quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

 
CRISTÃO EXISTE PARA EVANGELIZAR  

Sábado da I Semana Do Advento
06 de Dezembro de 2014
 

Evangelho: Mt 9,35-10,1.6-8

Naquele tempo, 35Jesus percorria todas as cidades e povoados, ensinando em suas sinagogas, pregando o evangelho do Reino, e curando todo tipo de doença e enfermidade. 36Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor. Então disse a seus discípulos: 37“A Messe é grande, mas os trabalhadores são poucos. 38Pedi pois ao dono da messe que envie trabalhadores para a sua colheita!” 10,1E, chamando os seus doze discípulos deu-lhes poder para expulsarem os espíritos maus e para curarem todo tipo de doença e enfermidade. Enviou-os com as seguintes recomendações: 6“Ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel! 7Em vosso caminho, anunciai: ‘O Reino dos Céus está próximo’. 8Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios. De graça recebestes, de graça deveis dar!” (Mt 9,35-10,1.6-8)

-----------------------

 Jesus percorria todas as cidades e povoados ensinando em suas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando todo tipo de doença e enfermidade”, assim nos relatou o evangelho deste dia.


O texto do evangelho que nos propõe para nossa meditação neste dia apresenta umsumário” da atividade de Jesus na Palestina, especialmente em Cafarnaum. A atividade de Jesus nesse sumário tem basicamente várias facetas.


A primeira, Jesus como Mensageiro. O mensageiro é aquele que leva a mensagem do rei. Jesus é Aquele leva a mensagem do Rei dos reis: Deus. A tarefa do mensageiro é a proclamação das certezas. Quando prega sempre proclama as certezas. Jesus anda de um lugar para outro lugar, de uma aldeia para outra aldeia para proclamar as certezas sobre a vida eterna para todos os homens, pois todos são amados por Deus (cf. Jo 3,16). O cristão não pode ficar numa encruzilhada da vida sem placas. As certezas do cristão, as placas da vida de um cristão são os ensinamentos de Cristo. “Cristo não é apenas Aquele em quem acreditamos, a maior manifestação do amor de Deus, mas é também Aquele a quem nos unimos para poder acreditar. A fé não só olha para Jesus, mas olha também a partir da perspectiva de Jesus e com os seus olhos: é uma participação no seu modo de ver”. (Papa Francisco: Carta Encíclica Lumen Fidei n.18).


Segunda, Jesus como Mestre. Não basta proclamar as certezas cristãs para deixá-las como estão.  É preciso mostrar para os homens o significado dessas certezas para sua vida cotidiana.  As certezas cristãs não mostradas apenas com palavras e sim com a vida, isto é, essas certezas devem ser vividas. Não é tarefa do cristão discutir o cristianismo. Ele tem que vivê-lo. Jesus prega e vive as certezas e ensina algo para edificar a fraternidade. Ele corrige os ensinamentos equivocados dos legalistas que excluem muitas pessoas de uma convivência igualitária e fraterna. Por isso, toda sua pregação e todo seu ensinamento são chamados de Boa Notícia ou Boa Nova.


A terceira faceta Jesus como Terapeuta. Jesus atende e ajuda os enfermos para libertá-los de suas doenças físicas, psicológicas e espirituais. Jesus se preocupa com o homem na sua totalidade. Jesus cuida do homem na sua totalidade. O apóstolo Pedro, na sua pregação, resumiu bem toda a atividade de Jesus nessas palavras: “Vós sabeis como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com o poder, como ele andou fazendo o bem e curando todos os oprimidos do demônio, porque Deus estava com ele” (At 10,38). O verdadeiro cristão é, conseqüentemente, aquele que somente prega, ensina e faz o bem até o fim de sua vida terrena.


A quarta faceta Jesus como Pastor: “Vendo Jesus as multidões, compadeceu-se delas, porque estavam cansadas e abatidas, como ovelhas que não têm pastor”. Como o verdadeiro Pastor Jesus se compadece das multidões e trata de orientá-las pelo caminho da solidariedade, da fraternidade e da tolerância. Jesus sempre se compadece pelos que sofrem como se o sofrimento fosse dele próprio. A compaixão é uma das características de Deus. A compaixão é comover-se até as entranhas, solidarizar-se profundamente, sentir-se a partir de outrem; é sofrer com (Latim: pati + cum, compaixão = sofrer com). A compaixão supõe ter uma consciência coletiva. Supõe a capacidade de sentir o que o outro sente. A compaixão requer que estejamos com as pessoas que sofrem e dispostos a partilhar nosso tempo com elas. Quando compartilhamos nosso coração e tempo com uma pessoa que sofre, uma parte do sofrimento dela será aliviada. O resto, deixamos com Deus desde que façamos nossa parte até o limite de nossa capacidade. Somos seguidores do Deus da Compaixão que se tornou carne em Jesus Cristo.


A quinta faceta Jesus como organizador de comunidades de homens e mulheres.  Havia muitas pessoas inquietas. Elas necessitavam de um fator de coesão, de um líder que os vinculava e as ajudava a crescerem como pessoas. Esta ultima faceta de organizador e de promotor de organizações comunitárias está condensada nos relatos de eleição dos doze missionários ou apóstolos para continuar a missão.


Em outras palavras, Jesus sabe preparar seus seguidores para assumirem liderança. Ele não monopoliza nada. Liderança não é um cargo e sim uma responsabilidade. Um bom líder tem uma capacidade de inspirar e influenciar os outros para uma ação. Liderar é envolver-se seriamente na vidas dos outros confiados à sua liderança. Para saber se você foi um bom líder, basta fazer as seguinte perguntas:  Você deixa as coisas melhores do que as encontra? Os outros, sob sua liderança, se aperfeiçoam por causa do convívio com você? A partir da sua resposta você saberá se você possui a liderança servidora que se concentra nas suas responsabilidades.


E aqui está condensada um dos ensinamentos fundamentais de Jesus a respeito da organização: a comunidade cristã (pastorais, movimentos, grupos eclesiais) existe para evangelizar. A comunidade cristã existe porqueumpovo cansado e abatidodiante do qual cada membro da comunidade cristã é chamado a ser solidário capaz de aliviar a dor alheia e de dar resposta a partir de sua própria insignificância e debilidade. Cada um de nós, apesar das fraquezas, tem algo de bom para ser partilhado com os outros. Se cada um tirar um pouco de bom de dentro de seu coração o cristianismo vai fazer a diferença na sociedade.


Jesus é muito consciente da amplitude de sua obra. É necessário ter muito tempo. Sem pressa Jesus limita a missão no momento dentro do território de Israel. Ele mesmo, durante sua vida terrena, se limitou ao que podia fazer: dirigir-se às ovelhas agarradas da casa de Israel. Mais tarde ele enviaria os discípulos pelo mundo inteiro (Mt 28,18-20). Em outras palavras, é preciso arrumar primeiro a casa. É preciso evangelizar os que estão dentro de casa para depois evangelizar os que estão fora dela que nem sempre é fácil. É o desafio de cada missionário-evangelizador.


Ao enviá-los Jesus dá-lhes o poder. Mas este poder deve ser entendido como um dom de autoridade (autoridade: augere =crescer). Somente tem autoridade aquele que é capaz de fazer o outro crescer . Aquele que está com autoridade tem as seguintes características: 1). Está orientado por inteiro ao ministério apostólico, ou para o serviço e não para dominar ou mandar e desmandar e sim para expulsar o mal, fazer o bem, pregar o Reino. É um dom completamente missionário. Por isso, não se trata de nenhum poder de direção ou de governo. 2). É uma autoridade conferida, mas não abandonada por Jesus aos seus discípulos. 3). Jesus reconhece que haverá oposição por causa de interesses.
       

Somos chamados por Jesus Cristo para estar com ele a fim de aprendermos a ser parceiros do bem. Somos enviados depois do encontro com ele para fazer o bem e em busca dos novos parceiros do bem. A alma da missão é a caridade. A única coisa que nos faz bem é fazer o bem. A vida não é uma luta para superar os outros, mas uma missão a ser exercida para dar o melhor de nós para a humanidade conforme os talentos recebidos de Deus. Estamos aqui neste mundo com um objetivo único, com um objetivo nobre que nos permitirá manifestar nosso mais alto potencial enquanto, ao mesmo tempo, acrescentamos valor às vidas das pessoas que estão a nossa volta. Descobrir a própria missão significa trazer mais de você mesmo para o trabalho, para a convivência e concentrar-se nas coisas que você sabe fazer melhor e dar sempre o melhor de você para os outros sem esperar nada em troca.  


Proclamai que o reino de Deus está próximo”. Muitas vezes se busca Deus demasiadamente longe. De fato ele está próximo de nós. O Deus que Jesus revela é um Deus próximo, um Deus amoroso. Por isso, jamais eu estou sozinho, inclusive quando me sinto abandonado ou solitário. Para poder proclamar aos demais sobre a bondade, a proximidade da presença de Deus, o cristão-missionário há que ter feito a experiência do Deus próximo em si mesmo pessoalmente.


Curai os doentes, ressuscitai os mortos, purificai os leprosos, expulsai os demônios”.  O cristão-missionário é aquele que distribui benefícios, aquele que faz o irmão crescer e viver a vida dignamente, aquele que leva a paz. A partir disso, é bom cada se perguntar: “Qual será minha maneira de ajudar, de servir, de distribuis benefícios para os outros irmãos?”.


Recebestes de graça, de graça dai!”. Além de ter uma vida despojada, o cristão deve ser generoso e viver na gratuidade. O cristão deve ter consciência plena de que ele está num mundo de Deus, isto é, num mundo de gratuidade, pois tudo é de Deus, menos o pecado. Por isso, o cristão-missionário deve atuar com desinteresse econômico, não buscando seu próprio proveito.Todos sabem que quanto mais se tem, mais se quer. A felicidade ficará cada vez mais distante quando o ser humano começar a criar mais necessidades. Aquele que sabe reduzir ao mínimo suas necessidades encontra uma alegria e uma liberdade maior. Possuído ou dominado pelas coisas o homem perde sua liberdade.


Advento é oportunidade para dar a mão e o coração para aqueles que estão distantes de nosso coração, marginalizados de nosso afeto, desprezados de nosso respeito, afastados de nosso perdão. Advento é olhar exigente e sincero sobre nós mesmos e sobre os demais com reflexos de compreensão, ternura, ajuda e paciente perseverança. Advento é preparação de um novo encontro com o Deus de amor e de misericórdia que vem ao nosso encontro na debilidade de uma Criança para nos ensinar toda a verdade. Será que estou pronto para aceitar toda a verdade de minha vida? Não é a verdade que doe. O que doe muito é a falsidade, pois somente a verdade que nos faz livres e leves no nosso cotidiano.

 

Para Refletir


1.    “O bem tende sempre a comunicar-se. Toda a experiência autêntica de verdade e de beleza procura, por si mesma, a sua expansão; e qualquer pessoa que viva uma libertação profunda adquire maior sensibilidade face às necessidades dos outros. E, uma vez comunicado, o bem radica-se e desenvolve-se. Por isso, quem deseja viver com dignidade e em plenitude, não tem outro caminho senão reconhecer o outro e buscar o seu bem. Assim, não nos deveriam surpreender frases de São Paulo como estas: «O amor de Cristo nos absorve completamente» (2 Cor 5, 14); «ai de mim, se eu não evangelizar!» (1 Cor 9, 16)”. (Papa Francisco: Exortação Apostólica Evangelii Gaudium no. 9).


2.    “Na Palavra de Deus, aparece constantemente este dinamismo de «saída», que Deus quer provocar nos crentes. Abraão aceitou a chamada para partir rumo a uma nova terra (cf. Gn 12, 1-3). Moisés ouviu a chamada de Deus: «Vai; Eu te envio» (Ex 3, 10), e fez sair o povo para a terra prometida (cf. Ex 3, 17). A Jeremias disse: «Irás aonde Eu te enviar» (Jr 1, 7). Naquele «ide» de Jesus, estão presentes os cenários e os desafios sempre novos da missão evangelizadora da Igreja, e hoje todos somos chamados a esta nova «saída» missionária. Cada cristão e cada comunidade há-de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho (Idem no. 20).


3.    “A alegria do Evangelho, que enche a vida da comunidade dos discípulos, é uma alegria missionária. Experimentam-na os setenta e dois discípulos, que voltam da missão, cheios de alegria (cf. Lc 10, 17). Vive-a Jesus, que exulta de alegria no Espírito Santo e louva o Pai, porque a sua revelação chega aos pobres e aos pequeninos (cf. Lc 10, 21). Sentem-na, cheios de admiração, os primeiros que se convertem no Pentecostes, ao ouvir «cada um na sua própria língua» (At 2, 6) a pregação dos Apóstolos. Esta alegria é um sinal de que o Evangelho foi anunciado e está a frutificar. Mas contém sempre a dinâmica do êxodo e do dom, de sair de si mesmo, de caminhar e de semear sempre de novo, sempre mais além. O Senhor diz: «Vamos para outra parte, para as aldeias vizinhas, a fim de pregar aí, pois foi para isso que Eu vim» (Mc 1, 38). Ele, depois de lançar a semente num lugar, não se demora lá a explicar melhor ou a cumprir novos sinais, mas o Espírito leva-O a partir para outras aldeias” (Idem no. 21).


4.    “A intimidade da Igreja com Jesus é uma intimidade itinerante, e a comunhão «reveste essencialmente a forma de comunhão missionária». Fiel ao modelo do Mestre, é vital que hoje a Igreja saia para anunciar o Evangelho a todos, em todos os lugares, em todas as ocasiões, sem demora, sem repugnâncias e sem medo. A alegria do Evangelho é para todo o povo, não se pode excluir ninguém; assim foi anunciada pelo anjo aos pastores de Belém: «Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo» (Lc 2, 10). O Apocalipse fala de «uma Boa Nova de valor eterno para anunciar aos habitantes da terra: a todas as nações, tribos, línguas e povos» (Ap 14, 6)”. (Idem no. 23)


5.    A Igreja «em saída» é uma Igreja com as portas abertas. Sair em direção aos outros para chegar às periferias humanas não significa correr pelo mundo sem direção nem sentido. Muitas vezes é melhor diminuir o ritmo, pôr de parte a ansiedade para olhar nos olhos e escutar, ou renunciar às urgências para acompanhar quem ficou caído à beira do caminho. Às vezes, é como o pai do filho pródigo, que continua com as portas abertas para, quando este voltar, poder entrar sem dificuldade. (Idem no. 46)


6.    “Vemos assim que o compromisso evangelizador se move por entre as limitações da linguagem e das circunstâncias. Procura comunicar cada vez melhor a verdade do Evangelho num contexto determinado, sem renunciar à verdade, ao bem e à luz que pode dar quando a perfeição não é possível. Um coração missionário está consciente destas limitações, fazendo-se «fraco com os fracos (...) e tudo para todos» (1 Cor 9, 22). Nunca se fecha, nunca se refugia nas próprias seguranças, nunca opta pela rigidez auto-defensiva. Sabe que ele mesmo deve crescer na compreensão do Evangelho e no discernimento das sendas do Espírito, e assim não renuncia ao bem possível, ainda que corra o risco de sujar-se com a lama da estrada” (Idem no. 45).

 
P. Vitus Gustama,svd

Nenhum comentário: