terça-feira, 10 de junho de 2014


SÃO BARNABÉ
(Sec. I)
11 de Junho
Textos de Leitura: At 11,21-26; 13,1-3; Mt 10,7-13
Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 7 “Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. 8 Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar! 9 Não leveis ouro nem prata nem dinheiro nos vossos cintos; 10 nem sacola para o caminho, nem duas túnicas nem sandálias nem bastão, porque o operário tem direito ao seu sustento. 11 Em qualquer cidade ou povoado onde entrardes, informai-vos para saber quem ali seja digno. Hospedai-vos com ele até a vossa partida. 12 Ao entrardes numa casa, saudai-a. 13 Se a casa for digna, desça sobre ela a vossa paz; se ela não for digna, volte para vós a vossa paz”.
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Neste dia celebramos a festa de São Barnabé. “Barnabé” é o nome da origem aramaica que significa “filho (bar) da profecia (nabiah) ou da exortação”, ou “filho da consolação” (Bar-nehámah), Consolador (At 4,36).
 
Relativamente poucas as notícias que a história conservou sobre Barnabé. Ele era procedente da diáspora (de Chipre) e se estabeleceu em Jerusalém e incorporado ao grupo dos pilares da Igreja primitiva. Ele se converteu ao cristianismo depois da ressurreição do Senhor, imediatamente depois da vinda do Espírito Santo sobre os Apóstolos, em Pentecostes, e se tornou um grande colaborador dos Apóstolos.
 
Depois que fez parte do cristianismo, Barnabé vendeu um campo de sua propriedade e entregou generosamente o dinheiro aos Apóstolos para a necessidade da Igreja (cf. At 4,37). Em virtude deste desprendimento heróico “Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum” (At 4,32b). Este foi o conselho de Jesus ao jovem rico que lhe pedia maior perfeição: “Se queres ser perfeito, vai, vende os teus bens e dá aos pobres... Depois, vem e segue-me” (Mt 19,21). Mas o jovem rico não aceitou o convite de Jesus. O que não fez o jovem rico, Barnabé o praticou. A generosidade de Barnabé e sua compaixão pelos indigentes moveram a comunidade cristã de Antioquia a confiar-lhe (com Saulo) a missão de ir a Jerusalém (Judéia) para distribuir entre os fieis necessitados as contribuições (cf. At 11,27-30).  Por ter o espírito generoso, criativo e abnegado recebeu dos Apóstolos o sobrenome de “Barnabé” que significa “Filho da profecia” ou “Filho da consolação”. Conforme At 4,36 o nome de Barnabé era José.
 
Barnabé era um pregador inspirado. Tinha um coração sensível e possuía uma palavra fácil, doce e persuasiva com o qual ele ganhava a simpatia de todos. Sobre ele o evangelista Lucas (também é o autor dos Atos dos Apóstolos) escreveu que Barnabé era um homem bom, cheio do Espírito Santo e da fé: “(Barnabé) era um homem bom, repleto do Espírito Santo e de fé. Assim, considerável multidão agregou-se ao Senhor” (At 11,24). Tudo o que é belo atrai. A bondade e a docilidade são belas e por isso, atraem qualquer pessoa. Por estas qualidades e com sua colaboração com e na graça de Deus, unidas a uma extensa cultura vasta adquirida na escola de Gamaliel (Barnabé era conhecido como profeta e doutor. Cf. At 13,1), Barnabé chegou a desempenhar um papel preponderante na organização da Igreja primitiva.
 
Com Paulo, Barnabé vai ao Concilio de Jerusalém durante o qual foi decidido o término da prática da circuncisão para ser cristão (cf. At 15,1-35). Com essa decisão torna-se possível oficialmente a Igreja sem circuncisão, a Igreja aberta para os pagãos que se convertem: somos filhos de Abraão simplesmente pela fé em Cristo.
 
São Barnabé foi considerado por muitos Santos Padres (Padres da Igreja) como verdadeiro apostolo de Cristo, com todos os privilégios inerentes a dito cargo. Na liturgia Barnabé ocupa um grau quase ao dos Apóstolos e seu ofício litúrgico é tirado do Comum dos próprios Apóstolos.
 
 
Em sua breve passagem pelo mundo São Barnabé deixou-nos exemplo de sua vida e de sua personalidade: espírito aberto à verdade, desprendimento dos bens materiais, bondade e docilidade no tratamento aos demais, aceitação e vivência dos ensinamentos de Cristo, prontidão em ser missionário-evangelizador, humilde discernimento dos talentos dos outros (especialmente de Paulo) sem nenhuma fraqueza ou hipocrisia (Paulo e Barnabé tiveram suas oposições, discórdias e controvérsias no início da segunda viagem missionária. Cf. At 13,13; 15,36-40).
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As normas de absoluta privação que são impostas por Jesus aos discípulos no evangelho desta festa: não levar nem ouro, nem prata, nem sandálias, nem bastão, parecem absolutamente inviáveis. Será que realmente tudo isso que se pede? Estas exigências parecem estar tomadas das normas estabelecidas para participar do culto a Deus no templo: “que ninguém entre no templo com bastão, sapatos nem com a bolsa de dinheiro”. Partindo desta norma judaica se diria simplesmente que os discípulos, na realização de sua tarefa evangelizadora devem fazer a mesma coisa diante de Deus e devem viver como estando na presença de Deus, sabendo que o êxito da missão depende de Deus. Diríamos que os discípulos devem partir desarmados para enfatizar que a obra é de Deus e não de um ser humano. Este estilo é chamado de “pobreza evangélica” que não se apóia nos meios materiais e sim na ajuda de Deus e na força de Sua palavra. Nós devemos confiar mais na força de Deus do que em nossas qualidades ou meios técnicos.
 
Proclamai que o reino de Deus está próximo”. Muitas vezes se busca Deus demasiadamente longe. De fato ele está próximo de nós. O Deus que Jesus revela é um Deus próximo, um Deus amoroso. Por isso, jamais eu estou sozinho, inclusive quando me sinto abandonado ou solitário. Para poder proclamar aos demais sobre a bondade, a proximidade da presença de Deus, o cristão-missionário há que ter feito a experiência do Deus próximo em si mesmo pessoalmente.
 
Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios”.  O cristão-missionário é aquele que distribui benefícios, aquele que faz o irmão crescer e viver a vida dignamente, aquele que leva a paz. A partir disso, é bom cada se perguntar: “Qual será minha maneira de ajudar, de servir, de distribuis benefícios para os outros irmãos?”.
 
Recebestes de graça, de graça dai!”. Além de ter uma vida despojada, o cristão deve ser generoso e viver na gratuidade. O cristão-missionário deve atuar com desinteresse econômico, não buscando seu próprio proveito.Todos sabem que quanto mais se tem, mais se quer. A felicidade ficará cada vez mais distante quando o ser humano começar a criar mais necessidades. Aquele que sabe reduzir ao mínimo suas necessidades encontra uma alegria e uma liberdade maior. Possuído ou dominado pelas coisas o homem perde sua liberdade.
 
“Entrando numa casa, saudai-a: Paz a esta casa. Se aquela casa for digna, descerá sobre ela vossa paz; se, porém, não o for, vosso voto de paz retornará a vós”.  O cristão deve propor a Boa Nova e não se pode impor: os homens ficam livres. A tarefa do cristão-missionário é oferecer a paz e a alegria. Dar alento. O cristão deve saber que o trabalho não é forçar de qualquer maneira, nem Jesus fez isso. A tarefa do cristão-missionário é formular a proposta clara e convincente e logo deixa para a liberdade do homem.
 
A missão está marcada pela constante ameaça dos anti-valores da sociedade e pela oposição dos filhos das trevas. Estes são verdadeiros lobos que sacrificam seus irmãos para obter benefícios pessoais. Os evangelizadores não podem ser ingênuos diante deles. Os cristãos devem manter sua simplicidade, mas acompanhada pela prudência para agir sabiamente e eficazmente: “Eu vos envio como ovelhas no meio de lobos. Sede, pois, prudentes como as serpentes, mas simples como as pombas”.
 
Em resumo: o cristão deve ser despojado, simples, pacífico, prudente e desarmado. Só com estas qualidades ele convence qualquer um para ser parceiro do bem e para ser novo evangelizador. 
P. Vitus Gustama,svd
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AMOR FRATERNO ESTÁ ACIMA DE TUDO E DE QUALQUER LEI

Quarta-Feira da X Semana Comum
11 de Junho de 2014


Evangelho: Mt 5,17-19

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 17“Não penseis que vim abolir a Lei e os Profetas. Não vim para abolir, mas para dar-lhes pleno cumprimento. 18Em verdade, eu vos digo: antes que o céu e a terra deixem de existir, nem uma só letra ou vírgula serão tiradas da Lei, sem que tudo se cumpra. 19Portanto, quem desobedecer a um só destes mandamentos, por menor que seja, e ensinar os outros a fazerem o mesmo, será considerado o menor no Reino dos Céus. Porém, quem os praticar e ensinar será considerado grande no Reino dos Céus”.
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Estamos acompanhando o Sermão da Montanha (Mt 5-7). Na passagem do evangelho de hoje Jesus afirma: “Não vim abolir a lei e os profetas, mas para dar-lhes pleno cumprimento”, afirmou Jesus aos ouvintes. Em outras palavras, Jesus quer dizer: “Eu não vim abolir o Antigo Testamento (a Lei e os profetas). Eu vim para cumprir tudo que foi profetizado sobre mim no Primeiro Testamento”.


Por que Jesus fez essa afirmação?


Os fariseus, fanáticos obsessivos do cumprimento da lei havia posto a vontade de Deus em elementos secundários, que não buscavam de modo algum o estabelecimento de uma sociedade mais fraterna e justa. Eles davam mais importância a suas interpretações e tradições  que os levavam a transgredir a Lei pensando que a observavam. Jesus lhes dirá: “Por causa de vossa tradição, anulais a Palavra de Deus... Vão é o culto que me prestam, porque ensinam preceitos que só vêm dos homens” (Mt 15,6.9). a Lei, com sua tradições, era um método sujo para dominar a população, especialmente os mais pobres e simples. Legislavam, impunham cargas pesadas sobre o povo, mas nada se impunham para eles mesmos (cf. Mt 23,4). Eles são incapaz de ver além da lei, isto é, não conseguem ver o espírito da lei. Cumprem regra por regra ou lei por lei. E ainda acham que sejam cumpridores da vontade de Deus. Mas na realidade, a vontade de Deus se resume no amor fraterno (cf. Mt 9,13; 25,40.45). Pensam que ao cumprir todas as leis e normas possam agradar a Deus. Mas o que agrada a Deus é o amor fraterno. Amor é a maior Lei de Deus(cf. Rm 13,10), e seremos julgados sobre o amor (cf. Mt 25,36-46).


Por isso, o que Jesus faz é mostrar um Deus que desaprova a injustiça e a desigualdade, pois Deus é amor (1Jo 4,8.16). Deus se dirige aos homens como uma pessoa amada, chamando cada homem por seu nome (Is 43,1) e o nome de cada um é gravado na palma da mão de Deus (Is 49,16). E o amor transforma tudo em obra prima, até as coisas pequenas e seus detalhes. O amor de cada dia é feito de detalhes e não tanto de coisas solenes e heróicas. Por esta razão, encontra-se a seguinte fórmula no AT como uma fórmula ritual: “Escutai, ó Israel!”. É escutar Deus para viver na plenitude. Por isso, escutar Deus é coisa mais prudente e mais inteligente para o ser humano. Ao escutar Deus sua Palavra será para nós nossa sabedoria e um alimento para nosso espírito. Sua maneira de ver impregnará nosso modo de ver a vida e as pessoas.


Mas o amor morre quando não se respeita o momento do outro, quando não se favorece espaços comuns, quando não se reinventa a arte de viver e de conviver, quando há omissão de crescer, e a pequenez de se fechar. O amor morre com a dominação, com a arrogância, com a covardia, e quando há medo de se doar e de crescer. O amor morre quando se prefere a culpa ao arrependimento, quando se prefere acusação à humildade e reconciliação, a disputa ao dialogo. Quando o amor morre, perde-se a razão de viver e de conviver, e Deus se torna cada vez mais distante, pois “Deus é Amor” (1Jo 4,8.16).


Nós escutamos com freqüência a Palavra de Deus. A Palavra de Deus é um espelho no qual nos olhamos para saber se continuamos conservando a imagem que Deus nos pede (Gn 1,26). Que os outros possam notar alguma mudança para o melhor em nossa vida e em nossa convivência.


“Eu vim para dar o cumprimento da Palavra de Deus”. Esta frase deve se tornar carne e sangue na vida de cada cristão. O amor divino sem medida deve se encarnar no modo de viver e de conviver de cada cristão. A misericórdia e a reconciliação devem guiar a vida e a convivência de cada cristão, pois cada cristão é outro Cristo, o prolongamento de Cristo nesta terra.


E a Eucaristia da qual participamos é um compromisso para sermos pessoas que, renovadas e revestidas de Cristo, nos faz caminharmos pela vida como aquelas pessoas que proclamam a verdade, o bem, o amor como uma entrega a favor dos demais, deixando de lado ou abandonando totalmente aqueles caminhos que nos fazem nos destruirmos uns aos outros ou pisotear os direitos das classes mais desprotegidas. O Senhor pede que sejamos fieis à Sua lei, a Lei do amor que não somente nos faz colocarmos Deus sobre todas as coisas, mas ao mesmo tempo nos faz levar a querermos bem para os outros. Os cristãos devem se converter em sinal de amor para os outros. Se fomos feitos à imagem e à semelhança de Deus, então nosso modo de viver não deve apagar essa imagem. Se essa imagem for apagada em nós, ninguém vai dizer que somos de Cristo. São Paulo nos relembra através destas frases:Somos para Deus o perfume de Cristo entre os que se salvam e entre os que se perdem” (2Cor 2,15). E acrescentou: “Vós sois uma carta de Cristo... escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não em tábuas de pedra, mas em tábuas de carne, em vossos corações” (2Cor 3,3).


Pedimos a Deus a graça para que os outros possam ler algo de Cristo em nossa vida.Para isso, é necessário que Cristo esteja sempre no meio de nossa vida e de nossa comunidade para que todo olhar se dirija para Cristo para aprender o que devemos fazer e como devemos fazer as coisas. E que saibamos colocar as pessoas acima de qualquer regra quando a vida estiver em jogo.Pelo caminho da caridade não há outro caminho melhor, pois é o caminho de Deus.

P. Vitus Gustama,svd

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