quinta-feira, 31 de outubro de 2013

 
DIA DE FINADOS


02 de Novembro


Dia de Finados é o dia especial em que todos nós somos chamados a voltar para a raiz familiar. É o dia em que todos nós voltamos a sentir, de uma maneira especial, a presença de todos os membros de nossa família que já partiram. Por algum instante visitamos, na memória, o passado no qual convivíamos e que no presente estão ausentes fisicamente. É um dia de saudade dos que conviveram conosco, mas partiram antes de nós. É o dia de saudade porque quando a morte atinge nossos entes queridos, uma parte de nós se vai com eles. Nós nos unimos à sua entrega total e sabemos que também nós estamos partindo (morrendo). Algo de nós se vai para sempre quando uma pessoa amada morre.


Nesta altura percebemos que a vida é sempre uma partida. Há uma partida para os olhos que se fecham, para os ouvidos que se cansam e para o corpo que envelhece.  A condição humana é ser passageiro, ser transitório, ser limitado. Estamos sempre na saudação dos que chegam, no nascimento, e da despedida dos que partem sem volta para este mundo fisicamente, na morte. Em tudo há um adeus. E ninguém tem poder de parar o tempo. Todo nascimento é uma referência existencial à morte que é seu termo. Em outras palavras, a chegada será sempre uma partida. Um encontro será sempre uma despedida. Em cada nascimento esconde-se a morte.


Para nós que acreditamos no Deus da Vida a morte é o caminho que termina em Deus, de onde, um dia, saímos. Isto significa que nós pertencemos ao Senhor: “Se vivemos, é para o Senhor, que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,8). A vida que nos foi dada não pertence ao homem, mas a Deus.  Essa pertença a Deus é o que torna a vida algo sagrado. E para todos os homens, a vida temporal é dada como semente de vida eterna (cf. 1Cor 15,35-58). Por isso, morrer significa entregar totalmente a vida a Deus. O mesmo Senhor que nos criou por amor, nos acolhe também para um amor infinito, para uma perfeita comunhão com Ele, para uma eternidade. É uma partida com chegada definitiva. São Pedro expressa esta realidade nestas palavras: “Fugindo da corrupção, nos tornamos participantes da natureza divina” (2Pd 1,4). Para nós, morrer é entregar a vida para Deus a exemplo de Jesus Cristo, que ao entregar a vida totalmente à vontade de Deus, ele experimentou a ressurreição. A ressurreição de Jesus é a mensagem mais clara sobre o futuro do homem (cf. 1Cor 15,12-19).


E nós que ainda nos resta a vida, o que devemos fazer?


Em primeiro lugar, precisamos valorizar a presença, pois ela é um dom. Muitas vezes sentimos a importância de uma pessoa somente na sua ausência. Precisamos estar conscientes de que como é bom estarmos juntos enquanto for dado a nós o dom de convivência, pois vai chegar um dia em que seremos obrigados a viver de outra maneira.


Em segundo lugar, não precisamos acumular as flores para formar um dia uma coroa de flores para um caixão, pois uma flor oferecida para uma pessoa viva vale muito mais do que uma coroa de flores para um morto.


Em terceiro lugar, não precisamos esperar alguém morrer para elogiá-lo ou para falar de suas virtudes. É bom elogiarmos quem merece ser elogiado enquanto ele estiver convivendo conosco. Pois um elogio sincero dado para um vivo vale muito mais do que um elogio triste para um caixão. Perdoemo-nos mutuamente enquanto estivermos vivos, pois como é bom experimentarmos o que é que a ressurreição ou a libertação enquanto para nós é dado o dom de viver um pouco mais.


Em quarto lugar, como é triste morrer sem ter sabido viver e ao mesmo tempo como é triste viver sem aprender a morrer. Para vivermos melhor e com outra intensidade precisamos aprender a morrer. É o paradoxo da vida: para viver precisamos morrer.


Precisamos aprender a morrer de nosso egoísmo, de nossa prepotência, de nosso rancor, de nossa falta de perdão, de nossa vingança, de nossa soberba que mata a caridade e a fraternidade, de nossa preguiça de rezar e de participar do banquete celeste aqui na terra que é a eucaristia. Em outras palavras, precisamos aprender a morrer de nossa morte para que possamos ressuscitar para uma vida com Deus.


Para olhar o mundo, a nós mesmos e todos os acontecimentos na plenitude da verdade não há ponto de observação melhor que o da morte. A partir dali tudo é visto em sua justa perspectiva. Visto a partir desse ponto, tudo ganha seu justo valor. Olhar a vida a partir da morte nos ajuda extraordinariamente a vivermos bem e a valorizarmos cada segundo de nossa vida. A morte nos impede que nos prendamos às coisas, e nos impede que fixemos aqui embaixo a morada de nosso coração esquecendo que “não temos aqui residência permanente”(cf. Hb 13,14). Não é a morte que é absurda, mas a vida sem a morte.


Que os que nos precederam descansem em paz e que nós que estamos peregrinando vivamos em paz para que possamos alcançar a morada eterna, a casa do Pai do céu. Assim seja.

 

Para Refletir Mais

 

HOJE E NÃO AMANHA


Toda manhã recebemos 86.400 segundos. Toda noite o saldo é debitado como perda. Não é permitido acumulá-lo para o dia seguinte e nem temos poder para isso. Toda manhã uma nova conta é aberta, e toda noite o saldo é zerado. Se você não utilizar o depósito do dia, azar é seu. Não há volta. Não há adiantamento. O relógio está correndo. Aproveite ao máximo o dia de hoje com prudência.
  

Ontem é história. O amanhã é um mistério. O hoje é uma dádiva. Por isso, é chamado de presente. O ontem é um cheque cancelado. O amanhã é uma nota promissória. Hoje é o “dinheiro vivo” na mão. Gaste-o com prudência.


Cabe a nós decidirmos o que fazer com ele. Cada momento é meu para torná-lo belo ou doloroso de acordo com minha escolha. Não pensemos que possamos viver eternamente aqui neste mundo. Por isso, quero colocar os seguintes pensamentos na boca de seu companheiro ou companheiro, de seus pais ou de seus filhos.


Prefiro que partilhes comigo uns poucos minutos,
Agora que estou vivo,
E não uma noite inteira quando eu morrer.


Prefiro que apertes suavemente a minha mão,
Agora que estou vivo,
E não apóies o teu corpo sobre mim quando eu morrer.


Prefiro que faças uma só chamada,
Agora que estou vivo,
E não faças uma inesperada viagem, quando eu morrer.


Prefiro que me ofereças uma só flor,
Agora que estou vivo,
E não me envies um formoso ramo e uma coroa de flores
Quando eu morrer.


Prefiro que elevemos juntos ao céu um oração,
Agora que estou vivo,
E não uma oração poética quando eu morrer.


Prefiro que me digas umas palavras de alento,
Agora que estou vivo,
E não um dilacerante poema quando eu morrer.


Prefiro que um só acorde de guitarra,
Agora que estou vivo,
E não uma comovedora serenata quando eu morrer.


Prefiro que me dediques uma leve prece,
Agora que estou vivo,
E não um político epitáfio sobre minha tumba quando eu morrer.


Prefiro desfrutar de todos os mínimos detalhes do tempo de nossa convivência,
Agora que estou vivo,
E não de grandes manifestações quando eu morrer.


Prefiro escutar-te e ver-te um pouco nervos@
Dizendo o que sentes por mim,
Agora que estou vivo,
E não um grande lamento porque não o disseste no tempo certo, e agora estou mort@....


Aproveitemos a convivência fraterna e amorosa com os nossos seres queridos
Agora que estão entre nós...

Valorize as pessoas que estão à tua volta.
Ama-as, respeita-as e lembra-te delas,
Enquanto estão vivas.
Deus te abençoe!

Pe. Vitus Gustama, SVD
 
MINHA IMPORTÂNCIA PARA E DIANTE DE DEUS


Sexta-feira da XXX Semana Comum
Sexta-feira, 01 de Novembro de 2013
 
Texto de Leitura: Lc 14,1-6


1 Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. 2 Diante de Jesus, havia um hidrópico. 3 Tomando a palavra, Jesus falou aos mestres da Lei e aos fariseus: “A Lei permite curar em dia de sábado, ou não?” 4 Mas eles ficaram em silêncio. Então Jesus tomou o homem pela mão, curou-o e despediu-o. 5 Depois lhes disse: “Se algum de vós tem um filho ou um boi que caiu num poço, não o tira logo, mesmo em dia de sábado?” 6 E eles não foram capazes de responder a isso.
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Continuamos escutando as últimas e importantes lições de Jesus na sua última viagem para Jerusalém (Lc 9,58-19,28), pois lá ele será crucificado, morto e glorificado.


Na passagem do evangelho de hoje, Jesus quer nos relembrar que o ser humano é mais sagrado e importante do que qualquer lei por sagrada que ela pareça ser, pois em cada ser humano há o hálito divino (Gn 2,7) que o torna o templo do Espírito Santo (1Cor 3,16-17; 6,19).


Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus...”, assim o evangelista Lucas nos relatou.


Era sábado (shabbat). O Sábado era o dia em que o povo eleito comemorava os grandes benefícios de Deus: a criação (Ex 20,8-11) e a libertação da escravidão do Egito (Dt 5,12-15). Era o dia o qual o Senhor abençoava acima de outros dias da semana (Jubileus 2,31s). Era o dia de reconhecimento de que Deus santificava o povo (cf. Ex 31,13; cf. Hb 4,9). No Sábado os judeus costumavam comer festivamente.


E nesse dia (Sábado) os judeus costumavam convidar as pessoas para a refeição festiva, mas não era qualquer convidado. O convidado de honra para a refeição festiva, além de escribas e fariseus, segundo o evangelho de hoje, era Jesus, pois ele era tratado como mestre. Jesus tinha fama na região toda (Lc 7,17). O povo considerava Jesus como o grande profeta (Lc 7,16; 24,19). Durante este tipo de refeição, costumavam aparecer algumas pessoas sem ser convidadas para ver o convidado de honra (cf. Lc 7,37). Podemos entender porque um hidrópico se encontrou nessa refeição.


Diante de Jesus, havia um hidrópico”, prossegue Lucas. Para os fariseus e escribas qualquer doença era fruto do pecado cometido e consequentemente, era castigado por Deus. E a causa da hidropisia, segundo eles, era a luxuria. Em vez de se concentrar na refeição, os fariseus e escribas ficam olhando para Jesus e o hidrópico para observar o que Jesus vai fazer com o hidrópico, pois curar um doente faz parte dos 39 trabalhos proibidos no Sábado.


Qual é a posição de Jesus diante de um necessitado como esse hidrópico? Ele quer ajudar e curar o hidrópico mesmo sendo proibido, pois no Sábado. Mas antes de curá-lo Jesus lança uma pergunta bem fundamental com o intuito de que os fariseus e escribas possam refletir sobre a pergunta: “A Lei permite curar em dia de sábado, ou não?... Se algum de vós tem um filho ou um boi que caiu num poço, não o tira logo, mesmo em dia de sábado?”. Trata-se de uma nova maneira de conceber o “descanso” do Sábado, ou do domingo, no nosso caso, como cristãos. Com essa afirmação Jesus quer dizer aos fariseus e escribas e a todos nós que o Sábado ou o Domingo (para nós) é o dia da benevolência divina, o dia da redenção, da libertação, da misericórdia de Deus para os pobres, os excluídos, os perdidos, os pecadores, da ressurreição (para nós cristãos) e assim por diante. É o dia, por excelência, para fazer o bem, curar, salvar, ajudar, se solidarizar. É um dia de abertura aos demais: vida de família e de comunidade. É um dia de “saber descansar juntos”, cultivando valores humanos importantes. É um dia de caridade para partilhar o que somos e temos. Ao contrário, os fariseus e os escribas se preocupam com o descanso no Sábado e esquecem a vontade salvifica e amorosa de Deus pelo homem.


O homem hidrópico foi libertado por Jesus de sua hidropisia. A cura é sinal bastante evidente de que Deus está com Jesus e que Jesus age em virtude e no poder de Deus (At 10,38). Se curar um doente fosse proibido por Deus no Sábado, o homem não ficaria libertado de sua hidropisia.


Deus “pensa” na salvação do homem eternamente. Cada um de nós, seres humanos, está no pensamento de Deus, desde o princípio, pois o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn1,26; 3,22b).  Para Deus ninguém é anônimo, pois Ele chama cada um de nós pelo nome (cf. Is 43,1). O nome de cada um de nós está tatuado nas palmas das mãos de Deus (cf. Is 49,16). E o nome significa pessoa. Em cada nome está a missão de cada um. Em função da importância do homem, Deus até enviou seu Filho unigênito para salvar a humanidade (cf. Jo 3,16). E por causa do amor sem limite de Deus pelo ser humano, o salmista chegou a fazer uma pergunta retórica em forma de oração: “Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra! Vossa majestade se estende, triunfante, por cima de todos os céus... Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes: Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles?” (Sl 8,2.4-5).


Jesus põe o ser humano acima de qualquer lei por sagrada que ela pareça ser. Que lugar ocupa o ser humano nas nossas atividades pastorais, nos movimentos, na política, na economia e assim por diante? De que maneira tratamos o ser humano que para Deus ele está acima de tudo? As regras são importantes desde que ajudem o ser humano a se desenvolver para viver na sua dignidade. Será que somos escravos das regras e das normas litúrgicas esquecendo o ser humano? Será que ao colocar as normas acima do ser humano, sem querer, manifestamos nosso pouco amor pelas pessoas? Será que sabemos acolher as pessoas ou nos preocupamos com nossas “atividades pastorais?”.


 Na sua Carta Apostólica, Dies Domini, o Papa João Paulo II escreveu: “O domingo, de fato, recorda, no ritmo semanal do tempo, o dia da ressurreição de Cristo. É a Páscoa da semana, na qual se celebra a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, o cumprimento n'Ele da primeira criação e o início da « nova criação » (cf. 2 Cor 5,17). É o dia da evocação adorante e grata do primeiro dia do mundo e, ao mesmo tempo, da prefiguração, vivida na esperança, do « último dia », quando Cristo vier na glória (cf. Act 1,11; 1 Tes 4,13-17) e renovar todas as coisas (cf. Ap 21,5).[Dies Domini,no.1]...Há-de-se implorar a graça da descoberta sempre mais profunda deste dia, não só para viver em plenitude as exigências próprias da fé, mas também para dar resposta concreta aos anseios íntimos e verdadeiros existentes em todo ser humano. O tempo dado a Cristo, nunca é tempo perdido, mas tempo conquistado para a profunda humanização das nossas relações e da nossa vida” (no.7)...Recebendo o Pão da vida, os discípulos de Cristo preparam-se para enfrentar, com a força do Ressuscitado e do seu Espírito, as obrigações que os esperam na sua vida ordinária. Com efeito, para o fiel que compreendeu o sentido daquilo que realizou, a Celebração Eucarística não pode exaurir-se no interior do templo. Como as primeiras testemunhas da ressurreição, também os cristãos, convocados cada domingo para viver e confessar a presença do Ressuscitado, são chamados, na sua vida quotidiana, a tornarem-se evangelizadores e testemunhas. A oração depois-da-comunhão e o rito de conclusão — a bênção e a despedida — hão-de ser, sob este aspecto, melhor entendidos e valorizados, para que todos os participantes na Eucaristia sintam mais profundamente a responsabilidade que daí lhes advém. Terminada a assembleia, o discípulo de Cristo volta ao seu ambiente quotidiano, com o compromisso de fazer, de toda a sua vida, um dom, um sacrifício espiritual agradável a Deus (cf. Rom 12,1). Ele sente-se devedor para com os irmãos daquilo que recebeu na celebração, tal como sucedeu com os discípulos de Emaús que, depois de terem reconhecido Cristo ressuscitado na « fracção do pão » (cf. Lc 24,30-32), sentiram a exigência de ir imediatamente partilhar com seus irmãos a alegria de terem encontrado o Senhor (cf. Lc 24,33-35)” (n. 45).


A partir de tudo que foi dito vem a pergunta: De que maneira nós vivemos o nosso Domingo, que é o Dia do Senhor e também é o dia da Igreja? Nós simplesmente cumprimos preceito ao ir à igreja aos domingos ou será que temos consciência de que vamos escutar as lições do Senhor através de Sua Palavra proclamada e medita durante a celebração dominical? Será que temos consciência de que, ao comungar o Corpo do Senhor, devemos passar a ser vida para os outros? Será que estamos conscientes de que a Eucaristia é o banquete eterno antecipado para nós na terra por Jesus Cristo?


Para Rezar:

Salmos, 8


2. Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra! Vossa majestade se estende, triunfante, por cima de todos os céus.

3. Da boca das crianças e dos pequeninos sai um louvor que confunde vossos adversários, e reduz ao silêncio vossos inimigos.

4. Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes:

5. Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles?

6. Entretanto, vós o fizestes quase igual aos anjos, de glória e honra o coroastes.

7. Destes-lhe poder sobre as obras de vossas mãos, vós lhe submetestes todo o universo.

8. Rebanhos e gados, e até os animais bravios,

9. pássaros do céu e peixes do mar, tudo o que se move nas águas do oceano.

10. Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra! ( Bíblia Ave Maria ).
P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 29 de outubro de 2013

 
É PRECISO CUMPRIR A MISSAO ATÉ O FIM APESAR DAS DIFICULDADES  


Quinta-feira da XXX Semana Comum



31 de Outubro de 2013
 
Texto de Leitura: Lc 13, 31-35

31 Naquela hora, alguns fariseus aproximaram-se e disseram a Jesus: “Tu deves ir embora daqui, porque Herodes quer te matar”. 32 Jesus disse: “Ide dizer a essa raposa: eu expulso demônios e faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. 33 Entretanto, preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém. 34 Jerusalém, Jerusalém! Tu que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne os pintinhos debaixo das asas, mas tu não quiseste! 35 Eis que vossa casa ficará abandonada. Eu vos digo: não me vereis mais, até que chegue o tempo em que vós mesmos direis: Bendito aquele que vem em nome do Senhor”.
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Continuamos a acompanhar Jesus no seu Caminho para Jerusalém. Durante esse Caminho Jesus vai dando suas ultimas e importantes lições para seus discípulos (Lc 9,51-19,28) e portanto, para todos os cristãos em todos os tempos. Para Lucas, Jerusalém é tudo: onde acontece a cena da morte, da ressurreição, do nascimento da Igreja, e da expansão missionária.


É interessante notar, no evangelho de hoje, que os fariseus, que muitas vezes atacam Jesus de várias maneiras, desta vez, querem salvar sua vida ao lhe dizer: “Tu deves ir embora daqui, porque Herodes quer te matar”. Os que estão no poder consideram Jesus como um homem perigoso e por isso, querem eliminá-lo, embora Jesus apenas ajude as pessoas na sua dignidade. E Herodes seria capaz de fazer isso, pois ele já mandou decapitar João Batista alguns meses antes (cf. Lc 3,19).


O poder destrói a integridade; destrói a confiança; destrói dialogo; e destrói relacionamentos. O poder sempre anda lado a lado com a soberba e o orgulho. “A soberba odeia a companhia! O orgulhoso procura por todos os meios brilhar solitário”, dizia Sant Agostinho (Epist. 140,42). Não há nada que nos isole dos outros tanto quanto o poder. Até mesmo a conversa humana comum é destruída pelo poder. Por causa do poder vivemos o drama do diálogo perdido. Por isso, vemos esse drama trágico entre maridos e mulheres, entre pais e filhos, entre patrões e empregados e assim por diante. O pecado do poder consiste no desejo de ser mais do que aquilo para o qual fomos criados. “O homem foi criado para viver de acordo com a Verdade. Não viver como foi criado é viver na mentira permanente”, dizia Santo Agostinho (De civ. Dei 14, 4,1). “Aproximar-se de Deus é assemelhar-se a Ele. Afastar-se d’Ele é deformar-se” (Santo Agostinho. In ps 34,2,6).


Na sua resposta, diante desta ameaça, Jesus mostra aos fariseus (e Herodes) que ele próprio é quem decide seu caminho a seguir; Ele não se intimida pelos poderosos: “Ide dizer a essa raposa: eu expulso demônios e faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. Entretanto, preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém”. Raposo é um animal medroso que só Caça de noite e foge quando chegar a madrugada e corre rapidamente por causa de um pequeno perigo. Na gíria aramaica “raposa” tem um duplo sentido: animal astuto e animal insignificante em oposição a “leão”. Aqui a palavra “raposa” se aplica à pessoa insignificante e buliçosa/ inquieta que não merece respeito. Herodes é chamado de “raposa” para dizer que ele é um tipo de pessoa covarde, hipócrita que não quer se responsabilizar pela morte de Jesus, e Pilatos vai também nessa direção na condenação de Jesus (cf. Lc 23,6-12).


A tripla enumeração: “hoje, amanhã, e o terceiro dia” / “hoje, amanhã e depois de amanhã” serve para englobar um período de tempo largo e completo, isto é, o que resta de sua vida publica, durante o qual Jesus prosseguirá libertando o povo de todo tipo de ideologias contrárias ao plano de Deus (“expulsando demônios”) e de todo tipo de doenças morais e físicas que impede o povo de segui-lo com liberdade e dignidade humana (“curando”) até o fim de sua missão terrena (“terminarei meu trabalho”). Jesus não faz sua missão pela metade. Ele vive sua vida na totalidade e não pela metade. Jesus alcança a perfeição humana entregando sua vida para a salvação de todos.


A partir de Jesus aprendemos que precisamos fazer as coisas pelo bem de todos até onde nossa capacidade permitir. Quando cumprirmos nossa missão até onde a capacidade permitir, seremos pessoas realizadas e as outras serão beneficiadas.


Jerusalém que significa “cidade da paz” faz o contrário. Em vez de viver para criar a paz, Jerusalém provoca a violência: “Jerusalém, Jerusalém! Tu que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados!”, lamenta Jesus. Jerusalém não vive de acordo com seu nome: “cidade da paz”. Talvez possamos dizer isto, na linguagem de Santo Agostinho, para nosso contexto: “O nome de cristão traz em si a conotação de justiça, bondade, integridade, paciência, castidade, prudência, amabilidade, inocência e piedade. Como podes explicar a apropriação de tal nome se tua conduta mostra tão poucas dessas muitas virtudes?” (De vit. christ. 6).


Pelo Batismo nos é confiada a missão de proclamar a Boa Nova de salvação. No cumprimento fiel dessa missão não podemos dar-nos descanso: “Eu faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. Preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã”.  Não podemos enterrar as oportunidades, pois precisamos viver para fazer o bem (cf. At 10,38). Eu preciso fazer o bem hoje, amanhã e depois de amanhã (em todos os dias da minha vida). Nisto alcançarei a minha perfeição humana.

P. Vitus Gustama,svd
 
TORNAR-SE PEQUENO PARA ENTRAR PELA PORTA ESTREITA DO CÉU
 

Quarta-feira da XXX Semana Comum
30 de Outubro de 2013
 
Texto de Leitura: Lc 13,22-30


Naquele tempo, 22 Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo o caminho para Jerusalém. 23 Alguém lhe perguntou: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” Jesus respondeu: 24 “Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita. Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão”. 25 Uma vez que o dono da casa se levantar e fechar a porta, vós, do lado de fora, começareis a bater, dizendo: ‘Senhor, abre-nos a porta!’ Ele responderá: ‘Não sei de onde sois’. 26 Então começareis a dizer: ‘Nós comemos e bebemos diante de ti, e tu ensinaste em nossas praças!’ 27 Ele, porém, responderá: ‘Não sei de onde sois. Afastai-vos de mim todos vós que praticais a injustiça!’ 28 Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac e Jacó, junto com todos os profetas no Reino de Deus, e vós, porém, sendo lançados fora. 29 Virão homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus. 30 E assim há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos”.
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Continuamos a nos encontrar com Jesus no seu Caminho para Jerusalém (Lc 9,51-19,28). Para Jesus, Jerusalém é o ponto culminante e a meta decisiva, seja pela cruz de morte e triunfo, seja pela ascensão de Jesus ao céu. Neste caminho Jesus vai dando suas últimas instruções ou lições para que os discípulos possam levar adiante os ensinamentos de Jesus.


A lição dada aos discípulos nesta passagem é sobre o que e como o discípulo deve viver para merecer, pela misericórdia divina, a vida eterna (salvação). E para falar deste tema Lucas parte da pergunta de um anônimo (alguém) sobre a salvação. A pergunta desse anônimo é a pergunta de todos os que sabem que a vida tem o fim e por isso, todos os comportamentos ou modo de viver pesam para este fim. Interrogar-se pela salvação e desejar a vida eterna é interrogar-se pelo sentido da vida no presente: “Senhor, são poucos os que se salvarão?” (v.23).


Em vez de responder “quantos se salvarão” Jesus fala do “modo” como se salvar. Trata-se de um apelo urgente ao empenho: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não conseguirão” (v.24).


“Esforçai-vos” (agonizesthi/agonizomai, de onde deriva a palavra “agonia”) é uma palavra que denota ação feita de todo o coração. É um termo técnico para competir nos jogos, e dele obtemos nossa palavra “agonizar”. Não se trata, por isso, de nenhum esforço desanimado. O caminho que conduz ao céu passa por uma luta intensa. Sobre esse empenho na luta São Paulo escreve: “Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado, como o reconheceste numa bela profissão de fé diante de muitas testemunhas” (1Tm 6,12; cf. 2Tm 4,7-8). O Reino de Deus é exigente, não “se ganha” comodamente. Em outra ocasião Jesus chegou a dizer: “É mais fácil o camelo passar pelo fundo de uma agulha do que o rico entrar no Reino de Deus” (Mc 10,25).
    

A porta é estreita porque não há salvação sem esforço e sacrifício depois que o pecado se instalou no mundo. Não é Deus quem estreita a porta, é o clima de pecado presente nas relações humanas que vai exigir escolhas nem sempre fáceis no caminho da salvação. A expressão “porta estreita” quer nos dizer que o problema da salvação é uma questão de empenho, de esforço, de conversão e de testemunho. A porta da salvação é estreita, mas está aberta para todas as pessoas de boa vontade, pessoas que se esforçam para viver na fraternidade.
    

Se a porta é estreita, então há uma só condição para entrar: tornar-se pequeno: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus. Aquele, portanto, que se tornar pequenino como esta criança, esse é o maior no Reino dos céus” (Mt 18,3-4).  Se a porta é estreita, então os “gordos” não conseguirão entrar. Não podemos ser discípulos de Jesus se não renunciarmos a ser grandes, poderosos, dominadores, arrogantes, prepotentes, donos da verdade. Pequeno é aquele que se sente extraviado, humilde e só pode apelar à misericórdia de Deus. Quem não assumir a atitude interior do pequeno, sejam quais forem as suas práticas religiosas, orações, catequese, sermões, até milagres (Mt 7,22), não conseguirá entrar.
       

Não há pessoas recomendadas junto a Deus, nem privilegiadas que possam se gabar diante d’Ele com base em sua pertença étnica, cultural ou religiosa (v.28). Não basta freqüentar a Igreja assistindo ou participando da missa. A única condição para ser reconhecido pelo Senhor, para fazer parte da comunhão salvífica é a vivencia do amor fraterno. É viver como irmão dos outros e tratar ao outro como irmão. Para passar pela porta do Reino precisamos praticar a justiça. E a justiça, mais do que questão de direito, isto é, dar a cada um o que lhe pertence e respeitar os direitos e a dignidade de todos, é uma questão de amor. Quem ama, pratica a justiça. A maior de todas as injustiças é a falta de amor, pois outras injustiças são fruto da falta de amor. Para o evangelho deste dia a justiça é como um bilhete de passagem para entrar no Reino de Deus, pois o Reino de Deus é o Reino de amor e de justiça.


No Sermão da Montanha Jesus nos avisou: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram” (Mt 7,13-14). O Reino é aberto para todos, mas é exigente. Não se entra pela razão étnica ou pela associação a qual alguém pertence e sim pela resposta de fé que vivemos na convivência fraterna com os demais. O critério para entrar no Reino segundo o evangelho de Mateus é a caridade fraterna: dar de comer aos faminto e pobre, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os estrangeiros, visitar os doentes e os presos (cf. Mt 25,40.45). Daí se vê qual é o sentido da porta estreita do céu. A caridade fraterna é a que mais nos custa, mas nos faz entrar no céu, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).


A afirmação de Jesus “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita” é uma mensagem de ânimo e de esperança para todos nós e para as pessoas de boa vontade. A esperança não ignora as dificuldades e os riscos de fracasso ocasionalmente, mas ela os enfrenta. A esperança não quer saber quando ganhará, mas simplesmente está convencida da vitória final. Praticar a esperança em Deus é renunciar ao passado, às feridas, aos medos e à escuridão para deixar-se guiar pela luz divina da qual surge a abertura que permitirá o homem chegar a uma vida nova e renovada. Praticar a esperança é abrir nossas asas não para fugir, mas para ascender a espaços de qualidade superiores dos anteriores. Deus não nos inspira sonhos sem nos dar também a força de realizá-los: “Javé é o Deus que me cinge de força e torna perfeito o meu caminho” (Sl 18,33).


Precisamos viver cada dia como se fosse o dia do juízo, e viver em plenitude cada dia como se fosse o último para nossa caminhada nesta terra. Pensar e viver desta maneira nos levam a melhorarmos nosso empenho, nossa convivência fraterna e a valorizarmos nosso tempo para fazer o bem. Na verdade ainda temos muita coisa para melhorar. É preciso que tratemos nossa vida com carinho, respeito e profundidade.

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 28 de outubro de 2013

 

FÉ NO PODER TRANSFORMADOR DA PALAVRA DE DEUS

 
Terça-feira da XXX Semana Comum
29 de Outubro de 2013

Texto de Leitura: Lc 13,18-21

Naquele tempo, 18 Jesus dizia: “A que é semelhante o Reino de Deus, e com que poderei compará-lo? 19 Ele é como a semente de mostarda, que um homem pega e atira no seu jardim. A semente cresce, torna-se uma grande árvore e as aves do céu fazem ninhos nos seus ramos”. 20 Jesus disse ainda: “Com que poderei ainda comparar o Reino de Deus? 21 Ele é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”.
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Continuamos acompanhando Jesus no seu caminho para Jerusalém, durante o qual escutamos Suas últimas e importantes lições para nossa vida como cristãos (Lc 9,51-19,28).


A passagem do evangelho de hoje fala de duas parábolas: a semente da mostarda e o fermento. As duas querem sublinhar claramente que a graça de Deus cresce em extensão (grão de mostarda) e em intensidade (fermento na massa). No entanto, elas não sublinham apenas sobre o crescimento, mas também sobre todo estado final que apontam para um valor escatológico. Elas servem, por isso, para animar qualquer cristão, qualquer comunidade para não desistirem em levar adiante a causa de Jesus apesar de se sentirem tão pequenos no meio dos “poderosos” deste mundo, pois no final Deus é quem tem a última palavra.


O Reino de Deus é como a semente de mostarda, que um homem pega e lançou no seu jardim. A semente cresce, torna-se uma grande árvore e as aves do céu fazem ninhos nos seus ramos(Lc 13,19), assim Jesus disse-nos hoje.


Lançar semente à terra é um gesto absolutamente natural, apaixonante e misterioso. É um gesto de esperança e de aventura. Basta a semente estar na terra, começa, então, em segredo e em silêncio uma serie de maravilhas, pouco importa que o semeador se preocupe ou não com a semente. Cada semente lançada na terra surge a esperança no coração do semeador de ver a semente brotar e crescer em alguns dias. O semeador é aquele que crê na vida, que tem confiança no porvir. E ao ver a semente que se transformou em plantinha, a alegria inunda o coração do semeador a ponto de ele “conversar” com a plantinha quase diariamente. E com cuidado ele vai capinar ao redor dela para facilitar o crescimento saudável da plantinha a fim de ela dar bons frutos. O semeador é aquele semeia a mãos cheias para que a vida se multiplique que se transforma em alimento para cada família. O semeador é aquele que investe no porvir.


Jesus está consciente de estar fazendo isto: semear, lançar, esperar com paciência!  Ele empreende uma obra que tem porvir. Ele semeia a Palavra de Deus em cada coração. E aquele que escuta e se deixa guiar pela Palavra de Deus, vai produzir muitos bons frutos para a convivência fraterna.


A Palavra de Deus tem dentro de si uma força misteriosa que apesar dos obstáculos encontrados no seu caminho vai germinar e dar fruto. Com esta parábola Jesus quer sublinhar a força intrínseca da graça e da intervenção de Deus.


O Reino de Deus é como a semente de mostarda, que um homem pega e atira no seu jardim. A semente cresce, torna-se uma grande árvore e as aves do céu fazem ninhos nos seus ramos”.


Ao falar da pequenez de uma semente como a de mostarda, Jesus quer nos convidar a rever os nossos critérios de atuação e a nossa forma de olhar o mundo e os nossos irmãos. Por vezes, naquilo que é pequeno, débil e aparentemente insignificante é que Deus se revela (cf. Mt 11,25-28). Deus está nos pequenos, nos humildes, nos pobres, nos que renunciaram a esquemas de triunfalismo e de ostentação; e é deles que Deus se serve para transformar o mundo.


O Reino de Deus é como o fermento que uma mulher pega e mistura com três porções de farinha, até que tudo fique fermentado”, acrescentou Jesus.


Esta comparação tem em conta a potência de transformação do fermento apesar de sua invisibilidade: assim que o fermento se mistura com a massa, a massa se transforma em tamanho maior  para se transformar em pão para a mesa de cada família: os começos são modestos, mas o resultado final é surpreendente.


Através das duas parábolas, Jesus quer nos dar lição de que os meios podem ser muito pequenos, como a pequena semente de mostarda ou como o fermento, mas podem produzir frutos inesperados, não proporcionados nem a nossa organização nem a nossos métodos e instrumentos. A força da Palavra de Deus vem do próprio Deus e não de nossas técnicas. Quando em nossa vida há uma força interior, a eficácia do trabalho cresce notavelmente. Mas quando essa força interior é o amor que Deus nos tem, ou seu Espírito ou a Graça salvadora de Cristo ressuscitado, então, o Reino de Deus germina e cresce poderosamente. O que devemos fazer é colaborar com nossa liberdade. Mas o protagonista é Deus. Necessitamos trabalhar com o olhar posto em Deus, sem impaciência, sem exigir frutos a curto prazo, sem absolutizar nossos méritos, meios e técnicas e sem demasiado medo ao fracasso. Há que ter paciência como a tem o lavrador esperando a colheita.


O evangelho de hoje nos ajuda a entendermos como conduz Deus nossa história. Não teríamos que nos orgulhar nunca, como se o mundo se salvasse por nossas técnicas, métodos e esforços. Não podemos esquecer aquilo que São Paulo nos aconselhou: “Eu plantei, Apolo regou, mas Deus é quem fez crescer. Assim, nem o que planta é alguma coisa nem o que rega, mas só Deus, que faz crescer. O que planta ou o que rega são iguais; cada um receberá a sua recompensa, segundo o seu trabalho.  Nós somos operários com Deus. Vós, o campo de Deus, o edifício de Deus. Segundo a graça que Deus me deu, como sábio arquiteto lancei o fundamento, mas outro edifica sobre ele. Quanto ao fundamento, ninguém pode pôr outro diverso daquele que já foi posto: Jesus Cristo” (1Cor 3,6-11). 
  

Os frutos da graça de Deus se produzem às ocultas, em pequenos gestos e projetos bem simples sem que ninguém se dê conta. Nossa tarefa é semear a bondade constantemente, catar um pedaço de felicidade diariamente para compartilhá-la com aqueles que não conseguiram catar nenhum pedaço. A fé vivida na obediência à vontade de Deus é capaz de operar uma transformação total da pessoa, uma reestruturação de todo o ser, como a semente que se transforma totalmente em uma planta. Nos fatos aparentemente irrelevantes, na simplicidade e normalidade de cada dia, na insignificância dos meios, esconde-se o dinamismo de Deus que atua na história e que oferece aos homens caminhos de salvação e de vida plena. Não podemos deixar nenhum dia sem semear a bondade nos corações de pessoas.

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 26 de outubro de 2013

 
SER CRISTÃO É SER ENVIADO DO SENHOR


Festa dos Santos Apóstolos: Simão e Judas Tadeu
 

Segunda-feira da XXX Semana Comum
28 de Outubro de 2013
 
Texto de Leitura: Lc 6,12-19


12 Naqueles dias, Jesus foi à montanha para rezar. E passou a noite toda em oração a Deus. 13 Ao amanhecer, chamou seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de apóstolos: 14 Simão, a quem impôs o nome de Pedro, e seu irmão André; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; 15 Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado Zelota; 16 Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, aquele que se tornou traidor. 17Jesus desceu da montanha com eles e parou num lugar plano. Ali estavam muitos dos seus discípulos e grande multidão de gente de toda a Judeia e de Jerusalém, do litoral de Tiro e Sidônia. 18 Vieram para ouvir Jesus e serem curados de suas doenças. E aqueles que estavam atormentados por espíritos maus também foram curados. 19 A multidão toda procurava tocar em Jesus, porque uma força saía dele, e curava a todos.
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No dia 28 de outubro a Igreja celebra a festa dos Apóstolos Simão, o Cananeu, e Judas Tadeu, juntos. Nos evangelhos e nos Atos dos Apóstolos, os dois estão sempre juntos na lista dos Apóstolos, um ao lado do outro (cf. Mt 10, 4; Mc 3, 18; Lc 6, 15; At 1, 13). Não há muitos dados a respeitos dos dois.


No Evangelho de Mateus Simão tem qualitativa de “cananeu”. Em hebraico o verbo “qanà” significa “ser zeloso”. Não é por acaso que o evangelho de Lucas chama-o de “zelota” ou “zelote” ou “dedicado”. Ser zeloso, aqui, significa ser dedicado no serviço total a Deus e no serviço do povo para o qual foi eleito (cf. Ex 20,5; 1Rs 19,10: Elias se dedica totalmente ao Deus único, defensor do monoteísmo).


O segundo Apostolo cuja festa nós celebramos também neste dia (mais popular do que Simão, por ser considerado, popularmente, como santo das causas e coisas impossíveis). Os evangelhos Mateus e Marcos chamam esse Apostolo com um nome só: “Tadeu” (Mt 10,3; Mc 3,18); Lucas chama-o com dois nomes: “Judas de Tiago”  ou “Judas filho de Tiago” (Lc 6,16; At 1,13).


Sobre o Apóstolo Judas Tadeu, também, temos muito poucos dados. O evangelista João registrou a pergunta desse Apostolo para Jesus, cuja atualidade jamais perdida: “Senhor, por que te manifestarás a nós e não ao mundo?” (Jo 14,22: durante a Última Ceia). De fato, o Ressuscitado não se manifestou aos seus adversários para mostrar que quem vence é sempre Deus e quem está com Deus (cf. Rm 8,31-39). Deus continua respeitando a liberdade do homem, mas continua espera a volta de cada homem com misericórdia (cf. Lc 15,11-32). O caminho de Deus é totalmente diferente dos caminhos dos homens (cf. Is 55,8). O homem gosta de se exibir (cf. Mt 23,1-12). Deus prefere o caminho simples, sem barulho (cf. 1Rs 19,1-18; Mt 11,25-28). Segundo Jesus, na sua resposta à pergunta de Judas, Deus se manifesta e faz Sua morada no coração que sabe amar: “Se alguém me ama, guardará minha palavra e o meu Pai o amará e a ele viremos e nele estabeleceremos morada” (Jo 14,23). O amor no coração nos faz percebermos a presença de Deus. “Amando ao próximo tu limpas os olhos para ver a Deus” (Santo Agostinho. In Joan. 17,8).


Uma das Cartas do NT, chamadas cartas “católicas” (porque não são destinadas para determinada comunidade ou Igreja), é atribuída a Judas Tadeu (Carta de São Judas tem apenas 25 versículos). Nesta pequena Carta Judas Tadeu adverte a todos para não seguirem ensinamentos falsos e inaceitáveis, pois capazes de criar divisão dentro da própria comunidade. Segundo o autor dessa Carta, aqueles que seguem as doutrinas falsas e inaceitáveis são comparados com “os anjos caídos”, “nuvens sem água que os ventos levam”, “arvores sem frutos” (cf. vv. 11-13). Alem disso, nessa Carta, o autor encoraja os leitores para não terem medo diante das dificuldades e desafios, pois Deus vai guardar Seus fieis (v. 24). É preciso ter fé em Deus (v.20). Mas, ao mesmo tempo, o autor pede que andemos pelo caminho de indulgência: “Vocês, porém, amados, construam sobre o alicerce da santíssima fé que vocês têm; rezem movidos pelo Espírito Santo; mantenham-se no amor de Deus, esperando que a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo lhes dê a vida eterna. Procurem convencer os vacilantes: salvem a uns, arrancando-os do fogo; tenham compaixão de outros, mas com temor. Detestem até a roupa contaminada pelos instintos egoístas dos ímpios..." (vv. 20-23).


Os dois Apóstolos nos ajudam a vivermos nossa fé incansavelmente apesar das aparências poderosas das situações e dificuldades que encontramos na nossa vida. Deus é bom e Ele é amor, e por isso, podemos confiar nele em todos os momentos de nossa vida.

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A passagem do Evangelho de hoje é lida em função da festa dos dois Apóstolos que narra a instituição solene dos Doze.


 Jesus subiu ao monte”, assim Lucas começou seu relato. Monte é o lugar das grandes decisões, um lugar solitário propício para a oração, um lugar de amplos horizontes de onde se vê longe. Jesus nos ensina a aprendermos a ampliar nosso horizonte. Quanto mais subirmos, mais ampla será a visão que teremos. Para isso, temos que ter coragem de subir, de sair de nosso canto de sempre, sem medo. É aprender a ver a vida de maneira multiangular.  Eu posso fracassar em um modo de atuar, mas não significa que eu seja um fracassado para minha vida inteira. Deus me dá oportunidade para adotar outra maneira de viver tirando lição da maneira que eu vivi. O conservador não tem futuro porque não aceita novidade e teme por aquilo que é novo. Mas o mundo continua mudando e eu continuo parado e paralisado.


Jesus subiu ao monte para rezar”. Na escolha dos Doze Apóstolos Jesus entra em oração, porque ele não pode ser movido pelos critérios humanos que não sejam aqueles do Reino de Deus. Simpatia, riqueza, de uma família nobre e assim por diante não entram como critério. Jesus quer alguém como apóstolo. A palavra “apóstolo” vem do grego que significa “enviado”. “Apóstolo” era um termo de caráter jurídico na época. O Apóstolo era o representante plenipotenciário de quem o enviava. Neste caso Jesus precisa ter muito discernimento para escolher quem realmente pode representá-lo como enviado. O sucesso da obra de Jesus depende do bom empenho do seu enviado. O apóstolo é o prolongamento do Senhor neste mundo. Jesus falará e agirá no mundo através de cada apóstolo.


A oração é tão importante na escolha dos apóstolos a ponto de Lucas nos relatar que Jesus “passou a noite toda em oração a Deus”. Alguns especialistas interpretam que a palavra “noite” aqui quer indicar a perplexidade que invade Jesus. E a oração é meio de clarificação a fim de que Deus dê luz verde naquilo que Jesus quer realizar com a ajuda dos apóstolos para a salvação do mundo. Por isso, Lucas nos relatou que Jesus não escolheu seus apóstolos à noite e sim ao amanhecer: “Ao amanhecer, chamou seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de apóstolos”. Há aqui o objetivo da oração de Jesus durante toda a noite: Sua Igreja. É o projeto que apesar de tudo continua durando até hoje (cf. Mt 16,18). Por isso, a instituição dos Doze é um momento solene para a história da Igreja, particularmente, e para a história da humanidade de modo geral.


Segundo alguns especialistas a expressão “ao amanhecer” indica que a oração obteve resultados positivos, pois não se pode tomar decisões enquanto alguém estiver nas trevas ou na perplexidade de uma escuridão de vida (“noite”). Estar na oração significa estar com Deus. E estar com Deus é estar com a luz que ilumina tudo na nossa vida (“amanhecer”). Aqui percebemos que a oração tem uma função de clarear nossa visão sobre tudo na nossa vida.


Os Doze não são grandes personalidades. É o estilo de Deus que vai escolhendo para sua obra pessoas débeis, mas que se esforçam para dar o melhor de si para salvação do mundo, pois agente principal desta obra continua sendo o próprio Deus. A lista dos que foram escolhidos como apóstolos se abre com Pedro e se fecha com Judas. Pedro representa fidelidade apesar das fraquezas. Judas representa infidelidade e se desespera. Pedro e Judas, símbolos de fidelidade e infidelidade, resumem a historia da Igreja e a historia pessoal de cada discípulo. O importante é que não cerremos nossa relação com Jesus com uma traição.


Os Apóstolos já cumpriram sua missão. E por causa dos missionários próximos de nós, conhecemos Jesus. Não podemos deixar morrer na nossa mão está missão. Precisamos ser apóstolos do Senhor e fazer os outros apóstolos. Ser apóstolo não é trazer os outros para si e sim orientá-los para o encontro pessoal com Jesus, o Salvador. 


P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 25 de outubro de 2013

 
SER HUMILDE DIANTE DE DEUS E DOS HOMENS

XXX Domingo Do Tempo Comum “C”

27 de Outubro de 2013

Texto de Leitura: Lc 18, 9-14


Naquele tempo, 9 Jesus contou esta parábola para alguns que confiavam na sua própria justiça e desprezavam os outros: 10 “Dois homens subiram ao Templo para rezar: um era fariseu, o outro cobrador de impostos. 11 O fariseu, de pé, rezava assim em seu íntimo: ‘Ó Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens, ladrões, desonestos, adúlteros, nem como este cobrador de impostos. 12 Eu jejuo duas vezes por semana, e dou o dízimo de toda a minha renda’. 13 O cobrador de impostos, porém, ficou à distância, e nem se atrevia a levantar os olhos para o céu; mas batia no peito, dizendo: ‘Meu Deus, tem piedade de mim que sou pecador!’ 14 Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não. Pois quem se eleva será humilhado, e quem se humilha será elevado”.
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Continuamos a acompanhar Jesus na sua última viagem para Jerusalém. Continuamos também a escutar atentamente suas ultimas e mais importantes lições para nossa vida de cristãos.
    

No Domingo anterior o Evangelho falou da oração perseverante e a fé no Deus que sempre atende às nossas orações. Continuando o tema da oração vê-se agora como se deve orar. A parábola do fariseu e do cobrador de impostos (publicano) no evangelho deste domingo é exclusivamente do evangelho de Lucas. Por ser parábola, não é uma história verdadeira, mas uma história que diz alguma coisa de verdadeiro, como toda parábola.
  

Podemos dividir o texto em três partes: v.9 serve como uma introdução; vv.10-14a falam da parábola do fariseu e publicano e v.14b serve como uma sentença generalizante.
  

O v.9 une por meio da introdução do v.9a a parábola do fariseu e do cobrador de impostos com a anterior e no v. 9b apresenta os destinatários da parábola e sua finalidade. Esta pequena introdução é destinada a “alguns que, convencidos de serem justos, desprezavam os outros”. Com a palavra “alguns” sublinha-se a mensagem para qualquer um, seja fariseu, publicano ou outra pessoa, pois sentir-se superior aos outros não é exclusivo para os fariseus. Um orgulhoso não se preocupa em conhecer a verdade, mas apenas em ocupar uma posição em que ele possa ser o centro e a norma; livre de qualquer subordinação, ele pretende que tudo esteja sujeito a si próprio. O orgulhoso possui todos os vícios: ser egoísta, injusto, ingrato, imoral, fanfarrão (está sempre falando de si, atribuindo a si mesmo elogios por façanhas jamais realizadas).


Depois deste versículo introdutório vem a parábola (vv.10-14b). Na parábola temos a encenação de duas personagens profundamente opostas nas pessoas do fariseu e do publicano, para representar os dois papeis. O fariseu representa o ” justo” reconhecido como tal no judaísmo e o publicano que é enriquecido ilegalmente como cobrador de impostos, por isso é considerado um pecador público.


O fariseu de nossa parábola observou escrupulosamente todos os mandamentos até os mais detalhes e as proibições da lei. A lei prescrevia um único jejum público por ano, no dia da expiação (Lv 16,29-39). Porém, o nosso fariseu jejuava duas vezes por semana, nas segundas e nas quintas-feiras, para compensar os pecados dos outros e atrair sobre seu povo as bênçãos de Deus. Por isso, era uma obra de merecimento adicional. Além disso, a lei prescrevia o dízimo do trigo, do vinho novo, do azeite, dos primogênitos do gado e do rebanho a fim de poder ajudar o serviço do Templo e as obras de caridade (Dt 14,22-29). Mas o nosso fariseu paga o dízimo de todos os seus rendimentos e de todos os alimentos que compra e até mesmo as ervas do jardim/ horta (Lc 11,42). Ele ora como todos os devotos judeus: de pé, com os braços levantados e a cabeça erguida. Ele agradece a Deus. Esta é a forma clássica da oração bíblica e judaica: o louvor e o agradecimento a Deus (cf. Lc 10,21). Este homem piedoso, com efeito, se preocupa com o futuro do seu povo. É exatamente o contrário duma pessoa interessada ou egoísta. Ele se sacrifica pelo bem comum. Até aqui ninguém conseguiria descobrir nele alguma transgressão.


Qual, então, a falha do fariseu?
   

Primeiro, ele se auto-justifica. Na sua oração, Deus quase ficou esquecido, ou se quisermos falar radicalmente diremos que Deus ficou esquecido e somente o EU predomina: Eu não sou como os demais, eu jejuo, eu pago o dízimo. Os demais homens são o fundo escuro do magnífico auto-retrato e auto-elogio. Ele vai ao Templo, carregando consigo as suas boas obras, na certeza de que estas lhe possam merecer a justificação. A arrogante consciência de ter feito alguma coisa, o faz acreditar que Deus se tornou seu devedor, mas inútil. Esse homem não está mais disponível à dádiva gratuita da salvação. Ele se aproveita de Deus para ilustrar a si mesmo devidamente. Para ele, o que importa não é Deus, mas sua própria perfeição. Em outras palavras, ele rezava a si mesmo. Ele não saia de si mesmo nem olhava para Deus, mas exclusivamente para a sua própria pessoa. Ele ficava dentro de si mesmo, rezava a si mesmo e adorava a si mesmo. Ele abusava da oração para demonstrar sua própria grandeza a fim de se colocar sob a devida luz diante de Deus e dos homens. Não há pessoa arrogante que reze. Certo, o fariseu cumpre a lei, mas de maneira formal e material sem abandonar-se a Deus, não espera nada de Deus, esquecendo que só Deus é justo, e só Ele é que justifica. O fariseu se torna uma pessoa exibicionista. A preocupação deste tipo de pessoa é ser notado e elogiado. Tudo o que ele faz é na perspectiva de algum louvor ou elogio. O exibicionismo é a linguagem que demonstra a ausência de um valor. Quando um valor cresce na experiência espiritual de uma pessoa, ela ama discrição, que é a linguagem do tesouro escondido, e se comunica pelo caminho da simplicidade, discrição, e é amiga do pudor.
   

Segundo, o fariseu da parábola não age por amor, pois menospreza o pecador. Ele dá graças a Deus não porque Deus é a fonte de toda justiça, mas porque não é “como o resto dos homens: ladrões, injustos, adúlteros e nem como este publicano”. Ele se preocupa com o futuro da nação, mas não ama o seu povo. Fica sozinho com a contagem de seus méritos. Até mesmo a palavra “obrigado” / ”agradecer” perde o seu significado, porque é dita apenas em função de si mesmo. Essa palavra mais sagrada e mais expressiva da gratuidade do amor é profanada pela arrogância do “eu”. Até mesmo o nome de Deus é o pressuposto de um interlocutor de um diálogo que não houve. Na realidade, o fariseu está concentrado apenas em si mesmo. A sua prece é um falso diálogo, que tudo contamina e profana: Deus, o agradecimento, a si mesmo, aos outros. Deus é apenas uma oportunidade para ele falar de si mesmo, e a egolatria, arrogante e presunçosa, transforma-se em desprezo pelos outros.
   

O resultado dessa prece são as trevas de uma vida que permanece a mesma: com o silêncio de Deus, a distância hostil dos outros e o retorno mortificante ao próprio pecado.
    

Um perigo que corremos na nossa vida espiritual e comunitária é o de nos imaginarmos perfeitos, santos, inteligentes e piedosos. Consequentemente, nós corremos o perigo de nos colocarmos acima dos outros na própria oração e na vida cotidiana com os demais. Nós sentimo-nos superiores aos demais. O ato de julgar encontra-se, por vezes, naqueles mesmos (todos nós) que guardam o domingo. O ir à igreja pode ser motivo para se sentir à vontade para olhar de modo severo a quem não vai. Isto é o sinal de que não houve a prece (oração). Assim a finalidade de ir à igreja não é mais o serviço ou a missão, mas é o destacar-se. O resultado não é o compromisso, mas o julgamento, que aumenta ainda mais a distância.
    

Somos fariseus toda vez que apelamos à nossa boa consciência, ao cumprimento cultual, à cultura ou status religioso e social, para nos julgarmos melhores e desprezarmos os “novos publicanos”: marginalizados, alcoólicos, toxicodependentes, divorciados, mães solteiras, prostitutas, vigaristas, oportunistas etc.. Com isto corremos o perigo de estarmos excluídos da misericórdia divina, que somente alcançaremos confessando-nos pecadores e miseráveis diante da tamanha santidade de Deus. O verdadeiro santo é aquele que se reconhece pecador e precisa permanentemente da misericórdia divina. O verdadeiro pecador é aquele que se acha santo e acha que quando se fala do pecado para ele é sempre do outro e nunca o dele. O farisaísmo nos impede de ver o que somos e falseia a nossa relação com Deus e com os irmãos, nossos próximos. Precisamos, por isso, pedir a Deus que nos ilumine para que possamos nos ver tal como somos e nos reconhecer pecadores. Com este reconhecimento correremos sempre ao encontro do Senhor para que ele nos perdoe e nos fortaleça dia após dia até o nosso encontro definitivo com ele na vida eterna.
    

E o publicano? Por que Jesus o justifica na sua oração? Qual é a sua virtude se ele é um publicano (um pecador público)?
   

A lei dizia que, para salvar-se, o publicano deveria restituir tudo o que roubou e mais 20(25)% dos juros e ainda deveria abandonar imediatamente a sua profissão como cobrador de impostos. Condições tão difíceis de ser cumpridas que os rabinos concordavam em afirmar que para os publicanos a salvação era praticamente impossível.


É claro que o publicano da parábola não é um santo; pelo contrário, ele é chamado, literalmente “o pecador”, não “um pecador”. É um ladrão diplomado, aquele que, sem escrúpulo, rouba e desvia o dinheiro público, é um explorador nojento. Ele sabe disto e nem procura a mínima desculpa. Ele reconhece diante de Deus quem ele é realmente. Ele nem tem a coragem de levantar os olhos para o céu e de erguer as mãos, como era praxe, para rezar. Ele olha para o chão e bate no peito como aquele que está numa situação de desespero, suplica com a fórmula do pecador que não sabe fazer o elenco de seus pecados, dizendo: ”Meu Deus, tem piedade de mim, pecador!” (cf. Sl 51,3). É a oração do pobre que confia totalmente em Deus. Sua “segurança” é a misericórdia de Deus. Ao lado da sarça ardente da santidade de Deus, sente-se vivamente o limite de ser criação e o peso do próprio pecado. Quem confessa sua pobreza e sua incapacidade ou sua pecaminosidade, confiando ilimitadamente na ação salvífica de Deus por meio de Jesus Cristo, obtém a vida nova em Deus. Nele Deus se glorifica.
    

O mistério do amor, quando presente na prece, preocupa o coração da pessoa antes de inundá-lo de alegria (cf. Lc 1,29; 5,8; 18,3;Mt 8,8). O temor da santidade de Deus revela a transparência e a verdade de uma consciência frágil ou de ser pecador. A ausência de temor a Deus (como aconteceu com o fariseu) dá margem à indiferença diante dele, ao risco de desprezá-lo, à perda do bom senso. A proximidade da santidade de Deus faz perceber entre sua luz e a sombra do pecado entre os meandros do coração. Somente próximos da luz é que percebemos melhor se nossa roupa está suja ou limpa. Na escuridão somente vemos a única cor: preta. Este é o indício do verdadeiro encontro com Deus numa verdadeira oração. A única riqueza do cobrador de impostos é uma consciência verdadeira, que se torna espaço vital para acolher a dádiva de Deus com sua misericórdia e sua justiça. O cobrador de impostos descobre imediatamente a presença libertadora do amor e se abre à confiança e ao poder renovador da prece.
  

A lição final da parábola (v.14 a), introduzida com força e autoridade (Eu vos digo...): “Eu vos digo: este último voltou para casa justificado, o outro não”. O segredo da justificativa interior é a humildade. A humildade gera a verdade e vive na simplicidade e acelera o crescimento e a maturidade. O orgulho, ao contrário, é a raiz de toda falsidade. Quando a pessoa não aceita a si própria e seus limites, ela termina por aceitar qualquer compromisso, nem que seja injusto, para alcançar as próprias intenções: o seu coração torna-se uma central desordenada de pensamentos e de palavras distorcidas e enganadoras. A humildade do cobrador de impostos torna possível um grande desejo de autenticidade, que faz surgir uma visão verdadeira de si e o torna disponível ao perdão de Deus, ao dom de sua graça. A humildade abre o coração à luz que vem de Deus e é fonte de paz. A humildade é a pureza na oração: Deus é Deus e o ser humano é apenas um pobre mendicante de misericórdia. A humildade é a virtude de quem sabe não ser Deus. Por isso, a humildade não é a depreciação de si nem a ignorância do que somos. A humildade é o reconhecimento de tudo o que somos. A humildade na oração e na vida é o terreno livre para acolher a semente da justiça, da honestidade, da retidão, do amor e assim por diante. Ser humilde é amar a verdade e os demais valores mais do que a si mesmo. A humildade é o terreno fértil da santidade. Por isso, a humildade é a virtude dos simples e é a sabedoria dos santos.
 

A sentença final (v.14b) é uma adição que já encontramos em Lc 14,11(cf. Mt 23,12). Ali tem um nítido sentido escatológico: na hora do Julgamento final “todo aquele que se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”. Aqui temos o mesmo sentido, dado ao discurso sobre o Dia do Filho do Homem (Lc 17,22-37). O julgamento e a ação de Deus se qualificam por um reviravolta total da situação do homem que está diante dele (cf. Lc 1,51-53).
 

A nossa vida de cada dia, com certeza, facilmente nos desgasta, quando não pomos amor em todos os nossos atos, mesmo nos mais simples e humildes. O egoísmo nos fecha os olhos e só os abrimos para ver o que nos interessa. A vaidade nos faz perder tempo em coisas fúteis e sem valor. O exagerado cuidado das coisas terrenas pode levar-nos a esquecer os valores espirituais. O farisaísmo, infelizmente, continua vivo. Ele é uma atitude religiosa que nos impede de ver-nos como somos e que deturpa nossa relação com Deus e com os irmãos. Uma falsa humildade é a forma mais refinada de orgulho. Como dizia Santo Agostinho: “Simular a humildade é a maior das soberbas” (De sanc. virg. 43,44)
   

O publicano não deve ser considerado como um modelo de vida virtuosa. Ele é somente a imagem da única atitude certa que o homem deve assumir diante de Deus. É o pobre que sabe poder oferecer a Deus só o seu coração. O homem, na verdade, não possui nada que o torne digno da complacência divina. O universo todo é de Deus. Ele que o criou. Tudo é presente de Deus. E sabemos que cada vez que viemos para a igreja para falar com Deus, na verdade, viemos para escutá-Lo porque só Ele tem palavra da vida eterna. E cada vez que viemos para oferecer algo a Deus, na verdade, viemos para receber a Sua bênção para que possamos sair daqui firmes e esperançosos.
   

Sempre que nós rezamos de verdade, a nossa oração é eficaz não porque modificamos Deus, mas porque nos modificamos, assim saímos diferentes do que entramos. O mais difícil da oração não é tanto saber se Deus nos escuta, e sim conseguir que nós O escutemos. Não peçamos a Deus que governe a nossa vida e o mundo através de milagres; peçamos-Lhe o milagre de amar e nós veremos que nosso amor transforma as pessoas e o mundo. Por isso, se a nossa oração nos afasta dos homens, isto significa que não nos encontramos ainda com Deus dos homens, mas com a nossa fantasia. Rezemos diante de Deus como uma criança, mas logo voltemos à nossa vida com nossa responsabilidade de adultos. 

P. Vitus Gustama,svd