quarta-feira, 31 de julho de 2013

 
SEGUIR A JESUS CRISTO PARA VER MAIS E ENTENDER MELHOR


Sexta-feira da XVII Semana Comum
02 de Agosto de 2013


Texto de Leitura: Mt 13, 54-58


Naquele tempo, 54 dirigindo-se para a sua terra, Jesus ensinava na sinagoga, de modo que ficavam admirados. E diziam: “De onde lhe vem essa sabedoria e esses milagres? 55 Não é ele o filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria, e seus irmãos não são Tiago, José, Simão e Judas? 56 E suas irmãs não moram conosco? Então, de onde lhe vem tudo isso?” 57 E ficaram escandalizados por causa dele. Jesus, porém, disse: “Um profeta só não é estimado em sua própria pátria e em sua família!” 58 E Jesus não fez ali muitos milagres, porque eles não tinham fé.

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“‘Não é ele o filho do carpinteiro? Sua mãe não se chama Maria... Então, de onde lhe vem tudo isso?’. E ficaram escandalizados por causa dele”.


Os conterrâneos de Jesus, os nazarenos, acham conhecer Jesus, mas na verdade eles não O conhecem na sua profundidade. Não há nada que seja tão perigoso do que a pretensão de saber de tudo. Uma pessoa que tem essa pretensão se fecha em si mesma e deixa de aprender. A falta da humildade impede alguém de aprender mais e de continuar a crescer e impede alguém de ser irmão do outro. A pessoa que se fecha em si se torna conservadora. Todo conservador não tem futuro, pois não aceita qualquer novidade. Ela acha que não tenha mais nada para aprender. Certamente essas pessoas são os familiares de Jesus; são os mais próximos de Jesus.


Tenho medo de que essas pessoas sejamos nós também. Nós que achamos seguidores de Jesus, freqüentadores de cultos ou celebrações, mas não queremos andar ou caminhar atrás de Jesus para segui-Lo. A palavra “seguir” supõe movimento, dinâmica, peregrinação. O verdadeiro seguidor é aquele que sempre olha para aquilo que seu Mestre faz, e escuta aquilo que o Mestre diz e ensina. O verdadeiro seguidor é aquele que mantém a mente e coração abertos, disponíveis, e prestes a renunciar tudo para aprender além do que já sabe ou supostamente sabe. Só seguindo atrás de Jesus é que poderemos ver muito mais coisas na vida e entenderemos o significado de cada coisa e acontecimento. Quem vive dentro de quatro paredes vê sempre as mesmas coisas e por isso, não há surpresa nem novidade. Ao sair do quatro para ir à rua, começam as surpresas para sua vida.


Não é ele o filho do carpinteiro?”.


Os nazarenos reprovam a origem humilde de Jesus. Para eles, Jesus é nada mais do que um simples filho de um carpinteiro. Por ser filho de um carpinteiro, as palavras de Jesus não valem para eles embora nelas se encontrem toda a verdade. Eles esperam um Messias cheio de glória e poder; um messias misterioso, celestial e transcendente. Mas Deus não encaixa em nossas idéias estereotipadas. Deus cabe no nosso coração, mas não cabe na nossa cabeça, pois o coração sente aquilo que os olhos não vêem. O coração compreende quando a mente se tranqüiliza. Além disso, é preciso que ouçamos aquilo que alguém diz e não para aquele que o diz.


Os nazarenos preferem a imagem de Deus que eles têm na cabeça ao próprio Deus. Para eles, Jesus é cotidiano demais para ser Deus. Este é o maior perigo para qualquer adepto de qualquer religião ou Igreja: identificar a imagem que tem de Deus com o próprio Deus. Por isso, vale a pena cada um fazer esta pergunta: “A imagem de Deus que você tem será que é o próprio Deus?”. Muitas vezes abandonamos o próprio Deus para ficar com a imagem que achamos que seja Deus. Muitas vezes condenamos os outros a partir da imagem de Deus que temos. Quem sabe que os que se acham crédulos são muito mais incrédulos como os próprios conterrâneos de Jesus.


 Um profeta só não é estimado em sua própria pátria e em sua família!”.  E Jesus não fez ali muitos milagres, porque eles não tinham fé.


As pessoas da cidade de Jesus (vilarejo de Nazaré), do lugar de seu trabalho não se dispõem de tempo para meditar se ali há um Profeta ou mais que um Profeta. Basta-lhes a vida rotineira. Falta-lhes a fome da verdade. Falta-lhes o discernimento. Falta-lhes a reflexão sobre a realidade. E a novidade do Reino trazida por Jesus suscita neles apenas dúvidas, suspeitas e gozação. É o grande desafio da própria encarnação. É o grande mistério da fé. A fé somente floresce em campos fecundos que se deixam regar com chuva do céu.


Ao longo da história tem tido muitas pessoas inspiradas por Deus para denunciar situações injustas e más condutas. Algumas são conhecidas. Mas há muitíssimos profetas anônimos, gente que se atreve a denunciar o que é injusto e desonesto. Muitos desses profetas pagam com a própria vida pela denúncia feita, pois os que defendem os próprios interesses, e não os interesses comuns não têm piedade de eliminar quem os denuncia.


Uma das funções como batizados é a função profética: anunciar o bem e denunciar o mal. Um batizado não pode ficar em silêncio diante da desonestidade e da injustiça. O silêncio nos faz cúmplices. Somos chamados a ser profetas na nossa atualidade.


Não somente somos chamados a denunciar, mas também a ouvir os que denunciam. Quem sabe que dentro dessa denúncia estamos nós também, pois muitas vezes nos sentimos tão cômodos em nossa vidinha tão perfeitamente organizada, em nossas próprias idéias tão formadas e preestabelecidas, em nossa maneira inflexível de entender as coisas, em nossa imagem estática de Deus que nos fazem surdos diante do apelo para o bem. Se há verdade na denúncia, temos que agradecer a Deus, pois é um chamado para voltarmos a trilhar o caminho do bem. Fé é caminhada. Quando ficamos incomodados, paramos de ter fé. É mais cômodo crer em um Deus todo-poderoso que controla tudo o que ocorre do que em um Deus que sofre com seus filhos, que é crucificado para salvar os outros filhos de Deus, e em um Deus que nos criou para que resolvamos as injustiças do mundo. No ritmo da velocidade do avanço tecnológico precisamos estar atentos para ver e ouvir o que Deus quer nisto tudo. Não tapemos nossos ouvidos nem fechemos nossos olhos nem paralisemos nossa mente. Precisamos tempo todo estar atentos ao que ocorre para que possamos nos posicionar como filhos e filhas de Deus, luz do mundo e sal da terra. Precisamos ter muita flexibilidade e disponibilidade para acolher aquilo que Deus nos quer dizer, inclusive através de quem menos esperamos, pois o Espírito de Deus sopra para onde quer e por quem quer.

P. Vitus Gustama,svd
 
SABER DISCERNIR E SELECIONAR O QUE É MELHOR


Quinta-feira da XVII Semana Comum
01 de Agosto de 2013
 
Texto de leitura: Mt 13, 47-53


Naquele tempo, disse Jesus à multidão: 47 “O Reino dos Céus é ainda como uma rede lançada ao mar e que apanha peixes de todo tipo. 48 Quando está cheia, os pescadores puxam a rede para a praia, sentam-se e recolhem os peixes bons em cestos e jogam fora os que não prestam. 49 Assim acontecerá no fim dos tempos: os anjos virão para separar os homens maus dos que são justos, 50 e lançarão os maus na fornalha de fogo. E aí, haverá choro e ranger de dentes. 51 Com­preendestes tudo isso?” Eles responderam: “Sim”. 52 Então Jesus acrescentou: “Assim, pois, todo mestre da Lei, que se torna discípulo do Reino dos Céus, é como um pai de família que tira do seu tesouro coisas novas e velhas”. 53 Quando Jesus terminou de contar essas parábolas, partiu dali.

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Estamos ainda no discurso de Jesus sobre o Reino de Deus em parábolas. Desta vez Jesus conta uma parábola sobre a rede na pescaria em que no fim haverá a seleção entre os peixes bons e os peixes que não prestam.
 
Na vida cotidiana sempre selecionamos e escolhemos o que é bom ou o que é melhor.  Selecionamos boas amizades. Selecionamos algo de bom ou de melhor para comer, para morar, selecionamos roupa melhor, e assim por diante. Vivemos selecionando o que é bom ou o que é melhor. O bom ou o melhor é sempre o objeto do apetite ou do desejo do homem, qualquer que seja esse objeto. O ruim é, ao contrário, o objeto de ódio ou de aversão do homem. Mas nem tudo o que desejamos é bom, mas tudo o que é bom sempre desejamos. A bondade atrai, pois ela agrada e edifica. A bondade é a própria perfeição possuída por um ser. Por possuir a bondade, um ser que a tem é capaz de dar a outro a perfeição que lhe falta.


Quando Jesus compara o Reino de Deus a uma rede que é lançada sobre todos, mas que só os peixes bons são selecionados, ele está dizendo que se trata de uma coisa seletiva, em que a bondade é que tem valor e permanece para sempre. A bondade é sinal de amabilidade. Quem ama porque é bom. Quem é bom, ama.  A bondade é algo que em si tem algo divino, pois Deus é a Bondade por excelência. Por isso, a bondade tem uma marca de eternidade. Os maus, ao contrário, vão fazer parte de outro reino, onde as pessoas somente vão odiar-se, segundo Jesus. A expressão: “Chorar e ranger os dentes” mostra bem como é a pessoa que odeia: vive como que rangendo os dentes. Eternamente infeliz. A frustração definitiva do homem (pranto e ranger de dentes) é perder a vida para sempre. A grande frustração do homem é sua incapacidade de viver na bondade, no bem, na compaixão, na simplicidade, na solidariedade. A bondade atrai. A simplicidade atrai. A arrogância, a prepotência, o orgulho, o complexo de superioridade afasta as pessoas. Qualquer arrogante, prepotente, orgulhoso, ambicioso vive na tremenda solidão. Viver é conviver. Através da convivência saudável é que podemos crescer como seres humanos. Até a própria vulnerabilidade da convivência nos ajuda a crescermos como pessoas saudáveis.


A parábola da rede lida neste dia se refere ao julgamento final. A imagem da pesca ilustra a dinâmica do Reino de Deus feita de perdas e ganhos. Uma vez a rede lançada ao mar, a pescaria já não depende da vontade do pescador. Cada lançada de rede é uma surpresa. A seleção será feita somente no final da pescaria, quando os peixes bons são colocados em cestas, enquanto os maus são jogados fora.


A parábola propõe a todos nós a sorte final, para orientar-nos na decisão presente. Quando soubermos para onde vamos, saberemos também escolher por onde devemos caminhar (saber escolher o caminho). Os únicos que chegam à vida em plenitude, pela misericórdia de Deus, são os que produzem fruto bom nesta vida; são os que em si tem a marca de eternidade como a bondade, o amor, a compaixão, a solidariedade e assim por diante. A sabedoria cristã consiste no discernimento dos verdadeiros valores do Evangelho como amor, partilha, solidariedade, compaixão, perdão, honestidade, justiça, paz etc., e em sua aplicação para as circunstâncias atuais. Há que estabelecer uma escala de valores para que cada cristão possa orientar sua maneira de viver no presente. Os outros valores devem estar subordinados em função dos valores superiores do Reino de Deus.


Mas ao mesmo tempo, esta parábola quer nos recordar que somente Deus tem a competência na seleção entre os bons e os maus no fim de cada história. Cristão nenhum pode se precipitar em classificar quem vai para o céu e quem não vai para lá, pois sua própria salvação ainda não está garantida e ele continua sendo pessoa capaz de pecar em qualquer momento. É preciso olharmos para cada ser humano como filho(a) de Deus e nosso irmão. Como dizia Santo Agostinho: “Amando ao próximo tu limpas os olhos para ver a Deus” (In Joan. 17,8). Quanto mais santo for o homem, mais se reconhecerá como pecador. A conversão não é uma carreira acabada. A conversão é diária, pois somos capazes de optar por outros valores em nome de algum interesse não-cristão. Deixemos Deus determinar a qualidade de cada um e não nos arroguemos pelas qualidades que temos, pois tudo de bom em nós tem sua origem no Supremo Bem que é Deus. Tudo de bom em nós deve ser partilhado para com os outros. Fazemos tudo de bom, porque Deus da bondade faz isso. “Faze o que deves fazer. E faze-o bem. Esta é a única norma para alcançar a perfeição”, dizia Santo Agostinho (In ps. 34,2,16). Somos prolongamento da generosidade do Deus-Criador que criou tudo para o bem da humanidade gratuitamente. Temos apenas o direito de usufruto. Esse direito cessará neste mundo cessará quando terminar nossa caminhada na história.


Deus tem paciência para esperar os frutos bons de cada um de nós. a história é o tempo para crescermos no bem e na bondade e para nos amadurecermos como filhos e filhas de Deus.  Primordialmente, somos bons porque tudo o que Deus criou era bom (cf. Gn 1,1ss). Deus aguarda a colheita, não diminuída por prematuras intervenções de escolha. Só então, no fim, haverá a colheita, com base na realidade de ser grão ou joio/cizânia, peixe bom ou mau, de ser caridoso ou egoísta. É uma advertência eficaz, embora tácita: Deus é paciente com todos e deixa aos pecadores, cada um de nós, tempo para amadurecer sua conversão; Deus sabe esperar a livre decisão do homem, cabe a cada um escolher ser bom grão e bom peixe e não peixe imprestável.


Portanto, é prudente premunir-se, pensar enquanto é tempo, decidir-se a fazer o bem, ser útil aos outros, ser peixe bom, ser selecionado por Deus no fim de nossa história.

P. Vitus Gustama, SVD

domingo, 21 de julho de 2013

 
SABER RENUNCIAR A TUDO PELO BEM MAIOR QUE DÁ SENTIDO AO RESTO

 
Quarta-feira da XVII Semana Comum
31 de Julho de 2013
 
Texto de leitura: Mt 13,44-46

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: 44 “O Reino do Céus é como um tesouro escondido no campo. Um homem o encontra e o mantém escondido. Cheio de alegria, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquele campo. 45 O Reino dos Céus também é como um comprador que procura pérolas preciosas. 46 Quando encontra uma pérola de grande valor, ele vai, vende todos os seus bens e compra aquela pérola”.

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O Reino de Deus é como um tesouro escondido, como uma pérola de incalculável valor”, assim Jesus diz no discurso sobre o Reino de Deus em parábolas no texto do evangelho deste dia. 


 As inúmeras guerras, que aconteceram em Palestina, levavam muitas pessoas a enterrar seus tesouros valiosos por motivo de segurança contra os ladrões. E o homem assalariado que trabalha no campo alheio, ao encontrar o tesouro, o enterrou novamente e guardou o segredo. E vende tudo para comprar o campo por esse tesouro valioso. A mesma reação aconteceu com o comprador da pérola: vende tudo para possuí-la. Mas acentua-se a alegria dos dois em fazer isso.


Lemos no dicionário que tesouro é o conjunto de riquezas de qualquer tipo (p.ex., dinheiro, jóias, pedras e metais preciosos, bens valiosos) guardadas ou escondidas. E pérola é a concreção densa e de coloração levemente prateada, que se forma nas conchas de diversos moluscos, a partir da deposição de material nacarado sobre uma partícula qualquer, como um grão de areia ou um parasita. As pérolas cultivadas são produzidas por ostras. Pérola é um material valioso. Também nós chamamos uma pessoa de sólidas qualidades morais e éticas de pérola ou de tesouro. “Você é minha pérola. Você é meu tesouro”, assim ouvimos alguém falar para o outro.

 
“Venderam tudo que possuíam para comprar o campo onde o tesouro está escondido e para comprar a pérola preciosa”, assim relatou Mateus no evangelho de hoje.


Aqueles homens venderam tudo tão espontaneamente só para ficar com o tesouro ou a pérola preciosa sem sentir nenhum sacrifício, mas com uma decisão alegre por causa de uma coisa valiosa. Tudo o que é bom, belo, digno, ético, puro sempre nos atrai e pára nossos passos para contemplá-lo. Uma pessoa com sólidas qualidades éticas e morais atrai a simpatia de qualquer pessoa e atrai a bênção de Deus, pois Deus é o supremo Bem. Ninguém resiste diante da bondade, diante de uma boa educação, diante de uma gentileza e assim por diante. Tudo o que é ruim nos afasta e afasta até a bênção do Senhor toda vez que essa bênção se aproximar da pessoa.


É assim também a fé. A fé é um enamoramento de Deus, é uma sedução: “Você me seduziu, Senhor; e eu me deixei seduzir” (Jr 20,7). Tudo o que é divino e que nos salva sempre nos atrai e nos convida a nos aproximarmos dele. O Reino arrebata quem o encontrou, gera a grande alegria e orienta toda a vida da pessoa até a comunhão plena com Deus. A partir deste tesouro que é O Reino de Deus, todo o resto se ordena e adquire o seu valor próprio. O Reino de Deus começa, então, a orientar a vida de quem o descobriu. A verdadeira fé orienta nossa maneira de viver.


Venderam tudo que possuíam….”

 
Tanto o tesouro escondido como a pérola preciosa expressam o que o Reino de Deus deve ser para o discípulo/cristão: algo absoluto. A exigência é radical, tudo o mais deve ser colocado em relação com o Reino. Em outras palavras, pode-se dizer que a experiência do amor de Deus relativizam todo valor até então conhecido. A partir de então, o valor do Reino serve de ponto de referência e de avaliação para resto. Uma vez que tiver sido descoberto o Reino de Deus em todo o seu valor, o resto se torna relativo no seu valor.


Nesta parábola, nem o homem que encontrou o tesouro nem aquele que descobriu a pérola sentem falta do que antes possuíam e que venderam. A riqueza do que acharam é de tal ordem que compensa tudo o que tinham. A mesma coisa acontece com os que descobrem ou encontram o seu caminho pessoal para Deus: abandonam tudo e encontram tudo, porque Deus é tudo. Quem, pela mensagem de Cristo, encontra Deus renuncia jubilosamente a tudo. Tal verdade somente pode ser experimentada pela própria vida. Por isso, eles podem renovar tudo, acabar com a rotina de sua vida e começam a olhar mais longe e mais alto. E quem encontra Cristo expande a alegria  e o otimismo para todos.


A vida cristã se apresenta muitas vezes como um constante exercício de renúncia: renunciar aos bens materiais para não ser possuídos por eles a fim de manter-se livre como seguidor de Cristo; renunciar aos prazeres desenfreados da vida, pois quem vive somente em função do prazer é porque não tem prazer de viver, e quem só sabe se satisfazer é incapaz de satisfazer os outros; renunciar às comodidades, pois a vida continua nos empurrando por dentro; renunciar à ambição. Renunciar, renunciar, renunciar...


Não se deve confundir com o que se chama um caminho de perfeição, um método para chegar a ser santo. O projeto de Jesus não é um projeto dirigido unicamente ao individuo e sim orientado para a transformação da maneira de viver de toda a humanidade.


Por isso, quando Jesus apresenta as bem-aventuranças que constituem o núcleo de seu programa não diz àqueles que o escutam que serão mais santos se fizerem tudo que ele fala, e sim que serão felizes. É a felicidade dos homens, de todos os homens e de cada um deles em particular o que preocupa Jesus, porque essa é a principal preocupação do Pai. O projeto de Jesus é a felicidade. A santidade é o projeto pessoal. Por isso, o ideal cristão é a felicidade. Conseqüentemente, a felicidade é a razão pela qual um cristão atua: um cristão se comporta como cristão porque tal comportamento é causa de alegria para ele e para seus próximos. Em outras palavras, uma ação é boa se produz felicidade em quem a realiza e contribui à felicidade dos demais.


P.Vitus Gustama, SVD
 
SER BOA SEMENTE NO MUNDO

 
Terça-feira da XVII Semana Comum
30 de Julho de 2013
 
Texto de Leitura: Mt 13,36-43


Naquele tempo, 36 Jesus deixou as multidões e foi para casa. Seus discípulos aproximaram-se dele e disseram: “Explica-nos a parábola do joio!” 37 Jesus respondeu: “Aquele que semeia a boa semente é o Filho do Homem. 38 O campo é o mundo. A boa semente são os que pertencem ao Reino. O joio são os que pertencem ao Maligno. 39 O inimigo que semeou o joio é o diabo. A colheita é o fim dos tempos. Os ceifadores são os anjos. 40 Como o joio é recolhido e queimado ao fogo, assim também acontecerá no fim dos tempos: 41 O Filho do Homem enviará os seus anjos e eles retirarão do seu Reino todos os que fazem outros pecar e os que praticam o mal; 42 e depois os lançarão na fornalha de fogo. Ali haverá choro e ranger de dentes. 43 Então os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai. Quem tem ouvidos, ouça”.

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Continuamos a acompanhar o discurso de Jesus sobre o Reino de Deus em parábola.

 
No texto do evangelho de hoje Jesus explicou para os discípulos sobre o sentido da parábola sobre o joio e o trigo. "Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem",disse-lhes Jesus.

 
Jesus é um semeador. Mas não é qualquer semeador. Ele é um Semeador de boas sementes. Ele faz algo de bom... apenas o bom, nada de ruim. E eu? Será que sou um semeador de coisas boas ou eu semeio as sementes de joio? Vamos colher aquilo que semeamos.


Lançar sementes, semear sementes é sempre fácil. Mas precisamos saber daquilo que estamos semeando. O joio não vai produzir o trigo. O trigo não vai produzir o joio. Que tipo de semente que estou semeando, então? Semear joio é apenas uma forma de matar outras plantas boas para minha sobrevivência. Não posso semear aquilo que me prejudica e conseqüentemente prejudicará os outros ao meu redor.


A boa semente são os filhos do Reino”, disse Jesus. A fórmula é surpreendente. O que Jesus semeia neste momento no mundo somos "nós", filhos do Reino! Ele nos manda para o mundo para sermos sementes da bondade. É a tarefa principal como cristãos. Sou uma semente de Deus. Eu devo ser para os outros aquilo que sou para Deus. Se eu sou uma semente de Deus, eu devo ser, então, fonte de alegria de Deus no mundo, fonte da bondade de Deus no mundo para os demais. Deus fala e age através de mim no mundo. Para Deus eu existo para ser Sua semente neste mundo. Uma só semente. É pouco? Sim! Mas uma semente boa no terreno fértil pode produzir centenas de grãos bons. Eu devo me tornar multiplicador da bondade.

 
"Então os justos vão brilhar como o sol no reino do seu Pai”. O “sol” é uma belíssima imagem. O sol ilumina, aquece, ajuda no crescimento das plantas, orienta os caminhantes, faz os olhos saudáveis funcionarem, pois sem a luz por saudáveis que eles sejam, os olhos não enxergam. Somente numa boca saudável é que a comida gostosa fica saborosa. A bondade nos conduz à eternidade, para estar com o Supremo Bom que é Deus. Aquilo que tem algo divino em nós é que nos levará para o próprio Deus. Aquilo que não tem algo divino em nós pode nos levar para outra direção, menos para Deus.


O inimigo que semeou o joio é o diabo”. “Diabo” é aquele que desune. É aquele que está contra a igualdade. É aquele que está contra a comunhão e a comunidade. É o contrário do símbolo, duas coisas que se encaixam bem, bem se unem formando uma só força para construir e não para destruir. O diabo semeia à noite, na escuridão.  Na escuridão tem somente uma cor: preta. É uma grande pobreza ter só uma cor. O bom semeador semeia durante o dia, na claridade. Na claridade podemos perceber a variedade de cores. É uma grande riqueza. É uma harmonia. A palavra “harmonia” supõe a existência de várias coisas formando uma união que produz uma beleza. Serei diabo na medida em que eu semear a discórdia, a desunião, e a divisão.


A Palavra de Deus hoje nos chama a revisarmos nossa maneira de viver: Será que estou consciente de que sou semente de Deus neste mundo? Será que sou um semeador da bondade ou da maldade? Meus atos são diabólicos, atos que desunem ou são simbólicos, atos que criam união? Aquilo que tem algo divino em mim é que me levará para estar com o próprio Deus. Aquilo que não tem algo divino em mim pode me levar para outra direção, menos para Deus.  O que tem dentro de mim? 

P. Vitus Gustama,svd
 
JESUS É A RESSURREIÇÃO E A VIDA
 
FESTA DE SANTA MARTA
Segunda-feira,29 de Julho de 2013
                                       
Texto de leitura: Jo 11,19-27


Naquele tempo, 19 muitos judeus tinham vindo à casa de Marta e Maria para as consolar por causa do irmão. 20 Quando Marta soube que Jesus tinha chegado, foi ao encontro dele. Maria ficou sentada em casa. 21 Então Marta disse a Jesus: “Senhor, se tivesses estado aqui, meu irmão não teria morrido. 22 Mas mesmo assim, eu sei que o que pedires a Deus, ele te concederá”. 23 Respondeu-lhe Jesus: “Teu irmão ressuscitará”. 24 Disse Marta: “Eu sei que ele ressuscitará na ressurreição, no último dia”. 25 Então Jesus disse: “Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, mesmo que morra, viverá. 26 E todo aquele que vive e crê em mim, não morrerá jamais. Crês isto?” 27 Respondeu ela: “Sim, Senhor, eu creio firmemente que tu és o Messias, o Filho de Deus, que devia vir ao mundo”.

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O episódio da ressurreição de Lázaro inicia mostrando a sintonia que reina entre Jesus e a comunidade dos que nele acreditam, representada por Lázaro, Marta e Maria. De fato, esses três representam a comunidade do Discípulo Amado que crescem na fé em Jesus, e as comunidades que aderem a Jesus em todos os tempos.
    

Marta, cuja festa celebramos hoje, representa o tipo de discípulo de Jesus que precisa superar o preconceito da morte enquanto desfecho fatal. Ela crê na ressurreição do último dia, como a maioria dos judeus. Mas Jesus é a Ressurreição e a Vida aqui e agora. Esse é o desafio feito às duas irmãs e a todos nós: Jesus não é a Vida somente depois da morte, mas ele é a Vida em abundância para esta vida e para além dela.
   

Superado o preconceito diante da morte, Marta se torna missionária porque ela vai chamar sua irmã Maria, que está sentada em casa, recebendo os pêsames da sociedade que nada faz diante das pessoas senão tentar consolar com palavras. “Maria ficou sentada em casa” esta expressão quer dizer que para Maria a morte de seu irmão significa o termino de sua vida. A idéia da morte como fim paralisa a comunidade e a faz permanecer no ambiente da dor, cercada pelos que não tem fé em Jesus. Maria tem de sair dessa casa para se encontrar com Jesus, a Ressurreição e a Vida. Também Maria, abandonando a “casa do desespero”, torna-se missionária porque ela conduz os judeus a Jesus que após o sinal (ressurreição) passam a acreditar em Jesus (v.31).
   

Jesus não veio para dar pêsames, e sim para comunicar vida. Após ter agradecido ao Pai, fonte da vida que comunica vida por meio da ação libertadora do Filho, Jesus chama Lázaro à vida. Jesus não veio para prolongar a vida física que o homem possui. Ele veio para comunicar a vida que ele mesmo possui e da qual dispõe: “Assim como o Pai tem a vida em si mesmo, também concedeu ao Filho ter a vida em si mesmo” (Jo 5,26). Esta vida é seu próprio Espírito, a presença Sua e do Pai naquele que o aceita e vive sua mensagem, e esta vida despoja à morte de seu caráter de extinção. Na frase de Jesus “Eu sou a ressurreição e a vida” o primeiro termo depende do segundo: ele é a ressurreição por ser a vida: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). A vida que ele comunica, ao encontra-se com a morte, a supera; isto se chama ressurreição.


A ressurreição de Jesus e a nossa ressurreição pela fé em Jesus ressuscitado é a chave de nossa vida cristã. Crer na ressurreição não é somente crer em uma doutrina. Temos que crer na ressurreição com a vida; não somente com a cabeça. Temos que fazer nossa a ressurreição fazendo nosso o juízo de Deus contra o mal. Temos que crer na ressurreição com nossa atitude e nossas obras. Em outras palavras, temos que fazer ressurreição.


Além disso, crer na ressurreição de Cristo é muito mais que afirmar que Jesus foi tirado por Deus do túmulo; é reconhecer que o projeto de Deus se realiza em cada homem. Crer na ressurreição é crer no Deus da vida. E não somente isso; é crer em nós mesmos como a verdadeira possibilidade que temos de ser algo de Deus. A ressurreição de Jesus é a primícias de que na morte se nasce já para sempre.


Lázaro voltou à vida por ação de Jesus. Mas sua ação libertadora quer comprometer todos os que o seguem. A ação libertadora de Jesus implica nossa prática de libertação: desamarrar todas as pessoas de todos os laços que as prendem a uma situação de morte. Somos chamados a respeitar e a proteger a vida desde seu inicio, na sua duração e no seu término, pois a vida é sagrada. Por ser sagrada, a vida não pode ser sacrificada em nome de ninguém. Assim agindo, estaremos continuando o que Jesus fez, a fim de que todos tenham vida em abundância (cf. Jo 10,10).



A morte de Lázaro pode ser um símbolo de nossa vida espiritual. É necessário que a Palavra de Jesus nos tire da tumba em que nós vivemos, nos liberte de nossas ataduras interiores para poder ter atitudes de vida com os demais. crer em Jesus e segui-lo é o que nos dá vida verdadeiramente e a vida em abundância. Marta crê nele. E graças a esta fé de Marta que Jesus fez Lazaro voltar a viver como uma nova criação.

 
Quais são as amarras que nos prendem a uma situação de morte? E como nos livrar dessas amarras? Quantas vezes nos comportamos como Maria que consideramos a morte como o fim de tudo (acabou tudo) e esta crença, conseqüentemente, paralisa nossa vida. Precisamos ouvir e viver sempre aquilo que Jesus nos diz: “Eu sou a Ressurreição e a Vida. Quem crê em mim ainda que esteja morto viverá”. É preciso que voltemos a ser verdadeiros cristãos vivendo na profundidade o que Jesus nos ensinou. Por este caminho superaremos muitas coisas na vida. Com Jesus ressuscitado, a vida não acaba, mas continua. Para chegar a esta verdade nós precisamos recuperar nossa fé em Jesus que é a ressurreição e a vida.


P. Vitus Gustama,svd

sábado, 20 de julho de 2013

 
A BONDADE DO PAI NOSSO ME FAZ PERSEVERAR NA ORAÇÃO  

 
XVII Domingo Comum “C”
28 de Julho de 2013
 
Texto de Leitura: Lc 11,1-13


1 Jesus estava rezando num certo lugar. Quando terminou, um dos seus discípulos pediu-lhe: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou a seus discípulos”. 2 Jesus respondeu: “Quando rezardes, dizei: ‘Pai, santificado seja o teu nome. Venha o teu Reino. 3 Dá-nos a cada dia o pão de que precisamos, 4 e perdoa-nos os nossos pecados, pois nós também perdoamos a todos os nossos devedores; e não nos deixes cair em tentação’” 5 E Jesus acrescentou: “Se um de vós tiver um amigo e for procurá-lo à meia-noite e lhe disser: ‘Amigo, empresta-me três pães, 6 porque um amigo meu chegou de viagem e nada tenho para lhe oferecer’, 7 e se o outro responder lá de dentro: ‘Não me incomodes! Já tranquei a porta, e meus filhos e eu já estamos deitados; não me posso levantar para te dar os pães’; 8 eu vos declaro: mesmo que o outro não se levante para dá-los porque é seu amigo, vai levantar-se ao menos por causa da impertinência dele e lhe dará quanto for necessário. 9 Portanto, eu vos digo: pedi e recebereis; procurai e encontrareis; batei e vos será aberto. 10 Pois quem pede, recebe; quem procura, encontra; e, para quem bate, se abrirá. 11 Será que algum de vós, que é pai, se o filho lhe pedir um peixe, lhe dará uma cobra? 12 Ou ainda, se pedir um ovo, lhe dará um escorpião? 13 Ora, se vós, que sois maus, sabeis dar coisas boas aos vossos filhos, quanto mais o Pai do Céu dará o Espírito Santo aos que o pedirem!”

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Como se sabe, Lucas é conhecido como uma pessoa orante e a  sua comunidade é uma comunidade orante, porque ele dá uma atenção particular à oração. No seu evangelho ele faz notar nove vezes que Jesus reza; só duas ocasiões de oração são comuns com os outros evangelhos sinóticos. Lc 11,1-13 é realmente um pequeno catecismo sobre a oração. A oração envolve o evangelho inteiro desde o primeiro capítulo que abre com uma solene liturgia no templo de Jerusalém (Lc 1,5-25) até a reunião dos discípulos, depois da ascensão, novamente no templo para louvar a Deus (Lc 24,53).
    

A oração não é uma atividade que se justapõe extrinsecamente ao homem, mas ela jorra do ser, nasce do próprio mistério do homem, destila e flui da realidade de todos os homens. Poderíamos dizer que a oração é, de certo modo, o próprio ser do homem que se torna transparente à luz de Deus, que se reconhece por aquilo que é e, ao reconhecer-se, reconhece a grandeza de Deus, a Sua santidade, o Seu amor, o Seu desígnio de misericórdia. Ela é uma percepção da realidade que logo se desabrocha em louvor, em adoração, em agradecimento e em pedido de piedade Àquele que é a origem do ser. Por isso, quem sabe viver bem/conscientemente, sabe também rezar bem/conscientemente. E quem sabe rezar bem/conscientemente, também sabe viver bem/conscientemente.
      

A oração exige uma relação em que você permite ao Outro entrar no centro de sua pessoa, permite-lhe falar ali, permite-lhe tocar o núcleo sensitivo de seu ser e permite-lhe ver tudo o que você preferiria deixar oculto na escuridão. Ao orar você se abre para a influência do Poder que se revelou como Amor. O Poder que lhe dá liberdade e independência. Uma vez tocado por esse Poder, você não é mais arrastado para lá e para cá pelas inúmeras opiniões, idéias e sentimentos que passam por você. Você encontrou um centro para sua vida, e este centro lhe dá uma distancia criativa de modo que tudo o que você vê, ouve e sente pode ser testado de acordo com a fonte.
        

Por isso, ao rezar, de você se pede que abra seus punhos firmemente cerrados e dê sua última moeda para Aquele que pode preencher todo o espaço de sua vida. O homem que ora é um homem com as mãos abertas perante Deus para o mundo. Ele sabe que Deus se mostrará na natureza circundante, nas pessoas que ele encontra, nas situações por onde passa. Uma pessoa torna-se uma pessoa quando é capaz de se abrir para todas as dádivas que estão preparadas para ela. Um homem que ora pode voltar a respirar livremente e tem a liberdade de mover-se para onde quiser sem que medos o persigam. O homem que vive do sopro de Deus pode reconhecer com alegria que o mesmo sopro mergulha no pulmão de seu semelhante e que ambos bebem da mesma fonte. Nessa percepção mútua, o medo do outro desaparece, as armas caem, um sorriso vem aos lábios e uma mão se estende para o outro. Aquele que percebe o sopro de Deus no outro pode deixar o outro entrar de verdade em sua vida.
      

Quando a vida do homem está se tornando cada vez mais uma oração, ele percebe que está sempre ocupado convertendo-se e adquirindo uma compreensão maior de seu semelhante. Também ele percebe que a oração é o pulso do mundo em que ele vive. O homem que ora inspira o mundo, olha para ele com compaixão e, nesse olhar, penetra a fonte de todo ser.


O texto do Evangelho deste domingo fala da oração do Pai-Nosso na versão de Lucas.
  

Desde a antigüidade são conhecidas três formas do Pai-Nosso: (1) o mais curto é a versão lucana (Lc 11,1-4) com cinco pedidos; (2) Mt 6,9-13 é o mais longo com sete pedidos, o que se pode suspeitar ser uma redação mais recente. No entanto, segundo J. Jeremias, o uso da palavra “dívida” por Mateus revela uma presença de um aramaismo, dado que no grego comum não se usava a palavra “dívida” (ofeilemata) para indicar pecado, mas “falta, pecado”(amartia) como está no texto de Lucas e Marcos; e (3) Didaqué 8,2 (Catecismo dos primeiros cristãos/Instrução dos Doze Apóstolos) que é o mais longo ainda, com sete pedidos e a doxologia.
    

Rezar o Pai-Nosso é seguir Jesus Cristo, aprendendo dele a maneira de viver, de escolher e também o modo de enfrentar a morte; quais são as razões profundas, as raízes da própria existência. Antes de introduzir a oração do Pai-Nosso, Lucas apresenta o modelo: Jesus que ora (v.1). Os discípulos sabem como e quando rezar, não na base de um manual de orações ou de um calendário sagrado, mas seguindo o estilo de seu Mestre, sua atitude de fidelidade e liberdade, em comunhão total com o Pai: uma comunhão e confiança que não podem ser perturbados, nem sequer pela provação suprema que é o absurdo de uma morte violenta e vergonhosa.
  

Neste texto, os apóstolos pedem a Jesus: “Senhor, ensina-nos a rezar, como também João ensinou os discípulos dele” (v.1). Devemos observar logo de início que o pedido dos apóstolos não foi feito quando eles se encontraram pela primeira vez com Jesus, mas muito mais tarde, depois de eles terem visto Jesus se retirar para lugares desertos a fim de rezar. E só entendemos o peso deste pedido se consideramos que os discípulos não tinham nenhum motivo de querer aprender “mais uma” oração. O bom judeu sabe de cor a maioria das 150 preces oficiais, os Salmos. Por isso, aqui, não se trata de querer saber uma oração “nova”. Os apóstolos estavam fascinados com Jesus porque para rezar ele se retira a lugares ermos (Mt 14,13). Jesus não grita, não tira os sapatos, não atira ao chão. Na montanha, no silêncio da noite, ele se mergulha na presença de Deus. Deus está na total intimidade de sua vida (cf. Mc 1,35s;Lc 6,12;9,18.28;Jo 11,41ss). Voltando da oração, Jesus orante tem sobre os discípulos uma irresistível atração divina. Nenhum homem sabia se aproximar de Deus com tanta reverência, e ao mesmo tempo com tão incomparável confiança. Entre Jesus e Deus havia a total intimidade.
   

A resposta de Jesus para o pedido é a oração do Pai-Nosso. É uma oração tão simples e fácil, que aprendemos quando pequenos, e, no entanto, oração riquíssima. Nela descobrimos a palavra “Pai”, Deus-Pai como novo horizonte de vida.
      

A palavra “Pai” (Abba, Papaizinho) encontra-se, nos evangelhos: 118 vezes em Jo, 5 vezes em Mc, 17 vezes em Lc e 44 vezes em Mt. E em outra parte do NT: 42 vezes em Paulo, 2 vezes em Hb, 24 vezes nas Cartas católicas e 5 vezes no Ap. Dizer “Pai” significa que não precisamos fazer um esforço de imaginação para conhecer a Deus, para imaginá-lo. Dizer “Pai” nos torna disponíveis, enche-nos de confiança, facilita a nossa entrega, pois estamos certos de sermos ouvidos, e isto nos permite superar as barreiras do medo e da incerteza. Dizer “Pai” significa que eu devo me comportar como filho diante dele e como irmão diante dos outros, pois eu sou irmão de muitos outros irmãos. Dizer “Pai” faz nascer a certeza de que somos amados, isto é, nos leva a um ato de inteiro abandono em Deus.
     

“Santificar” e “nome” (v.2). Santificar, biblicamente, é sinônimo de louvar, bendizer e glorificar; é tornar-se santo. Santo tem como sinônimo justo, perfeito, bom e puro. O “nome” é propriedade; o nome é a extensão da personalidade; ele é o próprio ser. O nome é indicativo direto da pessoa, por isso, a interdição de invocar seu nome (Ex 20,7) é porque o nome indica o próprio portador. Santificar o nome de Deus é comprometer-se com a sua justiça, com a justiça ao órfão, à viúva, com o trabalhador do campo, com o operário da cidade.
     

Com o “venha o teu reino”, exprimimos o desejo, o anseio pela manifestação daquela realidade que se condensa na palavra “reino”, e que pode ser expressa de mil outros modos: justiça, fraternidade, triunfo da vida, derrota da morte, situação em que não mais haverá lágrimas ou luto, capacidade de nos conhecermos e de nos amarmos a fundo, plenitude do Corpo de Cristo realizado na Igreja, unidade verdadeira entre as pessoas e entre todos os povos. Por isso, o “reino do Pai” é bem diferente dos “reinos deste mundo” com suas lutas pelo poder, seus altos cargos, sua imponência, sua falta de paz e ameaças de guerra.


“O pão necessário, dá-nos a cada dia”. “Pão” em hebraico “lehem” (que compõe a palavra Betlehem = a casa do pão) é o conjunto dos bens que servem para sustentar a vida. Por mais altos que forem os vôos do espírito, por mais profundos os mergulhos da mística, por mais metafísicos os pensamentos abstratos, o ser humano sempre depende de um pouco de pão, de um copo de água, enfim de uma pequena porção de matéria. O homem se apresenta diante de Deus como uma criatura que necessita ser sustentada na sua vida material. O pão é sagrado porque sustenta a vida que é sagrada. Por causa disso, o pão é uma preocupação constante de cada pessoa, de cada família. Nenhuma oração, nenhum ato espiritual dispensa o pão. Deus quer que ganhemos o pão com o trabalho que implica tempo, suor e lágrimas. E o pão que comemos diariamente esconde toda rede de relações anônimas que sempre devem ser recordadas. Antes de chegar à nossa mesa, passou pelo trabalho de muitos braços. Em cada pão que se come, por isso, há sentido de fraternidade e de partilha; embora haja também relações de exploração e lágrimas escondidas em cada pão que se come. Mas o pão que nós comemos, fruto da exploração/roubo do irmão, não é pão abençoado por Deus. É pão que apenas nutre, mas não alimenta a vida humana que é somente humana enquanto vive na reta ordem da justiça e da fraternidade.
       

O homem não somente vive, mas convive. Ele se relaciona. Aqui é que surgem conflitos, brigas, guerras etc. Para que a convivência possa permanecer, o perdão mútuo é indispensável. Toda convivência humana é baseada no perdão. O perdão é invocado a Deus (v.4), o único que pode quebrar o círculo do pecado que gera pecado, solidão e morte. O próprio Deus sempre está pronto para nos perdoar, pois Ele quer saber de nossa volta a Ele e não do quanto tempo de nosso afastamento. Podemos fazer contra ele as piores ingratidões, mas basta que nos voltemos para ele, para que nos perdoe. Precisamos sempre do perdão de Deus, perdão que nunca nos falta, perdão pelas nossas seguidas quedas, e pela nossa incapacidade de realizar o Reino. Mas precisamos também do perdão recíproco. Perdoar não é exigir que o outro se humilhe. Perdoar não exigir que o outro primeiro se converta, que o outro venha expiar sua culpa para depois perdoá-lo. O perdão vem primeiro. Perdoar é doar até o fim. É doar-se sem jamais colocar limites. Perdoar é mostrar que seu amor é maior do que a ofensa do outro. Se a ofensa derrubar, se desanimar seu amor, é porque seu amor é pequeno e bem frágil ainda.
     

O último pedido expressa a consciência da precariedade na existência humana exposta ao risco de aderir ao mal na sua extrema gravidade. O homem é um ser tentável. Mas precisamos estar conscientes de que a tentação é sinal de predileção, pois somente quem anda com o Senhor é tentado. Somente quem pratica a justiça e o bem em geral é tentado. Mas mesmo assim, precisamos do apoio de Deus para não cairmos em tentação no momento do perigo, e para que o Reino não se obscureça em torno de nós. Na tradição bíblica do NT, estar livre da tentação é estar protegido contra a apostasia ou contra a negação da fé. Na verdade, é uma súplica positiva. A tentação pode ser um desejo de construir um Reino próprio e colocar-se no lugar de Deus.
      

Depois que ensinou os discípulos sobre a oração do Pai-Nosso, Jesus contou uma parábola referente a essa oração.


Deve-se compreender a parábola a partir da vida de uma aldeia palestinense e da lei da hospitalidade, que era sagrada para o judeu. Um homem recebe visita durante a noite e, não tendo nada para oferecer ao seu visitante, recorre ao vizinho para que este lhe empreste três pães. Ainda que o vizinho já esteja dormindo, e inicialmente, recuse o pedido por causa dos incômodos que o levantar-se, abrir a porta etc., ele acabará ouvindo o pedido do amigo.


O ensinamento teológico do evangelista é claro: Deus pode tardar, mas ele ouvirá os nossos pedidos. O segredo é a insistência. Se na primeira vez o pedido não é alcançado, pede-se uma segunda vez. Não devemos brincar de orar, mas sim, devemos mostrar persistência se não recebemos a resposta imediatamente. Não é que Deus não deseje atender e por isso precisa ser pressionado para dar uma resposta. Mas se não quisermos aquilo que estamos pedindo, suficientemente para sermos persistentes, então, não fazemos muita questão dele. Não é uma oração tépida assim que é respondida.


A interrogação permanece: faz sentido a prece de súplica (pedir, procurar, bater), se Deus já sabe das nossas necessidades?


A prece de súplica fundamenta sua eficácia em duas razões básicas: a bondade paterna de Deus e a fé do ser humano. Fidelidade e confiança encontram-se como reciprocidade no diálogo: a do Pai e a do filho. Confiar é o olhar da fé que sabe ver Deus. Se não há fé, a confiança não surge, e corre-se o risco da volta à ausência de sentido da vida, sobretudo quando se toca com a mão o extremo do próprio limite. A confiança cresce encorajada pela descoberta da bondade de Deus. A bondade de Deus é a raiz da confiança, porque ele é fiel às suas promessas.  “O homem fiel é aquele que crê no Deus que promete; o Deus fiel é aquele que concede o que prometeu ao homem” (Papa Francisco: Lumen Fidei, Carta Encíclica).


Assim, a súplica paciente não tem como meta lembrar a Deus a sua fidelidade, mas fazer crescer dentro de nós o hábito da necessidade dele, da dependência dele, relembrando que tudo está sob o sinal da graça. Crescendo dos imperativos (peçam, procurem, batam), aparentemente diz respeito a coisas concretas, mas, na verdade, concita o discípulo a converter o coração ao amor solícito do Pai. A experiência do amor paterno é a verdadeira parábola para compreender a generosidade de Deus, o seu amor que não se desmente. A oração é, certamente, a total abertura ao amor fiel de Deus.
  

Mas devemos estar conscientes de que Deus não exclui a responsabilidade da pessoa que reza nas tarefas que a história estabelece. Somente assim tudo o que é rezado torna-se verdadeiro, e remete ao compromisso sério da vida. Apenas assim, a prece foge do risco da alienação porque tudo se recompõe dentro da misteriosa e realizadora vontade de Deus.
      

Jesus conclui seu ensinamento sobre a oraçao dizendo: “O Pai do céu dará o Espírito Santo” (v.13). Eis a grande resposta à prece de súplica: a dádiva do Espírito. A promessa de Deus ultrapassa toda espera, transcende a imaginação humana. O segredo da eficácia não se fundamenta somente na confiança, mas, também, na disponibilidade de acolher os grandes bens de Deus. E Lucas enfatiza que o Pai dará o Espírito. Jesus parece dizer que, antes de perguntar como se aprende a rezar (cf. Lc 11,1), é necessário pedir a presença do Orante: a presença do Espírito Santo que "intercede" em nós e para conosco(Lc 11,13;Rm 8,26). A prece cristã em Lc 11 chega ao seu ápice e qualifica-se como diálogo dos filhos no seio da comunhão da Trindade. A prece daquele que crê é a experiência da paternidade de Deus, é a participação no caminho do seu Reino na história, revelada na sua plenitude mediante a encarnação do Filho, e é a consciência nova da filiação, no Filho, por obra do Espírito.
     

Não estou só, porque o Espírito Santo implora em mim e por mim, aquilo que eu não sei pedir, e o meu Salvador está junto de mim, une-me a Si e me faz participante de seus sentimentos filiais. Ele vem em auxílio da nossa fraqueza (cf. Rm 8,26-27). Ali onde existe a presença do Espírito é possível reconhecer o Pai, a sua vontade, a procura do seu Reino, o compromisso pelo pão cotidiano, o testemunho da misericórdia, a libertação do mal. Quando o Espírito está ausente da vida, o discípulo torna-se um estranho, desanima, não sabe mais o que pedir e como rezar. 

P. Vitus Gustama,svd
 
SER REFLEXO DA PACIÊNCIA DIVINA


Sábado da XVI Semana Comum
27 de Julho de 2013
 
Texto de Leitura: Mt 13,24-30


Naquele tempo, 24 Jesus contou outra parábola à multidão: “O Reino dos Céus é como um homem que semeou boa semente no seu campo. 25 Enquanto todos dormiam, veio seu inimigo, semeou joio no meio do trigo, e foi embora. 26 Quando o trigo cresceu e as espigas começaram a se formar, apareceu também o joio. 27 Os empregados foram procurar o dono e lhe disseram: ‘Senhor, não semeaste boa semente no teu campo? Donde veio então o joio?’ 28 O dono respondeu: ‘Foi algum inimigo que fez isso’. Os empregados lhe perguntaram: ‘Queres que vamos ar­rancar o joio?’ 29 O dono respondeu: ‘Não! pode acontecer que, arrancando o joio, arranqueis também o trigo. 30 Deixai crescer um e outro até a colheita! E, no tempo da colheita, direi aos que cortam o trigo: arrancai primeiro o joio e o amarrai em feixes para ser queimado! Recolhei, porém, o trigo no meu celeiro’”.

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Estamos no discurso de Jesus sobre o Reino de Deus em parábolas. Desta vez Jesus nos conta a parábola sobre o joio no meio de trigo. O joio é uma planta da família das gramíneas (lolium temulentum) que cresce no meio do trigo que dificilmente se distingue do bom trigo durante o seu crescimento; só se vê a diferença nas espigas. As espigas do trigo alimentam o homem (animal), enquanto que o joio produz uma espiga de grãos escuros de efeito altamente tóxico. Mas, na verdade, não há necessidade saber da espécie de erva parasita que Jesus fala nessa parábola; basta saber que se trata de uma planta nociva.


Esta parábola conta uma cena da vida cotidiana: o dono do campo que semeia a boa semente, o inimigo que prejudica o campo de trigo ao semear o joio, as relações entre o patrão e os empregados. Tudo parece normal, exceto a surpreendente reação do dono do campo: deixar que ambos (joio e trigo) cresçam juntos. A atitude do dono, evidentemente, chama a atenção dos ouvintes, porque a atitude normal é arrancar logo o joio para que o trigo possa crescer saudavelmente a fim de produzir boas espigas. O dono sabe que o joio pode impedir ou dificultar o crescimento do trigo, mas os dois parecem muito ao princípio e é possível que ao arrancar o joio, arranquem também o trigo. O dono quer que se espere o tempo da colheita para separar o trigo do joio.
    

Evidentemente a parábola do joio orienta-se para o fim dos tempos, pois ela trata do juízo final, que introduz o Reino de Deus. Nesta parábola rejeita-se expressamente a idéia duma separação antes do tempo ou uma precipitação e exorta-se à paciência até chegar o tempo da colheita. Os homens não estão absolutamente em condição de fazer esta separação (v.29), pois ao fazer separação que é a competência de Deus, os homens cairiam em erros de julgamento e os dois (joio e trigo) acabam morrendo juntos, pois quem julga o outro, cai também no julgamento (Mt 7,1).
   

Infelizmente a tendência espontânea dos homens é a de repartir a humanidade em duas categorias: os bons e os maus. E os maus sempre são os outros e os bons sempre somos nós. Por isso, somos intolerantes para as faltas alheias, mas muito amigos de nos auto-justificarmos e muito ligeiros a desculpar-nos. Que as bênçãos de Deus caiam sobre nós e nossa família, e as maldições sobre os maus, sobre os inimigos. Com isso, somos maus do mesmo jeito. Com esta atitude os homens, no fundo até inconsciente, tem uma tendência espontaneamente sectária e intolerante. O outro o amedronta enquanto não se tornou seu “semelhante”. O mal e o bem não estão só fora de nós, mas dentro do nosso coração. Ao esquecermos isto, nos constituímos juízes dos outros. Ninguém pode ter a presunção de ser trigo limpo, porque ninguém é tão bom que não tenha algum joio. Somente Deus é bom plenamente (Mc 10,18).
    

Através desta parábola Jesus quer revelar também a paciência de um Deus que adia o julgamento (vv.28-30) a fim de deixar ao pecador o tempo para se converter. Apesar de ter na sua mão todo o poder, Deus se mostra tolerante e paciente para com a sua criatura, o homem, que é débil, limitado e pecador. Ele não exclui ninguém do Reino: todos são convocados até o último minuto, todos podem entrar nele. A cólera não é a última palavra da manifestação divina. O perdão sempre prevalece. A paciência divina está aberta para todos aqueles que se convertem.
   

Por sua atitude durante toda a sua vida, Jesus encarna a paciência de Deus em relação aos pecadores. Não existe pecado que não possa ser perdoado por Deus, se o pecador se converter; nenhum pecado arranca o homem do poder misericordioso de Deus.
   

O segredo desta paciência de Jesus é o amor. Jesus ama o Pai com o mesmo amor com que é amado, pois é o Filho. Jesus ama os homens com o mesmo amor com que o Pai os ama. Talvez a expressão joanina seja melhor para descrever o amor de Jesus: “...amou-os até o fim” (Jo 13,1). Jesus ama os homens até em seu pecado. Foi o pecado dos homens que conduziu Jesus à cruz. No momento supremo em que o desígnio divino parece comprometido pela atitude dos homens, o amor se faz totalmente misericordioso: ”Pai, perdoa-lhes; porque não sabem o que fazem” (Lc 23,34). Jesus, realmente, amou os homens até o fim.


Por ser membro do Corpo de Cristo, todos nós temos a missão de encarnar a paciência de Jesus. É na paciência que se conquista a vida (Lc 21,19). A paciência não é passividade. Por isso, ela é uma virtude dos fortes e prudentes.
     

Nossa tarefa neste mundo não é a de repartir os homens entre os bons e os maus, mas a de revelar o amor misericordioso de Deus. Ninguém por si tem o direito de se constituir critério para o seu irmão. Não o irmão justo é o nosso critério, mas o Deus santo e misericordioso. Aqui na terra, o trigo está sempre misturado com o joio, e a linha de demarcação entre um e outro passa em todo homem. O cristão e a cristã são chamados a exercer sua função como pedra insubstituível na construção do Corpo de Cristo (Igreja) e a cooperar de modo original na realização da história da salvação. Quando o cristão não se tornar mais o sinal do amor de Deus, a missão automaticamente degrada-se em propaganda ou em tentativa de autopromoção. Para isso, temos que nos renovar sem cessar por dentro através do alimento da Palavra de Deus e da Palavra que se faz carne na Eucaristia.
     

Além disso, essa parábola serve de exortação para todos os cristãos. Deus deixa conviver os bons com os maus, sem pressa de fazer juízo. E nessas circunstâncias não sabemos se fazemos parte do grupo dos bons ou do dos maus; se somos do trigo ou do joio. Mas como Deus tem paciência, sempre é tempo de tentarmos produzir alguma coisa positiva, e rendermos para a vida presente para vivermos na vida eterna.
 

Portanto, precisamos estar conscientes de que o bem e o mal são duas realidades que aparecem juntos em nossa vida porque brotam da mesma fonte: o coração. Da abundância do coração fala a boca, o que sai de dentro é o que faz boa ou má à pessoa. Isto nos faz viver verdadeiramente em constante contradição interna como reconhece Paulo: “Realmente não consigo entender o que faço; pois não pratico o que quero, mas faço o que detesto” (Rm 7,15). Não há ninguém tão bom que não tenha algo de mau, e não há ninguém tão mau que não tenha algo de bom. Quem opta por fazer o bem sabe que tem que enfrentar o mal em todas suas formas.

P. Vitus Gustama,svd