segunda-feira, 4 de agosto de 2014

 
TUDO DE BOM OU DE MAU VEM  DO CORAÇÃO


Terça-Feira Da XVIII Semana Comum
(Ano “A”)
05 de Agosto de 2014


Evangelho: Mt 15,1-2.10-14

1 Naquele tempo, alguns fariseus e mestres da Lei, vindos de Jerusalém, aproximaram-se de Jesus, e perguntaram: 2 'Por que os teus discípulos não observam a tradição dos antigos? Pois não lavam as mãos quando comem o pão!' 10 Jesus chamou a multidão para perto de si e disse: 'Escutai e compreendei. 11 Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isso é que torna o homem impuro.' 12 Então os discípulos se aproximaram e disseram a Jesus: 'Sabes que os fariseus ficaram escandalizados ao ouvir as tuas palavras?' 13 Jesus respondeu: 'Toda planta que não foi plantada pelo meu Pai celeste será arrancada. 14 Deixai-os! São cegos guiando cegos. Ora, se um cego guia outro cego, os dois cairão no buraco.’
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A questão principal levantada no Evangelho deste dia é esta: o que torna profano/puro o homem? Qual é o conceito dos fariseus e de Jesus a respeito?
   

Na mentalidade do judaísmo, Israel era o povo consagrado por Deus (Dt 7,6;14,2; Dn 7,23.27); todos os demais povos eram profanos. E para manter-se no âmbito do sagrado era preciso observar a Lei porque a Lei expressava a vontade de Deus. Daí estabelecia-se um critério de avaliação sobre a vida das pessoas: pertenciam ao povo “santo” / ”consagrado” os que observavam fielmente a Lei; e eram “profanos” / “impuros” os que não praticavam minuciosamente a Lei. Conseqüentemente, o contato com uma pessoa “profana” ou o mundo profano põe em perigo a própria consagração a Deus. Por isso, antes de comer, era preciso lavar ritualmente as mãos que tinham tocado qualquer coisa do mundo exterior. Só assim, se assegurava o próprio caráter sagrado.


Mas o próprio Antigo Testamento leva em consideração a pureza do coração que produz atitudes puras: “Guarda teu coração acima de todas as outras coisas, porque dele brotam as fontes da vida” (Pr 4,23). E “O homem do coração mesquinho só pensa em vaidade” (Eclo 16,23). O que tem que ser purificado permanentemente é o coração.


Qual é a posição de Jesus?


Jesus se coloca na linha dos profetas para atacar a hipocrisia dos fariseus porque eles desempenham apenas o papel de bons atores de uma religião de exterioridade sem compromisso com a vida e o amor para com o próximo. Jesus critica uma religião desligada da vida e dos problemas humanos. E não existe uma hipocrisia mais sutil e perigosa do que aquela que tem sua origem na manipulação religiosa, pois ela usa a vontade de Deus como instrumento para controlar os mecanismos humanos de reação. Fazer tudo por motivo puramente humano o que é divino significa atentar contra a absoluta santidade de Deus.  Muitos transformam o relativo em absoluto por causa da banalização do verdadeiro Deus.


Depois que atacou a hipocrisia dos fariseus, Jesus expõe, para todos, o princípio sobre o santo e o profano, o puro e o impuro: o que separa o homem de Deus não é o que procede de fora dele. O puro e o impuro não devem ser procurados fora do homem, mas no seu coração. Quando Jesus fala do “coração”, não no sentido biológico e sim no sentido de toda a interioridade da pessoa, o centro da vida, das decisões e do encontro pessoal com Deus. Se o coração for bom, os gestos do relacionamento humano obedecem aos imperativos de humanizar e de santificar a convivência. A pureza do agir depende da pureza do coração. Mas se o coração for mau, a vida é envenenada pela insatisfação, pela inveja, pelo ciúme, pela disputa, pela discriminação, pelo sensualismo e pelas más intenções. Para Jesus, o teste decisivo para saber se o coração está perto de Deus é o comportamento fraterno para com o próximo. O homem vale pelo que vale seu coração. O coração é o lugar onde o homem se revela. Não é por acaso que Santo Agostinho dizia: Perscruta e reconhece o que há dentro de ti. Tuas roupas e tua carne são externas. Entra em tua intimidade. Desce até o mais secreto de tua consciência. Se te exilas de ti mesmo, como poderás aproximar-te de Deus?” (Santo Agostinho. In Joan. 23,10).


Jesus não condena as normas nem as tradições e sim sua absolutização. Não é que os atos externos sejam indiferentes, mas, às vezes, nos refugiamos neles com demasiada facilidade para tranqüilizar nossa consciência sem ir à raiz das coisas. No Sermão da Montanha Jesus nos ensinou a fazermos as coisas não para ser vistos, mas por convicção interior (cf. Mt 6,1-18). A limpeza exterior das mãos ou dos alimentos tem seu sentido, porém é muito menos importante que os juízes interiores, as palavras que brotam de nossa boca e as atitudes de ajuda ou de inimizade que radicam em nosso coração.


Em outras palavras pode-se dizer que a vida cristã se resume em uma palavra: AMOR. E o amor é uma atitude que consiste em uma entrega total e desinteressada de nossa pessoa a Deus e aos irmãos, especialmente aos necessitados. A antítese do amor cristão é o ritualismo que utiliza Deus e os demais para o proveito próprio, ou um ritualismo que se desliga dos compromissos com a vida e com os problemas humanos.
   

Em segundo lugar, a relação com Deus não depende da observância de normas ou de gestos religiosos, mas da atitude para com os demais seres humanos. Neste Evangelho Jesus mesmo produz uma razoável lista de 12 vícios que causariam a impureza para qualquer pessoa ou para qualquer convivência: prostituições, roubos, assassínios, adultérios, ambições desmedidas, maldades; malícia, devassidão, inveja, difamação, arrogância e insensatez. A partir desta lista cada um pode-se julgar se está com um coração puro ou impuro, se está envenenando a convivência ou se está a humanizando.
   

Honrar Deus de verdade, para Jesus, não é apenas estar em dia com os regulamentos nem seguir devoções particulares. É fazer prevalecer a caridade, estar ao lado dos que sofrem que nos exigem gestos concretos de bondade e de amor para com eles. A vida no Espírito é antes uma realidade interior. A partir daí, o exterior é manifestação de uma verdade mais profunda. A comunidade não se cria por decreto, mas nasce quando as pessoas têm um coração que sabe amar e respeitar aos outros e quando fazem circular um espírito novo, de união e de preocupação mútua pelo crescimento dos outros.


“Toda planta que não foi plantada pelo meu Pai celeste será arrancada” (Mt 15,13; cf. Is 5,1-7). O farisaísmo ou a hipocrisia é uma “vegetação” estranha e daninha capaz de profanar e de prejudicar o próprio homem que o faz estar longe de Deus. A advertência de Jesus é um apelo forte para cada cristão converter-se. O farisaísmo ou a hipocrisia transforma qualquer líder em líder cego, pois ele vai ofuscar com seus pensamentos humanos os pensamentos de Deus: “Deixai-os! São cegos guiando cegos. Ora, se um cego guia outro cego, os dois cairão no buraco”. Lembremo-nos daquilo que Deus diz através do profeta Isaias: “Meus pensamentos não são os vossos, e o vosso modo de agir não é meu” (Is 55,8).


Não é o que entra pela boca que torna o homem impuro, mas o que sai da boca, isso é que torna o homem impuro”, alerta-nos Jesus.

P.Vitus Gustama,svd

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