sexta-feira, 31 de outubro de 2014

 
DIA DE FINADOS

02 de Novembro


A vida é um mosaico de tempos diversos. Cada momento é assinalado por algo que se deixa ou por algo que se descobre. Cada momento comporta a separação daquilo que se era, para se aventurar em direção do que se pode vir a ser. Nesta dinâmica universal e constitutiva da vida, relação e separação, encontro e despedida, nascimento e morte, não se excluem, mas se atraem. A relação atrai a separação. O encontro atrai a despedida. O nascimento atrai a morte. Aquele que é capaz de acolher, saberá também se separar, assim como a separação é pré-requisito de qualquer encontro. Talvez na linguagem bíblica possamos dizer: “Tudo tem seu tempo. Há um momento oportuno para cada coisa de baixo do céu: tempo para nascer, e tempo para morrer... Tempo para chorar, e tempo para rir... Tempo para dar abraços, e tempo para afastar dos abraços” (Ecl 3,1-2.4.5b). Cedo ou tarde chegará o momento de dizer “adeus”: o amor ganha, então, as feições da dor. E repentinamente o passado reaparece com suas recordações, o presente se impregna de solidão e o futuro se desdenha repleto de incertezas para quem não se prepara e não sabe lidar com tudo isso. Um poeta espanhol escreveu: “Partimos, quando nascemos, caminhamos enquanto vivemos, e chegamos no momento em que morremos”.


Dia de Finados é o dia especial em que todos nós somos chamados a voltar para a raiz familiar. É o dia em que todos nós voltamos a sentir, de uma maneira especial, a presença de todos os membros de nossa família que já partiram. Por algum instante visitamos, na memória, o passado no qual convivíamos e que no presente estão ausentes fisicamente. É um dia de saudade dos que conviveram conosco, mas partiram antes de nós. É o dia de saudade porque quando a morte atinge nossos entes queridos, uma parte de nós se vai com eles. Nós nos unimos à sua entrega total e sabemos que também nós estamos partindo (morrendo). Algo de nós se vai para sempre quando uma pessoa amada morre.


O Dia de finados quer nos relembrar que a vida é sempre uma partida. Há uma partida para os olhos que se fecham, para os ouvidos que se cansam e para o corpo que envelhece.  A condição humana é ser passageiro, ser transitório, ser limitado. Estamos sempre na saudação dos que chegam, no nascimento, e da despedida dos que partem sem volta para este mundo fisicamente, na morte. Em tudo há um adeus. E ninguém tem poder de parar o tempo. Todo nascimento é uma referência existencial à morte que é seu termo. Em outras palavras, a chegada será sempre uma partida. Um encontro será sempre uma despedida. Em cada nascimento esconde-se a morte.


Para nós que acreditamos no Deus da Vida a morte é o caminho que termina em Deus, de onde, um dia, saímos. Isto significa que nós pertencemos ao Senhor: “Se vivemos, é para o Senhor, que vivemos; se morremos, é para o Senhor que morremos. Quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor” (Rm 14,8). A vida que nos foi dada não pertence ao homem, mas a Deus.  Essa pertença a Deus é o que torna a vida algo sagrado. E para todos os homens, a vida temporal é dada como semente de vida eterna (cf. 1Cor 15,35-58). Por isso, morrer significa entregar totalmente a vida a Deus. O mesmo Senhor que nos criou por amor, nos acolhe também para um amor infinito, para uma perfeita comunhão com Ele, para uma eternidade (cf. Jo 14,1-6). É uma partida com chegada definitiva. São Pedro expressa esta realidade nestas palavras: “Fugindo da corrupção, nos tornamos participantes da natureza divina” (2Pd 1,4). Para nós, morrer é entregar a vida para Deus a exemplo de Jesus Cristo, que ao entregar a vida totalmente à vontade de Deus, ele experimentou a ressurreição. A ressurreição de Jesus é a mensagem mais clara sobre o futuro do homem (cf. 1Cor 15,12-19).


A Igreja sempre acredita na imortalidade da alma. Por isso, no Credo professamos: “Creio na comunhão dos santos... Creio na ressurreição da carne... Creio na ressurreição da carne...Creio na remissão dos pecados”. Este Credo se baseia sobre a ressurreição de Jesus. Até São Paulo chegou a dizer que se Cristo não ressuscitasse, seria vã a nossa pregação e seria vã também a nossa fé (cf. 1Cor 15,14). A ressurreição do Senhor vem nos dizer que o homem não nasce para morrer, mas nasce para ressuscitar, para viver. A vida não pertence à morte e sim a morte pertence à vida. Por isso, um cristão nunca morre, e sim ele nasce duas vezes: nasceu do ventre materno pela primeira vez e nasce para a vida eterna pela segunda vez. A morte é considerada como uma passagem para a vida. O destino do homem, então, não é o cemitério. Não estamos caminhando para o cemitério, mas para a Casa do Pai que está pronto para nos acolher e abraçar (cf. Jo 14,1-6).


E nós que ainda nos resta a vida, o que devemos fazer?


Em primeiro lugar, precisamos valorizar a presença, pois ela é um dom. Muitas vezes sentimos a importância de uma pessoa somente na sua ausência. Precisamos estar conscientes de que como é bom estarmos juntos enquanto for dado a nós o dom de convivência, pois vai chegar um dia em que seremos obrigados a viver de outra maneira.


Em segundo lugar, não precisamos acumular as flores para formar um dia uma coroa de flores para um caixão, pois uma flor oferecida para uma pessoa viva vale muito mais do que uma coroa de flores para um morto. Que a coroa de flores oferecida na morte de alguém represente todas as flores dadas durante a vida daquele que já se foi.


Em terceiro lugar, não precisamos esperar alguém morrer para elogiá-lo ou para falar de suas virtudes. É bom elogiarmos quem merece ser elogiado enquanto ele estiver convivendo conosco. Pois um elogio sincero dado para um vivo vale muito mais do que um elogio triste para um caixão. Perdoemo-nos mutuamente enquanto estivermos vivos, pois como é bom experimentarmos o que é que a ressurreição ou a libertação enquanto para nós é dado o dom de viver um pouco mais.


Em quarto lugar, como é triste morrer sem ter sabido viver e ao mesmo tempo como é triste viver sem aprender a morrer. Para vivermos melhor e com outra intensidade precisamos aprender a morrer. É o paradoxo da vida: para viver precisamos morrer.


Precisamos aprender a morrer de nosso egoísmo, de nossa prepotência, de nosso rancor, de nossa falta de perdão, de nossa vingança, de nossa soberba que mata a caridade e a fraternidade, de nossa preguiça de rezar e de participar do banquete celeste aqui na terra que é a eucaristia. Em outras palavras, precisamos aprender a morrer de nossa morte para que possamos ressuscitar para uma vida com Deus.


Para olhar o mundo, a nós mesmos e todos os acontecimentos na plenitude da verdade não há ponto de observação melhor que o da morte. A partir dali tudo é visto em sua justa perspectiva. Visto a partir desse ponto, tudo ganha seu justo valor. Olhar a vida a partir da morte nos ajuda extraordinariamente a vivermos bem e a valorizarmos cada segundo de nossa vida. A morte nos impede que nos prendamos às coisas, e nos impede que fixemos aqui embaixo a morada de nosso coração esquecendo que “não temos aqui residência permanente”(cf. Hb 13,14). Não é a morte que é absurda, mas a vida sem a morte.


Que os que nos precederam descansem em paz (RIP) e que nós, que ainda estamos peregrinando neste mundo, vivamos em paz para que possamos alcançar a morada eterna, a casa do Pai do céu. Assim seja.

 

Para Refletir

 

Prefiro que partilhes comigo uns poucos minutos,
Agora que estou vivo,
E não uma noite inteira quando eu morrer.


Prefiro que apertes suavemente a minha mão,
Agora que estou vivo,
E não apóies o teu corpo sobre mim quando eu morrer.


Prefiro que faças uma só chamada,
Agora que estou vivo,
E não faças uma inesperada viagem, quando eu morrer.


Prefiro que me ofereças uma só flor,
Agora que estou vivo,
E não me envies um formoso ramo e uma coroa de flores
Quando eu morrer.


Prefiro que elevemos juntos ao céu um oração,
Agora que estou vivo,
E não uma oração poética quando eu morrer.


Prefiro que me digas umas palavras de alento,
Agora que estou vivo,
E não um dilacerante poema quando eu morrer.


Prefiro que um só acorde de guitarra,
Agora que estou vivo,
E não uma comovedora serenata quando eu morrer.


Prefiro que me dediques uma leve prece,
Agora que estou vivo,
E não um político epitáfio sobre minha tumba quando eu morrer.


Prefiro desfrutar de todos os mínimos detalhes do tempo de nossa convivência,
Agora que estou vivo,
E não de grandes manifestações quando eu morrer.


Prefiro escutar-te e ver-te um pouco nervos@
Dizendo o que sentes por mim,
Agora que estou vivo,
E não um grande lamento porque não o disseste no tempo certo, e agora estou mort@....


Aproveitemos a convivência fraterna e amorosa com os nossos seres queridos
Agora que estão entre nós...

Valorize as pessoas que estão à tua volta.
Ama-as, respeita-as e lembra-te delas,
Enquanto estão vivas.

Deus te abençoe!
 
Pe. Vitus Gustama, SVD
 

TODOS OS SANTOS

SOLENIDADE

 Sábado, 01 de Novembro de 2014


Evangelho: Mt 5,1-12


Naquele tempo, 1 vendo Jesus as multidões, subiu ao monte e sentou-se. Os discípulos aproximaram-se, 2 e Jesus começou a ensiná-los:

3  “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus.

4 Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados.

5 Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra.

6 Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.

7 Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.

8 Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus.

9 Bem-aventurados os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus.

10 Bem-aventurados os que são perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus!

11 Bem-aventurados sois vós, quando vos injuriarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós, por causa de mim.

12 Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus”.          
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Neste dia celebramos a festa de todos os santos. O culto aos santos é a conseqüência de nosso Credo, conhecido como Símbolo Apostólico, onde professamos: “Creio... na comunhão dos santos...”. Esta pequena frase nos indica e afirma que a nossa relação com os santos é contínua porque acreditamos na não–interrupção da comunhão eclesiástica pela morte e ao mesmo tempo acreditamos no fortalecimento da mútua comunicação dos bens espirituais (LG no 49; compare com Rm 8,38-39). A Igreja dos peregrinos (todos nós mortais na história) sempre teve e continua tendo perfeito conhecimento dessa comunhão reinante em todo Corpo Místico de Jesus Cristo que é a Igreja (LG 50). A Igreja venera os santos como exemplos, pois eles são reflexos da santidade de Deus. Eles contemplam tanto o Deus santo a ponto de transformá-los em verdadeiros reflexos do Deus santo. Os santos nos ensinam a trilharmos o caminho da santidade que termina na comunhão com Deus. O Culto aos santos une-nos a Igreja celestial, pois acreditamos na vida sem fim, na vida eterna.
 

Os santos no Céu não se tornam uns egoístas que gozam a merecida felicidade. Como irmãos que nos precederam, eles ainda se lembram de nós, seus irmãos, como Cristo sempre se lembra de nós. Os santos no Céu e os cristãos na terra são uma família única. Assim como uma família, um irmão ajuda o outro irmão. Por isso é que pedimos a ajuda dos santos. Se acreditamos na vida sem fim, então não há separação entre nós e os santos. Como irmãos nossos que nos precederam para a eternidade, sem dúvida nenhuma, eles continuam nos ajudando como eles nos ajudavam quando estavam conosco neste mundo.
 

Entendemos aqui por “santos” todos os que já estão no céu e vêem o próprio Deus face a face porque viveram a vida de acordo com os ensinamentos de Cristo que se resumem no amor a Deus e ao próximo. São aqueles que estão na paz e na felicidade suprema (GS 93); aqueles que estão na comunhão perpétua da incorruptível vida divina (GS 18). Esta vida perfeita chama-se “o Céu”. O Céu é, certamente, o fim último e a realização das aspirações mais profundas do homem, o estado supremo e definitivo de felicidade. O céu é o estado em que todos alcançam a maturidade no amor, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). O Céu é o desejo de todos nós que estamos peregrinando ainda nesta terra. Participar da vida divina, a vida em sua plenitude, a vida cheia de amor é o que queremos todos os dias, tanto para nós e nossos familiares como para aqueles que nos precederam. Sobre o Céu, conforme as palavras de São Paulo, citando Is 64,4, podemos dizer de outra maneira: “O que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram, e o coração do homem não percebeu, isso Deus preparou para aqueles que O amam” (1Cor 2,9). O céu é onde os cristãos e as pessoas de boa vontade se encontram com Cristo (cf. Jo 14,3; Mt 25,31-45). O céu é para as pessoas que vivem as atitudes básicas assinaladas pelas bem-aventuranças (cf. Mt 5,1-12). A única coisa que interessa a Deus é o nosso bem e o bem que praticamos em favos de nossos irmãos.
                

Como filhos de Deus, também estamos conscientes de que Deus é o Único Santo e fonte de toda santidade. Por isso, conseqüentemente, Ele é o Único que faz santos os participantes em sua vida por fruírem de sua santidade, por cumprirem seus desígnios, por entrarem na esfera vital de seu reinado, por viverem os ensinamentos de Jesus Cristo na vida diária. A santidade é uma forma normal de viver conforme os ensinamentos de Cristo. Quando o homem já participa em plenitude da vida de Deus no Reino dos céus, então é santo por sua comunhão de vida com Deus, o Único Santo (cf. 1Jo 3,2).
  

Sabemos também que somente Deus pode receber o verdadeiro culto de adoração.  Dá-se, porém, o culto de veneração aos servidores de Deus que já estão unidos a Ele plenamente na glória e pela comunhão que mantém conosco, nos atraem para Deus e nos ajudam a percorrermos o caminho que trilharam e que nos conduzem à meta na qual nos precederam. Eles são prova evidente do amor de Deus e neles Deus nos fala. Eles são reflexos da santidade de Deus. Quando veneramos os santos é porque descobrimos neles mais vivamente a presença e o rosto de Deus; neles se manifesta a imagem de Deus, o Único Santo.
  

Por isso, o culto aos santos não rebaixa nem diminui a adoração a Deus, pelo contrário, enriquece-a intensamente porque nos aproxima mais da única santidade de Deus que devemos imitar pessoalmente como o fizeram homens como nós enquanto percorriam o mesmo caminho que estamos percorrendo.


Do ponto de vista cristológico nós sabemos também que Cristo é o Santo de Deus (Mc 1,24). Ele é a imagem do Deus invisível (Cl 1,15). A santidade do homem consiste em sua perfeita união com Jesus (LG 50). A santidade cristã é uma forma normal de viver segundo os ensinamentos de Cristo. Os santos são santos porque imitaram e viveram os ensinamentos de Jesus, Senhor de todos os santos. Eles produziram em si mesmos, de forma significativa, o mistério pascal de Jesus. Eles contemplam Cristo profundamente e por isso, se tornam reflexos de Cristo para os outros. Por isso, a união com os santos e seu culto unem-nos a Jesus, de quem dimana toda a graça santificadora; eles são seus amigos e co-herdeiros. Enfatiza-se muito, por isso, esse valor cristológico do culto aos santos na celebração eucarística.


É evidente que os santos, cuja festa celebramos neste dia, não são somente aqueles que estão na lista oficial da Igreja. O livro de Apocalipse (Ap 7,2-14) fala de um desfile de 144 mil servos de Deus no céu. 144 é um número simbólico (12 x 12) significa a unidade e totalidade do povo eleito. Entende-se, por isso, uma grande multidão de pessoas de todos os povos e religiões, culturas, de antes e depois de Cristo. Por isso, nunca podemos esquecer que há exemplos de santidade e heroísmo cristão em outras Igrejas, religiões, povos e culturas. Reconhecer essa presença é uma ajuda para superar os nossos seculares preconceitos e para acolher com alegria esses parceiros na construção do Reino de Deus ou do mundo mais fraterno.          


Quando nós veneramos os santos, portanto, não somos idólatras. Se nós admirarmos e louvarmos um quadro de valor, por acaso o pintor deste quadro se sentirá ofendido? Ao contrário, ele não ficará feliz? Os santos são as obras artísticas de Deus, Aquele que esculpiu e pintou o seu semblante na alma deles. Se admirarmos ou louvarmos os filhos, por acaso o pai se ofenderá? O pai não ficará feliz pela admiração dada aos seus filhos por outras pessoas? Os santos são os filhos prediletos do Senhor, aqueles que mais se lhe assemelham.
     

Mas devemos reconhecer que há pessoas que amam o santo ou a santa, mas não a sua santidade. São muitos cristãos que recorrem aos santos somente para os interesses materiais ou só para alcançar determinada graça e não para pedir a graça de seguir o exemplo desses santos que viveram até o fim os ensinamentos de Jesus Cristo. Não podemos abusar dos santos só para atender nossos desejos materiais, esquecendo-nos de que precisamos seguir seus exemplos de santidade.  Devemos saber que não há devoção mais eficaz do que a imitação das virtudes dos santos. Para que, seguindo o exemplo dos santos que viveram segundo os ensinamentos de Cristo durante sua vida terrena, possamos também alcançar a santidade para a qual todos nós somos chamados. 
     

A vocação à santidade é universal. Todos são chamados à santidade, segundo diz S. Paulo: “Pois esta é a vontade de Deus, a vossa santificação” (cf. 1Ts 4,3;Ef 1,4). E o fundamento de nossa santidade ou da nossa perfeição é Jesus Cristo, cumpridor fiel da vontade de Deus. Como dizia Santa Teresa do Menino Jesus: “...Quem aspira à santidade deve fugir à tentação de querer santificar-se ao seu modo, conforme a própria vontade, seu ponto de vista, seus planos humanos, mas entregar-se inteiramente à vontade de Deus. Deus traça o caminho e o homem deve segui-lo” (Fd.5-10). E na mesma perspectiva São João da Cruz ensinou: “A santidade, ou seja, a união autêntica com Deus consiste na total transformação de nossa vontade na vontade de Deus, de tal modo que, em nós, nada contrarie a vontade do Altíssimo, mas nossos atos dependem totalmente do beneplácito divino” (Subida I-II,2).
  

Portanto, o culto verdadeiro de veneração que prestamos aos santos não deve terminar neles. Ao contrário, deve acabar em Cristo como fonte da missão, grandeza, dignidade e privilégios destes santos. Os santos nos ajudam a termos fé firme em Jesus Cristo, mesmo que nos encontremos numa situação sufocante.
 

Os santos são um grande exemplo de santidade e de cumprimento da vontade de Deus para nós. Não pensemos que não podemos resistir às tentações. Também os santos tiveram carne e sangue como nós; experimentaram as tentações como as nossas tentações, contudo eles venceram. Basta ler a história da vida dos santos, como Santo Agostinho, São Francisco de Assis, São João da Cruz, Santa Teresa de Ávila e muitos outros santos, saberemos as lutas sem tréguas deles contra as paixões desordenadas, contra as tentações e outros problemas, no entanto venceram. Apesar de tantas dificuldades, os santos viveram os ensinamentos de Cristo até o fim de sua vida. Se eles venceram, será que nós não podemos vencer também?


Ser santo é viver com a pureza de coração sem segundas intenções, oferecendo sinceridade e confiança. Ser santo é ter confiança, esperança, alegria, porque Jesus está conosco. Ser santo é solidarizar-se com aqueles que sofrem para aliviar sua dor. Santo na perspectiva de Jesus é quem decide construir um mundo novo onde os homens se amam, se querem e se ajudam, onde não se recusam uns aos outros por sua cor, dinheiro, poder e assim por diante. Por isso, a santidade não é um modo excepcional de viver e sim a forma normal de ser cristãos.


Por esta razão, a festa de Todos os Santos deve ser para nós a ocasião para perceber melhor a natureza profunda da santidade que recebemos no Batismo e que devemos fazer frutificar ao longo de nossa vida para que um dia possamos, pela misericórdia de Deus, estar na comunhão dos santos eternamente.
  

Alcançar a santidade é descobrir o espírito da bem-aventurança e da paz que deve animar toda a existência. É buscar o bom sempre o bom, o certo, o justo, o verdadeiro, o honesto. É defender a bênção no meio das maldições. A santidade é a totalidade do espírito das bem-aventuranças que se lêem no evangelho deste dia. A totalidade é pobreza do espírito para que a graça de Deus possa ocupar o coração. A totalidade é mansidão, justiça, pureza, paz e misericórdia. É abertura e doação que tem como símbolo a confiança de uma criança.
  

Santidade é plural no sentido de que cada um deve seguir a Cristo a partir de sua própria circunstância e dos talentos, a partir de sua nação e língua, nos dias felizes e quando a tribulação arranca lágrimas do coração, no silêncio de um convento ou na vertigem da cidade. “Esta é a vontade de Deus: a vossa santificação” (1Ts 4,3a).


Pedimos a ajuda dos santos que viveram os ensinamentos de Cristo até o fim, para que possamos também viver segundo os ensinamentos de Cristo até o fim de nossa vida terrestre para que um dia, pela misericórdia de Deus, mereçamos ser chamados de santos para estar na comunhão de todos os santos de Deus.

P. Vitus Gustama,svd

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

O SER HUMANO É MAIS SAGRADO DO QUE QUALQUER LEI SAGRADA

Sexta-Feira da XXX Semana Comum
31 de Outubro de 2014
 

Evangelho: Lc 14,1-6

1 Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus. E eles o observavam. 2 Diante de Jesus, havia um hidrópico. 3 Tomando a palavra, Jesus falou aos mestres da Lei e aos fariseus: “A Lei permite curar em dia de sábado, ou não?” 4 Mas eles ficaram em silêncio. Então Jesus tomou o homem pela mão, curou-o e despediu-o. 5 Depois lhes disse: “Se algum de vós tem um filho ou um boi que caiu num poço, não o tira logo, mesmo em dia de sábado?” 6 E eles não foram capazes de responder a isso.
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Continuamos escutando as últimas e importantes lições de Jesus na sua última viagem para Jerusalém (Lc 9,58-19,28), pois lá ele será crucificado, morto e glorificado.


Na passagem do evangelho de hoje, Jesus quer nos relembrar que o ser humano é mais sagrado e importante do que qualquer lei por sagrada que ela pareça ser, pois em cada ser humano há o hálito divino (Gn 2,7) que o torna o templo do Espírito Santo (1Cor 3,16-17; 6,19).


Aconteceu que, num dia de sábado, Jesus foi comer na casa de um dos chefes dos fariseus...”, assim o evangelista Lucas nos relatou.


Era sábado (shabbat). O Sábado era o dia em que o povo eleito comemorava os grandes benefícios de Deus: a criação (Ex 20,8-11) e a libertação da escravidão do Egito (Dt 5,12-15). Era o dia o qual o Senhor abençoava acima de outros dias da semana (Jubileus 2,31s). Era o dia de reconhecimento de que Deus santificava o povo (cf. Ex 31,13; cf. Hb 4,9). No Sábado os judeus costumavam comer festivamente.


E nesse dia (Sábado) os judeus costumavam convidar as pessoas para a refeição festiva, mas não era qualquer convidado. O convidado de honra para a refeição festiva, além de escribas e fariseus, segundo o evangelho de hoje, era Jesus, pois ele era tratado como mestre. Jesus tinha fama na região toda (Lc 7,17). O povo considerava Jesus como o grande profeta (Lc 7,16; 24,19). Durante este tipo de refeição, costumavam aparecer algumas pessoas sem ser convidadas para ver o convidado de honra (cf. Lc 7,37). Podemos entender porque um hidrópico se encontrou nessa refeição.


Diante de Jesus, havia um hidrópico”, prossegue Lucas. Para os fariseus e escribas qualquer doença era fruto do pecado cometido e consequentemente, era castigado por Deus. E a causa da hidropisia, segundo eles, era a luxúria. Em vez de se concentrar na refeição, os fariseus e escribas ficam olhando para Jesus e o hidrópico para observar o que Jesus vai fazer com o hidrópico, pois curar um doente faz parte dos 39 trabalhos proibidos no Sábado.


Qual é a posição de Jesus diante de um necessitado como esse hidrópico? Ele quer ajudar e curar o hidrópico mesmo sendo proibido, pois no Sábado. Mas antes de curá-lo Jesus lança uma pergunta bem fundamental com o intuito de que os fariseus e escribas possam refletir sobre a pergunta: “A Lei permite curar em dia de sábado, ou não?... Se algum de vós tem um filho ou um boi que caiu num poço, não o tira logo, mesmo em dia de sábado?”. Trata-se de uma nova maneira de conceber o “descanso” do Sábado, ou do domingo, no nosso caso, como cristãos. Com essa afirmação Jesus quer dizer aos fariseus e escribas e a todos nós que o Sábado ou o Domingo (para nós) é o dia da benevolência divina, o dia da redenção, da libertação, da misericórdia de Deus para os pobres, os excluídos, os perdidos, os pecadores, da ressurreição (para nós cristãos) e assim por diante. É o dia, por excelência, para fazer o bem, curar, salvar, ajudar, se solidarizar. É um dia de abertura aos demais: vida de família e de comunidade. É um dia de “saber descansar juntos”, cultivando valores humanos importantes. É um dia de caridade para partilhar o que somos e temos. Ao contrário, os fariseus e os escribas se preocupam com o descanso no Sábado e esquecem a vontade salvífica e amorosa de Deus pelo homem.


O homem hidrópico foi libertado por Jesus de sua hidropisia. A cura é sinal bastante evidente de que Deus está com Jesus e que Jesus age em virtude e no poder de Deus (At 10,38). Se curar um doente fosse proibido por Deus no Sábado, o homem não ficaria libertado de sua hidropisia.


Deus “pensa” na salvação do homem eternamente. Cada um de nós, seres humanos, está no pensamento de Deus, desde o princípio, pois o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (Gn1,26; 3,22b).  Para Deus ninguém é anônimo, pois Ele chama cada um de nós pelo nome (cf. Is 43,1). O nome de cada um de nós está tatuado nas palmas das mãos de Deus (cf. Is 49,16). E o nome significa pessoa. Em cada nome está a missão de cada um. Em função da importância do homem, Deus até enviou seu Filho unigênito para salvar a humanidade (cf. Jo 3,16). E por causa do amor sem limite de Deus pelo ser humano, o salmista chegou a fazer uma pergunta retórica em forma de oração: “Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra! Vossa majestade se estende, triunfante, por cima de todos os céus... Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes: Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles?” (Sl 8,2.4-5).


Jesus põe o ser humano acima de qualquer lei por sagrada que ela pareça ser. Que lugar ocupa o ser humano nas nossas atividades pastorais, nos movimentos, na política, na economia e assim por diante? De que maneira tratamos o ser humano que para Deus ele está acima de tudo? As regras são importantes desde que ajudem o ser humano a se desenvolver para viver na sua dignidade. Será que somos escravos das regras e das normas litúrgicas esquecendo o ser humano? Será que ao colocar as normas acima do ser humano, sem querer, manifestamos nosso pouco amor pelas pessoas? Será que sabemos acolher as pessoas ou nos preocupamos com nossas “atividades pastorais?”.


 Na sua Carta Apostólica, Dies Domini, o Papa João Paulo II escreveu: “O domingo, de fato, recorda, no ritmo semanal do tempo, o dia da ressurreição de Cristo. É a Páscoa da semana, na qual se celebra a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, o cumprimento n'Ele da primeira criação e o início da « nova criação » (cf. 2 Cor 5,17). É o dia da evocação adorante e grata do primeiro dia do mundo e, ao mesmo tempo, da prefiguração, vivida na esperança, do « último dia », quando Cristo vier na glória (cf. Act 1,11; 1 Tes 4,13-17) e renovar todas as coisas (cf. Ap 21,5).[Dies Domini,no.1]...Há-de-se implorar a graça da descoberta sempre mais profunda deste dia, não só para viver em plenitude as exigências próprias da fé, mas também para dar resposta concreta aos anseios íntimos e verdadeiros existentes em todo ser humano. O tempo dado a Cristo, nunca é tempo perdido, mas tempo conquistado para a profunda humanização das nossas relações e da nossa vida” (no.7)...Recebendo o Pão da vida, os discípulos de Cristo preparam-se para enfrentar, com a força do Ressuscitado e do seu Espírito, as obrigações que os esperam na sua vida ordinária. Com efeito, para o fiel que compreendeu o sentido daquilo que realizou, a Celebração Eucarística não pode exaurir-se no interior do templo. Como as primeiras testemunhas da ressurreição, também os cristãos, convocados cada domingo para viver e confessar a presença do Ressuscitado, são chamados, na sua vida quotidiana, a tornarem-se evangelizadores e testemunhas. A oração depois-da-comunhão e o rito de conclusão — a bênção e a despedida — hão-de ser, sob este aspecto, melhor entendidos e valorizados, para que todos os participantes na Eucaristia sintam mais profundamente a responsabilidade que daí lhes advém. Terminada a assembleia, o discípulo de Cristo volta ao seu ambiente quotidiano, com o compromisso de fazer, de toda a sua vida, um dom, um sacrifício espiritual agradável a Deus (cf. Rom 12,1). Ele sente-se devedor para com os irmãos daquilo que recebeu na celebração, tal como sucedeu com os discípulos de Emaús que, depois de terem reconhecido Cristo ressuscitado na « fracção do pão » (cf. Lc 24,30-32), sentiram a exigência de ir imediatamente partilhar com seus irmãos a alegria de terem encontrado o Senhor (cf. Lc 24,33-35)” (n. 45).


A partir de tudo que foi dito vem a pergunta: De que maneira nós vivemos o nosso Domingo, que é o Dia do Senhor e também é o dia da Igreja? Nós simplesmente cumprimos preceito ao ir à igreja aos domingos ou será que temos consciência de vamos escutar as lições do Senhor através de Sua Palavra proclamada e medita durante a celebração dominical?


Para Rezar e Refletir:


“Quando contemplo o firmamento, obra de vossos dedos, a lua e as estrelas que lá fixastes: Que é o homem, digo-me então, para pensardes nele? Que são os filhos de Adão, para que vos ocupeis com eles? Ó Senhor, nosso Deus, como é glorioso vosso nome em toda a terra!” (Sl 8).


Que é o homem, de quem cuidas? Um ponto de poeira num cosmos de luz. Mas, no ponto que sou eu, há outra criação  ainda mais maravilhosa do que o firmamento e as estrelas. O prodígio do meu corpo, o segredo das minhas células, o relâmpago que há nos meus nervos, o palácio do meu coração... E a animação da minha alma, a centelha do meu entendimento, o frêmito do meu sentimento, o pilar da minha fé. O milagre que está dentro de mim, bem como a Sua assinatura a ele aposta. Sorrio em reconhecimento quando vejo que fizeste de mim o rei da tua criação, inferior tão-somente, a Ti mesmo. Conheço a minha pequenez e a minha grandeza, a minha dignidade e a minha insignificância... Grande é o Teu nome, ó Senhor, por toda a terra... Quando encontro uma dificuldade na vida e penso em Ti, não é para pedir-Te que a remova, mas para que me dês forças para enfrentá-la; não é para impor-Te a minha solução, mas para que eu tome a Tua como minha. Eis por que És a minha fortaleza: porque És o meu ser” (Carlos G. Vallés: Busco Tua Face, Senhor. Ed. Loyola).

P. Vitus Gustama,svd

terça-feira, 28 de outubro de 2014

 
PODER-FAZER E PODER-SOBRE
É PRECISO CUMPRIR A MISSAO ATÉ O FIM APESAR DAS DIFICULDADES  

Quinta-Feira da XXX Semana Comum
30 de Outubro de 2014
 

Evangelho: Lc 13, 31-35

31 Naquela hora, alguns fariseus aproximaram-se e disseram a Jesus: “Tu deves ir embora daqui, porque Herodes quer te matar”. 32 Jesus disse: “Ide dizer a essa raposa: eu expulso demônios e faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. 33 Entretanto, preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém. 34 Jerusalém, Jerusalém! Tu que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados! Quantas vezes eu quis reunir teus filhos, como a galinha reúne os pintinhos debaixo das asas, mas tu não quiseste! 35 Eis que vossa casa ficará abandonada. Eu vos digo: não me vereis mais, até que chegue o tempo em que vós mesmos direis: Bendito aquele que vem em nome do Senhor”.
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Continuamos a acompanhar Jesus no seu Caminho para Jerusalém. Durante esse Caminho Jesus vai dando suas ultimas e importantes lições para seus discípulos (Lc 9,51-19,28) e portanto, para todos os cristãos em todos os tempos. Para Lucas, Jerusalém é tudo: onde acontece a cena da morte, da ressurreição, do nascimento da Igreja, e da expansão missionária.


É interessante notar, no evangelho de hoje, que os fariseus, que muitas vezes atacam Jesus de várias maneiras, desta vez, querem salvar sua vida ao lhe dizer: “Tu deves ir embora daqui, porque Herodes quer te matar”. Os que estão no poder consideram Jesus como um homem perigoso e por isso, querem eliminá-lo, embora Jesus apenas ajude as pessoas na sua dignidade. E Herodes seria capaz de fazer isso, pois ele já mandou decapitar João Batista alguns meses antes (cf. Lc 3,19).


O poder destrói a integridade; destrói a confiança; destrói dialogo; e destrói a relacionamentos. O poder sempre anda lado a lado com a soberba e o orgulho. “A soberba odeia a companhia! O orgulhoso procura por todos os meios brilhar solitário”, dizia Sant Agostinho (Epist. 140,42). Não há nada que nos isole dos outros tanto quanto o poder. Até mesmo a conversa humana comum é destruída pelo poder. Por causa do poder vivemos o drama do diálogo perdido. Por isso, vemos esse drama trágico entre maridos e mulheres, entre pais e filhos, entre patrões e empregados e assim por diante.


Os que têm sede do poder se preocupam com o poder-sobre do que com o poder-fazer. Querem mandar em tudo e em todos. Eles se preocupam na tomada do poder e não na dissolução do poder.  “Quem manda aqui sou eu” é a frase favorita de quem adora ao poder. “A transformação do poder-fazer em poder-sobre implica a ruptura do fluxo social do fazer. Os que exercem o poder-sobre separam o feito do fazer de outros e o declaram seu. A apropriação do feito é ao mesmo tempo a apropriação dos meios de fazer, e isso permite aos poderosos controlar o fazer dos fazedores. Os fazedores (os humanos, entendidos como ativos) estão separados assim de seu feito, dos meios de fazer e do próprio fazer. Qualquer tentativa de mudar a sociedade envolve o fazer, a atividade. O fazer, por sua vez, envolve a capacidade de fazer, o poder-fazer. Muitas vezes usamos a palavra “poder” nesse sentido, como algo bom, como quando uma ação junto com outros (uma manifestação ou inclusive um bom seminário) nos dá uma sensação de poder. O poder neste sentido tem seu fundamento no fazer: é o poder-fazer.” (John Holloway).


O pecado do poder consiste no desejo de ser mais do que aquilo para o qual fomos criados. “O homem foi criado para viver de acordo com a Verdade. Não viver como foi criado é viver na mentira permanente”, dizia Santo Agostinho (De civ. Dei 14, 4,1). “Aproximar-se de Deus é assemelhar-se a Ele. Afastar-se d’Ele é deformar-se” (Santo Agostinho. In ps 34,2,6).


Na sua resposta, diante desta ameaça, Jesus mostra aos fariseus (e Herodes) que ele próprio é quem decide seu caminho a seguir; Ele não se intimida pelos poderosos: “Ide dizer a essa raposa: eu expulso demônios e faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. Entretanto, preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã, porque não convém que um profeta morra fora de Jerusalém”. Raposo é um animal medroso que só Caça de noite e foge quando chegar a madrugada e corre rapidamente por causa de um pequeno perigo. Na gíria aramaica “raposa” tem um duplo sentido: animal astuto e animal insignificante em oposição a “leão”. Aqui a palavra “raposa” se aplica à pessoa insignificante e buliçosa/ inquieta que não merece respeito. Herodes é chamado de “raposa” para dizer que ele é um tipo de pessoa covarde, hipócrita que não quer se responsabilizar pela morte de Jesus, e Pilatos vai também nessa direção na condenação de Jesus (cf. Lc 23,6-12).


A tripla enumeração: “hoje, amanhã, e o terceiro dia” / “hoje, amanhã e depois de amanhã” serve para englobar um período de tempo largo e completo, isto é, o que resta de sua vida publica, durante o qual Jesus prosseguirá libertando o povo de todo tipo de ideologias contrárias ao plano de Deus (“expulsando demônios”) e de todo tipo de doenças morais e físicas que impede o povo de segui-lo com liberdade e dignidade humana (“curando”) até o fim de sua missão terrena (“terminarei meu trabalho”). Jesus não faz sua missão pela metade. Ele vive sua vida na totalidade e não pela metade. Jesus alcança a perfeição humana entregando sua vida para a salvação de todos.


A partir de Jesus aprendemos que precisamos fazer as coisas pelo bem de todos até onde nossa capacidade permitir. Quando cumprirmos nossa missão até onde a capacidade permitir, seremos pessoas realizadas e as outras serão beneficiadas.


Jerusalém que significa “cidade da paz” faz o contrário. Em vez de viver para criar a paz, Jerusalém provoca a violência: “Jerusalém, Jerusalém! Tu que matas os profetas e apedrejas os que te foram enviados!”, lamenta Jesus. Jerusalém não vive de acordo com seu nome: “cidade da paz”. Talvez possamos dizer isto, na linguagem de Santo Agostinho, para nosso contexto: “O nome de cristão traz em si a conotação de justiça, bondade, integridade, paciência, castidade, prudência, amabilidade, inocência e piedade. Como podes explicar a apropriação de tal nome se tua conduta mostra tão poucas dessas muitas virtudes?” (De vit. christ. 6).


Pelo Batismo nos é confiada a missão de proclamar a Boa Nova de salvação. No cumprimento fiel dessa missão não podemos dar-nos descanso: “Eu faço curas hoje e amanhã; e no terceiro dia terminarei o meu trabalho. Preciso caminhar hoje, amanhã e depois de amanhã”. São Paulo escreveu ao Timóteo: “Prega a palavra, insiste oportuna e importunamente, repreende, ameaça, exorta com toda paciência e empenho de instruir” (2Tm 4,2). Não podemos enterrar as oportunidades, pois precisamos viver para fazer o bem (cf. At 10,38). Eu preciso fazer o bem hoje, amanhã e depois de amanhã (em todos os dias da minha vida). Nisto alcançarei a minha perfeição humana.

P. Vitus Gustama,svd

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

 
FAZER-SE PEQUENO PARA TORNAR-SE GRANDE

Quarta-Feira da XXX Semana Comum
29 de Outubro de 2014
 

Evangelho: Lc 13,22-30

Naquele tempo, 22 Jesus atravessava cidades e povoados, ensinando e prosseguindo o caminho para Jerusalém. 23 Alguém lhe perguntou: “Senhor, é verdade que são poucos os que se salvam?” Jesus respondeu: 24 “Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita. Porque eu vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão”. 25 Uma vez que o dono da casa se levantar e fechar a porta, vós, do lado de fora, começareis a bater, dizendo: ‘Senhor, abre-nos a porta!’ Ele responderá: ‘Não sei de onde sois’. 26 Então começareis a dizer: ‘Nós comemos e bebemos diante de ti, e tu ensinaste em nossas praças!’ 27 Ele, porém, responderá: ‘Não sei de onde sois. Afastai-vos de mim todos vós que praticais a injustiça!’ 28 Ali haverá choro e ranger de dentes, quando virdes Abraão, Isaac e Jacó, junto com todos os profetas no Reino de Deus, e vós, porém, sendo lançados fora. 29 Virão homens do oriente e do ocidente, do norte e do sul, e tomarão lugar à mesa no Reino de Deus. 30 E assim há últimos que serão primeiros, e primeiros que serão últimos”.
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Continuamos a nos encontrar com Jesus no seu Caminho para Jerusalém (Lc 9,51-19,28). Para Jesus, Jerusalém é o ponto culminante e a meta decisiva, seja pela cruz de morte e triunfo, seja pela ascensão de Jesus ao céu. Neste caminho Jesus vai dando suas últimas instruções ou lições para que os discípulos possam levar adiante os ensinamentos de Jesus.


A lição dada aos discípulos nesta passagem é sobre o que e como o discípulo deve viver para merecer, pela misericórdia divina, a vida eterna (salvação). E para falar deste tema Lucas parte da pergunta de um anônimo (alguém) sobre a salvação. A pergunta desse anônimo é a pergunta de todos os que sabem que a vida tem o fim e por isso, todos os comportamentos ou modo de viver pesam para este fim. Interrogar-se pela salvação e desejar a vida eterna é interrogar-se pelo sentido da vida no presente: “Senhor, são poucos os que se salvarão?” (v.23).


Em vez de responder “quantos se salvarão” Jesus fala do “modo” como se salvar. Trata-se de um apelo urgente ao empenho: “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita, pois eu vos digo que muitos procurarão entrar e não conseguirão” (v.24).
 

“Esforçai-vos” (agonizesthi/agonizomai, de onde deriva a palavra “agonia”) é uma palavra que denota ação feita de todo o coração. É um termo técnico para competir nos jogos, e dele obtemos nossa palavra “agonizar”. Não se trata, por isso, de nenhum esforço desanimado. O caminho que conduz ao céu passa por uma luta intensa. Sobre esse empenho na luta São Paulo escreve: “Combate o bom combate da fé, conquista a vida eterna, para a qual foste chamado, como o reconheceste numa bela profissão de fé diante de muitas testemunhas” (1Tm 6,12; cf. 2Tm 4,7-8). O Reino de Deus é exigente, não “se ganha” comodamente. Em outra ocasião Jesus chegou a dizer: “É mais fácil o camelo passar pelo fundo de uma agulha do que o rico entrar no Reino de Deus” (Mc 10,25).
   

A porta é estreita porque não há salvação sem esforço e sacrifício depois que o pecado se instalou no mundo. Não é Deus quem estreita a porta, é o clima de pecado presente nas relações humanas que vai exigir escolhas nem sempre fáceis no caminho da salvação. A expressão “porta estreita” quer nos dizer que o problema da salvação é uma questão de empenho, de esforço, de conversão e de testemunho. A porta da salvação é estreita, mas está aberta para todas as pessoas de boa vontade, pessoas que se esforçam para viver na fraternidade.
  

Se a porta é estreita, então há uma só condição para entrar: tornar-se pequeno: “Em verdade vos digo que, se não vos converterdes e não vos tornardes como as crianças, de modo algum entrareis no Reino dos Céus. Aquele, portanto, que se tornar pequenino como esta criança, esse é o maior no Reino dos céus” (Mt 18,3-4).  Se a porta é estreita, então os “gordos” não conseguirão entrar. Não podemos ser discípulos de Jesus se não renunciarmos a ser grandes, poderosos, dominadores, arrogantes, prepotentes, donos da verdade. Pequeno é aquele que se sente extraviado, humilde e só pode apelar à misericórdia de Deus. Quem não assumir a atitude interior do pequeno, sejam quais forem as suas práticas religiosas, orações, catequese, sermões, até milagres (Mt 7,22), não conseguirá entrar.
      

Não há pessoas recomendadas junto a Deus, nem privilegiadas que possam se gabar diante d’Ele com base em sua pertença étnica, cultural ou religiosa (v.28). Não basta freqüentar a Igreja assistindo ou participando da missa. A única condição para ser reconhecido pelo Senhor, para fazer parte da comunhão salvífica é a vivencia do amor fraterno. É viver como irmão dos outros e tratar ao outro como irmão. Para passar pela porta do Reino precisamos praticar a justiça. E a justiça, mais do que questão de direito, isto é, dar a cada um o que lhe pertence e respeitar os direitos e a dignidade de todos, é uma questão de amor. Quem ama, pratica a justiça. A maior de todas as injustiças é a falta de amor, pois outras injustiças são fruto da falta de amor. Para o evangelho deste dia a justiça é como um bilhete de passagem para entrar no Reino de Deus, pois o Reino de Deus é o Reino de amor e de justiça.


No Sermão da Montanha Jesus nos avisou: “Entrai pela porta estreita, porque larga é a porta e espaçoso o caminho que conduzem à perdição e numerosos são os que por aí entram. Estreita, porém, é a porta e apertado o caminho da vida e raros são os que o encontram” (Mt 7,13-14). O Reino é aberto para todos, mas é exigente. Não se entra pela razão étnica ou pela associação a qual alguém pertence e sim pela resposta de fé que vivemos na convivência fraterna com os demais. O critério para entrar no Reino segundo o evangelho de Mateus é a caridade fraterna: dar de comer aos faminto e pobre, dar de beber aos sedentos, vestir os nus, acolher os estrangeiros, visitar os doentes e os presos (cf. Mt 25,40.45). Daí se vê qual é o sentido da porta estreita do céu. A caridade fraterna é a que mais nos custa, mas nos faz entrar no céu, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16).


A afirmação de Jesus “Esforçai-vos por entrar pela porta estreita” é uma mensagem de ânimo e de esperança para todos nós e para as pessoas de boa vontade. A esperança não ignora as dificuldades e os riscos de fracasso ocasionalmente, mas ela os enfrenta. A esperança não quer saber quando ganhará, mas simplesmente está convencida da vitória final. Praticar a esperança em Deus é renunciar ao passado, às feridas, aos medos e à escuridão para deixar-se guiar pela luz divina da qual surge a abertura que permitirá o homem chegar a uma vida nova e renovada. Praticar a esperança é abrir nossas asas não para fugir, mas para ascender a espaços de qualidade superiores dos anteriores. Deus não nos inspira sonhos sem nos dar também a força de realizá-los: “Javé é o Deus que me cinge de força e torna perfeito o meu caminho” (Sl 18,33).


Precisamos viver cada dia como se fosse o dia do juízo, e viver em plenitude cada dia como se fosse o último para nossa caminhada nesta terra. Pensar e viver desta maneira nos levam a melhorarmos nosso empenho, nossa convivência fraterna e a valorizarmos nosso tempo para fazer o bem. Na verdade ainda temos muita coisa para melhorar. É preciso que tratemos nossa vida com carinho, respeito e profundidade.

P. Vitus Gustama,svd
JUDAS TADEU E SIMÃO-APÓSTOLOS

SER CRISTÃO É SER ENVIADO DO SENHOR

28 de Outubro
 

Evangelho: Lc 6,12-19

12 Naqueles dias, Jesus foi à montanha para rezar. E passou a noite toda em oração a Deus. 13 Ao amanhecer, chamou seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de apóstolos: 14 Simão, a quem impôs o nome de Pedro, e seu irmão André; Tiago e João; Filipe e Bartolomeu; 15 Mateus e Tomé; Tiago, filho de Alfeu, e Simão, chamado Zelota; 16 Judas, filho de Tiago, e Judas Iscariotes, aquele que se tornou traidor. 17Jesus desceu da montanha com eles e parou num lugar plano. Ali estavam muitos dos seus discípulos e grande multidão de gente de toda a Judeia e de Jerusalém, do litoral de Tiro e Sidônia. 18 Vieram para ouvir Jesus e serem curados de suas doenças. E aqueles que estavam atormentados por espíritos maus também foram curados. 19 A multidão toda procurava tocar em Jesus, porque uma força saía dele, e curava a todos.
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No dia 28 de outubro a Igreja celebra a festa dos Apóstolos Simão, o Cananeu, e Judas Tadeu, juntos. Nos evangelhos e nos Atos dos Apóstolos, os dois estão sempre juntos na lista dos Apóstolos, um ao lado do outro (cf. Mt 10, 4; Mc 3, 18; Lc 6, 15; At 1, 13). Não há muitos dados a respeitos dos dois.


No Evangelho de Mateus Simão tem qualitativa de “cananeu”. Em hebraico o verbo “qanà” significa “ser zeloso”. Não é por acaso que o evangelho de Lucas chama-o de “zelota” ou “zelote” ou “dedicado”. Ser zeloso, aqui, significa ser dedicado no serviço total a Deus e no serviço do povo para o qual foi eleito (cf. Ex 20,5; 1Rs 19,10: Elias se dedica totalmente ao Deus único, defensor do monoteísmo).


O segundo Apostolo cuja festa nós celebramos também neste dia (mais popular do que Simão, por ser considerado, popularmente, como santo das causas e coisas impossíveis). Os evangelhos Mateus e Marcos chamam esse Apostolo com um nome só: “Tadeu” (Mt 10,3; Mc 3,18); Lucas chama-o com dois nomes: “Judas de Tiago”  ou “Judas filho de Tiago” (Lc 6,16; At 1,13).


Sobre o Apóstolo Judas Tadeu, também, temos muito poucos dados. O evangelista João registrou a pergunta desse Apostolo para Jesus, cuja atualidade jamais perdida: “Senhor, por que te manifestarás a nós e não ao mundo?” (Jo 14,22: durante a Última Ceia). De fato, o Ressuscitado não se manifestou aos seus adversários para mostrar que quem vence é sempre Deus e quem está com Deus (cf. Rm 8,31-39). Deus continua respeitando a liberdade do homem, mas continua espera a volta de cada homem com misericórdia (cf. Lc 15,11-32). O caminho de Deus é totalmente diferente dos caminhos dos homens (cf. Is 55,8). O homem gosta de se exibir (cf. Mt 23,1-12). Deus prefere o caminho simples, sem barulho (cf. 1Rs 19,1-18; Mt 11,25-28). Segundo Jesus, na sua resposta à pergunta de Judas, Deus se manifesta e faz Sua morada no coração que sabe amar: “Se alguém me ama, guardará minha palavra e o meu Pai o amará e a ele viremos e nele estabeleceremos morada” (Jo 14,23). O amor no coração nos faz percebermos a presença de Deus. “Amando ao próximo tu limpas os olhos para ver a Deus” (Santo Agostinho. In Joan. 17,8).


Uma das Cartas do NT, chamadas cartas “católicas” (porque não são destinadas para determinada comunidade ou Igreja), é atribuída a Judas Tadeu (Carta de São Judas tem apenas 25 versículos). Nesta pequena Carta Judas Tadeu adverte a todos para não seguirem ensinamentos falsos e inaceitáveis, pois capazes de criar divisão dentro da própria comunidade. Segundo o autor dessa Carta, aqueles que seguem as doutrinas falsas e inaceitáveis são comparados com “os anjos caídos”, “nuvens sem água que os ventos levam”, “arvores sem frutos” (cf. vv. 11-13). Alem disso, nessa Carta, o autor encoraja os leitores para não terem medo diante das dificuldades e desafios, pois Deus vai guardar Seus fieis (v. 24). É preciso ter fé em Deus (v.20). Mas, ao mesmo tempo, o autor pede que andemos pelo caminho de indulgência: “Vocês, porém, amados, construam sobre o alicerce da santíssima fé que vocês têm; rezem movidos pelo Espírito Santo; mantenham-se no amor de Deus, esperando que a misericórdia de nosso Senhor Jesus Cristo lhes dê a vida eterna. Procurem convencer os vacilantes: salvem a uns, arrancando-os do fogo; tenham compaixão de outros, mas com temor. Detestem até a roupa contaminada pelos instintos egoístas dos ímpios..." (vv. 20-23).


Os dois Apóstolos nos ajudam a vivermos nossa fé incansavelmente apesar das aparências poderosas das situações e dificuldades que encontramos na nossa vida. Deus é bom e Ele é amor, e por isso, podemos confiar nele em todos os momentos de nossa vida.

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A passagem do Evangelho de hoje é lida em função da festa dos dois Apóstolos que narra a instituição solene dos Doze.


 Jesus subiu ao monte”, assim Lucas começou seu relato. Monte é o lugar das grandes decisões, um lugar solitário propício para a oração, um lugar de amplos horizontes de onde se vê longe. Jesus nos ensina a aprendermos a ampliar nosso horizonte. Quanto mais subirmos, mais ampla será a visão que teremos. Para isso, temos que ter coragem de subir, de sair de nosso canto de sempre, sem medo. É aprender a ver a vida de maneira multiangular.  Eu posso fracassar em um modo de atuar, mas não significa que eu seja um fracassado para minha vida inteira. Deus me dá oportunidade para adotar outra maneira de viver tirando lição da maneira que eu vivi. O conservador não tem futuro porque não aceita novidade e teme por aquilo que é novo. Mas o mundo continua mudando e eu continuo parado e paralisado.


Jesus subiu ao monte para rezar”. Na escolha dos Doze Apóstolos Jesus entra em oração, porque ele não pode ser movido pelos critérios humanos que não sejam aqueles do Reino de Deus. Simpatia, riqueza, de uma família nobre e assim por diante não entram como critério. Jesus quer alguém como apóstolo. A palavra “apóstolo” vem do grego que significa “enviado”. “Apóstolo” era um termo de caráter jurídico na época. O Apóstolo era o representante plenipotenciário de quem o enviava. Neste caso Jesus precisa ter muito discernimento para escolher quem realmente pode representá-lo como enviado. O sucesso da obra de Jesus depende do bom empenho do seu enviado. O apóstolo é o prolongamento do Senhor neste mundo. Jesus falará e agirá no mundo através de cada apóstolo.


A oração é tão importante na escolha dos apóstolos a ponto de Lucas nos relatar que Jesus “passou a noite toda em oração a Deus”. Alguns especialistas interpretam que a palavra “noite” aqui quer indicar a perplexidade que invade Jesus. E a oração é meio de clarificação a fim de que Deus dê luz verde naquilo que Jesus quer realizar com a ajuda dos apóstolos para a salvação do mundo. Por isso, Lucas nos relatou que Jesus não escolheu seus apóstolos à noite e sim ao amanhecer: “Ao amanhecer, chamou seus discípulos e escolheu doze dentre eles, aos quais deu o nome de apóstolos”. Há aqui o objetivo da oração de Jesus durante toda a noite: Sua Igreja. É o projeto que apesar de tudo continua durando até hoje (cf. Mt 16,18). Por isso, a instituição dos Doze é um momento solene para a história da Igreja, particularmente, e para a história da humanidade de modo geral.


Segundo alguns especialistas a expressão “ao amanhecer” indica que a oração obteve resultados positivos, pois não se pode tomar decisões enquanto alguém estiver nas trevas ou na perplexidade de uma escuridão de vida (“noite”). Estar na oração significa estar com Deus. E estar com Deus é estar com a luz que ilumina tudo na nossa vida (“amanhecer”). Aqui percebemos que a oração tem uma função de clarear nossa visão sobre tudo na nossa vida.


Os Doze não são grandes personalidades. É o estilo de Deus que vai escolhendo para sua obra pessoas débeis, mas que se esforçam para dar o melhor de si para salvação do mundo, pois agente principal desta obra continua sendo o próprio Deus. A lista dos que foram escolhidos como apóstolos se abre com Pedro e se fecha com Judas. Pedro representa fidelidade apesar das fraquezas. Judas representa infidelidade e se desespera. Pedro e Judas, símbolos de fidelidade e infidelidade, resumem a historia da Igreja e a historia pessoal de cada discípulo. O importante é que não cerremos nossa relação com Jesus com uma traição.
    

Os Apóstolos já cumpriram sua missão. E por causa dos missionários próximos de nós, conhecemos Jesus. Não podemos deixar morrer na nossa mão está missão. Precisamos ser apóstolos do Senhor e fazer os outros apóstolos. Ser apóstolo não é trazer os outros para si e sim orientá-los para o encontro pessoal com Jesus, o Salvador. 

P. Vitus Gustama,svd