quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

SAIR DO COMODISMO E DO PECADO PARA EVANGELIZAR

II DOMINGO DO ADVENTO

 07 de Dezembro de 2014

Evangelho: Mc 1,1-8

1 Início do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus. 2 Está escrito no Livro do profeta Isaías: “Eis que envio meu mensageiro à tua frente, para preparar o teu caminho. 3Esta é a voz daquele que grita no deserto: ‘Preparai o caminho do Senhor, endireitai suas estradas! ’” 4 Foi assim que João Batista apareceu no deserto, pregando um batismo de conversão para o perdão dos pecados. 5 Toda a região da Judeia e todos os moradores de Jerusalém iam ao seu encontro. Confessavam seus pecados e João os batizava no rio Jordão. 6 João se vestia com uma pele de camelo e comia gafanhotos e mel do campo. 7E pregava, dizendo: “Depois de mim virá alguém mais forte do que eu. Eu nem sou digno de me abaixar para desamarrar suas sandálias. 8 Eu vos batizei com água, mas ele vos batizará com o Espírito Santo”.

--------------------------------------------

O evangelho de Marcos foi escrito para responder à pergunta: “Quem é Jesus?” E ao saber quem é Jesus, o discípulo se define a partir da missão de Jesus. Logo no início do seu evangelho Marcos responde: Jesus,  Messias (Cristo),  Filho de Deus (1,1).


Cada um destes nomes tem uma grande importância para Mc. “Jesus” significa “Deus salva”. Em todo o evangelho Jesus agirá com o poder de Deus para salvar os homens.   Cristo” significa aquele descendente de Davi que será ungido como Rei para estabelecer o Reino definitivo de Deus no mundo.
     

E Mc apresenta Jesus de maneira explícita e implicitamente como “Filho de Deus”. Mc vincula Jesus de maneira especial e única à realidade divina. Filho é, por um lado, um conceito ontológico no sentido de compartilhar a mesma vida. Por outro lado, filho é, também, um conceito funcional no sentido de atuar de acordo com este ser: receber o ser do Pai, viver em intimidade com ele, confiar nele, sentir-se protegido por ele, identificar-se com a sua vontade e realizá-la na vida cotidiana. Tanto o AT com o NT enfatizam o aspecto funcional do título (cf. Mc 1,11;9,7;13,32;14,61-64;15,39). Ser Filho é ter uma relação de caráter único, íntimo, cordial com Deus, em que o poder é compartilhado e a vontade é identificada.
   

Estes dois títulos, Messias e Filho de Deus, dividem, de modo geral, todo o conjunto do evangelho de Mc em duas grandes partes: uma orientada ao messianismo (1,1-8,30) que culmina na profissão da fé de Pedro (8,29) e outra à filiação de Jesus (8,31-16,8) que culmina na profissão da fé do oficial romano (15,39). O conteúdo confirma esta divisão, pois a primeira parte está dominada pelos temas sobre Messias e Reino de Deus e a segunda pelo tema da paixão e morte. Igualmente se confirma e se especifica à luz de outros critérios literários e topográficos: a partir do ponto de vista geográfico, a primeira parte, mais concretamente a partir de 1,14-8,30 está centrada na Galiléia, e a segunda está orientada para Jerusalém. Quanto aos vv. 1,1-13 aparecem encabeçados pela palavra “arche”, princípio e os três relatos podem ser considerados como prólogo ou tríplice introdução.
   

O evangelista Marcos começa seu livro com esta frase: “Princípio da Boa- Nova de Jesus Cristo (Messias), Filho de Deus”. Não se trata só de início cronológico. O termo “arche” (princípio) em grego não somente significa início, mas também causa, origem, explicação. Marcos não escolhe por acaso o termo “Princípio”. O livro de Gênesis, o primeiro livro da Bíblia, começa com a mesma expressão quando se relata a criação do mundo por Deus (Gn 1,1; cf. Jo 1,1). Ao retomar  essa expressão, Marcos quer dizer aos leitores e a todos nós que sua narrativa representa recriação fundamental da história da salvação com a vinda do Messias, Filho de Deus, a Boa Nova. A proclamação do Evangelho por Jesus dá origem a um mundo novo, é uma nova criação. O Evangelho, origem de um mundo novo é o acontecimento que principia com Jesus e tem nele seu fundamento. Há tanto tempo os homens esperavam um mundo novo ou uma nova criação. Eis, então, a nova realidade apareceu na pessoa de Jesus Cristo. Acreditando nele e vivendo sua vida e sua mensagem, qualquer um se renova e se torna nova criatura. Se ele se torna uma nova criatura, conseqüentemente ele renova também seu ambiente e as pessoas ao redor dele. Ele também sabe discernir a vontade de Deus na sua vida pois ele está com o Senhor. Tudo isto é uma Boa-Nova, pois Deus quer entrar em comunhão com as pessoas a fim de salvá-las. Em Jesus Cristo, Deus veio para dar-nos uma notícia tão sublime que até é difícil de acreditar: o amor de Deus é tão grande (cf. Jo 3,16) e tão forte que não permitirá que ninguém se perca (cf. Jo 6,39).
  

Até aqui, perguntemo-nos: nossas conversas ou nosso modo de falar, nossa vida são  realmente boa notícia ou mensagem que traz felicidade e alegria sem fim para os outros ? Ou será que somos causadores da notícia ruim? Será que somos fonte de inquietação para as pessoas ao redor? Se somos realmente cristãos, temos, então, o dever de levar o Evangelho para os outros.


·       Saiamos, saiamos para oferecer a todos a vida de Jesus Cristo! Repito aqui, para toda a Igreja, aquilo que muitas vezes disse aos sacerdotes e aos leigos de Buenos Aires: prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças. Não quero uma Igreja preocupada com ser o centro, e que acaba presa num emaranhado de obsessões e procedimentos. Se alguma coisa nos deve santamente inquietar e preocupar a nossa consciência é que haja tantos irmãos nossos que vivem sem a força, a luz e a consolação da amizade com Jesus Cristo, sem uma comunidade de fé que os acolha, sem um horizonte de sentido e de vida. Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa protecção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Mc 6, 37)... Cada cristão e cada comunidade há-de discernir qual é o caminho que o Senhor lhe pede, mas todos somos convidados a aceitar esta chamada: sair da própria comodidade e ter a coragem de alcançar todas as periferias que precisam da luz do Evangelho” (Papa Francisco: Evangelii Gaudium n. 49 e n. 20).
   

Depois desse versículo inicial, o trecho nos apresenta a missão de João Batista: “Eis que envio meu mensageiro à tua frente para preparar o teu caminho... (vv.2-3)”. São palavras de Deus através da boca dos profetas Isaías (Is 40,1-5) e Malaquias (Ml 3,1). Esta frase revela-nos quem é Deus?  Deus é Aquele que vê o final logo no começo. Tudo está no coração de Deus, aos poucos apareceu nos sonhos dos profetas e por fim se fez carne em Jesus Cristo. E nós estamos dentro desse processo.
    

Se Deus é Aquele que vê o final logo no começo, então a única coisa que podemos fazer perante Deus é entregarmo-nos nas mãos dele. Deus nos deu como exemplo a Nossa Senhora com sua frase famosa: “Faça-se em mim segundo a Sua Palavra”. Como se ela quisesse dizer: “O Senhor vê tudo: meus problemas, minhas dificuldades e a grande ameaça para minha vida está na minha frente. Mas porque me escolheu para ser a mãe do Seu Filho, então, faça-se em mim segundo a Sua Palavra”. Ou como disse Pedro na pesca milagrosa: ”...por causa da sua Palavra lançarei as redes”. E deu mesmo resultado: apanhou muito peixe no pleno dia.
   

Para que o Messias possa chegar até as pessoas, Deus envia seu mensageiro na pessoa de João Batista para preparar o caminho desse Messias. Em João Batista encontramos as qualidades de quem está preparado para acolher os novos tempos: desprendimento que se manifesta na sobriedade do comer e do vestir (v.6) e a humildade diante da pessoa e do mistério de Jesus que se manifesta na afirmação de ser indigno de desamarrar suas sandálias (v.7). Antes de pregar a conversão, João se prepara para a vinda daquele que é maior que ele (v.8).
    

João Batista chama a atenção das pessoas para Jesus. Ele conclama todos para a conversão. Ele exige que se constitua uma comunidade de pessoas dispostas a mudar de vida. Ele prega uma descoberta tremenda que não é pelo fato de ser judeu que alguém se torne membro do povo eleito, mas pela vida purificada. Só desse modo O Messias se manifestará ao mundo. Muitos lhe dão ouvidos e vão em sua direção para receber o batismo de penitência. Trata-se daqueles que querem que alguma coisa ou uma vida mude, são as pessoas que cansam de viver num mundo ou numa sociedade de injustiça e de maldade.
    

Nós também nos deparamos freqüentemente com situações intoleráveis e com razão esperamos uma mudança radical. Mas, por acaso, podemos exigir que os outros se convertam, quando nós não queremos mudar nossos maus hábitos, quando não estamos dispostos a renunciar aos nossos pequenos ou grandes egoísmos?  Podemos, por acaso, exigir que os ricos e os poderosos não oprimam os pobres e os fracos, se, de nossa parte, nos nossos lares continuamos mantendo um comportamento arrogante e agressivo, se nos comportamos como dominadores e donos da verdade, se no trabalho ou no grupo, nos exaltamos contra aqueles que hierarquicamente estão  abaixo de nós ou tratamos os outros como se eles não tivessem um mínimo conhecimento das coisas que, de fato, eles sabem muito mais do que nós, só que falta-lhes oportunidade?
   

Enquanto não renunciarmos aos nossos pecados, como exigia João Batista, não podemos esperar pela vinda do Salvador na nossa vida e na nossa família e pelo surgimento de uma sociedade nova e de um mundo novo.
    

Sabemos que faz parte da nossa natureza humana é que nós fechamos nossos olhos diante daquilo que deveríamos ver, e, sobretudo, diante de nossos próprios pecados ou defeitos.  Enquanto que o primeiro passo para a conversão e para o bom relacionamento com Deus é admitir que somos pecadores, que temos defeitos, embora reconheçamos que nenhuma coisa no mundo mais duro e mais difícil do que encarar a nós mesmos, os nossos defeitos e fraquezas. Reconhecer o próprio pecado ou erros não é uma confissão de fraqueza e sim da força. Somente quem é forte é que capaz de reconhecer a fraqueza. Somente quem é santo é que capaz de se reconhecer pecador. Temos que estar conscientes de que o fim de arrogância é o início de perdão e da graça de Deus na nossa vida. Mas em qualquer retorno a Deus, a confissão dos pecados deve ser feita. O filho pródigo, antes de tomar a decisão de voltar para a casa do pai, reconhece seu pecado e se considera pecador (cf. Lc 15,11-32). Mas certamente o primeiro passo para conversão e para um relacionamento verdadeiro com Deus e com o próximo é reconhecer os próprios pecados e tomar decisão de trilhar novamente os caminhos de Deus e os da fraternidade. Só assim a graça e todas as bênçãos de Deus poderão chegar até nós. Por isso, não há perdão e relacionamento verdadeiro com Deus e com o próximo sem humilhação e humildade, abandonando nossa arrogância e auto-suficiência que não nos trazem vantagem nenhuma a não ser só a destruição para nossa vida e a vida dos demais com quem vivemos e trabalhamos.
     

Além disso, João Batista anuncia a vinda do Messias que batizará com o Espírito Santo. O Batismo com Espírito Santo é a realização de todas as promessas de Deus, pois ele é a comunicação pessoal de Deus com os homens. Ele entra em comunhão de amor com todos os que crêem e o aceitam. Então, com essa expressão, João Batista quer nos dizer que Jesus Cristo fará desaparecer do coração dos homens o espírito mau, o impulso deturpado que impele a cometer malvadezas e comunicará a todos um Espírito novo, o Espírito de Deus, a força vital. Para isso acontecer, a conversão é a passagem obrigatória. Se não preceder a conversão pessoal e não se abrir a transcendência, não haverá eficácia real na mudança de estruturas sociais. Desde modo perpetuam-se a injustiça e a opressão do mais fraco.
  

Portanto, que cada um de nós saiba fazer a revisão de vida e se pergunte: quais são maus hábitos que eu devo abandonar, pois eles não trazem nenhuma vantagem para mim e para as pessoas ao meu redor? Só dessa maneira que as bênçãos de Deus vão entrar facilmente na nossa vida e na nossa família. Se não sonharemos sem fundamento.

P. Vitus Gustama,svd

Nenhum comentário: