sábado, 3 de maio de 2014

 
JESUS, PÃO DA IMORTALIDADE

Quinta-Feira da III Semana da Páscoa
08 de Maio de 2014
 

Evangelho: Jo 6,44-51

Naquele tempo, disse Jesus à multidão: 44 “Ninguém pode vir a mim, se o pai que me enviou não o atrai. E eu o ressuscitarei no último dia. 45 Está escrito nos Profetas: ‘Todos serão discípulos de Deus’. Ora, todo aquele que escutou o Pai e por ele foi instruído, vem a mim. 46 Não que alguém já tenha visto o Pai. Só aquele que vem de junto de Deus viu o Pai. 47 Em verdade, em verdade vos digo, quem crê possui a vida eterna. 48 Eu sou o pão da vida. 49 Os vossos pais comeram o maná no deserto e, no entanto, morreram. 50 Eis aqui o pão que desce do céu: quem dele comer, nunca morrerá. 51 Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente. E o pão que eu darei é a minha carne dada para a vida do mundo”.

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O texto do evangelho de hoje faz parte do amplo discurso de Jesus sobre o Pão da Vida. A imagem do Pão da Vida está vinculada à fórmula “Eu Sou” ou “Eu sou o Pão da Vida”. É uma fórmula introdutória que há que relacionar com o discurso de Deus no Antigo Testamento (cf. Gn 28,13: “Eu sou o Senhor...; Ex 20,2.5: “Eu sou o Senhor teu Deus...”). O rasgo característico do evangelista João ao usar esta fórmula é assinalar que somente Jesus realiza plenamente o que ela significa. Jesus é a Palavra do Pai que se torna carne e habita entre nós (cf. Jo 1,1-2.14). A Palavra reveladora se relaciona com o sinal: o Pão da Vida com a multiplicação dos pães.


No texto de hoje o que se acentua é a fé em Jesus como condição para ter a vida eterna: “Em verdade, em verdade vos digo: quem crê em mim possui a vida eterna”.


A passagem do evangelho deste dia se abre com uma afirmação categórica de Jesus sobre a intervenção do Pai na vida do cristão: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o atrai”. O interessante desta afirmação é que Jesus a clarifica em seguida: “Não é que alguém tenha visto o Pai”. Isto nos estabelece a necessidade de saber entender a forma em que Deus intervém em nossa vida. Certamente não o faz com aparições e sim no silêncio da vida cotidiana. Segundo Jesus na cotidianidade da vida é que podemos descobrir a presença de Deus.


Os verbos usados no texto anterior (Jo 35-40) são ver, vir e crer. E hoje se acrescenta um algo novo: a graça: “Ninguém pode vir a mim se o Pai que me enviou não o atrai”. “Vir a mim” é outra forma de crer em Jesus. Mas para vir a Jesus o homem necessita da graça de Deus: o Pai precisa atrair o homem. Esta afirmação quer dizer que a fé é um dom de Deus. E esse dom requer uma decisão pessoal. A graça é o papel divino. A correspondência a esta graça é o papel da liberdade humana. Com esta afirmação Jesus quer colocar em destaque a necessidade absoluta da graça de Deus: é necessária uma iluminação interior que vem de Deus para compreender as coisas de Deus, para vir a Cristo Jesus, para ter a fé. Esta iluminação divina é dada a todos, mas o homem pode resistir diante dela. É o grande mistério da responsabilidade livre do homem. Deus propõe e nunca impõe. Isto significa que a responsabilidade recai sobre o próprio homem. O homem é livre para aceitar ou para recusar. Mas o próprio homem vai assumir as conseqüências de sua liberdade, e não Deus porque com sua graça Ele oferece sempre o melhor para o homem. A partir disso, posso me perguntar: Será que eu escuto o Senhor? Será que eu respondo à graça de Deus? Será que eu me deixo instruir e a atrair pelo Pai?


Só aquele que vem de junto de Deus viu o Pai é outra afirmação de Jesus no evangelho de hoje. O que significa ver Deus?


A afirmação de Jesus de que vê o Pai não deve nos conduzir para uma definição da visão beatífica (visões particulares sobre algo celestial). Para “ver” Deus requer-se somente um conhecimento particular dos mistérios de Deus. E este conhecimento particular é que a Bíblia expressa pela metáfora “ver a Deus” (Jo 1,18). Com efeito, “ver a Deus” na Sagrada Escritura designa uma espécie de proximidade do homem e de Deus, estando o primeiro (homem) capacitado para compreender o desígnio do Segundo (Deus). Esta proximidade foi negada para o homem desde a queda (cf. Ex 33,20; 1Rs 19,11-15). Jesus restabelece esta proximidade e esta amizade, pois Ele vem de Deus e habita entre nós (Jo 1,14).


Precisamos seguir a Jesus vivendo conforme seus ensinamentos para que sejamos capacitados, de alguma forma, a ter esta proximidade com Deus para entender um pouco de Seus mistérios na nossa vida e na história da humanidade. É importante manter nossa disciplina em ler e meditar a Palavra de Deus para que sejamos inspirados permanentemente.


Em seguida Jesus fez outra afirmação: Em verdade, em verdade vos digo, quem crê possui a vida eterna. Eu sou o pão da vida. Os vossos pais comeram o maná no deserto e, no entanto, morreram. Eis aqui o pão que desce do céu: quem dele comer, nunca morrerá. Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente”.


O primeiro Livro da Bíblia, o Gênesis, afirma que Deus fez o homem para a imortalidade, pois estava num jardim onde havia a arvore da vida (cf. Gn 2,8-9). E o último Livro, o Apocalipse, afirma que Deus voltará a dar esta imortalidade (cf. Ap 2,7.11.17).


Agora Jesus afirma no texto do evangelho de hoje que esta imortalidade nos é dada de volta pela fé em Jesus e pela comunhão do Corpo do Senhor. A fé em Jesus supõe a observância de seus ensinamentos (cf. Jo 14,15.21.23) e supõe a prática do amor fraterno (cf. Jo 15,12). Nisto ter fé em Jesus significa não parar de existir, pois o amor não pode morrer porque é o nome próprio de Deus (cf. 1Jo 4,8.16): “Em verdade, em verdade vos digo, quem crê possui a vida eterna... Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente” (Jo 6,47.51). O alimento eucarístico, recebido na fé, põe o fiel em posição, já desde agora, no presente, de uma vida eterna à qual a morte física não a afeta absolutamente: “Quem crê em mim, ainda que esteja morto, viverá” (Jo 11,25).


No final da leitura do evangelho deste dia mudou o discurso. Começou a soar o verbo “comer”. A nova repetição: “Eu sou o Pão vivo” tem agora outro desenvolvimento: “O Pão que eu darei é minha carne para a vida do mundo”. O lugar onde Jesus entregou sua carne pela vida do mundo foi na cruz. Mas as palavras que seguem, e que leremos amanhã (Jo 6,52-59) apontam também claramente para a Eucaristia, onde celebramos e participamos sacramentalmente de sua entrega na cruz. A Eucaristia é antecipação da glória celestial como dizia Santo Inácio de Antioquia: “Partimos o mesmo pão que é remédio de imortalidade, antídoto para não morrer, para viver para sempre em Jesus Cristo”.


Jesus pede a cada um de nós uma disponibilidade aberta a descobrir, a ler e a encontrar-se com Deus Pai no interior da própria vida. Isto é que permite abrir-se e deixar-se penetrar por uma mensagem que mudará a maneira de apreciar a realidade e a vida, de relacionar-se uns com os outros e de entender Deus e de captar o sentido da vida e dos seus acontecimentos. Segundo Jesus, há duas coisas que podemos fazer a partir da cotidianidade: escutar o Pai em Jesus, o Verbo divino feito homem e reproduzir as obras que Jesus fez através das condições que cada um tem.


“Eu sou o pão vivo descido do céu. Quem comer deste pão viverá eternamente”.  Se comungar o Corpo do Senhor é para viver eternamente, logo quem comunga o Corpo do Senhor, quem se alimenta da Palavra de Jesus deve respeitar, proteger e defender a vida em todas as suas etapas: no seu início (concepção), na sua duração (existência na história) e no seu fim na história (morte física). Jesus ama a vida, pois Ele é a própria vida (Jo 11, 25; 14,6). Logo, todo cristão deve amar a própria vida e a vida dos demais homens. Comungar é receber o Corpo de Cristo que se entregou pela vida do mundo. Por isso, comungar é incorporar-se pessoalmente a Cristo e engajar-se em sua missão salvadora e em seu sacrifício. A Eucaristia foi instituída à “noite antes de padecer” para que os discípulos ficassem comprometidos na mesma entrega que Jesus ia realizar definitivamente no dia seguinte. Comungar não é só comer e sim é crer e isto significa comprometer-se. Não há nada de sentimentalismo na comunhão do Corpo do Senhor.

P. Vitus Gustama,svd

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