sexta-feira, 31 de maio de 2013

UMPAGÃOQUE PERTENCE AO POVO DE DEUS POR SER DO BEM
 
IX DOMINGO DO TEMPO COMUM “C”

Textos: 1Rs 8, 41-43; Gl 1,1-2.6-10; Lc 7,1-10

 

Naquele tempo, 1quando acabou de falar ao povo que o escutava, Jesus entrou em Cafarnaum. 2Havia um oficial romano que tinha um empregado a quem estimava muito, e que estava doente, à beira da morte. 3O oficial ouviu falar de Jesus e enviou alguns anciãos dos judeus, para pedirem que Jesus viesse salvar seu empregado. 4Chegando onde Jesus estava, pediram-lhe com insistência: “O oficial merece que lhe faças este favor, 5porque ele estima o nosso povo. Ele até nos construiu uma sinagoga”. 6Então Jesus pôs-se a caminho com eles. Porém, quando estava perto da casa, o oficial mandou alguns amigos dizerem a Jesus: “Senhor, não te incomodes, pois não sou digno de que entres em minha casa. 7Nem mesmo me achei digno de ir pessoalmente ao teu encontro. Mas ordena com a tua palavra, e o meu empregado ficará curado. 8Eu também estou debaixo de autoridade, mas tenho soldados que obedecem às minhas ordens. Se ordeno a um: ‘Vai!’, ele vai; e a outro: ‘Vem!’, ele vem; e ao meu empregado: ‘Faze isto’!, ele o faz”. 9Ouvindo isso, Jesus ficou admirado. Virou-se para a multidão que o seguia, e disse: “Eu vos declaro que nem mesmo em Israel encontrei tamanha ”. 10Os mensageiros voltaram para a casa do oficial e encontraram o empregado em perfeita saúde. (Lc 7,1-10)

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O texto do evangelho deste dia se encontra na seção de Lc 7,1-8,56 onde se falam dos sinais do Messias e a dos discípulos e discípulas de Jesus (nesta seção se encontram oito mulheres): Lc 7,1-50 fala dos sinais do Messias, dos Doze e das discípulos (Em Lc 8,1-3 o evangelista faz um sumário das atividades de Jesus); Lc 8,4-21 fala dos que escutam a Palavra de Deus (Parábola do semeador: Lc 8,4-18 e os que ouvem e praticam a Palavra de Deus formam uma família com Jesus: Lc 8,19-21); Lc 8,22-56 fala de quatro novos sinais de Jesus, o Messias.


O evangelho lido neste domingo nos relata a cura do servo de um centurião de Cafarnaum. Podemos encontrar o mesmo episodio em Mateus (Mt 8,5-10.13) com algumas variantes (leia também Jo 4,46-54).


O texto nos contou um centurião/oficialpagãoque pediu a Jesus, através de alguns anciãos do povo de Deus, que curasse seu empregado enfermo. Cafarnaum é a cidade onde ocorre o milagre. Era uma cidade que possuía uma guarnição militar com uma tropa de soldados de Herodes Antipas. O centurião era um oficial do exército de Herodes Antipas que não pertencia ao Povo eleito e por isso, era pagão.


Por ser considerado “pagão” o centurião  não quer se aproximar de Jesus e por isso, ele envia uma delegação de anciãos dos judeus para que Jesus possa curar seu servo. Diante do pedido dos anciãos, Jesus vai com eles para a casa do centurião. Mas o centurião não quer que Jesus, como judeus, entre em sua casa para não tornar Jesus impuro pelo contato com um pagão: “Senhor, não te incomodes, pois não sou digno de que entres em minha casa. Nem mesmo me achei digno de ir pessoalmente ao teu encontro. Mas ordena com a tua palavra, e o meu empregado ficará curado”. O centurião tem consciência do poder da Palavra de Jesus e por isso, ele acredita na Palavra de Jesus apesar de ser pronunciada à distância.


 Jesus ficou profundamente admirado pelo tamanho e pela profundidade da do centuriãopagão” a ponto de dizer: “Eu vos declaro que nem mesmo em Israel encontrei tamanha ”. Por o centurião ser tão digno, Jesus concede-lhe a cura do seu servo à distância.


1. Pagão Por Não Pertencer Oficialmente Ao Povo De Deus, Mas Membro Do Povo De Deus Por Sua Humanidade Diante Do Necessitado 


Pode ser considerado como pagão, porém o centurião era um daqueles “pagãosque não encontraram mais a satisfação nos ritos politeístas, cuja fome religiosa não se saciava com a sabedoria dos filósofos e que, por conseguinte, simpatizava com o monoteísmo judaico e com a moral que dele derivava. Era temeroso de Deus, professava a no Deus único através do seu modo de viver e de tratar os demais respeitosamente, mas não havia passado definitivamente ao judaísmo. Ele buscava a salvação de Deus. Sua no Deus único, seu amor e seu temor de Deus ele manifestava no amor ao povo de Deus e na solicitude pela sinagoga que ele mesmo ajudou a construir. Seus sentimentos se expressavam em obras. E as obras proclamam e revelam quem as pratica. “Cada árvore é conhecida por seus frutos”, disse Jesus (cf. Mt 7, 15-20).


2. Um Centurião Com Idéias Amplas e Abertas


Apesar de ser considerado “pagãopelo fato de não pertencer oficialmente ao povo de Deus, o centurião tinha idéias amplas e abertas: do próprio bolso ele tirou seu dinheiro para ajudar o Povo de Deus na construção de uma de suas sinagogas.


A verdadeira bondade não tem religião. O bem é universal e por isso, pode ser encontrado em qualquer lugar e em qualquer povo ou crença. Os homens do bem podem ser amados ou odiados, mas sempre despertam nossa admiração. O amor não faz diferença onde é aplicado e sempre traz ótimos rendimentos. A insegurança geralmente não tolera a diferença e o diferente. Se um único homem atinge o tipo mais elevado de amor, como o centurião/oficial, ele será suficiente para neutralizar o ódio de milhões. A única grandeza é amor altruísta, o amor que sempre quer o bem do outro e dos outros. Os próprios anciãos do povo de Deus chegaram a afirmar diante de Jesus sobre a bondade do centurião: “O centurião merece que lhe faças esse favor (curar seu empregado), porque ele ama nosso povo. Ele até nos construiu uma sinagoga” (Lc 7,4-5).


3. A Maior Que Se Encontra Fora Do Povo De Deus



Além de suas amplas e abertas idéias, apesar de ser considerado “pagãopor não pertencer à religião oficial do povo, esse centurião se mostra como uma pessoa com muita a ponto de Jesus considerá-lo como pessoa que tem muito mais do que qualquer membro do próprio povo de Deus: “Eu vos declaro que nem mesmo em Israel encontrei tamanha ”. Depois de tantas recusas entre os seus, é confortante Jesus encontrar uma assim.


Quando Lucas escreveu o evangelho, na comunidade eclesial houve a admissão dos pagãos convertidos à cristã, por exemplo, na pessoa de outro centurião romano, Cornélio, que se converteu com toda sua família (cf. At 10,24-48), poisDeus não faz distinção de pessoas, mas em toda nação lhe é agradável aquele que o temer e fizer o que é justo” (At 10,34-35).


Será que Jesus pode encontrar tamanha , igual à do centurião, na nossa comunidade, em geral, e em cada um de nós, em particular. Para receber o elogio do Senhor é preciso que cada um de nós tenha a do tamanho da do centurião. Ou será quetodos nós somos mais ateus do que acreditamos e mais crentes do que pensamos?” (René Juan Trossero).


4. Um Homem Que Respeita o Costume Do Povo e Acredita No Poder da eficácia da Palavra de Jesus


O centurião não deixa Jesus entrar em sua casa, pois um judeu era proibido de entrar na casa de um pagão para não torná-lo impuro o que impediria ele de participar do culto no Templo ou na sinagoga.


Para respeitar a proibição feita aos judeus de entrar na casa de um pagão, Jesus é levado a fazer um milagre a distancia, realizado somente pela Palavra. No curso de sua vida de taumaturgo somente realizará dois milagres deste tipo (Lc 7,1-10 e Mt 15,22-28). Normalmente Jesus cura através de um contato físico e silencioso, como se seu corpo possuísse certa força vital especial que Ele nem sempre podia controlar (cf. Mc 5,30; 6,65).


Na cura do empregado do centurião Jesus se contenta com a palavra e elogia a do centurião.


O centurião vem dizer a todos nós que lemos a Palavra de Deus e supostamente acreditamos nela: “Vocês precisam acreditar na Palavra de Deus, pois ela é eficaz e poderosa”. É preciso recordar também que ao receber o Pão eucarístico (na comunhão) pronunciamos as mesmas palavras do centurião: “Senhor, eu não sou digno (a) de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra serei salvo (a)”.


A liturgia cristã é baseada unicamente em “uma Palavra”: a palavra que ressoou no coração de Jesus em sua Páscoa, a Palavra que nos acompanha durante nossa vida cristã, a Palavra que nos transforma. No entanto, o mundo de hoje nos pergunta se existe uma palavra do Senhor para ele a partir de nós. Será que, depois do fracasso das palavras humanas, o mundo pode recorrer à Igreja que prega Palavra de Deus? Será que aquele que se diz cristão acredita no poder da Palavra de Deus a exemplo do centuriãopagão”?


P.Vitus Gustama,svd
SER LÍDER SEM PRECISAR DE TER CARGO

 

Sábado da VIII Semana Comum
 01 de Junho de 2013

I
 
SÃO JUSTINO

(+ cerca 165)
 

 01 de junho


Há pessoas ignorantes e bárbaras quanto à linguagem, mas sapientes e fieis no espírito... e é evidente que isto não seja obra da sabedoria humana, mas do poder divino.

(São Justino)

No dia 01 de junho celebramos a memória obrigatória de São Justino, mártir. São Justino é o mais célebre e o maior de todos os filósofos cristãos do século II. Era um homem que tinha nobreza de caráter e o gosto pela exatidão histórica. Justino foi um leigo intelectual que buscava a verdade: “Atos e não palavras!”, dizia ele. Ele procurava a verdade para vivê-la. Tendo ingressado no cristianismo por volta do ano 130, afirmou ter encontrado no cristianismo a única filosofia segura que satisfazia todos os seus anseios. Em outras palavras, ele encontrou a verdade no cristianismo, a verdade que o libertou de outras filosofias. Cumpriu-se aquilo que Jesus tinha dito: “Se permanecerdes na minha palavra, sereis meus verdadeiros discípulos; conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará” (Jo 8,32).


Para Justino, o cristianismo não é, antes de tudo, uma doutrina e sim uma pessoa: O Verbo de Deus encarnado e crucificado em Jesus Cristo. Por isso, Justino dizia: “A nossa doutrina (cristã) supera qualquer doutrina humana, porque nela temos o inteiro Verbo (de Deus)”. Por isso, “toda verdade, afirmada em qualquer povo, pertence a nós cristãos”, acrescentou Justino.


Um dia, retirando-se à solidão, Justino passeava pela areia à beira mar para meditar sobre a visão de Deus. Na sua meditação, ele disse que a alma humana não podia atingir a Deus com seus próprios recursos; somente o cristianismo era a filosofia verdadeira que apresentava conclusões para todas a verdades parciais.


Por ser um famoso filósofo com nobre caráter, ele era respeitado. Mas um filosofo invejoso e cínico chamado Crescêncio denunciou Justino covardemente diante do imperador Marco Aurélio. “A inveja é a tristeza pelo bem alheio”, dizia Santo Thomas de Aquino. Diante do imperador, para Justino foi lançada a seguinte pergunta: “A que ciência te dedicas tu?”. Justino respondeu: “Estudei sucessivamente todas as ciências. Acabei por apegar-me à doutrina verdadeira dos cristãos”. Por causa disso, ele foi flagelado e sofreu a pena capital.  Ele morreu em torno do ano 165 como mártir.


Justino foi uma mistura perfeita da intelectualidade com a espiritualidade. Meditava profundamente a doutrina cristã e se apegava a ela até a morte.  Ele nos ensina a vivermos e praticarmos nossa intelectualidade sempre dentro do Espírito de Deus. É a intelectualidade conduzida para a salvação. A intelectualidade dentro da espiritualidade nos faz viver na sabedoria. Todo sábio é inteligente, pois para ser sábio tem que ser inteligente, mas nem sempre todo inteligente é sábio. O sábio não solta qualquer palavra sem pensar. Como diz a sabedoria indiana: “Quando falares, cuida para que tuas palavras sejam melhores que o silêncio”. E "O sábio estima todos porque sabe ver o bom de cada um e sabe o que custa fazer bem as coisas. O tolo despreza todos porque não conhece o bom e escolhe o pior”, dizia um escritor (Baltasar Gracián).

 
II

Evangelho do Dia


Texto de Leitura: Mc 11,27-33


27Naquele tempo, Jesus e os discípulos foram de novo a Jerusalém. Enquanto Jesus estava andando no Templo, os sumos sacerdotes, os mestres da Lei e os anciãos aproximaram-se dele e perguntaram: 28“Com que autoridade fazes essas coisas? Quem te deu autoridade para fazer isso?” 29Jesus respondeu: “Vou fazer-vos uma só pergunta. Se me responderdes, eu vos direi com que autoridade faço isso. 30O batismo de João vinha do céu ou dos homens? Respondei-me”. 31Eles discutiam entre si: “Se respondermos que vinha do céu, ele vai dizer: ‘Por que não acreditastes em João?’ 32Devemos então dizer que vinha dos homens?” Mas eles tinham medo da multidão, porque todos, de fato, tinham João na qualidade de profeta. 33Então eles responderam a Jesus: “Não sabemos”. E Jesus disse: “Pois eu também, não vos digo com que autoridade faço essas coisas”.

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Estamos na seção onde se fala de Jesus e do poder constituído (Mc 11,27-12,37). Em Mc 11,18 o evangelista Marcos nos informou que “Os chefes dos sacerdotes e os escribas procuravam como matariam Jesus”. Nesta seção os vemos em ação. O que vem em seguida é a continuação do choque frontal entre eles e Jesus e será cumprido o que Jesus disse no primeiro anúncio da paixão: “O Filho do homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos chefes dos sacerdotes e pelos escribas” (Mc 8,31). Agora eles estão intentando surpreender Jesus em algum erro para acabar com ele. Podem ser lidas cinco controvérsias  como o ponto de ataque contra Jesus em Mc 2,1-3,6.


Os que formam o poder constituído são em primeiro lugar, os sumos sacerdotes, os mais afetados (medo de perder seus bens através da arrecadação no Templo) pelo que Jesus fez no templo (cf. Mc 11,15-18) e os que podem, facilmente, acusar Jesus de ter atuado contra o lugar santo (Templo). Entre os sacerdotes predominam os saduceus, grupo político-religioso de tendência conservadora.  Em segundo lugar, os escribas ou doutores da lei, pessoas especializadas nos problemas jurídicos e religiosos e, portanto, únicos e verdadeiros interpretes e defensores da Lei. Para eles, o homem é feito para a lei, enquanto que para Jesus, a lei é feita para o homem (Mc 2,27). Sua oposição já começou no inicio do evangelho de Marcos (Cf. Mc 2,6.16; 3,22; 7,1). Em terceiro lugar, os anciãos, os membros laicos do Sinédrio, a suprema corte judia legislativa e judicial de Jerusalém, os representantes civis e religiosos do povo. Entre os escribas e os anciãos predominam os fariseus, verdadeiros representantes da piedade popular. Finalmente, o partido de Herodes, o braço civil do poder romano em Palestina.


O evangelho lido neste dia nos relata que Jesus e seus discípulos se encontram em Jerusalém. Por isso, a cena do evangelho de hoje tem como local Jerusalém. O texto está carregado de tensão. É o confronto direito entre Jesus e os dirigentes do povo. A fama de Jesus pela sua preocupação em lutar pela igualdade, pela convivência na fraternidade universal, pela verdadeira vivência da religião, pelo bem de todos, provoca o desconforto para os dirigentes que querem manter seus privilégios e seu domínio. Os dirigentes queriam desmoralizar Jesus e suas atividades em favor do povo através das seguintes perguntas: “Com que autoridade tu fazes essas coisas? Quem te deu autoridade para fazer isso?”. Essa pergunta só pode sair da boca de quem adora o poder e a desigualdade. Ama menos quem se preocupa demasiadamente com a regra e o poder na convivência em vez de se preocupar com o bem que deve ser feito. Para fazer o bem em favor do povo necessitado não precisa de nenhum poder; basta ter amor no coração e sentir na pele o sofrimento dos outros para se compadecer e oferecer a ajuda naquilo que se pode para aliviar uma parte do sofrimento. Precisamente só aquele que é capaz de ser solidário com os necessitados é que tem mais autoridade. Esse tipo de pessoa quando fala desperta qualquer coração, pois fala a partir da vida vivida na solidariedade e na compaixão, como por exemplo, Madre Teresa de Calcutá.


“Quem te deu autoridade para fazer isso?”. O que os dirigentes querem dizer é o poder. “Quem te deu esse poder?”. A autoridade não é dada para ninguém, pois ela vem de dentro da pessoa. A autoridade é a capacidade de fazer o outro crescer. A palavra “autoridade” provem do latim “augere” que significa “crescer”. Toda palavra, toda atividade, toda ajuda, todo conselho que faz o outro crescer é uma autoridade. A autoridade é respeitada e é amada. O poder é temido, mas não é amado.
 
 
Para ser chefe você precisa de um cargo. Mas para ser líder você não precisa de cargo. Ninguém precisa mais de autoridade formal para liderar. Todos nós temos um poder natural de liderar que nada tem a ver com cargos, idade ou com o lugar em que moramos. Liderar tem muito mais a ver com a maneira brilhante como cada um de nós trabalha e a destreza de nosso comportamento. Cada um de nós tem o reservatório interno de potencial para liderança. E cada um de nós tem o poder de se mostrar líder no que faz. Somente precisamos nos conscientizar de tudo isso e assumi-lo. Um líder que ama é um líder que é respeitado. Um líder que adora o poder é temido, mas não é amado e por isso, não é respeitado. Etimologicamente a palavra “respeitar” (em latim) significa tomar em consideração. “Respeito” é sentimento que leva alguém a tratar outrem ou alguma coisa com grande atenção, profunda deferência; consideração, reverência.


Em vez de desqualificarem Jesus, os dirigentes são desqualificados a partir da pergunta de Jesus: “O batismo de João vinha do céu ou dos homens?”. Eles mesmos sabem do peso da pergunta: “Se respondermos que vinha do céu, ele vai dizer: ‘Por que não acreditastes em João?’ Devemos então dizer que vinha dos homens?”  O evangelista Marcos comenta: “Mas eles tinham medo da multidão, porque todos, de fato, tinham João na qualidade de profeta”.  Diante da pergunta pesada, pois toca e desmascara profundamente sua maneira de viver, eles fingem não saber respondê-la: “Não sabemos”. Temos lido em jornais, revistas, entrevistas e temos ouvido nas rádios e televisão este tipo de resposta que saiu da boca daqueles que têm poder: “Eu não sabia!”, “Não sabíamos”, mesmo que as provas sejam contundentes e evidentes. Fingir não saber sobre aquilo que é óbvio e praticado é uma forma discreta de confessar aquilo que sabe. Ninguém se engana. Ninguém tem poder de eliminar a verdade do coração. “Deus faz o diário de nossa vida: a mão divina escreve o que fizemos e o que omitimos, história que um dia será apresentada a todo o universo. Procuremos, pois, fazê-la bela!” (Bossuet; cf. Mt 25,31-46). E “o homem que nunca se entregou a uma causa superior não atingiu o cimo da vida” (Richard Nixon).

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 29 de maio de 2013

VISITAÇÃO DE MARIA A ISABEL
 

31 de Maio

Texto de Leitura: Lc 1, 39-56

39Naqueles dias, Maria partiu para a região montanhosa, dirigindo-se, apressadamente, a uma cidade da Judeia. 40Entrou na casa de Zacarias e cumprimentou Isabel. 41Quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança pulou no seu ventre e Isabel ficou cheia do Espírito Santo. 42Com um grande grito exclamou: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto de teu ventre!” 43Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? 44Logo que a tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. 45Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. 46Maria disse: “A minha alma engrandece o Senhor, 47e o meu espírito se alegra em Deus, meu Salvador, 48porque olhou para a humildade de sua serva. Doravante todas as gerações me chamarão bem-aventurada, 49porque o Todo-poderoso fez grandes coisas em meu favor. O seu nome é santo, 50e sua misericórdia se estende, de geração em geração, a todos os que o temem. 51Ele mostrou a força de seu braço: dispersou os soberbos de coração. 52Derrubou do trono os poderosos e elevou os humildes. 53Encheu de bens os famintos, e despediu os ricos de mãos vazias. 54Socorreu Israel, seu servo, lembrando-se de sua misericórdia, 55conforme prometera aos nossos pais, em favor de Abraão e de sua descendência, para sempre”. 56Maria ficou três meses com Isabel; depois voltou para casa.
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Maria visitou Isabel apressadamente


Terminamos o mês de maio com a festa da Visitação de Nossa Senhora a Isabel. A festa da Visitação está cheia de encantos e de uma ternura inigualável. Duas mulheres, que se encontram , que se saúdam, estão cheias de Deus e por isso, cheias de alegria para fazer o ambiente mais humano e fraterno e por isso, mais divino.


O evangelista Lucas nos relatou que Maria “se dirigiu apressadamente”. A expressão “apressadamente” aqui tem muitos significados: zelo, diligência, empenho, cuidado, seriedade, dignidade. Santo Ambrósio comentou a expressão “dirigindo-se apressadamente” com as seguintes palavras: “A graça do Espírito Santo não admite demora” (“Nescit tarda molimina Spiritus Sancti gratia”). É preciso fazer ou cumprir aquilo que é importante e essencial, pois, caso contrário, acaba morrendo. Jamais podemos adiar o que é essencial para não nos lamentar mais tarde: uma visita para um doente ou um idoso, um perdão que precisa ser dado ou recebido, uma ajuda oferecida, um trabalho importante que decidimos fazer, e assim por diante. Os adiantamentos, os atrasos podem nos desgastar e nos consomem interiormente. Precisamos trabalhar permanentemente sobre nossa capacidade de intuir o que deve ser feito agora e aqui na graça de Deus.


Maria é uma mulher que se põe em caminho com dignidade, com cuidado, com prontidão. Não o faz para satisfazer uma necessidade pessoal: ela faz para servir sua parenta, Isabel, que está grávida e que necessita de uma ajuda. Ela faz tudo com dignidade como uma irmã. Maria é de Deus e por isso, ela é do povo e para o povo. Maria é mulher de nossa história, aberta a Deus e aos seres humanos. Viveu sempre em atitude de gratuidade e de doação. Será que fazemos tudo, a exemplo de Maria, com dignidade, com cuidado e com prontidão?


Encontro de duas pessoas benditas


Na Anunciação o Anjo do Senhor “entrou” na casa de Maria e a “saudou”. Nessa visita Maria fez a mesma coisa: ela “entrou” na casa de Zacarias e saudou a Isabel. É a saudação da Mãe do Senhor para a mãe do Precursor do Senhor. A saudação de Maria comunica o Espírito a Isabel e ao menino no seu ventre. A presença do Espírito Santo em Isabel se traduz em um grito poderoso e profético: “Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre. Como posso merecer que a mãe do meu Senhor me venha visitar? Logo que tua saudação chegou aos meus ouvidos, a criança pulou de alegria no meu ventre. Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu” (Lc 1,42-45). Aqui Isabel fala como profetisa: se sente pequena e indigna diante da visita daquela que leva em seu seio o Senhor do universo. Sobram as palavras e explicações quando alguém entra na sintonia com o Espírito. Maria leva no seu seio o Filho de Deus concebido pela obra do Espírito Santo. E a presença do Espírito Santo em Isabel faz com que Isabel glorifique a Deus. Por isso, o encontro entre Maria e sua prima Isabel é uma espécie de “pequeno Pentecostes”. Onde entra o Espírito Santo, ai entra também paz, alegria e vida divina.


A Mãe de Deus que leva Jesus em seu seio é a causa de alegria. Quando estivermos cheios de Jesus Cristo em nosso coração, a nossa presença traz alegria e a paz para a convivência. A ausência de Cristo em nosso coração produz problemas e discórdias na convivência. O encontro de duas pessoas benditas sempre causa alegria: Maria causa alegria em Isabel e Jesus em pequeno João Batista. Ao contrário, o encontro de duas pessoas não benditas sempre causa angústia e mal-estar na convivência. Cada cristão deve fazer os encontros felizes e alegres com os outros. E isso só pode acontecer se houver lugar para Cristo em nosso coração. Precisamos engravidar Jesus Cristo para fazê-lo nascer para os outros. Por isso, vale a pena cada um se perguntar: Que tipo de encontro que fazemos diariamente: de pessoas benditas ou de pessoas não benditas?


Na narração da visitação, Isabel, “cheio do Espírito Santo” acolhendo Maria em sua casa, exclama: ”Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido o que o Senhor lhe prometeu”. Esta bem-aventurança, a primeira que se encontra no evangelho de Lucas, apresenta Maria como a mulher que com sua fé precede à Igreja na realização do espírito das bem-aventuranças. Maria, crendo na possibilidade do cumprimento do anúncio, interpela ao Mensageiro divino somente a modalidade de sua realização para corresponder melhor à vontade de Deus a que quer aderir-se e entregar-se com total disponibilidade. “Buscou o modo; não duvidou da onipotência de Deus”, comentou Santo Agostinho (Serm. 291). Maria se adere plenamente ao projeto de Deus sem subordinar seu consentimento à concessão de um sinal visível. É uma entrega total ao projeto de Deus. É uma confiança sem reservas à vontade de Deus: “Faça-se em mim segundo Vossa palavra!”. Maria tem muito a dizer sobre a vivência de nossa fé na nossa vida cotidiana.


Anunciação-Visita a Isabel e Ação Pastoral


Na anunciação Maria faz perguntas para ter certeza sobre sua missão de ser Mãe do Salvador (cf. Lc 1,26-37). Quando tudo se torna certo, Maria diz seu Sim a Deus radicalmente. Maria deixa a Palavra de Deus entrar em sua vida e ela é fecundada pelo Salvador. Jesus, o Salvador, que está no seio de Maria já empurra Maria para a ação pastoral, isto é, ir ao encontro de Isabel que está precisando da presença de Maria. Maria poderia pensar em si mesma, na sua gravidez. Mas ela pensa no outro e vai ao encontro do outro.


Quem permitir e viver o mistério da Anunciação, será fecundado como Maria. Quem não é fecundado, não é feliz. Com a fecundação e a fecundidade na vivência do mistério da Anunciação, eu serei capaz de sair de mim mesmo para a ação pastoral como Maria visitou Isabel na sua necessidade. Se permitirmos a entrada da Palavra de Deus na nossa vida, ficaremos fecundados e seremos capazes de fazer Jesus nascer para o mundo.


É preciso fazer uma ligação entre a Anunciação e a Ação Pastoral. Sem a Anunciação, isto é, sem ser fecundado pela Palavra de Deus, a ação pastoral se torna estéril. A Anunciação sem a Ação Pastoral se torna um isolamento estéril e mortal.

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 28 de maio de 2013

CORPUS CHRISTI




1. Viver Uma Vida Eucarística Na Partilha Fraterna


Na festa de Corpus Christi nos são mostradas, de maneira muito forte, as duas dimensões inseparáveis do mistério eucarístico: a presença real e amorosa de Cristo no Pão consagrado e a necessidade de viver a caridade fraterna na partilha.


A festa de Corpus Christi é a festa que exalta a presença real de Jesus Cristo no sacramento da Eucaristia. Precisamente por serfesta do Sacramento” exaltamos o Corpo e o Sangue, Pão e Vinho eucarístico, de Jesus Cristo sinal eficaz de sua presença entre s. Mas neste caso o sinal aponta para a refeição fraterna na qual o próprio Cristo se dá como alimento. E a refeição fraterna e festiva não pode ser entendida sem comunhão, sem convivência com o Senhor e com os demais comensais. É certo que a Eucaristia constrói a Igreja, mas constrói como comunidade que e partilha e compartilha. Compartilhar é mais que repartir o que nos sobra: é mudar nossa maneira de pensar e de viver até se tornar possível uma convivência fraterna e solidaria. Por isso, é impossível celebrar esta festa sem aprofundar nossa experiência de amor fraterno, de caridade mútua e, portanto, de solidariedade e de convivência.


Na festa de Corpus Christi nos são mostradas, de maneira muito forte, as duas dimensões inseparáveis do mistério eucarístico: a presença real e amorosa de Cristo no Pão consagrado e a necessidade de viver a caridade fraterna na partilha.


2. Vida Cristã É Uma Procissão Para a Vida Eterna


O que distingue a festa de Corpus Christi é a procissão. É o mais exterior nesta festa e é também mais distintivo. Mas quando o exterior nasce de dentro é também a manifestação de seu núcleo interior. Por isso, podemos também meditar o mistério desta festa a partir da procissão. Procissão na sua etimologia latina significa “ir adiante”, “adiantar-se”.


A Hóstia consagrada levada em procissão é o Pão vivo e Doador da vida: “Eu sou o Pão da Vida”, disse Jesus. Com razão recebe culto público e sua finalidade principal é ser recebida como alimento espiritual para nos unir com Cristo e nos associar a seu sacrifício, isto é, ao receber o Pão da Vida devemos ser vida para os outros. Somos alimentados com o Pão da Vida para que sejamos vida para os outros.


Que sentido tem a procissão de Corpus Christi? Ela nos faz descobrir que somos peregrinos sobre a terra; não temos aqui pátria permanente. Andamos pelo espaço e pelo tempo, estamos sempre em caminho e buscamos nossa pátria própria e eterna. Santo Agostinho dizia: “Gostes ou não, não és mais que um peregrino neste mundo. Podes, pois, adoçar teu caminho; porém, por mais que queiras, não poderás converter-te em residente” (In ps. 120,14). Nessa peregrinação somos aqueles que devem deixar-se transformar porque ser homem significa deixar-se transformar. A perfeição se alcança transformando-se e formando-se permanentemente.


Nossa temporalidade e os distintos lugares onde se desenvolve nossa existência se manifestam através de uma procissão, de uma marcha. Mas esta marcha não é a marcha de uma manada. Uma procissão é um movimento dos que se sentem verdadeiramente unidos; é uma peregrinação durante a qual os peregrinos se dão as mãos para que o outro continue em nessa peregrinação. É ser irmão e irmã da jornada. É um movimento que leva consigo o Santo, o Eterno, que tem consigo a tranqüilidade do movimento e a unidade dos que se movem.


Através da Procissão de Corpus Christi queremos manifestar publicamente que o Senhor da história e deste êxodo santo do desterro para a pátria eterna, vai conosco; é uma marcha eterna, uma procissão que tem verdadeiramente uma meta diante de si e consigo. Nesta marcha levamos o Corpo santo que foi entregue por nós para a remissão de nossos pecados. Temos sempre conosco o Crucificado ressuscitado na marcha através de nosso tempo. Por meio desta procissão confessamos que somos pecadores, mas andando com o Doador da vida, viveremos na graça santificante. Por isso, a procissão nos fala da presença permanente da reconciliação nos caminhos de nossa vida. A procissão nos diz que Deus vai conosco; Ele, a reconciliação, Ele, o amor e a misericórdia. Ele que nos acompanha, Ele que nos persegue ainda que caminhemos por caminhos tortuosos e percamos a direção. Ele, que busca no deserto a ovelha perdida e corre ao encontro do filho pródigo. Ele vai conosco na peregrinação de nossa vida, Ele que recorreu por si mesmo todas as ruas e estradas desde o nascimento até a morte. Ele, com misericórdia de seu coração, com a experiência de uma vida completa de homem, paciente e misericordioso. Ele, a salvação e a reconciliação de nossos pecados, levamos o sacramento através das ruas ou campos ou desertos de nossa vida e confessamos e cremos: estamos bem acompanhados na nossa peregrinação, pois o Senhor caminha conosco. Estamos bem acompanhados por Aquele que com sua companhia pode fazer todos os caminhos retos. Através da Procissão queremos confessar que nós, peregrinos nesta terra levamos nas mãos Aquele que é o Começo e o Fim, o Alfa e o Ômega de nossa vida. Através da Procissão queremos professar que a divindade e a humanidade estão unidas indissoluvelmente. Levamos conosco o Corpo glorioso em que o mundo começou a ser glorificado. O Eterno, o Definitivo, o próprio Deus está conosco. Neste momento misterioso tempo e eternidade, terra e céu, Deus e homem começa a penetrar-se. Se você tiver consciência de tudo isso, sua vida vai começar a mudar e a se transformar e você ganhará cada vez mais força mais do que suficiente para começar sua vida com Deus.


Levamos o Corpo do Senhor em procissão e com isso expressamos que todos somos um, que todos vamos pelo mesmo caminho, o único caminho de Deus e de sua eternidade. As mesmas forças da vida eterna operam em todos nós, o único amor divino é nossa participação, participação que nos vincula mais profunda e interiormente.


Se o Senhor anda conosco, simbolizado pela procissão, então, não podemos ter mais medo de nada para avançar no bem; não podemos perder mais tempo para começar de novo, para formar-se. Se a vida é uma peregrinação com o Senhor não é permitido ficar parado e paralisado. Caminhar com o Senhor tudo será aberto apesar dos aparentes muros de desafio.

P. Vitus Gustama,svd