sexta-feira, 20 de junho de 2014


 
SER MISSIONÁRIO DE JESUS E SUAS CONSEQUÊNCIAS

XII DOMINGO DO TEMPO COMUM “A”
22 de Junho de 2014
 

Primeira Leitura: Jr 20,10-13
 
Jeremias disse: 10“Eu ouvi as injúrias de tantos homens e os vi espalhando o medo em redor: ‘Denunciai-o, denunciemo-lo’. Todos os amigos observam minhas falhas: ‘Talvez ele cometa um engano e nós poderemos apanhá-lo e desforrar-nos dele’.11Mas o Senhor está ao meu lado, como forte guerreiro; por isso, os que me perseguem cairão vencidos. Por não terem tido êxito, eles se cobrirão de vergonha. Eterna infâmia, que nunca se apaga! 12Ó Senhor dos exércitos, que provas o homem justo e vês os sentimentos do coração, rogo-te me faças ver tua vingança sobre eles; pois eu te declarei a minha causa. 13Cantai ao Senhor, louvai o Senhor, pois ele salvou a vida de um pobre homem das mãos dos maus.


Responsório: Sl 68


— Atendei-me, ó Senhor, pelo vosso imenso amor!

— Por vossa causa é que sofri tantos insultos,/ e o meu rosto se cobriu de confusão;/ eu me tornei como um estranho a meus irmãos,/ como estrangeiro para os filhos de minha mãe./ Pois meu zelo e meu amor por vossa casa/ me devoram como fogo abrasador.
— Por isso elevo para vós minha oração,/ neste tempo favorável, Senhor Deus!/ Respondei-me pelo vosso imenso amor,/ pela vossa salvação que nunca falha!/ Senhor, ouvi-me, pois suave é vossa graça,/ ponde os olhos sobre mim com grande amor!
— Humildes, vede isto e alegrai-vos:/ o vosso coração reviverá,/ se procurardes o Senhor continuamente!/ Pois nosso Deus atende à prece dos seus pobres,/ e não despreza o clamor de seus cativos./ Que céus e terra glorifiquem o Senhor,/ com o mar e todo ser que neles vive!

 
Segunda Leitura: Rm 5,12-15

Irmãos: 12 O pecado entrou no mundo por um só homem. Através do pecado, entrou a morte. E a morte passou para todos os homens, porque todos pecaram. 13 Na realidade, antes de ser dada a Lei, já havia pecado no mundo. Mas o pecado não pode ser imputado, quando não há lei. 14 No entanto, a morte reinou, desde Adão até Moisés, mesmo sobre os que não pecaram como Adão, o qual era a figura provisória daquele que devia vir. 15 Mas isso não quer dizer que o dom da graça de Deus seja comparável à falta de Adão! A transgressão de um só levou a multidão humana à morte, mas foi de modo bem superior que a graça de Deus, ou seja, o dom gratuito concedido através de um só homem, Jesus Cristo, se derramou em abundância sobre todos.
 
 
Evangelho: Mt 10,26-33
 
Naquele tempo, disse Jesus a seus apóstolos: 26 “Não tenhais medo dos homens, pois nada há de encoberto que não seja revelado, e nada há de escondido que não seja conhecido. 27 O que vos digo na escuridão dizei-o à luz do dia; o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados! 28 Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma! Pelo contrário, temei aquele que pode destruir a alma e o corpo no inferno! 29 Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. 30 Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão contados. 31 Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais. 32 Portanto, todo aquele que se declarar a meu favor diante dos homens, também eu me declararei em favor dele diante do meu Pai que está nos céus. 33 Aquele, porém, que me negar diante dos homens, também eu o negarei diante do meu Pai que está nos céus.
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O texto do evangelho deste domingo faz parte do discurso de Jesus sobre a missão.  Neste discurso Jesus prepara seus discípulos antes de enviá-los para a missão em forma de exortações (cf. Mt 10,1-42). O objetivo dessas exortações é preparar o coração dos discípulos para as dificuldades futuras, não para amedrontá-los e sim para dar-lhes coragem a exemplo do seu Mestre (cf. Mt 10,25).  As palavras ditas aqui podem-se encontrar em Lc 12,2-9.


1. Perseguição e amor universal
    

A perseguição atinge os missionários por causa de seu amor por Deus e da fidelidade à Sua Palavra: “...todos os que quiserem viver com piedade em Cristo Jesus serão perseguidos” (2Tm 3,12). Para os cristãos, a perseguição não é um acidente de percurso e sim faz parte integral da vida cristã. Quem viver fielmente os ensinamentos de Jesus Cristo, será perseguido. Quem vive honestamente, será perseguido quem pratica a corrupção.


Mas o homem deve saber que o desígnio do Pai é um desígnio de amor universal, que não discrimina ninguém, pois o mandamento novo é amar todos os homens (Jo 13,34s), inclusive os inimigos (Mt 5,44). Deus só quer salvar a humanidade. Deus quer que todos vivam como irmãos. Que um seja próximo do outro e cuide do outro. O próprio Jesus, obedecendo, até a morte da cruz, manifesta que o amor é mais forte do que o ódio e que uma morte tão sobrecarregada com o pecado dos homens também pode mudar definitivamente de sentido.
   

A perseguição revela duas realidades fundamentais de nossa fé. Por um lado, ela revela a profundeza do pecado do homem. O pecado do homem está a tal ponto enraizado que as mais estupendas iniciativas do amor divino são recusadas. O homem não aceita ser fiel à sua condição de criatura, mas procura divinizar-se. A presença dos missionários de Deus incomoda este tipo de pessoa. O livro de Sabedoria diz que a presença do justo é para o ímpio uma “censura viva”(Sb 2,14). A presença do justo incomoda quem pratica a injustiça. Por outro lado, ela revela a riqueza insondável do amor de Deus oferecido ao homem, o amor que triunfa sobre o pecado. Vivemos por causa do amor de Deus. a partir de Deus o mundo é governado por amor (cf. Jô 3,16). Como seria o homem, se Deus usasse de vingança contra ele?
   

Se a missão é a obra suprema do amor universal, os missionários precisam estar conscientes de que eles vão encontrar a perseguição em seu caminho. Toda a missão verdadeira encontra a perseguição. Se os missionários forem objetivamente verdadeiras testemunhas do amor universal e puderem ser reconhecidos como tais pelos homens aos quais esse testemunho é dirigido, eles serão perseguidos.
    

Pela partilha do Pão e da Palavra, cada participante é estabelecido na ligação com Cristo que lhe permite entrar sempre mais profundamente na obediência do Justo perseguido(Jesus Cristo), na obediência do amor condicional. Ao mesmo tempo, ele mesmo deve saber até que ponto o pecado, nele e nos outros, cria um obstáculo a esse caminho de obediência ao amor.


2. Três Motivos Para Ter Coragem Na Missão
  

Neste texto encontram-se três imperativos negativos: “Não tenhais medo” que caracterizam o texto (lembre-se de que o três indica o completo e o definitivo[Is 6,3]; a tríplice tentação de Jesus que resume todas as tentações [Mt 4,1-11 e par.]; a tríplice negação de Pedro que sublinha sua renúncia total como discípulo etc....). Trata-se de um convite repetido à coragem, a não deixar-se paralisar pelo medo. A pregação cristã deve ser levada adiante apesar das perseguições. Nem mesmo a morte violenta deverá incutir terror.
   

O pior inimigo, para quem deve anunciar o Evangelho e para quem deve dizer a verdade, é o medo: o medo de perder posição social, salário ou prestígio, ou medo de ser castigado até perder a vida. Quem tem medo, perde sua liberdade de viver, pois a sombra do medo o persegue. Ele fica paralisado e perde sua capacidade criativa. Quem foge é porque não está livre.
  

Entre os múltiplos medos que invadem e acorrentam os cristão é o medo religioso. Frente a um ambiente social pouco favorável à fé cristã, às vezes, hostil à mesma, uma das tentações mais freqüentes é o medo que se disfarça de silêncio cauteloso e inibição. Com esse medo, sem dúvida nenhuma, não se pode servir a Deus nem confessar e testemunhar Cristo. Ter medo de se mostrar diferente, envergonhar-se das próprias crenças é, de certa forma, negar a própria fé.


A expressão “Não tenhais medo”, que se repete três vezes (Mt 10,26.28.31), se usa freqüentemente no AT para assegurar a ajuda divina (veja por ex. Is 41,10.13;43,1.5;44,2;Jr 1,8;30,10 etc.). Agora esta palavra de consolo se dirige aos discípulos para que superem o medo e a angústia que traz consigo a perseguição.
   

Jesus oferece três motivos pelos quais os discípulos não devem ter medo. O primeiro motivo (vv. 26-27), o medo não deve impedir a proclamação aberta da mensagem que Jesus lhes tem confiado para anunciar, pois esta mensagem acabará sendo publicamente conhecida. Jesus veio para manifestar as coisas que estavam ocultas(Mt 13,35), e os discípulos devem fazer o mesmo. Os discípulos devem estar conscientes da presença operativa de Deus na proclamação da Sua Palavra. Nenhuma força humana é capaz de impedir a presença operativa de Deus.
    

No primeiro motivo encontramos dois níveis do anúncio que se expressam em dois termos: “ao pé do ouvido” e “do alto dos telhados”. Jesus quer que façamos os dois simultaneamente para que o anúncio seja completo: “...o que escutais ao pé do ouvido, proclamai-o sobre os telhados”(v.27b). O anúncio “ao pé do ouvido” é aquele anúncio que fazemos para quem está próximo de nós, para aqueles que convivem conosco, para os mais íntimos, que nem sempre é fácil, pois todos conhecem nossas fraquezas e bloqueios, além de nossas capacidades. Mas não basta que cada cristão procure ser fiel a Jesus no íntimo de seu coração e no testemunho constante junto a quem nos conhece pessoalmente. O anúncio “ao pé do ouvido” deve se tornar um anúncio “do alto dos telhados”, deve se tornar público. O mundo precisa reconhecer nos cristãos uma força transformadora a favor da justiça, da paz e da fraternidade. Sem isso, os cristãos perderão a credibilidade diante do mundo ou sociedade.


O segundo motivo (v.28), a pessoa é inviolável no seu nível mais profundo. Os perseguidores podem esmagar a liberdade de expressão e de ação, inclusive a vida física, mas não podem destruir a pessoa e a sua liberdade interior. Este segundo motivo coloca os discípulos no horizonte de juízo. Os perseguidores podem tirar-lhes apenas a vida terrena, mas não a vida eterna. O poder do homem é limitado. Há, porém quem tenha poder para ambas as coisas(corpo e alma): Deus. A perda da vida terrena não tem comparação com a perda da vida eterna. O que se pede dos discípulos, por isso, é o temor de Deus, no sentido de respeitar Deus como Pai. Diante de Deus, o temor nos torna livres, pois o temor não corrói a alma porque regenera sempre a confiança em Deus.
   

O terceiro motivo é a providência divina (vv.29-31). A providência consiste na solicitude paterna e amorosa com que Deus acompanha o destino de cada criatura e de todo o universo, e na assistência constante que lhes presta, para que possam alcançar a plena realização do próprio ser a que são chamadas. A providência é evidente como conseqüência dos atributos da onisciência e da onipotência de Deus. A providência supõe confiança, entrega e abandono do homem nas mãos de Deus. Deus é providente, sobretudo, com aqueles que são abertos, confiantes e disponíveis à sua providência.
   

A providência divina é uma verdade da fé que os homens aprenderam de Deus mesmo, através da história da salvação. Toda a Sagrada Escritura é permeada pela idéia de providência. O Deus da Bíblia distingue-se de outras divindades pelo cuidado paterno e amoroso que manifesta pelas suas criaturas, especialmente pelo homem. Deus é o Pai que assiste e socorre suas criaturas em suas necessidades(Sl 145,15;36,7; Is 44,7;Am 3,6;Jr 27,5;Mt 6,11;25-34 etc....). A Bíblia é a “história” comovente da ação providencial de Deus em benefício da humanidade, apesar das rebeldias, das recusas, das resistências, das negligências desta diante dos desígnios de seu ilimitado amor.
    

A providência de Deus manifesta-se na sua atenção a todos os seres que criou, mesmo os mais insignificantes, como os pardais e os cabelos: “Não se vendem dois pardais por algumas moedas? No entanto, nenhum deles cai no chão sem o consentimento do vosso Pai. Quanto a vós, até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não tenhais medo! Vós valeis mais do que muitos pardais”(Mt 10,29-31). Deus está presente aos mínimos acontecimentos. Tão bem ele conhece tudo, tão interessado é o seu amor por nós. Por isso, não há motivo algum para ter medo dos homens, os quais nada poderão fazer sem que o Pai saiba disso. Ser amados por Deus suscita alegria e devolução de amor; e este expulsa o medo e cria a liberdade e a alegria dos filhos de Deus.


3. Uma sentença sobre o juízo final


As últimas palavras de Jesus neste texto (vv.32-33) retomam o tema de juízo (v.28) e estabelece uma equação entre testemunho do cristão (ou não testemunho) e o reconhecimento da parte de Jesus (ou negação). Em justa correspondência, Jesus avalizará diante de Deus quem o confesse diante do mundo como Senhor da história e da vida humana. Diante do tribunal de Deus, Jesus, que aqui aparece como juiz, reconhecerá aqueles que o tiverem reconhecido durante sua existência terrena e renegará aqueles que o tiverem renegado. O reconhecimento e a recusa de Cristo efetuados nesta vida, valem para o futuro de vida ou de morte do homem(tem um alcance escatológico). Cristo confessado ou recusado tem valor determinante para cada pessoa. Por isso, diante de Cristo, ninguém pode ficar indiferente: ou aceitá-lo ou recusá-lo. Ambos têm suas próprias conseqüências escatológicas.
 

O que nos garante o futuro de nossa vida é confessar o Cristo. Mas não se trata da verbosidade: “Muitos dirão: em teu nome profetizamos, em teu nome expulsamos demônios e em teu nome fizemos milagres. Então lhes declararei: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade” (Mt 7,22-23). Trata-se de viver de tal modo, que, mesmo sem palavras, assumimos a maneira de ser, de viver e de morrer de Cristo. Este modo de viver é o único que tem um futuro.


E para nós, o que significa confessar  Cristo? De que maneira nós demonstramos a nossa total adesão a Cristo? Quais são nossos medos na evangelização e como solucioná-los? “Não tenham medo!”. É o recado do Senhor, nosso Salvador.
 
P. Vitus Gustama,svd

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