domingo, 30 de novembro de 2014

 
A SIMPLICIDADE É O ESPAÇO ONDE DEUS SE REVELA  

Terça-Feira da I Semana do Advento
02 de Dezembro de 2014
 

Evangelho: Lc 10,21-24 (I Leitura: Is 11, 1-10)

21 Naquele momento Jesus exultou no Espírito Santo e disse: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. 22 Tudo me foi entregue pelo meu Pai. Ninguém conhece quem é o Filho, a não ser o Pai; e ninguém conhece quem é o Pai, a não ser o Filho e aquele a quem o Filho o quiser revelar”. 23 Jesus voltou-se para os discípulos e disse-lhes em particular: “Felizes os olhos que vêem o que vós vedes! 24 Pois eu vos digo que muitos profetas e reis quiseram ver o que estais vendo, e não puderam ver; quiseram ouvir o que estais ouvindo, e não puderam ouvir”.

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O texto do evangelho lido neste dia se encontra no contexto do envio dos setenta (e dois) discípulos para a missão e sua volta da mesma (Lc 10,1-24). Eles voltaram da missão, conscientes de terem libertado os homens do mal, moral e físico (Lc 10,17) pelo uso do nome de Jesus (poder messiânico). A chegada de Jesus abole o estado de escravidão e permite ao homem ter acesso para a verdadeira liberdade. Jesus louva a Deus por todo este êxito.


O texto começa com a oração de louvor e de ação de graças de Jesus: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra...”. Jesus experimentou um gozo exultante, provindo do fundo de seu coração e que se transborda nas suas palavras ou na oração de ação de graças. A ação de graças, a oração de Jesus surge da contemplação do trabalho que o Pai está fazendo no coração dos homens através de seus apóstolos. Deus trabalha no coração de cada homem, inclusive no coração dos que se dizem ateus. Toda vez que uma pessoa se supera e faz o bem, nós devemos reconhecer que Deus está nessa pessoa. E ajudar essa pessoa a dar um passo adiante significa trabalhar com Deus e acompanhá-Lo.


Mas quais são os homens em cujos corações Deus está fazendo sua obra de salvação? A quem Deus revela seus segredos? Quem é capaz de conhecer e reconhecer os mistérios de Deus neste mundo? Estas são as perguntas lançadas implicitamente no texto do evangelho de hoje. A resposta é esta: Deus se revela aos simples, aos pequeninos, aos que não têm nenhuma pretensão, aos que se entregam totalmente à ação de Deus na sua vida: Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos”. Nestas pessoas a graça se frutifica em boas obras para o bem de todos. Essas pessoas produzem algo de bom para a humanidade, pois a graça de Deus flui nelas como a seiva flui do tronco aos ramos a fim de produzirem mais frutos (cf. Jo 15,1-5).


Por que Deus se revela aos simples/pequeninos, e por que os simples/pequeninos têm facilidade de captar as coisas de Deus?


Porque o simples não se louva nem se despreza. Ele é o que é, simplesmente, sem desvios, sem afetação. É a vida sem exageros. O simples não simula nada, pois simular a humildade e a simplicidade significa uma grande arrogância de quem puxa tudo para seu lado para ser centro de atenção. “É mais fácil simular virtudes que possuí-las. Por isso, o mundo está cheio de farsantes” (Santo Agostinho: De mor. Eccl. cath. 1,12). O simples é capaz de reduzir o mais complexo ao mais simples. O presente é sua eternidade, e o satisfaz. “A simplicidade é o ultimo degrau da sabedoria (Kahlil Gibran).


A simplicidade aprende a se desprender, acolher o que vem sem nada guardar como coisa sua, pois para ele tudo é dom e vive no mundo de gratuidade. Simplicidade é nudez, despojamento, pobreza. Simplicidade é liberdade, leveza, transparência. A simplicidade é a transparência do olhar, pureza do coração, sinceridade do discurso, retidão da alma e do comportamento. A simplicidade é a espontaneidade, a improvisação alegre, desprendimento, desprezo do prevalecer. A simplicidade é o esquecimento de si, é nisso que ele é uma virtude. É por isso que a simplicidade é a virtude dos sábios e a sabedoria dos santos.


De fato, conhecer Deus não é primordialmente uma operação intelectual, reservada a uma elite. Os pequenos, os simples podem descobrir coisas sobre Deus que os entendidos não conseguem compreender.


Aqueles que aceitarem Jesus Cristo e sua mensagem serão capazes de ver as coisas de outro modo e poderão construir uma convivência humana baseada na equidade, pois eles se deixam invadir pela ação do Espírito como Jesus se deixava conduzir totalmente pelo Espírito. No texto de hoje o Espírito invade Jesus com sua alegria. A ação do Espírito ocupa, certamente, o centro da liturgia de hoje.


Celebrar o Advento não é outra coisa que deixar-nos modelar interiormente pela presença do Espírito, criar espaço em nossa vida para que possamos receber seus dons de sabedoria, de discernimento e assim por diante, necessários para descobrir o caminho por onde Ele quer que caminhemos neste mundo. A celebração da liturgia do Advento também nos convida à alegria e à esperança. Não podemos cair no desânimo ou na frustração que não são dons do Espírito.


 “Naquele momento Jesus exultou no Espírito Santo e disse: “Eu te louvo, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste essas coisas aos sábios e inteligentes, e as revelaste aos pequeninos”.


Ao colocar estas frases no seu evangelho o evangelista Lucas quer colocar o máximo possível em destaque os fatos que aconteceram pela primeira vez. Finalmente, há um grupo de discípulos que foi capaz de expulsar as falsas ideologias que tornavam as pessoas escravas das mesmas. Através da missão bem feita levada ao término por estes personagens desconhecidos até então na sociedade e da reação exultante de Jesus, o evangelista Lucas antecipa sobre como deverá ser a missão ideal: aberta, universal e libertadora.


É preciso que sejamos personagens conhecidos por Deus embora não sejamos reconhecidos pela sociedade que adora ao poder e ao exibicionismo. Sejamos sábios e inteligentes de Deus! O homem que é firme, paciente, simples, natural e tranquilo está perto da virtude”, dizia o sábio chinês, Confúcio.

P. Vitus Gustama,svd

sábado, 29 de novembro de 2014

 
UMPAGÃOQUE CRÊ E AMA

Segunda-Feira da I Semana do Advento
01 de Dezembro de 2014


Evangelho: Mt 8,5-11

Naquele tempo, 5quando Jesus entrou em Carfanaum, um oficial romano aproximou-se dele, suplicando: 6Senhor, o meu empregado está de cama, em casa, sofrendo terrivelmente com uma paralisia”. 7Jesus respondeu: “Vou curá-lo”. 8O oficial disse: “Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa. Dize uma palavra e o meu empregado ficará curado. 9Pois eu também sou subordinado e tenho soldados sob minhas ordens. E digo a um: ‘Vai!, e ele vai; e a outro: ‘Vem!, e ele vem; e digo a meu escravo: ‘Faze isto!, e ele o faz”. 10Quando ouviu isso, Jesus ficou admirado, e disse aos que o seguiam: “Em verdade, vos digo: nunca encontrei em Israel alguém que tivesse tanta . 11Eu vos digo: muitos virão do Oriente e do Ocidente, e se sentarão à mesa no Reino dos Céus, junto com Abraão, Isaac e Jacó”.
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Segundo Mateus, o primeiro milagre operado por Jesus (a cura do leproso) foi para um membro do povo de Deus (cf. Mt 8,1-4). O segundo milagre foi em favor de um pagão. Tudo é um programa. O movimento missionário da Igreja está presente nesse segundo milagre. A salvação de Deus não está reservada para uns poucos. Deus ama a todos os homens. O amor de Deus rompe as barreiras que levantamos entre nós. Jesus fez seu segundo milagre em favor de um oficial romano, em favor de um pagão, pois ele amava o próximo. Os romanos eram mal vistos pela população, pois ocupavam a Palestina.
 

Quando Jesus entrou em Cafarnaum, um oficial romano aproximou-se dele, suplicando:Senhor, meu empregado está de cama, paralitico!’ “


Um oficial romano!”. “Um estrangeiro!”. Um estrangeiro, mais ainda um romano, não pertence ao Povo eleito. Por ser estrangeiro, ele é impuro na concepção do Povo eleito. Por ser impuro não pode receber as bênçãos do Senhor. Mas será mesmo que ele é impuro? O evangelista Mateus quer superar essa mentalidade separatista e discriminatória ao colocar, no seu evangelho, a história de um oficial romano cujo coração está cheio de amor para com o próximo.


O oficial romano do qual fala o evangelho deste dia demonstra sua grande bondade para com o próximo, para com seu empregado/escravo, apesar de não pertencer ao Povo de Israel. Sua sensibilidade humana ou sua humanidade é tão alta a ponto de ele se preocupar com seu escravo (empregado). Ele trata seu escravo como se fosse membro de sua família.  Ele não manda nenhum subordinado para procurar Jesus, mas é ele próprio quem se aproxima de Jesus para pedir a ajuda (cura) em favor do seu escravo/empregado. É um patrão exemplar! É um oficial extraordinário. É um líder que ama. Um líder que ama, é respeitado. Um líder temido, geralmente, não é respeitado.


Ao atender esse oficialpagão” Jesus quer nos mostrar que ele não aceita nossas divisões, nem nossos racismos nem nossas discriminações. O coração de cada seguidor de Jesus deve ser universal e missionário, como o próprio coração de seu Mestre, Jesus Cristo.
       

É impressionante também a profunda humildade desse oficial ao dizer a Jesus: “Senhor, eu não sou digno de que entres em minha casa. Dize uma palavra e o meu empregado ficará curado”. Este oficialpagão” é muito consciente da lei judaica a respeito dos pagãos. Ele não quer pôr Jesus em uma situação de “impureza legal”. Por isso, ele quer evitar que Jesus entre em sua casa. “Dize uma palavra e o meu empregado ficará curado“, diz o oficial a Jesus. Este homem valoriza e acredita no poder da Palavra de Jesus, porque ele sabe que a Palavra de Jesus está cheia de autoridade e de poder, pois Jesus é a própria Palavra de Deus (cf. Jo 1,1.14).


Jesus elogia esse homem porque acredita no poder da palavra de Jesus: “Em verdade, vos digo: em ninguém em Israel encontrei tanta ”. É a de quem se considera pagão. Mas se comporta como um verdadeiro cristão. Jesus elogia quem acredita no poder de Sua palavra.


Jesus põe em contraste a incredulidade dos seus contemporâneos com a do pagão: “Em verdade, vos digo: em ninguém de Israel encontrei tanta ”. A que Jesus exige é um impulso de confiança e de abandono pelo qual o homem renuncia a apoiar-se em seus pensamentos e em suas forças para abandonar-se à Palavra divina e ao poder d’Aquele em quem o homem deve acreditar.


O oficial romano não pertence a uma Igreja ou a uma religião, oficialmente, porém se comporta como um verdadeiro homem de Deus. É um verdadeiro e autêntico cristão. Podemos encontrar os cristãos em qualquer religião, crença ou grupoVós os reconhecereis pelos seus frutos” (Mt 7,16.20). Com efeito, o paganismo não depende da pertença ou não a uma religião. O paganismo depende do modo de viver e de se comportar para com os demais homens. Por causa do modo de viver há cristãos- pagãos comotambém pagãos- cristãos. Um cristão pode ser um pagão por causa do seu modo de viver não-cristão. E aquele que se diz pagão pode ser um verdadeiro cristão se comportar-se como o oficial romano que se preocupa com o bem do outro.


Senhor, meu empregado está de cama, paralitico”. A oração desse homem serve de exemplo para nós. Ele expõe simplesmente a situação; descreve a doença. E o mais notável é que ele pede em favor do outro, de seu empregado. É uma oração de intercessão. Será que eu rezo somente por mim mesmo, somente pela minha família? Será que tem lugar na minha vida uma oração de intercessão?


Antes de receber o Corpo do Senhor na comunhão, repetimos a frase desse oficial romano: “Senhor, eu não sou digno de que entres em minha morada. Dize uma palavra, serei salvo”. A Eucaristia quer curar nossas debilidades. O próprio Senhor Jesus se faz nosso alimento e nos comunica sua vida: “O Pão que eu darei é a minha carne para a vida do mundo. Quem come minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna” (Jo 6,51.54). Em cada verdadeira Comunhão do Corpo do Senhor acontece uma verdadeira transfusão de vida: a vida de Jesus passa a ser a vida de quem a recebe na comunhão. Quando isso acontecer, será cumprido tudo aquilo que São Paulo escreveu: Eu vivo, mas não sou eu; é Cristo que vive em mim (Gl 2,20).


Podemos também pedir a Jesus da seguinte maneira: “Senhor Jesus, mesmo que eu não seja digno de recebê-Lo na minha vida, na minha família, mas pode entrar para que minha vida, minha família seja digna de receber sua bênção. Se em Belém o Senhor não encontrava nenhum abrigo para seu nascimento, entre na minha família e renasça entre nós para que minha família esteja cheia de luz para depois irradiá-la para os demais.


Jesus não encontrou a naqueles que se acham “crentes”. “Em verdade, Eu vos digo: em ninguém em Israel encontrei tanta ”. Ele encontrou a fé naquele é considerado “pagão”. Será que o Senhor encontrou a fé em mim ou apenas naqueles que não pertencem a nenhuma Igreja, mas acreditam? Será o Senhor encontrou o amor em mim ou somente naqueles que não freqüentam Igreja nenhuma?

P. Vitus Gustama,svd

sexta-feira, 28 de novembro de 2014

I

ADVENTO: O SENHOR VEM ME VISITAR. O QUE PRECISO FAZER?

Sabemos que, civilmente, o ano novo começa no dia primeiro de janeiro. Mas, na liturgia, o ano novo (um novo ano litúrgico) começa no primeiro domingo do Advento e termina no XXXIV domingo do Tempo Comum, na festa do Cristo, Rei do Universo. Na liturgia, há três anos: o ano “A”, durante o qual refletimos sobre o evangelho de Mateus; o ano “B”, o evangelho de Marcos; e o ano “C”, o evangelho de Lucas. O evangelho de João é refletido durante as festas, como no Natal, no tempo da páscoa e em alguns domingos do Ano Marcos, pois o evangelho de Marcos é curto, tem 16 capítulos.


O termoAdvento” significa “vindaouchegada”. O “Advento” indicava, na linguagem pagã, a vinda periódica de Deus e sua presença teofânica no templo. Equivale a “retornoouaniversário”. Do ponto de vista cristão, Advento era a última vinda do Senhor no final dos tempos. Mas, ao se instaurarem as festas do Natal e da Epifania, o Advento significou também a vinda de Jesus na humildade da carne.


A partir desse sentido, o Advento é tempo de na esperança, que nos prepara para a dupla vinda do Senhor: a vinda histórica, na encarnação, por meio de Maria (Natal), e a vinda escatológica, ao final dos tempos (Parusia). Essas duas vindas são consideradas como uma , desdobrada em duas etapas. Essa dupla dimensão caracteriza todo o Advento. São Bernardo acrescentou uma vinda: a vinda do Senhor às almas pela graça. Essa é a vinda principal, sem a qual as outras duas nos resultariam inúteis ou perigosas. Sem a graça na alma, torna-se inútil a primeira vinda de Cristo para nos redimir, pois a graça é o fruto da redenção. E sem a graça na alma, será terrível a segunda vinda de Cristo para nos julgar, porque seria, então, como uma vinda para nos condenar.


Quando se fala da vinda, fala-se também da espera. Esperar é situar-se em estado de receptividade. Mas a nossa espera deve ser acompanhada com esperança. Esperar com esperança é estar convencido de que, pela fidelidade de Deus, vai nos chegar algo que supera nossas forças e que deve vir: o Reino de Deus em sua plenitude. O estado de receptividade exige outra atitude: vigilância. “Vigiar” equivale a velar solicitamente sobre algo ou sobre alguém durante um tempo, até alcançar o final desejado. A vigilância diante da chegada de Deus equivale a estar desperto, em disposição de serviço, com uma atitude atenta diante do futuro, sem evasão do presente, apesar da indiferença encontrada neste mundo. A vigilância consiste em discernir os sinais dos tempos para reconhecer a presença de Deus e do seu reino nos acontecimentos. Preciso descobrir o que Deus quer de mim e o que Ele quer me falar através de tudo isso. Mas, se converter um processo religioso da espera em algo comercial que logo pode converter-se em qualquer coisa, o cristão não espera mais em nada e a esperança cristã será uma palavra vazia e que, precisamente por isso, segue a lei do vazio de deixar-se preencher por outras esperanças caducas.


É preciso esperar a chegada do Senhor com humildade. Ser humilde significa aceitar a parte terrena que todos temos; significa descer, buscar e encontrar tudo o que somos, aceitando-nos tal como somos. Quando o coração se faz humilde, ele é capaz de amar em abundância. Ser humilde é deixar a luz de Deus entrar no nosso coração para fazer desaparecer os maus sentimentos que produzem nossas misérias. Nunca serei compassivo, se eu não admitir minha dureza interior. Nunca chegarei a ser criativo, se eu não for capaz de reconhecer toda a minha mesquinhez que se esconde no meu coração. “Humildade é a honesta confissão do ser pecador. É melhor um pecador humilde que um beato orgulhoso” (Santo Agostinho).


Portanto, aproveitemos o Advento para dar um bom passo ao nosso interior. Façamo-nos humildes e teremos a grande felicidade de viver plenamente o Natal. FELIZ ADVENTO!!!   SHALOM !!!

P. Vitus Gustama,svd


II


VIGILÂNCIA CRISTÃ É ESTAR PREPARADO PARA ACOLHER O SENHOR QUE VEM NOS SALVAR

I DOMINGO DO ADVENTO DO ANO “B”
30 de Novembro de 2014

Evangelho: Mc 13,33-37

Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: 33 Cuidado! Ficai atentos, porque não sabeis quando chegará o momento. 34 É como um homem que, ao partir para o estrangeiro, deixou sua casa sob a responsabilidade de seus empregados, distribuindo a cada um sua tarefa. E mandou o porteiro ficar vigiando. 35 Vigiai, portanto, porque não sabeis quando o dono da casa vem: à tarde, à meia-noite, de madrugada ou ao amanhecer. 36 Para que não suceda que, vindo de repente, ele vos encontre dormindo.
37O que vos digo, digo a todos: Vigiai!

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Mc 13,1-37, onde se encontra o texto evangélico deste domingo primeiro domingo do Advento do Ano litúrgico “B”, é conhecido como “Apocalipse de Marcos” ou “discurso escatológico”. É um discurso mais amplo de Jesus de todo o evangelho de Mc. Mc abre a seção com a admiração dos discípulos pelo esplendor do Templo(v.1), que  recebe a resposta de Jesus sobre o desaparecimento iminente de todo esse esplendor(v.2). Por isso, surge a pergunta dos discípulos sobre o tempo em que  tudo isso acontecerá e os sinais que anunciarão isso(vv. 3-4). Percebemos na seqüência da narrativa que a pergunta não se faz a respeito da destruição do templo, e sim a respeito dos últimos dias, pois o discurso vai falar dos acontecimentos dos últimos dias e dos sinais que precederão, e não da destruição de Jerusalém e do templo.
  

Neste capítulo 13, Mc une diversas matérias: algumas são propriamente apocalípticas que descrevem os acontecimentos dos últimos dias e a atitude requerida perante os mesmos(vv.7-8.14-20.24-27; e outro bloco: vv.5-6.21-23); outras têm o tom de consolação e conforto para os cristãos nos momentos de perseguição(vv.9-13). E no fim do discurso encontram-se outras matérias diversas: a parábola da figueira(vv.28-29); o momento da parusia(vv.30-32) e termina com a exortação para a vigilância(vv.33-37).
    

Apesar das matérias diversas, Mc consegue colocar todas elas dentro duma inclusão literária constituída pelos vv.5 e 37 que enfatiza a importância da vigilância. Na exortação inicial fala-se do perigo dos falsos messias que surgem sempre quando a sociedade passa por uma crise profunda o que leva a tomar uma atitude de vigilância(vv.5-6). E na última exortação fala-se da falsa segurança. Daí percebemos a intenção de Mc em alertar os cristãos para que estejam vigilantes constantemente, pois ninguém sabe quando chegará o “momento”(v.33). O que o mais importante, então, não é o momento em que isso acontecerá, e sim o que deve-se fazer para que ninguém  se pegue de surpresa.
   

O ensinamento que nos oferece esta unidade narrativa tem como destinatários a um grupo restringido de discípulos(cf. Mc 13,3). Esta unidade se situa imediatamente antes dos acontecimentos da paixão e da morte de Jesus que pode nos induzir a pensar que nos encontramos diante de um discurso de despedida. Em seus últimos dias em Jerusalém, Jesus revelaria aos mais íntimos os sofrimentos e perigos que lhes aguardavam, exortando-lhes a fidelidade e a perseverança na missão que lhes havia confiada.. Sem dúvida, neste discurso faltam as marcas características dos discursos de despedida(cf. Jo 13-17). Por isso, este discurso deve-se considerar muito mais como um discurso escatológico, do que um simples discurso de despedida, que com uma linguagem profético- apocalíptica, descreve a missão da comunidade cristã no período intermédio , isto é, no presente.
  

A missão confiada à comunidade cristã não é fácil. Ela tem que seguir fielmente os ensinamentos de Jesus Cristo a ponto de ser crucificada como ele. Da comunidade cristã exigem-se a fidelidade, a coragem e a vigilância no presente, sublinhando o futuro que lhe aguarda. A vitória que lhe aguarda faz a comunidade lutar sem medo apesar de dificuldades que ela encontra no caminho.


Mensagem do texto de Mc 13,33-37
  

Não é difícil descobrir o tema central do Evangelho deste Domingo: basta observar qual é a palavra que aparece mais vezes. É o verbo “vigiar” que em cinco versículos é repetido com uma insistência quase excessiva.

Por que temos que vigiar?
  

Jesus nos dá este motivo: “Prestai atenção, vigiai, pois não sabeis quando será o tempo/momento”(v.33). “Tempo” ou “momento” é uma tradução da palavra grega “kairós”. “Kairós” indica um tempo determinado e tem aqui uma conotação escatológica de tempo determinado por Deus para a vinda gloriosa do Cristo. Esse “tempo determinado” é desconhecido dos homens. Daí a necessidade de estar sempre vigilante à espera desse tempo determinado por Deus.
  

A exortação de Jesus à vigilância visa criar no nosso coração a atitude correta de quem deseja acolher o Senhor que vem ao nosso encontro. A exortação não fornece o temor e a angústia, pois, de fato, nós esperamos o que já temos garantido pela fé que é o fundamento de nossa esperança. E por sua vez, a esperança mantém e reaviva o nosso amor por Cristo que vem. Por isso, a espera cristã deve ser produtiva, alegre e serena.
  

Mas o que é vigiar?

Vigiar, no sentido próprio, significa renunciar ao sono da noite; pode-se fazê-lo para prolongar o trabalho(Sb 6,15) ou para evitar ser apanhado de surpresa por um inimigo(Sl 127,1s). Daí o sentido metafórico: vigiar é lutar contra o torpor e a negligência a fim de se chegar à meta visada(Pv 8,34). Para o crente/cristão a meta é estar pronto para receber o Senhor, quando chegar o seu Dia; é por isso que ele vigia e está vigilante, a fim de viver na noite sem ser da noite.
   

Nos evangelhos sinôticos, a exortação à vigilância é a principal recomendação de Jesus a seus discípulos como conclusão do seu discurso escatológico . A vigilância caracteriza, portanto, a atitude do cristão/discípulo que espera e aguarda a volta do Senhor: ela consiste antes de tudo em manter-se em estado de alerta, e com isso mesmo exige o desprendimento dos prazeres e dos bens da terra(Lc 21,34ss). A Igreja é a assembléia que sempre deve estar em estado de vigilância, lendo a vinda do Senhor nos acontecimentos, para permitir-lhe um encontro feliz com o Senhor glorioso.
   

Concretamente podemos dizer que vigiar significa pôr em prática as palavra de Jesus, especialmente o mandamento do amor. Significa enfrentar a tentação do egoísmo, que nos leva a convencer-nos da inutilidade de fazer o bem. Significa acreditar que vale a pena lutar para construir o Reino de Deus, a exemplo de Jesus, num mundo onde a injustiça e a maldade parecem falar mais alto. Significa estar sempre disposto a perdoar e a se reconciliar, revertendo a espiral da violência que assume proporções sempre maiores. Significa ser capaz de detectar tudo quanto possa desviar nossa atenção do convite de Deus para o encontro definitivo com Ele. Significa estar vigilante no que se deve falar e no que não se deve: ser vigilante nos comentários, nos julgamentos etc....Vigiar é aprender a falar o necessário.  É aprender a ficar em silêncio para avaliar as palavras soltas sem reflexão para não repeti-las novamente.
  

A vigilância é a atitude própria do amor que vela. O amor sempre mantém o coração alerta. A chegada de Cristo exclui todo temor, pois não há temor no amor. A vigilância nos ensina a ler a vinda do Senhor nos acontecimentos e nas pessoas.
  

Para manter este estado de vigilância é necessário lutar porque temos a tendência de vivermos de olhos cravados nas coisas da terra. O dono da casa, na parábola, é Jesus Cristo. Isto quer dizer que Ele é o sentido da nossa vida. É a razão de ser da Igreja. Trabalhemos para que na chegada do Senhor a justiça, a misericórdia, o perdão e obras de caridade estejam bem cultivados entre nós.
  

Mas a vigilância cristã é sempre perseverante e se alimenta da esperança. Por isso, a pessoa vigilante não se abate, ainda que a realidade seja desesperadora porque ele sabe em quem acredita: em Deus que transforma o impossível no possível. Um cristão vigilante sabe olhar para além da História do horizonte material e contemplá-la na perspectiva de Deus, segundo o ensinamento de Jesus. A vigilância permite o cristão descobrir nela uma lógica inacessível para quem não tem fé. Por isso, um cristão verdadeiro nunca será esmagado pelo peso da história e pela situação desesperadora.
     

Portanto, celebrar o Advento não significa celebrar só as coisas do passado, pois este Advento está sempre em andamento. É o Filho de Deus que continuamente visita e freqüenta o coração daqueles que sabem crer, amar e esperar. Cristo está em contínuo advento, sempre e incansavelmente a caminho de nossa casa. E o lugar que Ele mais ambiciona é um coração convertido, que tenha a coragem de se “reformar” e de se abrir ao amor, à fraternidade, à justiça e ao perdão. Por isso, não tenhamos medo de oferecer-lhe nosso ódio, amargura, desapontamento, mágoa, rancor, tristeza, desespero etc. porque o Senhor se revela como AMOR. Só criando espaço para Cristo num coração convertido é que conseguiremos chegar à meta e Cristo virá morar conosco.
   

Por isso, o Advento é o tempo de purificação, de revermos nossa vida: nossos gestos, nosso lar pois é Deus que se aproxima. Mais do que de flores, de lâmpadas coloridas ou de pinheiros verdes, vamos enfeitar o nosso coração  daquilo que não se encontra nas lojas: a paz  e a alegria no lar  e o amor no coração: o amor é uma “carta” aberta, um presente sem embalagem, pois o amor é a abertura para com os outros. Vamos fazer presépio vivo no nosso coração, um presépio construído com toda a sensibilidade, com a arte de amar, de perdoar, um presépio de carinho. E este presépio vivo dentro de nosso coração se expressa através de amor e de alegria nos cartões, nas cartas e nos telefonemas. Este presépio vivo dentro de nós deve ser eterno, não é preciso acabá-lo dentro de alguns dias durante o Natal. Temos uma vida para aperfeiçoá-la. Vamos fazer de nossa vida um eterno Natal de amor e de alegria.
 

Portanto, a palavra “vigiar” que aparece várias vezes no Evangelho deste primeiro Domingo do Advento é para a gente vigiar mesmo. Porque quando chega o Natal, as propagandas comerciais, a arrumação da casa e a preocupação dos cartões e dos presentes podem desviar nossa atenção do dono da festa: Jesus Cristo.
  

Que cada um de nós seja capaz de dizer e de viver esta frase: “Quero neste Natal ser rico por dentro. Não quero ter apenas embalagem, quero ter um coração como o de Cristo, cheio de amor e de justiça e de perdão.”

P. Vitus Gustama,svd