quarta-feira, 30 de abril de 2014

 
É PRECISO CAMINHARMOS COM O SENHOR


Sábado da II Semana da Páscoa
03 de Maio de 2014
 

Evangelho: Jo 6,16-21


16Ao cair da tarde, os discípulos desceram ao mar. 17Entraram na barca e foram em direção a Cafarnaum, do outro lado do mar. Já estava escuro, e Jesus ainda não tinha vindo ao encontro deles. 18Soprava um vento forte e o mar estava agitado. 19Os discípulos tinham remado mais ou menos cinco quilômetros, quando enxergaram Jesus, andando sobre as águas e aproximando-se da barca. E ficaram com medo. 20Mas Jesus disse: “Sou eu. Não tenhais medo”. 21Quiseram, então, recolher Jesus na barca, mas imediatamente a barca chegou à margem para onde estavam indo.
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 O relato da caminhada de Jesus sobre as águas se encontra, curiosamente, entre a multiplicação dos pães (cf. Jo 6,1-15) e o discurso sobre o Pão da vida (Jo 6,26-66). O “sinal” da caminhada sobre as águas está estreitamente ligado com a multiplicação dos pães (cf. Jo 6.1-15). A multiplicação dos pães prepara a parte principal do discurso sobre o Pão da vida: “O verdadeiro pão de Deus, Sou Eu, é meu Corpo e meu Sangue... dados em alimento”, assim Jesus disse.


A caminhada sobre as águas inicia o final do discurso (Jo 6,60-71): nele aparece Jesus andando sobre as águas, mostrando seu domínio sobre a natureza. E isto é uma resposta às dificuldades dos que não aceitam o discurso de Jesus sobre o Pão de vida que é Ele próprio.


Ao cair da tarde, os discípulos desceram ao mar. Entraram na barca e foram em direção a Cafarnaum, do outro lado do mar. Já estava escuro, e Jesus ainda não tinha vindo ao encontro deles”.  Jesus fica só. Por que não embarcou com os discípulos? Parece que foi muito intencional da parte de Jesus. O evangelista João ao empregar determinado(s) termo(s) é porque tem algum valor. A “noite”, as “trevas” têm um significado: Jesus está ausente. Jesus é a Luz do mundo (Jo 8,12): sua ausência significa a desorientação total. Através do mundo sensível o evangelista João sugere ou nos leva para o mundo espiritual. Tudo é símbolo. O evangelista João nos sugere que cultivemos nosso espírito de contemplação para captar o significado profundo das coisas e dos acontecimentos.


“Já estava escuro” ou “já era noite”, assim nos relatou o evangelista João. Esta noite era algo muito real. Mas, ao mesmo tempo, para o evangelista João “noite” significava a ausência de Jesus.


1. “Não tenham medo… Sou Eu”.   


Consciente ou inconscientemente temos medo de algo ou de alguém. Em outras palavras, convivemos com o medo, ou melhor, com os medos. Não estamos errados em sentir medo, porque somos criaturas expostas a perigos e ameaças. Sentir medo é vivenciar a nossa condição de criatura. O medo é uma manifestação de nosso instinto fundamental de conservação. É a reação a uma ameaça para nossa vida, a resposta a um verdadeiro ou suposto perigo: desde o perigo maior, que é o da morte até os perigos particulares que ameaçam a tranqüilidade física ou nosso mundo afetivo.


Existem medos justificados como também os injustificados ou patológicos. Os nossos medos são um sinal de alarme que podem nos ajudar a evitar o perigo. O imprudente geralmente suprime o medo e se atira inutilmente ao perigo. O covarde teme tudo, se paralisa e não se atreve a correr nenhum risco. Não podemos nos torturar aumentando os nossos medos com nossa fantasia. O homem sadio usa seus medos para agir prudentemente.


“Não tenham medo… Sou Eu!”. Cristo dirigiu muitas vezes este convite aos homens com os quais se encontrava. Esta frase foi dita pelo Anjo do Senhor a Maria: “Não tenhas medo, Maria” (Lc 1,30). Foi dita ao São José: “Não tenhas medo, José” (Mt 1,20), e assim por diante.


O evangelho ou a Palavra de Deus, a Palavra daquele que é maior do que a morte nos ajuda a libertar de todos os nossos medos, revelando o caráter relativo, não absoluto dos perigos que os provocam. Há algo de nós que ninguém nem nada no mundo possa nos tirar: trata-se da alma imortal: “Não tenhais medo daqueles que matam o corpo, mas não podem matar a alma” (Mt 10,28ª).


De que não devemos ter medo? Não devemos ter medo da verdade sobre nós mesmos, sobre nossa vida, sobre nossas fraquezas, sobre nossos defeitos e limitações, sobre nossas dificuldades, sobre nossas incapacidades. Não podemos fingir como se fossemos super homens. Somente uma pessoa forte é que capaz de reconhecer suas próprias fraquezas e pede, sem medo nem vergonha a ajuda dos que mais competentes na área.


2. Em tudo devemos contar com Jesus


Os discípulos navegam pela noite sem “a Luz do mundo” (Jesus). Confiados no poder e na força próprios, eles pensavam que pudesse controlar as circunstâncias. De fato, sua força é insuficiente. O mar que eles acreditam poder dominar se torna incontrolável. Nessa altura, normalmente vem a pergunta na cabeça: Onde está o Senhor? Acaso, Ele nos abandonou? O Senhor jamais abandona os seus mesmo que eles O abandonem: “Não temais! Sou Eu!”.


Quantas vezes cada um de nós quer fazer as coisas sozinho, à sua maneira e não como o Senhor quer. Quantas vezes cada um de nós caiu na tentação de pensar: “Sou uma pessoa forte e independente, posso tudo!”. Mas cedo ou tarde vai cair no fracasso. Lança-se, então, a pergunta: “Senhor, por que me abandonaste?”. Mas, na realidade, fui eu quem abandonou o Senhor; esqueci-me dele. Sem o Senhor, nada podemos fazer (cf. Jo 15,5). Mas com Ele não há nada que possa me separar dele (cf. Rm 8,31-39). Se caminharmos com o Senhor nesta vida, se vivermos em comunhão com Ele, a nossa vida será mais leve, pois o jugo do Senhor é suave e sua carga é ligeira (cf. Mt 11,30).


Como na pesca milagrosa, o texto do evangelho deste dia quer nos transmitir uma verdade de que sem Jesus é inútil qualquer esforço na missão e não haverá paz. Mas quando Jesus se aproxima, volta novamente a calma, e o trabalho resulta plenamente eficaz. É preciso colaborar com a graça de Deus para que ela possa operar em nós e através de nós para um trabalho frutífero.


3. Colaborar com o Senhor a partir de nossas condições


Não pedimos a Deus uma vida sem dificuldades, porque elas fazem parte de um verdadeiro crescimento. Não há crescimento sem dificuldades e obstáculos. Pedimos a Deus, sim, a força e a serenidade para encarar tudo na vida com ele. A partir do evangelho deste dia percebemos que a dificuldade não é um lugar vazio e desabitado, porque no meio da dificuldade está o Senhor. Ele está no centro da vida.  Tenhamos sagacidade para saber converter as dificuldades em lugar de encontro com Jesus, o Senhor que caminha sobre as águas dessas dificuldades. Basta escutá-lo em silêncio no meio do ruído do medo, e reconhecê-lo: “Não tenha medo, sou Eu”. E essas contrariedades serão esplêndida ocasião para o exercício contemplativo. Somente assim se produz o milagre.


Toda vez que celebramos a Eucaristia, o Ressuscitado se faz presente na comunidade reunida, nos é dada a Palavra salvadora e nos alimenta com o Pão da vida. É verdade que sua presença é sempre misteriosa como para os discípulos de então. Mas pela fé temos que saber ouvir a frase que tantas vezes se repete com suas variações na Bíblia: “Eu sou, não tenha medo!”. Com isso, de cada missa ganharemos mais ânimo e convicção para o resto da jornada, porque o Senhor nos acompanha, ainda que nós não O vejamos com os nossos olhos humanos.

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 29 de abril de 2014

 
PARTILHAR O PÃO É UM ATO SAGRADO, POIS PROLONGA O ATO GENEROSO DE DEUS

 
Sexta-Feira da II Semana da Páscoa
02 de Maio de 2014
                                                                                                                 

Texto de Leitura: Jo 6,1-15

Naquele tempo, 1Jesus foi para o outro lado do mar da Galileia, também chamado de Tiberíades. 2Uma grande multidão o seguia, porque via os sinais que ele operava a favor dos doentes. 3Jesus subiu ao monte e sentou-se aí, com seus discípulos. 4Estava próxima a Páscoa, a festa dos judeus. 5Levantando os olhos, e vendo que uma grande multidão estava vindo ao seu encontro, Jesus disse a Filipe: “Onde vamos comprar pão para que eles possam comer?” 6Disse isso para pô-lo à prova, pois ele mesmo sabia muito bem o que ia fazer. 7Filipe respondeu: “Nem duzentas moedas de prata bastariam para dar um pedaço de pão a cada um”. 8Um dos discípulos, André, o irmão de Simão Pedro, disse: 9“Está aqui um menino com cinco pães de cevada e dois peixes. Mas o que é isso para tanta gente?” 10Jesus disse: “Fazei sentar as pessoas”. Havia muita relva naquele lugar, e lá se sentaram, aproximadamente, cinco mil homens. 11Jesus tomou os pães, deu graças e distribuiu-os aos que estavam sentados, tanto quanto queriam. E fez o mesmo com os peixes. 12Quando todos ficaram satisfeitos, Jesus disse aos discípulos: “Recolhei os pedaços que sobraram, para que nada se perca!” 13Recolheram os pedaços e encheram doze cestos com as sobras dos cinco pães, deixadas pelos que haviam comido. 14Vendo o sinal que Jesus tinha realizado, aqueles homens exclamavam: “Este é verdadeiramente o Profeta, aquele que deve vir ao mundo”. 15Mas, quando notou que estavam querendo levá-lo para proclamá-lo rei, Jesus retirou-se de novo, sozinho, para o monte.
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Começamos hoje a leitura do famoso capítulo de São João. É uma verdadeira síntese teológica sobre a Eucaristia e sobre a fé. Neste capítulo teremos o relato de dois sinais (multiplicação dos pães e Jesus anda sobre as águas) seguido por um longo discurso de Jesus que expressa e prolonga o significado dos gestos de dois sinais prodigiosos (1. Multiplicação dos pães; 2. Jesus anda sobre as águas; 3. Discurso sobre o Pão da vida). A leitura de Jo 6 só terminará na III Semana da Páscoa.


O presente relato de Jo quer destacar o conhecimento sobre-humano de Jesus. Jesus aparece aqui como o Senhor. Desaparecem as marcas humanas como compaixão por uma multidão faminta que estava muito tempo sem comer (cf. Mc 6,34). Os sinóticos destacam mais a dimensão humanitária de Jesus do que sua dimensão divina. Toda a situação se desenvolve sob o controle de Jesus: ele sabe perfeitamente o que tem que fazer. Jesus tem a iniciativa em todo momento. Acentua-se a sua preocupação pelo homem para responder às suas necessidades mais profundas. O papel dos discípulos é reduzido.
     

No Evangelho de João, como já sabemos, não se usa o termo milagre, mas sinal. Um sinal nos leva daquilo que vemos para aquilo que não vemos, do conhecido ao desconhecido, isto é, que evoca algo que está muito além de sua própria realidade. O que o evangelista João chama de sinais são os gestos de Jesus. São chamados de Sinais porque remetem a algo mais profundo, ao significado. Somos convidados a descobrir o que tem por além de cada gesto de Jesus e de cada personagem.


O evangelho fala da multiplicação dos pães. Logo no início, ao ver a multidão, Jesus perguntou a Filipe: “Onde vamos comprar pão para eles comerem?” (v.5). Através desta pergunta o texto quer nos dizer que a primeira preocupação de Jesus é com a sobrevivência do povo. Jesus provoca seus seguidores, representado por Filipe sobre como resolver a questão da fome do povo. Para Filipe a fome do povo não tem solução: “Duzentos denários de pão não seriam suficientes para que cada um recebesse um pedaço” (um denário é a diária de um lavrador: Mt 20,2, isto quer dizer que 200 dias de trabalho não são suficientes para alimentar tanta gente).


Surgiu André, o irmão de Pedro com uma solução: “Aqui há um menino que tem cinco pães de cevada e dois peixes”. Ele representa a nova proposta diante da fome do povo. Pão de cevada e peixe eram a comida dos pobres (arroz e feijão para o povo brasileiro). Os ricos comiam o pão de trigo. O menino e os pães cevadas lembram o profeta do pão, Eliseu, no AT (2Rs 4,42-44). O menino neste relato tem generosidade de entregar seu pão e peixe. Ele não retém para si seu alimento nem pergunta de que ele se alimentará. O menino recorda, por isso, os pequenos que estão dispostos a servir e a partilhar os bens da vida, sem submetê-los à ganância. Ele representa todos aqueles que acreditam sempre na providência divina mesmo que estejam cercados pelas dificuldades, e continuam sendo generosos apesar do pouco que eles têm.


E Jesus pega o pão e faz a oração de bênção e de agradecimento. Aqui ele não agradece ao menino que ofereceu os pães e sim a Deus. Esse detalhe é importante, pois coloca os bens que sustentam a vida dentro do projeto de Deus. Ao dar graças a Deus, Jesus está tirando os bens da vida das garras da ganância e do acúmulo para colocá-los no âmbito da partilha e da gratuidade. Aqui a bênção sobre o pão é o reconhecimento público da bondade de Deus. Ao agradecer a Deus pelo pão que se tem, Jesus nos ensina a colocarmos os bens que sustentam a vida dentro do projeto de Deus cuja alma é a partilha. Dar graças a Deus significa reconhecer que algo que se possui é dom recebido de Deus. Nada criamos. Tudo é criado por Deus gratuitamente e nós usufruímos tudo gratuitamente. O preço dessa gratuidade vinda de Deus deve ser a bondade praticada por nós. Dar graças a Deus pelos bens que temos significa reconhecer sua origem última em Deus e que quem os possui é apenas um administrador encarregado de colocá-los à disposição dos irmãos mais necessitados com a mesma gratuidade com que os recebeu de Deus. O sinal operado por Jesus, o pão partilhado, consiste precisamente em libertar a criação do egoísmo que esteriliza a humanidade para que se converta em dom de Deus para todos. Ao restituir a Deus, com sua ação de graças, os bens da comunidade, Jesus restaura seu verdadeiro destino, que é a humanidade inteira. Com sua ação, Jesus ensina seus discípulos e todos os cristãos sobre qual é a missão da comunidade: a de manifestar a generosidade do Pai que criou tudo de graça, compartilhando os dons que d’Ele recebemos.


Jesus saciou concretamente o povo faminto a partir de uma realidade terrestre e retirou-se, depois, da multidão. O pão que ele fornece não é somente o símbolo do pão sobrenatural: não é possível revelar o pão da vida eterna sem se engajar verdadeiramente nas tarefas da solidariedade humana. Os pobres e os miseráveis são o teste por excelência da qualidade de nossa caridade. Na verdade, os necessitados nos transformam em pessoas mais humanas através da partilha que fazemos. Fica o gesto de amor de Jesus no ato de compartilhar o pão, e a nossa tarefa é de continuar esse gesto ao longo da história.


Na eucaristia recebemos o pão da vida eterna. Mas somente existe verdadeira recepção desse pão da vida, quando estamos dispostos a partilhar o que temos e somos para com os necessitados. Ninguém pode reter para si o pão num egoísmo desenfreado enquanto que os outros estão carentes dele. Quando muitos morrem por falta de pão, não é porque Deus deixa de faltar o trigo, e sim porque nós deixamos que falte o amor; porque nós deixamos o egoísmo dominar nossa vida. Em cada pão partilhado ou dado com o amor, o egoísmo é esmagado. Em cada pão partilhado com amor há um gesto sagrado, pois Deus está presente nesse gesto de partilha que é a alma do projeto de Deus. Deus faz festa quando um coração sabe amar, partilhando com o irmão necessitado o pão que se tem. Por isso, que estejamos atentos para que a nossa prática religiosa não seja mais importante do que o próprio Deus e Sua imagem que é o nosso próximo que espera de nós um gesto de bondade. Recebemos o Corpo de Cristo na Eucaristia para que nós sejamos vida para o próximo. Se não, a Eucaristia careceria de sentido.
 
P. Vitus Gustama,svd
 
SER DO CÉU  OU SER DA TERRA?

Quinta-Feira da II Semana da Páscoa
01 de Maio de 2014
 

Texto de Leitura: Jo 3, 31-36

31“Aquele que vem do alto está acima de todos. O que é da terra, pertence à terra e fala das coisas da terra. Aquele que vem do céu está acima de todos. 32Dá testemunho daquilo que viu e ouviu, mas ninguém aceita o seu testemunho. 33Quem aceita o seu testemunho atesta que Deus é verdadeiro. 34De fato, aquele que Deus enviou fala as palavras de Deus, porque Deus lhe dá o espírito sem medida. 35O Pai ama o Filho e entregou tudo em sua mão. 36Aquele que acredita no Filho possui a vida eterna. Aquele, porém, que rejeita o Filho não verá a vida, pois a ira de Deus permanece sobre ele”.
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Estamos na conclusão de Jo 3 que contém a conversa entre Jesus e Nicodemos. Nesta conclusão o evangelista João nos descreve a superioridade de Jesus em relação aos demais seres humanos e a todos os enviados anteriores a Ele. Para descrever isto, Jesus usa os termos relacionados ao espaço: “do alto”, “da terra”. Jesus vem do “alto” (cf. Jo 1,1-18). Um profeta pode ser maior de quaisquer outros profetas, mas ele vem da “terra”, e por isso, não pode ser superior a Jesus.


“Aquele que vem do alto está acima de todos”.


Esta expressão significa ocupar uma posição de poder e de domínio. Jesus obteve essa posição como Senhor sobre todos com sua ressurreição ou glorificação. Jesus é superior a todos os demais seres humanos, porque ele experimentou a intimidade profunda do Pai e é a própria Palavra do Pai (Jo 1,1-5). Jesus é apresentado como Revelador do Pai, por excelência: sua vinda do céu (v.31), a fonte de seu testemunho: Jesus não fala por si mesmo, mas Ele fala as palavras de Deus (o que ele viu e ouviu do céu: v. 32), e o fato de Deus ter entregue tudo em suas mãos (v.35). Por isso, Jesus é distinto e superior a todos os anteriores enviados de Deus.


Toda a vida de Jesus teve como pano de fundo o amor razão pela qual foi enviado (Jo 3,16) e o qual ele colocou como o Mandamento Novo (Jo 13,34). O amor é o eixo condutor da vida. Este amor foi tão tenso na vida e missão de Jesus que o Pai não hesitou em colocar nas mãos do Filho, inclusive o poder de julgar a vida de quem se negar a crer nele. A superioridade divina consiste no amor. Deus é onipotente, mas no amor, pois ele ama até aquele que não é digno de ser amado pelo modo de viver. Se Jesus ocupa essa posição superior a todos os demais seres humanos não devemos ter medo dos demais. Precisamos, sim, acreditar cegamente nele para que possamos também triunfar.


Hoje o evangelho nos convida a deixarmos de ser “mundanos”, a deixarmos de ser homens que somente falam de coisas mundanas, para passarmos a falar como “aquele que vem de cima” que é Jesus. Falaremos como ”aquele vem de cima”, quando vivermos conforme os valores cristãos reconhecidos como valores universais, tais como amor, compaixão, bondade, solidariedade, igualdade, honestidade, justiça e assim por diante. Estar na superioridade é aquele que mantém sua vida de acordo com os valores.


É preciso olharmos para cima, para o céu para poder ordenar nossa vida aqui em baixo, no mundo. É necessário que em todo momento e circunstância nos esforcemos a ter o pensamento de Deus, que tenhamos ambição de ter os mesmos sentimentos de Cristo. Se atuarmos como “aquele que vem de cima” descobriremos facilmente o sentido da vida, das coisas e das pessoas ao nosso redor até o sentido de nosso sofrimento e dor. Se tivermos os sentimentos como os “daquele que vem do alto”, amaremos todos os seres humanos sem exceção e nos preocuparemos em cuidar da nossa própria vida e da vida dos demais, inclusive da vida da natureza criada por Deus. São Paulo nos aconselha: “Se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo está sentado à direita de Deus. Afeiçoai-vos às coisas lá de cima, e não às de terra” (Cl 3,1-2).


“O que é da terra pertence à terra e fala das coisas da terra”. Ser da terra é ser limitado por um horizonte terreno incapaz de ver além da aparência. No olhar do terreno só tem coisas. É não ter o conhecimento imediato de Deus. Quem ama ao mundo fala somente coisas mundanas. Quem ama a Deus fala as coisas do alto.


Cada cristão deve saber identificar as duas classes de consciências pelas quais o ser humano pode optar: o terreno (inferno, egoísta, prepotência etc.) ou o celestial (amor, partilha, fraternidade, igualdade, etc.). Estes dois pólos de consciência expressam realmente os elementos com os quais cada um se identifica: um, busca seus próprios interesses (ser interesseiro); o outro, busca a criação de uma sociedade igualitária, mais fraterna, mais justa, mais honesta e assim por diante.


O celestial e o terreno influenciam nossa maneira de viver de cada dia. Mas no fim, o celestial triunfará e o terreno fracassará apesar da aparência vitoriosa. Fica apenas na aparência. Quem fica na aparência, vive apenas na superficialidade. Santo Agostino dizia: “Amando a Deus nos tornamos divinos; amando o mundo nos tornamos mundanos (Serm. 121,1)... O amor ao mundo corrompe a alma; o amor ao Criador do mundo a purifica (Serm. 142,3,3).Queres saber que tipo de pessoa és? Põe à prova teu amor. Se amas as coisas terrenas, és terra. Se amas a Deus, não tenhas medo de dizer: és Deus” (Santo Agostinho: In epist. Joan. 2,214).


A verdade está em Deus e por isso, a verdade é eterna e imutável; os meios não são imutáveis nem eternos. A busca da verdade será sempre um exercício de modéstia, pois trata-se de indagar e não de possuir a verdade. O nosso conhecimento nunca é absoluto nem total, mas sempre parcial, pois vemos as coisas apenas do nosso ângulo, mas ainda tem outros ângulos. A verdade é uma só e universal e nunca parcial. Ou é a verdade ou não é verdade.


Deveríamos nos perguntar hoje: em quem cremos; em quem confiamos, quais são as fontes onde buscamos a verdade? Lamentavelmente temos experiência do que é a mentira. Muitas vezes fabricamos fatos inexistentes só para nos aparentar bons. Mentira é aquela distorção do real que gera desconfiança, medo, distancia e confusão. Diante da mentira se situa a Verdade, mencionada na página do evangelho de hoje. A verdade é o próprio Deus (Jo 14,6) e por isso, gera a vida. A verdade é o conhecimento do sentido da vida. A mentira gera a morte. “O que é da terra pertence à terra e fala das coisas da terra”. Mas “Aquele que vem do alto está acima de todos”. Quem é da terra (mundano) pensa a partir do pó, do caduco, do efêmero, a partir dos próprios interesses. Quem é do alto, do céu pensa e fala como filho (filha) de Deus com pensamentos de Deus. A que você pertence: às coisas do alto ou à terra? Mas lembremo-nos aquilo que dizia Santo Agostinho que serve de alerta para nós: “Quando lhe convém, o homem esquece que é cristão” (In ps. 21, 2,5).

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 28 de abril de 2014

 
DEUS NOS AMA

Quarta-Feira da II Semana da Páscoa
30 de Abril de 2014
 

Evangelho: Jo 3,16-21

16Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna. 17De fato, Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele. 18Quem nele crê não é condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito. 19Ora, o julgamento é este: a luz veio ao mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas ações eram más. 20Quem pratica o mal odeia a luz e não se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas. 21Mas quem age conforme a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas ações são realizadas em Deus.
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 Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16). Palavras profundas nas quais o nosso coração deve abismar-se. Deus se dá a Si mesmo. Com Ele nos é dado tudo, pois Ele se dá a Si mesmo. Deus se converte em dom para nós todos. É um dom de tal categoria que o próprio dom nos concede a graça de recebê-lo. Somente na medida em que reconhecermos isso, nós possuiremos aquilo que nos é dado.


Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).


Esta frase é uma síntese bíblica que condensa todo o quarto Evangelho (Evangelho de João). O quarto Evangelho foi escrito para que acreditemos em Jesus, oferta de amor e salvação de Deus para a humanidade, e para que, crendo nele, tenhamos a vida em seu nome (cf. Jo 20,31). E esta oferta tem um motivo e uma finalidade e um meio. O motivo da oferta é o amor apaixonado de Deus pela humanidade: “Deus amou tanto o mundo que entregou o seu Filho único”. E a finalidade desta oferta é a salvação da humanidade: “... para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna”. E o meio para que o amor de Deus chegue até a humanidade é a encarnação de Deus em Jesus Cristo. Jesus é a manifestação tangível do amor do Pai (1Jo 4,9). O objeto da fé em Jo é acreditar em um Deus que nos ama e que este Deus acampou no meio de nós (Jo 1,14).


Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).


No vocabulário do cristianismo primitivo essa maneira de falar está sempre em relação à cruz. É uma reflexão sobre a morte na Cruz de Jesus por amor à humanidade. Nesta entrega do Filho único há uma recordação do sacrifício que outro pai fez também de seu filho único: Abraão (cf. Gn 22,2). Aquele sacrifício não chegou a realizar-se. O cordeiro que substitui Isaac e se sacrifica sem resistência é este Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo (cf. Jo 1,29). O Pai não envia o Filho para a morte e sim para o cumprimento fiel de sua missão de revelar o amor de Deus, Sua misericórdia sobre todos os homens, e a morte de Jesus na cruz é a conseqüência desse amor levado até o fim (cf. Jo 13,1).


Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna” (Jo 3,16).


A partir desta frase sabemos quem é Deus? Muitas definições foram feitas sobre Deus tanto a partir da filosofia como da teologia em geral e outras disciplinas científicas e exatas, mas nenhuma definição mais certa e curta do que a de São João: “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Esta frase é carregada de mistério e de promessa, toda nossa história. É a frase nuclear e radiante. Esta frase, ao meditá-la e vivê-la no dia-a-dia, tem a capacidade de manter a esperança no mundo e tem uma força tremenda para o homem continuar sua luta pela dignidade, pois o amor é a ultima palavra da vida. “O Amor é a nossa origem. O Amor é o chamado constante na vida. O Amor é a plenitude da vida. No entardecer da nossa vida seremos julgados no amor” (Santo Agostinho).


A resposta para o porquê da criação, da encarnação e da redenção é o amor de Deus por todos nós. Toda a atividade de Deus é uma atividade amorosa. Se cria, Ele cria por amor; se governa as coisas, o faz no amor; quando julga, julga com amor. Tudo quanto faz é expressão de sua natureza, e sua natureza é amar. Amar é dar-se a si mesmo. O plano de salvação não tem outro fundamento que o incompreensível amor de Deus por nós todos e por cada um de nós em particular. Por amor anda Deus em nossa busca pelos caminhos do mundo. É um Deus que não tem medo de sacrificar até o próprio Filho para resgatar todos nós, pecadores e perdidos, por amor. O homem nenhum na face da terra sacrificaria seu próprio filho para resgatar os outros. Somente o Deus apaixonado por nós todos.


Deixar de olhar para Deus que se encarna em Jesus será para nós uma perdição eterna e será para nós uma infelicidade sem fim. Levado por seu amor, Deus salta o abismo que nos separava dele e se aproxima de nós para nos dar o que mais quer: seu “único Filho”. Mais ainda, entregou seu único Filho à morte para que todos nós tenhamos vida. E esta vida dada para nós gratuitamente se renova em cada Eucaristia para que sejamos um dom para os outros; para que façamos o bem também para os outros. Jamais um cristão pode fazer o mal ou ser cúmplice do mal.


O melhor comentário para este texto de Jo 3,16 é a primeira carta de São João 4,18-21: “No amor não há temor. Antes, o perfeito amor lança fora o temor, porque o temor envolve castigo, e quem teme não é perfeito no amor. Mas amamos, porque Deus nos amou primeiro. Se alguém disser: Amo a Deus, mas odeia seu irmão, é mentiroso. Porque aquele que não ama seu irmão, a quem vê, é incapaz de amar a Deus, a quem não vê. Temos de Deus este mandamento: o que amar a Deus, ame também a seu irmão”.  Será que amamos realmente a Deus no próximo? (cf. Jo 15,12).


A Paixão e morte de Jesus Cristo é a manifestação suprema do amor de Deus pelos homens. Deus é amor, amor que se difunde e se prodiga; e tudo se resume nesta grande verdade que tudo explica e o ilumina. É necessário ver a história de Jesus sob esta luz. “Ele me amou e sacrificado por mim”, escreveu São Paulo (Gl 2,20). Cada um precisa repetir esta frase a si mesmo. O amor de Deus por nós culmina no sacrifício do Calvário. A entrega de Cristo constitui uma chamada estimulante e apressada para corresponder a esse amor: amor com amor se paga. O homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn 1,27), e Deus é amor (1Jo 4,8.16). Por isso, o coração do homem está feito para amar e quanto mais se ama, mais se identifica com Deus e somente quando ama, o homem pode ser feliz.


Num mundo acostumado ao comércio, ao preço das coisas, é difícil entender a gratuidade, é difícil entender a ação de Deus que quer dialogar, amar com liberdade a todos, oferecendo a oportunidade de salvação, graça e vida. Nós, na nossa vida cotidiana, damos uma parte de nossa vida, enquanto Deus dá tudo para a humanidade. Por isso, quando ele pedir do homem, Deus não pede muito do homem, mas pede tudo do homem.


“Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele”.  Segundo o Evangelho de João, o cristão não tem que ter medo do juízo último, pois o juízo não é algo externo e sim dentro do próprio homem. O cristão sabe que o juízo está nele e depende de sua própria escolha. A partir de Deus tudo é governado por amor. E a partir do homem?
 
P. Vitus Gustama,svd
CRER EM JESUS SIGNIFICA NÃO PARAR DE EXISTIR


Terça-Feira da II Semana da Páscoa
29 de Abril de 2014

Evangelho: Jo 3,7b-15

Naquele tempo, disse Jesus a Nicodemos: 7b“Vós deveis nascer do alto. 8O vento sopra onde quer e tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece a todo aquele que nasceu do Espírito”. 9Nicodemos perguntou: “Como é que isso pode acontecer?” 10Respondeu-lhe Jesus: “Tu és mestre em Israel, mas não sabes estas coisas? 11Em verdade, em verdade, te digo, nós falamos daquilo que sabemos e damos testemunho daquilo que temos visto, mas vós não aceitais o nosso testemunho. 12Se não acreditais, quando vos falo das coisas da terra, como acreditareis se vos falar das coisas do céu? 13E ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem. 14Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, 15para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna”.

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Jo 3, que começamos a ler já no dia anterior (na segunda-feira da II Semana da Páscoa), é um capitulo importante para o evangelho de João porque neste capitulo se narra o primeiro discurso do ministério público de Jesus através do diálogo com Nicodemos, que é um dos membros do Sinédrio (trata-se de um homem público importante).


O texto do evangelho deste dia é a continuação do texto do evangelho do dia anterior que ainda fala do diálogo entre Jesus e Nicodemos. Porém, percebemos através da narração do texto que é muito mais o monólogo de Jesus do que o diálogo com Nicodemos.


Neste monólogo-diálogo Jesus se apresenta como o único capaz de revelar as coisas do Céu: “Se não acreditais, quando vos falo das coisas da terra, como acreditareis se vos falar das coisas do céu? E ninguém subiu ao céu, a não ser aquele que desceu do céu, o Filho do Homem. Jesus veio do Céu, como o Pão da vida (cf. Jo 6,51) e por isso, pode falar seguramente sobre as coisas do céu, pois Ele próprio é o Verbo encarnado (cf. Jo 1,1-3.14). Conseqüentemente é preciso que o homem olhe para Jesus e viva de acordo com Suas palavras que são as Palavras da vida eterna (cf. Jo 6,68) a fim de que o homem tenha vida em seu nome, ou para que o homem seja salvo (cf. Jo 20,30-31). Através de sua afirmação neste monólogo-diálogo Jesus anuncia já que ele será crucificado (será levantado na Cruz) para que todos aqueles que acreditarem em Jesus sejam salvos: “Do mesmo modo como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que o Filho do Homem seja levantado, para que todos os que nele crerem tenham a vida eterna”.


A Linguagem Do Amor Nos Leva Ao Horizonte Infinito


As primeiras frases do texto do evangelho de hoje repetem a afirmação de Jesus no texto do evangelho do dia anterior: “Vós deveis nascer do alto. O vento sopra onde quer e tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece a todo aquele que nasceu do Espírito”, disse Jesus a Nicodemos.


Esta afirmação torna Nicodemos confuso, pois ele não entende essa nova linguagem: “Como é que isso pode acontecer?”. De fato, Nicodemos não possui a linguagem do coração, a linguagem de um amor de horizontes infinitos. O coração sente quilo que os olhos são incapazes de ver. O intelecto desconhece aquilo que o coração conhece. 


Jesus compreende a confusão de Nicodemos, e por isso, Ele recorre a uma comparação: vento. Mas o vento é também misterioso. Em hebraico o termo “vento” (ruah) serve para designar tanto o vento como o espírito. Os efeitos do vento são sentidos, mas o próprio vento não pode ser visto. A força de Deus é sentida por quem acredita em Deus, mas essa força não pode ser vista. A força de Deus tornou muitos cristãos mártires, transforma muitos homens em profetas que acordam o mundo da sua sonolência em maldade.


Na sua resposta Jesus disse a Nicodemos: Tu és mestre em Israel, mas não sabes estas coisas?”.  Toda a ciência de Israel é incapaz de saber o que Jesus revela. Conhecer o Espírito de Deus é impossível ao homem, inclusive ao mais inteligente dos homens. Nicodemos representa todos os mestres da terra. Na vida cotidiana, as pessoas necessitam muito mais das testemunhas do que dos mestres; necessitam do testemunho de vida do que qualquer bela teoria ou belo discurso.


Nicodemos, “mestre de Israel” é convidado a fazer-se pequeno: “nascer de novo”, isto é, tornar-se uma criancinha, um bebê para começar a aprender tudo de novo. Uma criança cresce aprendendo tudo de seus pais. Nicodemos é convidado a largar suas próprias luzes, seus orgulhos ou suas arrogâncias para que o Espírito de Deus possa começar a operar em sua vida. Não há em mim também algo de orgulho de Nicodemos?


Com Jesus E Nele A Vida Continua A Existir: É Preciso Crer Nele


Além disso, outro tema central do diálogo de Jesus com Nicodemos no evangelho de hoje é sobre a fé (“crer”).


Em todo o seu evangelho João não usa o substantivo “fé” (ele usará uma vez apenas na primeira carta em 1Jo 5,4). Em vez disso, ele usa o verbo “crer” pelo menos 98 vezes no seu evangelho. Todo verbo sempre se refere ao dinamismo, à ação. E o verbo “crer” aparece com freqüência, no evangelho de João, precisamente nos lugares privilegiados onde há os seguintes elementos: a manifestação de Jesus e a resposta de fé ou de incredulidade dos ouvintes diante desta manifestação. A importância da fé no quarto Evangelho aparece pelo fato de que ela é o escopo da “obra de Deus”. Para João, a fé já é também a vida eterna. Fé é conhecer o Filho que o Pai enviou, e este conhecer é “vida eterna” (Jo 17,3). E no evangelho de João aquilo que significa crer pode ser dado em várias expressões: “receber Jesus”, “vir a Jesus”, “procurá-lo”, “ouvi-lo”, “guardar a palavra”, “permanecer nele”. Todas essas expressões significam “crer”. E o objeto único da fé em João é Jesus.


Para o evangelho de João crer em Jesus Cristo significa não parar de existir; é viver para sempre: “Quem crê em mim, ainda que morra, viverá” (Jo 11,25). Ao acreditar em Jesus, o homem terá a vida eterna em Seu nome (cf. Jo 20,30-31). A morte é incapaz de acabar com a vida de quem acredita em Jesus. Em Jesus e com Ele a vida continua.


Como podemos traduzir na vida cotidiana a fé em Jesus? A leitura dos Atos dos Apóstolos nos mostra algumas pistas. A fé se expressa na escuta atenta à Palavra de Deus. O povo eleito foi formado não por um decreto e sim pela escuta da Palavra de Deus. Todos que escutam a Palavra de Deus formam uma comunidade de fé. A fé que nasce da escuta atenta à Palavra de Deus se transforma também em missão, pois é preciso que a Palavra de Deus seja proclamada para que todos possam ser salvos. A maioria das tragédias na Bíblia surgiu por causa da falta da escuta atenta à Palavra de Deus. Podemos imaginar a vida de um filho ou filha que não quer escutar nada dos bons conselhos dos seus pais.


Além da escuta atenta à Palavra de Deus, a verdadeira fé deve se traduzir ou se concretizar no amor mútuo e pela defesa da vida no seu início, na sua duração e no seu término na história, pois acreditamos no Deus da vida que ressuscitou Jesus da morte. Amor é o maior sinal de nossa pertença a Jesus Cristo (cf. Jo 13,35).


A fé em Jesus se traduz também na comunhão de vida em torno da Eucaristia. A Eucaristia é o verdadeiro alimento para a Igreja peregrina que nós somos todos. A Eucaristia é a fonte e o ponto mais alto da vida comunitária e cultual. A Eucaristia é “sacramento de piedade, sinal de unidade, vínculo de caridade, banquete pascal em que se recebe Cristo, a alma se enche de graça e nos é concedido o penhor da glória futura” (Sacrosanctum Concilium, 47).


A fé em Jesus nos urge a sermos missionários. Ser missionário é um dos traços mais importantes do ser cristão. Mas para ser missionário de Jesus tem que ser primeiro seu discípulo (cf. Mc 3,13-14). Ser discípulo de Jesus supõe abandonar o modo de viver vivido até então para adotar o estilo de vida de Jesus. Tudo isso implica a conversão. Mas ser discípulo de Jesus é apenas um ponto de partida. Como discípulo, o cristão é enviado para fazer os outros discípulos de Jesus (cf. Mt 28,19). Em outras palavras, o cristão é discípulo para ser missionário. Para ser missionário alguém precisa ser discípulo de Jesus. E a conseqüência de ser discípulo de Jesus é ser Seu missionário. O cristão é discípulo-missionário.

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 26 de abril de 2014

 
DEIXAR-SE GUIAR PELO ESPÍRITO DE DEUS PARA RENOVAR NOSSA VIDA


Segunda-feira da II Semana da Páscoa
28 de Abril de 2014
 

Evangelho: Jo 3,1-8


1Havia um chefe judaico, membro do grupo dos fariseus, chamado Nicodemos, 2que foi ter com Jesus, de noite, e lhe disse: “Rabi, sabemos que vieste como mestre da parte de Deus. De fato, ninguém pode realizar os sinais que tu fazes, a não ser que Deus esteja com ele”. 3Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade, te digo, se alguém não nasce do alto, não pode ver o Reino de Deus”. 4Nicodemos disse: “Como é que alguém pode nascer, se já é velho? Poderá entrar outra vez no ventre de sua mãe?” 5Jesus respondeu: “Em verdade, em verdade, te digo, se alguém não nasce da água e do Espírito, não pode entrar no Reino de Deus. 6Quem nasce da carne é carne; quem nasce do Espírito é espírito 7Não te admires por eu haver dito: Vós deveis nascer do alto. 8O vento sopra onde quer e tu podes ouvir o seu ruído, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim acontece a todo aquele que nasceu do Espírito”.

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A partir do segundo capitulo, o evangelista João se preocupa com os sinais (milagres, segundo os sinóticos) operados por Jesus e a atitude que provoca nas pessoas que os presenciam. Para o primeiro sinal, os discípulos respondem com fé (Jo 2,1-11), mas, diante do Templo, os judeus mostraram sua incredulidade (Jo 2,13-25). João dedica os capítulos 3 e 4 para a analise das reações diversas diante dos sinais messiânicos propostos por Jesus: um judeu: Nicodemos; uma mulher meia-pagã: a samaritana, e um pagão: o centurião.


No texto do evangelho deste dia fala-se do encontro pessoal de Nicodemos com Jesus. Nicodemos era um dirigente judeu muito representativo. Como homem de boa vontade ele ficava impressionado com as palavras e as ações de Jesus ou com os sinais operados por Jesus. E decidiu procurar conversar com Jesus à noite. A noite, aqui, significa a resistência para deixar-se iluminar por Jesus, como Luz do mundo (Jo 8,12) por causa de uma ideologia que se opõe ao amor gratuito de Deus pelo homem. O mundo da lei que Nicodemos representa é o inimigo da vida contida no projeto de Deus. Com sua disposição de conversar com Jesus, Nicodemos se aproxima da luz que é o próprio Jesus. Quanto mais nos aproximarmos de Jesus, mais iluminada ficará nossa vida. Conseqüentemente, seremos reflexos de Deus na convivência com os demais, em vez de ser um peso para os outros e em vez de criar confusão na vida dos outros.


Nicodemos começa a conversa com o seu reconhecimento de que Jesus vem de Deus: “Rabi sabemos que vieste como mestre da parte de Deus. De fato, ninguém pode realizar os sinais que tu fazes a não ser que Deus esteja com ele”. Aquele que olha para aquele que pratica o bem e que se preocupa com o bem do próximo ou de todos só pode ser uma pessoa de Deus. Nicodemos reconhece a bondade de Jesus tanto nas palavras como na ação. “A bondade em palavras cria confiança; a bondade em pensamento cria profundidade; a bondade em dádiva cria amor”, dizia Lao-Tsé. E a bondade em ação cria a comunhão de irmãos. Toda ação feita pelo bem da humanidade, ou pela fraternidade é feita sob o impulso do Espírito de Deus embora aquele que a faz não tenha consciência disso: “Toda árvore boa dá bons frutos; toda árvore má dá maus frutos. Uma árvore boa não pode dar maus frutos; nem uma árvore má, bons frutos”, disse Jesus na conclusão do Sermão da Montanha (Mt 7,17-18). “Os ideais que iluminaram o meu caminho são a bondade, a beleza e a verdade”, dizia Albert Einstein


Diante das palavras de Nicodemos, Jesus afirma: “Em verdade, em verdade te digo: quem não nascer de novo não pode ver o Reino de Deus”. Na Antiguidade, havia a idéia de que, para entrar numa nova religião ou num sistema filosófico, era preciso “renascer”. Ou na linguagem de hoje podemos dizer que é preciso mudar de mentalidade para mudar o modo de viver e de trabalhar. Mas o que Jesus quer enfatizar é o nascimento “do alto” ou de Deus. A expressão “nascer de novo” designa um giro completo da existência que situa o homem em dependência de Deus na fé. Ou na linguagem do evangelista Mateus “tornar-se como criança” (Mt 8,3). Trata-se de fazer-se pequeno diante de Deus, de aceitar o depender de Deus, de não empenhar-se em salvar-se por si mesmo, pois isso é impossível para uma criatura como um ser humano. E aquele que nasce de Deus vive sob o impulso do Espírito Santo para fazer unicamente o bem, e sempre se renova. O poder de Deus é capaz de romper com o passado porque é possível esperar de Deus uma vida nova e uma nova força que ninguém pode segurar.


Por isso, Jesus acrescenta outra afirmação: “O vento sopra para onde quer”. Para o homem antigo o sopro do vento era algo totalmente misterioso. O vento não pode ser segurado, não pode ser colocado num punho e ninguém pode estabelecer sua direção. Jesus usa essa comparação para quem é nascido do Espírito. Aquele que é dominado pelo Espírito de Deus e vive de acordo com seu impulso, não vive sob cálculos humanos, porque sua pessoa e sua existência se fundam em Deus e no Espírito divino. Como dizia Shakespeare: “Sabemos o que somos, mas não o que podemos ser”. Aquele que se deixa conduzir pelo Espírito de Deus terá muitas surpresas de Deus na sua vida. É uma existência que participa do sopro do Espírito e, portanto, de Deus.


Os que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus se renovam permanentemente, como o próprio Espírito que sempre renova a face da terra. Os renovadores no Espírito divino são pessoas otimistas. Eles vivem profundamente no presente com um olhar de confiança para o futuro, pois eles se deixam impulsionar pelo Espírito de Deus.


Mudança, renovação e transformação são o código do mundo avançado, no entanto nem sempre queremos mudar. Quando estamos felizes, desejamos que o relógio pare, e que nada mude: queremos parar o tempo, “imobilizar” o instante fugido. Apenas mudamos quando estamos mal (necessidade) ou quando tememos uma piora. Dizia Platão: “A necessidade é a mãe da inovação”. Mas quem quer avançar profissionalmente ou espiritualmente é preciso adotar o código do mundo avançado: renovação, mudança e transformação. “Quem não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus”.  Criatividade consiste no total rearranjo do que sabemos com o objetivo de descobrir o que não sabemos” (George Kneller). ”O que os empreendedores têm em comum não é determinado tipo de personalidade, mas um compromisso com a prática sistemática da inovação” (Peter Drucker). É necessário inovarmos sempre no Espírito divino para nos motivar e crescer na vida.

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 25 de abril de 2014

 
CRER EM JESUS RESSUSCITADO É DIZER-LHE: MEU SENHOR E MEU DEUS

II DOMINGO DA PÁSCOA


Evangelho: Jo 20,19-31

19Ao anoitecer daquele dia, o primeiro da semana, estando fechadas, por medo dos judeus, as portas do lugar onde os discípulos se encontravam, Jesus entrou e, pondo-se no meio deles, disse: “A paz esteja convosco”.  20Depois dessas palavras, mostrou-lhes as mãos e o lado. Então os discípulos se alegraram por verem o Senhor.  21Novamente, Jesus disse: “A paz esteja convosco. Como o Pai me enviou, também eu vos envio”. 22E, depois de ter dito isso, soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo. 23A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”. 24Tomé, chamado Dídimo, que era um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. 25Os outros discípulos contaram-lhe depois: “Vimos o Senhor!” Mas Tomé disse-lhes: “Se eu não vir a marca dos pregos em suas mãos, se eu não puser o dedo nas marcas dos pregos e não puser a mão no seu lado, não acreditarei”. 26Oiito dias depois, encontravam-se os discípulos novamente reunidos em casa, e Tomé estava com eles. Estando fechadas as portas, Jesus entrou, pôs-se no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”.  27Depois disse a Tomé: “Põe o teu dedo aqui e olha as minhas mãos. Estende a tua mão e coloca-a no meu lado. E não sejas incrédulo, mais fiel”.  28Tomé respondeu: “Meu Senhor e meu Deus!” 29Jesus lhe disse: “Acreditaste, porque me viste? Bem-aventurados os que creram sem terem visto!” 30Jesus realizou muitos outros sinais diante dos discípulos, que não estão escritos neste livro. 31Mas estes foram escritos para que acrediteis que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e, para que, crendo, tenhais a vida em seu nome.

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1.  Jo 20,19-23
              

O relato diz que as portas estão fechadas por medo dos judeus. Um filósofo diz que o homem é por excelência “o ser que tem medo” (Marc Oraison). No mesmo sentido, Sarte escreveu: “Todos os homens têm medo. Todos. Aquele que não tem medo não é normal, isso nada tem a ver com a coragem”. “Sem o medo nenhuma espécie teria sobrevivido” diz G. Delpierre (cf. L’être et la peur). “A necessidade de segurança é, portanto, fundamental; está na base da afetividade e da moral humanas. A insegurança é símbolo de morte e a segurança símbolo da vida. Mas se ultrapassa uma dose suportável, ele se torna patológico e cria bloqueios. Pode-se morrer de medo, ou ao menos ficar paralisado por ele” (Jean Delumeau). “O medo é um inimigo mais perigoso do que todos os outros” (Simenon). O medo constitui uma das maiores ameaças à vida; impede que a vida seja desfrutada e vivida em sua tranqüilidade. O medo impede a criatividade e põe em perigo a esperança. A Bíblia conhece somente um meio pelo qual o coração humano se pode defender do medo: a fé em Deus. Só Deus é a rocha. As outras seguranças desiludem.
    

O motivo do medo não é novo no evangelho de João (cf. Jo 7,13; 9,22; 12,42). Os discípulos experimentaram amplamente o medo dos judeus. Seu Mestre foi executado e eles corriam risco de receber o mesmo castigo. O medo é uma emoção-choque, freqüentemente precedida de surpresa, provocada pela tomada de consciência de um perigo presente e urgente que ameaça.  Normalmente o medo provoca efeitos como: a aceleração dos movimentos do coração ou sua diminuição; uma respiração demasiadamente rápida ou lenta; um comportamento de imobilização ou uma exteriorização violenta etc. Nessa situação, para os discípulos, ter medo era ser realista.
  

Certamente nessa situação Jesus apareceu no meio deles e disse: “A paz esteja convosco”.  A paz, shalom, é a palavra que os judeus usam até hoje como uma saudação comum. A idéia bíblica de paz, shalom, é rica. Significa muito mais do que a cessação de violência e conflito. É o estado para o qual o mundo foi criado. É a melhor descrição de como será o Reino de Deus: um “lugar” de segurança, justiça e verdade; “lugar” de confiança, inclusão e amor; “lugar” de alegria, felicidade e bem-estar. Talvez possamos traduzir shalom para o português com a expressão: “Tudo de bom para você!”
    

O “A paz esteja convosco” de Jesus, aqui neste texto, não é um desejo, e sim uma declaração. Ele vai além de um cumprimento por causa daquilo que Jesus proclamou na última ceia: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. Não vos dou a paz como o mundo  ” (Jo 14,27). A própria presença de Jesus Ressuscitado oferece aos discípulos essa paz maravilhosa, pois essa é, agora, a experiência de Jesus. Seu sofrimento ficou atrás, e ele agora habita na paz de Deus. Jesus ressuscitado vem libertar os seus. Ele é fiel, pois cumpriu aquilo que ele tinha prometido: “Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós” (Jo 14,18). Aquele que se sente desamparado, aquele que está desorientado, aquele que se sente perdido deve escutar e refletir a verdade dessa promessa da presença de Jesus ressuscitado: “Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós”. Seja órfão no sentido literal da palavra, seja aqueles órfãos de sentido, de carinho, de reconhecimento, de amor etc., todos encontrarão o amparo em Jesus Cristo. Procuremos este Amparo para que não sejamos órfãos de tudo.


Não é por acaso que o evangelista João usa esta expressão “pôr-se no meio (centro) deles” (v.19). Isto quer dizer que Jesus deve ser o centro de nossa vida, deve ser o centro da vida da comunidade, pois ele é a fonte da vida, ele é o tronco dos galhos (cf. Jo 15,1-8), ele é o ponto de referência, o fator da unidade (cf. Jo 17,11.21-22). Para que uma comunidade se torne cristã, ela deve estar centrada em Jesus Cristo e somente nele.  Somente quando Jesus se torna centro de uma comunidade, será evitado todo tipo de disputa desnecessária, a não ser somente uma disputa para servir. Sem este centro ficaremos órfãos, desamparados. Além do mais a presença do outro se torna sempre uma ameaça e não mais uma presença de um irmão ou de uma irmã, quando Jesus Cristo não se torna único centro para todos.
   

Os discípulos são convidados a superar o medo e a abrir-se à fé; só assim tornam-se disponíveis para o dom da paz e da alegria, os dois dons que Jesus lhes tinha prometido no seu discurso de despedida (cf. Jo 14,27;16,33). A paz e a alegria são o dom do Cristo Ressuscitado, mas também condição para reconhecê-lo.
   

O que se segue é a missão dos discípulos: “Como o Pai me enviou, também eu vos envio” (v.21). Jesus é o Enviado por excelência (Jo 3,31-34; 5,30;7,17s.28;8,16.28s.42;12,44s;16,28).       A missão provém de Deus, que quer dar a vida ao mundo (Jo 10,10). O envio dos discípulos implica tudo o que visava o ministério confiado a Jesus: glorificar o Pai, fazendo conhecer seu nome e manifestando seu amor (cf. 17,6.26). Do mesmo modo como o Pai esteve presente com Jesus na sua missão, assim os discípulos não estarão nunca sozinhos no cumprimento de sua missão (cf. Mt 28,20).  
    

Aqui a ressurreição está vinculada à missão. Os discípulos são enviados para proclamar a verdade de que não é qualquer vida pode ressuscitar gloriosamente como a de Jesus, e sim somente uma vida que tem como características: vida de doação, de serviço, de perdão, de fidelidade plena a Deus, como foi a vida de Jesus. Somente assim, o cristão possuirá a vida eterna, uma vida ressuscitada. Ser enviado significa ser pessoa que lança as sementes da ressurreição feito de justiça, de amor, de reconciliação e de abertura incondicional a Deus. Se um cristão fizer assim, a vida nova e a ressurreição estão germinando. E ele tem que cuidar bem deste germe para que ele possa chegar à sua plenitude.
   

“Dito isso, soprou sobre eles e disse: ‘Recebei o Espírito Santo” (v.22). O gesto de Jesus reproduz o gesto primordial da criação dos seres humanos por Deus (Gn 2,7). O Criador “insuflou no homem um sopro que faz viver” (Sb 15,11;Ez 37,9). “Soprar” quer dizer dar vida a quem não tem. Isso significa que o ser humano só existe porque é sustentado pelo sopro de Deus. Trata-se agora da nova criação: Jesus glorificado comunica o Espírito que faz renascer o homem(cf. Jo 3,3-8), capacitando-o para partilhar a comunhão divina. O Filho que “tem a vida em si mesmo” dispõe dela a favor dos seus(cf. 5,26.21); e seu sopro é o da vida eterna. 
   

Tanto para João como para Lucas (At 2), o dom do Espírito inaugura o tempo da Igreja. Mas é somente Jo que situa o dom no dia da Páscoa, evidencia o laço imediato com Jesus Ressuscitado e glorificado. Para o evangelista João, a ressurreição e a descida do Espírito Santo acontecem simultaneamente. E Jo mantém claramente a unidade dos dois tempos: Jesus é quem inaugura o tempo do Espírito. Enquanto Lucas que procura uma data simbólica (a festa judaica de Pentecostes celebrava a Aliança de Deus no Sinai) situa o evento depois de um intervalo de cinqüenta dias. O relato lucano de Pentecostes explicita de maneira grandiosa o alcance universal do dom do Espírito.
     

Jesus acrescenta: “A quem perdoardes os pecados eles lhes serão perdoados; a quem os não perdoardes, eles lhes serão retidos”(v.23). Os discípulos representam, em Jo, todos os cristãos futuros: as palavras que Jesus lhes dirige coletivamente visam sempre aos fiéis em geral. Do ponto de vista exegético, não se pode limitar aos “Onze” e aos seus “sucessores” a mediação do perdão divino que o Ressuscitado confia à comunidade dos seus, menos ainda porque esta palavra segue-se imediatamente depois daquela sobre o dom do Espírito Santo.
     

Para Jo o pecado fundamental é a recusa do Logos libertador. E essa recusa se manifesta através do medo e da busca da própria glória (Jo12,42s), da mentira (Jo 8,44), do ódio (Jo 15,18-25), do assassinato do Justo (Jo 7,19;8,40 e cf. 19,11). Estes princípios frustram o projeto criador e levam o homem à sua própria condenação. O pecado é opção que frustra o desígnio divino sobre o homem, privando-o da vida. O pecado cria assim uma situação de morte. O homem que faz a opção pelo pecado condena-se com ela à morte. O pecado é a solidariedade com o mal. Essa solidariedade opõe-se à solidariedade do bem, criada por Jesus. Mas a salvação divina prevaleceu sobre as trevas e alcançou doravante todo ser humano, pela mediação dos discípulos. No contexto joanino, é o próprio Jesus que por meio dos seus discípulos, exerce o ministério do perdão (Jo 14,12.20). A formulação em forma positiva e negativa vem do estilo semítico, que exprime a totalidade por um par de opostos. “Perdoar/manter” significa aqui a totalidade do poder misericordioso transmitido pelo Ressuscitado aos discípulos. A forma passiva “serão perdoados/retidos” referente ao efeito obtido implica que Deus é o autor do perdão. Pode-se dizer que no momento em que a  comunidade perdoa, Deus mesmo perdoa.


2. Jo 20,24-29
  

A segunda unidade fala do episódio com Tomé. É exclusivo de Jo. Tomé foi retratado em Jo 11,16 e 14,5 como uma figura não facilmente persuasível. Ele é um seguidor fino ou sutil, mas é lento em captar o mistério da pessoa de Jesus, pois ele procura provas concretas e claras de fé (Jo 11,16;14,5).
   

O texto nos diz que “Tomé não estava com eles quando Jesus apareceu” (v.14). Ele está ausente da comunidade não só em sentido próprio, mas também no figurado. Com intransigência, ele rejeita o testemunho pascal dos outros discípulos que viram o Senhor. Recusar o testemunho da ressurreição é romper com a comunidade. Por esta recusa Tomé estraga sua própria alegria e ele se torna um isolado e decepcionado. Uma pessoa que se isola não tem como curá-la. As pessoas decepcionadas têm logo a tendência a criticar duramente nos outros aquilo que mais ardentemente desejaram para si mesmas, e que não puderam conseguir. A inveja torna a pessoa amarga. A pessoa se fecha no passado, incapaz de superá-lo. A dificuldade de Tomé é ter permanecido na Paixão quando a Ressurreição mudou tudo. Ele vive nas trevas do passado e recusa o hoje radioso. Por isso, ele se torna um isolado. Uma pessoa isolada não pode ser ajudada. Só ao sair do isolamento é que ela pode ser ajudada.
     

Os discípulos, que viram Jesus ressuscitado em Jo 20,19-23, fazem exatamente o mesmo relato que Maria Madalena fizera a eles: “Vimos o Senhor!” (Jo 20,18.25). Mas Tomé foi inflexível ao recusar-se a acreditar na palavra deles: “Se eu não vir... e puser meu dedo... não acreditarei” (v.25b). Na verdade, outros evangelistas relatam também dúvidas dos discípulos depois da ressurreição (cf. Mt 28,17;Mc 16,11.14;Lc 24,11.41), mas somente o evangelista João dramatiza a dúvida de modo tão pessoal em um só indivíduo. A atitude de Tomé em pedir provas foi condenada por Jesus em Jo 4,48: “Se não virdes sinais e prodígios, não crereis”. O Jesus de João não rejeita a possibilidade de que sinais (milagres) e prodígios levem o povo à fé, mas rejeita sinais (milagres) que exijam o cumprimento absoluto de condições. Neste relato Tomé é apresentado como um discípulo pré-pascal, pois ele exige o aspecto miraculoso da aparição de Jesus (Jo 4,48). Como Natanael, Tomé rejeitou a fé dos outros discípulos que tinham “visto o Senhor” (v.25;1,45-46).


Como Tomé, não é fácil deixar que Cristo nos penetre com seu peculiar estilo de entender a vida; não é fácil passar por cima da atração do poder; não é fácil traduzir na prática o que dizemos crer. Não é fácil traduzir na vida aquilo que Jesus nos diz que veio “não para ser servido, mas para servir”. Não é simples plasmar na pratica as grandes lições da generosidade e do desprendimento enquanto temos tentação de agarrar tudo para nossa vida. Não é fácil buscar primeiro o Reino de Deus e sua justiça desprezando, por esse reino, a realidade imediata e circundante que, em muitas ocasiões, se apresenta esplendorosa.
   

Apesar da decepção e dúvida que Tomé tem, no seu coração ainda sobrevive o sentimento ou o desejo de ver o Senhor. Embora, para ele, voltar ao grupo signifique curvar a cabeça. Mas justamente no lugar de cura é que alguém tem coragem de mostrar as feridas. Diante de um médico é que uma pessoa tem coragem de falar das doenças.   
     

Nesse encontro quem toma a iniciativa é Jesus. Depois de saudá-los, Jesus logo convida Tomé a colocar dedo nas suas feridas dos pregos. Nessa altura, na sua experiência pessoal com Jesus, Tomé somente é capaz de dizer: “Meu Senhor e meu Deus” (v.28). ”Senhor” e “Deus” (Yahweh Elohim) são nomes para Deus no AT (Sl 35,23). Isto quer dizer que a fé pascal de Tomé reconhece Deus em Jesus ressuscitado. Na verdade, o evangelista já reconhece a divindade de Jesus desde o prólogo do seu evangelho: “No princípio era o Verbo... e o Verbo era Deus...E o Verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1,1.14). A resposta de Tomé em sua profissão de fé chama de volta as palavras de Jesus para si próprio e para Filipe: “Se me conheceis, também conhecereis meu Pai...Quem me vê, vê o Pai” (Jo 14,7.9).  Como Natanael, o seu firme cepticismo se transforma numa suprema profissão de fé depois que ele teve uma experiência pessoal com Jesus (v.28; 1,45-49). A profissão de fé: “Meu Senhor e meu Deus” é a maior profissão de fé no Evangelho de João. A resposta de Tomé é tão extremada como sua incredulidade. Ao chamá-lo “meu Senhor”, Tomé reconhece o amor de Jesus e o aceita, expressando ao mesmo tempo sua total adesão. Tomé reconhece em Jesus o acabamento do projeto divino sobre o homem e o toma como modelo para si (meu Senhor e meu Deus) e reconhece em Jesus o servo glorificado em pé da igualdade com o Pai (Deus).
      

Esta confissão de fé no fim do Evangelho de João faz um elo com o prólogo (Jo 1,1). A ironia final do Evangelho é que o discípulo que mais duvidou faz a mais alta da profissão de fé e diz a expressão da mais alta avaliação de Jesus, proferida em qualquer Evangelho: “Meu Senhor e meu Deus”. No prólogo o evangelista afirma que a Palavra era Deus (Jo 1,1). Agora, por uma inclusão, ele mostrou como foi difícil para os seguidores de Jesus chegarem à tal visão. Tomé tem sido lembrado como o homem que duvida por excelência; todavia, as últimas palavras de Jesus para ele, em resposta à sua profissão de fé, constituem um invejável elogio: “Tu acreditaste” (v.29a).


O “credo” de São Tomé é tão breve como tão sincero e espontâneo: “Meu Senhor e meu Deus”. A oração tão viva como esta somente pode ser pronunciada de joelhos e com emoção. Os que creem em Jesus Cristo de todos os séculos sempre agradecem a São Tomé por este feliz e deslumbrante ato de fé: “Meu Senhor e meu Deus”.
 

Tomé acreditou quando foi desafiado pelo Mestre a realizar seu projeto de investigação para acabar com a incredulidade. O louvor final para a fé, no entanto, é estendido por Jesus àqueles que tinham acreditado sem ver a presença corporal: “Felizes os que, sem terem visto, creram!” (v.29b). Esta é a única bem-aventurança explícita no Evangelho de João. Ela privilegia os que crêem sem ter visto. Por isso, esta bem-aventurança está ao alcance de todos. No evangelho de João, nenhum maior louvor pode ser dado a Jesus do que a frase “Meu Senhor e meu Deus”; e nenhum maior louvor pode ser dado aos seguidores de Jesus do que a frase “Felizes os que, sem terem visto, creram!”. Através desta fé, a profecia de Oséias 2,25 é cumprida: “Um povo que antigamente não era um povo disse: ‘O Senhor é meu Deus’”. O próprio evangelista João afirma que através daquela fé, os seguidores de Jesus “têm a vida em seu nome” como escreveu na conclusão do seu evangelho (Jo 20,31).


A fé em Jesus vivo e ressuscitado consiste em reconhecer Sua presença na comunidade dos crentes, que é o lugar natural onde se manifesta e onde irradia Seu amor. Tomé representa a figura daquele que não faz caso do testemunho da comunidade nem percebe os sinais da nova vida que nela se manifestam. No lugar de integrar-se e de participar da mesma experiência, pretende obter uma demonstração particular. Não quer aceitar que Jesus vive realmente e que o sinal tangível dele é a comunidade transformada na qual agora se encontra. A comunidade transformada é agora importante: ela é o meio que as gerações posteriores terão para saber que Jesus vive realmente.


Bem-Aventurados os que creram sem terem visto”. Esta é a bem-aventurança do Ressuscitado. Crer, segundo o evangelho deste dia, é renunciar a ver com os olhos, a tocar com as mãos, a colocar dedo nas feridas do Crucificado para identificar o Ressuscitado. Crer é buscar e encontrar o Senhor, nosso Deus, na assembléia dos que crêem que Jesus é o Messias, dos que encontram nos sacramentos a vida que brotou da Cruz. Não conhecemos Jesus segundo a carne, não buscamos visões ou fatos extraordinários onde apoiar nossa fé. A felicidade que nos salva agora é a presença vivificante do Senhor que nos reúne pelo Espírito na Igreja onde não cessa de proclamar o evangelho e de partilhar o pão eucarístico. Cada domingo, cada dia somos felizes por este encontro com o Senhor.


A ressurreição, em tanto que é a verdade de fé, não é verificável fisicamente, vendo ou tocando: as verdades de fé são de outra ordem. Isto é entendido facilmente se pensamos que há muitas situações humanas nas quais o físico é insuficiente, como por exemplo, no amor. Crer não é saber menos ou com menos força. Crer é saber mais e mais profundamente. E ter fé implica compartilhar o que somos e temos “segundo a necessidade de cada um” conforme o Livro dos Atos dos Apóstolos (At 2,45), pois a fé cristã não consiste em afirmar verdades abstratas,e sim é ter vida e a vida supõe circulação de bens como enfatiza Atos dos Apóstolos. Somente a partir desta atitude é que podemos nos chamar de cristãos.
    

Na verdade, não precisamos mais de outros sinais ou aparições. É basta abrir o Evangelho para descobrir o sentido profundo da Palavra de Deus e crer em Jesus para ter a vida em abundância (Jo 20,31), pois Jesus é a maior revelação do Pai. Crendo, começaremos ver o mundo com olhos diferentes, começaremos a perceber sentido na proposta de Jesus. A fé produz um modo novo de ver, traz uma nova escala de valores. A carta de São João diz que a vitória que vence o mundo é a fé (1Jo 5,4). Essa fé é que dá força para viver a partilha, mesmo quando a sociedade vive de acumular e explorar o próximo. Não se pode viver em paz enquanto outros sofrem e têm carência do essencial. Não sobra espaço onde cada um só pensa em si. Crer em Jesus é apostar a vida naquilo que ele propôs, mesmo quando não vemos logo um resultado. Ele nos diz que seremos felizes se acreditarmos nele. Mas também nos convida a levar a outros essa capacidade de crer e viver o evangelho.

P. Vitus Gustama,svd