sábado, 27 de dezembro de 2014

06 de Janeiro de 2015
 
QUEM AMA PERTENCE A DEUS    

Terça-Feira Após Epifania


Primeira Leitura: 1Jo 4,7-10

Caríssimos: 7 amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece Deus. 8 Quem não ama não chegou a conhecer Deus, pois Deus é amor. 9 Foi assim que o amor de Deus se manifestou entre nós: Deus enviou o seu Filho único ao mundo, para que tenhamos vida por meio dele. 10 Nisto consiste o amor: não fomos nós que amamos a Deus, mas foi ele que nos amou e enviou o seu Filho como vítima de reparação pelos nossos pecados.


Evangelho: Mc 6,34-44


Naquele tempo, 34 Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão, porque eram como ovelhas sem pastor. Começou, pois, a ensinar-lhes muitas coisas. 35 Quando estava ficando tarde, os discípulos chegaram perto de Jesus e disseram: “Este lugar é deserto e já é tarde. 36 Despede o povo para que possa ir aos campos e povoados vizinhos comprar alguma coisa para comer”. 37 Mas Jesus respondeu: “Dai-lhes vós mesmos de comer”. Os discípulos perguntaram: “Queres que gastemos duzentos denários para comprar pão e dar-lhes de comer?” 38 Jesus perguntou: “Quantos pães tendes? Ide ver”. Eles foram e responderam: “Cinco pães e dois peixes”. 39 Então Jesus mandou que todos se sentassem na grama verde, formando grupos. 40E todos se sentaram, formando grupos de cem e de cinquenta pessoas. 41 Depois Jesus pegou os cinco pães e dois peixes, ergueu os olhos para o céu, pronunciou a bênção, partiu os pães e ia dando aos discípulos, para que os distribuíssem. Dividiu entre todos também os dois peixes. 42 Todos comeram, ficaram satisfeitos, 43 e recolheram doze cestos cheios de pedaços de pão e também dos peixes. 44 O número dos que comeram os pães era de cinco mil homens.
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Com esta passagem o evangelista Marcos inaugura uma nova seção de seu evangelho. Nesta seção Marcos unifica tudo em torno do tema sobre o pão:

·       Das multiplicações dos pães (Mc 6,30-44; 8,1-10),

·       Discussão sobre o sentido das abluções antes de comer o pão e sobre o falso fermento (Mc 7,1-23; 8,11-20),

·       Discussão com uma pagã em torno das migalhas de pão que solicita (Mc 7,24-30).

Por isso essa seção é chamada de “seção dos pães”.

A alimentação da multidão (multiplicação de pães) é o único milagre narrado em todos os quatro evangelhos (Mt 14,13-21; Mc 6,32-44; Lc 9,10-17; Jo 6,1-15), e o único narrado duas vezes (em duas versões variantes) em Mc (Mc 8,1-10) e em Mt (Mt 15,29-39). Obviamente o relato da multiplicação tem sua alusão a Ex 16, história do maná no deserto (aqui se diz no lugar deserto) e a 2Rs 4,42-44, Eliseu alimentou 100 pessoas com 20 pães e ainda sobraram.


Compadecer-se significa vestir-se dos “sentimentos” de Deus


O evangelista nos relatou que “Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão porque eram como ovelhas sem pastor” (Mc 6,34). Ninguém escapa do olhar de Jesus: “Jesus viu uma numerosa multidão”. O olhar de Jesus é penetrante: Jesus “teve compaixão porque eram como ovelhas sem pastor”. Jesus olha ou vê tudo atentamente e amorosamente. Um olhar atento leva Jesus a uma ação concreta diante da pessoa que Ele olha ou vê. Jesus anda atentamente e olha amorosamente. A atenção é uma das expressões do amor profundo.


Jesus viu uma numerosa multidão e teve compaixão porque eram como ovelhas sem pastor”. Aqui Jesus revela a “misericórdia”, o “amor”, a “fidelidade” de Deus (as três palavras se resumem densamente numa palavra só: compadecer-se). Jesus se apresenta e se revela como o Pastor prometido que vem reunir as ovelhas (unir, reunir= salvar). Deus não abandona seu povo nas suas lutas de cada dia. Deus sempre se compadece. Deus sempre olha para Seu povo.


A compaixão é uma atitude primordial de Deus. Por isso, quando se fala da compaixão, não se trata de um vago sentimento de comoção. O verbo usado nos Evangelhos (compadecer-se) é muito forte e quer dizer sentir-se perturbado nas entranhas. A compaixão, por isso, nos pede que vamos até onde existem feridas, que entremos em lugares onde existe o sofrimento, que compartilhemos os desânimos, os temores, as angústias dos nossos próximos, de nossos irmãos. No Evangelho este verbo é usado exclusivamente em relação a Jesus ou a Deus. Por isso, quem tem compaixão, ele está em sintonia com Deus e está com Deus.
  

Esta profunda compaixão diante das necessidades dos nossos semelhantes é a primeira condição para nos sentirmos motivados para a ação. Quem permanece impassível, quem não alimenta os sentimentos de Cristo, muito dificilmente será induzido a fazer qualquer coisa pelo bem dos próximos. Por isso, quando der alguma ajuda, ele dá somente para obedecer a alguma imposição externa, a uma convenção social, e não por uma premente necessidade interior.


Partilha contra egoísmo


Os discípulos têm pena da multidão que está com fome, por um lado. Mas por outro lado, eles reconhecem a incapacidade de saciá-la com cinco pães apenas. Como resolver o problema? Eles aproximam-se de Jesus não para perguntar-lhe que planos tem, mas para oferecer-lhe uma “solução”: “Despede o povo, para que possa ir aos campos e povoados vizinhos comprar alguma coisa para comer ”(Mc 6,36). A solução oferecida pelos discípulos, então, é despedir para comprar. Em outras palavras, cada um tem que prover para si mesmo, por meio de dinheiro. Mas vem a pergunta: “Será que todo este povo tem dinheiro?”
    

Comprar e vender (pães) supõem orientar as relações sociais pelas leis da economia, onde impera a concentração de bens e a exploração; supõem submeter-se às leis econômicas que mantém essa multidão na miséria. Sabemos que onde há concentração de bens e alimentos, lá há sempre fome e miséria. Neste contexto, quem tem dinheiro, tem direito de comer; quem não o tem, torna-se vítima da fome. O que tem por trás disso é o egoísmo. E as pessoas contaminadas pelo egoísmo acabam virando as costas para o seu próximo em dificuldade.
   

A atitude que Jesus tem com a multidão faminta do pão e da palavra contrasta com a sugestão dos discípulos. A “comprar” Jesus opõe “dar” e ”repartir”: “Dai-lhes vós mesmos de comer” (Mc 6,37). Os discípulos só têm cinco pães e dois peixes. Cinco pães e dois peixes somam sete, o número que indica a totalidade. Aparentemente há pouco pão (cinco pães) para saciar tanta gente (mais de cinco mil pessoas). Somente aparentemente há pouco pão! Porque se cada ser humano tivesse amor e justiça, o pão não faltaria para ninguém. Se cada um tirasse um pouco de bom dentro de si, ninguém viveria na miséria. Para Jesus, o eterno problema da vida não é a falta do pão, e sim as causas que geram a falta do mesmo na mesa da grande maioria. O que se revela, além disso, não é a ausência do pão, e sim a presença do egoísmo, do individualismo, da ganância e da total ausência do amor fraterno. Mas no fim da vida todos ficam sem nada materialmente, pois o homem somente tem o direito de usar e não de possuir. Nossa relação com as coisas não é de propriedade e sim de uso. Este direito cessará no dia em que partirmos deste mundo.


Aquele Que Ama Pertence a Deus
      

“Dar” ou “repartir” os pães comporta uma dinâmica diferente, comporta o amor fraterno, comporta a compaixão, comporta a solidariedade, comporta a partilha que é a alma de todo projeto de Jesus. Jesus não nos revela os “truques” dos milagres, mas nos ensina a fazer bem tudo que não é milagre: pôr em comum o que temos e reparti-lo entre os irmãos, especialmente os necessitados do básico da vida. E tudo parte do amor ao semelhante cuja penúria ou miséria torna-se um apelo para a solidariedade e a partilha. Quem possui algo para comer, deixa-se tocar por quem não o tem e abre mão, generosamente, do que lhe pertence para saciar a fome do próximo. Esta atitude funda-se na pura gratuidade e exclui qualquer desejo de recompensa. Nessa direção é que os cristãos, todos nós, devem caminhar: partilhar, partilhar e partilhar, pois a partilha é a alma de todo projeto de Jesus Cristo. Trata-se de vivenciar o amor fraterno.


Por isso, o apelo que o autor da primeira Carta de João nos faz é atual: “Caríssimos: amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece Deus” (1Jo 4,7). “Amemo-nos uns aos outros!”. Trata-se de um programa para todos os que acreditam em Deus e para aqueles que têm boa vontade. É todo um programa para nossas famílias, nossos ambientes de vida, nosso trabalho, nossa comunidade, nossa Igreja, nossa sociedade e assim por diante. É todo um programa para a humanidade que Deus ama primeiro.


Precisamos colocar em prática este “Amemo-nos uns aos outros!”, porque não somente acreditamos em Deus, e sim em Deus de amor: “Caríssimos: amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece Deus. Quem não ama não chegou a conhecer Deus, pois Deus é amor” (1Jo 4,7-8). “Deus é amor”. É um texto de insondável profundidade. Há que escutá-lo em silencio, repeti-lo, tratá-lo com palavras nossas e vivê-lo na vida cotidiana. Aquele que ama é como uma parcela de Deus, uma parte do Amor, porque Deus é amor.


Todo ato de amor vem de Deus, tem sua fonte e origem no coração de Deus. Por isso, Deus pode ser contemplado em:

·        O amor de uma mãe que ama seu filhinho e de um filho que ama seus pais.

·        O amor de um prometido a sua prometida, de um esposo para sua esposa.

·        O amor de um homem que se desvela por seus companheiros de trabalho.

·        O amor de um pastor para seu rebanho. E assim por diante.


Se a partilha e a compaixão são a atitude primordial e a expressão do amor de Deus, portanto repartir o pão significa prolongar a generosidade de Deus- criador: Ele criou tudo por amor e gratuitamente sem nenhum mérito de um ser humano.; significa que vivenciamos a nossa fé no Deus de amor (cf. 1Jo 4,8.16); significa Deus está em nós e nós permanecemos em Deus.


Lutar pelo alimento é o mais elementar dos deveres dos homens. O pão é o símbolo de toda a alimentação. Com o milagre do Evangelho de hoje Jesus abre os nossos olhos para os compromissos que a eucaristia traz: somos responsáveis pela fome e a miséria dos nossos próximos. Somos responsáveis pela crença ou pelo ateísmo nos outros. Se Deus não se vê no mundo é porque não se vê mais na vida dos cristãos. Entrar em comunhão com o Senhor na eucaristia exige fazer comunhão com aqueles que lutam na busca do pão necessário à vida. Assim vivida, a eucaristia torna-se para quem dela se alimenta, fonte de coragem e esforço permanente no compromisso com a concretização do reino de Deus através da partilha de tudo que se tem.

P. Vitus Gustama,svd
05/01/2015
 
JESUS É A LUZ E A VIDA PARA O POVO OPRIMIDO

Segunda-Feira Após Epifania
 

Evangelho: Mt 4,12-17.23-25

Naquele tempo, 12 Ao saber que João tinha sido preso, Jesus voltou para a Galileia. 13 Deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, que fica às margens do mar da Galileia, 14 no território de Zabulon e Neftali, para se cumprir o que foi dito pelo profeta Isaías: 15 “Terra de Zabulon, terra de Neftali, caminho do mar, região do outro lado do rio Jordão, Galileia dos pagãos! 16 O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; e para os que viviam na região escura da morte brilhou uma luz”. 17 Daí em diante, Jesus começou a pregar, dizendo: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”. 23 Jesus andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo. 24 E sua fama espalhou-se por toda a Síria. Levaram-lhe todos os doentes, que sofriam diversas enfermidades e tormentos: endemoninhados, epilépticos e paralíticos. E Jesus os curava. 25 Numerosas multidões o seguiam, vindas da Galileia, da Decápole, de Jerusalém, da Judeia, e da região além do Jordão.

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Nos dois primeiros capítulos de seu Evangelho, Mateus narrou o nascimento de Jesus, e no terceiro nos apresentou a atividade de João Batista: o Batismo. No capitulo quarto, sem se preocupar em satisfazer a curiosidade dos que quiseram saber de todo o itinerário formativo de Jesus, nos apresenta Jesus atuando na Galileia, uma região ao norte de Palestina onde conviviam, com dificuldade, judeus e pagãos. Por isso, Mateus evoca o texto do profeta Isaias que fala da iluminação dos que “viviam nas trevas e nas sombras de morte”. A festa da Epifania nos mostra que a vinda de Jesus é em favor de todos os homens, sem distinção nem de etnia, nem de condições nem de crenças.


O evangelho deste dia nos relata que quando fica sabendo da prisão de João Batista, Jesus vai para a Galileia. Galileia era um território longe de Jerusalém, do poder central legalista e intransigente. Galileia tinha fama de região pagã contaminada pelos pagãos, desinteressada da Lei e da oficialidade do Templo.


Na Galileia Jesus pode andar com liberdade, junto aos empobrecidos e marginalizados. Toda a história dos pobres gravitava sobre os pobres do tempo de Jesus: a fome, a carência de trabalho, a opressão política e militar dos Herodes e de Roma, opressão religiosa do Sinédrio (Sanedrin), o abandono e a marginalização. Esse povo pedia e exigia ser redimido. O que o povo esperava era respostas concretas para suas necessidades. Por isso, a figura de um rei poderoso, como Davi, continuava a alimentar o sonho do povo para libertá-lo de toda essa situação.


A pregação de Jesus se inicia, então, na “Galileia dos pagãos”, isto é, numa região onde a situação do povo é mais precária devido a uma grande quantidade de população pagã. A escolha da Galileia como o primeiro lugar para a atividade missionária de Jesus proposital. Os galileus são desprezados pelos judeus por serem pagãos. Trata-se de um preconceito que Jesus, o nazareno, sofrerá através de um dito: “De Nazaré pode sair coisa boa?” (Jo 1,46; cf. Mt 13,53-58 e paralelo). Este povo oprimido, marginalizado, desprezado está esperando alguma libertação que só pode se encontrar na pessoa de Jesus. Propositalmente, Jesus começa sua atividade para libertar esse povo.


Na Galileia Jesus desenvolve suas atividades através dos ensinamentos dirigidos para as pessoas nas sinagogas (adeptos da religião judaica), para um grande público (povo misto). O evangelista Mateus resume os feitos dos ensinamentos de Jesus na seguinte frase: “O povo que vivia nas trevas viu uma grande luz; e para os que viviam na região escura da morte brilhou uma luz”. Jesus vai encontro desse povo como luz que funciona para orientar e esclarecer sua vida. Não somente aconteceu uma mudança de mentalidade nesse povo através de seus ensinamentos esclarecidos, Jesus também se mostra como portador de vida através da recuperação do ser humano na sua totalidade. O evangelista Mateus registrou esse fato na seguinte frase: “Jesus andava por toda a Galileia, ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo tipo de doença e enfermidade do povo”.


Isto nos mostra que os primeiros destinatários da pregação de Jesus são para os que mais necessitados dela e aos que não conhecem a “Luz” da revelação porque vivem nas “sombras” do paganismo. É claro que o paganismo é muito mais no sentido do modo de viver do que no sentido de não pertencer a uma crença ou religião. Por isso, existem “pagãos” que se comportam como homens de Deus, por exemplo, o oficial romano (cf. Mt 8,5-13). Como também são muitos os que se dizem crentes (do Povo de Deus), mas se comportam como “pagãos”, sem nenhuma vivência da fraternidade, por exemplo, o sacerdote e o levita na parábola do bom Samaritano que não querem ajudar que está sofrendo (cf. Lc 10,31-32).


A mensagem de Jesus se resume nesta frase: “O Reino de Deus está próximo”. O Reino de Deus, expressão já existente no povo de Israel, se contrapõe a todos os demais reinos ou poderes humanos que pretendem um domínio total sobre o povo de Israel e este mesmo poder é oferecido a Jesus em suas tentações (cf. Mt 4,8-10). O Reino que Jesus prega já começou nele, pois ele veio para fazer reinar o amor fraterno (cf. Mt 23,8). Para que isso possa acontecer há uma exigência: convertei-vos!


O menino de Belém, adorado pelos magos, agora se manifesta como o Messias e o Mestre enviado de Deus que ensina, proclama o Reino de Deus, que cura os enfermos e liberta os possessos. A proposta do Reino de Jesus é diferente: tem que descobrir e destruir o egoísmo e as estruturas que o fomentam.


Para isso, Jesus exige para todos os lados (dos poderosos e das vitimas do poder) que se convertam: “Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”. Os pobres, as vítimas, precisam construir um projeto de humanização sem ódio e por isso, Jesus coloca o amor como o maior mandamento (Jo 13,35; 15,12). Para os poderosos, que devolvam e respeitem a dignidade do povo, respeitando seus direitos. Em outras palavras, para Jesus o problema do Reino era um problema de transformação do coração. Trata-se de uma transformação real que deve se demonstrar na prática e se experimentar em todos os setores da vida.


O estilo da atuação de Jesus Cristo que ama e se sacrifica pelos homens deve ser o estilo de cada cristão: ajudando, curando feridas, libertando os outros de suas angústias e seus medos, anunciando a Boa Notícia do amor de Deus. E que somente o amor salva, enquanto que o egoísmo destrói e mata. O egoísmo mata a fraternidade e uma convivência mais humana. É preciso aprender a ver Deus nos demais (cf. Mt 25,40.45), sobre tudo nos pobres e nos débeis, nos marginalizados e excluídos da sociedade. Trata-se de que esse amor fraterno que aprendemos de Jesus Cristo nós o traduzamos em obras concretas de compreensão e de ajuda. O amor não é dizer palavras solenes, bonitas e comovedoras, e sim imitar o amor de um Cristo que se entregou pelos demais. Este é o caminho da salvação. Por este caminho não há outro que possa nos salvar e nos levar para o Céu, pois “Deus é amor” (1Jo 4,8.16). A fé em Jesus Cristo e o amor aos irmãos são provas de autenticidade da fé que professamos.


Convertei-vos, porque o Reino dos Céus está próximo”. A conversão, dentro do contexto das leituras de hoje consiste em crer em Deus e amá-Lo amando o próximo. Crer e amar são duas atitudes básicas de cada cristão e são inseparáveis: “Este é o seu mandamento: que creiamos no nome do seu Filho, Jesus Cristo, e nos amemos uns aos outros, de acordo com o mandamento que ele nos deu” (1Jo 3,23). Quem crê verdadeiramente em Deus, ama o próximo. Quem ama o próximo, é porque pertence a Deus, mesmo que ele não tenha consciência disso. A fé e o amor coexistem e fecundam mutuamente. A linha vertical (fé) se expressa na linha horizontal (amor fraterno). A fé que salva é a fé que atua pela caridade. Por isso, a fé e o amor devem configurar a vida de cada cristão. Não existe a fé sem o amor fraterno. E não existe o amor fraterno que não leve a pessoa que ama até Deus.
 
P. Vitus Gustama,svd
04/01/2015: EPIFANIA
 
EPIFANIA DO SENHOR E SUA MENSAGEM PARA NÓS

DOMINGO DA EPIFANIA
04 de Janeiro de 2015


Primeira Leitura Is 60,1-6

1 Levanta-te, acende as luzes, Jerusalém, porque chegou a tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor. 2 Eis que está a terra envolvida em trevas, e nuvens escuras cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor, e sua glória já se manifesta sobre ti. 3 Os povos caminham à tua luz e os reis ao clarão de tua aurora. 4 Levanta os olhos ao redor e vê: todos se reuniram e vieram a ti; teus filhos vêm chegando de longe com tuas filhas, carregadas nos braços. 5 Ao vê-los, ficarás radiante, com o coração vibrando e batendo forte, pois com eles virão as riquezas de além-mar e mostrarão o poderio de suas nações; 6 será uma inundação de camelos e dromedários de Madiã e Efa a te cobrir; virão todos os de Sabá, trazendo ouro e incenso e proclamando a glória do Senhor.


Segunda Leitura: Ef 3,2-3a. 5-6


Irmãos: 2 Se ao menos soubésseis da graça que Deus me concedeu para realizar o seu plano a vosso respeito, e como, por revelação, tive conhecimento do mistério. 5 Este mistério Deus não o fez conhecer aos homens das gerações passadas, mas acaba de o revelar agora, pelo Espírito, aos seus santos apóstolos e profetas: 6 os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho.


Evangelho: Mt 2,1-12

1 Tendo nascido Jesus na cidade de Belém, na Judeia, no tempo do rei Herodes, eis que alguns magos do Oriente chegaram a Jerusalém, 2 perguntando: “Onde está o rei dos judeus, que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-lo”. 3 Ao saber disso, o rei Herodes ficou perturbado assim como toda a cidade de Jerusalém. 4 Reunindo todos os sumos sacerdotes e os mestres da Lei, perguntava-lhes onde o Messias deveria nascer. 5 Eles responderam: “Em Belém, na Judeia, pois assim foi escrito pelo profeta: 6 E tu, Belém, terra de Judá, de modo algum és a menor entre as principais cidades de Judá, porque de ti sairá um chefe que vai ser o pastor de Israel, o meu povo”. 7 Então Herodes chamou em segredo os magos e procurou saber deles cuidadosamente quando a estrela tinha aparecido. 8 Depois os enviou a Belém, dizendo: “Ide e procurai obter informações exatas sobre o menino. E, quando o encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-lo”. 9 Depois que ouviram o rei, eles partiram. E a estrela, que tinham visto no Oriente, ia adiante deles, até parar sobre o lugar onde estava o menino. 10 Ao verem de novo a estrela, os magos sentiram uma alegria muito grande. 11 Quando entraram na casa, viram o menino com Maria, sua mãe. Ajoelharam-se diante dele, e o adoraram. Depois abriram seus cofres e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso e mirra. 12 Avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para a sua terra, seguindo outro caminho.
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Como já se sabe de que Mateus coloca essa passagem no seu evangelho para expor a tese da universalidade da salvação. Mateus pretende nos dizer que Jesus, tendo nascido em Belém como menino judeu e para salvar os judeus, quer oferecer também ao paganismo, logo desde o berço, a possibilidade de um encontro para o que envia a luz da fé(estrela), cuja missão é guiar os pagãos(magos) até onde o Salvador(Jesus) se encontra. Deste modo, cada um dos elementos da narrativa simbolizaria uma realidade distinta: os magos representam os pagãos; Herodes, os judeus; e a estrela, a fé. Por isso, a estrela dos Magos na narrativa de Mateus é nenhum fenômeno celeste surgido realmente no firmamento, mas o símbolo da luz da fé que brilha nas trevas do pecado quando o Salvador aparece no mundo.
 

Mateus desenvolve assim uma nova tese: Jesus, embora judeu e descendente de Davi, é um Messias com força para afugentar do mundo inteiro as trevas do pecado, por mais afastado que o homem se encontre e seja em que deserto for. Para tal deve cumprir um único requisito: deixar-se guiar pela luz da fé(veja o comentário sobre este texto do ano passado e também algumas mensagens).

Outras mensagens do texto:


1). Para encontrar Jesus, é necessário sair da própria terra para ir ao encontro de Jesus.
  

Os escribas e os sumos sacerdotes esquadrinharam a Bíblia e encontraram pelo menos 466 profecias messiânicas e mais de 550 conclusões tiradas da Sagrada Escritura . E até indicaram a Herodes o lugar exato onde podia encontrar o Salvador, o verdadeiro Rei dos judeus. No entanto, nenhum se pôs a caminho. Como comenta Santo Agostinho:” Ensinam a outros a fonte da vida e eles morreram de sede”. E em outra passagem ele acrescenta: ”Aqueles(os magos) buscavam na terra destes(dos judeus) o que estes não reconheciam na sua terra...”.  Mateus sublinha, assim, o paradoxo entre a busca e a acolhida de Jesus pelos “magos do Oriente”, que eram pagãos, e o seu não conhecimento por parte do rei de Jerusalém, dos chefes dos sacerdotes, dos escribas e do povo.
     

Os magos puseram-se a caminho e deixaram sua terra em busca do Rei recém-nascido. O texto nos diz: “Vimos sua estrela no céu e viemos adorá-lo”(v.2). Guiados pela estrela no céu e pela estrela de uma grande esperança no coração, os magos puseram-se a caminho. São João Crisóstomo comentou: :Não se puseram a caminho porque viram a estrela, mas viram a estrela porque se tinham posto a caminho”. Põem-se a caminho porque têm perguntas e inquietações no coração. São o símbolo dos que buscam, como diz Santo Agostinho: “Anunciam e perguntam, crêem e buscam; simbolizando aqueles que caminham na fé e desejam a realidade”.
  

Somos peregrinos nesta terra. Mas para onde caminhamos? Saibamo-lo ou não, caminhamos para Deus. Consciente ou inconscientemente, no fundo todos procuram Deus. O destino do homem é, certamente, a união plena com Deus. E na espera desse destino, o homem vive sobre a Terra com fé. A fé  é ter confiança em Deus apesar das próprias dúvidas, perguntas e interrogações, queixas e murmurações; é ter a coragem de agir apesar dos próprios medos; é esperar no amanhã apesar do sofrimento  e dificuldades de hoje. Porque Deus veio antes ao nosso encontro e semeou no nosso coração a fome e a sede da justiça e da paz, da felicidade e da comunhão, enfim, da salvação que só podemos encontrar nele.
   

Para chegar ao encontro de Deus é necessário pôr-se a caminho e atravessar, como os magos, desertos escaldantes e noites escuras, desinstalar-se e romper com o convencional, vencer novos obstáculos e refutar argumentos velhos e novos. Quem quer encontrar a Deus, não pode ficar preso ao passado. Precisa partir sempre de novo, com o coração cada vez mais leve e livre, porque na nossa vida costumam acontecer fatos carregados de sentido, que exigem a nossa atenção e o nosso êxodo. Mas se a pessoa não se põe a investigar e a tentar perceber o que Deus lhe quer dizer, com certeza vive mais tranqüilo, não se interroga, não levanta problemas. Conseqüentemente, não avança, move-se num horizonte estreito, mesquinho, sem dimensões, e priva-se do que as suas capacidades lhe proporcionam para progredir. E Deus, quando queremos encontrá-lo de verdade, vem em nossa ajuda, indica-nos o caminho, às vezes, através de meios menos aptos. Mas, com certeza, Deus não se encontra na soberba que nos separa dele, nem na falta de caridade que nos isola.
   

Os magos iniciaram uma longa caminhada, desejando encontrar Deus guiando apenas pela estrela. Na vida, é preciso seguir uma estrela. Um ideal. Um modelo de santidade. Essa é a estrela que brilha para nós no azul do nosso céu. E tem que se seguir, apesar de todos os sacrifícios. Jesus, no fim, está à nossa espera.


2). Para encontrar Jesus é necessário discernir os sinais
  

Para encontrar Jesus é necessário, em primeiro lugar, buscá-lo e querer encontrá-lo; e em segundo lugar, perceber e discernir os sinais exteriores e interiores de sua manifestação. Para ver os sinais é necessário estar com os olhos e o coração abertos para as realidades que estão além do que vêem os olhos carnais e do que sente o coração de carne. É necessário adquirir uma visão nova da realidade. Para isso, é importante sair do pequeno mundo em que estamos instalados e empreender um caminho novo. Em outras palavras, é preciso o êxodo interior e exterior. Se o nosso coração inquieto, aberto e despojado, e se for generoso como o dos magos, saberemos distinguir a voz de Deus das vozes que nos querem afastar do seu caminho.


3). Para encontrar Jesus é necessário deixar-se comover
   

Para chegar ao encontro de Jesus é necessário também deixar-se mover pelos sinais percebidos e discernidos; é necessário deixar-se mover e guiar por eles ao longo de toda a caminhada. Quem é movido por uma grande esperança ou por um grande amor, tem força e entusiasmo para deixar tudo o que tinha até esse momento ao encontro do Senhor que é Tudo. A “estrela” que guia nossa busca continua sempre apontando para mais verdade, mais entrega, mais justiça, mais fraternidade, mais partilha, mais honestidade, mais sinceridade e mais comunhão. Ela continua iluminando apesar das nuvens que nos atrapalham passageiramente, das decepções, das noites que anunciam o dia, dos sofrimentos etc.


4). Para encontra Jesus é necessário caminhar juntos e perguntar.
   

A sabedoria antiga diz: “Estar juntos é apenas o início; caminhar juntos é o progresso e trabalhar juntos é sucesso”. Não sabemos por quanto tempo os magos caminharam. O que sabemos é que caminharam juntos. O longo caminho da busca, enfrentando o cansaço, obstáculos etc., só pode ser feito em comunidade. Só ajudando-se e animando-se mutuamente, carregando o peso uns dos outros durante um longo caminho da busca, é possível chegar à meta.


Quando parece que as nuvens atrapalham a nossa vista ou visão, quando aparentemente Deus nos abandonou e sentimos que não caminha mais ao nosso lado, é necessário pararmos para perguntar, como fizeram os magos. Essas perguntas fazem parte da providência de Deus. Os chineses até dizem: “Quem pergunta, é bobo por cinco minutos. Quem não pergunta, é bobo para sempre”. Na verdade, Deus está também nas nossas perguntas, porque são perguntas sobre ele e por ele.


5). No comum encontra-se o extraordinário


Os magos não encontram a riqueza e a glória do rei recém-nascido, mas um bebê numa casa pobre, filho de pais pobres, pobremente vestido. Também não viram sua mãe coroada de pedras preciosas ou reclinada num leito de ouro. Mas “sua fé(dos magos) foi mais penetrante que o olhar, porque viram coisas humildes e entenderam coisas elevadas”, comenta S. João Crisóstomo. A glória de Deus não está nos astros do céu, mas na fragilidade dessa criancinha.


6). Quem encontra o que procura tem algo a oferecer
 

Os magos encontraram Jesus e lhe ofereceram presentes: ouro, incenso, mirra. Tradicionalmente esses presentes simbolizam a identidade de Jesus: recebe ouro como rei, incenso como Deus e mirra como homem mortal(mirra era utilizada no embalsamamento de cadáveres).
 

Sabemos que a entrega de nós mesmos na adoração é o dom mais perfeito e mais agradável ao Deus que nos amou até o extremo de querer viver nossa vida mortal, e morrer nossa morte, para fazer-nos participantes de sua vida eterna. Mas o gesto de oferta pode nos recordar também que aqueles que encontram Deus com sinceridade demonstram a profundidade desse encontro concretamente através daquilo que se tornam capazes de partilhar. Quem é de Deus, ajuda os outros, desenvolvendo a sensibilidade solidária.


7). Epifania e Missão Evangelizadora


Como foi dito acima, a universalidade da fé é um dos motivos dominantes da liturgia da Epifania. Que fazemos para que se realize o desígnio salvífico de Deus, cuja meta é que todos os homens conheçam e adorem Jesus como Salvador e Emanuel? Talvez as palavras de S. João Crisóstomo possa nos despertar: ”Se os magos percorreram um caminho tão longo para vê-lo recém-nascido, que desculpa terás tu se nem sequer fores ao bairro ao lado para visitá-lo enfermo e encarcerado?” Como cristãos, somos todos “apóstolos” ou “enviado”. E o enviado deve ir aonde é chamado pela missão. 

P. Vitus Gustama,svd
03/01
 
JESUS É O CORDEIRO QUE TIRA O PECADO DO MUNDO

03 de Janeiro

Evangelho: Jo 1,29-34

29No dia seguinte, João viu Jesus aproximar-se dele e disse: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo. 30Dele é que eu disse: Depois de mim vem um homem que passou à minha frente, porque existia antes de mim. 31Também eu não o conhecia, mas se eu vim batizar com água, foi para que ele fosse manifestado a Israel”. 32E João deu testemunho, dizendo: “Eu vi o Espírito descer, como uma pomba do céu, e permanecer sobre ele. 33Também eu não o conhecia, mas aquele que me enviou a batizar com água me disse: ‘Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer, este é quem batiza com o Espírito Santo’. 34Eu vi e dou testemunho: Este é o Filho de Deus!”

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O texto deste dia fala do testemunho de João Batista sobre a pessoa de Jesus, O Verbo feito carne (Jo 1,19-36). Um dos temas preferidos do evangelista João é, certamente, testemunho. O evangelista usa o verbo “testemunhar” (martyrein) em 33 ocasiões e o substantivo “testemunho” (martyria) 15 vezes. O testemunho de João Batista ilustra concretamente o que foi dito em Jo 1,6-8.15 de sua missão que era dar testemunho de Jesus para que todos pudessem crer nele. Dar testemunho é muito importante neste evangelho. O testemunho, neste evangelho, tem sempre por objeto a pessoa de Jesus, seu significado profundo para a vida dos homens. Em outras palavras, o testemunho aqui é sempre cristológico. É isto que João Batista faz a respeito de Jesus.
 

Testemunha é a pessoa que teve a experiência direta de algum fato e que narra o que viu ou ouviu, ou alguém que observou um acontecimento e pode informar a respeito dele para provar, para acusar, ou para inocentar (Lv 5,1; Nm 5,13;Dt 17,6s etc..). O testemunho, neste evangelho, supõe o ver, mas não o simples ver físico, mas o ver que sabe perceber a presença de Deus em Jesus.  Para que uma pessoa possa perceber a presença de Deus em Jesus, na vida ou nos acontecimentos, ela deve limpar o coração do ódio, pois Deus é Amor (1Jo 4,8.16). “Quanto mais amas, mais alto tu sobes” (Santo Agostinho).
            

Antes de proferir o seu testemunho, João vê Jesus vir na sua direção. João Batista, no Quarto Evangelho, perceba a presença de Deus em Jesus Cristo como Aquele que tira o pecado do mundo. Quando Jesus aparece pela primeira vez no Quarto Evangelho, ele é mostrado no ato de “vir”. Com isso, se realiza o anúncio de Isaías: “O Senhor vem” (Is 40,10).
    

Jesus continua vindo em nossa direção, como aconteceu com João Batista. Somos convidados a olhar para ele com fé. É o olhar da fé que descobre a realidade sob as aparências, e confere seu verdadeiro sentido a todo o mundo visível no qual Jesus aparece. João Batista passou pela escola do deserto, onde se exercitou na humilde docilidade interior. A sua figura é, no início do Evangelho, o símbolo de todos os crentes que se põem em seguimento do Verbo encarnado. Ele realiza as condições da busca e da descoberta. Não se deixa enganar por nenhum poder, nem sequer o dos fariseus; procura a Deus só e, livre de todo o preconceito, reconhece-o tal como vem aos homens, na humildade da encarnação.


Diante de Jesus que está vindo em sua direção, João reage em profundidade: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”.  Palavras que se repetem seis vezes na celebração eucarística (2 na Glória, 3 depois da saudação da paz e a sexta vez, imediatamente antes da comunhão). Somente João está disposto a reconhecer Aquele que Deus envia, não obstante afirmar que não o conhecia (v.31.33). Não conhece de vista ou por contato, mas já conhece interiormente, pela ação do Espírito Santo que o envia e que ele não pára de interrogar.


João Batista vê Jesus que vem. Mas não guarda para si como seu segredo, como propriedade privada, o que viu. Ele quer que todos vejam o que ele vê: “Eis...”, João diz, o que implica um convite a olhar. João Batista não chama a atenção para um messias ausente e vindouro, mas para um messias que está no meio de nós e que não o conhecemos. A primeira condição de toda busca da fé é, certamente, o senso de observação das pessoas, das coisas e da vida em geral.


“Eis o Cordeiro...”. João Batista chama Jesus de “Cordeiro” para ser sacrificado em função da remissão dos pecados para que haja a salvação. Trata-se aqui do Cordeiro pascal que João Batista conhece muito bem no momento da libertação de Israel do Egito (cf. Ex 12,11-13). Além disso, como o filho de um sacerdote (Zacarias) João Batista sabe muito bem o ritual no Templo em que os cordeiros são sacrificados para apagar os pecados (cf. Ex 29,38-42). Sobre a função de Jesus como o Cordeiro temos duas imagens apresentados pelos profetas Isaías e Jeremias:

·        “Foi maltratado, mas livremente humilhou-se e não abriu a boca, como um cordeiro conduzido ao matadouro” (Is 53,7).

·        “Eu como um cordeiro manso que é levado ao matadouro, eu não sabia que eles tramavam planos contra mim” (Jr 11,19).


Eis o Cordeiro que tira o pecado do mundo”! Infelizmente, o pecado é uma realidade onipresente entre nós e dentro de cada um, ontem, hoje e sempre. Em qualquer lugar encontramos a exploração que gera a fome, a pobreza, a violência, marginalização. Em qualquer lugar e em qualquer nível da sociedade encontramos os corruptos e corruptores. As pessoas são dominadas pela soberba, avareza, luxúria, inveja, ódio, rivalidade, vingança, rancor, falta de perdão e assim por diante. Apesar de tudo isso, ser cristão hoje é ser testemunha entre os homens que Jesus venceu o pecado em nossa vida, porque ele nos fez filhos de Deus e nós adotamos seus sentimentos e atitudes evangélicas na vida cotidiana, e queremos viver os valores evangélicos do amor, da fraternidade humana, da justiça e da solidariedade com os mais necessitados. Basta alguém aceitar Jesus o poder do mal não tem vez nenhuma, pois Jesus vem para tirar o pecado do mundo.     


Apesar de sabermos que o pecado é a “mercadoria” global cuja produção nunca entra em crise e cuja demanda desconhece limites e que não temos balança em condição de calcular seu peso, nós acreditamos que pecado nenhum consegue esgotar a paciência de Deus em Jesus Cristo, nenhum pecado consegue cansar a misericórdia de Deus e bloquear seu perdão e pôr limites a seu amor infinito. Por isso, Jesus é a nossa vitória, nossa libertação e nossa paz. Por ele e com ele somos capazes, e é nosso dever de vencer o pecado cada dia, dentro de nós mesmos, dentro de casa, em nossa vida e no ambiente que nos cerca através da construção do Reino de Deus e Sua justiça na nossa vida. Onde não houver espaço para o pecado, haverá espaço para a paz, fraternidade, justiça, amor, bondade, retidão, honestidade e assim por diante.

P. Vitus Gustama,svd
02/01
 
SER VOZ E REFLEXO DE JESUS NA VIDA DIÁRIA


02 de Janeiro

Primeira Leitura: 1Jo 2,22-28

Caríssimos: 22Quem é mentiroso, senão aquele que nega que Jesus é o Cristo? O Anticristo é aquele que nega o Pai e o Filho. 23Todo aquele que nega o Filho também não possui o Pai. Quem confessa o Filho possui também o Pai. 24Permaneça dentro de vós aquilo que ouvistes desde o princípio. Se o que ouvistes desde o princípio permanecer em vós, permanecereis com o Filho e com o Pai. 25E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna. 26Escrevo isto a respeito dos que procuram desencaminhar-vos. 27Quanto a vós mesmos, a unção que recebestes da parte de Jesus permanece convosco, e não tendes necessidade de que alguém vos ensine. A sua unção vos ensina tudo, e ela é verdadeira e não mentirosa. Por isso, conforme a unção de Jesus vos ensinou, permanecei nele. 28Então, agora, filhinhos, permanecei nele. Assim poderemos ter plena confiança, quando ele se manifestar, e não seremos vergonhosamente afastados dele, quando da sua vinda (1Jo 2,22-28)


Evangelho: Jo 1,19-28

19Este foi o testemunho de João, quando os judeus enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas para perguntar: “Quem és tu?” 20João confessou e não negou. Confessou: “Eu não sou o Messias”. 21Eles perguntaram: “Quem és, então? És Elias?” João respondeu: “Não sou”. Eles perguntaram: “És o Profeta?” Ele respondeu: “Não”. 22Perguntaram então: “Quem és, afinal? Temos de levar uma resposta àqueles que nos enviaram. Que dizes de ti mesmo?” 23João declarou: “Eu sou a voz que grita no deserto: ‘Aplainai o caminho do Senhor’” — conforme disse o profeta Isaías. 24Ora, os que tinham sido enviados pertenciam aos fariseus 25e perguntaram: “Por que então andas batizando, se não és o Messias, nem Elias, nem o Profeta?” 26João respondeu: “Eu batizo com água; mas no meio de vós está aquele que vós não conheceis, 27e que vem depois de mim. Eu não mereço desamarrar a correia de suas sandálias”. 28Isso aconteceu em Betânia além do Jordão, onde João estava batizando (Jo 1,19-28).
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A palavra de Deus na primeira leitura fala da heresia. Heresia é confundir Cristo com o nosso pensar e o nosso querer; é fabricar um Cristo a nossa imagem e semelhança. Este Cristo manipulado e tantas vezes mudado é claro que não pode ser o Cristo Salvador.


O fragmento da primeira leitura revela as linhas essenciais da falsa doutrina divulgada peloanticristoem uma época atormentada do final do século primeiro. Para essa falsa doutrina, Jesus não era considerado como o Messias nem como o Filho de Deus. Essa heresia cristológica considerava impossível que o Verbo Divino se fizesse carne à maneira humana. Mas para o apostolo João, testemunha ocular do Verbo Divino, o Verbo da vida (cf. 1Jo 1,1-4), negar a divindade de Jesus significa não ter comunhão com o Pai e não ter a verdadeira vida (1Jo 2,22-23; cf. Jo 20,30-31); negar a união do divino e do humano em Jesus significa seranticristoporque o humano em Jesus é o reflexo perfeito do divino, é o reflexo do Pai: “Aquele que me viu, viu o Pai” (cf. Jo 14,9). E em outra ocasião Jesus disse: “Eu e o Pai somos um” (Jo 10,30).


São João nessa primeira Carta quer orientar nossa sensibilidade. Não se trata de fazer de Jesus um ídolo e sim de abrir nossos ouvidos à sua Palavra, pois Sua Palavra é vida e luz para nós todos: “No Verbo havia vida, e a vida era a luz dos homens” (Jo 1,4) e por isso nos orienta (cf. Jo 8,12). Um Jesus que não nos serve como caminho ao Pai (cf. Jo 14,6) é um Jesus que não nos interessa do ponto de vista da . Jesus é o misterioso laço de união entre a humanidade caída e o Pai pronto para nos salvar: “Todo aquele que nega o Filho também não possui o Pai. Confessa o Filho possui também o Pai” (1Jo 2,23).


Como cristãos somos essencialmente ouvintes da Palavra da Salvação, aceitadores do Filho, e escutando-O e pondo em prática seus ensinamentos (cf. Mt 7,24-25; 12,48-50), nos realizaremos como filhos do Pai celeste e irmãos dos demais homens neste mundo. O que nos é pedido não é essencialmente nosso conhecimento ou nosso saber, e sim nossa fidelidade. Fidelidade é guardar ou observar o que é ouvido da Palavra de Deus (cf. Mt 7,24; Jo 14,23). Por isso, o verbo que mais vezes se repete na primeira leitura, é “permanecer”. É um verbo que fala de fidelidade, de perseverança, de manter na verdadeira sem deixar-se enganar. Permanecer em Jesus significa ter nele.  Há várias maneiras de ser fiel: com o pensamento e o coração, com as palavras de testemunho que damos diante dos demais e com as ações, com os compromissos, com as obras e com as decisões da vida diariamente, de acordo com o mandamento do Senhor resumido no amor fraterno.               


E lemos no Evangelho o testemunho de João Batista acerca de Cristo. Para a perguntaQuem és tu?”, João Batista confessa, evitando qualquer mal-entendido acerca de sua própria pessoa e de sua própria missão, que não é o Cristo, o Salvador esperado. Este testemunho em forma de afirmação negativa que sai da boca de João Batista é uma autêntica confissão de no messianismo de Jesus. João Batista se define apenas com as palavras do profeta Isaias: “Voz que clama no desertoque prepara o caminho de Cristo. Ele não é a luz. Ele é apenas uma lâmpada que tem tempo limitado de duração. Ele é apenas aquele quetestemunha da verdadeira Luz que é o próprio Jesus Cristo (cf. Jo 8,12). Ele não é a Palavra Encarnada, mas somente a voz que prepara o caminho com a purificação dos pecados através de seu batismo: Eu batizo com água; mas no meio de vós está aquele que vós não conheceis”.


O testemunho de João Batista pretende suscitar a em todo mundo para o grande desconhecido (cf. Jo 1,10. 26), o Portador da salvação, que vive entre os homens (Jo 1,14). Por isso, a de João Batista está orientada ao anúncio de Jesus e não é apenas para o consumo próprio. João Batista é aquele que chama atenção, não para si mesmo e sim para Aquele que é o verdadeiro Salvador. João Batista nos ensina que a deve ser transformada em anúncio, o fiel deve se tornar em anunciador da Boa Nova. O modo de viver de um cristão deve apontar para o Salvador. Todo cristão é um propagador da Palavra de Deus na aridez espiritual de nosso mundo, um propagador que chama os outros ao encontro de Jesus Cristo que é “o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6).


João Batista testemunha Jesus Cristo com fidelidade e valentia. Não quer falar de si mesmo, nem contar seus méritos nem suas façanhas. Ele não se apresenta, nem na intenção escondida, como pessoa importante (cf. Jo 3,30), pois o mais importante é Aquele que “tira o pecado mundo” (Jo 1,29). João Batista somente quer que os outros o considerem como “a voz que clama no deserto”, a voz que prepara os caminhos de Deus, a voz que chama todos a prepararem o lugar de Deus no mundo, especialmente no coração de cada um. A voz desaparece, mas a mensagem fica.


O cristão é chamado a ser anunciador da Boa Nova, a ser a voz que grita, com a própria vida, a verdade de Cristo apesar da pobreza que experimenta e da fragilidade de suas palavras humanas. O cristão é o homem que se define em função de Cristo, d’Aquele que vem sempre aos seus para comunicar salvação e vida (cf. Jo 10,10).


Como cristãos e como pessoas do bem devemos ser a voz de Deus sobre o amor neste mundo. Podemos desaparecer, mas a marca de amor que testemunhamos e transmitimos deve ficar para sempre entre as pessoas. Além disso, nós, como João Batista, deveríamos falar menos de nós mesmos, acreditar menos em nós mesmos e nos converter em “a vozquetestemunho de Deus, de seu amor presente em Jesus Cristo.
 

Santo Agostinho comenta: João era voz, mas o Senhor é a Palavra que no principio existia. João era uma voz provisional; Cristo, do principio, é a Palavra eterna. Ao tirar a palavra, o que será a voz? Se não houver conceito, tudo será nada mais do que ruído vazio. A voz sem palavra chega ao ouvido, mas não edifica o coração. João é a voz que grita no deserto, a voz que rompe o silêncio...”.


Somos chamados a ser voz do Senhor neste mundo. Ser voz é uma vocação muito humilde, mas é maior de todas. Ser voz é ser uma mensagem, é ser uma chamada aos demais para o bem, para a Luz que ilumina. A voz é feita para proclamar, para anunciar e para denunciar. A voz deixará de ser voz, se não gritar, se não proclamar, anunciar e denunciar. A voz se condenará, se deixar de anunciar a mensagem sobre o bem. Uma voz do bem é capaz de renovar o mundo. Se faltarem as vozes do bem para anunciar e denunciar, o mundo perderá sua consciência. Por esta razão, como vale e quanto vale sua voz! Como vale e quanto vale sua palavra! Como vale e quanto vale sua mensagem! Como vale e quanto vale seu grito que rompe o comodismo, que rompe o modo de viver sem vida. É preciso contemplar Jesus Cristo, Luz do mundo para que sejamos reflexos de sua luz para os outros, iluminado suas vidas embora o reflexo dure apenas em pouco tempo.

P. Vitus Gustama,svd