segunda-feira, 30 de setembro de 2013

 
SANTOS ANJOS DA GUARDA


Quarta-feira, 02 de Outubro de 2013

Texto de Leitura: Mt 18,1-5.10


Naquela hora, 1 Os discípulos aproximaram-se de Jesus e perguntaram:  "Quem é o maior no Reino dos Céus?" 2Jesus chamou uma criança, colocou-a no meio deles 3 e disse: "Em verdade vos digo, se não vos converterdes, e não vos tornardes como crianças, não entrareis no Reino dos Céus. 4 Quem se faz pequeno como esta criança, esse é o maior no Reino dos Céus. 5 E quem recebe em meu nome uma criança como esta, é a mim que recebe. 10 Não desprezeis nenhum desses pequeninos, pois eu vos digo que os seus anjos nos céus vêem sem cessar a face do meu Pai que está nos céus.

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No dia 02 de outubro a Igreja celebra, especificamente, a memória dos santos Anjos da guarda. Na Sagrada Escritura, os anjos são mediadores de mensagens divinas, e guiadores- custódios dos homens.

O termo hebraico “mal’ak” (“angelos”, grego) significa mensageiro, enviado. O que se enfatiza pelo sentido da palavra é a função e não a natureza. Por isso, no Antigo Testamento Deus envia os profetas (Is 14,32) e sacerdotes (Ml 2,7) como Seus enviados.


Por que se fala, especificamente de uns anjos que nos acompanham pessoalmente, que nos protegem na caminhada cotidiana?


Poderíamos responder, em primeiro lugar, que se trata de símbolos para falar do amor providente de Deus que cuida de sua criatura para que esta chegue à sua plena realização quando houver colaboração da própria criatura ou das circunstâncias na quais se encontra. Era normal expressar, através de recursos literários provenientes de um contexto, as realidades misteriosas usando uma linguagem figurativa.


Em segundo lugar, os anjos são um reflexo misterioso do rosto de Deus e de sua bondade em nossa realidade. De fato, quando alguém nos trata bem, nos ajuda sem reservas etc. logo lhe dizemos: “Você é um anjo!”. Isto significa que a bondade de Deus se reflete naqueles que fazem o bem, chamados de mensageiros de Deus ou anjos de Deus no nosso dia a dia.


Em terceiro lugar, Os anjos da guarda nos revelam a presença transcendente de Deus em cada pessoa, especialmente nos mais pobres. O maior no Reino de Deus é a criança e quem se faz pequeno, como criança, porque representa, em forma paradigmática, o despojamento de todo poder. O despojamento da soberba e da prepotência do poder é a condição para entrar no Reino de Deus. Alguém entra nele, quando descobre o poder de Deus: o poder de seu amor, o poder de sua Palavra e o poder de seu Espírito. Reino de Deus é Poder de amor de Deus. Esta presença de Deus nos mais pobres, que são os maiores no Reino, é o que dá aos pobres essa transcendência.


Cada pessoa, cada família, cada comunidade, cada povo, tem seu próprio anjo da guarda. O Livro de Êxodo nos mostra o Povo de Deus conduzido diretamente pelo anjo de Deus. O povo deve comportar-se bem na sua presença, escutar sua voz e não ficar rebelde. No anjo está o Nome de Deus. O Nome é o que Deus é. O anjo é essa presença de Deus no Povo de Deus.


Também cada um de nós deve descobrir nosso próprio anjo da guarda, sentir sua presença e escutar sua voz. Devemos viver conforme a esta presença transcendente em nós e refleti-la continuamente em nosso rosto. Para isso, é preciso ler, meditar e colocar em prática a Palavra de Deus. Estar em sintonia com a Palavra de Deus nos faz sensíveis para a presença de Deus na nossa vida cotidiana e nos torna conscientes de nossa tarefa como mensageiros de Deus na convivência com os demais.


Deus como Pai providente, sempre vela por nós e se aproxima de nós por meio de Jesus, Seu Filho feito Homem. Ele sempre manifesta seu amor para os pobres e os enfermos, para os pequenos e pecadores. Seu amor preferencial para aqueles que são considerados como os pequenos (“crianças”) desprotegidos de tudo e necessitados de tudo, nos recorda que este deve ser também o nosso caminho como a Igreja. A grandeza da Igreja consiste em dar atenção aos mais necessitados e em ajudá-los, pois “quem recebe em meu nome uma criança como esta, é a mim que recebe”, disse Jesus. Quem vive unido a Cristo, cuida dos irmãos necessitados como Deus vela por nós. Quem não vê o pobre, não será visto por Deus.

P. Vitus Gustama,svd
 
CAMINHAR COM JESUS PARA  VIVER A VIDA NA SUA PLENITUD E PARA CONVIVER NA PAZ


Terça-Feira da XXVI Semana Comum
01 de Outubro de 2013

Texto de Leitura: Lc 9, 51-56


51 Estava chegando o tempo de Jesus ser levado para o céu. Então ele tomou a firme decisão de partir para Jerusalém 52 e enviou mensageiros à sua frente. Estes puseram-se a caminho e entraram num povoado de samaritanos, a fim de preparar hospedagem para Jesus. 53 Mas os samaritanos não o receberam, pois Jesus dava a impressão de que ia a Jerusalém. 54 Vendo isso, os discípulos Tiago e João disseram: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para destruí-los?” 55 Jesus, porém, voltou-se e repreendeu-os. 56 E partiram para outro povoado.
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É Preciso Caminhar Com Jesus Para Chegar à Plenitude Da Vida


Com o texto do evangelho de hoje Jesus começa seu caminho (êxodo) para Jerusalém. Trata-se de uma viagem sem volta, pois em Jerusalém Ele será crucificado, morto e glorificado. Durante o caminho para Jerusalém Jesus vai dando suas lições mais importantes para seus discípulos (Lc 9,51-19,28) e, portanto, para todos os cristãos.


A vida é realmente uma peregrinação ou uma viagem. E a Igreja nos recorda que somos peregrinos. Ela mesma está “presente no mundo e é peregrina” (Sacrosanctum Concilium, 2  do Concílio Vaticano II - Sobre a Liturgia). A vida como uma peregrinação não há volta. Não há a marcha a ré. O nosso nascimento já é um bilhete dessa peregrinação. Não dá para nascer novamente. Daí para frente tudo depende de nós na colaboração com a graça de Deus. Estamos em permanente peregrinação.


Jesus vive essa forma de vida mostrando o seu significado pleno. Em Cristo, o próprio Deus se fez peregrino para vir ao encontro do homem nos seus caminhos para, com Ele, começar a peregrinar para a eternidade. E o fato de Jesus não ter “uma pedra onde repousa a cabeça” (Lc 9,58) e sua vida apostólica itinerante revelam a sua identidade de peregrino por excelência. Por isso, devemos fazer sempre de Jesus o centro de nossa vida e ser moldados num instrumento da graça de Deus. Esse é o caminho para continuar andando rumo à total comunhão com Deus.


E para sentir a liberdade de caminhar nesta peregrinação temos que experimentar a alegria do desapego. As maiores dificuldades no progresso, tanto material como espiritual, estão em nosso arraigado apego às coisas tanto presentes como passadas, caducas e superficiais.


O texto do evangelho começa com a seguinte frase: “Jesus tomou a firme decisão de partir para Jerusalém...”. Em Jerusalém Jesus será morto e de Jerusalém sairá o novo movimento de evangelização para o mundo inteiro (cf. Lc 24,47-48; At 1,8) que chegou até nós hoje.

Todos os três evangelhos (Mt, Mc e Lucas) falam desta viagem. Mas somente Lucas usa esta viagem de Jesus com o motivo catequético básico, de que a vida de Jesus foi também um longo caminhar para uma meta: “As raposas têm tocas e os pássaros têm ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”. O “caminhar” de Jesus é um êxodo permanente até chegar à glória. Ele luta até chegar à meta: até a glória.


Durante esse caminho Jesus vai instruindo a comunidade de discípulos de acordo com o próprio caminhar de Jesus. Os discípulos de todos os tempos encontram, então aqui, a regra perene de sua atuação cristã. Neste texto encontramos maneira sobre como os cristãos devem se comportar e viver como seguidores de Cristo. Trata-se de uma “caminhada” interior, isto é, a caminhada que parte do que somos até o esvaziamento completo de nós e até a vivência na plenitude da vontade de Deus que é a salvação ou glorificação de nossa vida em Deus. é preciso caminhar com Jesus para chegar à glorificação de nossa vida.


É Preciso Conviver Em Paz


“’Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para destruí-los? ’ Jesus, porém, voltou-se e repreendeu-os. E partiram para outro povoado”.


O fundo do relato do texto do Evangelho lido neste dia é a inimizade e o ódio entre samaritanos e judeus que originalmente é de tipo racial, e depois de tipo político e religioso. O caminho habitual da Galiléia para Jerusalém passa por Samaria. Um grupo galileu de discípulos vai adiante para preparar a hospedagem para Jesus em Samaria. Mas os samaritanos não aceitam a presença de Jesus em Samaria, pois ele está a caminho para Jerusalém. Os samaritanos interpretam o caminho para o Templo de Jerusalém como infra-valorização do templo Garizim construído sobre um monte onde os samaritanos fazem suas atividades religiosas, e não em Jerusalém (em 129 a. C João Hircano o destruiu). Por essa recusa os discípulos disseram a Jesus: “Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para destruí-los?”. Esta frase nos lembra do episódio entre o profeta Elias, defensor do monoteísmo, contra os mensageiros do rei Ocozias que consultava outros deuses sobre como curar suas feridas. Por isso o profeta Elias pediu o fogo do céu e o fogo caiu sobre esses mensageiros e morreram todos (cf. 2Rs 1,1-18).


A atitude de Tiago e de João põe em evidência de que os Apóstolos não entenderam plenamente Jesus e seus ensinamentos. Eles, por sua intolerância, não encontraram outro caminho para tratar aos samaritanos sem o caminho da violência. Jesus repreende energicamente os dois apóstolos.


A atitude de Tiago e João continua presente em muitas religiões do mundo. Por todos os meios os seres humanos, ao longo da história, buscaram a forma de acabar com os que pensam, atuam ou vivem de forma diferente. Como cristãos temos que respeitar os demais e fazer possível a paz entre as religiões. Para ter a paz entre as religiões, primeiramente, deve haver diálogo entre as religiões. Mas antes disso, deve haver um intra-diálogo em cada religião. O diálogo permite o encontro. O confronto possibilita a guerra. É preciso ficarmos desarmados em todo o momento para ganhar alguém para ser parceiro do bem e da paz.


Diante da proposta dos discípulos Jesus enfatiza que qualquer discípulo, qualquer cristão não pode ser movido por sentimentos de vingança, de violência, de desafronta, de intolerância, de ódio ou de intransigência. Quem é tolerante não vê a diferença e a alteridade como ameaça, e sim como estímulo para se aproximar e aprender do outro numa atitude de diálogo.


O radicalismo de nossas atitudes, muitas vezes, é uma expressão de nossa pouca bondade. Com esta pouca bondade tomamos atitudes que violentam a história de Deus com os homens. A violência sempre gera um processo desumanizador que perverte radicalmente as relações entre os homens, e introduz na história novas injustiças e impede o caminho para a reconciliação.


O fogo que Cristo traz do céu não é aquele que queima e elimina as pessoas, e sim aquele que ilumina e purifica o mundo de suas impurezas. É o fogo do Espírito Santo. É o fogo de amor. O único fogo que nós cristão podemos usar é o fogo de amar aos demais até o fim como fez Jesus (cf. Jo 13,1). Jesus nos libertou para sermos livres, como diz São Paulo (Gl 5,1). Liberdade em Cristo é para amar mais e melhor. Amar a Deus e ao irmão é condição para ser livre. Quem foge é porque não está livre. A liberdade daquele que ama a Deus e ao irmão é a identificação total com a vontade de Deus, com o bem e com a verdade.


Por isso, o caminho que Jesus propõe para quem quiser segui-lo não é um caminho de “massas”, mas um caminho de “discípulos”: implica uma adesão incondicional ao “Reino”, à sua dinâmica, à sua lógica. Implica uma adoção do espírito de Jesus que é o espírito de amor.

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 27 de setembro de 2013

 
TER AUTORIDADE E SER PARCEIRO DO BEM
 

Segunda-feira da XXVI Semana Comum
30 de Setembro de 2013
 
O texto da Leitura: Lc 9,46-50

Naquele tempo, 46 houve entre os discípulos uma discussão, para saber qual deles seria o maior. 47 Jesus sabia o que estavam pensando, pegou então uma criança, colocou-a junto de si 48 e disse-lhes: “Quem receber esta criança em meu nome, estará recebendo a mim. E quem me receber, estará recebendo aquele que me enviou. Pois aquele que entre todos vós for o menor, esse é o maior”. 49 João disse a Jesus: “Mestre, vimos um homem que expulsa demônios em teu nome. Mas nós lho proibimos, porque não anda conosco”. 50 Jesus disse-lhe: “Não o proibais, pois quem não está contra vós, está a vosso favor”.
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Estamos na parte final da atividade de Jesus na Galileia. A partir de Lc 9,51-19,28 Jesus sairá da Galileia rumo a Jerusalém onde será crucificado, morto e glorificado.


É Preciso Ter a Autoridade e Não o Poder


Na primeira parte do evangelho lido neste dia o evangelista Lucas nos relatou que entre os discípulos houve uma discussão sobre quem era maior ou quem tinha mais poder. Em outras palavras, eles tinham ambição de ter o poder na mão. Isso significa que até então eles ainda não captaram o essencial da mensagem de Jesus que é preciso pensar no outro e fazer tudo pela sua salvação.


Quem tem o poder geralmente impõe aos outros suas decisões, muitas vezes através dos meios injustos como opressão, repreensão, tortura, ameaça, execução etc.. O poder não respeita a liberdade humana, por isso ele não faz que os homens se tornem bons.  O poder obriga e impõe o silêncio. Quem tem poder geralmente não se preocupa com a ética e com a humanidade. Aquele que tem poder sempre tem tendência de manipular as pessoas e dirigi-las para seus próprios objetivos e sua necessidade de poder. O ambicioso pelo poder, quando dominado pelo vício, não suporta competidores, nem admite rivais e por isso, ele procura todos os meios para humilhá-los e eliminá-los. Ele considera “justo” e “honesto” o uso da violência para atingir seus objetivos. Ele não tem consciência de que o poder é passageiro. Quem desejar ser o primeiro a todo custo não pensa na justiça e na honestidade nem na necessidade dos outros. O respeito aos outros está ausente na vida de um ambicioso.


O contrário do poder é a autoridade. A autoridade está ligada ao crescimento. A palavra “autoridade” vem do latim “augere”, que quer dizer “crescer”. Exercer a autoridade significa sentir-se realmente responsável pelos outros e por seu crescimento sabendo que eles são pessoas que tem um coração, nas quais existe o Espírito de Deus (cf. 1Cor 3,16-17) e que são chamadas a crescer na liberdade da verdade e do amor. Na linguagem bíblica, a autoridade é uma rocha que dá apoio. É o pastor que conduz o gado para o bom pasto (cf. Sl 23 sobre o bom pastor; cf. Jo 10). Os membros da comunidade são essencialmente o rebanho de Jesus: “Apascenta as minhas ovelhas” (cf. Jo 21,15-17). Os membros de uma comunidade logo sentem quando os responsáveis (autoridade) os amam e querem ajudá-los a crescer e não quando estão presentes apenas para administrar, impor sua lei e sua própria visão. A autoridade é o autêntico serviço para a comunidade. A crise de liderança geralmente surge da crise da autoridade.


O grande não é reinar e sim servir no espírito de Jesus. Para Jesus servir é coisa grande e faz quem serve grande diante de Deus, pois servir o mais desprezado dos homens é servir a Deus (cf. Mt 25,40.45). É imitar Jesus.


Os discípulos de Jesus, mesmo estando com Ele, nunca abandonaram suas pretensões de poder. E nós, será que também nós não abandonamos nossas pretensões de poder ao estar na Igreja? Ou usamos a Igreja para facilitar o alcance de nosso poder?


Hoje necessitamos criar uma catequese que realmente cultive o conhecimento de Jesus e a prática de suas atitudes, pois o que Jesus queria era criar um grupo de pessoas que, ao atender a chamada de Deus, proporcionam novas alternativas de vida.


É Preciso Ser Parceiro do Bem


A segunda parte do Evangelho de hoje nos relata que o discípulo João se queixa por ter visto alguém “expulsando demônios” em nome de Jesus, mas esse alguém não pertence ao grupo dos discípulos. A reação de João é imediata: proibir que se faça o bem, pois não é membro da comunidade dos seguidores de Cristo. Com essa proibição os discípulos mostram seu comportamento incompatível com o Reino de Deus: arrogância, sectarismo, intransigência, intolerância, ciúmes, mesquinhez, pretensão de monopolizar Jesus e a sua proposta.
     

Diante desse comportamento dos discípulos Jesus disse-lhes: “Não o proibais, pois quem não está contra vós está a vosso favor”. Com esta exortação Jesus quer que os discípulos superem o sectarismo na prática do bem.  A comunidade cristã deve ser colaboradora na prática do bem e acolher todas as pessoas que praticam o bem independentemente de pertencer ou não à Igreja. Cada cristão deve ser parceiro do bem e por isso, deve reconhecer o bem praticado por qualquer pessoa. Se realmente alguém pratica o bem é porque tem algo de Deus dentro dele, pois Deus é o Bem supremo. E tudo que Ele criou era bom (cf. Gn 1,1ss).


O Espírito de Deus é livre e atua onde quer e como quer. Ele não está limitado por fronteiras, nem por regras, nem por interesses pessoais, nem por privilégios de grupo. Nenhuma Igreja ou religião ou grupo tem o monopólio do Espírito Santo, nenhuma instituição consegue controlá-lo nem prendê-lo. O Espírito não é privilégio dos membros da hierarquia; mas está bem vivo e bem presente em todos aqueles que abrem o coração aos dons de Deus e que aceitam comprometer-se com Jesus e o seu projeto de vida.


Somos convidados a abandonar atitudes como o fanatismo, a intolerância, a intransigência, preconceitos, etc. , pois elas fazem fechar os olhos e o coração diante da manifestação do amor de Deus em tantas pessoas de boa vontade mesmo que se digam não acreditar em Deus, mas Deus acredita nelas por causa do bem que elas praticam. Não temos que sentir-nos ciumentos se Deus quer agir no mundo através de pessoas que não pertencem à nossa Igreja. É preciso ser parceiro deste tipo de pessoa.


Os cristãos são chamados a constituir uma comunidade sem arrogância, sem ciúmes, sem presunção de posse exclusiva do bem e da verdade, pois estes sentimentos e atitudes são incompatíveis com a opção pelo Reino: “Deus resiste aos soberbos, mas dá a sua graça aos humildes” (1Pd 5,5b;Pr 3,34).

P. Vitus Gustama,svd
 
AMOR FRATERNO NOS LEVA AOS ABRAÇOS DE DEUS

(Veja a reflexão do dia 28 de fevereiro de 2013)

 
XXVI DOMINGO COMUM “C”
29 de Setembro de 2013
 
Texto de Leitura: Lc 16,19-31


Naquele tempo, Jesus disse aos fariseus: “19 Havia um homem rico, que se vestia com roupas finas e elegantes e fazia festas esplêndidas todos os dias. 20 Um pobre, chamado Lázaro, cheio de feridas, estava no chão, à porta do rico. 21 Ele queria matar a fome com as sobras que caíam da mesa do rico. E, além disso, vinham os cachorros lamber suas feridas. 22 Quando o pobre morreu, os anjos levaram-no para junto de Abraão. Morreu também o rico e foi enterrado. 23 Na região dos mortos, no meio dos tormentos, o rico levantou os olhos e viu de longe a Abraão, com Lázaro ao seu lado. 24 Então gritou: ‘Pai Abraão, tem piedade de mim! Manda Lázaro molhar a ponta do dedo para me refrescar a língua, porque sofro muito nestas chamas’. 25 Mas Abraão respondeu: ‘Filho, lembra-te que tu recebeste teus bens durante a vida e Lázaro, por sua vez, os males. Agora, porém, ele encontra aqui consolo e tu és atormentado. 26 E, além disso, há um grande abismo entre nós; por mais que alguém desejasse, não poderia passar daqui para junto de vós, e nem os daí poderiam atravessar até nós’. 27 O rico insistiu: ‘Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa do meu pai, 28 porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los, para que não venham também eles para este lugar de tormento’. 29 Mas Abraão respondeu: ‘Eles têm Moisés e os Profetas, que os escutem!’ 30 O rico insistiu: ‘Não, Pai Abraão, mas se um dos mortos for até eles, certamente vão se converter’. 31 Mas Abraão lhe disse: ‘Se não escutam a Moisés, nem aos Profetas, eles não acreditarão, mesmo que alguém ressuscite dos mortos’”.

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Continuamos a acompanhar as Lições do Caminho dadas por Jesus na Sua ultima viagem para Jerusalém, pois Ele será crucificado, morto e glorificado em Jerusalém. Nesta parte do seu evangelho (Lc 9,51-19,28) Lucas colocou as orientações ideais e práticas de Jesus para seus seguidores para poderem prosseguir no caminho que Jesus abriu.


No texto do evangelho de hoje é mantida a lição sobre o uso correto dos bens materiais que foi enfatizada na passagem do evangelho do domingo anterior.
      

Estamos na última parte do capítulo 16 do Lucas. Sabemos que o tema central deste capítulo é o convite de Jesus a usarmos os bens materiais deste mundo corretamente. Jesus conclama as pessoas, todos nós e cada um em particular, a voltar às costas ao deus dinheiro a fim de adorar ao Deus único e verdadeiro.


O dinheiro é um deus que tem altar em quase todos os corações, tanto no rico como no pobre.  Sem dúvida nenhuma, o dinheiro tem muitas das características de divindade. Ele nos dá segurança, pode induzir a culpa, dá-nos liberdade, dá-nos poder e primeiros lugares neste mundo e parece ser onipresente. Podemos tomar o dinheiro e usá-lo para ajudar as pessoas, podemos também usá-lo para que as pessoas estejam sob o nosso domínio. Podemos usar o dinheiro para o bem ou para o mal. Se ele trouxer em si a semente da cobiça, colocaremos as pessoas na posição de devedoras e os efeitos serão ruinosos e fatais. Quando a cobiça motiva nossa doação, ainda estamos tentando nos beneficiar com a transação. E quando a cobiça é ligada ao ato de dar, é particularmente destrutiva por parecer tão boa, tão semelhante a um anjo de luz. É por isso que São Paulo diz que podemos dar tudo o que temos, mas se não tivermos amor, “isso nada me adiantará”(1Cor 13,3).


Ao cristão é dada a elevada vocação de usar a riqueza sem servir a ela. Estaremos usando a riqueza quando não permitirmos que ela determine nossas decisões econômicas ou sociais. E estaremos servindo a riqueza quando permitirmos que ela determine nossas decisões econômicas. Simplesmente, precisamos resolver quem vai tomar nossas decisões nesta vida: Deus ou riqueza ? O Evangelho deste domingo, através da parábola sobre o rico e Lázaro, nos alerta para escolhermos corretamente.


A parábola sobre o rico e Lázaro encontramos somente no Evangelho de Lucas. Segundo Joachim Jeremias (cf. As Parábolas de Jesus) e outros autores, esta parábola tem sua origem na fábula egípcia em que se narra a viagem de Si-Osíris e do seu pai Seton Chaemwese ao reino dos mortos. A fábula termina com esta lição: “Quem é bom na terra, acontece o bem também no reino dos mortos, mas quem é mau na terra, acontece o mal também lá”. Através dos judeus de Alexandria esta fábula entrou na tradição judaica onde ela foi muito apreciada com suas diversas formulações; uma delas se narra a estória do pobre escriba e do rico publicano Bar Ma’jan que narra a sorte no além. No além, Bar Ma’jan queria alcançar a água, mas não podia. Enquanto que o pobre escriba vivia em jardins de beleza paradisíaca onde corriam águas de fontes. Evidentemente como judeu, Jesus também aproveita esta narrativa na sua pregação e a emprega igualmente na parábola do grande banquete (cf. Lc 14,15-24).
  

Esta parábola é um relato simbólico que ilustra o perigo da riqueza e propõe um apelo à conversão. Ela serve como exemplo do ensinamento de Jesus, no evangelho do domingo anterior, sobre o uso apropriado da riqueza. É parábola que toma o assunto das riquezas de Lc 16 e lhe confere uma conclusão bem adequada: nem a riqueza nem a pobreza neste mundo é a medida da bênção de Deus. Nesta parábola, Jesus se dirige aos fariseus como representantes daqueles que amam o dinheiro (Lc 16,14) e que pensavam justificar-se diante de Deus e dos homens mediante o cumprimento estreito da lei (Lc 11,37ss). Na verdade, esta parábola serve como ilustração das bem-aventuranças e os ais de Lc 6,20-23. Ela reprova o rico que não sabe compartilhar o que tem para com os mais necessitados. Ela quer também sublinhar o ensinamento sobre o que significa o presente para o futuro. Somos futuros aquilo que somos no presente.
   

A parábola tem duas partes. Na primeira (vv.19-26) descrevem-se os dois personagens principais segundo o ponto de vista literário muito estendido na literária bíblica: o rico vive luxuosamente e celebra grandes festas e banquetes; o pobre tem fome e está enfermo. Mas a morte dos dois muda totalmente a situação. Na descrição da vida no além, Lc utiliza as imagens de seu tempo que não pretende nos dar uma informação sobre a geografia do além e sim quer enfatizar a justiça de Deus sobre o conjunto da vida humana. A vida presente, portanto, é decisiva. É nesta vida que jogamos nosso destino eterno. É na vida presente que escolhemos a eternidade. As escolhas que fizemos ou fazemos na vida presente serão julgadas por Deus, sempre misericordioso e compassivo, mas sempre justo e fiel às suas propostas.  A parábola é muito clara em definir as duas situações: de felicidade uma e de sofrimento a outra.


Na segunda parte (vv.27-31) insiste-se em que a Escritura, da qual os fariseus eram considerados expertos (especialistas), é o caminho mais seguro para a conversão. Mas o homem rico foi surdo às suas demandas. Em outras palavras, a sua vida não estava enraizada na Palavra de Deus. O versículo final expressa perfeitamente o centro da mensagem contida na parábola: até os milagres mais espetaculares, como a ressurreição de um morto, são inúteis para quem não se enraíza sua vida no coração da Palavra de Deus.
 

Na descrição do rico e de Lázaro (vv.19-26) os contrastes são muito fortes: riqueza contra miséria, vestes luxuosas contra a pele coberta de úlceras, festins brilhantes contra estômago faminto; em suma, a abundância e o supérfluo, de um lado, e a falta do “mínimo vital”, do outro. Quadro esse que, infelizmente, continua de uma verdade gritante a quem quiser ver lucidamente a situação atual, tanto em escala mundial como em escala local. O perigo que pode ou possa acontecer com qualquer um de nós é a falta de sensibilidade por termos visto permanentemente os mendigos na nossa porta ou nas portas de nossas igrejas. A tentação de não querermos vê-los e evitarmos encontrá-los é muito grande. Fingimos não perceber sua presença. O pior cego é aquele que não quer ver, diz um ditado popular. Que não seja tarde demais vermos esses nossos irmãos necessitados como aconteceu com o rico nesta parábola. Eles não chamam mais nossa atenção e não se tornam notícias para nossa Igreja (paróquia). Talvez seja fácil dar um pouco que se tem, mas quem de nós pode perguntar e procurar saber do porquê da situação para juntos resolvermos a mesma?  No pórtico de sua casa suntuosa, Lázaro pode lançar um olhar de avidez para as migalhas do festim. O rico sequer percebe sua presença. O rico vive como se Deus não existisse e como se os necessitados não existissem. Tem “tudo”. Por acaso precisa de Deus? Não vê Deus nem o pobre. Deixa-se absorver pelo bem estar e pela vida regalada.
 

O que acontece com os dois na morte e depois dela?
 
A narração põe ênfase naquilo que acontece na morte. A morte iguala os dois. Mas logicamente ainda há uma diferença no enterro. Como diz um humorista, quando um rico ou uma rica morrer, seu rosto será maquiado bonitinho, enquanto o do pobre não, já que ele não tinha nada nem para comer. Logicamente o rico é enterrado com pompa e aparato e a possibilidade de virar uma notícia nos jornais é grande. Talvez seja acompanhado com alguns discursos de despedida. O enterro do pobre nem é mencionado muito menos vira notícia.
    

Seja como for, o quadro seguido descreve mudança total de situação (o que aconteceu depois da morte). Continua a oposição absoluta, mas em sentido inverso. Lázaro está no seio de Abraão contra o suplício da sede do rico. O rico vê Lázaro e espera dele a caridade de uma gota de água; mas é tarde demais vê-lo.   O rico não soube vê-lo quando o pobre homem esperava a caridade de um pedaço de pão. O rico foi surdo demais às exigências da Palavra de Deus. Ele perdeu uma oportunidade de conversão à Palavra de Deus onde se encontra muitas demandas de solidariedade para com os pobres (Is 58,7). Seu pecado consiste em ter feito das riquezas seu deus (Lc 16,13).   Agora ele sofre inexoravelmente as conseqüências do isolamento no qual seu egoísmo o fechara. Esse grande abismo é a imagem do fosso que ele tinha deixado abrir-se entre seu luxo insolente e a miséria de seu próximo. O rico teve chance de ajudar Lázaro, mas preferiu o caminho de egoísmo. Fechou-se em sua riqueza e fez do dinheiro o seu deus.
    

O que chama a nossa atenção é que o rico, nesta parábola, não tem nome. Enquanto o pobre Lázaro possui um nome: Lázaro, Deus ajuda (Eleazar). Este é o único personagem que recebe um nome nas parábolas de Jesus. Em nenhuma outra parábola de Jesus os personagens têm nome. Pelo seu nome, Lázaro é um daqueles pobres que suportam a situação infeliz com paciência e só conseguem suportar a vida porque confiam em Deus. O rico é anônimo, como são anônimas as suas riquezas. Ele não vale por aquilo que ele é, mas por aquilo que ele possui. O rico perde a sua identidade porque ele se identifica com aquilo que ele tem. O pobre, por outro lado, tem um nome, pois ele se identifica com aquilo que ele é, e não por aquilo que ele não possui. Finalmente o rico é destinado à solidão total; sua vida é uma praça deserta, enquanto a vida do pobre é uma festa. O rico é atormentado não pelo simples fato de ser rico, mas porque não teme a Deus, de quem prescinde, e porque se nega a compartilhar o que é seu com o pobre que está morrendo de fome na sua porta; é um fiel expoente do consumismo egoísta exagerado. Ele goza a riqueza, julga-se seguro, fica cego ao próximo e surdo à Palavra de Deus e ao seu convite. Tampouco o pobre se salva simplesmente por ser pobre, mas porque está aberto para Deus e espera a salvação de “quem faz justiça aos oprimidos e dá pão aos famintos, ama o justo (cf. Salmo 145(146).
     

No seu tormento o rico pede para que Abraão mande Lázaro ir à casa do pai do rico a fim de avisar aos outros cinco irmãos para que eles não sigam o seu caminho (vv.27-31). Ele demonstra algum interesse em “outras pessoas” (seus familiares), mas não pensa nos pobres; fica só no assunto dos seus. A solidariedade do rico na parábola é tarde demais. Ele se sente solidário com os membros de sua família (mas não com as pessoas fora de sua família. Continua sendo egoísta até no além) por ter experimentado a solidão total por causa do egoísmo exagerado. Ele grita a Abraão: “Pai, eu te suplico, manda Lázaro à casa do meu pai, porque eu tenho cinco irmãos. Manda preveni-los, para que não venham também eles para este lugar de tormento”. A resposta de Abraão: “Eles têm Moisés e os Profetas; ouçam-nos!” (v.29).
    

A resposta a esse pedido é o alerta que o próprio Jesus quer dar com sua história: não precisamos de mais avisos, nem de mapas para o caminho do céu. É só seguir o que já disseram Moisés e os profetas, diz o Abraão da história. Podemos dizer: é só ler, ouvir e viver o Evangelho de Jesus Cristo. Não precisamos de revelações mágicas nem milagres adicionais. Na busca de milagres, facilmente o homem quer fugir do compromisso de fé, que se lhe manifesta o suficiente na Palavra de Deus. Quem tem o coração livre para se deixar interrogar por Deus, sabe que nunca terá o direito de apelar a “milagres” para se precaver do maior milagre da graça: a nossa conversão. O que temos que fazer é anunciar com ardor missionário e eficiência o Evangelho. É preciso ser solidário, é preciso saber partilhar o que se tem com aquele que não tem. Generosidade é o prolongamento da generosidade do Deus-Criador que criou tudo gratuitamente para nossa felicidade neste mundo. A partilha é a alma do projeto de Jesus.


Tudo isso quer nos dizer que só quem vive aberto aos outros, na prática do amor, é capaz de, na ressurreição, entrar em comunhão com o Amor: Deus (cf. 1Jo 4,8.16). Quem faz de sua vida um serviço permanente à sua própria ambição e não pensa em outra coisa senão acumular riquezas, não é capaz de abrir-se à presença de Deus e por isso, se condena ao inferno, que na definição de Dostoievski, é o sofrimento de não poder mais amar. Aquele que está voltado para si mesmo é cego e surdo aos apelos alheios. Ou como Meister Eckhart disse: “Estar vazio de toda criatura é estar cheio de Deus. E estar cheio de criatura é estar vazio de Deus”.
    

Com esta parábola, de novo o ensinamento de Jesus vai direto ao cerne das falsas pressuposições teológicas mantidas por muitos de seus contemporâneos que ainda existem hoje em determinadas denominações ou movimentos. É certo que o rico, assim raciocinariam, exemplifica um homem abençoado por Deus, enquanto o pobre, que só fazia sofrer, recebia o que merecia. No entanto, é o mendigo Lázaro que é recebido por Pai Abraão que denota a felicidade, e o rico que cai no inferno (Hades,[sheol em hebraico] aqui traduzido inferno, é palavra grega que nos círculos pagãos significa o mundo inferior na mitologia grega; o mundo inferior como a morada dos mortos. Em numerosas passagens, hades/sheol significa só a morte ou a sepultura, e descer ao sheol eqüivale a morrer. No judaísmo posterior entendia-se que havia dois compartimentos: um para os justos e o outro para os ímpios, como  se relata nos vv.22-25 do texto. A parte negativa do sheol mais tarde veio a ser chamada “Geena”, lugar de castigo). Os “religiosos” presumiam que a saúde e a riqueza evidenciam as bênçãos de Deus, enquanto a doença e a pobreza evidenciam a maldição de Deus. Como a parábola indica, tais pressuposições podem estar totalmente erradas.
  

O perigo que temos ao ler esta parábola é julgarmos que ela somente fala dos ricos e poderosos, dos que têm muito poder e muito dinheiro. No entanto, precisamos estar conscientes de que na revelação bíblica pobreza e riqueza não são conceitos meramente quantitativos, mas toca-se também na atitude de apego ou desapego naquilo que cada um possui. Isto é que nos faz ricos ou pobres de espírito diante de Deus. Por isso, temos que nos converter da avareza ao amor que partilha. Não podemos, como cristãos ou os que se comportam como cristãos, não podemos ser espectadores neutrais da pobreza e da miséria alheias.
    

Além disto, se nossa vida ou nossa fé não for além dos horizontes materiais, se Deus não significar a certeza de nossa vida, então qual será nossa esperança, qual será nosso consolo, qual será nosso sentido de nossa presença neste mundo ? Na vida tudo passa. Mas a única coisa que não passa é o nosso dever de sermos irmãos, de viver o amor de Deus, de lutar pelo que é certo e de partilhar. Isso não passa, continua valendo seja qual for a nossa situação. Então, o Evangelho quer nos dizer que tudo se decide aqui e agora neste mundo e não depois de nossa morte.
   

Por isso, nós, cristãos, não podemos deixar-nos cegar por o sentido da vida que só vê o aspecto rentável de cada circunstância, negócio ou lugar de trabalho. A solidariedade é uma exigência direta da fraternidade humana e sobrenatural, que nos leva a entrar em comunhão com Deus-Amor. Por isso, gente que não se comove com o sofrimento dos outros fica em falta com Deus.
    

Lázaro está no meio de nós, está em sua casa, no seu trabalho e em qualquer lugar. Basta você parar de estar voltado para si mesmo, então você vai enxergar o Lázaro que está tão perto de você. Que sua solidariedade não seja tarde demais como a do rico da parábola. Por isso, se tiver oportunidade para fazer a caridade, que faça; ofereça flor, embora só uma, para uma pessoa que está viva, que você ama muito. Porque é muito melhor do que uma coroa de flores para uma pessoas que já se foi; perdoe se tiver oportunidade para perdoar...etc., porque amanhã talvez seja tarde demais. Você pode gritar, mas pode ser que o seu grito seja em vão, como o do rico neste Evangelho.
     

A parábola é um convite de Jesus à conversão enquanto há tempo. O verdadeiro fruto da conversão é a caridade para com o próximo, expressa em obras (cf. Is 58,6s). São Tiago nos alerta: “Haverá juízo sem misericórdia para aquele que não usou de misericórdia. A misericórdia triunfa sobre o julgamento” (Tg 2,13).

P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

 
SACRIFICAR-SE PARA A SALVAÇÃO DE TODOS


Sábado da XXV Semana Comum
28 de Setembro de 2013
 
Texto de Leitura: Lc 9, 43b-45


Naquele tempo, 43bTodos estavam admirados com todas as coisas que Jesus fazia. Então Jesus disse a seus discípulos: 44Prestai bem atenção às palavras que vou dizer: O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens”. 45Mas os discípulos não compreendiam o que Jesus dizia. O sentido lhes ficava escondido, de modo que não podiam entender; e eles tinham medo de fazer perguntas sobre o assunto.

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Nós nos encontramos no quadro de instruções finais de Jesus na Galileia. Jesus mostra claramente aqui o sentido da própria missão e a daqueles que querem segui-Lo. Segundo o plano do seu evangelho, o evangelista Lucas termina assim as atividades de Jesus na Galiléia (Lc 4,14-9,50). Daqui em diante Jesus vai começar seu caminho ou seu êxodo para Jerusalém onde ele será crucificado, morto e glorificado.


O Filho do Homem vai ser entregue nas mãos dos homens”. O título “Filho do Homem” se encontra seu sentido em Dn 7,13-14 e “vai ser entregue” em Is 53,2-12. O sofrimento de Jesus é causado pelos homens do templo e do poder.


Para o evangelista Lucas, este é o segundo anúncio da Paixão de Jesus e o situa no momento em que “Todos estavam admirados com todas as coisas que Jesus fazia”. Esta admiração surge no momento em que Jesus curou um menino da epilepsia (Lc 9,37-43) e fez outros sinais. E Lucas registrou que esse menino era filho único. Esse filho único se refere a Jesus, Filho único do Pai (cf. Mt 21,33-46). Através desse menino, Jesus está falando de Si próprio. A cura do menino antecede o segundo anúncio da Paixão do Filho único do Pai.


Neste anúncio Jesus quer revelar que sua vida é uma vida de sacrifício para o bem de todos. Jesus pensa somente na salvação de todos sem fugir das conseqüências trágicas. Ele se sacrifica como uma vela que se consome aos poucos iluminando seu redor.


Lucas nos relatou que os discípulos não entenderam o sentido desse anúncio. Em outras ocasiões os evangelistas descrevem os motivos dessa incompreensão: os seguidores de Jesus tinham em sua cabeça um messianismo político, com vantagens materiais para eles mesmos, e discutiam sobre quem ia ocupar os postos de honra e quem ficaria do lado direito ou do lado esquerdo de Jesus. A cruz não entrava em seus planos. Eles queriam seguir a Jesus pelas próprias vantagens e não pela vida dedicada em prol da salvação de todos.


Os discípulos não entendem que este é o maior ato de amor e o maior sentido da vida. O resultado dessa incompreensão será contado no seguinte episódio em que haverá a disputa sobre a primazia no grupo (Lc 9,46-48).


Todos estavam admirados com todas as coisas que Jesus fazia”. Jesus desperta realmente admiração por seus gestos milagreiros e pela profundidade de suas palavras. Deste tipo de Jesus gostamos também e não somente os primeiros discípulos de Jesus. Mas não entendemos, como os primeiros discípulos, o Jesus Servidor, o Jesus que lava os pés dos discípulos, o Jesus que se entregou à morte para salvar a humanidade, o Jesus que se aproxima do pecador para dialogar, o Jesus que faz refeição com os pobres e pecadores. Queremos apenas o consolo e o prêmio e não o sacrifício e a renúncia. Preferiríamos que Jesus não nos dissesse: “Quem quer me seguir renuncie a si mesmo, tome sua cruz de cada dia e me siga”.


Mas ser seguidor de Jesus pede radicalidade e não podemos crer num Jesus que O fazemos a nossa medida. Ser colaborador de Jesus na salvação do mundo exige seguir Seu mesmo caminho que passa através da cruz e da entrega. É sofrer com Jesus para salvar o mundo.


Vale a pena cada um fazer um exame sério de consciência sobre o texto do evangelho de hoje a partir da vocação e da função que cada um tem na Igreja ou em uma comunidade. Como sacerdote ou religioso/ religiosa, qual meu motivo para ser sacerdote ou para ser religioso/religiosa? Será que eu procuro a vocação religiosa e sacerdotal em função da segurança institucional e não como uma paixão pela vida de Cristo dedicada pela salvação de todos? Será que o pensamento de querer ser sacerdote ou religioso (a) carreirista tem como motor da minha ambição? Como leigo ou leiga, qual meu motivo verdadeiro para trabalhar na minha comunidade? Há alguma vantagem pessoal escondida atrás dessa atividade, ou por que eu quero ser outro Cristo na minha comunidade? Mas será que eu levo a sério o motivo de ser outro Cristo com todas as suas conseqüências na minha comunidade?


É preciso que não tenhamos medo de nos gastar pelas causas e pelos grandes ideais de Jesus, pois por este caminho haverá a vida glorificada, a vida ressuscitada. Como cristãos, não podemos viver e conviver inutilmente nem podemos, consequentemente, morrer inutilmente. A vida dedicada pelo bem de todos jamais morre. É estar com Cristo. E estar com Cristo significa não parar de existir. Este é o ideal do ser do cristão.


Para Refletir

“Há ideais que nos ajudam a viver e a crescer,
Porque nos aproximam do melhor de nós mesmos,
E há ideais que nos paralisam
Porque nos fazem correr atrás de miragens inalcançáveis.

Um verdadeiro ideal nunca é plenamente alcançado,
Mas ajuda a caminhar toda a vida.

Viver sem um ideal é como viver sem sentido
E caminhar sem objetivos.

Muito homens correm toda a vida para ter coisas,
Porque não sabem o que querem ser.
E você, sabe?”

(Autor: René Juan Trossero)

 

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 25 de setembro de 2013

 
JESUS NOS INTERROGA
 

Sexta-feira da XXV Semana
27 de Setembro de 2013
 
Texto de Leitura: Lc 9,18-22


Aconteceu que Jesus 18 estava rezando num lugar retirado, e os discípulos estavam com ele. Então Jesus perguntou-lhes: “Quem diz o povo que eu sou?” 19 Eles responderam: “Uns dizem que és João Batista; outros, que és Elias; mas outros acham que és algum dos antigos profetas que ressuscitou”. 20 Mas Jesus perguntou: “E vós, quem dizeis que eu sou?” Pedro respondeu: “O Cristo de Deus”. 21 Mas Jesus proibiu-lhes severamente que contassem isso a alguém. 22 E acrescentou: “O Filho do Homem deve sofrer muito, ser rejeitado pelos anciãos, pelos sumos sacerdotes e doutores da Lei, deve ser morto e ressuscitar no terceiro dia”
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O evangelista Lucas volta ao tema do evangelho do dia anterior sobre a identidade de Jesus (cf. Lc 9,7-9). No texto do evangelho do dia anterior o interessado por saber quem era Jesus foi Herodes Antipas, filho do rei Herodes, o Grande. No texto do evangelho de hoje é o próprio Jesus quem dirige a pergunta a seus discípulos. Quem é Jesus para as pessoas em geral e quem é Jesus para os próprios discípulos?


A resposta do povo é múltipla: Elias, João Batista, um profeta que ressuscitou. Segundo os discípulos Jesus é o Messias. “Messias” é palavra hebraica que é em grego “Christos” que significa “Ungido”. Jesus é o Ungido de Deus, ou seja, Aquele sobre quem Deus derramou seu Espírito, ungindo-o com Sua força para que leve a cabo uma missão. Jesus está totalmente aberto à vontade de Deus a ponto de o Espírito divino repousar sobre Ele (cf. Lc 3,21-22; Mt 3,16-17) e se deixa guiar completamente pelo mesmo Espírito (cf. Mc 1,12).


Mas que tipo de Messias Jesus é? Estamos aqui no centro da fé: crer em um Messias que será crucificado. A cruz de Jesus não é um incidente e sim uma conseqüência. A presença de Deus se manifesta no caminho da cruz, isto é, na entrega de si mesmo, na recusa de toda imposição, no amor que aceita ser contradito e aparentemente derrotado: “É necessário o Filho do Homem sofrer muito e ser rejeitado pelos anciãos, sumos sacerdotes e escribas, ser morto e, no terceiro dia, ressuscitar”.


Mas a cruz de Jesus é saborosa, pois trata-se de uma vida vivida até o fim por amor aos homens como manifestação do amor a Deus (cf. Jo 3,16). Por isso, na sua cruz vemos com clareza o amor de Deus por cada um de nós. Deus encarnado é capaz de tudo, até o impossível, pois cada um tem um valor incalculável diante de Deus. Por você e por mim Deus se encarnou em Jesus e por amor a nós todos Jesus aceitou ser crucificado (cf. Mt 8,17; Jo 3,16). O caminho do amor é o caminho que nos leva à salvação. Fora do amor não há a salvação independentemente de nossas práticas religiosas. Por este caminho (amor) não há outro caminho para chegar até Deus que é Amor por excelência (1Jo 4,8.16).


O amor transforma tudo. Com amor levamos a carga sem carga, pois o amor torna tudo leve. O amor faz doce e saboroso o que é amargo. O amor nobre de Jesus nos impulsiona a desejar sempre o mais perfeito e a fazer o bem para todos. O amor não é detido por qualquer coisa deste mundo. O amor quer ser livre. Não há nada que seja mais doce, mais forte, mais alto, mais alegre, mais humano e mais divino do que o amor, pois o amor nasce de Deus, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). O amor sempre vela, e dormindo não se dorme; fatigado, não se cansa; angustiado, não se angustia; espantado, não se espanta; é forte na sua fraqueza.


A pergunta de Jesus é repetida para nós em todos os momentos: “Quem é Jesus para nós?”. Não se trata de uma pergunta supérflua. É claro que “sabemos” já quem é Jesus. Não somente cremos em Jesus como o Filho de Deus e Salvador da humanidade, mas queremos segui-Lo com fidelidade na vida de cada dia. Mas temos que refrescar ou renovar com freqüência esta convicção, pensando se realmente nossa vida está orientada para Ele, se nossas opções de cada dia estão de acordo com seus critérios. Quem é Jesus para mim agora, nesta etapa concreta da vida que estou vivendo? Não podemos responder a esta pergunta com palavras magistrais nascidas do estudo. Nossa resposta deve ser muito simples, nascida da vida de cada dia com o próprio Senhor.


O segundo ponto que Lucas quer nos transmitir através do texto do evangelho de hoje é a importância da oração. Lucas nos mostra Cristo em oração toda vez que ele toma uma decisão importante ou quando se compromete em uma etapa de sua missão (Lc 3,21; 6,12; 9,29; 11,1; 22,31-39). Lucas é o único evangelista que menciona a oração de Cristo antes de obter a profissão de fé nos seus e de anunciar-lhes sua Paixão. Assim cabe pensar, como em cada uma das demais circunstâncias mencionadas por Lucas, que Jesus reza pelo cumprimento de sua missão cujos contornos ele não vê mais que na obscuridade. Através da oração vemos a realidade da humanidade de Jesus.


Se a oração de Jesus demonstra a realidade de sua humanidade, não deixa de ser um sinal de sua divindade. Que Jesus pode reunir em sua oração a profundidade de sua pessoa, onde se estabelece sua vocação como o Ungido de Deus, é o indício de que dispõe do Espírito do Pai. Com feito, a oração não é um discurso que se dirige a Deus como um objeto e sim ter Deus por sujeito que conhece a profundidade de nosso ser. Não podemos alcançar esta profundidade sem a ajuda do Santo Espírito (cf. Rm 8,26-27). Do ponto de vista humano podemos dizer que somente aquele que reza profundamente é que reconhece os próprios limites e fraquezas, pois diante de Deus tudo fica iluminado. Rezar é deixar Deus iluminar nossa vida e nossas decisões de cada dia. Com efeito, sem oração a vida se torna escura. Quem não reza, obscurece a própria vida. A história de nossa oração é a história de nossa vida, pois na oração contamos para Deus tudo o que acontece na nossa vida embora Ele saiba de tudo. Erraremos o caminho se pararmos de orar, pois Deus é a Luz de nossa vida (Jo 8,12).


P. Vitus Gustama,svd


“Para ser um bom orador é necessário ser um bom orante”
(Santo Agostinho. De doc. christ. 4,15,32)

terça-feira, 24 de setembro de 2013

 
INTERROGAR SOBRE JESUS

 
Quinta-feira da XXV Semana Comum
26 de Setembro de 2013

Texto de Leitura: Lc 9, 7-9

Naquele tempo, 7 o tetrarca Herodes ouviu falar de tudo o que estava acontecendo, e ficou perplexo, porque alguns diziam que João Batista tinha ressuscitado dos mortos. 8 Outros diziam que Elias tinha aparecido; outros ainda, que um dos antigos profetas tinha ressuscitado. 9 Então Hero­des disse: “Eu mandei degolar João. Quem é esse homem, sobre quem ouço falar essas coisas?” E procurava ver Jesus.
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Curiosamente, a pergunta de Herodes sobre Jesus surge entre o relato da missão dos Doze e o da multiplicação dos pães. Herodes se pergunta: “Eu degolei João. Quem é, pois, este, de quem ouço tais coisas? E procurava ocasião de vê-lo”.


A pergunta de Herodes tem outra profundidade, efetivamente, coincide com a pergunta de todos os que se sentem interpelados pela pessoa e pelo modo de viver de Jesus e pelo testemunho dos discípulos. Herodes estava cheio de curiosidades porque no meio do povo se falava muito de Jesus, se contava mil coisas sobre Ele, dos seus lábios saiam palavras com poder e autoridade, se contavam fatos extraordinários como os milagres realizados por Ele. Herodes que estava no poder queria ver esse individuo tão “exótico” numa Galiléia tão provinciana. Seu pai, Herodes Grande tinha a curiosidade de conhecer Jesus - menino, rei recém-nascido, mas com o intuito de eliminá-lo (cf. Mt 2,1-23). Uma das maneiras de falar de Deus e com Deus é a “voz de nossa consciência”. Herodes não tinha sua consciência tranqüila: uma voz do fundo de si mesmo lhe recordava seu pecado, sua maldade. Por isso, fica inquieto.


A sabedoria popular diz que há curiosidades maldosas, tais como as de Herodes,... quando permitem abusar de um poder ou de um interesse que elas atribuíram injustamente; quando alimentam o escândalo que elas mesmas exploram ou inventaram. Herodes queria ver Jesus.


Mas se há curiosidades maldosas, precisamos estar conscientes de que a curiosidade também é o primeiro passo para o encontro e para a fé. O assombro, a surpresa, a provocação são o pórtico que nos introduz no descobrimento dos labirintos da casa e que nos inicia no mistério de uma morada.


A curiosidade é boa, pois ela desperta à vida. Uma criança vive na permanente curiosidade, e pergunta constantemente, pois ela quer saber mais e mais. O sentido da vida consiste em interrogar, em ser interrogado e em se interrogar. Curiosidade é sinônimo de descobrimento; é tensão até um objeto entrevisto ou desejado.


Ao lado da curiosidade há dúvida. A dúvida é o estado de equilíbrio entre afirmação e negação. Quem tem dúvida fica impedido de afirmar ou de negar por falta de dados nas mãos. A dúvida nos empurra para procurar fundamentos para podermos afirmar ou negar ou para podermos ter certeza daquilo que nos faz duvidosos. A incredulidade é, ao contrário, uma ausência da crença. 


Herodes sentiu curiosidade de querer ver Jesus. Mas com qual finalidade de ele querer ver Jesus? Para armar alguma cilada? Para ouvir da própria boca de Jesus de tudo que o povo fala e comenta? Para pedir de Jesus algum milagre ou alguma ajuda para o povo? Para desacreditá-Lo diante do povo? O texto não fala e por isso, não sabemos. Ele só terá oportunidade de ver Jesus na sua Paixão. Mas Jesus se manterá calado diante de Herodes, pois Herodes agirá de má-fé. diante do silêncio de Jesus Herodes morrerá, um dia, sem saber quem é Jesus.


Será que nós, chamados de cristãos, ainda sentimos curiosidade por Jesus? Será que já descobrimos esse Jesus na sua profundidade? Será que conhecemos realmente esse Jesus? Será que somente confessamos em Jesus nas definições sem alma e reconhecê-lo nos dogmas frios e secos? Será que paramos de ter curiosidade sobre a pessoa e o modo de viver de Jesus a fim de purificar nossa vida já que somos chamados de cristãos? Podemos ter certeza de que a Palavra de Deus, os ensinamentos de Jesus nos interpelam todas vez que os lermos e meditarmos ou ouvirmos pregação ou retiro a respeito de Jesus.


A fé é curiosidade permanente, isto é, assombro que compromete a arriscar-se na aventura, num encontro entrevisto e, em conseqüência, desejado. A fé é curiosidade, de forma que a dúvida lhe é indispensável. Por isso, somente na coragem de fazer uma aventura cheia de riscos é que chegaremos à resposta desejada para afirmar ou negar nossa dúvida. A incerteza e a incompreensão pertencem ao terreno de nossa fé como o oco que espera ser preenchido, como a espera que aguarda o encontro, como a fome que se alimenta com o que pode satisfazê-la.


A pergunta continua fica no ar para cada cristão: “Será que você ainda tem curiosidade de Jesus? Que curiosidade você tem de Jesus?”. Tenho medo de que quando a curiosidade sobre Jesus morrer, morrerá também nossa fé. O evangelho que não mais nos incomoda deixa de ser evangelho. A Palavra de Deus que não nos interroga deixa de ser a Palavra de Deus.


P. Vitus Gustama,svd