimento. Trata-se de uma palavra que salva, que vai à raiz, lá onde está a origem da verdadeira paz (a origem do mal). A paz de Jesus tem como efeito banir/expulsar do coração dos discípulos todo e qualquer resquício/resíduo de perturbação ou de temor que leva ao imobilismo. Possuindo o dom da paz de Jesus, todos os seguidores de Cristo devem manter-se imperturbáveis, sem se deixar intimidar diante das dificuldades. Assim pensada, a paz de Jesus consiste numa força divina que não deixa os discípulos rompam a comunhão com Jesus. É Jesus mesmo, presente na vida dos discípulos, sustentando-lhe a caminhada, sempre disposto a seguir adiante com alegria, rumo à casa do Pai, apesar das adversidades que deverão enfrentar. Dizendo “vai em paz”, Jesus cura a hemorroíssa (Lc 8,48) e perdoa os pecados à pecadora (Lc 7,50). A paz de Jesus nasce da vitória sobre o pecado e suas conseqüências. A paz de Jesus funda-se no amor fraterno e na justiça. A paz de Jesus, por isso, rejeita toda espécie de idolatria que coloca criatura no lugar de Deus e submete o ser humano a um regime de opressão. João enfatiza que Jesus é o mediador da paz; é neste sentido que Jesus a qualifica de “minha”. Os verbos estão no presente, sublinhando, assim, a realidade atual e a duração indefinida do dom. O Filho dispõe a paz que, segundo a Bíblia, só Deus pode conceder. A paz caracteriza os tempos messiânicos (Sl 72,7). O Messias tem por nome “o Príncipe da Paz” (Is 9,5s). A aliança escatológica é uma “aliança de paz” (Is 66,12). Todo o NT se mostra herdeiro dessa tradição para acentuar a reconciliação com Deus (At 10,36; Rm 5,1;Ef 2,14-17;Cl 1,20 etc.).
     

“Mas não dou a paz como o mundo a dá”, disse Jesus. E m que consiste a paz do mundo?
   

A paz que o mundo oferece prescinde de Deus e se funda num projeto contrário ao dele. Aí, se encontram a injustiça, a concentração de bens à custa da exploração alheia, o desrespeito pelo ser humano. É o império do egoísmo que idolatra pessoas e coisas, e transforma os indivíduos em seus escravos. Por isso, é uma paz que conduz à morte eterna. Segundo o mundo, para ter paz todos tem que se preparar para a guerra. “Si vis pacem, para bellum!” (expressão latina). “Se desejas a paz, prepara-te para a guerra”. “Devemos amar a paz sem odiar os que fazem a guerra”, dizia Santo Agostinho (Serm. 357,1).
      

Quando o homem esquece o seu destino eterno, e o horizonte de sua vida se limita à existência terrena, contenta-se com uma paz fictícia, com uma tranqüilidade exterior. Jesus qualifica este tipo de paz como a paz que o mundo dá. Recuperar a paz perdida é uma das melhores manifestações de nossa caridade para com os que estão à nossa volta. Onde houver amor também haverá a paz. Com efeito, a verdadeira paz é o fruto do amor a Deus e ao próximo.


Deus em quem acreditamos é um Deus da paz; não quer a desordem, a rebelião ou tumulto. Deus está pela ordem como estada normal das coisas, e esta ordem equivale à paz. É o mesmo Deus que na cena da criação põe ordem no caos inicial (Gn 1,1ss), dando a entender que “criar” é em primeiro término ordenar o caos inicial, separando o céu da terra etc. para evitar a confusão. A paz, entendido neste sentido, se apresenta como estado normal das coisas onde cada uma ocupa seu devido lugar. Quando cada elemento ocupar seu próprio lugar haverá a ordem e conseqüentemente haverá a paz. “A paz é a tranqüilidade da ordem”, dizia Santo Agostinho.


Para refletir:

·  Depois do Pai-Nosso se dá a paz. Que grande sacramento se esconde nesse rito. Deixa que teu beijo seja a expressão de teu amor. Não sejas Judas, que beijou Cristo com os lábios, mas já o havia traído em seu coração (Santo Agostinho: Serm. Dennis 6,3)

P. Vitus Gustama,svd

domingo, 28 de abril de 2013

MORADA DE DEUS É O CORAÇÃO QUE SABE AMAR
 
Segunda-feira da V Semana da Páscoa
29 de Abril de 2013

Texto de Leitura: Jo 14,21-26

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 21“Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele”. 22Judas – não o Iscariotes – disse-lhe: “Senhor, como se explica que te manifestarás a nós e não ao mundo?” 23Jesus respondeu-lhe: “Se alguém me ama, guardará minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada. 24Quem não me ama não guarda a minha palavra. E a palavra que escutais não é minha, mas do Pai que me enviou. 25Isso é o que vos disse enquanto estava convosco. 26Mas o Defensor, o Espírito Santo que o Pai enviará em meu nome, ele vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos tenho dito”.
 

 
O texto do evangelho de hoje faz parte da conversa de Jesus com os seus discípulos na véspera de sua morte (Jo 13-17). A situação determina absolutamente o conteúdo das palavras de Jesus neste discurso de despedida. A morte de Jesus vai ser um ir ao encontro do Pai celeste. Esse modo novo de ver situação deve constituir para os discípulos motivos de alegria e não de medo, pois Jesus Cristo não vai abandoná-los. O Santo Espírito vai acompanhá-los no mundo, uma nova forma da presença de Jesus no meio deles. E este Espírito Santo vai facilitar os discípulos na compreensão das palavras de Jesus, que até então sem condições para encontrar o sentido das palavras de Jesus. Jesus é a mensagem e o Mensageiro de Deus, o Profeta e a Palavra de Deus e é Deus (cf. Jo 1,13). Em Jesus e por Ele tudo ficou dito, tudo o que Deus tinha que nos dizer. Mas nem tudo ficou compreendido. Por isso, a nova presença de Jesus no Santo Espírito vai ajudar os discípulos a compreenderem tudo que foi dito por Jesus.


“Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada”, Jesus disse no evangelho de hoje.


Deus faz sua morada em nós em virtude de uma dupla exigência: guardar sua palavra e amá-lo de verdade no próximo (amor fraterno). Deus está presente em cada um de nós na medida em que ama. A morada de Deus, a casa de Deus, sua residência já não é um templo, Deus não mora na parede das igrejas, e sim que sou eu mesmo morada de Deus na medida em que vivencio o amor fraterno, na medida em que sou fiel à palavra de Jesus. Em outras palavras, o amor cria comunhão e comunidade tanto no nível humano como no nível divino. Com efeito, sem o amor não haveria nenhuma comunhão com os outros e conseqüentemente com Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).


Mas esta presença de Deus no homem não é estática; é a presença de seu Espírito, seu dinamismo de amor e vida que faz o homem participar de Seu próprio amor. É coisa que o mundo não pode fazer. Se Deus faz sua morada no coração de quem ama, isto significa que Deus se afasta de mim quando houver em mim o desamor, a injustiça, o ódio, a exploração dos irmãos, a falta de perdão e assim por diante.


Por isso, não basta ficar-me no nível de idéias, de sentimentalismo, de pensamentos e sim que esse novo pensamento, essas novas idéias tenham que provocar em mim uma mudança de vida. Não basta abrir a mente, tenho que abrir também a porta de meu coração, de minha vida vivendo o amor fraterno para tornar-me morada de Deus. O homem que ama é um homem divinizado. “Sem amor o rico se torna pobre; com amor o pobre se torna rico” (Santo Agostinho). A prática cristã do amor é o sinal mais claro e evidente de nossa pertença à Igreja de Jesus. Quem ama como Jesus amou, entra no recinto do amor de Deus Pai e mergulha no mistério salvador de Deus: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra, e o meu Pai o amará, e nós viremos e faremos nele a nossa morada”. Amar a Jesus é deixar-se guiar por suas palavras e inspirar-se em seu modo de viver. Ele vive por amor e para o amor. é um amor universal que não exclui ninguém. Quem se entrega a este projeto de amor será transformado em morada de Deus.


A afirmação de Jesus é, na verdade, um convite ao progresso interior que nos torna semelhantes a Deus pela fidelidade à palavra, e faz reconhecer, nesta fidelidade, a morada das pessoas divinas. O amor fraterno nos aproxima de Deus. A partir do momento em que alguém amar, ele será a nova morada de Deus. Se em Jo 14,3 Jesus disse que iria preparar para os fiéis uma morada no céu, agora neste texto (vv.22-23) fica claro que a morada do Pai e de Jesus no meio de nós começa aqui e agora, na medida em que observamos o mandamento de Jesus: mandamento do amor fraterno. Se no passado Deus se manifestava em lugares e fenômenos naturais, agora fica muito claro que as pessoas que amam como Jesus são manifestação da presença de Deus. Assim, a separação entre o homem e Deus é superada, e a busca do Pai, tema essencial do Discurso é satisfeita pelo próprio Pai. O nosso Deus não é o Deus distante, mas aquele que se aproxima do homem e vive com ele, formando uma comunidade com os homens, objeto do seu amor.


Por isso, buscar a Deus não exige ir encontrá-lo fora de próprio homem, mas deixar-se encontrar e amar por Ele. A “morada” de Deus está em nós mesmos e entre nós, se estivermos unidos a Jesus e ao Pai na fidelidade e na prática do mandamento do amor. A resposta ao amor a Jesus se expressa no amor aos outros homens (guardar minha palavra). E o Pai e Jesus respondem à fidelidade do discípulo dando-lhe a experiência de sua companhia e seu contato pessoal.


Toda vez que alguém, ao escutar a mensagem do amor, a repete para si mesmo e a põe em prática, insere-se na família de Deus e passa a ser, com Jesus, uma manifestação de Deus ao mundo. A comunidade cristã e o “mundo”, então, distinguem-se entre si pela presença ou ausência do amor. O amor torna-se a razão de diferença entre os discípulos e o mundo. Sem amor, o homem continua carnal, incapaz da autêntica experiência de Deus. Deus escolhe para sempre viver no coração que ama.

 
P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 26 de abril de 2013

V DOMINGO DA PÁSCOA DO ANO “C”


AMAR COMO JESUS NOS AMOU
 
Domingo, 28 de Abril de 2013

Texto: Jo 13,31-32.34-35

31Depois que Judas saiu do cenáculo, disse Jesus: “Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele. 32Se Deus foi glorificado nele, também Deus o glorificará em si mesmo, e o glorificará logo. 33aFilhinhos, por pouco tempo estou ainda convosco. 34Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros. 35Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros”.

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Jo 13 abre a segunda parte do evangelho de João (13-20) que fala da exaltação de Jesus, isto é, de sua glorificação na morte e ressurreição. Outros consideram esta segunda parte como o “Livro de Grande Sinal”, pois a ressurreição do Senhor é realmente o grande sinal. E outros ainda consideram como “Livro da Glória”. Jo 13 se encontra no contexto da despedida de Jesus de seus discípulos (Jo 13-17).
 

1. O tema da glorificação do Filho do Homem (vv.31-32)

  
O discurso da despedida de Jesus começa com uma proclamação da glorificação do Filho do Homem: “Agora foi glorificado o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele. Se Deus foi glorificado nele, também Deus o glorificará em si mesmo, e o glorificará logo”. O termo “glória” aqui significa a manifestação da presença e do poder de Deus. A glória implica uma manifestação visível da majestade divina em atos de poder, na criação ou na história. Aceitar Deus na vida do homem com as exigências que ele implica é glorificar ou dar a glória a Deus. Em Jesus, esta glória se cumpre na sua morte e ressurreição que constituem uma ação de seu próprio poder (Jo 10,17-18). Lembre-se também de que o poder de Jesus é ao mesmo tempo o poder de Deus. O tema da glorificação se encontra no início (Jo 13,31-32) e no final (17,1.4-5.10.22.24) dos diálogos de despedida. No evangelho de João fala-se da morte de Jesus exclusivamente em termos de exaltação, glorificação, passagem ao Pai etc. Na teologia joanina, então, a glorificação de Jesus está intimamente ligada com a sua paixão e morte. A glorificação de Jesus é manifestada pela cruz como pela ressurreição, ao mesmo tempo.  Deus é glorificado quando o Filho faz a vontade do Pai.
   

Se seguirmos o modo de pensar do mundo, diremos que Jesus deveria ter descido milagrosamente da cruz, mostrando seu poder e glória, para matar os inimigos. Porque para o mundo, é “glorificado” quem conquista vitórias, quem derrota seus inimigos, quem alcança o poder, quem acumula riquezas, quem possui mansões e palácios, carros e muitos empregados. Tudo isto não é a glória de Deus. Jesus é glorificado, e por isso glorifica o Pai, não quando aniquila quem o odeia, mas quando muda o seu coração, quando faz sorrir quem chora, quando devolve a esperança para quem sabe que fez tudo errado na vida. Por isso, a hora da sua maior glória é a cruz, pois nela que ele manifestou todo o seu amor. Este deve ser o caminho de todos os seguidores dele.
    

Se os homens não procurarem apenas sua própria vida mortal ou a “glória mundana”, mas procurarem colocar na prática a vontade de Deus, a morte de Cristo será realmente para eles. Uma pessoa de alma nobre não sai à procura da glória mundana, mas do bem. Mas uma pessoa de alma mundana somente tem um conceito de moral completamente superficial, calculado exclusivamente pela aprovação e pelo aplauso. Ela é impelida a agir não pela consciência do bem, mas pelo desejo da “glória”. Ou na frase de Cícero: “Ele pretende ser a todo o custo o primeiro de todos” (Maxime vult princeps omnium esse).  Quem desejar ser a todo o custo o primeiro, dificilmente se preocupará com ser justo. Por isso, essa pessoa vive uma vida ansiosa, dominada por uma contínua tensão.
   

Estes dois versículos (31-32) são interessantes também por referir-se ao “Filho do Homem”, título que, dentro da segunda parte do Evangelho de João (Jo 13-20), aparece unicamente aqui, enquanto que na primeira parte (Livro dos Sinais) aparece doze vezes. O Filho do Homem em João é o Filho de Deus; ele desce do céu e de novo sobe para o céu (Jo 3,13;6,62 etc.). Ele está em íntima união com Deus, “habitando nele”. Ele é modelo pelo menos no sentido de que sua relação com o Pai é o arquétipo da verdadeira e última relação dos homens para com Deus. Ele é aquele que encarna em si o povo de Deus ou a humanidade no seu aspecto ideal. Os homens só podem atingir esta união íntima com Deus na medida em que estão incorporados em Jesus Cristo.


2. O novo mandamento: o de amor (vv.33-35)
   

Na segunda parte do texto de hoje, Jesus chama os discípulos com o termo de afeto “filhinhos” (teknia em grego). Este termo aparece sete vezes na primeira carta de João (1Jo 2,1.12.28;3,7.18;4,4;5,21). Os mestres judeus, segundo os dados, podiam dirigir-se a seus discípulos com a expressão “filhos”. Em Mc 10,24, Jesus chama os discípulos “meus filhos” (tekna, em grego), enquanto que em Mt 18,3;19,4, Jesus adverte aos discípulos que devem ser como as crianças.


Para entender o sentido das s palavras de Jesus, devemos nos lembrar que essas palavras foram ditas na Última Ceia, uma Ceia de despedida. Pela experiência sabemos que os filhos de uma família consideram sagradas as palavras (testamento) que o pai lhes diz nos momentos antes da morte. Da mesma forma, sabendo que restam poucas horas de vida, Jesus quer que as palavras dirigidas aos discípulos sejam lembradas por eles.
   

Jesus não deixa uma herança material. A “herança” que ele deixa é aquilo que ele construiu durante toda a sua vida. Ele quer que os discípulos guardem como herança preciosa o seu exemplo, pois é a herança que conduz à felicidade, aqui e agora. Eis o seu testamento, a declaração de sua última vontade: “Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros...Como eu vos amei...”(veja Jo 15,9-17).
   

O amor que Jesus prescreve aos seus é um mandamento (v.34). Para João, este termo “mandamento” tem um sentido mais doutrinal que moral, mais institucional que legal, pois ele usa o termo “entolê” (mandamento) em vez de “nomos” (lei), reservado à Lei de Moisés.  “Entolê” designa, às vezes, a missão de Jesus (Jo 10,18;12,49s;14,31). Por isso, este mandamento convida os discípulos a assumirem a missão de Cristo como um serviço de amor. E o amor permite que Cristo permaneça presente na comunidade cristã (Cf. Jo 14,23).
   

 “Amar” é um verbo transitivo: o verdadeiro amor não é um amor a si mesmo, para si mesmo e em si mesmo. Claro que o ponto de partida e a base do amor a Deus e ao próximo é o amor a si mesmo no sentido de saber respeitar-se e valorizar-se; porém, este amor próprio não deve jamais converter-se numa meta. O amor egoísta é condicional; você ama na condição de que suas necessidades sejam satisfeitas. Se sente que está dando mais do que está recebendo, talvez você simplesmente pare de amar. O “amor” da pessoa mais dominante consome o outro. O amor cristão (altruísta, ágape), ao contrário, está sempre acima de suas próprias necessidades. Ele é transcendente. Quando o amor é transcendente, você está tentando alcançar um lugar superior: Deus de amor. “Quanto mais amas, mais alto tu sobes”, dizia Santo Agostinho.  


Por isso, o amor é especial quando se dirige a alguém e quando procede de alguém; quando vem de uma pessoa e se dirige a outra pessoa. É impossível amar o outro tal como ele é, e é impossível reconhecê-lo verdadeiramente na sua alteridade essencial, sem recusar-se a fazer de si um centro, um absoluto. Por isso, o amor é a base sobre a qual se constrói o mundo inteiro. O amor é a raiz de toda civilidade e de toda moralidade. Sem amor, seria impossível convivermos em paz uns com os outros, respeitar as necessidades uns dos outros e tratar a todos com a compaixão que nós mesmos gostaríamos de receber.
                

O AT já conhecia o mandamento do amor (Lv 19,18.35). Mas amor, neste texto, parece limitado aos consangüíneos e correligionários. Em que consiste, então, a novidade do mandamento de Jesus? Para expressar a novidade, os gregos usavam dois adjetivos: Neos e Kainos.  “Neos” indica a novidade no tempo, a novidade cronológica, aquilo que acontece hoje e não acontecia antes. “Kainos” é mais rico em significado porque indica novidade qualitativa (e não só no tempo), algo de novo e original em relação ao que habitual; indica uma superioridade em relação ao que precede. Por isso, João prefere o termo “kainos”. E somente João usa este termo exclusivamente para indicar o amor (cf. 1Jo 2,7-8;2Jo 5). Para João o amor é novidade escatológica. E ele está convencido de que o amor é verdadeira novidade de Cristo e é seu dom mais específico e original. O amor é cerne da originalidade cristã.
     

Por isso, “Novo” porque os discípulos têm que amar-se como Jesus tem os amado. A palavra grega “katôs” (como) não indica uma simples comparação (‘à maneira de”), mas uma profunda conformidade. Em outras palavras, não podemos verdadeiramente amar os outros a não ser que tenhamos experimentado o amor de Cristo por nós e aceitemos irradiá-lo para os outros. Quando o que conta é o modo de amar como Cristo nos amou, aquele amor calculista perde seu espaço. O amor de que os cristãos dão testemunho entre si e para os outros prolonga a missão de Jesus entre os homens que o mundo incrédulo poderá discernir a este sinal dos discípulos de Cristo. O elo entre o amor dos cristãos e Jesus Cristo é essencial. O homem só pode realizar seu destino amando Deus com um amor filial de companheiro e com um amor fraterno de filho de Deus. Por isso, o amor não é um fato casual, mas é um estilo de vida para cada cristão. E o amor é uma forma de nos comunicarmos com Deus profundamente. Por isso, o amor é um ato sagrado, a forma mais pura de alimentar a alma de outra pessoa, assim como a sua própria.
    

De que modo Jesus ama? Jo 13,1 explica: “Ele, que tinha amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”, ou seja, até as últimas conseqüências do gesto de amar, até afirmar, na cruz: “Tudo está consumado” (Jo 19,30). É amar o outro apesar de suas fraquezas. Jesus ama mais do que a própria vida, chega até ao final do amor, sem nada poupar. Ele renuncia a todo interesse e glória própria. Jesus nos mostra que não se ama uma pessoa porque ela o merece, mas porque precisa do nosso amor para ser feliz, pois só assim ela poderá conseguir que supere a própria condição de miséria. Por isso, somente ele  pode ser a norma do amor. O amor que Cristo ordena encontra nele o modelo, a origem e a medida.
   

No seu mandamento, Jesus não pede nada para si mesmo nem para Deus. Não pede que nós demos a vida por ele. O que Jesus nos pede é que amemos as pessoas tendo como ponto de referência sua prática de amor: amou até as últimas conseqüências. Amando o próximo é que podemos chegar a amar a Deus. É no ser humano que Deus quer ser amado. Por isso, João, na sua primeira carta diz: “Quem não ama seu irmão, a quem vê, não poderá amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20). O mandamento novo consiste em ser como Jesus: a capacidade de amar até o fim ou ser semelhante a Jesus no seu amor sem limite. O mandamento tem ao mesmo tempo a dimensão cristológica (como eu...) e eclesiológica (uns aos outros...).
   

 “Nisto todos reconhecerão que sois os meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (v.35). Como seres humanos, os cristãos não são diferentes dos outros, não vivem fora do mundo, não são pessoas isoladas das outras.  A marca distintiva dos cristãos é o amor mútuo, a solidariedade fraterna, e não se trata de um amor egoísta e sectário. O amor será o sinal missionário se o cristão estiver atento a comunicá-lo, não de maneira paternalista, mas de maneira cristológica: amar como Cristo ama até as últimas conseqüências: paixão e a morte na cruz. Por isso, o amor recíproco do que se fala no texto tem como modelo a cruz. É, por isso, o amor universal e gratuito. Pelo amor e pela solidariedade fraterna os cristãos serão reconhecidos como verdadeiros cristãos. Por isso, os cristãos devem ser uma comunidade que se ama e que ama, uma comunidade capaz de mostrar o amor de Deus por todos. Se não praticarem o amor que Jesus ordena, não serão chamados mais de discípulos do Senhor. O amor mútuo é que mantém uma comunidade cristã existir. E deixa de existir, se não vive o amor ordenado por Jesus.


P. Vitus Gustama,svd