sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

01 de Janeiro
 

SANTA MARIA, MÃE DE DEUS
 
DIA MUNDIAL DA PAZ
 
01 de Janeiro


Textos de Leitura: Nm 6,22-27; Gl 4,4-7; Lc 2,16-21


O texto do Evangelho desta festa faz parte do evangelho do Natal (missa da noite). Os pastores, ao saberem do nascimento do Salvador pela boca do anjo, foram para Belém “às pressas”, como Maria para Ain Karim para visitar Isabel (Lc 1,39). . Aqui a pressa é, evidentemente, um dado teológico-espiritual. É a mesma pressa com que os discípulos de Emaús, após terem encontrado Jesus, esqueceram-se imediatamente do que os poderia reter na própria cidade, retornaram correndo a Jerusalém, e anunciaram aos Apóstolos reunidos terem visto o Senhor Ressuscitado (Lc 24,33); é a pressa com que a samaritana, abandonou sua bilha de água junto ao poço e correu à cidade para anunciar a todos que havia encontrado o Messias(Jo 4,28); a mesma pressa com que Maria Madalena, que correu para anunciar aos apóstolos : “Eu vi o Senhor”(Jo 20,18).
 

Partir às pressas” simultaneamente significa seriedade, empenho, solicitude, zelo, entusiasmo, ardor. Quem recebeu a revelação do projeto de Deus, quem sentiu-se inserido pessoalmente em tal projeto, nota em si o sentido da urgência da salvação; a urgência que pode conviver com a “paciência”, se esta for modelada sobre a paciência de Deus, que é uma paciência de longa visão, e por isso mesmo muito diferente da resignação.  Santo Ambrósio comenta essa pressa com uma expressão latina quase intraduzível: “Nescit tarda molimina Spiritus Sancti gratia” (a graça do Espírito Santo não admite demora). E como se nos dissesse que algo, decidido interiormente no coração com profundidade, seja feito, porque caso contrário, acaba morrendo. Isto vale também para as pequenas coisas: uma carta que devemos escrever ou responder; uma visita que nos custa; uma iniciativa que nos pesa; um trabalho que decidimos fazer e que, no entanto, continuamos a adiar; um perdão que devemos oferecer; uma palavra de amiga que devemos pronunciar etc. Os adiamentos, os atrasos, nos desgastam e nos consomem internamente.
 

Depois de serem os destinatários privilegiados do seu Evangelho e de haverem feito a experiência do encontro pessoal com Jesus, os pastores tornam-se seus mensageiros. Todos os que os ouviam, por sua vez, admiram-se das maravilhas operadas por Deus. O anúncio dos pastores produz esses frutos porque está baseado na experiência do que viram e ouviram no encontro pessoal com Jesus.


Quem faz a experiência do encontro pessoal com Jesus não a guarda para si, mas vai sem demora ao encontro dos outros para anunciar o que viu e ouviu. Quem “ouviu” verdadeiramente o Evangelho não permanece como era antes nem fica parado no lugar onde estava.
  

Há, no entanto, um claro contraste entre a alegria dos pastores e a admiração de todos os que os ouvem, por um lado, e a atitude contemplativa de Maria, por outro. Os verbos usados por Lucas para descrevê-la(grego: syntereo e symballo) significam acolher, guardar, conservar e ponderar as palavras e os acontecimentos visto e ouvidos. com respeito a Maria é dito que a mensagem recebida, os fatos e as palavras, são cuidadosamente conservados e meditados, na memória do seu coração, como um tesouro, para compreender mais clara e profundamente seu significado salvífico.
  

Maria, como nós, viveu sua numa atitude permanente de receptividade e de abertura. Ela passou pela noite escura da para depois compreender o significado do mistério de Deus. chegou a conhecer o verdadeiro significado da pessoa, da vida e da missão de Jesus depois da ressurreição e de pentecostes (At 1,14). Maria é o modelo do ouvinte da Palavra de Deus.
    

O nosso texto termina com esta frase: “Quando se completaram os dias para circuncisão do menino, deram-lhe o nome de Jesus, como fora chamado pelo anjo antes de ser concebido” (v.21). Lucas é o único evangelista que menciona a circuncisão. Através desse rito, o menino judeu passava a fazer parte do povo de Deus, tornando-se destinatário das promessas feitas a Abraão e à sua descendência (cf. Gn 17,9-14.23-27; 34,14-16;At 7,8). A circuncisão era ao mesmo tempo sinal da aceitação das exigências da Aliança e da fidelidade de Deus ao seu povo. Ao submeter-se ao rito da lei mosaica, Jesus solidariza-se com o seu povo.
 

O nome “Jesus” foi escolhido pelo próprio Deus: “E tu o chamarás com o nome de Jesus, pois ele salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1,21), disse o Anjo a José. Também a Maria o Anjo dizia: “Eis que conceberás um filho e o chamarás com o nome de Jesus” (Lc 1,31; cf. 2,11: “Nasceu hoje o Salvador”).
  

Para os judeus, o nome expressava a identidade e o destino pessoal/missão que  cada um devia realizar ao longo de sua vida. E Jesus realmente foi, desde o primeiro instante até a morte na cruz, o que seu nome diz: Salvador.
  

O nome “Jesus”, que começou a ser pronunciado por Maria e por José, será incessantemente invocado ao longo dos séculos por milhões e milhões de cristãos de todas as raças e línguas, de todas as idades e em todas as situações. Diante do Sinédrio firmemente disse: “... não há, de baixo do céu, outro nome dado aos homens pelo qual devamos ser salvos” (At 4,12). Podemos repeti-lo muitas vezes durante o dia segundo nos encontrarmos tristes ou alegres, perturbados ou em paz.


Vamos estender nossa reflexão sobre algumas mensagens da festa da Santa Maria, Mãe de Deus e nossa Mãe.


1. Somos Filhos No Filho, Não Escravos


Estamos ainda no Tempo de Natal, e por isso, ainda celebramos o Nascimento de Cristo. Ele se chama Jesus, Deus salva. É Ele que ilumina nossa existência inteira e nos oferece a salvação de Deus. Por esta razão, temos motivos muito mais plenos para nos alegrar e esperar que Deus bendiga nosso Novo Ano, fazendo a paz em nosso redor. Nossa atenção está centrada nele, mas também hoje recordamos a Sua Mãe, Santa Maria. Sobre ela São Paulo nos diz: “Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher... para que todos nós recebêssemos a filiação adotiva” (Gl 4,4-5). O mistério do Natal não é somente o mistério de um filho, mas também é o mistério de uma multidão de “filhos”: todos os homens podem chegar a serfilhos” neste “Filho de Deus” (cf. Jo 19,26-27). O Filho de Deus se fez homem no seio da Virgem Maria para que nós todos fóssemos filhos adotivos de Deus. Por isso podemos dizer com confiança que é o Espírito de Deus que pode gritar dentro de nós: Abba, Papaizinho.
 

Somos filhos, não escravos, assim diz São Paulo (Gl 4,7). Ser filhos de Deus é a melhor perspectiva do ano que começa. Aconteça o que acontecer sou filho/filha de Deus em Jesus Cristo. Meu verdadeiro Pai é Deus, Pai de todos os pais neste mundo. Ao longo dos seus doze meses do ano que se inicia podemos nos encontrar com dificuldades de todo tipo; podemos cair enfermos, sofrer as mil vicissitudes da vida. Mas não estamos sós. Somos filhos! Pertencemos à família de Deus. Não podemos nos deixar dominar pelo pessimismo ou pela angústia ou pelo desespero. Nasceu nos Jesus, o Deus-que-salva. Jesus é nossa salvação, nosso sol que nos ilumina, nossa festa que não termina. E ele nos ensinou quem é Deus para nós: às vezes o chamamos de Criador, ou Todo-poderoso, ou Ser Supremo, ou Deus, ou Senhor, assim por diante. Mas Jesus nos diz que podemos chamá-Lo Abbá, Papaizinho. Com o Papaizinho é que vamos começar e caminhar durante este Ano Novo: “Eis que estou com vocês todos os dias até o fim do mundo” (Mt 28,20). Para cada um de nós, tanto se estamos contentes ou tristes, vir participar da celebração deste início do Ano Novo significa viver e saber que não estamos sós porque Jesus, Deus-Conosco, nos acompanha, que está conosco para nos dar força e para nos ensinar a caminhar pelo caminho do Evangelho: caminho de amor e de paz.


2. Maria, Mãe De Jesus É Nossa Mãe
  

A recordação da Virgem Maria faz ainda mais agradável o nosso Ano Novo, como mais uma Boa Notícia para nós. Ela, uma simples mulher do povo, foi eleita de Deus para trazer a este mundo o Salvador. E hoje, no primeiro dia do Ano Novo, nós dedicamos uma das festas mais solenes do ano, recordando e celebrando sua Maternidade: Santa Maria, Mãe de Deus. Deus para fazer-se homem quis ter mãe. Assim Aquele que nasceu de Maria é Deus. Por esta razão, Ela é a Mãe deste Deus que é Jesus Cristo. Maria é Mãe de Deus não porque gerou Deus na eternidade, e sim porque O gerou mais de dois mil anos. Negar que Maria é Mãe de Deus é negar a Encarnação do Filho ou negar que é Filho de Deus, pois Deus se fez homem sem deixar de ser Deus. A verdade de que Maria é Mãe de Deus é parte da de todos os cristãos ortodoxos (de doutrina reta). Foi proclamada dogmaticamente no Concílio de Êfeso no ano 431 e é o primeiro dogma mariano. Quando a Virgem Maria visitou a sua prima Isabel, esta, movida pelo Espírito Santo lhe chamou “Mãe do meu Senhor”. O Senhor a quem se refere Isabel não pode ser outro senão Deus (cf. Lc 1,39-45). É claro que Deus não precisaria de uma mãe, mas a quis para se aproximar de nós com seu infinito amor: “Deus amou tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha vida eterna” (Jo 3,16).
   

Por isso, não nos estranhamos que junto a seu entranhável título de Mãe de Deus, seja invocada hoje alegremente por nós como Mãe da Igreja, Mãe de todos os que crêem em Jesus Cristo. Assim começamos o Ano Novo com uma renovada em Jesus, como Deus Salvador, e com uma recordação filial diante de sua Mãe e nossa Mãe, Santa Maria.
  

Maria era tão fiel e tão santa, vivia tão atenta a Palavra de Deus, que antes de conceber Cristo em seu seio, o havia concebido em seu coração. A maternidade de Maria ilumina o caminho da vida cristã. Precisamente a Virgem Maria, Mãe de Deus, é o melhor modelo de como nós temos que celebrar a Eucaristia neste começo do Ano. Ela, a discípula de Cristo, guardava as coisas a respeito do Filho de Deus nascido dela, as meditava, e assim nos ensinou a atitude de escuta da Palavra de Deus (Lc 2,19.51b). Também foi ela que melhor exemplo de pessoa que sabe dar graças a Deus através de seu Magnificat pelo que Deus tinha feito em favor dela (Lc 1,46-55). Foi ela que esteve ao da Cruz, em comunhão perfeita com seu Filho no momento da morte (Jo 19,25-27), como o havia estado com ele no seu nascimento (Lc 2,6ss). Ela nos ensina, então, a viver de acordo com estas três atitudes: Escuta da Palavra de Deus e medita-la, Ação de graças, e Comunhão com o Corpo entregue e o Sangue derramado de Jesus Cristo. Estas três atitudes devem ser nossas atitudes, especialmente durante este Novo Ano para que estejamos cheios de Deus e conseqüentemente seremos instrumentos de Sua graça para os demais, a exemplo de Santa Maria, Mãe de Deus.


3. O Cristão, O Tempo E A Paz


Quando se completou o tempo previsto, Deus enviou o seu Filho, nascido de uma mulher sujeito à lei...” (Gl 4,4). Sabemos que o tempo é uma realidade que nos recorda a veloz caducidade da vida terrena. O dia segue à noite, uma semana a outra e um ano a outro em sucessão indefinida, monótono e igual. Mas igual?  A partir do momento em que “enviou Deus seu Filho nascido de uma mulher sujeito à leinão podemos mais falar desta maneira: “igual e monótono!”, porque Deus se faz presente no tempo, se faz tempo e o tempo chega a sua plenitude. Por Deus fazer-se tempo, o passo do tempo não mais nos entristece, e cada ano somos mais livres e mais plenos por este Deus que se faz tempo. “Por fim livre, por fim seguro, por fim eterno” (Bispo Nicolas von Honthein). Cada dia me está criando, me está curando, me está amando. E isto é vida. Somos uma criação continuada de Deus. Está me criando para que creia, está me curando para que cure e está me amando para que ame. Isto é ser vivificador. Deus está me criando para que viva e para que faça viver. Para o cristão o tempo assinala, então, um progresso. Por esta razão, para o cristão, o tempo é Kairós, oportunidade, dom de Deus. Este é o mistério do tempo em sua profundidade. O cristão celebra no tempo a redenção do Senhor.
 

O Ano Novo é um dom de Deus. É uma oportunidade que não devemos desprezar. Por isso, neste início do Ano Novo desejamos uns para com os outros aquilo que está escrito no Livro de Números: ”O Senhor te abençoe e te guarde! O Senhor faça brilhar sobre ti a sua face, e se compadeça de ti! O Senhor volte para ti o seu rosto e te a paz!” (Nm 6,24-26).


O Senhor volte para ti o seu rosto e te a paz!”. A paz se encontra entre os anseios mais profundos de todos os corações, mas parece um ideal inalcançável. De onde proverá, então? É do rosto que o Senhor ilumina sobre cada um de nós. Um olhar duro e agressivo desperta sentimentos de mal-estar, de oposição e de guerra. O olhar feliz do pai e da mãe gera, ao contrário, paz e bem-estar no coração dos filhos. O olhar de Deus está sempre dirigido sobre nós: o Pai olha benevolamente a seu Filho e a toda família humana, convertida em família Sua. Este olhar desperta a paz em nosso coração. De onde nasce a paz a não ser do bom coração queem cada homem! No olhar sereno de tantas imagens de Maria Santíssima com seu Filho temos como umsacramento” deste olhar de Deus capaz de restaurar nossos corações. E no olhar embelezado de tantas mães para seu filho nos braços temos também um sinal da bondade dos homens e da humanidade de nosso Deus.


“Deus mostre para ti a sua face e te conceda a paz!”


“Paz”, “Shalom” resume todos os bens salvífícos. Desejar “Shalom” (Paz) para alguém é desejar-lhe uma paz interior e exterior, a acolhida, a fraternidade, o estar a favor do bem do outro, a harmonia com Deus, consigo mesmo, com os outros e com a natureza. Podemos ter em conta tudo isto na eucaristia no rito da paz.


Desejar “shalom” para o outro é uma espécie de oração dirigida a Deus. A oração fortalece nossa vontade, estimula nossa debilidade e robustece nossa animo para buscar a paz e trabalhar por ela incansavelmente. Quem reza pela paz ardentemente se faz mais capaz de acolher a paz em seu coração. Quem reza desta maneira está fazendo a paz em seu interior. Ninguém pode orar contra os outros. Cada deve orar, sim, contra seu próprio pecado, sua própria cegueira, seu egoísmo e intolerância, suas reações de ódio e vingança. A verdadeira oração converte quem reza. A oração, quando for verdadeira, nos faz mais capazes para o perdão e reconciliação, mais sensíveis diante de qualquer injustiça, abuso e mentira e mais livres diante de qualquer manipulação.


Mas como todo tempo, terá sempre sua cara e cruz, seu gozo e dor. Porém o que mais importante definitivamente é que vivamos o tempo que Deus nos deu com o desejo de realizar Seu querer, ainda que custe muito para nós. Por isso, é útil e atual a súplica do Salmista: “Ensina-nos, Senhor, a contar nossos dias para que venhamos a ter um coração sábio” (Sl 89(90),12). É pedir a Deus o saber sentir a alegria nesta festa que nos conecta com os inícios da salvação e suplicar que o que Deus começou em nós obtenha plenitude na vida definitiva junto a Ele.


Por tudo isto, pedimos hoje ao nosso Senhor Jesus Cristo, menino de oito dias, que conceda ao mundo e a esta nossa sociedade, à nossa família, Sua paz: Sua paz que é alegria e equilíbrio, respeito e liberdade, amor e perdão. E pedimos que faça de nós instrumentos de Sua paz, que possamos levar a nossos ambientes um pouco de serenidade e bom gosto: que a palavra seja educada, o gesto confiado, o trato amistoso e que sejamos fortes no amor. A novidade do Ano Novo é, para o cristão, renovação em Cristo. Somos pessoas novas pela , pelo batismo, pela esperança pelo compromisso de caridade. O homem velho se faz novo pela conversão, por um começar de novo. As pessoas renovadas se põem a caminho para ver, ouvir, meditar e proclamar as maravilhas de Deus a exemplo dos pastores do Natal.

P. Vitus Gustama,svd

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