sábado, 31 de maio de 2014

 
VENCEREMOS O MUNDO  ESTANDO COM JESUS

Segunda-Feira da VII Semana da Páscoa
02 de Junho de 2014
 

Evangelho: Jo 16,29-33

Naquele tempo, 29os discípulos disseram a Jesus: “Eis, agora falas claramente e não usas mais figuras. 30 Agora sabemos que conheces tudo e que não precisas que alguém te interrogue. Por isto cremos que vieste da parte de Deus”. 31 Jesus respondeu: “Credes agora? 32 Eis que vem a hora – e já chegou – em que vos dispersareis, cada um para seu lado, e me deixareis só. Mas eu não estou só; o Pai está comigo. 33Disse-vos estas coisas para que tenhais paz em mim. No mundo, tereis tribulações. Mas tende coragem! Eu venci o mundo!”
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O texto do evangelho se encontra no conjunto do discurso de despedida de Jesus dos seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17). A vida em si é formada de despedidas diárias. A despedida da noite para saudar o novo dia. A despedida de uma hora para a entrada de nova hora que está se despedindo também. A passagem de um dia para a entrada de novo dia que está terminando. A despedida de quem parte e a saudação de quem chega ou nasce. O choro de tristeza sobre quem partiu, e o choro de alegria pela chegada de quem acabou de nascer. A vida na história tudo passa. Estamos sempre em despedidas ou em partidas. Charles Chaplin dizia:A vida me ensinou a dizer adeus às pessoas que amo, sem tirá-las do meu coração”.


Geralmente quem estiver para partir temporariamente ou permanentemente sempre dá alguns conselhos, recomendações, alertas, forças para lutar pelo bem, pela comunhão, pela dignidade e assim por diante. Jesus também, ao ter consciência de sua partida iminente (morte), dá alguns conselhos aos seus discípulos para que eles possam continuar sua obra neste mundo. Jesus sabe que até para fazer o bem os discípulos terão que enfrentar as tribulações e todo tipo de dificuldades. Mas não há melhor exercício para ter e fortalecer o bom coração do que estender o braço para baixo e erguer as pessoas. A bondade é o único investimento que nunca falha.


“Eis, agora falas claramente e não usas mais figuras. 30 Agora sabemos que conheces tudo e que não precisas que alguém te interrogue. Por isto cremos que vieste da parte de Deus”, disseram os discípulos a Jesus.


Com esta afirmação os discípulos perceberam que Jesus é aquele que sabe de Deus e O conhece e sabe da felicidade e da miséria dos homens e por isso, ele foi enviado para o mundo pelo Pai para salvá-lo por amor (Jo 3,16). O conhecimento de Deus e o conhecimento dos homens estão intimamente ligados entre si. Diante deste conhecimento revelador de Jesus, todas as perguntas dos discípulos se tornam supérfluos: “Agora sabemos que conheces tudo e que não precisas que alguém te interrogue. Por isto cremos que vieste da parte de Deus”. A clareza da revelação de Jesus é de tal ordem que responde às derradeiras perguntas do homem sobre Deus e sobre o próprio homem. Quem se aproximar desta revelação, quem se aproximar de Jesus e permanecer com Ele, todas as suas perguntas encontrarão suas respostas (cf. Jo 1,45; 4,29-30). A fé estabelece nosso relacionamento com Jesus e possibilita nosso conhecimento sobre Deus e o homem. O conhecimento de Deus e o conhecimento dos homens estão intimamente ligados entre si. Quem está em profunda comunhão com Deus, está também tão próximo dos homens para ajudá-los. Quem encontra Deus acaba encontrando os homens objeto do amor salvador de Deus.


“No mundo, tereis tribulações. Mas tende coragem! Eu venci o mundo!”.


“Estar no mundo” e o “medo” estão entrelaçados. O medo é a marca fundamental do “estar no mundo” no contexto do evangelho de hoje. O medo aqui é o medo da morte. O medo que o homem tem é o medo da morte diante do nada que jamais pode ser descartado, pois o poder da morte está sempre presente na vida.


Mas, de outro lado, Jesus afirma: “Mas tende coragem! Eu venci o mundo” (Jo 16,33b). Esta afirmação só é possível porque Jesus é o ressuscitado que venceu a morte. A ressurreição é a morte da própria morte. A vitória de Jesus sobre o mundo é a vitória sobre o poder da morte que impera no mundo. Esta vitória de Jesus sobre o mundo deve assegurar os discípulos o dom da paz no meio das lutas da evangelização e dos sofrimentos da perseguição. O cristão sabe que nenhum poder sobre a terra é absoluto. Não o foram os grandes impérios que se sucederam sem interrupção ao longo da história, não o serão tampouco os poderes atuais do mercado, da eficiência, do dinheiro, da técnica da globalização informática, tecnológica e econômica. Todos os poderes deste mundo estão submetidos ao poder de Deus, pois todos não passam a ser simples criaturas. Jamais podemos colocar o ouro e a prata acima do Criador.


São João traduzirá estas palavras de Jesus na sua Primeira Carta da seguinte forma: “Esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (1Jo 5,4b). A fé em Jesus já é uma participação da vitória de Jesus. Como Ressuscitado, Jesus é o Doador e o Distribuidor escatológico da vida. Ter fé significa estar com Deus e participar de sua vida. A fé liberta o homem da morte para a vida. Deus está sempre do nosso lado e por isso, podemos ter serenidade em tudo. Uma certeza nos acompanha: Cristo venceu o mundo. Se Cristo venceu o mundo, venceremos também com ele. A ultima palavra não é a fraqueza do homem, não é a prepotência do homem e sim a fidelidade do Senhor para conosco. No Senhor todos os nossos gritos, todos os nossos porquês, todas as nossas perguntas e interrogações serão acolhidos e colocados em outras perspectivas. A certeza de Deus vai ao nosso encontro sempre e em toda parte. Por isso, o autor da Carta aos Hebreus escreveu: “A fé é um modo de já possuir aquilo que se espera, é um meio de conhecer realidades que não se vêem. Foi por causa da fé que os antigos foram aprovados por Deus. Pela fé, sabemos que a Palavra de Deus formou os mundos; foi assim que aquilo que vemos se originou de coisas invisíveis” (Hb 11,1-3).  A fé é como uma luz ou uma lanterna. A luz ou a lanterna não é acesa para ser olhada e sim para alguém ver o que ela ilumina.


No mundo tereis tribulações. Mas tende coragem! Eu venci o mundo” é a mensagem do Senhor para você hoje. Acredite nesta Palavra, pois é a Palavra de quem criou o universo e de quem venceu a morte: “Tudo foi feito por Ele, e sem Ele nada foi feito. N’Ele havia vida, e a vida era a luz dos homens. ... Era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem” (Jo 1,3-4.9).


Sobre a importância da fé, Santo Agostinho dizia: Deus, de Quem separar-se é morrer, a Quem retornar é ressuscitar, com Quem habitar é viver. Deus de Quem fugir é cair, a Quem voltar é levantar-se, em Quem apoiar-se é estar seguro. Deus, a Quem esquecer é morrer, a Quem buscar é viver, a Quem ver é possuir. Deus, a Quem a fé nos impele, a esperança nos aproxima e a caridade nos une” (Solil. 1,1,3). “Deus não se torna maior pelo conhecimento de quem O encontra, mas quem O encontra torna-se maior por ter conhecido a Deus” (Serm. 117,2,3).

P. Vitus Gustama,svd
 
ASCENSÃO DO SENHOR

 ANO “A”
Domingo, 01 de Junho d 2014

 
Primeira Leitura: At 1,1-11


 
1No meu primeiro livro, ó Teófilo, já tratei de tudo o que Jesus fez e ensinou, desde o começo, 2até o dia em que foi levado para o céu, depois de ter dado instruções pelo Espírito Santo, aos apóstolos que tinha escolhido. 3Foi a eles que Jesus se mostrou vivo, depois de sua paixão, com numerosas provas. Durante quarenta dias, apareceu-lhes falando do Reino de Deus. 4Durante uma refeição, deu-lhes esta ordem: “Não vos afasteis de Jerusalém, mas esperai a realização da promessa do Pai, da qual vós me ouvistes falar: 5‘João batizou com água; vós, porém, sereis batizados com o Espírito Santo, dentro de poucos dias’”. 6Então os que estavam reunidos perguntaram a Jesus: “Senhor, é agora que vais restaurar o Reino de Israel?” 7Jesus respondeu: “Não vos cabe saber os tempos e os momentos que o Pai determinou com a sua própria autoridade. 8Mas recebereis o poder do Espírito Santo que descerá sobre vós, para serdes minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e na Samaria, e até os confins da terra”. 9Depois de dizer isso, Jesus foi levado ao céu, à vista deles. Uma nuvem o encobriu, de forma que seus olhos não podiam mais vê-lo. 10Os apóstolos continuavam olhando para o céu, enquanto Jesus subia. Apareceram então dois homens vestidos de branco, 11que lhes disseram: “Homens da Galileia, por que ficais aqui parados, olhando para o céu? Esse Jesus que vos foi levado para o céu virá do mesmo modo como o vistes partir para o céu”.

 
 
Responsório (Sl 46)

— Por entre aclamações Deus se elevou,/ o Senhor subiu ao toque da trombeta.


— Povos todos do universo, batei palmas,/ gritai a Deus aclamações de alegria!/ Porque sublime é o Senhor, o Deus Altíssimo,/ o soberano que domina toda a terra.
— Por entre aclamações Deus se elevou,/ o Senhor subiu ao toque da trombeta./ Salmodiai ao nosso Deus ao som da harpa,/ salmodiai ao som da harpa ao nosso Rei!
— Porque Deus é o grande Rei de toda a terra,/ ao som da harpa acompanhai os seus louvores!/ Deus reina sobre todas as nações,/ está sentado no seu trono glorioso.

 
 
Segunda Leitura: Ef 1,17-23



Irmãos: 17O Deus de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai a quem pertence a glória, vos dê um espírito de sabedoria que vo-lo revele e faça verdadeiramente conhecer. 18Que ele abra o vosso coração à sua luz, para que saibais qual a esperança que o seu chamamento vos dá, qual a riqueza da glória que está na vossa herança com os santos, 19e que imenso poder ele exerceu em favor de nós que cremos, de acordo com a sua ação e força onipotente. 20Ele manifestou sua força em Cristo, quando o ressuscitou dos mortos e o fez sentar-se à sua direita nos céus, 21bem acima de toda a autoridade, poder, potência, soberania, ou qualquer título que se possa mencionar, não somente neste mundo, mas ainda no mundo futuro. 22Sim, ele pôs tudo sob seus pés e fez dele, que está acima de tudo, a Cabeça da Igreja, 23que é o seu corpo, a plenitude daquele que possui a plenitude universal.
 

 
Evangelho: Mt 28,16-20
 
Naquele tempo, 16os onze discípulos foram para a Galileia, ao monte que Jesus lhes tinha indicado. 17Quando viram Jesus, prostraram-se diante dele. Ainda assim alguns duvidaram. 18Então Jesus aproximou-se e falou: “Toda a autoridade me foi dada no céu e sobre a terra. 19Portanto, ide e fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, 20e ensinando-os a observar tudo o que vos ordenei! Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo”.


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Celebramos neste domingo a solenidade da Ascensão do Senhor ao céu. A ascensão significa que Cristo alcançou a plenitude no poder e glória junto ao Pai. Este é o significado da expressão “subir ao céu”. Por isso, a ascensão não é separação e abandono dos homens. O Senhor está vivo e vive entre nós (cf. Mt 28,20). Cristo se encontra na oração e na ação, nos sacramentos e nos irmãos, no amor e na bondade e em todos os lugares nos quais sua graça opera, liberta e une. Por isso, o homem pode viver na presença de Deus e ter experiência celeste durante sua passagem na terra.   


A ascensão de Jesus nos garante, antes de mais nada, que uma vida vivida na fidelidade aos projetos do Pai, vivida no amor fraterno é uma vida destinada à glorificação, à comunhão definitiva com Deus. Quem percorre o mesmo “caminho” de Jesus subirá como Ele, à vida plena. No final de um caminho percorrido na doação, na entrega, no amor vivido até às últimas conseqüências, está a vida definitiva, está o céu, está a vida de comunhão com Deus. Esta esperança nos permite enfrentarmos o medo, os nossos limites humanos, o fanatismo, o egoísmo dos fazedores de pecado e nos permite olharmos com serenidade para o futuro de vida plena que é o nosso destino final.


Em outras palavras, na Ascensão encontramos a chave do sentido da vida e da dignidade do homem chamado a participar da glória de Cristo vivendo o amor fraterno na convivência com os demais. Portanto, o evangelho é uma mensagem para o homem de hoje, tão necessitado de encontrar o sentido de sua vida e de uns valores que configurem sua existência com Cristo glorificado. A verdadeira glória está na vivencia dos valores e não na acumulação dos bens materiais.


Paradoxalmente, ascenderemos melhor quando descermos mais; seremos cidadãos do céu quando na terra caminharmos comprometidos nas exigências do Evangelho. Nós nos tornaremos divinos, quando formos mais humanos e mais irmãos com os demais.


Vamos olhar para alguns detalhes do relato do evangelho deste domingo.


1. O encontro na Galileia (v.16a )
   

A Galileia (a “Galileia dos pagãos” segundo Mt 4,15) é a terra onde Jesus começou seu ministério e chamou seus primeiros discípulos (Mt 4,18-22). No começo da Paixão Jesus prometeu que depois de sua ressurreição, ele iria preceder os discípulos para a Galileia (Mt 26,32). A direção da Galileia foi repetida no sepulcro tanto pelo anjo do Senhor como por Jesus ressuscitado (Mt 28,7-10), com a promessa adicional de que lá os discípulos(que agora se tornam seus “irmãos” cf. Mt 12,50) o veriam. A partir de agora a “Galileia dos pagãos” se torna um lugar que tem um sentido salvífico, pois a Galileia vai se tornar como o ponto de partida para a missão universal. Este detalhe já indica a universalidade da mensagem do Evangelho de Mateus.


A palavra “Galileia” é a palavra que recorda a tarefa de evangelizar. Na Galileia Jesus começou seu ministério entre os pagãos e meio pagãos. A palavra “Galileia” nos relembra que somos missionários do Senhor. Jesus promete nos encontrar no lugar ou numa situação em que exige uma ação evangelizadora. É preciso que saibamos nossas “Galileias”, isto é, as áreas em que devemos atuar como cristãos- missionários. É preciso que saibamos onde as “Galileias”, pois o Senhor quer nos encontrar lá.


2. O encontro numa montanha (v.16b)
     

O encontro acontece numa montanha. Mateus não pensa em uma específica montanha geográfica, mas indica a revelação divina (teofania), a esfera divina. O monte é o lugar e símbolo do encontro de céu e terra, da ascensão humana e da teofania. Em quase todas as culturas a montanha representa uma ligação entre a terra e o céu. A ligação entre o céu e a terra é concebida simbolicamente, à semelhança de uma escada (p. ex. São João da Cruz, Subida ao monte Carmelo), como possibilidade da ascensão espiritual e o desenvolvimento superior a ser penosamente conquistado.
    

Em relação a Jesus, numa “montanha” aconteceram coisas importantes: Jesus se sentou na montanha quando fez aos discípulos o Sermão da Montanha (Mt 5,1). Na montanha Jesus se transfigurou diante de Pedro, Tiago e João (Mt 17,1), na montanha Jesus reza (Mt 14,23 cf. também Mt 8,1;15,29). Assim como no monte Sinai ou Horeb, Moisés encontrou Deus e dele recebeu a Lei, do mesmo modo em uma montanha, durante o ministério, os discípulos tinham visto a glória de Deus em Jesus transfigurado, dele recebendo uma interpretação da Lei: “Vós ouvistes dizer, mas agora eu vos digo” (Mt 5,21-22.27-28.31-32.33-34.38-39.43-44). Quando se trata de coisas importantes na vida de Jesus, Mt coloca Jesus sobre a montanha. Ao dizer que “os Onze foram ao monte” Mt quer nos dizer que a missão dos Apóstolos enviados para o mundo inteiro é um acontecimento de extrema importância. Os discípulos são convocados não para reconhecê-lo, mas para escutar sua revelação definitiva (pelo fato de ocorrer no monte).


O ser humano só poderá entender o que está acontecendo na humanidade, qual significado dos acontecimentos, se ele aprender a criar seus momentos de montanha, isto é, os momentos do encontro com Deus na oração, na participação dos sacramentos e na prática do amor fraterno. Ao chegar no topo de uma montanha, o homem terá uma visão maior. A vivência dos valores possibilita o homem a entender a vida e seus acontecimentos. A vivencia dos valores faz o homem “subir” até Deus; faz o homem experimentar a verdadeira ascensão.


Todos nós necessitamos ascender, subir e superar nossos níveis baixos de inércia humana e espiritual. Necessitamos de perspectivas de altura para ver com mais verdade e com justa proporção. É urgente ascender ou subir na fé, na esperança e no amor para experimentarmos o que Jesus experimentou: subiu ao céu


3. Adoração (v.17)
  

A adoração (proskynesis, proskynein, adorar) é, no NT, palavra predileta de Mateus e do Apocalipse. Além de se encontrar três vezes em Mt 2,2.8.11 (sobre os magos), reaparece o mesmo termo outras dez vezes: na tentação (Mt 4,9.10);uma no contexto parabólico (Mt18,26) descrevendo a prostração do servo (pecador) diante do rei (Deus, Pai e Juiz) e outras sete descrevem uma instantânea: a adoração do enfermo ou aflito/sofredor(Mt 8,2;9,18;15,25) e a do discípulo (Mt 14,33;20,20;28,9.17) em atitude de “proskynesis” (prostrar-se/adorar) diante de Jesus.
   

Nesse encontro os discípulos reconheceram Cristo imediatamente e prostraram-se diante de Jesus para adorá-lo, demonstrando sua fé nele como Filho de Deus. Anteriormente eles já o tinham feito uma vez quando Jesus caminhava sobre as águas e professaram sua fé em Jesus como Filho de Deus (Mt 14,33).


A palavra “adoração”, de origem extrabíblica, indica o gesto de submissão dos discípulos que se dispõem a escutar as ordens do Ressuscitado. Ao nascer Jesus foi adorado pelos magos (Mt 2,11), no ministério público ele foi adorado pelos próprios discípulos e enfermos, e na ascensão Jesus recebeu a mesma adoração dos discípulos (Mt 28,17). Para a teologia de Mateus, o Senhor da Glória já estava na humanidade de Belém e no ministério público. Ao prostrarem-se diante de Jesus, agora eles o adoram não somente como o Senhor dos elementos, mas também o Senhor deles e o Senhor do mundo (A adoração presta-se somente a uma divindade). Jesus, a quem se adora, é “Senhor” que tem poder sobre a lepra (Mt 8,2ss), o demônio (Mt 15,22ss), a morte (Mt 9,18ss), a natureza(Mt 14,25ss), o universo(Mt 28,18ss).


Necessitamos adorar ao Senhor para não adorarmos nenhum ídolo ou nenhuma coisa neste mundo. Quem adora a Deus sabe colocar as coisas nos seus justos valores e perspectivas. Mas aquele que adora as coisas, ele se torna coisa entre as coisas.


4. O Poder de Jesus Sobre o Céu e a Terra
                 

Jesus recebeu todo o poder no céu e sobre a terra. Ao falar do poder de Jesus que ele recebeu, devemos estar conscientes de que a verdadeira natureza do poder de Cristo, não é um exercício de dominação sobre os homens, mas como uma capacidade operativa de proclamar as exigências da vontade de Deus, de libertar os pecadores da escravidão do seu passado de culpa, de romper os grilhões dos prisioneiros das forças diabólicas da morte e da destruição, de denunciar as religiões feitas de hipocrisia e de interesse. Em outras palavras, é um poder de realizar o Reino de Deus no mundo.
   

Existe um poder que destrói e existe também um poder que cria. O poder que cria dá vida, gozo e paz. É liberdade e não escravidão, vida e não morte, transformação e não coerção. O poder que cria restaura relacionamentos e concede dom da integridade a todos. O poder que cria é o poder que procede de Deus cuja marca é o amor. E o amor exige que o poder seja usado para o bem de todos. Em Cristo, o poder é usado para destruir o mal de forma que o amor possa redimir o bem. O poder que cria produz união. Para criar essa união é preciso ouvir juntos à voz do Senhor em nossos lares, em nossas igrejas,  em nossos negócios, em nossas comunidades, em nossos encontros etc..
   

Ao contrário disso, nada é mais perigoso do que o poder a serviço da arrogância. A arrogância nos faz pensar que estamos certos e os outros estão errados. O único que está certo é Jesus Cristo. O restante de nós precisa reconhecer suas próprias fraquezas e fragilidades e buscar aprender através da correção dos outros. Se não o fizermos, o poder pode conduzir pelo caminho de destruição. O poder destrutivo destrói relacionamentos, a confiança, o diálogo e a integridade.


5. A ordem de missão


A ordem de missão dada aos Onze é significativa, pois a missão se amplia: fazer discípulos todos os povos. No começo Jesus falou somente aos judeus (Mt 15,24) e os discípulos foram enviados somente para o povo de Israel (Mt 10,5-6). Agora o Jesus ressuscitado, com pleno poder escatológico (“toda a autoridade”), envia-os a todas as nações. Israel não está excluída (Mt 23,34); mas o progresso destas duas ordens, uma durante o ministério e outra depois da ressurreição, incorpora a experiência da cristandade em Mateus. No começo do Evangelho, Mt assinala a grande extensão desse plano ao escrever sobre os magos pagãos vindos a Jerusalém (cumprimento de um sonho do AT em Is 2,2-4). Agora fica claro que os discípulos não podem simplesmente esperar que os pagãos venham a ele, mas eles precisam ir até os pagãos.


A missão dada aos discípulos é expressa através de um verbo principal no imperativo (fazer discípulos/mathêteusate) e dois verbos no particípio (batizando...ensinando).
      

Para Mt “fazer discípulos” é um processo educativo. Fazer discípulos é ajudar as pessoas a aprenderem as coisas que Jesus lhes ensinou. Na missão universal, os discípulos tornam-se claramente mestres. Como Jesus antes deles, eles agora vão “fazer discípulos”. Ser cristão é ser discípulo de Jesus. E ser verdadeiro discípulo para Mt eqüivale a pertencer à família de Jesus (Mt 12,49-50). Neste sentido, fazer discípulo é fazer comunidade cristã, fazer Igreja. Para ser salvo, é preciso pôr-se no seguimento de Cristo, entrar em relação com a sua pessoa. Não existe outra possibilidade.
  

Mas não se trata de uma relação individual. Os homens são chamados a fazer parte da comunidade dos seus discípulos. Isto é indicado claramente pelas duas instruções: batizar e ensinar tudo o que Jesus mandou. “Batizando” e ”ensinando” marcam as duas atividades fundamentais no exercício da missão de “fazer discípulos”.
  

O batismo é realizado “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”. “Em nome” sugere uma dedicação e compromisso, uma consagração. Entre os hebreus, o nome designa a realidade profunda do ser, incluindo a pessoa e sua respectiva dignidade. Em Seu nome (poder) começou a Igreja, e nele ela vive hoje ainda, pois onde “o nome de Deus é pronunciado sobre nós, ele mesmo está no nosso meio” (cf. Jr 14,9).


A Igreja não foi nem será deixada sozinha no seu longo e cansativo caminho histórico: “Eis que estarei convosco todos os dias, até o fim do mundo” (Mt 28,20). Jesus a acompanha, sustenta, encoraja, e purifica. Ele continua presente entre nós, onde dois ou mais se reúnem em seu nome (Mt 18,20), pela fé, pela palavra proclamada, pelos sacramentos etc. A partir dessa promessa, cada cristão não é mais solitário, mas solidário, pois Deus está sempre com ele e ele está sempre com Deus. O cristão é, ao mesmo tempo, chamado a ser solidário com os outros, a sair do isolamento, pois Deus chama cada cristão a viver numa solidariedade, numa comunidade.
 
P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 30 de maio de 2014


 
VERDADEIRA ORAÇÃO NOS APROXAIMA DE DEUS E NOS TORNA ALEGRES


Sábado da VI Semana da Páscoa
31 de Maio de 2014
 

Evangelho: Jo 16, 23-28

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 23b“Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vo-la dará. 24 Até agora nada pedistes em meu nome; pedi, e recebereis; para que a vossa alegria seja completa. 25 Disse-vos estas coisas em linguagem figurativa. Vem a hora em que não vos falarei mais em figuras, mas claramente vos falarei do Pai. 26Naquele dia pedireis em meu nome, e não vos digo que vou pedir ao Pai por vós, 27pois o próprio Pai vos ama, porque vós me amastes e acreditastes que eu vim da parte de Deus. 28Eu saí do Pai e vim ao mundo; e novamente parto do mundo e vou para o Pai”.
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Continuamos a acompanhar o discurso de despedida de Jesus de seus discípulos segundo o quarto Evangelho/Evangelho de João (Jo 13-17).


O texto do evangelho de hoje começa com a seguinte expressão: “Em verdade, em verdade vos digo...”. Toda vez que Jesus quer falar algo importante, ele usa essa fórmula solene. Hoje ele fala sobre a importância de fazer a oração com fé, isto é, fazê-la em nome de Jesus: “Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vo-la dará. Até agora nada pedistes em meu nome; pedi, e recebereis; para que a vossa alegria seja completa”.


Jesus quer que os discípulos façam seus pedidos em seu nome. A expressão “pedir em meu nome” significa pedir na fé em Jesus; significa suplicar ao Pai enquanto discípulo de Jesus mediante a fé que o reconheceu como Filho do Pai. aqui a oração se torna uma participação no diálogo divino onde a conversa é desprovida de qualquer pretensão, pois a oração é o momento de participação no diálogo divino isto é, no diálogo entre o Filho e o Pai. Para o evangelista João aqui está o sentido da verdadeira oração. Na participação desse diálogo a vontade suprema de Deus ocupa o lugar importante na oração.


Além disso, na participação do diálogo divino percebemos algo importante que Jesus quer nos transmitir: que a oração é a fonte de gozo, de expansão, e de equilíbrio: “pedi, e recebereis; para que a vossa alegria seja completa”. Orar/rezar é estar na contemplação, no repouso em Deus. Estar na oração é estar no mundo de Deus, tão próximo de nós na oração. Estar no mundo de Deus é estar na alegria plena. A verdadeira oração sempre nos causa alegria e nos dá a serenidade sabendo que Deus nos ama no Filho (Jo 3,16), que ama cada um até o fim (Jo 13,1) Cada um precisa fazer isso permanentemente. É impossível experimentar o mundo divino na oração no lugar dos outros; cada um há que experimentar esse mundo por si mesmo.


“Pedi, e recebereis; para que a vossa alegria seja completa”. A oração é fonte de gozo, fonte de expansão, fonte de equilíbrio. Rezar é repousar em Deus. Na oração nós nos aproximamos do mundo divino para iluminar nosso mundo de cada dia. É preciso rezarmos permanentemente para que nossa alegria seja completa e permanente. Até agora Jesus nos indica o caminho para chegar à nossa alegria plena: através do amor fraterno (cf. Jo 15,9-11) e através da oração (Jo 16,24). Orar e amar permanentemente nos mantém na alegria plena.


Na oração não há distância entre nós e Deus. A distância é abolida. Na oração, entre o mundo invisível e o mundo visível não há muros de separação. A oração faz com que a terra se aproxima do céu, a humanidade se une à divindade. Na oração há uma comunicação direta entre quem reza e Deus. Da terra sobem sem cessar orações de amor e de fé. E do céu descem sem cessar graças e palavras divinas de amor. Na oração nossa fé no amor de Deus por nós aumenta, pois mesmo que façamos nossos pedidos a Deus erradamente, Deus sempre dá algo corretamente pela nossa salvação. Deus atende aquilo que nos salva.


Orar ou rezar é como entrar na esfera de Deus. De um Deus que quer nossa salvação, pois já nos ama antes de nos dirigirmos a Ele, como quando tomamos o sol que já estava brilhando. Ao entrarmos em sintonia com Deus, por meio de Cristo e seu Espírito, nossa oração coincide com a vontade salvadora de Deus e nesse momento nossa oração já é eficaz.


“Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes ao Pai alguma coisa em meu nome, ele vo-la dará”. Na oração entramos nas profundezas de Deus e nos deixamos envolver pelo mistério da Santíssima Trindade. Na fé cristã a oração é sempre trinitária, pois se dirige ao Pai no Espírito através do Filho. É do Pai que vem o dom pelo Filho no Espírito Santo. A oração é o momento e o acontecimento trinitário.


Jesus veio do mundo divino/celeste onde reina o amor que nos envolve inteiramente: “Eu saí do Pai e vim ao mundo; e novamente parto do mundo e vou para o Pai”.  É o mundo em que as relações entre as Pessoas (Santíssima Trindade) são totalmente satisfatórias, profundas e perfeitas. É o mundo onde o amor é rei e faz todos felizes. Jesus veio para nos revelar quem é nosso Deus? Deus é Pai, Deus é amor, Deus nos ama.


Portanto, para que nossa alegria seja completa e nossa felicidade seja plena temos que aprender a amar e a orar permanentemente. Amamos os outros para que nos tornemos divinos. O divino nos dá a alegria, pois o divino nos salva. E “só se ama verdadeiramente o próximo quando se ama a Deus no próximo, seja porque Deus já vive nele, seja para que Deus viva nele. Isto é amor” (Santo Agostinho: Serm. 336,1,1). Oramos para que estejamos na esfera divina e conseqüentemente, nossa alegria será completa. Quer ser alegre? Ame e reze permanentemente!
 
P. Vitus Gustama,svd

quinta-feira, 29 de maio de 2014


VIVER COM O SENHOR É VIVER NA VERDADEIRA ALEGRIA

Sexta-Feira da VI Semana da Páscoa
30 de Maio de 2014

Evangelho: Jo 16,20-23

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 20“Em verdade, em verdade vos digo: Vós chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria. 21A mulher, quando deve dar à luz, fica angustiada porque chegou a sua hora; mas, depois que a criança nasceu, ela já não se lembra dos sofrimentos, por causa da alegria de um homem ter vindo ao mundo. 22Também vós agora sentis tristeza, mas eu hei de ver-vos novamente e o vosso coração se alegrará, e ninguém vos poderá tirar a vossa alegria. 23aNaquele dia, não me perguntareis mais nada”.
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Continuamos acompanhando o longo discurso de despedida de Jesus de seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17). Como qualquer despedida, o tom é sempre melancólico. Mas em cada despedida há sempre as ultimas recomendações ou lições dadas ou deixadas por aquele que vai partir.


E o texto do evangelho de hoje nos fala da vida como ela é. O sofrimento e a dor, a alegria e a tristeza, o sucesso e o fracasso, o nascimento e a morte, o sorriso e o choro moram no mesmo homem. O famoso escritor libanês, Khalil Gibran, escreveu no seu livro O Profeta:


“Quando estiverdes alegres, olhai no fundo de vosso coração, e achareis que o que vos deu tristeza é aquilo mesmo que vos está dando alegria. E quando estiverdes tristes, olhai novamente no vosso coração e vereis que, na verdade, estais chorando por aquilo mesmo que constituiu vosso deleite... A alegria e a tristeza vêm sempre juntas; e quando uma está sentada à vossa mesa, lembrai-vos de que a outra dorme em vossa cama”.

Dentro deles ou com eles, nós crescemos ou avançamos na vida. Até se soubermos aproveitá-los o nosso crescimento fica acelerado e nossa maturidade nos aproxima bem cedo. Eles fazem parte de ingredientes para saborear a vida na sua plenitude, como cada rosa que tem seus espinhos, mas os espinhos não tiram a beleza de uma rosa. Todo sofrimento por amor nos faz crescer na nossa maturidade. O filósofo romano, Epicteto escreveu:


“Cada dificuldade na vida nos oferece uma oportunidade para nos voltarmos para dentro de nós mesmos e recorrermos aos nossos recursos interiores escondidos ou mesmo desconhecidos. As provações que suportamos podem e devem revelar-nos quais são as nossas forças... Você possui forças que provavelmente desconhece” (Arte de Viver, p.37, Sextante: Rio de Janeiro,2000). 


E a Palavra de Deus veio certamente para despertar essa força misteriosa que temos dentro de nós para superar as nossas “paralisias”.


Jesus anuncia para os discípulos sua morte iminente como uma partida para o Pai (Jo 16,5). Conseqüentemente, os discípulos ficarão tristes por causa da ausência física de Jesus. Mas Jesus afirma que a tristeza dos discípulos é apenas uma passagem. Ele evoca a imagem de uma mulher parturiente: “A mulher, quando deve dar à luz, fica angustiada porque chegou a sua hora; mas, depois que a criança nasceu, ela já não se lembra dos sofrimentos, por causa da alegria de um homem ter vindo ao mundo”. Na Bíblia as dores do parto caracterizam um “castigo” terrível (Gn 3,16; Jr 4,31; 6,24; 13,21). No entanto, são as únicas dores que têm um sentido porque trazem uma nova vida ao mundo. Para os discípulos os sofrimentos são de caráter passageiro, pois sofrem em nome de Jesus que é a vida de suas vidas (Jo 14,6; 11,25), como uma mãe parturiente que sofre em nome de uma vida que está para vir ao mundo. Trata-se, paradoxalmente, de um sofrimento que tem sabor de alegria ou uma dor fecunda.


Para quem está com o Senhor os sofrimentos desta vida não são sofrimentos de agonia e sim são sofrimentos de parto que conduzem à vida, são sofrimentos fecundos que fertiliza nossa vida de salvação. Com o Senhor e no Senhor todo sofrimento é fecundo. Com o Senhor cada sofrimento faz nascer uma nova visão cada vez maior sobre a vida que vivemos. Se o coração se alegra, se alegra todo o homem desde sua raiz mais profunda.


E Jesus promete aos discípulos: “Ninguém vos poderá tirar a vossa alegria”. Trata-se da alegria que nunca se acaba, da alegria eterna. É a promessa daquele que venceu a morte. As tristezas de cada dia podem acontecer, mas nada nem ninguém possa nos tirar do caminho da Vida. Nossa alegria nasce da serena certeza de que somos queridos do Senhor infinitamente, amados em todas as nossas limitações e fraquezas. É a alegria de saber que nossa vida tem sentido e tem futuro. Por isso, a falta de alegria profunda, no fundo, é sinal da falta de fé, sinal da falta de profundidade na vida de fé. Um cristão triste é, verdadeiramente, um triste cristão.


De início, o sofrimento nos parece sempre grande demais. Porém, o sentido de qualquer sofrimento é levar-nos ao nosso limite para nos fazer descobrir novas forças.   Aprendamos da mulher-mãe da qual fala o evangelho de hoje. Nela concorrem sucessivamente tristeza-dor e triunfante alegria, porque o dom da maternidade é muito grande. Assim também nós, filhos e filhas de Deus, discípulos e discípulas de Cristo, caminharemos da provação-sofrimento-tristeza para a alegria-consolo, fecundidade do gozo no Espírito de Deus. A força de Deus é tal que é capaz de nos encher de serenidade e confiança, enquanto a provação, ao contrário, tenta nos impor um sentimento de fracasso e o desejo de perecer.


Tenhamos confiança; o Senhor sempre está conosco. O Senhor quer que através de cada um de nós surja uma nova humanidade onde haja menos dor, menos pobreza, menos tristeza, menos angústia, menos exploração dos menos favorecidos, menos injustiças sociais, menos vícios que minem a saúde das pessoas e a paz familiar. O Senhor continua nos enviando para que possamos gerar uma autêntica alegria cristã. Mas temos que estar conscientes de que para gerar um homem novo e renovado nos custará grandes sofrimentos, perseguições e incompreensões. Na vida o que é valioso custa muito. Não há nada que seja valioso que seja dado de graça. Ninguém cresce sem aprender a morrer de muitas coisas na vida. Mas o Senhor quer que sejamos fortes, valentes, seguros e que confiemos n’Ele e caminhemos atrás de suas pegadas. E quem crê em Jesus Cristo deve ser o primeiro em trabalhar pelo bem de todos.


Ninguém vos poderá tirar a vossa alegria” é a Palavra do Senhor hoje para todos nós. Para isso, temos que viver de acordo com os ensinamentos de Cristo que se resumem no amor fraterno, pois quem ama o próximo, não vai fazer mal contra ele.


Vamos tentar descobrir a seguinte verdade: O modo como você começa seu dia determina o modo como você passará o restante dele. Os seus primeiros trinta minutos depois de acordar são os minutos mais importantes e valiosos do dia porque têm uma enorme influência na qualidade de cada minuto que segue. Tenha apenas pensamentos puros e conceba apenas coisas boas para que seu dia tenha uma continuidade maravilhosa. Seja simples porque a simplicidade é a virtude dos sábios, e a sabedoria dos santos. Não pense no mal para que o mal não pense em você. Mas pense no bem para que o bem pense em você.

·       “Contemple o bem, e persiga-o, como se não pudesse alcançá-lo; contemple o mal e evite-o, como evitaria colocar a mão em água fervente” (Confúcio: Aforismos de Confúcio). 

Então, comece bem seu dia e você nunca mais será o mesmo.


Pela comunhão, Cristo morto e ressuscitado se faz nossa força para passar triunfalmente pelo sofrimento que encontramos na vida.
P.Vitus Gustama, SVD



quarta-feira, 28 de maio de 2014

 
DEUS CONTINUA NOS ACOMPANHANDO COM SEU AMOR 

Quinta-Feira da VI Semana da Páscoa
29 de Maio de 2014
 

Evangelho: João 16, 16-20

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 16“Pouco tempo ainda, e já não me vereis. E outra vez pouco tempo, e me vereis de novo”. 17 Alguns dos seus discípulos disseram então entre si: “O que significa o que ele nos está dizendo: ‘Pouco tempo, e não me vereis, e outra vez pouco tempo, e me vereis de novo’, e: ‘Eu vou para junto do Pai? ’”. 18 Diziam, pois: “O que significa este pouco tempo? Não entendemos o que ele quer dizer”. 19 Jesus compreendeu que eles queriam interrogá-lo; então disse-lhes: “Estais discutindo entre vós porque eu disse: ‘Pouco tempo e já não me vereis, e outra vez pouco tempo e me vereis?’ 20 Em verdade, em verdade vos digo: Vós chorareis e vos lamentareis, mas o mundo se alegrará; vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria”.

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O texto do evangelho lido neste dia pertence ao conjunto do discurso de despedida de Jesus no evangelho de João (Jo 13-17). Ao ter consciência de sua iminente partida deste mundo (morte) Jesus dá alguns conselhos para seus discípulos que vão continuar a missão de Jesus como seus enviados ou missionários neste mundo (Jo 20,21).


No texto de hoje Jesus quer transmitir aos discípulos algumas certezas para a caminhada neste mundo. Em primeiro lugar, Jesus afirma conscientemente a certeza do término de sua vida terrena eminentemente. Cada história tem seu início como também tem seu término. Assim também a vida de Jesus na terra. A vida na história tem seu começo, também tem seu fim. Para cada ser humano tem seu nascimento, também tem sua morte (cf. Eclesiastes 3,1-8). A idade sempre aumenta em cada segundo, pois o tempo não pára. A idade sempre aumenta e nunca diminui, mas pode também terminar em qualquer segundo. Tudo é para frente. Não há parada, pois a vida nos empurra por dentro. Estamos sempre em permanente viagem ou caminhada, mesmo que estejamos dormindo. Até as palavras ditas passam no tempo. Cada um vai criar seu caminho e sua própria história neste mundo. E o fim depende das opções feitas entre dois extremos: entre o início e o fim. A maneira como eu vivo nesses dois extremos vai determinar de que modo vou terminar minha história.


Jesus não somente fala da certeza do término de sua vida terrena, mas também da certeza de sua glorificação ou de sua ressurreição. Por isso, ele afirma: “Eu vou para junto do Pai”. O Deus revelado por Jesus em quem acreditamos é o Deus do bem e por isso, é o Deus da vida que jamais termina (cf. Mt 22,31-32).


Por que Jesus tem tanta certeza da comunhão plena com o Pai? Por que essa certeza? Porque a vida de Jesus foi dedicada somente para o bem de todos. Ora, quem se dedica a vida somente para o bem de todos, mesmo sem saber, ele está em plena sintonia com Deus.  A vida de Jesus é vivida de acordo com o Plano ou a vontade de Deus. E a vontade de Deus se resume no amor: “Deus amou tanto o mundo que lhe deu seu Filho para que todo o que nele crer tenha a vida eterna” (Jo 3,16). A partir de Deus o mundo é governado por amor e no amor. A única lei que rege a vida de qualquer cristão é a lei do amor fraterno: “Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,35). O amor é o único meio capaz de convencer e converter até os ateus. Nada compromete tanto como o amor, e ninguém é tão livre como aquele que ama. o amor é que nos leva para junto do Pai celeste. Mas trata-se do amor sem motivo conhecido como ágape, isto é, o amor direcionado somente para o bem sem esperar recompensa de quem é beneficiado por esse amor.


A certeza da comunhão plena com o Pai por ter vivido uma vida de acordo com a lei do amor faz com que Jesus tenha outra certeza: a sua nova presença no meio dos seus discípulos. Por isso, ele afirma: “E outra vez pouco tempo, e me vereis de novo”. O amor possibilita uma presença eterna mesmo que aquele que é amado não esteja presente fisicamente. O amor é eterno, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16), mas as caricaturas do amor não duram. O amor não pode morrer, pois é o nome próprio de Deus. A morte é incapaz de eliminar a morte. Um dia a morte cessará, mas o amor é inextinguível, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Com a certeza do amor que não morre nós acreditamos que os nossos entes-queridos que nos precederam deste mundo continuam em plena comunhão conosco, com Cristo com sua Igreja que somos todos.


Por causa desse amor eterno é que Jesus nos garante: “Vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria”. A fé não nos faz contornarmos nossa tristeza. A fé nos dá forças para atravessar nossa tristeza com a certeza de que Deus nos ama e nós amamos a Deus e cremos no Seu amor. O encontro do meu amor por Deus e do amor de Deus por mim resulta numa força tremenda capaz de superar aquilo que humanamente é impossível. “Vós ficareis tristes, mas a vossa tristeza se transformará em alegria”, garante-nos o Senhor.


Vossa tristeza se transformará em alegria”. Os discípulos experimentaram a inquietude. A mesma inquietude dos primeiros discípulos, que se expressa profundamente nas palavras de Jesus (Jo 16,16) concentra ou resume a tensão de nossas inquietudes de fé, de busca de Deus em nossa vida cotidiana. Como os cristãos do primeiro século, necessitamos experimentar a presença do Senhor em meio de nós para reforçar nossa fé, esperança e caridade. Sem perceber podemos experimentar Deus em toda a beleza, em todo o gesto de amor, no bem praticado, no perdão dado, na pessoa que nos ajuda e nos anima, no coração que sabe amar e perdoar, no palpitar intacto de cada novo ser, na vida que não termina com a morte. Afinal, em tudo que é a expressão do amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). Deus nos toca em cada gesto de amor e tocamos ou experimentamos o próprio Deus em cada gesto de amor que praticamos. “Experimentar Deus não é pensar sobre Deus. É sentir Deus a partir do coração puro e da mente sincera. Experimentar Deus é tirar o mistério do universo do anonimato e conferir-lhe um nome, o de nossa reverência e de nosso afeto” (Leonardo Boff).


Vossa tristeza se transformará em alegria” é o recado de Jesus para cada um de nós. Tenhamos certeza dessa palavra, pois ela saiu da boca do Senhor.
 
P.Vitus Gustama, SVD

terça-feira, 27 de maio de 2014

 
O ESPÍRITO DA VERDADE E O CONHECIMENTO DA PESSOA DE JESUS


Quarta-Feira da VI Semana da Páscoa
28 de Maio de 2014
 

Evangelho: Jo 16,12-15

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos:  12“Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora. 13Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade. Pois ele não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido; e até as coisas futuras vos anunciará. 14Ele me glorificará, porque receberá do que é meu e vo-lo anunciará. 15Tudo o que o Pai possui é meu. Por isso, disse que o que ele receberá e vos anunciará, é meu”.
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Continuamos ainda no discurso de despedida de Jesus de seus discípulos (Jo 13-17).  E no evangelho lido neste dia Jesus disse aos discípulos: “Quando vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade”.


Na filosofia conhecemos a verdade lógica e a verdade ontológica ou transcendental. A verdade lógica se define como conformidade da inteligência com seu objeto (adaequatio intellectus ad rem). A verdade ontológica ou transcendental se define como conformidade da coisa com a inteligência (adaequatio rei ad intellectum). A verdade lógica é uma propriedade da inteligência que conhece. Enquanto que a verdade ontológica é uma propriedade das coisas: a propriedade pela qual as coisas são conforme a seu tipo ideal. Uma banana é conhecida como uma banana. Se alguém estiver com uma banana na mão, ele não vai dizer que é uma manga, pois uma manga tem seu próprio tipo como manga.


Para os hebreus a verdade é o termo que designa a fidelidade e a confiança em alguém. A verdade para o mundo da Bíblia é uma relação interpessoal que se experimenta ao longo de uma história. O contrário da verdade é a ruptura de um vínculo de confiança que perdurava no tempo.


O texto do evangelho de hoje identifica Jesus com a verdade: Jesus-Verdade. Por isso para o evangelho de João, a verdade não é um conceito nem uma categoria e sim uma pessoa. Jesus é a própria Verdade (Jo 14,6), ou a própria Palavra de Deus (Jo 1,1). E o Espírito Santo é o Espírito de Cristo que Cristo envia do Pai, e por isso, é o Espírito da Verdade. Somente os que aceitarem o Espírito da Verdade é que poderão compreender plenamente a verdade e o sentido da vida.


Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade”, disse Jesus. A verdade plena é a compreensão mais profunda de Jesus e de sua mensagem. É pleno no sentido mais profundo. Através da experiência diária sabemos que o conhecimento de uma pessoa não acontece uma vez por todas. Vamos conhecendo a pessoa ao longo de nossa vida e ao longo da convivência. Conforme o evangelho de hoje, o Espírito da Verdade nos facilita a alcançarmos esse conhecimento gradualmente: “Tenho ainda muitas coisas a dizer-vos, mas não sois capazes de as compreender agora. Quando, porém, vier o Espírito da Verdade, ele vos conduzirá à plena verdade” (Jo 16,12-13). O Espírito da Verdade não ensinará novas verdades e sim nos conduzirá ao pleno conhecimento da Verdade, o pleno conhecimento da pessoa de Jesus e de seus ensinamentos. Este Espírito nos recorda tudo o que o Pai revelou uma vez por todas em Jesus Cristo, que é sua Palavra. O Espírito não obscurece a posição reveladora de Jesus. A função de guia do Espírito está em conexão com Jesus como Jesus em conexão com o Pai: “Eu e o Pai somos um”, disse Jesus. O Espírito não anuncia nada novo e sim que abre a mensagem própria de Jesus para as situações mudadas da comunidade de forma que essa mensagem possa adquirir seu sentido sempre atual.


“Até as coisas futuras (o Espírito da Verdade) vos anunciará”. “Anunciar as coisas futuras” significa fazer entender, para as gerações vindouras, o significado de tudo que Jesus fez e ensinou. A partir do texto do Evangelho deste dia, a melhor preparação cristã para o porvir não é uma previsão exata do futuro e sim um conhecimento profundo do que Jesus significa para cada época. Há muito chão inexplorado na verdade de Jesus, isto é, em sua pessoa, que somente pode ser conhecida (a pessoa de Jesus) na medida em que a experiência coloca a comunidade e cada cristão diante de novos fatos ou circunstâncias aberto para o impulso do Espírito da Verdade. Para isso, os cristãos devem estar abertos à vida e à história e à voz do Espírito Santo simultaneamente, pois somente o Espírito da Verdade é capaz de tirar o sentido de cada fato ou experiência. O Espírito Santo possibilita um maior conhecimento do que Jesus significa para cada época: suas enormes possibilidades de vida, de força transformadora para nosso mundo. Principalmente possibilita para o maior entendimento o fascinante, maravilhoso e surpreendente Deus de Jesus que ama o mundo apaixonadamente sem limitar as condições (Jo 3,16). Ele ama o mundo porque quer salvá-lo.


O Novo Catecismo nos diz:

·       “É o Espírito Santo que dá aos leitores e ouvintes, segundo a disposição dos seus corações, a inteligência espiritual da Palavra de Deus. Através das palavras, acções e símbolos, que formam a trama duma celebração, o Espírito Santo põe os fiéis e os ministros em relação viva com Cristo, Palavra e Imagem do Pai, de modo a poderem fazer passar para a sua vida o sentido daquilo que ouvem, vêem e fazem na celebração” (1101).


·       “Na liturgia da Palavra, o Espírito Santo «lembra» à assembléia tudo quanto Cristo fez por nós. Segundo a natureza das ações litúrgicas e as tradições rituais das Igrejas, uma celebração «faz memória» das maravilhas de Deus numa anamnese mais ou menos desenvolvida. O Espírito Santo, que assim desperta a memória da Igreja, suscita então a ação de graças e o louvor [doxologia]” (1103).


O Espírito da Verdade é o dom de Deus. É preciso que estejamos abertos diante dele e precisamos pedir sua presença na nossa vida diária para entender o sentido da vida e seus acontecimentos. Pedimos ao Senhor que o nosso espírito seja guiado e que jamais nos consideremos como satisfeitos definitivamente, conhecedores de tudo, orgulhosos de nossos conhecimentos doutrinais, pois há verdade e atitudes que não foi ainda descoberto seu sentido. Que o Senhor nos conduza à verdade completa dando-nos Sua santa paciência e Sua pedagogia.

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 26 de maio de 2014

 
VIVER COMO JUSTOS SOB O IMPULSO DO ESPÍRITO DIVINO

Terça-Feira da VI Semana da Páscoa
27 de Maio de 2014
 

Evangelho: Jo 16,5-11

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 5 “Agora, parto para aquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: ‘Para onde vais?’ 6Mas, porque vos disse isto, a tristeza encheu os vossos corações. 7No entanto, eu vos digo a verdade: É bom para vós que eu parta; se eu não for, não virá até vós o Defensor; mas, se eu me for, eu vo-lo mandarei. 8E quando vier, ele demonstrará ao mundo em que consistem o pecado, a justiça e o julgamento: 9o pecado, porque não acreditaram em mim; 10a justiça, porque vou para o Pai, de modo que não mais me vereis; 11e o julgamento, porque o chefe deste mundo já está condenado”.
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Continuamos acompanhando o longo discurso de despedida de Jesus de seus discípulos no evangelho de João (Jo 13-17).


“Agora, parto para aquele que me enviou, e nenhum de vós me pergunta: ‘Para onde vais?’ Mas, porque vos disse isto, a tristeza encheu os vossos corações”, disse Jesus no evangelho deste dia.


Jesus anuncia aos discípulos a sua morte iminente (partida) que provoca uma reação negativa nos discípulos: tristeza (Jo 16,6) e perturbação (Jo 14,1). Mas esta partida (morte) traz, ao mesmo tempo, conseqüências positivas: a vinda do Paráclito (Jo 16,7) e a reunião definitiva (Jo 14,2-3).


Jesus fala da sua morte, que só mais tarde os discípulos vão poder entender seu significado à luz do Espírito Santo (cf. Jo 16,12-13). Como aconteceu com qualquer um de nós. Muitas coisas na vida só podemos entender seu significa ou sua insignificância quando a idade vai avançando e as experiências vão se acumulando. Só quando encontramos nossas veias de coração entupidas é que podemos entender que o cigarro que fumávamos com muita paixão, a gordura da carne que consumimos com muito apetite, a bebida alcoólica que engolimos freqüentemente fazem mal para nossa saúde e encurtamos nossa presença neste mundo, e diminuímos nosso tempo nesta terra para ajudar os demais com nossos dons.


Os discípulos vão dar testemunho de Jesus, somente quando entenderem quem é Jesus, o que significou a sua presença no mundo, e qual foi o sentido da sua morte e da sua ressurreição. Quem pode possibilitar-lhe este entendimento é o Espírito Santo prometido por Jesus. Mas Jesus alerta os discípulos que vão sofrer perseguições por causa desse testemunho.


Neste texto do evangelho de hoje Jesus afirma que a sua morte é uma partida para Aquele que o enviou. Este retorno Àquele que o enviou mostra que a causa pela qual Jesus lutava e vivia era a de Deus que é a salvação do mundo (Jo 3,16). Por isso, sua volta para Deus é para ser glorificado. A morte, para Jesus, é o momento da glorificação. É a “hora” de Jesus (cf. Jo 2,4; 12,23). A morte de quem vive de acordo com a vontade de Deus resumida no amor fraterno (ágape) é o momento de glorificação e não é um momento de tristeza. O homem morre não quando deixa de viver e sim quando deixa de amar.


Os discípulos continuam sem compreender a morte como ida ao Pai. Também não pedem explicações a Jesus a respeito. Eles se sentem tristes ao pensar na separação que eles interpretam como desamparo (Jo 14,18). Para eles sem Jesus na sua presença física eles se tornam indefesos no mundo e diante do mundo.


Para Jesus a presença e a ajuda do Espírito farão muito melhor para os discípulos do que sua presença física, pois Jesus, na sua presença física, não pode estar com os discípulos em qualquer lugar. Além disso, enquanto se apoiarem na presença física de Jesus, os discípulos não aprenderão a tomar sua plena responsabilidade nem terão a autonomia em cumprir sua missão como discípulos. É preciso aprender a andar com as próprias pernas para saber até onde elas têm capacidade de andar, e aprender a pensar com os próprios pensamentos para saber até onde tem que pedir a ajuda. Mas, ao mesmo tempo, é indispensável se deixar impulsionar pelo Espírito, pois somente o Espírito de Deus pode transformar qualquer um em nova criatura. A ausência física de Jesus possibilita os discípulos a atuarem por si mesmos sob o impulso do Espírito. A ausência física de Jesus faz os discípulos crescerem na maturidade no seu seguimento. Por isso, Jesus disse aos discípulos: “É bom para vós que eu parta; se eu não for, não virá até vós o Defensor; mas, se eu me for, eu vo-lo mandarei”.


Quando vier o Defensor, ele demonstrará ao mundo em que consistem o pecado, a justiça e o julgamento: o pecado, porque não acreditaram em mim; a justiça, porque vou para o Pai, de modo que não mais me vereis; e o julgamento, porque o chefe deste mundo já está condenado”.


O papel do Paráclito (o Defensor) é convencer o mundo no sentido de demonstrar, de provar, de culpar e de condenar. O Paraclito (o Espírito) executará a sentença de Deus contra o mundo. Para João o juízo “final” não acontecerá nos últimos dias, mas já agora pelo fato de que a decisão escatológica já se concretizou na cruz e na ressurreição de Jesus. O Espírito convencerá o mundo sobre o pecado que consiste na incredulidade e no fato de fechar-se ao amor do Criador (Jo 3,16) manifestado em Jesus Cristo.


O sistema injusto condena o justo como criminoso. O sistema injusto se faz juiz contra os justos e honestos. É a inversão de valores em nome do interesse e das vantagens individuais. Mas o Espírito vai reabrir o processo para pronunciar a sentença contrária. Os que se fizeram juízes serão os culpados e culpáveis. E o condenado pelo sistema encontrará a verdade em Deus e o próprio Deus, que não pode ser subornado, será o ponto de referência diante do qual cada um se condena ou se culpa. Diante da verdade a própria mentira se condena. Deus se constitui em juiz e inverte o juízo dado pelo mundo.


O “mundo” neste texto se designa ao círculo dirigente que condenou Jesus; o mundo no sentido das forças sociais, históricas e econômicas opostas ao plano divino, ao plano da fraternidade. Trata-se da personificação das forças malignas da história: a injustiça exercida sobre os inocentes, a opressão dos pobres, a tirania dos sistemas totalitários.


Jesus declara aos discípulos que o Espírito de Deus realizará este juízo da história no qual brilhará a justiça e a bondade divinas a favor dos seus: “Os justos brilharão como o sol no Reino de seu Pai” (Mt 13,43; cf. também Dn 12,3; Sb 3,1-9).


O mundo prefere suas trevas de pecado à luz poderosa da bondade e da verdade divinas que fazem o homem feliz permanentemente.  O pecado do mundo consiste em impedir, reprimir ou suprimir a vida impedindo a realização do projeto criador (Jo 1,10), e esse pecado alcançou seu ápice na recusa de Jesus (Jo 15,22). O Espírito mostrará aos discípulos a justiça de Deus e que o mundo é o réu de seu pecado, de ter recusado a presença de Deus em Jesus que salva.


Portanto, qualquer cristão não pode abandonar uma vida correta e justa em nome de qualquer pessoa ou de qualquer interesse material. O Espírito suscita homens particularmente sensíveis aos valores autênticos e a Eucaristia os capacita para comprometer-se efetivamente na contestação dos pseudo-valores. O homem animado pelo Espírito não pode tolerar compactuar com a maldade nem em nome dum beneficio econômico nem em nome de uma posição social. A justiça humana pode desviar a verdade em nome dos interesses pessoais, mas ainda resta a justiça divina diante da qual a verdade, a justiça, a honestidade e a lealdade estarão em destaque. Por isso, “a vida dos justos está nas mãos de Deus e nenhum tormento os atingirá... Os que confiam em Deus compreenderão a verdade e os que são fieis habitarão com Ele no amor” (Sabedoria 3,1.9). “No Reino de seu Pai, os justos resplandecerão como o sol” (Mt 13,43ª).


P. Vitus Gustama,svd