quarta-feira, 21 de maio de 2014

 

AMOR CRISTÃO TEM SUA ORIGEM NO  AMOR DIVINO

Quinta-Feira da V Semana da Páscoa
22 de Maio de 2014
 

Evangelho: Jo 15,9-11

Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: 9 “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei. Permanecei no meu amor. 10Se guardardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor. 11Eu vos disse isto, para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena”.
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 O texto do evangelho se encontra no discurso da despedida de Jesus dos seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17). Jesus sabe de sua morte iminente e por isso, deu as ultimas recomendações para os seus discípulos.


Com a metáfora da videira e os ramos, no texto do evangelho do dia anterior, Jesus nos convidava para permanecermos nele a fim de podermos dar fruto (cf. Jo 15,1-8). O texto do evangelho de hoje continua o mesmo tema, mas se enfatiza sobre a permanência em Cristo no amor, guardando os mandamentos do Senhor. Neste texto se estabelece uma misteriosa e admirável relação tríplice. E o Pai é a fonte de toda essa relação. O Pai ama a Jesus e Jesus ama ao Pai. Jesus, por sua vez, ama aos discípulos e estes devem amar a Jesus através do amor mútuo entre os discípulos (Jo 15,12) e permanecer no amor de Jesus, guardando seus mandamentos como Jesus que permanece no amor ao Pai cumprindo Sua vontade.


 Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”, disse Jesus aos discípulos. É maravilhosa esta afirmação e é profundo seu conteúdo. O amor com que Jesus nos ama é o mesmo amor com que Ele é amado pelo Pai. A nossa união com Jesus é comparável à de Jesus com o Pai. Como cristão eu preciso viver esta verdade na minha vida cotidiana com muita alegria. Deus Pai ama o Filho incondicionalmente (cf. Mt 3,17; Mc 1,11; Lc 3,22). E Jesus nos ama da mesma maneira: incondicionalmente. Ao viver esta verdade nós não teremos mais medo de viver nossa vida e de encarar seus problemas, pois Jesus nos ama incondicionalmente até o fim. O amor nos tranqüiliza, o amor nos dá segurança, o amor nos leva ao encontro do outro, o amor nos impulsiona para ajudar os outros na sua necessidade, e o amor nos leva até o céu (cf. Mt 25,34-40). Jesus nos ama condicionalmente para que nos amemos uns aos outros incondicionalmente (cf. Jo 15,12), pois nisto seremos reconhecidos como discípulos do Senhor (cf. Jo 13,35). O amor transforma qualquer um num verdadeiro seguidor de Cristo.


Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. Isto quer dizer também que o amor cristão nasce e começa em Deus. Originalmente é coisa de Deus e não nossa. A iniciativa é de Deus: “Amamos porque Deus nos amou primeiro” (1Jo 4,19). Deus é amor (1Jo 4,8.16), origem e motor do amor. O Filho, Jesus, se origina do Pai num processo de amor que é o Espírito. Este amor em Deus é comunidade, Trindade. E este amor vai se manifestando na criação, na encarnação, na filiação, na amizade, na alegria definitiva do encontro derradeiro. Deus é sempre a origem e o término.


E o sinal mais evidente, a encarnação desse amor é Jesus: “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16). Jesus é a medida do amor de Deus e o exemplo a seguir. Todas as palavras de Jesus, todas as obras de Jesus são manifestação do amor do Pai por nós todos. Jesus é o amor de Deus feito rosto humano.


E este amor que nasce no Pai e passa por Jesus termina necessariamente nos irmãos. O amor cristão tem dois pólos: Deus e os irmãos (o homem). Quem não ama o irmão, não conhece Deus, não conhece Jesus, não entendeu o que é a fé cristã. Sem amor a Deus e ao irmão, não há fé cristã.


Amor cristão é, então, um amor circulante: o amor que vem do Pai para o Filho, Jesus e de Jesus  para nós e de nós para os irmãos.


Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. É maravilhoso o que Jesus nos diz hoje. Há alguém que me ama com o amor divino: Jesus Cristo. O amor com que Jesus me ama é o mesmo amor com que Ele é amado pelo Pai. Diante de Deus sou amado e sou amado eternamente, porque Aquele que me ama é eterno: “Eu te amei com amor eterno, por isso, conservei para ti o amor”, diz Deus através do profeta Jeremias (Jr 31,3). Posso estar rodeado pelas dificuldades ou problemas, mas eu sei que há alguém que me ama. A certeza desse amor eterno por mim me dá força para lutar e para melhorar minha vida. A certeza desse amor eterno me dá serenidade em tudo. De fato, eu não estou sozinho na minha luta de cada dia, pois há alguém que me ama: “Como meu Pai me amou, assim também eu vos amei”. Na minha oração só posso dizer a Jesus: “Obrigado, Senhor Jesus, porque me ama eternamente”.


Mas a relação com Deus não é algo automático. Por isso, Jesus acrescenta: “Permanecei no meu amor”.  A palavra “permanecer” é uma forma de acreditar em Jesus, de deixar-se penetrar pelo amor de Jesus, de deixar-se envolver pela ternura. É uma entrega total em Jesus para que Ele possa operar totalmente em nós a fim de que possamos ser reflexos do mesmo amor para o mundo ao nosso redor.


“Se guardardes os meus mandamentos, vós permanecereis no meu amor, assim como eu guardei os mandamentos do meu Pai e permaneço no seu amor”. Este “Se” é inquietante para nós, porque é a responsabilidade de nossa liberdade. Eu sei que Deus me ama, mas será que eu permaneço no amor de Deus? Eu sei que sou filho (a) de Deus, mas será que eu vivo como tal? Eu sei que faço parte da família de Deus, mas será que estou dela e nela? São Paulo nos esclarece sobre este tema ao nos dizer: “Não devais nada a ninguém, a não ser o amor mutuo, pois quem ama o outro cumpriu a Lei... A caridade não pratica o mal contra o próximo. Portanto, a caridade é a plenitude da Lei” (Rm 13,8.10). Tudo isto significa que o amor divino com que eu sou amado deve também transparecer e circular na minha relação com os outros. Nisto mostrarei que eu permaneço no amor divino.


O amor fraterno quando for vivido na sua profundidade leva a pessoa à alegria: “Eu vos disse isso para que a minha alegria esteja em vós e a vossa alegria seja plena” (Jo 15,11). O amor nos dá alegria e alegra os demais homens. A verdadeira alegria brota do amor e da fidelidade com que se guardam na vida concreta as leis do amor. Sentiremos essa alegria na medida em que permanecermos no amor a Jesus, guardando os mandamentos de amor, seguindo o estilo de sua vida. Quando eu perco a alegria de viver será que isso é sinal de que eu perco minha consciência de que Deus me ama? Quando eu vivo na permanente tristeza e no isolamento dos demais, será que isso é sinal de que não mais deixo o amor de Deus circular em mim? O maior causador da alegria na convivência é o amor mútuo. Se vivermos tristes, será que isso acontece por causa da falta de nossa permanência no amor divino? Será que abandonamos o amor na nossa vida, por isso é que ficamos tristes o tempo todo? Será que nosso amor está nem morno nem quente, como diz o livro de Apocalipse (Ap 3,16)?

P. Vitus Gustama,svd

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