quinta-feira, 12 de junho de 2014

 
SINCERIDADE E VERACIDADE NO USO DAS PALAVRAS

Sábado da X Semana Comum
14 de Junho de 2014
 

Evangelho: Mt 5,33-37

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 33 “Vós ouvistes o que foi dito aos antigos: ‘Não jurarás falso, mas cumprirás os teus juramentos feitos ao Senhor’. 34 Eu, porém, vos digo: Não jureis de modo algum: nem pelo céu, porque é o trono de Deus; 35 nem pela terra, porque é o suporte onde apóia os seus pés; nem por Jerusalém, porque é a cidade do Grande Rei. 36 Não jures tampouco pela tua cabeça, porque tu não podes tornar branco ou preto um só fio de cabelo. 37 Seja o vosso ‘sim’: ‘sim’, e o vosso ‘não’: ‘não’. Tudo o que for além disso vem do Maligno”.
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Continuamos a acompanhar o Sermão de Jesus na montanha conhecido como Sermão da Montanha (Mt 5-7). Estamos na seção chamada de antíteses: “Ouvistes... Porém Eu vos digo...”.


No evangelho de hoje o evangelista Mateus nos apresenta outra antítese. Desta vez é sobre o juramento. Quando se pratica o juramento é porque se pratica também a mentira. Se não existisse a mentira não teria necessidade de fazer juramento.


Era recomendado o cumprimento, com fidelidade, dos juramentos e dos votos que a Lei exigia (Lv 19,12; Ex 20,7; Nm 30,3; Dt 23,22; Sl 50,4). Jurar significa chamar Deus como testemunha da verdade dita, pois Deus é verdade (Jo 14,6). Jurar significa fazer de Deus como garantia da própria vida de quem faz o juramento. Daí o mandamento: ”Não jurarás falso “. Neste sentido,  “juramento” é o ato que sacraliza ao máximo as relações humanas. O livro de Levítico acrescenta: “Não jurareis falso em meu nome, porque profanaríeis o nome de vosso Deus. Eu sou o Senhor” (Lv 19,12; cf. Ml 3,5; Jr 7,9; Zc 5,3; Sb 14,25). Tudo isso quer dizer que a Lei e os Profetas proíbem o juramento falso. E está claro que Jesus está de acordo.


Mas Jesus vai muito além. Jesus propõe a exclusão de qualquer tipo de juramento: “Eu, porém, vos digo: Não jureis de modo algum”. Com o juramento a pessoa abusava, em certa forma, da autoridade de Deus. Era como querer desculpar a deficiência da veracidade das próprias palavras e compromissos com a intervenção de Deus. O juramento se praticava na sociedade pela falta de sinceridade entre os homens.


Na comunidade cristã, onde a sinceridade é regra (Mt 5,8: limpos de coração), o juramento é supérfluo; e mais, seria sinal de corrupção das relações humanas. A falta de sinceridade nasce da ambição, da mentira, da incoerência, da duplicidade e assim por diante.


Os cristãos, discípulos de Jesus, devem expressar-se através de uma linguagem sincera e coerente, sem nenhuma necessidade de recorrer a nenhum outro meio para demonstrar a veracidade de sua afirmação. “Seja o vosso ‘sim’: ‘sim’, e o vosso ‘não’: ‘não’. Tudo o que for além disso vem do Maligno”. O juramento é, então, substituído pela transparência e a simplicidade ou clareza da linguagem. A palavra do cristão deve ser sim, quando é sim; e não, quando é não. Trata-se de uma linguagem veraz, seria e sincera, pois “Tudo o que for além disso vem do Maligno”.  Do maligno vem a mentira, as palavras insinceras, a linguagem dupla e incoerente.


Com as palavras do Evangelho de hoje Jesus convida o cristão a dar um passo adiante na sinceridade: “Seja o vosso ‘sim’: ‘sim’, e o vosso ‘não’: ‘não’. Tudo o que for além disso vem do maligno”. A mentira e o dolo são incompatíveis com o proceder do cristão. Quem recorre a expediente deste tipo, renega sua adesão ao Senhor.
   

Outro objetivo da proibição de Jesus é evitar a vulgarização de Deus. O juramento falso infringe o mandamento que proíbe usar em vão do nome de Deus. O cristão autêntico não tem necessidade, a cada passo, lançar mão deste recurso para que se acredite em sua palavra. O sim do cristão é sim e o não é não. Não lhe interessa enganar. Tudo quanto é dito fora destes limites não vem de Deus. Por isso, tem de ser evitado. Enganar os outros significa deturpar o sinal da palavra, torná-la sinal de divisão e confusão, em lugar de comunhão e limpidez. A palavra do cristão deve ser verdadeira, pois ele é o seguidor da Palavra divina feita carne em Jesus (Jo 1,14). Deus é o dono da minha vida.


Em resumo, para o cristão é suficiente um sim ou um não. Se isto não é suficiente é porque há algo que vem do Maligno; é porque não somos puros de coração, não somos verdadeiros discípulos do Senhor, corremos o risco de nos dirigir a Deus de forma incorreta, de abusar de Seu nome. Em poucas palavras Jesus aboliu a lei do juramento nas relações interpessoais, pois o cristão deve falar a verdade.
    

Ser verdadeiro no falar é uma forma de imitar o modo de ser de Deus. A religião de Israel era toda baseada na palavra de Deus. Seria impossível imaginar que Deus quisesse se enganar o seu povo. Do mesmo modo, seria inimaginável que o cristão abusasse da boa-fé de seu próximo.


A palavra humana tem um valor por si mesma. Por isso, é inútil fazer qualquer juramento. Quando Jesus nos recomenda para não fazer qualquer juramento é porque ele quer que valorizemos a palavra usada. Ao proibir o juramento Jesus denuncia a mentalidade falsa em salvar as aparências.
     

Que o Senhor Jesus nos dê a graça da sinceridade e da transparência, para que sejamos honestos no relacionamento com o nosso próximo e com o próprio Deus. E que saibamos usar cada palavra de açodo com seu sentido. Cada palavra representa uma realidade; cada frase contém várias realidades encontradas em cada palavra. Que saibamos usar com responsabilidade cada palavra. Que saibamos ditar ou pronunciar cada palavra de acordo com a realidade contida na palavra.

P. Vitus Gustama,svd

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